O Equador reage ao Capitalismo de Desastre

População enfrenta, nas ruas, o Estado de Emergência. O incrível caso do país que recorreu ao FMI sem precisar. O que ele revela sobre as duas direitas do século XXI, sua articulação em favor dos retrocessos e os caminhos para enfrentá-las

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Por Antonio Martins

O Equador está em chamas e agora qualquer prognóstico sobre o futuro imediato do país é incerto. Na quarta-feira (2/10), o governo anunciou abruptamente um conjunto de medidas impopulares, adotadas em sintonia com o FMI, e cujo item mais visível (mas não o mais importante) é o aumento de 123% nos preços dos combustíveis. A população, enfurecida, foi às ruas. Os transportes públicos pararam, por revolta tanto dos trabalhadores quanto dos empresários. A atividade nas escolas foi suspensa.

Ontem, sob intensa pressão, o presidente Lenin Moreno decretou Estado de Emergência. Mas a presença da polícia e do exército nas ruas não fez refluírem os manifestantes. À tarde, em Quito, eles rumaram para o Palácio Carondelet e enfrentaram as forças encarregadas de reprimi-los. O asfalto das ruas coalhou-se de pedras (veja no vídeo abaixo), usadas pela população (especialmente os muito jovens) para se defender da cavalaria e balas de borracha. Moreno deslocou-se a Guayaquil, no litoral, a pretexto de acalmar a maior cidade do país, onde houve saques. Mas, à noite, reconheceu que não fora capaz de chegar a um acordo com os transportadores. Classificou os que protestavam de “golpistas” e prometeu encarcerá-los. Mais ou menos à mesma hora, surgiram os primeiros sinais de que o movimento indígena, muito capilarizado, poderia somar-se à resistência. A dificuldade de prever os desdobramentos aumenta devido ao passado recente de instabilidade política no Equador. Entre 1997 e 2005, quatro presidentes foram depostos, após protestos populares desencadeados por medidas semelhantes às atuais. O país tranquilizou-se apenas em 2007, com Rafael Correa – que reverteu parte das políticas anteriores, foi reeleito com grande popularidade e governou por dez anos.

Por que seu sucessor arrisca-se tanto agora? Em inúmeros países, no passado recente, a adoção de medidas antipopulares tem sido apresentada como fatalidade – algo que os governantes veem-se constrangidos a fazer, na impossibilidade de manter a situação anterior. No Equador, sequer este argumento é possível. O acordo com o FMI, fechado em março e revisto em junho, não é o resgate doloroso em meio a uma crise. Expressa um acordo entre a elite equatoriana e a aristocracia financeira global para reverter, a seco, as conquistas sociais e a relativa independência econômica conquistadas no período de Correa. Demonstra que o discurso segundo o qual “não há alternativas” aos “ajustes” é apenas um artifício ideológico – pois pode ser dispensado, quando é preciso impor a disciplina sem disfarçá-la. E está sendo executado não por um troglodita, como Bolsonaro – mas por uma tecnocracia de punhos de renda. Nestes aspectos reside seu caráter espantoso e revelador.

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A decisão de submeter o Equador à ditadura dos mercados fica transparente quando se comparam dois momentos, Primeiro, junho de 2009. Num mundo em que a aristocracia financeira ainda se debatia com a grande crise financeira aberta no ano anterior, uma renegociação forçada da dívida de Quito foi vista como um sucesso. “Estratégia vitoriosa do Equador”, considerou um artigo da revista Economist, ao analisar o processo que Rafael Correa acabava de concluir, em tempo recorde.

Seis meses antes, após uma auditoria, ele considerara ilegítimos parte dos débitos externos do país. Mas por não ter forças para simplesmente repudiá-los, decidiu submetê-los a leilão. Os credores foram convidados a oferecer propostas para redução do que supostamente lhes era devido. Ao final do processo, 91% deles aceitaram descontar 65% de seus créditos – um claro sinal de que têm muita gordura a cortar. O Equador resgatou, por US$ 900 milhões, uma suposta dívida de US$ 2,9 bi. Pagou em dinheiro.

