A fome no Brasil: “A situação é mais tensa nas cidades”

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra luta contra as injustiças sociais. Uma conversa com Paulo Mansan

mst jwApoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva marcham com militantes dos sem-terra (Brasília, 14.8.2018)

A injustiça social é muito pronunciada em Pernambuco e nos estados vizinhos do Nordeste do Brasil. Nos últimos meses, a fome se alastrou devido às condições de pandemia e uma crise econômica. O Movimento dos Trabalhadores do Solo, MST, já distribuiu 890 toneladas de alimentos e 750 mil porções em seu estado. Como isso aconteceu?

Já em 2020, era previsível que a situação social no Brasil e especialmente no Nordeste se agravasse. A situação é mais tensa nas cidades do que no campo e por isso nós, como movimento com foco no campo, decidimos expandir nossas atividades na cidade. Junto com sindicatos, universidades e outros movimentos sociais, organizações e, principalmente, centenas de militantes de esquerda de nosso meio, iniciamos a campanha “Mãos da Solidariedade”. Agrupamos todos esses atores com nossa base, nossos assentamentos e ocupações no campo e, assim, criamos a base para esta campanha de solidariedade sem precedentes. Cada um de nossos assentamentos fornece gratuitamente alimentos colhidos em trabalho voluntário, em torno de 40 toneladas por mês.

Essa solidariedade é importante, mas como o seu trabalho difere de outras iniciativas em que pacotes de ajuda são distribuídos de caminhões para quem precisa?

Durante a pandemia, montamos uma rede de “bancos de alimentos” na capital Recife. Estas foram implementadas por “profissionais de saúde” voluntários. Esses “agentes” são inspirados em como trabalham em Cuba e foram treinados por nós para fornecer uma educação básica sobre a pandemia de Covid-19, especialmente nas favelas. A distribuição da comida é organizada através destes “bancos populares”, a das refeições através das “cozinhas populares solidárias” que instalamos. Isso cria uma conexão orgânica com os residentes, o que também permite um trabalho político conjunto.

Qual a conexão entre os atores da cidade e do campo, o MST está mudando atualmente seu caráter para se tornar uma organização urbana?

Tradicionalmente temos uma boa posição na população da capital pernambucana. Os “Amigos do MST” são muito ativos na capital Recife. Muitas das pessoas ativas que agora vivem em nossos assentamentos vêm originalmente das favelas das cidades. Para realizar as transformações políticas e sociais necessárias no Brasil, é necessária uma forte movimentação nas cidades. Mas isso não muda o fato de sermos essencialmente um movimento camponês, cujas principais preocupações são a produção de alimentos saudáveis ​​e baratos para a população pobre e a implementação da reforma agrícola há muito esperada no Brasil.

Haverá eleições presidenciais no Brasil em outubro de 2022. Qual a posição do MST sobre isso?

Não somos neutros porque o atual governo do fascista Jair Bolsonaro é diametralmente oposto aos nossos planos. Em 2022, portanto, é nossa tarefa conjunta lutar por um governo Lula. Jair Bolsonaro e seus aliados mais reacionários, mas também a grande mídia, gastam muita energia nos difamando. A campanha de solidariedade agora nos dá a oportunidade de reposicionar o MST. Isso é particularmente evidente quando se trata da questão da produção de alimentos saudáveis, porque o governo Bolsonaro significa produção tóxica. Somente em 2021, o uso de mais de 440 agrotóxicos foi aprovado no Brasil, incluindo muitos que são proibidos na Europa. Em nossa produção, por outro lado, contamos com a agroecologia. E porque nossa abordagem não é de caridade, mas de solidariedade viva,

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

Dificuldades sociais em um Brasil onde a fome voltou

Um ano antes das eleições, o país está afundando em uma profunda crise econômica. Enquanto isso, o presidente da extrema direita Jair Bolsonaro planeja comprar os votos dos pobres. Ele terá sucesso?

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“Fiquei muito frugal” diz Aline Conceição, da favela do Campinho, no norte da cidade do Rio de Janeiro, que vende doces e chicletes para sobreviver

Por Philipp Lichterbeck (texto e foto),  no Rio de Janeiro, para o “Woz”

Quando o despertador de Aline Conceição toca às três da manhã, ela se levanta do colchão em que dorme com as duas filhas e o filho. Ela entra no minúsculo banheiro de sua casa e se lava com água de um balde. Enquanto isso, sua filha mais velha está fazendo café e enchendo-o em garrafas térmicas.

Ainda está escuro quando Conceição, de 39 anos, empurra a porta de metal de um caminho que passa pela favela do Campinho, em um morro na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Carregada com seis garrafas térmicas e centenas de sachês com balas e chicletes, ela desce a favela até uma rodoviária. Ela espera que hoje esteja na catraca o guarda que sempre vai deixá-la passar sem passagem.

