Epidemia de fome que afeta milhões de brasileiros é capa no “The New York Times”

Dezenas de milhões de brasileiros enfrentam fome ou insegurança alimentar à medida que a crise da COVID-19  se arrasta no país, matando milhares de pessoas todos os dias

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Fazendo fila para almoçar fora de uma instituição de caridade católica em São Paulo. O número de pessoas que passam fome quase dobrou no Brasil recentemente

Ernesto Londoño e 

RIO DE JANEIRO – Adolescentes magricelas seguram cartazes em navios de cruzeiro com cartazes que dizem fome – fome – em letras grandes. As crianças, muitas delas sem ir à escola há mais de um ano, imploram por comida em supermercados e restaurantes. Famílias inteiras se espremem em acampamentos frágeis nas calçadas e pedem leite em pó para bebês, biscoitos ou qualquer outra coisa.

Um ano após a pandemia , milhões de brasileiros passam fome.

As cenas, que proliferaram nos últimos meses nas ruas do Brasil, são a prova cabal de que a tentativa do presidente Jair Bolsonaro – de proteger a economia do país evitando políticas públicas de saúde para controlar o vírus- falhou.

Desde o início do surto, o presidente brasileiro se mostra cético quanto ao impacto da doença e desdenha a orientação de especialistas em saúde, argumentando que os prejuízos econômicos dos fechamentos, a suspensão das atividades empresariais e as restrições de mobilidade que recomendaram ser uma ameaça maior do que a pandemia para a fraca economia do país.

Esse sacrifício causou uma das maiores taxas mortes no mundo, mas também falhou em seu objetivo: manter o país à tona

O vírus afeta o tecido social ao estabelecer recordes dolorosos, enquanto a crise da saúde se agrava e leva as empresas à falência, matando empregos e atrapalhando ainda mais o avanço de uma economia que há mais de seis anos praticamente não cresceu.

Daniela dos Santos prepara uma refeição no centro de São Paulo.  A pandemia exacerbou a crise econômica do Brasil e aumentou o número de desempregados e desabrigados.

Daniela dos Santos prepara uma refeição no centro de São Paulo. A pandemia exacerbou a crise econômica do Brasil e aumentou o número de desempregados e desabrigados

Os voluntários distribuem sopas e sanduíches.

Os voluntários distribuem sopas e sanduíches

No ano passado, as transferências emergenciais de dinheiro do governo ajudaram a colocar alimentos na mesa para milhões de brasileiros. Mas quando esse dinheiro foi reduzido este ano em face de uma crise de dúvida que se aproximava, muitos armários foram deixados vazios.

No ano passado, cerca de 19 milhões de pessoas passaram fome, quase o dobro dos 10 milhões que passaram por situação semelhante em 2018, o ano mais recente para o qual há dados, segundo o governo brasileiro e um estudo de privação durante a pandemia realizado por uma rede de pesquisadores brasileiros engajados no assunto.

E o estudo mostrou que cerca de 117 milhões de pessoas, ou cerca de 55 por cento da população do país, enfrentam insegurança alimentar com acesso incerto à nutrição em 2020, um salto enorme em relação aos 85 milhões que estavam nessa situação há dois anos.

“A forma como o governo lidou com o vírus agravou a pobreza e a desigualdade”, disse Douglas Belchior, fundador da UNEafro Brasil, uma das várias organizações que se uniram para arrecadar fundos para levar despensas a comunidades vulneráveis. “A fome é um problema sério e incurável no Brasil”.

Luana de Souza, 32, era uma das mães na fila do lado de fora de um banco de alimentos improvisado em uma tarde recente na esperança de conseguir um saco de feijão, arroz e óleo. Seu marido havia trabalhado em uma empresa de organização de eventos, mas ficou sem emprego no ano passado devido a oito milhões de pessoas que se juntaram ao desemprego no Brasil durante a pandemia e aumentaram a taxa de 14% ao vivo, de acordo com o Instituto de Geografia e Estatística. do Brasil.

No início, a família administrou cuidadosamente a ajuda do governo, disse De Souza, mas neste ano, quando cortaram os pagamentos, eles tiveram dificuldades.

“Não há trabalho”, disse ele. “E as contas continuam chegando.”

Ismael dos Santos pede moedas em semáforo

Ismael dos Santos pede moedas em semáforo

Membros de uma igreja evangélica distribuem cafés da manhã

Membros de uma igreja evangélica distribuem cafés da manhã

Em 2014, a economia brasileira entrou em recessão e não havia se recuperado quando a pandemia estourou. Bolsonaro costumava evocar a realidade de famílias como a de De Souza, que não podem ficar em casa sem trabalhar para argumentar que os bloqueios impostos pelos governos da Europa e de outros países ricos para impedir a disseminação do vírus eram insustentáveis ​​no Brasil.

No ano passado, governadores e prefeitos de todo o país decretaram a suspensão das atividades de negócios não essenciais e ordenaram restrições à mobilidade, medidas que Bolsonaro chamou de “extremas” e alertou que causariam desnutrição.

O presidente também descartou a ameaça do vírus, lançou dúvidas sobre as vacinas , que seu governo começou a obter tardiamente, e muitas vezes encorajou multidões de seus apoiadores em eventos políticos.

Uma segunda onda de casos este ano levou ao colapso do sistema de saúde em várias cidades, e as autoridades locais impuseram uma série de medidas duras e se viram em guerra com o Bolsonaro.

“As pessoas precisam de liberdade, de direito ao trabalho”, comentou no mês passado, dizendo que as novas medidas de quarentena impostas pelos governos locais equivaliam a viver em uma “ditadura”.

Este mês, quando o número de mortes diárias causadas pelo vírus ultrapassou 4.000, Bolsonaro reconheceu a gravidade da crise humanitária que seu país enfrenta. Mas ele não assumiu a responsabilidade e, em vez disso, culpou as autoridades locais.

“O Brasil está no limite”, disse ele, argumentando que a culpa foi de “quem fechou tudo”.

Mas economistas disseram ser “um falso dilema” dizer que as restrições ao controle do vírus agravariam a crise econômica do Brasil.

Em carta aberta às autoridades brasileiras no final de março, mais de 1.500 economistas e empresários pediram ao governo que imponha medidas mais rígidas, incluindo um bloqueio.

“Não é razoável esperar que a atividade econômica se recupere de uma epidemia descontrolada”, escreveram os especialistas.

A economista Laura Carvalho publicou um estudo que mostrou que as restrições podem ter um impacto negativo na saúde econômica de um país no curto prazo, mas que, no longo prazo, teria sido uma estratégia melhor.

“Se o Bolsonaro tivesse implementado medidas de confinamento, teríamos saído antes da crise econômica”, disse Carvalho, professor da Universidade de São Paulo.

A abordagem do Bolsonaro teve um amplo efeito desestabilizador, disse Thomas Conti, professor do Insper, uma escola de negócios.

“O real brasileiro foi a moeda mais desvalorizada entre todos os países em desenvolvimento”, disse Conti. “Estamos em um nível alarmante de desemprego, não há previsibilidade para o futuro do país, as regras orçamentárias são violadas e a inflação cresce sem parar”.

A comida é distribuída e batizados são realizados

A comida é distribuída e batizados são realizados

A deterioração da crise COVID-19 do país deixou Bolsonaro politicamente vulnerável. Este mês, o Senado lançou uma investigação sobre a forma como o governo está lidando com a pandemia. Espera-se que o inquérito documente erros, incluindo apoio governamental para medicamentos ineficazes para tratar COVID-19 e falta de suprimentos médicos básicos, como oxigênio. Algumas dessas falhas provavelmente serão responsabilizadas por causar mortes evitáveis.