O corte da dívida e, em especial, do pagamento de juros, foi parte essencial da “Revolução Cidadã” de Correa. A redução do desembolso aos credores permitiu multiplicar o gasto social – que saltou de 560 milhões de dólares, em 2000, para US$ 4,3 bi, em 2011 – um crescimento de 410%. Todos os indicadores sociais e econômicos melhoraram. Entre 2007 e 2015, o PIB per capita avançou 35% – de US$ 4500 para US$ 6100. O desemprego encolheu de 10,6% para 4,1%. Em 1999, 80% dos equatorianos estavam abaixo da chamada “linha de pobreza”. Em 2012, este percentual caíra para 30%.

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O segundo momento é o que se segue à posse de Lenin Moreno, em maio de 2017. Vice de Rafael Correa em seus dois mandatos, mas personagem político discreto, ele elegeu-se impulsionado pela popularidade de seu antecessor. Mas, poucos meses depois de chegar ao Palácio Carondelet, executou uma guinada radical, cujas motivações exatas ainda resta investigar – mas cujo sentido é claro: obediência, em marcha batida, ao novo programa das elites globais.

Em janeiro de 2018, Moreno adere à perseguição a Julian Assange, exilado na embaixada equatoriana em Londres. O processo terminaria por entregar, às autoridades do Reino Unido e dos EUA, o dissidente político que revelou a vigilância global e os crimes de guerra praticados por Washington. No mesmo ano, tenta encarcerar Rafael Correa, seu antecessor e padrinho político – que se exila na Bélgica. Em março de 2019, retira o Equador da Unasul, embrião de possível unidade dos países sul americanos. Em outubro, anuncia que deixará a OPEP, união dos exportadores de petróleo. Todos os passos interessam aos Estados Unidos.

Mas de todas, a medida mais bizarra é provavelmente o acordo com o FMI. O empréstimo oferecido pelo Fundo é pífio – apenas 4,2 bilhões de dólares, Ainda mais estranho: o país não necessita de resgate algum, como demonstra o economista Andres Araus, do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas, de Washington: o balanço de pagamentos é superavitário, a economia não está em crise, não há fuga de capitais; a dívida externa foi fortemente reduzida, na renegociação forçada de 2009; exportador de petróleo, o Equador não corre, sequer, o risco de ser ameaçado, numa eventual alta dos preços do combustível, vista por muitos economistas como provável, em futuro breve.

O compromisso expressa, muito mais, um conluio entre a elite equatoriana e a aristocracia financeira internacional. Cada uma delas terá seu quinhão, no botim produzido pelos retrocessos que virão. O povo equatoriano pagará a conta – e o aumento dos preços dos combustíveis, embora chamativo, é talvez a medida menos relevante.

No plano interno, haverá uma contrarreforma trabalhista, não submetida ao Congresso. Ela inclui permissão de jornadas de até 12 horas, sem pagamento de extras; extensão do período de “experiência” (no qual há menos direitos) de 3 meses para… 3 anos!; fim dos acréscimos salariais para contratações por tempo limitado; eliminação dos “fundos de contingência” (uma espécie de abono) e da participação dos trabalhadores no lucro das empresas; redução nos salários dos servidores públicos: demissão dos funcionários contratados temporariamente; elevação (de 12% para 16%) do imposto sobre consumo, semelhante ao ICMS brasileiro, com reflexos diretos sobre os preços de todos os produtos e serviços.

Às megacorporações globais, será permitido apoderar-se dos setores cruciais da economia, a preços aviltados. Haverá privatização geral, inclusive do maior banco do país e da operadora nacional de telecomunicações; venda das hidrelétricas ao setor privado; volta da “autonomia” do Banco Central; proibição de financiamentos de bancos equatorianos ao setor público, obrigado a recorrer a financiamentos externos.

