(In) feliz aniversário! Fechamento do restaurante popular de Campos completa 2 anos

restaurante-popularFechamento do restaurante popular completa 2 anos enquanto a fome grassa no município de Campos dos Goytacazes.

Há exatamente dois anos o governo do jovem prefeito Rafael Diniz (PPS) fechou o restaurante popular de Campos dos Goytacazes sob a alegação de que a cidade vivia uma crise financeira sem precedentes na história do município.  Algumas centenas de milhões tendo sido gastos depois e com a conversa da herança maldita de Rosinha Garotinho esquecida como se nunca tivesse existido, os mais pobres desta cidade continuam privados de um importante instrumento de alívio da fome que os persegue cotidianamente.

O interessante é que no já longínquo dia 31 de Outubro de 2018, a prefeitura de Campos fez informar que havia um plano de reabertura do restaurante popular que seria reaberto sob o pomposo nome de “Centro de Segurança Alimentar e Nutricional” (ver imagem de matéria publicada pelo jornal Terceira Via logo abaixo).

jtv restaurante popular

Esta demora toda é inexplicável, não apenas para mim que tenho o que comer todos os dias, mas principalmente para aqueles cidadãos que estão no lado perdedor de um modelo social que enriquece poucos às custas da miséria da maioria. 

A fome, alguém deveria informar o jovem prefeito de Campos, é algo urgente e inescapável.  A fome é como já disse um representante da FAO, Jean Ziegler, órgão das ONU para a questão da alimentação, a fome é uma espécie de genocídio silencioso que se abate sobre os mais pobres.  Por isso, minimizar a fome de centenas de pessoas deveria ser a primeira prioridade de um governo que prometeu mudar a forma de governar a nossa cidade. Mas está cada vez mais óbvio que matar a fome dos mais pobres e despossuídos não é prioridade para este governo.

Por isso, no dia desse (in) feliz aniversário de 2 anos do fechamento do restaurante popular, não há nada que possa ser celebrado. Quando muito podemos lamentar que um político jovem e que se elegeu ao fomentar com êxito a esperança de milhares de pessoas, tenha gerado um governo com práticas tão antigas como a de aparecer para aplicar veneno contra mosquitos transmissores de doenças, apenas depois que se constatou que o nosso município está na inglória segunda posição de mais acometido pela dengue no estado do Rio de Janeiro (ver imagem abaixo).

rafael diniz

Proposta para o Restaurante Popular mostra que Rafael Diniz ainda não entendeu sua condição precária

Resultado de imagem para rafael diniz prefeito

Quando surgiu a novidade de que o do jovem prefeito Rafael Diniz iria reabrir o Restaurante Popular, pensei com meus botões que ele havia entendido sua condição política desastrosa (fruto de uma combinação de políticas anti pobres que ele aplicou até este ponto do seu desapontador governo).

Mas lendo a postagem do professor Roberto Moraes em seu blog sobre a criação do chamado “Centro de Segurança Alimentar” (Cesan), vejo que a visão tecnocrática e centralizadora que colocou o governo Rafael Diniz em estado comatoso não só não foi abandonado, como continua pulsando viva e forte [1]. A ponto de que se ter uma faixa de preços para as refeições que excluirá uma parte significativa dos necessitados das refeições que serão servidas. 

Enquanto isso, não se vê ou se ouve de medidas semelhantes sendo aplicadas para, por exemplo, reduzir valores de alugueis de terrenos que a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes usa, sem que se saiba da necessidade e o impacto financeiro para os contribuintes de tais contratos, muitos dos quais aditados sem a necessária licitação pública.

Por isso, considero mais do que salutar o documento emitido por representantes da de organizações e movimentos da sociedade civil campista para ampliar o debate  a partir da realização de uma audiência pública para definir os critérios de funcionamento do Restaurante Popular antes da decisão que deverá ser tomada pela Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes para a criação do Cesan (ver documento abaixo).

Solicitação ao CMAS PMCG

E é importante dizer que se Rafael Diniz não mudar urgentemente a postura de governar ao léu dos interesses da maioria da população, ele certamente sofrerá uma derrota acachapante em 2020, caso se disponha a concorrer para um segundo mandato. E ele terá a si mesmo e aos seus menudos neoliberais para culpar. 

Mas para não dizerem que não falei das flores, mostro abaixo um exemplar de uma sacola utilizada pelo chamado “Banco Alimentar ” para recolher doações de alimentos nos supermercados portugueses para recolher alimentos a serem doados para famílias que hoje estão passando fome.  Um bom exemplo que poderia ser seguido em Campos dos Goytacazes.

banco alimentar


[1] http://www.robertomoraes.com.br/2018/12/sobre-mobilizacao-da-sociedade-civil.html

Extrema Pobreza atinge níveis de 12 anos atrás e Brasil deve voltar ao Mapa da Fome

extrema

Foto: João Roberto Riper. Fonte: pt.org.

 

Por Thiago Domenici, da Agência Pública.

Ao deixar a relação de países que têm mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável, o Brasil atingiu um feito inédito: saiu do Mapa da Fome da ONU. Mas, após três anos do feito, um relatório de 20 entidades da sociedade civil, publicado em julho do ano passado, alertava sobre os riscos de o país retornar ao mapa indesejado.