Creomar de Souza, analista político e fundador da consultoria Dharma Politics em Brasília, disse que o presidente subestimou a ameaça que a pandemia representava para o país e não elaborou um plano abrangente para enfrentá-la.

“Eles acreditaram que não seria algo sério e presumiram que o sistema de saúde poderia cuidar disso”, disse ele.

De Souza disse que Bolsonaro sempre fez campanha e governou de forma combativa, apresentando-se aos eleitores como uma alternativa aos rivais perigosos. Sua resposta à pandemia foi consistente com aquele manual de operação, disse ele.

“A grande perda, além do aumento do número de vítimas nesta tragédia, é uma erosão da governança”, disse ele. “Estamos diante de um cenário altamente volátil, com muitos riscos políticos porque o governo não cumpriu as políticas públicas”.

Grupos de defesa e organizações de direitos começaram este ano uma campanha Tem Gente Com Fome , ou Pessoas com Fome, com a intenção de arrecadar fundos de empresas e indivíduos para entregar despensas às pessoas necessitadas em todo o país.

Belchior, um dos fundadores, disse que a campanha leva o nome de um poema do escritor e artista plástico Solano Trindade. Descreve cenas de miséria vividas no Rio de Janeiro, percorre bairros pobres dos quais o Estado esteve ausente por décadas.

“Mais e mais famílias estão pedindo comida para ser entregue mais cedo”, disse Belchior. “E dependem mais das ações da comunidade do que do governo”.

Uma fila de pessoas esperando a entrega da comida

Uma fila de pessoas esperando a entrega da comidaJoaquim Ribeiro procura material reciclável para vender.

Joaquim Ribeiro procura material reciclável para vender

Carine Lopes, 32, presidente de uma escola comunitária de balé em Manguinhos, um bairro da classe trabalhadora do Rio de Janeiro, respondeu à crise transformando sua organização em um centro de ajuda improvisado.

Desde o início da pandemia, o preço dos produtos básicos aumentou dramaticamente nas lojas próximas, disse ele. O custo do óleo de cozinha mais do que triplicou. Um quilo de arroz dobrou. À medida que a carne se tornou cada vez mais proibitiva, os churrascos aos domingos se tornaram uma raridade na vizinhança.

Por muito tempo, Lopes estava acostumado a receber ligações de pais que queriam desesperadamente uma vaga para seus filhos na escola de balé, mas agora ele se acostumou com algo muito diferente. Todos os dias, velhos conhecidos e desconhecidos lhe enviam mensagens de texto perguntando sobre as cestas básicas que a escola de balé distribui semanalmente.

“Essas mães e pais estão apenas pensando no básico agora”, disse ela. “Eles ligam e dizem: ‘Estou desempregado, não tenho mais nada para comer esta semana. Há algo que você possa nos dar? ‘

Quando o vírus finalmente desaparecer, as famílias mais pobres terão mais dificuldade para se recuperar, disse ele.

Lopes se desespera pensando em alunos que não conseguiram se conectar a aulas online de suas casas porque não têm conexão com a internet, ou onde o único aparelho com tela pertence a um pai / mãe que trabalha.

“Ninguém vai poder concorrer a uma bolsa com um aluno de classe média que conseguiu acompanhar as aulas com sua boa internet e seus tablets”, disse. “A desigualdade está se agravando.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The New York Times” [Aqui!  ] .

Agronegócio esquizofrênico: supersafras bilionárias e um povo faminto

O Ministério da Agricultura comemora a supersafra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos. E a fome cada vez mais ronda famílias brasileiras

fome-no-brasilA China compra 80% da soja produzida no Brasil. A maior parte vai para a produção de ração para bovinos, suinos e aves

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O Ministério da Agricultura está exultante com a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos anunciada esta semana. Isso porque o resultado recorde representa 15,4 milhões de toneladas a mais que na safra 2019/2020. Um feito e tanto em tempos de pandemia de covid-19, que esfriou a economia ao afetar negócios e empregos e levar o país a um tombo de 4,1% em seu PIB, que já estava encolhido. E mais grave ainda: empurrou milhões de brasileiros para situação de pobreza extrema e de fome.

O milho teve uma produção recorde, de 108 milhões de toneladas, e com isso deve superar em 5,4% a safra anterior, diz o Ministério. No caso da soja, segue a tendência de crescimento na área cultivada, e ainda pode crescer 4,1%, com 135,1 milhões de toneladas. Já o arroz e o feijão de cada dia, que são base da dieta dos brasileiros, não alcançam tais patamares. Foram apenas 3,3 milhões de toneladas de feijão e 11 milhões de toneladas de arroz.

“Salvação da lavoura”

Há anos a agropecuária é considerada a “salvação da lavoura” quando o assunto é produção, exportações e balança comercial. Beneficiado por subsídios, como descontos e isenção de ICMS e de imposto de importação, fora o perdão de PIS e Cofins, o setor se acha. Tanto puxa brasa para a sua sardinha que se autointitulou “pop, tech e tudo”. E com tudo isso, a fome aumenta no país das supersafras e volta a assombrar milhões de brasileiros. Como isso é possível?

Dois anos antes da pandemia, entre junho de 2017 e julho de 2018, mais de 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer conforme a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE. Desse total, perto de 8 milhões moravam na zona urbana e pouco mais de 2 milhões na zona rural, onde a rigor se produzem alimentos. 

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Entre 2017 e 2018, 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer. Inação do governo na pandemia agravou a situação da fome no país. (Arquivo/Agência Brasil)

De acordo com a pesquisa, a insegurança alimentar grave – quando a pessoa relata passar fome – atingiu em cheio 4,6% das famílias brasileiras, o equivalente a 3,1 milhões de lares. E ainda segundo o IBGE, o quadro vem piorando. Aumentou 43,7% em cinco anos.  

Mais desigualdade

A tendência é que tenha se agravado com a pandemia, pois esta ao chegar já encontrou um Brasil marcado pelo aprofundamento da desigualdade social a partir do golpe de 2016. “Parte significativa dos trabalhadores está sem a proteção social do trabalho formal devido à crise estrutural do capitalismo”, destaca a socióloga Sirlândia Schappo. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sirlândia observa que essa crise de dimensões globais assola o país mais intensamente a partir de 2014. Em seu artigo “Fome e insegurança alimentar em tempos de pandemia da COVID-19“, ela assinala: “O reflexo imediato foi a ampliação do trabalho informal, que passou de 39,1% da população ocupada em 2014 para para 41,5% em 2018, segundo o IBGE”.

Ainda segundo Sirlânia, a pandemia pode ter ampliado em 56% a pobreza em países como o Brasil, como prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trabalhadores domésticos perderam o emprego. E, sem o apoio de políticas sociais, se viram diante da subnutrição e da falta de serviços básicos, como saneamento básico e saúde.

Plano safra

Logo que assumiu, o governo Bolsonaro apresentou um Plano Safra para 2019/2020 que já sinalizava as dificuldades que viriam pela frente. Dos R$ 225,59 bilhões destinados à agropecuária, o crédito rural ficou com R$ 222,74 bilhões. O problema é que desse montante, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) recebeu apenas R$ 31,22 bilhões. Como custear a produção e a comercialização?

“A partir de 2016, com o golpe e a Emenda 95, do teto de gastos, as políticas sociais e programas de transferência de renda foram sendo esvaziadas. Equipamentos de segurança alimentar, como banco de alimentos, foram fechados. Assim que tomou posse, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) não foi extinto, mas tem orçamento ridículo, de R$ 500 milhões. Esse montante, aliás, resulta de muita pressão das organizações da agricultura familiar durante a pandemia. Mas mesmo assim, esse orçamento ainda insuficiente não foi totalmente executado”, disse à RBA a assessora de Direitos Humanos da Fian BrasilNayara Côrtes.

combate à fomePequenos agricultores têm sido atacados. Alternativa econômica de geração de trabalho e renda e combate à fome não está na agenda do governo de Bolsonaro (Itesp)

Mais golpes

Para piorar, Jair Bolsonaro escolheu a agricultura familiar como inimiga. Além de ter excluido esses trabalhadores do auxilio emergencial de R$ 600, vetou quase que integralmente o Projeto de Lei (PL) 735/20. Apresentado em abril e só aprovado em agosto, foi quase que integralmente vetado, pois, de 20 itens, 17 foram derrubados.