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Um texto de Sérgio Halimi e Pierre Rimbert, publicado ontem por Outras Palavras, agrega mais uma peça ao quebra-cabeças que vai aos poucos desvendando o áspero cenário internacional surgido nesta década. A ascensão do protofascismo – os Trump, Bolsonaro, Salvini, Le Pen, Duterte, Orbán e tantos outros – não deve ser vista como resultado da maquinação de personagens como Steven Bannon. Tais tipos são oportunistas espertos, mas totalmente secundários. O grande fenômeno a observar é o imenso espaço político que se abriu, a partir da crise global de 2008. A aristocracia financeira e a quase totalidade dos governos responderam de maneira cínica. As maiorias empobreceram dramaticamente. As classes médias começaram a se desfazer, aceleradamente. Os serviços públicos foram sucateados. Enquanto isso, os Estados transferiram rios de dinheiro aos bancos.

O ressentimento era inevitável. Mas como a esquerda não apresentou alternativas, em quase parte alguma, este sentimento foi capturado por políticos que tiveram farto espaço para uma manobra grotesca. Eles atribuíram a desigualdade abissal que surgiu não ao domínio do capital financeiro, mas a uma suposta ditadura intelectual. Dos que tiveram a oportunidade de estudar. Dos que desejam olhar para o outro – o imigrante, o refugiado, o indígena. Dos que veem gênero e sexo além da genética. Dos que enxergam as religiões como construções simbólicas, não como portadoras de verdades divinas.

Esta “nova” ultradireita irrompeu tão inesperadamente, e provoca danos tão dramáticos, que muitas vezes somos tentados a vê-la como a causa dos grandes dramas contemporâneos. Na verdade, mostram Halimi e Rimbert, ela é sintoma. Prova eloquente é que tanto a “nova” corrente quanto os neoliberais são partidários de um único dogma econômico: a supremacia dos mercados sobre as sociedades – defendida indistintamente por Trump e Emmanuel Macron; Bolsonaro e Paulo Guedes; Steven Bannon e George Soros.

O desastre equatoriano parece demonstrar que não basta reagir aos Bolsonaros – a devastação virá igualmente pelas mãos de Christine Lagarde, a charmosa diretora-gerente do FMI. Falta um projeto de esquerda renovado, capaz de aparecer, às sociedades, como alternativa nítida. Por enquanto, ele existe apenas como pedras, atiradas contra a cavalaria, as balas e o Estado de Emergência de Lenin Moreno. É preciso dar-lhe a forma das ideias perigosas.

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Este artigo foi originalmente publicado no site “Outras Palavras” [Aqui!].

O povo equatoriano enfrenta nas ruas as reformas neoliberais do presidente Lenin Moreno

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Revolta popular contra reformas neoliberais coloca em risco governo de Lenin Moreno no Equador

Ao contrário de países como Brasil e Argentina onde reformas ultraneoliberais estão sendo executadas sem grande revolta popular, o Equador está sendo sacudido por uma poderosa revolta popular contra as primeiras medidas adotadas pelo presidente Lenin Moreno para receber uma “ajuda” financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI) (ver vídeo abaixo).

A resposta de Moreno foi a decretação de um estado sítio (ou de exceção como ele está rotulando suas medidas de controle da revolta) e que lança sua presidência em um completo estado de incerteza.

É preciso lembrar que as primeiras medidas do pacote de medidas impopulares adotadas pelo governo do Equador incluíram um aumento de 123% nos preços dos combustíveis, bem ao modelo neoliberal do FMI que foi adotado com sofreguidão por Maurício Macri na Argentina e por Jair Bolsonaro no Brasil.

Desde a Bélgica onde está exilado, o ex-presidente Rafael Correa reuniu-se com correligionários para enviar seu incentivo à revolta popular em curso no Equador cantando uma adaptação da canção antifascista italiana “Bella Ciao”, a qual foi adaptada aos fatos que se desenrolam em seu país e rebatizada para “Lenin ciao” (ver vídeo abaixo).