O economista Francisco Menezes, pesquisador do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e da ActionAid Brasil, fez parte da equipe que elaborou o relatório. Para Francisco Menezes, os números de pobreza sugerem que o Brasil voltará ao Mapa da Fome da ONU. Um relatório atualizado deve ser lançado no fim do mês e fará novo alerta sobre a situação.

favela

Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública. Jardim Silvio Sampaio, Campo Limpo, zona sul de São Paulo

Em entrevista à Agência Pública, Menezes, que também é especialista em segurança alimentar, mostra preocupação:

A nossa nova advertência já leva a quase uma certeza.

Essa quase certeza, ele diz, é de que o Brasil voltará ao mapa da fome.

Toda a experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos.

Em relação à pobreza e extrema pobreza, por exemplo, levantamento da ActionAid Brasil indica que nos últimos três anos — 2015-2017 — o país voltou ao patamar de 12 anos atrás. Ou seja, mais de 10 milhões de brasileiros estão novamente nessa condição (veja o gráfico abaixo).

Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação ruim, que deve aparecer com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares — POF — do final de 2018.

A seguir, Menezes explica a combinação de fatores que levou a essa situação que ele caracteriza como “estado de desproteção social”:

A insegurança alimentar voltou a rondar o país?

No ano passado, nós fizemos uma advertência à ONU de que, se o Brasil prosseguisse no rumo mais recente que tinha tomado de certo abandono das políticas de proteção social, correria o risco de retornar ao mapa da fome do qual saiu em 2014.

Publicamos esse relatório em julho de 2017 e um novo relatório de acompanhamento desses objetivos do desenvolvimento sustentável vai sair ao final deste mês. O que nós assinalamos naquela primeira advertência vem sendo confirmada agora.

Como se chegou a essa constatação?

A cada cinco anos é feita uma pesquisa pelo IBGE sobre a situação de segurança e insegurança alimentar do brasileiro. Essa pesquisa era feita junto à  Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio — Pnad — e passou agora a ser feita pela POF, que é a pesquisa do orçamento familiar.

A última pesquisa foi realizada em 2013 e divulgada em 2014. Como é quinquenal, ainda está sendo realizada, mas o pessoal está no campo e a divulgação desses resultados deve sair no final de 2018 ou início de 2019.

O que ocorre é que existem algumas situações em relação ao estado da segurança alimentar, desde os que estão em segurança alimentar — aqueles que tem acesso aos alimentos de uma forma regular e suficiente — até diversos níveis de insegurança alimentar. E tem a insegurança alimentar grave, expressão que se usa para caracterizar a fome, situação em que uma determinada família não teve disponibilidade de alimentos num determinado período prolongado.

Essa insegurança alimentar grave em 2013, por exemplo, quando foi feita a última pesquisa, estava num nível bastante baixo, e é por isso também que em 2014 a ONU colocou o Brasil fora do mapa do fome.

Os dados agora apontam um retrocesso?

Quantas pessoas passam fome? Para dizer alguma coisa próxima, vai ter que esperar um pouco, mas toda experiência sempre mostrou que os números da extrema pobreza com os números da fome são muito próximos. Mas a nossa advertência já leva a quase uma certeza.

Primeiro, é preciso considerar que uma situação de extrema pobreza tem uma correlação muito grande com a situação de fome. Ou seja, pessoas que estão numa situação mais perto da extrema de pobreza estão fortemente vulneráveis e sujeitas à fome, geralmente já passando fome. Por isso, é importante trabalhar a questão da fome junto com a questão da pobreza, e nós temos assistido a um empobrecimento muito acelerado da população, e temos os dados sobre isso.

Em três anos, 2015, 2016, 2017, a gente, infelizmente, voltou a 12 anos atrás em termos do número de pessoas em situação de extrema pobreza. Isso nos leva a crer que aquela correlação pobreza versus fome sugere fortemente que a gente já está, neste momento, numa situação bastante ruim, que deve aparecer no final do ano com os dados da POF.

[O número de pessoas que vivem em situação de] extrema pobreza está crescendo mais aceleradamente do que [o número de pessoas que vivem em situação de] pobreza, que voltou [ao patamar de] oito anos atrás.

Brasileiros na pobreza extrema (em milhões):

O gráfico é resultado do processamento de microdados de Pnads Contínuas (a partir de 2012) e de Pnads de 1992 a 2011. As Pnads não são feitas nos anos em que são realizados os censos demográficos. Entre diversas metodologias que apresentam números muito próximos, adota-se mais frequentemente aquela seguida pelo programa Bolsa Família. A população em situação de extrema pobreza é quela com rendimento domiciliar per capita de até R$ 70,00; e a população em situação de pobreza é aquela com rendimento de até R$ 140,00. Dados de junho de 2011, deflacionados/inflacionados pelo INPC para os meses de referência de coleta da Pnad.

O que você está dizendo é que a tendência já aponta, mesmo que ainda não confirmada, que o Brasil voltará ao mapa da fome?

Acredito que, infelizmente, sim. Nós não temos ainda os dados dessa pesquisa que comentei. Eu posso falar, sim, sobre os próprios dados da Pnad Contínua [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua], que revelam esse empobrecimento acelerado da população com aumento muito grande e que varia de região para região, de estado para estado.