Entre os pontos vetados estão o auxílio emergencial no valor de R$ 600 pagos em cinco parcelas, como aos trabalhadores urbanos, recursos para compras públicas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), renegociação e adiamento de dívidas e linhas de crédito emergenciais. Tudo o que era considerado essencial pelos agricultores. Até hoje é aguardada apreciação dos vetos, que depende de muita pressão para ser pautada.

Para Bolsonaro, não há previsão financeira para essas ações. No entanto, o governo concedeu benefícios ao agronegócio, facilitando o acesso a crédito e a financiamento de dívidas de grandes produtores e desoneração do segmento em contribuições à Seguridade Social.

Segundo levantamento da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e pelo Fórum Brasileiro pela Soberania e Segurança Alimentar (FBSSAN), em 2019 o rendimento total da agricultura familiar foi de aproximadamente R$ 27 milhões. O número de produtores de alimentos era 4,5 mil. Até setembro de 2020, os mesmos produtores venderam o equivalente a R$ 3,6 milhões.

Sem recursos para plantar

“Muitos não têm recursos para plantar e muitas vezes falta o que comer”, disse Nayara Côrtes. “Levamos anos para construir uma política de segurança alimentar para ser totalmente desconstruída em pouco tempo. E pensar que em 2014, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome para voltar 6 anos depois.”

O retrocesso é tão grande que há no Congresso a proposta de votação em regime de urgência de um projeto de interesse das indústrias. Trata-se do PL 3.292/2020, de autoria do deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO), que propõe mudar o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Entre as mudanças, abolir a compra de alimentos, da prioridade dada a comunidades tradicionais indígenas e de remanescentes de quilombos.

E a supersafra?

Conforme os autores do Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos –, não é de hoje que o discurso do combate à fome é utilizado para alavancar o desenvolvimento tecnológico com fins prioritariamente comerciais. Assim, a aplicação de mais tecnologia na produção agrícola é difundida como a única solução capaz de eliminar a escassez de alimentos e a carência de nutrientes.

Na realidade, porém, as supersafras servem apenas para dar lucro, e não para matar a fome da população. Nessa perspectiva, toneladas e toneladas de soja, milho, cana e outras commodities têm como destino o mercado mais lucrativo no momento, seja a produção de alimentos, agrocombustíveis ou ração para bovinos, suínos e aves. Esta aliás, tem sido a principal aplicação da soja comprada pela China, que corresponde a 80% da produção brasileira. É preciso alimentar a fome dos novos padrões alimentares adotados pelos chineses; ninguém come tanta soja assim.

Ironicamente, esse sistema alimenta a fome e a subnutrição. E por outro lado, o crescimento da obesidade, transtornos alimentares diversos e doenças crônicas. “Da mesma forma, as desigualdades e as injustiças socioambientais também fazem parte das contradições desse modelo em que a comida aparece como mercadoria, e a fome como um negócio com segmentos diversificados, que vão da ausência ao excesso”, dizem os autores do Atlas.

Engordar lucros

O cultivo de soja ou outros grãos nos latifúndios que avançam sobre assentamentos e terras indígenas e de povos tradicionais, ou nas lavouras que invadem a Amazônia, assim como o gado, não vão matar a fome daqueles que ainda possa comprar comida no Brasil. E sim engordar o lucro de empresas de exportação e importação desses produtos. É o caso da Archer Daniels Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company. E também das empresas de sementes transgênicas e agrotóxicos, como a Bayer, dona da Monsanto, a Basf, Dow e outras.

A saída, segundo especialistas, está em novas práticas que contribuam não apenas para a produção de alimentos e a soberania alimentar. Mas também com a produção sustentável de alimentos de verdade, livres de venenos, com a reconexão com a natureza, com respeito a quem produz e com a democratização do acesso ao direito à terra.

Terminal da Cargill Amsterdam, Holanda. Contraste com um mundo de fome (Alf van Beem/Wikimedia Commons)

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Este texto foi publicado originalmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Fome, a outra pandemia mortal assolando o Brasil

Nos últimos dias temos sido distraídos não apenas pelos altíssimos números de novas infecções e mortes pela COVID-19, mas também pela volta triunfal do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva ao centro do picadeiro politico em que o presidente Jair Bolsonaro transformou o Brasil. De quebra, ainda tivemos a aprovação da famigerada PEC-186 que congela os salários dos servidores públicos até ainda longínquo ano de 2036.

Todas essas questões vem servindo para ocultar o recrudescimento de uma pandemia que há muito tempo afeta os brasileiros mais pobres, a da fome. Os sinais de que mais gente está passando fome estão por todas as esquinas brasileiras, mas a maioria da mídia corporativa trata de ocultar esse fenômeno, pois certamente sabe do potencial explosivo que o avanço da fome, em meio a reformas ultraneoliberais possui não apenas entre aqueles que já estão com a barriga roncando, mas também naqueles que a barriga irá roncar. 

Mas a imagem abaixo vinda da edição de ontem no jornal “A Tribuna” que é publicado na cidade de Santos (SP), mas que circula na maioria dos municípios da Baixada Santista mostra com clareza o processo que está germinando pelo Brasil afora que é de um grave convulsão social causada por uma mistura das duas pandemias: a da COVID-19 e da fome.

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Contraditoriamente, a imagem mostra uma fila quilométrica em uma unidade do chamado “Bom Prato”, a versão paulista do “Restaurante Popular”. Em tese, quem está ali terá a sua fome, ainda que parcialmente, saciada. O problema é que essa imagem mostra o grau da crise, em um momento em que a tesoura ultraneoliberal da dupla Bolsonaro/Guedes extermina várias políticas sociais que poderiam servir como apoio à da alimentação. Com isso, é muito provável que não apenas faltem recursos para novas políticas sociais, como também para a que impulsiona o “Bom Prato” e seus congêneres pelo Brasil afora.

Eu digo e repito: o que está sendo fermentado no Brasil, e a imagem acima não me deixa mentir, é uma gigantesca crise social que cedo ou tarde explodirá em dimensões avassaladoras. É que, ao contrário, do que se propala, não há povo que fique na mansidão quando a fome aguda se estabelece em proporções significativas como as que estamos gerando no Brasil neste momento. Depois que os governantes não digam que foram pegos de surpresa, pois as evidências estão aí para quem quiser ver.

Famintos “in the USA”: pobreza e fome na maior potência capitalista

A pandemia da COVID-19 mergulhou milhões de estadunidenses na pobreza

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Por De Moritz Wichmann para o Neues Deutschland

A Igreja Batista do Calvário em East Orange está muito ocupada. Já às 9h, a fila de carros em frente à igreja do condado de Essex tem várias centenas de metros. Dois quarteirões em frente ao prédio, carros com telas de LED e cilindros de borracha laranja estão sendo canalizados para o estacionamento da igreja. O que atrai as pessoas aqui não é a perspectiva de conforto ou paz de espírito. É sobre comida. “Vêm aqui pessoas que nunca precisaram de ajuda”, diz Joseph DiVincenzo enquanto acena um carro após o outro para o estacionamento.