A principal consequência dos fatos que estão transcorrendo no Equador é apontar para os trabalhadores de outros países sul americanos um caminho bem diferente do que está sendo visto em países em que duras reformas neoliberais estão sendo executadas praticamente sem qualquer oposição partidária ou popular.

Resta ver se a revolta dos equatorianos terá algum tipo de efeito de contágio ou se ficará isolada no interior do país andino. 

Enquanto no Brasil se faz caça à previdência social dos pobres, economista russo alerta para risco de nova crise econômica global

 

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Enquanto o Brasil experimenta uma grave crise de alienação em face dos elementos estruturais da economia global e prefere apostar em receitas ultraneoliberais que têm o potencial de ampliar a desnacionalização da economia e punir severamente os mais pobres, um economista russa reforça o alarme em torno da erupção de mais uma grave crise econômica global aos moldes da que ocorreu em 2008, mas que dessa vez poderá ter consequências ainda mais severas.

A iminência dessa crise global de proporções inéditas é o centro da matéria publicada pelo site de notícias russo Sputnik e que foi ao ar no dia de hoje, a qual posto em sua íntegra logo abaixo.

Essa análise se confirmada pegará o Brasil totalmente desprevenido e sem qualquer proteção na medida que as políticas iniciadas por Michel Temer e aprofundadas por Jair Bolsonaro  aumentaram consideravelmente o nível de dependência historicamente alto do nosso país aos especuladores que controlam o mercado financeiro mundial.

Enquanto isso somos distraídos por supostos embates entre membros do governo Bolsonaro e por pronunciamentos ao melhor estilo do Chacrinha (confundir em vez de explicar). Isto sem falar na proposta agora sigilosa de contrarreforma da previdência social.

Nova crise econômica mundial será grave e pode mudar ordem global existente, diz analista

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O mundo está à beira de uma iminente crise global provocada pelas ambições excessivas dos Estados: no início de 2019, a dívida mundial alcançou 244 trilhões de dólares e continua crescendo.

O principal problema atual é a perspectiva de uma recessão deflacionária prolongada e estagnação interminável da economia, como foi no caso do Japão nas últimas décadas, revelou Aleksandr Losev, diretor de uma empresa de gestão de ativos, ao diário Kommersant.

O aumento da carga da dívida e o custo cada vez maior de sua manutenção afetam o crescimento econômico, aumentam os riscos de crédito e a possibilidade de incumprimento de pagamentos, o que no futuro criará dificuldades para refinanciar as dívidas e abrandará o “boom” de crédito que atualmente está estimulando o crescimento global, explicou Losev.

Segundo Losev, um estudo do Banco Mundial mostrou que, quando a relação dívida/PIB supera 77% durante um longo período de tempo, o crescimento econômico se desacelera e cada ponto percentual da dívida acima deste nível custa ao país 1,7% de crescimento econômico nos países desenvolvidos. Quanto aos países em desenvolvimento, a situação é ainda pior: cada ponto percentual adicional de dívida acima do nível de 64% reduzirá anualmente o crescimento econômico em 2%.

De acordo com previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia mundial irá desacelerar neste ano em 70% dos países.

“Muitas economias não são suficientemente sustentáveis. A alta dívida pública e baixas taxas de juro limitam sua capacidade para superar uma nova recessão”, disse a diretora-executiva do FMI, Christine Lagarde.

Ao mesmo tempo, o analista sublinha que uma nova crise poderia trazer mudanças na ordem global existente

O financista prevê que “a atual ordem mundial começará a mudar rapidamente não no momento da crise, mas quando os Estados não puderem coordenar seus esforços a nível global para manter o sistema econômico e financeiro atual, os princípios e regras do comércio internacional, quando o egoísmo prevalecer, mas a competição não for suficiente”.