O Rio de Janeiro, por exemplo, vive uma situação em que a pobreza extrema, muito ligada à questão do próprio desemprego, cresceu muito, triplicou em um ano [de 143 mil para 480 mil em um ano].

Quais são as outras regiões?

O Nordeste brasileiro e a região Norte têm um grau de pobreza maior do que o Sudeste e o Sul, mas o nordeste teve um movimento muito positivo até 2014 no sentido de recuperação, mas agora a gente volta a assistir a uma situação de agravamento, porque já era mais vulnerável originalmente.

E quais são os fatores desse crescimento da extrema pobreza?

São vários fatores. Avalio que, em primeiro lugar, a título de enfrentamento do que se chamava desequilíbrio fiscal, se fez uma política que, de um lado, gerou uma paralisia grande da economia, gerando com isso desemprego, e não resolveu o problema do déficit fiscal. A receita, consequentemente, se reduziu e o país entrou num círculo vicioso de paralisia e, ao mesmo tempo, crescimento do desemprego e da pobreza, sem capacidade própria de gerar uma recuperação. Esse é um fator.

Não querendo ser o dono da verdade, mas é a prática de uma política econômica completamente equivocada nos três últimos anos. Não se pode esquecer de que 2015 já se experimentou uma política bastante recessiva como opção para o enfrentamento das dificuldades que apareceram. A paralisia na construção civil, por exemplo, atinge as camadas pobres da população, deixando um grande número de pessoas desempregadas ou subempregadas; as próprias empresas que trabalhavam em torno do sistema Petrobras e tantas outras que foram paralisando agravam esse quadro. Ou seja, o desemprego não pode ser desprezado nesse aspecto.

A tomada de decisão de fazer o ajuste fiscal e congelar os gastos públicos por 20 anos deve ser considerada com efeito imediato?

Sim, não tenha dúvida. A emenda constitucional foi aprovada no final de 2016. Se você pega o orçamento de 2016 — e estou falando dos programas sociais —, já se vê um fortíssimo contingenciamento durante aquele ano. Então se viveu já em 2016 uma experimentação do corte de recursos. A proposta de orçamento para 2017 traz um enorme corte e para 2018 ainda mais. É o que nós, hoje, estamos chamando de estado de desproteção social, porque faltam recursos de todos os lados.

No aspecto da pobreza extrema, a gente está sentindo que em relação ao programa Bolsa Família, estão sendo feito cortes grandes de contingentes de famílias que, na verdade, ao contrário do que o governo alega, não são famílias que simplesmente não prestaram conta adequadamente, mas são aquelas mais vulneráveis que em geral têm mais dificuldades de prestar essas contas. Muitas famílias dentro do Bolsa Família foram cortadas e tinham, ou como única renda ou uma parte importante de sua renda, [os repasses advindos] do programa, e isso tem uma importância na questão alimentar por outras pesquisas que já fizemos. A gente sabe que os recebedores do Bolsa Família, na sua maior parte, gastam em alimentação, pelo peso que o alimento tem nos seus próprios orçamentos.

Essa questão do Bolsa Família é um levantamento ou uma percepção?

É um levantamento. Foram cortadas 1 milhão e 500 mil famílias, pode-se ver pelos próprios dados do governo. Inclusive, para 2018, o governo já coloca um orçamento menor para o Bolsa Família. O que está ocorrendo, o que a gente supõe, não temos comprovação ainda, é que grande parte dessas famílias cortadas são as mais pobres.

E uma outra causa é a questão dos preços, não só dos alimentos, mas outra questão que pesa, o gás. O gás impacta muito sobre as famílias mais pobres. Com um aumento dos combustíveis de uma maneira geral, estamos começando a escutar as primeiras manifestações do quanto isso está pesando. Fora o fato de que o aumento dos combustíveis gera um aumento dos gêneros alimentícios.

O Brasil é um dos principais produtores de alimentos do mundo e pessoas passam fome. Como compreender essa situação?

O Brasil tem indubitavelmente uma capacidade de produção de alimentos relevante. Esse não é o nosso problema, o da produção, mas o que ocorre é que existe uma profunda desigualdade, inclusive, no campo.

Foto: Divulgação Ibase. O economista Francisco Menezes é pesquisador do Ibase e da ActionAid Brasil

FONTE: http://justificando.cartacapital.com.br/2018/07/11/extrema-pobreza-atinge-niveis-de-12-anos-atras-e-brasil-deve-voltar-ao-mapa-da-fome/

Campos dos Goytacazes no ritmo do “circo sem pão”

Enquanto a mídia corporativa nos campista distrai com as idas e vindas de Anthony Garotinho no sistema prisional, a fila de famintos no Jardim São Benedito não para de aumentar. Mais um excelente serviço da gestão do jovem prefeito Rafael Diniz que fechou o Restaurante Popular Romilton Bárbara contrariando uma promessa de sua plataforma de campanha.

A partir dessa constatação é que fica evidente que o ódio que transparece contra Anthony Garotinho em notas jocosas travestidas de informação jornalística se dá mais pelos seus acertos do que pelos seus erros. Esse ódio tem uma clara conotação de classe e do mesmo tipo destinado, por exemplo, a Lula e outros personagens que na história brasileira tentaram, ainda que precariamente, minimizar a fome que aflige boas parcelas da população brasileira.