DiVicenzo é o chefe administrativo do condado de Essex e ele próprio já sofreu uma infecção por coronavírus. Com quatro dezenas de funcionários na administração distrital, ele gerencia os necessitados em um sofisticado sistema de distribuição de cestas básicas. Os aspirantes têm que esperar em seus carros na faixa certa, no estacionamento da igreja sobem em duas filas, placas anunciam duas instruções simples: “Abra o porta-malas, deixe a janela aberta”. Os funcionários do distrito com máscaras coloridas carregam uma das caixas de papelão de 16 quilos com mantimentos para o porta-malas e fecham novamente, o carro continua e sai do estacionamento do outro lado. A distribuição já dura 25 semanas e não há previsão de término por enquanto. “Continuaremos enquanto houver necessidade”, diz DiVincenzo,

Cada uma das caixas de alimentos contém 40 refeições, 1000 caixas serão entregues naquele dia, depois de uma hora e meia todas elas se foram. Isso é pago com fundos da ajuda de emergência do coronavírus decidida pelo Congresso dos EUA em março, a Lei Cares. Mas essa fonte de dinheiro está secando lentamente. Por meses, os republicanos no Senado dos EUA têm bloqueado a adoção de mais ajuda na crise causada pelo coronavírus e só querem fornecer uma ajuda mínima.

Washington está muito longe da Igreja Batista do Calvário, trata-se de problemas concretos. A distribuição de mantimentos em sistemas de drive-thru – algumas pessoas também vêm a pé – atende a todos os requisitos de distanciamento social.  Um fato importante: nenhuma pergunta é feita. Aceitar ajuda de outras pessoas, inclusive do Estado, é vergonhoso para muitos, especialmente nos EUA.

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Hyacinth passou a pé.  A professora na verdade já  aposentada. No entanto, como sua pensão era insuficiente, ela trabalhou como professora assistente até recentemente. No entanto, ela não tinha permissão para dar ensino à distância como assistente na pandemia do coronavírus, e assim ela perdeu o emprego. Agora ela está recebendo um pouco de assistência social e alguns benefícios de desemprego. Mas isso também é “pouco”, diz a mulher negra e, além disso, não tenho certeza de mais nada afirma ela. Porque em poucas semanas seu direito ao seguro-desemprego expirará. Em muitos estados dos EUA, esse suporte está disponível apenas por 26 semanas. A Lei Cares permitiu que os estados estendessem isso por 13 semanas. O que acontece depois disso? “Eu realmente não sei”, ela diz enquanto espera por uma carona com seu pacote de mantimentos. Hyacinth não está sozinha. Mais de 350.000 desempregados pelo coronavírus nos EUA já haviam esgotado sua extensão de 13 semanas em meados de outubro. O programa expira no final de dezembro, e então 13 milhões de desempregados pelo coronavírus poderiam ficar completamente sem benefícios de desemprego de seus estados ou do governo federal se o período de benefício não for estendido ou uma nova ajuda for decidida no Congresso dos EUA.

Ninguém está atualmente imune à pobreza. “Cada um de nós pode estar nesta situação”, diz DiVincenzo. Seu condado é “muito diverso”, inclui a urbana e bastante negra e pobre Newark e East Orange com as pobres casas de madeira em fileiras estreitas, das quais a pintura está descascando, até subúrbios ricos, mais habitados por americanos brancos, com casas que parecem mansões e calçadas imponentes. “Tanto os pobres quanto os mais ricos são afetados pela crise”, diz ele. Na verdade, alguns dos carros parados em frente à igreja não parecem ruins. De acordo com dados da pesquisa sobre a crise da coroa nos EUA, no entanto – ao contrário da crise financeira em 2008 – desta vez são menos trabalhadores brancos e mais latinos, negros e mulheres que estão perdendo seus empregos.

“As pessoas da área que trabalham no varejo são particularmente afetadas; muitas pequenas empresas precisam fechar”, diz Cinda Williams, colega de DiVincenzo, enquanto encaminha os carros para o ponto de coleta. Normalmente, ela aconselha as pessoas que procuram trabalho no distrito. Agora ela está ajudando com a distribuição da caixa.

Mesmo antes da crise do coronavírus havia muitas dificuldades sociais nos EUA. 34 milhões de pessoas viviam abaixo da linha da pobreza. Nos últimos meses, de acordo com cálculos de pesquisadores da Universidade de Columbia, mais oito milhões de pessoas foram adicionadas – a maior parte desde que os benefícios federais para a crise extra corona expiraram no final de julho.

fome 1»Tanto os pobres como os mais ricos são afetados pela crise. Qualquer um de nós pode estar nesta situação. ”Joseph DiVicenzo, CEO do condado de Essex. Foto: Moritz Wichmann

Você não precisa apenas de mantimentos. Falta até dinheiro para os funerais de parentes falecidos, disse Williams. E com a aproximação do inverno, desligar a eletricidade e o aquecimento por conta de contas não pagas e a aquisição de agasalhos se tornará um problema. Além disso, “as pessoas precisam decidir se pagam o aluguel ou gastam dinheiro com comida”, diz ela. Quem deixa de pagar o aluguel rapidamente acaba na rua – ou na vizinha Isaiah House, um abrigo para moradores de rua com uma pensão alimentícia. “Quando o subsídio de desemprego extra de $ 600 deixou de existir no final de julho, de repente, significativamente mais pessoas relataram que não podiam mais pagar o aluguel”, disse a funcionária Julia Hismeh. 

Sem esperança em Biden

A Isaiah House oferece lousa há 25 anos. Na crise da coroa, entretanto, a necessidade é duas vezes maior. “Nos primeiros dois meses da pandemia, às vezes tínhamos 600 pessoas esperando por comida e filas ao redor do quarteirão”, disse o chefe do Tafel, Latoya Anderson.

Assim como na Igreja Batista do Calvário, nenhuma outra pergunta é feita aos necessitados. Anderson não quer assustá-los com exigências como as prescritas por outras instituições. Para muitas pessoas marginalizadas, esses são difíceis de cumprir, por exemplo, mostrando um número de segurança social ou uma certidão de nascimento. O que Anderson distribui deve “ser apenas uma ajuda adicional, as pessoas também têm direito a vale-refeição”, ela enfatiza com referência ao programa estadual correspondente.

Além de mesas de alimentação e equipamentos sociais como a Casa Isaiah, também surgiram grupos por todo o país que oferecem ajuda mútua. Tanto cidadãos que são ativos em grupos do Facebook quanto ativistas de esquerda como Jeff estão envolvidos nisso. Ele é membro do grupo Democratic Socialists of America no norte de Nova Jersey. Com outros voluntários, os ativistas do DSA ofereceram ajuda alimentar em um bairro de Newark com grande número de desabrigados antes da pandemia. No início da pandemia, isso foi descontinuado para proteção contra a infecção, agora os necessitados são abastecidos pelo parto, cerca de 200 vezes até agora.

Jeff não tem esperanças para as eleições presidenciais no início de novembro. “As dificuldades do país não vão mudar só porque em breve teremos outro presidente”, disse ele, referindo-se a uma possível vitória eleitoral de Joe Biden, do Partido Democrata. Com o aumento do número de infecções por corona, em breve estaremos de volta ao ponto em que estávamos em abril, com novas restrições ou mesmo um novo bloqueio. Mas desta vez estamos mais bem preparados, podemos distribuir mais entregas e arrecadar mais dinheiro. ”

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

ONG Banco de Alimentos consolida 22 anos de combate à fome e ao desperdício

Para reforçar ações que possam reduzir a perda e o desperdício de alimentos, a FAO lançou a Plataforma Técnica de Medição e Redução de Perda e do Desperdício de Alimentos. Para a ONG Banco de Alimentos, esta é uma longa batalha de ação e de conscientização, que começou em 1998 e que se ampliou ainda mais a partir de março deste ano, com a crise do coronavírus.

unnamed (21)Luciana Chinaglia Quintão, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos

Para ajudar a comunidade global a intensificar as ações para reduzir a perda e o desperdício de alimentos, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou uma plataforma abrangente, a Plataforma Técnica de Medição e Redução de Perda e do Desperdício de Alimentos, com informações sobre medição, políticas, ações e exemplos de modelos de sucesso relacionados a esta questão. O lançamento da plataforma marca a realização, pela primeira vez, em 29 de setembro, do Dia Internacional da Conscientização sobre a Perda e o Desperdício de Alimentos. No Brasil, esta é uma batalha que vem sendo travada há 22 anos pela ONG Banco de Alimentos, que busca alimentos onde sobra e leva onde falta, para combater a fome e o desperdício e complementar a alimentação diária de mais de 20 mil pessoas. Desde a sua criação, até março de 2020, a ONG Banco de Alimentos já distribuiu 8,2 milhões de quilos de alimentos no Brasil.