Isso levará a uma época de conflitos, à revisão de prioridades, ao protecionismo, mobilização e reindustrialização, ou seja, às prioridade de produção nacional, projetos de grande escala e desenvolvimento da ciência.

Losev aconselha a não esquecer que, em momentos de instabilidade, todas as grandes potências, em virtude de sua posição e interesses de suas elites, negócios e capital, tentam criar sua própria ordem e, até certo ponto, estão prontas para defender esta ordem de várias maneiras, de militares até políticas.


Este artigo foi originalmente publicado pela agência Sputnik [Aqui!]

Capitalismo está ‘sob séria ameaça’, alerta economista que previu crise global de 2008

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AFP. Raghuram Rajan destaca que os governos não podem mais ignorar a desigualdade social em suas políticas econômicas

O capitalismo está “sob uma séria ameaça” porque “parou de prover as massas”.

E, “quando isso acontece, as massas se rebelam contra o capitalismo”, adverte Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em 2005, Rajan também alertou que a complexidade dos produtos financeiros havia ampliado o risco de um “colapso catastrófico”.

Na época, a elite financeira não levou em consideração suas preocupações. Mas, três anos depois, a crise econômica global provou que ele estava certo.

E agora Rajan, que também é ex-diretor do Banco Central da Índia, faz outro alerta.

“Acho que o capitalismo está sob grave ameaça porque não conseguiu atender às necessidades de muitos, e quando isso acontece, há muitas revoltas contra o capitalismo”, disse ao programa Today da BBC Radio 4.

“Acredito que isso pode acontecer mais cedo do que se imagina.”

Os defeitos do capitalismo

Rajan, que foi apontado como um possível sucessor do canadense Mark Carney à frente do Banco da Inglaterra, acaba de publicar o livro The Third Pillar: How Markets and the State Leave the Community Behind (“O Terceiro Pilar: Como os Mercados e o Estado Deixam a Comunidade Para Trás”, em tradução livre), em que adverte sobre as deficiências do capitalismo.

O economista enfatiza que os governos não podem mais ignorar a desigualdade social em suas políticas econômicas.

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GETTY. Em 2005, Rajam havia alertado sobre o ‘colapso catastrófico’ que acabou ocorrendo em 2008

No passado, era possível conseguir um emprego de classe média com uma “educação mediana”, exemplifica Rajan, que agora é professor da Universidade de Chicago, nos EUA.

Mas o panorama mudou na esteira da crise financeira global de 2008 e da adoção de medidas de austeridade.

“Agora, se você realmente quer ser bem sucedido, precisa de uma boa educação”, diz ele.

“E, infelizmente, as mesmas comunidades que são afetadas pela globalização do comércio e da informação tendem a ser as comunidades com escolas em más condições, onde há aumento da criminalidade, aumento das mazelas sociais e não é possível preparar seus membros para a economia global”, disse ele à BBC.

É por isso que Rajan acredita que o capitalismo está desmoronando: porque não oferece igualdade de oportunidades.

“Não está proporcionando oportunidades iguais e, de fato, as pessoas estão ficando em uma situação muito pior.”

O que não significa, no entanto, que o capitalismo não possa ser salvo, esclarece Rajan.

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SOPA IMAGES. Manifestantes protestam em Londres pelo fim das medidas de austeridade que acreditam afetar suas oportunidades econômicas

Na opinião dele, regimes autoritários surgem “quando todos os meios de produção são socializados”.

“O que você precisa é de um equilíbrio, você tem de melhorar as oportunidades.”

A democracia, enxerga ele, desempenha um papel importante nesse processo de renovação do capitalismo.

“É por isso que a democracia de livre mercado era um sistema equilibrado, mas precisamos recuperar esse equilíbrio novamente”, insiste.

Outras ameaças

De qualquer maneira, não é apenas o futuro do capitalismo no longo prazo que preocupa Rajan.