Mas para não perder a oportunidade, convido aos leitores deste blog que façam um esforço de solidariedade e apoiem materialmente o trabalho comunitário desenvolvido pelas freiras do Jardim São Benedito. É que em meio à falência óbvia do aparelho governamental em impedir o recrudescimento da fome no nosso município, há que se recorrer à solidariedade ativa.

Campanhas contra os gordos não resolvem porque o inimigo são as corporações do fast food

Fast food

Hoje o jornal The Guardian traz um interessante artigo sobre o erro que é concentrar a luta contra a obesidade nas pessoas que estão com níveis variados de sobrepeso (em suma, gordos) (Aqui!). Segundo a autora do artigo, Michele Hanson, o problema é que a maioria dos governos deixa as corporações que produzem os fast foods de mãos completamente livres para continuar empurrando seus alimentos vazios do conteúdo nutritivo que tanto precisamos, nos deixando apenas com milhares de calorias vazias que apenas servem para aumentar a obesidade que hoje atinge em torno de 2 bilhões de pessoas.

Aqui no Brasil essa facilidade atinge principalmente crianças que ficam indefesas frente ao massacre da propaganda que torna coisas fedorentas em produtos de alto desejo para consumo.

A indústria do fast-food faz seus trabalhadores passar fome

Recentemente, o presidente Obama elegeu a redução da desigualdade como o principal objetivo de seu segundo mandato. Em razão disso, ele deverá aumentar o salário mínimo, cuja estagnação de sete anos conduziu os funcionários de fast-food a lançar um movimento grevista que já atingiu mais de cem cidades norte-americanas

por Thomas Frank

O motorista que, na saída de Durham, na Carolina do Norte, pega a estrada para Hillsborough penetra no coração de um estranho território. Mal deixou de ver no retrovisor as nobres torres da Universidade Duke e já se apresentam diante de seus olhos um McDonald’s, um Cracker Barel, um Wendy’s, um Chick-fil-A, um Arby’s, uma Waffle House, um Bojangles, um Biscuitville, um Subway, um Taco Bell e um Kentucky Fried Chicken (KFC) − todos os grandes nomes do fast-food enfileirados como num desfile em um trecho de quase 1,5 quilômetro. Se subirmos a pé essa ruidosa artéria de concreto e calorias, perceberemos que suas margens estão recobertas de papéis engordurados e copos de papelão. Mas a verdade é que a paisagem ali normalmente só é apreciada através de um para-brisa e com o som do rádio ao fundo. A presença de pedestres na beira da estrada tem o poder de confundir os motoristas, razão pela qual o jornalista que por lá passeia quase foi esmagado duas vezes.

Mas não foi um carro o que realmente me atingiu com toda a força; na verdade, foi uma visão: a compreensão espontânea daquilo que confere ao fast-food sua implacável eficácia. Uma rápida passagem pela Waffle House é suficiente para experimentar o que está em jogo nessa indústria. A construção modular, a produção de waffles em cadeia, as panelas de fritura duplas, os alinhamentos dos distribuidores de condimentos e mesmo a engenhosa tampinha de plástico sobre o copo de café, com seu bico derramador dobrável, concebido para que o cliente deguste sua bebida sem medo de derramar uma gota na camisa: muitos testemunhos da engenhosidade humana diante dos quais só podemos nos admirar. E, no entanto, esse concentrado de eficiência é obtido ao preço de um enorme desperdício – de combustível, ar condicionado, terra, dejetos. Em uma face, um responsável em engenharia industrial; na outra, uma profusão de recursos e de mão de obra explorados sem dó.

Pensamos com emoção no prodigioso esforço nacional que foi necessário despender para chegar a essa revolução da gastronomia de massa: as subvenções para a agricultura, os trabalhos de irrigação, os programas de construção de vias rápidas… Mas todos esses grandes canteiros de que o país se orgulha há oitenta anos não teriam servido no fim das contas apenas para construir uma nação de fábricas de comida abundante e de má qualidade, em suma, uma estrada de Hillsborough ampliada em escala continental? Tal impulso coletivo para permitir que alguns acumulem toneladas de dinheiro enquanto outros se esfalfam por um salário irrisório?

No verão norte-americano passado, em Durham, um evento excepcional sacudiu o setor de fast-food: uma greve. Uma ação ainda mais inesperada pelo fato de ter ocorrido num estado, a Carolina do Norte, conhecido por sua hostilidade visceral aos sindicatos e que se vangloria também de ser uma espécie de berço do fast-food, já que três gigantes do setor – o Hardee’s, o Bojangles e o Krispy Kreme – nasceram em seu solo.

O movimento partiu de um Burger King. Situado numa interseção viária no meio de lugar nenhum, o estabelecimento evoca mais um pequeno forte do Deserto dos tártaros que um restaurante. Uma manhã, às 6 horas, um punhado de empregados se alinhou diante da entrada do estabelecimento e começou a entoar: “Os direitos do trabalhador fazem parte dos direitos do homem!”. A essa hora da manhã, as mentes demoram para esquentar, então um novo slogan foi tentado: “Não dá para sobreviver com US$ 7,25!”, alusão ao salário mínimo por hora praticado no setor.