A afro-brasileira então dirige até a parada final e aumenta sua modesta gama de produtos. “Começo a vender às cinco”, diz Conceição, “todos os dias, exceto aos domingos”.

Ela trabalha até a hora do almoço, depois aparece outro traficante, com quem ela concordou em não competir. “Num dia bom ganho sessenta reais”, diz Aline Conceição, o que equivale a dez francos. “Mas normalmente é menos.” Em todas as horas em que fica parada no ponto de ônibus, Conceição toma café e come um pãozinho com ovo que ela mesma fez naquela manhã. “Tornei-me muito frugal”, diz ela, “a vida no Rio tornou-se cara.”

A espinha dorsal da sociedade

Conceição é uma entre cerca de 35 milhões de pessoas que trabalham no setor informal no Brasil, ou seja, por conta própria e sem qualquer tipo de segurança. Eles vendem algo na rua ou oferecem serviços, como lavagem de carros. As informações representam cerca de 40% da população ativa do Brasil, formam a espinha dorsal de uma sociedade que entraria em colapso sem iniciativa própria. No entanto, eles são pobres.

Antes da pandemia, isso significava que eles nunca ganharam o suficiente para crescer socialmente, mas sempre poderiam sobreviver. Isso mudou. O Brasil vive uma profunda crise econômica com desemprego e inflação. Colocou pessoas como Aline Conceição em risco de não conseguirem se alimentar adequadamente. Eles estão ameaçados de fome e desnutrição. Esse risco é ainda maior para os cerca de 14 milhões de brasileiros oficialmente registrados como desempregados, uma taxa de 13%.

Em 2014, a fome no Brasil foi considerada vencida, quando a Organização Mundial da Alimentação (FAO) retirou o país do mapa mundial da fome. Agora ele está de volta com força total. Há cinco anos, os especialistas observam um aumento do problema que se intensificou com a pandemia. De acordo com a rede brasileira de pesquisa em segurança alimentar e nutricional, Rede Penssan, mais de 116 milhões de brasileiros foram afetados pela insegurança alimentar no final de 2020. Mais da metade deles não comia mais o suficiente ou já estava morrendo de fome.

Isso pode ser sentido em todo o país. Não apenas nas favelas e áreas rurais empobrecidas, mas principalmente nos centros das cidades. Milhares fazem fila todos os dias para almoços grátis, e mais e mais moradores de rua estão construindo seus aposentos nas calçadas. Um exército de comerciantes ambulatoriais circula pelos ônibus e trens suburbanos, vendendo tudo o que é possível: fones de ouvido, chocolate, cremes e produtos frequentemente roubados.

Cada vez mais pessoas são obrigadas a oferecer algo na rua, mesmo que sejam apenas coisas que retiraram do lixo. Cada vez mais as crianças entram nos restaurantes com as mãos abertas e os estranhos no supermercado perguntam se você pode comprar uma lata de leite em pó ou um pacote de açúcar para elas.

Muitos só se deram conta da situação quando alguns jornais publicaram fotos mostrando pessoas cavando ossos e restos de carne.

Aline Conceição e seus filhos também sofrem o que os especialistas chamam de insegurança alimentar. Embora Conceição trabalhe cerca de 54 horas semanais, não sobra dinheiro na frente e atrás. Desde o início da pandemia, Conceição recebe cestas básicas, que são distribuídas na favela do Campinho pela Pastoral da Criança, uma organização católica. Contém alimentos não perecíveis: arroz, feijão, macarrão, óleo, sal, açúcar. Mas a família não consegue comprar frutas há muito tempo, por exemplo.

“Sem a ajuda alimentar, teríamos que passar fome”, diz Conceição. “É disso que tenho medo.” É um alívio que seus três filhos, com idades entre sete e dezessete anos, estejam voltando para a escola e fazendo duas refeições por dia. “Mas e se houver outro bloqueio?”, Pergunta a mãe.

Pacotes cada vez menores de mantimentos

É graças às doações de empresas, ONGs, igrejas e particulares que ainda não houve fome no Brasil. No entanto, isso não está totalmente descartado. Porque a disposição para doar diminuiu drasticamente com o aparente fim da pandemia. “Nossas cestas básicas estão cada vez menores e não podemos mais distribuí-las semanalmente”, diz Claudia Soares, coordenadora da pastoral infantil de Campinho.