Um relatório da agência de avaliação de risco S&P Global Ratings indica que é possível haver outra crise de crédito global, devido ao aumento de 50% na dívida mundial desde a crise passada.

O informe explica que, desde 2008, a dívida dos governos cresceu em 77%, enquanto a dívida corporativa subiu em 51%.

Analistas argumentam, no entanto, que é improvável que a próxima recessão seja tão séria quanto a causada pelo terremoto financeiro de 2008.

Mas Rajan aconselha estar sempre alerta em relação à próxima crise, porque “essa é a única maneira de evitar que isso aconteça”.

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GETTY IMAGE.‘Há muito dinheiro fácil’, diz Rajan

Ele diz ainda que uma de suas preocupações é “a enorme quantidade de acomodação ou relaxamento monetário que ocorreu desde a crise global, e a quantidade de liquidez que se espalhou pelos mercados”.

Em outras palavras, taxas de juros muito baixas e muita impressão de dinheiro.

“É dinheiro fácil. E o que acontece quando você recebe dinheiro fácil é que fica mal acostumado”, diz ele.

“Há mais alavancagem [técnica usada para multiplicar a rentabilidade por meio do endividamento]. Endividamento que depende do dinheiro fácil para o refinanciamento. E, no final, isso acaba quando o dinheiro fácil acaba”, acrescenta.

O que permanece nesses casos, no entanto, é o endividamento, que ele considera a fonte das dificuldades do setor financeiro.

Por essa razão, o economista acredita que a próxima crise poderia ser causada pelas mesmas medidas que foram impostas para nos salvar da última.

“Chega um ponto em que temos de dizer: ‘Precisamos normalizar as coisas’. Porque se não normalizarmos, o sistema é redefinido para um estado em que se torna vulnerável a mudanças nas condições financeiras”, explicou.


Esta reportagem foi publicada originalmente pede rede britânica BBC [Aqui!]

Mercados financeiros mundiais em condição de tumulto pleno são prenúncio de recessão mundial

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Alguns dos principais veículos da mídia internacional estão noticiando a situação de tumulto que envolveu o mercado mundial de ações nos últimos dias, tornando 2018 um péssimo ano para este tipo de investimento financeiro  [1].  Há que se frisar que este dezembro teve o pior desempenho para o último mês do ano desde a grande depressão de 1929!

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A condição de “bear market”(uma situação em que o pessimismo dos investidos causa quedas acima de 20% nos valores das ações) se aprofundou no dia de hoje, apesar dos fortes ganhos que ocorreram ontem (26/12). Segundo a Bloomberg, este “bear market” é o mais longo dos últimos 10 anos[2].

Em outro artigo, a Bloomberg informou que o Banco Central Europeu (BCE) espera que a economia global cresça menos em 2019 em função do aumento do protecionismo que deverá restringir o crescimento do comércio [3].

Por sua vez, a Financial Times informou hoje que investidores estão sendo informados para que se preparem para mais turbulências e que devem entender que as turbulências que marcaram 2018 não foram uma aberração (em outras palavras, mais turbulências deverão ocorrer nos mercados mundiais de ações).

Todo esse tumulto e expectativas negativas indicam que a situação de recessão que o Fundo Monetário Internacional já previu está mais próxima do que distante de se informar. Se isso ocorrer, não seria surpresa se grandes companhias que hoje perderamfortunas nas bolsas (a começar pela gigante General Electric) entrem em territórios ainda mais instáveis em 2019 [4].


[1] https://edition.cnn.com/2018/12/27/investing/dow-stock-market-today/index.html

[2] https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-12-27/euro-stoxx-50-enters-bear-market-as-year-end-rally-hope-vanishes?srnd=premium-europe

[3] https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-12-27/ecb-says-trade-protectionism-will-crimp-global-growth-next-year?srnd=premium-europe

[4] https://www.cbc.ca/news/thenational/national-today-newsletter-imf-warns-kevin-hart-grow-light-1.4939070

Percurso errático de Donald Trump derruba bolsas e prenuncia nova recessão mundial

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Enquanto no Brasil se ouve os futuros governantes se agarrarem a um discurso voltado para firmar uma aliança estratégica com o governo de Donald Trump, o bilionário transformado em presidente da principal potência econômica-militar do planeta segue causando algo que a mídia estadunidense tem caracterizado de “caos”.