Os enviados das redes de notícias locais logo apareceram, assim como duas patrulhas de polícia. Um solitário cliente sentado numa mesa na janela do Burger King contemplava a cena. Quando foi chegando a hora do rush, motoristas buzinaram para demonstrar seu apoio.

No fim da manhã, os grevistas buscaram ampliar o movimento reunindo-se diante de um McDonald’s no centro de Durham, depois diante de um Little Caesar em uma estrada de oito pistas na cidade de Raleigh. Seu número cresceu a olhos vistos. Apinhados na beira da estrada, eles agitavam cartazes enquanto os filhos brincavam sob as árvores raquíticas que sobrevivem nessa zona periurbana. Caminhoneiros disparavam as buzinas como forma de solidariedade. Ouviram-se também alguns insultos, lançados por motoristas de picape ao passar.

A última etapa do dia aconteceu no KFC de Raleigh. Eram 16 horas; o calor do verão não fez amainar o ardor dos participantes do protesto, cujo número se elevava para 150. A eles se juntou o reverendo William Barber II, um líder local da Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, na sigla em inglês), que organiza reuniões semanais para denunciar a política repressiva do novo governador republicano Patrick McCrory, responsável por quase mil prisões de manifestantes desde que tomou posse em janeiro de 2013.

Com sua silhueta de colosso ligeiramente encurvada pela artrose e sua potente voz de baixo que intimida o barulho da cidade, o reverendo Barber discursou diante da multidão aglutinada em frente ao KFC. Pouco importa, disse ele, o número de horas de trabalho acumuladas: jamais um funcionário do setor chega a uma renda suficiente. O que os grevistas reclamam, acrescenta, é o direito de “dispor do fruto de seu trabalho”. A expressão não foi escolhida ao acaso: ela aparecia entre as reivindicações defendidas pelos afro-americanos nos estados do sul após o fim da escravidão. Explícita, a alusão assume todo sentido quando o orador emenda: “Vim aqui para lhes dizer que esse fruto está corrompido. O fruto está corrompido quando vocês trabalham num KFC e mal conseguem pagar o frango que preparam. O fruto está corrompido quando o trabalho de vocês consiste em alimentar outras pessoas, mas não lhes permite alimentar os próprios filhos”.

Muitas coisas foram escritas sobre o movimento social inédito que varre o setor de comida rápida nos Estados Unidos há mais de um ano, da Pensilvânia ao estado de Nova York, de Rhode Island à Carolina do Sul, e que culminou, em 5 de dezembro de 2013, em uma greve nacional em mais de cem cidades do país. Mas aquilo a que se assistiu naquele dia na Carolina do Norte não era uma greve no sentido tradicional da palavra. Em outros estados, as greves, apoiadas pelo poderoso Sindicato dos Empregados do Setor de Serviços (Seiu, na sigla em inglês), foram suficientemente significativas para levar ao fechamento de numerosos estabelecimentos. Nada do tipo foi visto em Durham e Raleigh, onde a luta se limitou a protestos coletivos esporádicos. Ali, poucos empregados pararam de trabalhar. E nenhum sindicato lhes deu força: o único apoio organizado veio de um coletivo de defesa dos moradores, a Action NC.

Também não é de surpreender que os trabalhadores do setor encontrados naquele dia na Carolina do Norte pareçam ignorar totalmente práticas de organização operária. Como reconheceu uma grevista, pouco à vontade em seus sapatos de salto alto, o conflito os pegou de surpresa. Ninguém estava preparado para o desafio físico que um piquete de greve representa. Ninguém, igualmente, pensou seriamente em dissuadir os consumidores de atravessar as portas do estabelecimento. E, quando o calor se tornou sufocante, alguns grevistas não hesitaram em retornar a seu local de trabalho para pedir uma bebida. Além disso, a maioria não imaginava nem por um segundo que sua ação poderia atrair a cólera de seu empregador – uma ingenuidade problemática, mas lógica num estado em que os direitos sindicais são, por assim dizer, inexistentes. De fato, a Carolina do Norte tem a menor taxa de sindicalização do país.

Mão de obra adulta e diplomada

De seu lado, as queixas eram perfeitamente consistentes. De vestido preto e crucifixo no pescoço, Willietta Dukes enfileira empregos em franquias de fast-food. Ela se declara devotada ao trabalho e preocupada em satisfazer o cliente. Mas, depois de ter passado dezesseis anos banhando-se em óleo de fritura e criando os dois filhos, ela ainda não tem os meios para conseguir um lugar para morar. É o filho mais velho que a abriga em seu quarto de hóspedes. Durante esse tempo, diz ela, seus empregadores se felicitaram ruidosamente pelos ganhos que alcançaram. Um dia, o gerente da equipe lhe confiou sua técnica de redução do estresse: de noite, em casa, entregar-se a um banho quente. “Mas eu não tenho nem casa!”, suspira. Recentemente, sua direção fez chegar até ela um comunicado – entregue pelo FedEx – colocando-a em alerta contra a malignidade dos sindicatos…

Lucia Garcia levou o filho de 6 anos ao piquete grevista do Burger King. Ela trabalha num McDonald’s de periferia onde a boa sorte lhe atribui US$ 7,95 por hora – 70 centavos acima do salário mínimo. Apesar desse privilégio e do fato de seu marido também trabalhar, ela e a família só não passam fome graças às cestas de alimentação da igreja − o cúmulo para alguém que serve hambúrgueres o dia inteiro. “É triste”, deixa escapar, “porque isso faz minhas filhas passar vergonha.”