Segundo Luciana Chinaglia Quintão, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos, “enquanto 820 milhões de pessoas passam fome no mundo, 127 milhões de toneladas de alimentos são jogadas fora por ano só na América Latina (dados da FAO, 2019) e 41 mil toneladas de alimentos são jogadas fora por dia no Brasil (dados da Embrapa, 2019). O desperdício começa na colheita, onde 10% dos alimentos se perdem; 50% se perdem no manuseio e no transporte; 30% nas centrais de abastecimento, como Ceasa; e 10% nos supermercados e nas casas dos consumidores”.

“O volume de alimentos produzidos no mundo seria suficiente para alimentar milhões de pessoas que hoje não comem ou comem mal, se fosse praticada a Inteligência Social compartilhada. Há vários Brasis mas, para simplificar, podemos fazer um recorte e dizer que existem fundamentalmente dois: o Brasil que come e o Brasil que não come; 52 milhões de brasileiros vivem em situação de insegurança alimentar, ou seja, passam fome em diferentes graus. O desperdício impacta todas as necessidades humanas, pois os recursos vão para o ralo ao invés de servirem à construção de escolas, moradias, hospitais, saneamento básico e todo o necessário para suprir as necessidades básicas humanas”, afirma Luciana Quintão em seu livro Inteligência Social – A perspectiva de um mundo sem fome(S), lançado no final de 2019.

Para combater a fome e o desperdício, a ONG Banco de Alimentos atua em três pilares básicos:

Colheita Urbana: coleta alimentos que perderam valor de comercialização, porém próprios para o consumo humano, e distribui para instituições sociais;
Educação Nutricional: ensina a manipulação e o preparo adequado dos alimentos, sempre visando a utilização integral dos mesmos e o aumento do valor nutricional das refeições.
Conscientização: leva ações e conhecimento para o grande público, possibilitando uma mudança na cultura do desperdício, construindo um mundo mais sustentável.

Com a pandemia do coronavírus, a ONG Banco de Alimentos reforçou a sua atuação a partir de abril deste ano e passou a trabalhar também com a distribuição de cestas básicas, cartões de alimentação no valor de R$ 100 e marmitas congeladas. Formou uma rede integral de ajuda às pessoas de maior vulnerabilidade, as mais atingidas pela crise da Covid-19. Até o final de agosto, foram entregues mais de 200.000 cestas básicas, mais de 15.000 cartões vale-alimentação e a colheita urbana arrecadou mais de 700 toneladas de alimentos, distribuídos para 41 entidades sociais que atendem continuamente mais de 20.000 pessoas. No total, entre abril e final de agosto, a entrega foi equivalente a cerca de 4 milhões de quilos de alimentos, impactando positivamente a vida de mais de 800 mil pessoas. “A crise provocada pela pandemia continua e o nosso trabalho não pode parar. Continuamos firmemente empenhados em levar alimentos aos mais prejudicados”, destaca Luciana.

Para Luciana, o lançamento da plataforma da FAO no Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos “é extremamente importante, no sentido de trazer maior conscientização à população sobre a necessidade urgente de mobilização para combater o desperdício”. Ao lançar a plataforma, o diretor-geral da FAO, QU Dongyu, afirmou que “desperdiçar alimentos significa desperdiçar recursos naturais escassos, aumentar os impactos das mudanças climáticas e perder a oportunidade de alimentar uma população crescente no futuro”. O diretor da FAO pediu aos setores público, privado e aos indivíduos que promovam, controlem e expandam políticas, inovações e tecnologias para reduzir a perda e o desperdício de alimentos, além de garantir que o primeiro dia internacional seja significativo e influente, especialmente em um momento em que a Covid-19 expôs ainda mais as vulnerabilidades.

Em seu livro Inteligência Social, Luciana analisa a gravidade do desperdício: “O que sobra do consumo ou do que é produzido e não comercializado vai para o lixo. Se o desperdício de alimentos fosse um país, este seria o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, atrás apenas de Estados Unidos e China. Além disso, no caso da produção de alimentos, usa-se água, desmata-se terras, polui-se o solo e os rios, sem que o alimento chegue às pessoas”.

A nova plataforma da FAO inclui dados sobre quais alimentos são perdidos e desperdiçados e onde; fórum de discussão sobre redução da perda de alimentos; exemplos de iniciativas de sucesso; cursos de e-learning; relatório de políticas da perda e desperdício de alimentos no contexto da pandemia de COVID-19; e dicas sobre o que todos podem fazer para reduzir o desperdício de alimentos.

Segundo a FAO, alimentos são perdidos quando são estragados ou derramados antes de chegar ao produto final ou ao varejo, muitas vezes por conta de transporte inadequado. A FAO estima que 14% dos alimentos são perdidos dessa forma, avaliados em US$ 400 bilhões anuais. As perdas são maiores nos países em desenvolvimento – 14% na África Subsaariana e 20,7% no Sul da Ásia e na Ásia Central, por exemplo. As principais perdas são em tubérculos de raízes e oleaginosas (25%), frutas e vegetais (22%) e carne e produtos animais (12%). Segundo a nova plataforma da FAO, 38% da energia consumida no sistema global de produção de alimentos é utilizada para produzir alimentos que ou são desperdiçados ou são jogados fora.

Sobre a ONG Banco de Alimentos

Criada em 1998, em São Paulo, pela iniciativa pioneira da economista Luciana Chinaglia Quintão, a ONG Banco de Alimentos busca alimentos onde sobra e leva onde falta. O trabalho, denominado Colheita Urbana, se inspira na ideia de reduzir o desperdício de alimentos na indústria e no comércio, e distribuir o excedente para instituições sociais, minimizando os efeitos da fome e possibilitando a complementação alimentar de qualidade para mais de 20 mil pessoas, todos os dias, em 41 instituições assistidas. A partir de março a ONG Banco de Alimentos ampliou a sua atuação em razão da pandemia Covid-19. Além do trabalho de Colheita Urbana, passou a entregar cestas básicas e cartões de alimentação aos mais atingidos pela crise. Entre abril e agosto de 2020 foram entregues mais de 200.000 cestas básicas, mais de 15.000 cartões vale-alimentação e a colheita urbana arrecadou mais de 700 toneladas de alimentos, distribuídos para 41 entidades sociais que atendem mais de 20.000 pessoas. No total, a entrega foi equivalente a cerca de 4 milhões de quilos de alimentos, impactando positivamente a vida de mais de 800 mil pessoas. Com base em parcerias, foi possível distribuir também 9.500 máscaras, 21.520 escovas de dente e 4.800 cremes dentais, e mais de 2.000 kits de higiene (com água sanitária, desinfetante, detergente líquido, lava-roupas em pó, multiuso, papel higiênico, sabão em pedra e sabonete).