A última investida de Donald Trump foi contra a autonomia do Federal Reserve (o banco central estadunidense) em fixar taxas de juros, um fato que causou uma queda histórica nos índices das principais bolsas dos EUA (com uma perda de 650 pontos no índice Dow Jones), a qual teve uma forte repercussão no mercado de ações em escala global [1].

É interessante notar que essa investida de Trump contra o Federal Reserve contrasta diretamente com a intenção da equipe econômica Jair Bolsonaro de conceder uma autonomia ainda maior para o Banco Central do Brasil. Ao que parece, o que não é bom para Trump é visto com essencial para Paulo Guedes e sua equipe de Chicago Boys.

Se essa tendência de queda das bolsas de ações persistir nas próximas semanas, uma das possibilidades já   pelo próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) é de que haja uma forte recessão na economia mundial, num processo que ameaça superar a crise de 2008, colocando em xeque o sistema financeiro mundial [2].

Se essas “nuvens negras” se confirmarem, o mais provável é que países como  Brasil e Argentina que já se encontram sob forte recessão sofram os piores efeitos desta nova crise capitalista. Aí veremos como se comportarão os dirigentes do novo governo que estão pretendo vender o Brasil a preços mínimos quando a crise engolir os eventuais interessados.

 


[1] https://edition.cnn.com/2018/12/24/investing/stock-market-today-dow/index.html

[2] https://www.theguardian.com/business/2018/dec/11/imf-financial-crisis-david-lipton

 

A lógica da guinada ultraneoliberal de Temer: privatização e precarização e o aumento da heteronomia

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Não sou ingênuo a ponto de acreditar de que todos aqueles cidadãos brasileiros de pele geralmente alva e cabelos claros que foram às ruas pedir a saída de Dilma Rousseff já se tocaram de que ajudaram o Brasil a recuar várias décadas em pouco menos de um mês no tocante do estabelecimento de mecanismos básicos de proteção social. E que a questão da corrupção não tinha realmente nada a ver com os movimentos financiados pelos partidos de oposição.

Aliás, se fosse para combater a corrupção, o presidente interino Michel Temer não teria nomeado pelo menos 10 ministros arrolados nas investigações da Lava Jato, e dois ministros já tivessem que ter sido sacados, justamente por articularem secretamente formas de impedir o avanço do trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

A coisa está se tornando tão escancarada que além de Temer ter aprovado um rombo bilionário de R$ 170 bilhões, implicando em aumentos salariais generosos para o judiciário e outros setores da burocracia estatal, ele terá que chancelar uma lei que aumenta o número de cargos federais em mais de 14.000 vagas.  

Outra via de expressão das reais intenções do governo interino de Temer é a sanha privatizadora que promete avançar sobre áreas estratégicas como a exploração do pré-sal de uma forma que deixará, caso se concretize, a privatização feita por FHC como um tímido ensaio da entrega das riquezas nacionais.  O negócio de Temer está claro: Brasil, heteronomia pouca é bobagem.

Tudo isso acontece nu momento em que até o Fundo Monetário Internacional (FMI) que as receitas do neoliberalismo têm trazido mais prejuízos do que soluções. Mas Temer parece, me desculpem-me o trocadilho, temer o julgamento da História. O negocio dele parece ser tornar o Brasil irremediavelmente dependente dos humores do mercado global, ainda que com isso tenha que recolocar milhões de brasileiros na pobreza extrema. E, pasmemos todos, sem que tenha tido que passar pelo crivo das urnas.