Ninguém mais ignora a política salarial em vigor no setor de fast-food, que emprega 13 milhões de pessoas nos Estados Unidos. Todos conhecem o argumento utilizado para justificar essa política: os empregados são sobretudo jovens sem diploma, não têm família para sustentar e vivem esse primeiro emprego como uma chance para chegar a uma condição mais favorável. Trabalhar em um fast-food seria, em suma, uma espécie de serviço prestado à nação, uma versão do serviço militar.

Contudo, a condição dos empregados desse setor na Carolina do Norte demonstra a fraqueza desse conto infantil. Com frequência, são adultos em idade madura e ainda por cima pais e mães de família. Pelo menos um grevista entre os interrogados em Raleigh possuía um diploma universitário. Um trabalho é um trabalho e, nesses tempos de penúria, as empresas que fornecem alimentação de péssima qualidade, mas a preços acessíveis, constituem para muitos o único ganha-pão disponível, independentemente da idade ou da qualificação.

Os que retomam os elementos de linguagem do patronato da indústria de fast-food não têm a mínima ideia do esforço que este precisou despender para manter os salários num nível tão baixo. As condições salariais impostas ao pessoal foram elaboradas com um cuidado não menos meticuloso que as receitas de hambúrgueres ou as tampas dos copos. Elas decorrem de uma engenharia destinada a tornar os trabalhadores tão intercambiáveis quanto os frascos de maionese.

Em seu livro Fast-food nation,1 o jornalista Eric Schlosser descreve uma corrida maníaca para a padronização. Os alimentos chegam congelados ao restaurante antes de serem cozidos por máquinas infalíveis cuja utilização não requer nenhuma qualificação particular. “Empregos deliberadamente ‘desqualificados’ podem então ser ocupados por uma mão de obra de baixo custo”, escreve o jornalista. “A dependência em relação ao trabalhador ou à trabalhadora é grandemente atenuada pela facilidade com a qual ele ou ela podem ser substituídos.”

Nesse sentido, a designação de “restaurante” se revela inapropriada: as próprias empresas preferem a expressão “sistema alimentar”. E nem é preciso dizer que, em tal sistema, os sindicatos não são bem-vindos. Segundo Schlosser, o McDonald’s abrigava nos anos 1960 e 1970 um “comando volante” de funcionários superiores encarregados de abafar qualquer veleidade de sindicalização nos quatro cantos do país. Mais recentemente, em 2009, a Associação Nacional de Restaurantes (NRA, na sigla em inglês) realizou uma campanha estrondosa contra um projeto de lei que previa facilitar a criação de sindicatos nas empresas. Os chefes do hambúrguer mantêm assim um exército de temíveis lobistas, entre os quais figura na primeira fila Richard Berman, o fundador do Centro para a Liberdade do Consumidor, que inunda os meios de comunicação com discursos antissindicais e pregações em favor do direito inalienável de se empanturrar de comida nociva para a saúde.

De maneira geral, os americanos adoram os empresários que padronizam sua alimentação. Seu imaginário coletivo está impregnado da celebração dos grandes patriotas da formatação alimentar: o pioneiro do hambúrguer a 15 centavos, o inventor da falsa gastronomia mexicana, o gênio da pizzacozida em 30 segundos, o construtor de sanduíches de quatro andares etc. Tantos gloriosos benfeitores adulados pelos meios de comunicação, cujas memórias são disputadas nas livrarias e aos quais os candidatos à eleição presidencial não deixam jamais de prestar homenagem. Alguns deles, aliás, até concorreram à Casa Branca…

E depois há a tropa de pequenos patrões um pouco menos heroicos, chamados franqueados, que colocam sua ambição a serviço de uma marca e de um sistema concebidos por outra pessoa. Sem dúvida, jamais conhecerão a glória de um Harland Sanders, o fundador do império KFC; no entanto, também brilham por seu individualismo e seu senso de iniciativa, devotando-se sem descanso a qualquer novo conceito de pizza estilo esquimó ou de doce coberto de glacê ao gosto havaiano. Também a esses os Estados Unidos amam igualmente. Afinal, eles não seriam também “nossos vizinhos”, como sublinhou um editorialista da Fox News exasperado com o movimento de greve no setor de alimentação rápida? Como não reconhecer que eles “trabalharam duro a vida inteira e arriscaram as próprias posses” a fim de fazer prosperar o sonho americano, como lembrou alguns dias depois outro comentarista da mesma rede?

Franquias nas mãos de especuladores

Esses mitos representam uma arma poderosa. Mitt Romney lembrou-se disso durante a campanha eleitoral de 2012. Em discurso pronunciado em Chicago, o candidato republicano à Casa Branca exaltou o “espírito empreendedor” de James John Liautaud, fundador da cadeia Jimmy John’s Gourmet Sandwiches. Ele detalhou em seguida que os grandes homens com essa força moral “não esperam nada do Estado”, porque preferem “contar com eles próprios e dizer a si mesmos: ‘O que posso fazer para me tornar melhor? O que posso fazer para realizar os projetos que construo para mim mesmo e para minha família?’”.