Outro pilar de atuação é a Educação Nutricional, que ensina a manipulação e o preparo adequado dos alimentos, sempre visando a sua utilização integral e o aumento do valor nutricional das refeições, contribuindo concretamente para a melhoria da saúde das pessoas atendidas. Oficinas culinárias são desenvolvidas para colaboradores das instituições sociais. Outra frente está na Conscientização, com ações que buscam alcançar a sustentabilidade por meio de mudanças socioculturais, bem como realizar a ponte entre os dois Brasis: o Brasil que passa fome e o Brasil que desperdiça alimentos todos os dias.

Veja como participar apoiar o trabalho da ONG Banco de Alimentos: www.bancodealimentos.org.br

No Brasil de Bolsonaro, a única palavra de ordem é o lucro

Em quase todo o mundo civilizado, a agricultura é um setor bastante protegido e regulado. Já no Brasil de Bolsonaro a única palavra de ordem é o lucro a quaisquer custos. Não se planeja nada, mas se concede tudo aos grandes produtores

ALIMENTOS

Por Marcelo Zero*

O Brasil é o segundo maior produtor de alimentos do mundo. Perde apenas para os EUA. Além disso, praticamente todos os anos há recorde de safras.

No entanto, nosso país vive hoje gravíssima insegurança alimentar, com forte inflação de alimentos e desabastecimento de produtos básicos, como o arroz. Já ocorrem saques em supermercados.

Entre janeiro e agosto deste ano, a inflação medida pelo IPCA foi de apenas 0,7%. Porém, a inflação da alimentação no domicílio foi de 6,7%, ou seja, quase 9 vezes acima da inflação média, com tendência a acelerar ainda mais.

Essa inflação de alimentos afeta muito intensamente os mais pobres, que gastam quase tudo o que ganham justamente em alimentação. Segundo levantamento feito pelo professor Gerson Teixeira, especialista na matéria, alguns alimentos básicos subiram bem mais. O arroz subiu 27,5% (mas aumentou bem mais neste mês), o leite longa vida aumentou 32,8%, o feijão subiu 17,3%, o tomate aumentou 17,7%, o óleo de soja subiu 26,6%, e por aí vai.

Como isso é possível?

Em primeiro lugar, há uma questão estrutural. Devido aos lucros muito maiores da chamada agricultura de exportação, que é remunerada em dólar, em relação à agricultura destinada ao mercado interno, tem havido um deslocamento da área plantada e dos recursos investidos da última para a primeira.

Ao final da década de 1970, a área plantada destinada ao arroz e ao feijão, base da alimentação do brasileiro, era de aproximadamente 28% do total, ao passo que a área destinada à soja, principal cultura de exportação, era de somente 21%. Entretanto, hoje em dia a soja responde por 57% da área plantada no país, enquanto o arroz e o feijão, somados, respondem por meros 6,9%.

Em suma, houve grandes investimentos na agricultura de exportação e grande desinvestimento na agricultura destinada ao consumo interno, feita, em sua maior parte, por pequenos produtores familiares.

Obviamente, essa tendência se agrava e se acelera quando há grande valoração do dólar, como agora. Deixada ao sabor do “mercado”, ou seja, da ganância dos grandes produtores, a produção de alimentos vai massivamente para a exportação, provocando carestia e desabastecimento internos.

Nos governos progressistas anteriores, essa tendência era mitigada e controlada pelas políticas de apoio à agricultura familiar e, sobretudo, por uma política de compra de alimentos básicos e constituição de estoques públicos, que impediam grandes oscilações de preços e desabastecimento.

Contudo, após o golpe de 2016, essas políticas foram muito fragilizadas ou praticamente extintas.

A política de constituição de estoques públicos de alimentos, em particular, sofreu grande ataque, tanto no governo Temer, quanto no governo Bolsonaro.

Hoje, os estoques públicos de alimentos feitos pela Conab estão praticamente “zerados” e não sustentariam sequer um dia de consumo. Conforme levantamento feito pelo professor Gerson Teixeira, os estoques de arroz estão em apenas 623 toneladas, para um consumo diário de quase 30 mil toneladas. No caso do feijão, os estoques estão em míseras 38 toneladas, para um consumo diário de quase 8,5 mil toneladas.

Observe-se que a FAO considera que idealmente um país teria de ter uma capacidade de estocagem 1,2 maior que a sua capacidade de produção.

Em nítido contraste com o Brasil bolsonarista, a China tem hoje estoques de cereais que equivalem a 75% do seu consumo anual de alimentos. A Índia tem 23%, os EUA têm 25% e a Rússia tem 18%.

Considere-se, adicionalmente, que a Comissão Europeia, em função da crise desencadeada pelo COVID-19, está ampliando consideravelmente sua política de estocagem reguladora de alimentos. É a chamada estratégia Farm to Fork (da fazenda para o garfo), que visa blindar a população europeia de crises na oferta de alimentos. Aqui ao lado, na Argentina, o governo Fernández voltou impor taxas às exportações de alimentos (retenciones), de forma a assegurar segurança alimentar e financiar sua recuperação econômica e seu desenvolvimento.

Em quase todo o mundo civilizado, a agricultura é um setor bastante protegido e regulado.

Já no Brasil de Bolsonaro a única palavra de ordem é o lucro a quaisquer custos. Não se planeja nada, mas se concede tudo aos grandes produtores.

Somada à extinção do Plano Safra para Agricultura Familiar e à paralisação da Reforma Agrária, entre outras medidas destrutivas, não estranha que extinção dos estoques públicos de alimentos venha contribuindo significativamente para a atual insegurança alimentar em um país que tem uma das agriculturas mais competitivas do mundo.

Claro está que as exportações agrícolas são muito importantes para a economia brasileira. Elas geram vultosos superávits comerciais e grandes divisas em moeda forte para o país. Mas sem políticas estatais reguladoras, que apoiem a agricultura familiar, a Reforma Agrária e a produção para o mercado interno, como quer o governo ultraneoliberal de Bolsonaro, inevitavelmente vai se gerar carestia e desabastecimento, ainda mais numa conjuntura de grande desvalorização cambial.

Assim, essa incúria vem se revelando insustentável, do ponto de vista social.

Mas ela é também insustentável, do ponto de vista ambiental.

Os grandes incêndios ocorridos no ano passado na Amazônia e, agora, no Pantanal, são, em grande parte, originados por ações criminosas de setores atrasados do chamado agronegócio, ante um governo que lhes assegura impunidade e que vê as justas preocupações ambientais como “frescuras”, obstáculos inaceitáveis ao crescimento e ao lucro. 

O desgoverno Bolsonaro não consegue sequer perceber que a insustentabilidade social e, sobretudo, ambiental deste modelo de laissez faire bandido vão acabar por provocar também insustentabilidade comercial. Com efeito, a tendência é que os mercados mundiais, alarmados com a atitude hostil do governo brasileiro frente às grandes questões ambientais, se fechem aos produtos agrícolas do Brasil.

A resistência crescente ao Acordo Mercosul/UE é somente o começo desse processo já em curso.

Ademais, no longo prazo, a destruição ambiental vai restringir seriamente nossa grande capacidade natural de produzir alimentos, já que as chuvas que alimentam as colheitas do Centro-Oeste e do Sudeste vêm justamente dos “rios voadores”, originados pela evotranspiração da floresta amazônica

Enquanto isso, Bolsonaro faz piadas com a carestia e com a destruição de um dos principais ecossistemas do mundo. Afinal, quem faz piadas com a morte, faz piadas com tudo.

bolso fogo

Ao que tudo indica, o grande legado de Bolsonaro para o Brasil e o mundo se constituirá de morte, fome e fogo.

E daí?

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

fecho

Este texto foi originalmente publicado no site “Brasil em Debate” [Aqui].