Se os adeptos do progresso pessoal pelo sistema alimentar “não esperam nada do Estado”, este, em contrapartida, conta enormemente com eles. Prova disso são as estradas, os recolhimentos de dejetos e os empréstimos com taxa diferenciada que ele coloca graciosamente à disposição deles. Some-se a isso uma subvenção disfarçada. Na Carolina do Norte, assim como no resto do país, muitos assalariados do setor de fast-food – ou talvez a maior parte deles – recebem do poder público um vale-alimentação ou outras formas de doação em espécie. Quando os trabalhadores afirmam que não podem sobreviver com US$ 7,25 por hora, não há nada de exagero nisso: eles não estão efetivamente em condições de sobreviver com o salário mínimo, muito menos de “realizar” qualquer projeto que seja. Em suma, o governo utiliza o dinheiro do contribuinte para impedi-los de morrer de fome e para confortar os empregadores no desfrute dos lucros assim liberados.

Sabemos como funcionam os gigantes do setor: eles acumulam benefícios fabulosos, distribuem alimento de má qualidade e gratificam seus tenentes com bônus suntuosos. Além disso, eles pertencem cada vez mais a fundos de pensão ou a grupos de especuladores, aqueles mesmos que provocaram a crise sem fim graças à qual tantos trabalhadores não têm agora outra escolha senão batalhar por um emprego descartável em suas barracas de fritas.

O caso do Burger King ilustra perfeitamente esse mecanismo. O ex-número dois norte-americano do hambúrguer não passa hoje em dia de um brinquedo nas mãos dos banqueiros. Adquirida em 1997 pela Diageo, uma multinacional do álcool, a empresa foi revendida em 2002 para um consórcio financeiro que incluía o Goldman Sachs e o Bain Capital, o fundo de investimento criado por Romney. Em 2010, ela passou para o controle do fundo americano-brasileiro 3G Capital, que a precipitou numa decadência da qual ainda encontra dificuldade para se recuperar. Um longo e doloroso conflito com seus funcionários só pode lhe fazer bem.

Exemplos similares abundam. A cadeia de frango frito Bojangles de início atiçou a cobiça do Falfurrias Capital Partners, antes de ser engolida pelo fundo de investimento Advent International. O Sun Capital Partners possui as redes Friendly’s, Captain D’s, Johnny Rockets e Boston Market. O Fog Cutter Capital Group e o Consumer Capital Partners compraram respectivamente o Fatburger e o Smashburger. Quanto ao Roark Capital, proprietário do Arby’s, do Cinnabon, do Carvel e do Moe’s Southwest Grill, sua gana pelas franquias o conduziu logicamente a ter também uma companhia de coleta de dejetos, a Waste Pro.

Mesmo os franqueados que têm o simpático fast-food na esquina da rua não são mais totalmente simples “vizinhos”. Também entre eles o canto de sereia de Wall Street foi mais importante que o amor pelo cheiro de óleo queimado. O maior franqueado do Burger King é uma companhia comercial domiciliada em Syracuse, no estado de Nova York, que detém nada menos que 566 estabelecimentos. Seu presidente embolsou perto de US$ 2 milhões em 2011, incluídas as ações. Outro operador do Burger King, o Strategic Restaurants, caiu nas mãos do fundo de investimento Cerberus Capital Management, que coleciona participações em cerca de trezentas empresas do mundo inteiro. A Pizza Hut, por seu lado, cedeu sua principal franquia para a Merril Lynch, que em seguida a revendeu para o fundo Olympus Growth Fund V. Durante esse tempo, os acionistas do Valor Equity pegaram para si uma fatia do Little Caesar e da Dunkin Donuts por meio de sua filial Sizzling Platter.

Tanto no nível das marcas como no das franquias, o patronato do setor de fast-food da Carolina do Norte não disse uma palavra sobre a greve do ano passado. Por uma razão simples: admitir o descontentamento de sua mão de obra prejudicaria a imagem de um setor desejoso de aparecer como um artesão da felicidade familiar. Nada abala mais a reputação de um restaurante do que uma funcionária enraivecida postada na entrada queixando-se de não poder vacinar o filho de 6 meses por falta de condições financeiras.

Muda, a filial no entanto não deixou de enviar à frente de batalha seus cães de guarda. A greve mal acabara de eclodir quando o Instituto das Políticas de Emprego, um dos grupos de pressão dirigidos por Berman, comprou uma página inteira do Wall Street Journal. Acima da fotografia de um robô de cozinha japonês, uma mensagem publicitária proclamava que a ação dos grevistas não era “um combate contra a administração, mas um combate contra a tecnologia”. A mensagem subentendida não escapou aos trabalhadores: se eles insistissem, seria facilmente possível dispensá-los instalando autômatos em todos os fast-foods do país.

“Nós acreditamos nas pessoas”

Berman não está errado. Os jornalistas foram substituídos por blogueiros, os operários por robôs, os professores universitários por assistentes e por cursos pela internet. Por que o deus da eficácia pararia se a coisa está indo tão bem? Seria uma boa ideia se os líderes políticos se inserissem na lista…

Na Carolina do Norte, o setor de comida rápida deu nascimento a uma história lendária. A Boddie-Noell foi a primeira empresa a ter investido ali na abertura de um Hardee’s, nome de uma rede que vende hambúrgueres baratos copiados dos do McDonald’s. Ao longo dos anos, ela se tornou a maior franquia da marca nos Estados Unidos. Estranhamente, ela não foi comprada por um fundo de pensão e nunca ameaçou substituir seus funcionários por robôs. É um negócio familiar cujo lema – “Nós acreditamos nas pessoas” – parece ser levado a sério. Ela se orgulha de ter colocado em prática um serviço de aconselhamento encarregado de “fornecer apoio aos empregados que experimentam problemas pessoais ou profissionais”, os quais, pelo jeito, não desapareceram, já que vários funcionários da empresa se juntaram ao piquete de greve do Burger King.

A Boddie-Noell é também proprietária de uma plantação. Situado nos arredores de Nashville (Tennessee), o terreno de Rose Hill é enfeitado por uma casa-grande construída no final do século XVIII pelos ancestrais da família Boddie. Os altos e baixos que a plantação conheceu em sua história ilustram as vicissitudes do capitalismo norte-americano.

A família Boddie vendeu a Rose Hill no auge da depressão dos anos 1930, que não poupou o 1% mais rico. Ela pôde recomprar seu bem em 1979 graças às receitas do Hardee’s. Foi, portanto, a intercessão miraculosa do setor de comida rápida que permitiu aos herdeiros recuperar seu paraíso perdido. Hoje, a casa-grande se transformou em centro de conferências. Ela acolhe também festas de casamento para adeptos do folclore sulista.

Uma alameda de pés de mirtilo em flor conduz o visitante até um portal de ferro trabalhado que contém os brasões da dinastia Boddie. Mais longe, uma feérica mansão senhorial de paredes brancas imaculadas e um pórtico impecavelmente azul sustentado por quatro colunas majestosas. Tocamos a campainha, mas não há nenhum movimento. Rose Hill parece totalmente deserta. Ver essa morada suntuosa assim desabitada nesses dias de greve faz surgir outra visão, a de um mundo no qual os trabalhadores estarão mortos. Eles continuarão sem dúvida a mostrar um rosto sorridente nos fôlderes de suas companhias, mas a tecnologia e o mercado os terão tornado definitivamente intercambiáveis, cada um carregando uma bandeja prateada cheia de aperitivos fritos. 

Colocar a culpa nos pobres 

Quanto Washington gasta para assegurar a sobrevivência dos trabalhadores e garantir ao mesmo tempo a competitividade do hambúrguer? Segundo o Projeto de Lei Nacional sobre o Emprego (Nelp, na sigla em inglês), ONG que defende os direitos dos assalariados modestos, os programas de assistência aos empregados do setor de fast-food alcançariam a cifra de US$ 7 bilhões por ano. Tal subvenção para o patronato pode chocar em um país que viu tantos trabalhadores afundarem no pântano da pobreza ao longo dos cinco últimos anos. A inquietação dos norte-americanos a esse respeito demora, contudo, a encontrar uma tradução política. A maioria democrata no Senado e os que rodeiam o presidente Barack Obama com certeza anunciaram que apoiavam a ideia de um aumento do salário mínimo para US$ 10 a hora, mas sua pusilanimidade e a obstrução dos republicanos ainda bloqueiam qualquer avanço.

A direita apavora-se com a ideia de que a crise atual provoque turbulências políticas semelhantes àquelas que marcaram a Grande Depressão dos anos 1930. Por esse motivo, ela se empenha obstinadamente em incriminar os pobres e em fazê-los suportar o custo da recessão. Aos olhos dos conservadores, a existência de trabalhadores tão mal pagos que não conseguem assegurar sua sobrevivência sem as ajudas do governo não significa de forma alguma que eles deveriam receber um salário melhor ou exercer seus direitos sindicais, mas, ao contrário, que é preciso suprimir… as ajudas do governo.

Em outubro, os republicanos fizeram passar na Câmara dos Representantes – onde são majoritários – um texto que limita drasticamente os programas de ajuda-alimentação. Talvez eles imaginem que, fatiando os últimos dispositivos de assistência, incitarão os trabalhadores a contar mais “com eles mesmos”. (T.F.)

 Thomas Frank é jornalista, autor de Pourquoi les pauvres votent à droite. Comment les conservateurs ont gagné le coeur des Etats-Unis (et celui des autres pays riches) [Por que os pobres votam na direita. Como os conservadores ganharam o coração dos Estados Unidos (e o dos outros países ricos), Agone, Marselha, 2008. Acaba de publicar Pity the billionaire: the hard-times swindle and the unlikely comeback of the right [Pobre bilionário: o embuste dos tempos difíceis e o improvável retorno da direita], Metropolitan Books, Nova York, 2012.

Ilustração: Alves

 1 Eric Schlosser, Fast-food nation: the dark side of the all-American meal (O país do fast-food: o lado obscuro de uma refeição tipicamente norte-americana), Houghton Mifflin, Boston, 2001.

FONTE: http://diplomatique.org.br/artigo.php?id=1583