Saque em caminhão transportando carne: as portas do caos estão sendo abertas no Brasil

carne

Voltei ao Brasil em 1997 e em 1998 e orientei um estudo sobre a forma como a mídia corporativa cobria os saques que ocorriam em todo o Brasil por causa da crise criada por FHC e suas políticas neoliberais.

21 anos depois acabo de encontrar via redes sociais um vídeo mostrando saque de um caminhão, justamente um carregando carne bovino, supostamente no bairro de Acari no município do Rio de Janeiro. Esse é o resultado de pelo menos 5 anos de medidas ultraneoliberais impulsionadas por Michel Temer e Jair Bolsonaro (se contarmos o primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff serão 6).

Em 2020 deveremos ter mais dessas cenas em todo o território nacional. A razão é simples: quando não se levam em conta as necessidades básicas dos pobres e se acha que tudo se resolve com repressão e violência, a ação direta deles é inevitável.

(In) feliz aniversário! Fechamento do restaurante popular de Campos completa 2 anos

restaurante-popularFechamento do restaurante popular completa 2 anos enquanto a fome grassa no município de Campos dos Goytacazes.

Há exatamente dois anos o governo do jovem prefeito Rafael Diniz (PPS) fechou o restaurante popular de Campos dos Goytacazes sob a alegação de que a cidade vivia uma crise financeira sem precedentes na história do município.  Algumas centenas de milhões tendo sido gastos depois e com a conversa da herança maldita de Rosinha Garotinho esquecida como se nunca tivesse existido, os mais pobres desta cidade continuam privados de um importante instrumento de alívio da fome que os persegue cotidianamente.

O interessante é que no já longínquo dia 31 de Outubro de 2018, a prefeitura de Campos fez informar que havia um plano de reabertura do restaurante popular que seria reaberto sob o pomposo nome de “Centro de Segurança Alimentar e Nutricional” (ver imagem de matéria publicada pelo jornal Terceira Via logo abaixo).

jtv restaurante popular

Esta demora toda é inexplicável, não apenas para mim que tenho o que comer todos os dias, mas principalmente para aqueles cidadãos que estão no lado perdedor de um modelo social que enriquece poucos às custas da miséria da maioria. 

A fome, alguém deveria informar o jovem prefeito de Campos, é algo urgente e inescapável.  A fome é como já disse um representante da FAO, Jean Ziegler, órgão das ONU para a questão da alimentação, a fome é uma espécie de genocídio silencioso que se abate sobre os mais pobres.  Por isso, minimizar a fome de centenas de pessoas deveria ser a primeira prioridade de um governo que prometeu mudar a forma de governar a nossa cidade. Mas está cada vez mais óbvio que matar a fome dos mais pobres e despossuídos não é prioridade para este governo.

Por isso, no dia desse (in) feliz aniversário de 2 anos do fechamento do restaurante popular, não há nada que possa ser celebrado. Quando muito podemos lamentar que um político jovem e que se elegeu ao fomentar com êxito a esperança de milhares de pessoas, tenha gerado um governo com práticas tão antigas como a de aparecer para aplicar veneno contra mosquitos transmissores de doenças, apenas depois que se constatou que o nosso município está na inglória segunda posição de mais acometido pela dengue no estado do Rio de Janeiro (ver imagem abaixo).

rafael diniz

Proposta para o Restaurante Popular mostra que Rafael Diniz ainda não entendeu sua condição precária

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Quando surgiu a novidade de que o do jovem prefeito Rafael Diniz iria reabrir o Restaurante Popular, pensei com meus botões que ele havia entendido sua condição política desastrosa (fruto de uma combinação de políticas anti pobres que ele aplicou até este ponto do seu desapontador governo).

Mas lendo a postagem do professor Roberto Moraes em seu blog sobre a criação do chamado “Centro de Segurança Alimentar” (Cesan), vejo que a visão tecnocrática e centralizadora que colocou o governo Rafael Diniz em estado comatoso não só não foi abandonado, como continua pulsando viva e forte [1]. A ponto de que se ter uma faixa de preços para as refeições que excluirá uma parte significativa dos necessitados das refeições que serão servidas. 

Enquanto isso, não se vê ou se ouve de medidas semelhantes sendo aplicadas para, por exemplo, reduzir valores de alugueis de terrenos que a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes usa, sem que se saiba da necessidade e o impacto financeiro para os contribuintes de tais contratos, muitos dos quais aditados sem a necessária licitação pública.

Por isso, considero mais do que salutar o documento emitido por representantes da de organizações e movimentos da sociedade civil campista para ampliar o debate  a partir da realização de uma audiência pública para definir os critérios de funcionamento do Restaurante Popular antes da decisão que deverá ser tomada pela Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes para a criação do Cesan (ver documento abaixo).

Solicitação ao CMAS PMCG

E é importante dizer que se Rafael Diniz não mudar urgentemente a postura de governar ao léu dos interesses da maioria da população, ele certamente sofrerá uma derrota acachapante em 2020, caso se disponha a concorrer para um segundo mandato. E ele terá a si mesmo e aos seus menudos neoliberais para culpar. 

Mas para não dizerem que não falei das flores, mostro abaixo um exemplar de uma sacola utilizada pelo chamado “Banco Alimentar ” para recolher doações de alimentos nos supermercados portugueses para recolher alimentos a serem doados para famílias que hoje estão passando fome.  Um bom exemplo que poderia ser seguido em Campos dos Goytacazes.

banco alimentar


[1] http://www.robertomoraes.com.br/2018/12/sobre-mobilizacao-da-sociedade-civil.html

Extrema Pobreza atinge níveis de 12 anos atrás e Brasil deve voltar ao Mapa da Fome

extrema

Foto: João Roberto Riper. Fonte: pt.org.

 

Por Thiago Domenici, da Agência Pública.

Ao deixar a relação de países que têm mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável, o Brasil atingiu um feito inédito: saiu do Mapa da Fome da ONU. Mas, após três anos do feito, um relatório de 20 entidades da sociedade civil, publicado em julho do ano passado, alertava sobre os riscos de o país retornar ao mapa indesejado.

O economista Francisco Menezes, pesquisador do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e da ActionAid Brasil, fez parte da equipe que elaborou o relatório. Para Francisco Menezes, os números de pobreza sugerem que o Brasil voltará ao Mapa da Fome da ONU. Um relatório atualizado deve ser lançado no fim do mês e fará novo alerta sobre a situação.

favela

Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública. Jardim Silvio Sampaio, Campo Limpo, zona sul de São Paulo

Em entrevista à Agência Pública, Menezes, que também é especialista em segurança alimentar, mostra preocupação:

A nossa nova advertência já leva a quase uma certeza.

Essa quase certeza, ele diz, é de que o Brasil voltará ao mapa da fome.

Toda a experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos.

Em relação à pobreza e extrema pobreza, por exemplo, levantamento da ActionAid Brasil indica que nos últimos três anos — 2015-2017 — o país voltou ao patamar de 12 anos atrás. Ou seja, mais de 10 milhões de brasileiros estão novamente nessa condição (veja o gráfico abaixo).

Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação ruim, que deve aparecer com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares — POF — do final de 2018.

A seguir, Menezes explica a combinação de fatores que levou a essa situação que ele caracteriza como “estado de desproteção social”:

A insegurança alimentar voltou a rondar o país?

No ano passado, nós fizemos uma advertência à ONU de que, se o Brasil prosseguisse no rumo mais recente que tinha tomado de certo abandono das políticas de proteção social, correria o risco de retornar ao mapa da fome do qual saiu em 2014.

Publicamos esse relatório em julho de 2017 e um novo relatório de acompanhamento desses objetivos do desenvolvimento sustentável vai sair ao final deste mês. O que nós assinalamos naquela primeira advertência vem sendo confirmada agora.

Como se chegou a essa constatação?

A cada cinco anos é feita uma pesquisa pelo IBGE sobre a situação de segurança e insegurança alimentar do brasileiro. Essa pesquisa era feita junto à  Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio — Pnad — e passou agora a ser feita pela POF, que é a pesquisa do orçamento familiar.

A última pesquisa foi realizada em 2013 e divulgada em 2014. Como é quinquenal, ainda está sendo realizada, mas o pessoal está no campo e a divulgação desses resultados deve sair no final de 2018 ou início de 2019.

O que ocorre é que existem algumas situações em relação ao estado da segurança alimentar, desde os que estão em segurança alimentar — aqueles que tem acesso aos alimentos de uma forma regular e suficiente — até diversos níveis de insegurança alimentar. E tem a insegurança alimentar grave, expressão que se usa para caracterizar a fome, situação em que uma determinada família não teve disponibilidade de alimentos num determinado período prolongado.

Essa insegurança alimentar grave em 2013, por exemplo, quando foi feita a última pesquisa, estava num nível bastante baixo, e é por isso também que em 2014 a ONU colocou o Brasil fora do mapa do fome.

Os dados agora apontam um retrocesso?

Quantas pessoas passam fome? Para dizer alguma coisa próxima, vai ter que esperar um pouco, mas toda experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos. Mas a nossa advertência já leva a quase uma certeza.

Primeiro, é preciso considerar que uma situação de extrema pobreza tem uma correlação muito grande com a situação de fome. Ou seja, pessoas que estão numa situação mais perto da extrema de pobreza estão fortemente vulneráveis e sujeitas à fome, geralmente já passando fome. Por isso, é importante trabalhar a questão da fome junto com a questão da pobreza, e nós temos assistido a um empobrecimento muito acelerado da população, e temos os dados sobre isso.

Em três anos, 2015, 2016, 2017, a gente, infelizmente, voltou a 12 anos atrás em termos do número de pessoas em situação de extrema pobreza. Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação bastante ruim, que deve aparecer no final do ano com os dados da POF.

[O número de pessoas que vivem em situação de] extrema pobreza está crescendo mais aceleradamente do que [o número de pessoas que vivem em situação de] pobreza, que voltou [ao patamar de] oito anos atrás.

Brasileiros na pobreza extrema (em milhões):

O gráfico é resultado do processamento de microdados de Pnads Contínuas (a partir de 2012) e de Pnads de 1992 a 2011. As Pnads não são feitas nos anos em que são realizados os censos demográficos. Entre diversas metodologias que apresentam números muito próximos, adota-se mais frequentemente aquela seguida pelo programa Bolsa Família. A população em situação de extrema pobreza é quela com rendimento domiciliar per capita de até R$ 70,00; e a população em situação de pobreza é aquela com rendimento de até R$ 140,00. Dados de junho de 2011, deflacionados/inflacionados pelo INPC para os meses de referência de coleta da Pnad.

O que você está dizendo é que a tendência já aponta, mesmo que ainda não confirmada, que o Brasil voltará ao mapa da fome?

Acredito que, infelizmente, sim. Nós não temos ainda os dados dessa pesquisa que comentei. Eu posso falar, sim, sobre os próprios dados da Pnad Contínua [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua], que revelam esse empobrecimento acelerado da população com aumento muito grande e que varia de região para região, de estado para estado.

O Rio de Janeiro, por exemplo, vive uma situação em que a pobreza extrema, muito ligada à questão do próprio desemprego, cresceu muito, triplicou em um ano [de 143 mil para 480 mil em um ano].

Quais são as outras regiões?

O Nordeste brasileiro e a região Norte têm um grau de pobreza maior do que o Sudeste e o Sul, mas o nordeste teve um movimento muito positivo até 2014 no sentido de recuperação, mas agora a gente volta a assistir a uma situação de agravamento, porque já era mais vulnerável originalmente.

E quais são os fatores desse crescimento da extrema pobreza?

São vários fatores. Avalio que, em primeiro lugar, a título de enfrentamento do que se chamava desequilíbrio fiscal, se fez uma política que, de um lado, gerou uma paralisia grande da economia, gerando com isso desemprego, e não resolveu o problema do déficit fiscal. A receita, consequentemente, se reduziu e o país entrou num círculo vicioso de paralisia e, ao mesmo tempo, crescimento do desemprego e da pobreza, sem capacidade própria de gerar uma recuperação. Esse é um fator.

Não querendo ser o dono da verdade, mas é a prática de uma política econômica completamente equivocada nos três últimos anos. Não se pode esquecer de que 2015 já se experimentou uma política bastante recessiva como opção para o enfrentamento das dificuldades que apareceram. A paralisia na construção civil, por exemplo, atinge as camadas pobres da população, deixando um grande número de pessoas desempregadas ou subempregadas; as próprias empresas que trabalhavam em torno do sistema Petrobras e tantas outras que foram paralisando agravam esse quadro. Ou seja, o desemprego não pode ser desprezado nesse aspecto.

A tomada de decisão de fazer o ajuste fiscal e congelar os gastos públicos por 20 anos deve ser considerada com efeito imediato?

Sim, não tenha dúvida. A emenda constitucional foi aprovada no final de 2016. Se você pega o orçamento de 2016 — e estou falando dos programas sociais —, já se vê um fortíssimo contingenciamento durante aquele ano. Então se viveu já em 2016 uma experimentação do corte de recursos. A proposta de orçamento para 2017 traz um enorme corte e para 2018 ainda mais. É o que nós, hoje, estamos chamando de estado de desproteção social, porque faltam recursos de todos os lados.

No aspecto da pobreza extrema, a gente está sentindo que em relação ao programa Bolsa Família, estão sendo feito cortes grandes de contingentes de famílias que, na verdade, ao contrário do que o governo alega, não são famílias que simplesmente não prestaram conta adequadamente, mas são aquelas mais vulneráveis que em geral têm mais dificuldades de prestar essas contas. Muitas famílias dentro do Bolsa Família foram cortadas e tinham, ou como única renda ou uma parte importante de sua renda, [os repasses advindos] do programa, e isso tem uma importância na questão alimentar por outras pesquisas que já fizemos. A gente sabe que os recebedores do Bolsa Família, na sua maior parte, gastam em alimentação, pelo peso que o alimento tem nos seus próprios orçamentos.

Essa questão do Bolsa Família é um levantamento ou uma percepção?

É um levantamento. Foram cortadas 1 milhão e 500 mil famílias, pode-se ver pelos próprios dados do governo. Inclusive, para 2018, o governo já coloca um orçamento menor para o Bolsa Família. O que está ocorrendo, o que a gente supõe, não temos comprovação ainda, é que grande parte dessas famílias cortadas são as mais pobres.

E uma outra causa é a questão dos preços, não só dos alimentos, mas outra questão que pesa, o gás. O gás impacta muito sobre as famílias mais pobres. Com um aumento dos combustíveis de uma maneira geral, estamos começando a escutar as primeiras manifestações do quanto isso está pesando. Fora o fato de que o aumento dos combustíveis gera um aumento dos gêneros alimentícios.

O Brasil é um dos principais produtores de alimentos do mundo e pessoas passam fome. Como compreender essa situação?

O Brasil tem indubitavelmente uma capacidade de produção de alimentos relevante. Esse não é o nosso problema, o da produção, mas o que ocorre é que existe uma profunda desigualdade, inclusive, no campo.

Foto: Divulgação Ibase. O economista Francisco Menezes é pesquisador do Ibase e da ActionAid Brasil

FONTE: http://justificando.cartacapital.com.br/2018/07/11/extrema-pobreza-atinge-niveis-de-12-anos-atras-e-brasil-deve-voltar-ao-mapa-da-fome/