Pode parecer um pouco estranho, mas morar em uma favela é vantajoso financeiramente para Aline Conceição. Há alguns anos comprou cerca de 35 metros quadrados de um terreno em Campinho – na época trabalhava como caixa em um ônibus, trabalho que hoje fazem as máquinas – e construiu uma casinha com um cômodo. Ela não paga aluguel e, como a maioria dos moradores da favela, nada para água e luz dentro de casa. Há uma TV tão pequena quanto um telefone ou conexão wi-fi. A Conceição só precisa trocar o tanque de combustível a cada dois ou três meses. “Custa 105 reais – não faz muito tempo era a metade disso”, diz ela.

Na verdade, o Brasil está sofrendo com a inflação galopante. De acordo com o instituto de estatísticas IBGE, os preços subiram mais de dez por cento nos últimos doze meses. Semana após semana, os produtos no supermercado estão ficando mais caros e as filas nos caixas mais curtas porque menos pessoas fazem compras e suas compras tornam-se menores. Táxis e motoristas de Uber também estão se tornando cada vez mais difíceis de encontrar porque o preço da gasolina subiu tanto que quase não vale a pena ligar o motor.

Aline Conceição diz que a família não come carne há meses. Ela quer dizer bife, que para muitos brasileiros é uma medida de qualidade de vida. Se você não pode pagar por um, você se sente mal. “Mas até os pés de galinha ficaram muito caros”, diz Conceição. “O quilo já custou três reais, hoje é treze.”

Para Talíria Petrone, a situação de Aline Conceição é expressão de “uma das piores crises sociais das últimas gerações”. A jovem de 36 anos tem assento no Câmara de Deputados pelo pequeno partido de esquerda Socialismo e Liberdade (PSOL) há três anos e representa um novo tipo de político. Ela é negra, jovem, feminista, vem de uma origem humilde. E ao contrário da maioria dos outros políticos, ela sabe do que está falando quando fala sobre as necessidades da população. Você fala com ela ao telefone entre duas reuniões do comitê, e ela está estressada. E ela está com raiva. O presidente de extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, é o responsável direto por agravar a crise, diz ela. «Como resultado da sua política de austeridade, os benefícios sociais foram cortados e os fundos para a saúde foram cortados. Ele tomou os direitos do povo. “

Petrone fala do fato de que a esquerda terá que quebrar o ciclo do bolsonarismo nas eleições presidenciais e parlamentares de outubro de 2022 para renovar o Brasil. Ela propõe que rendas altas e grandes fortunas sejam tributadas mais pesadamente, e que uma renda básica seja introduzida para os pobres.

Em última análise, são as questões sociais que vão decidir a eleição em que Bolsonaro será desafiado pelo ex-presidente e ícone de esquerda Lula da Silva. Embora Bolsonaro seja considerado inelegível no exterior por estar destruindo a Amazônia, promovendo a pandemia corona e insultando homossexuais, negros e indígenas, a situação econômica é decisiva para a maioria dos brasileiros.

Como Jair Bolsonaro também sabe que a maioria dos brasileiros é pobre e está sofrendo com a crise, ele agora os está cortejando com métodos que Talíria Petrone simplesmente chama de “compra de votos”. Na pandemia, o governo decidiu fazer um pagamento emergencial de 200 reais (33 francos) por mês, que foi então aumentado para 600 reais sob pressão dos partidos de esquerda no parlamento. Bolsonaro então tentou vender as transferências como “Ajuda Bolsonaro”.

Agora o seu governo acabou com um programa social de sucesso: «Bolsa Família» que foi fundada por Lula em 2003 e garantiu às famílias pobres uma renda básica. Em dezoito anos, salvou milhões de pessoas da fome e da pobreza, e as Nações Unidas recomendaram a outros países do Sul Global.

Em seu lugar,  Jair Bolsonaro lançou seu próprio programa: “Auxílio Brasil”. Mas esse programa termina em exatamente doze meses, logo após a eleição. É claro que o “Auxílio Brasil” foi inventado por Bolsonaro para atrair as vozes dos pobres que deveriam associar a entrega de dinheiro a ele e não mais a Lula.

Lula está na frente

Jair Bolsonaro agora está assegurando o poder político por meio de uma aliança com vários partidos de centro-direita no Congresso, o chamado Centrão. Eles estão impedindo que um processo de impeachment seja aberto contra ele e, pela primeira vez na história do Brasil, colocaram um cristão evangélico radical no Supremo Tribunal Federal. Mas o Centrão está  cobrando caro pelo apoio: por meio de liberações de dinheiro para projetos de seus parlamentares. A corrupção está sempre envolvida.

Apesar das contradições e incompetência de seu governo, Bolsonaro ocupa um sólido segundo lugar nas pesquisas que já estão ocorrendo. Em primeiro lugar está claramente Lula da Silva. O terceiro foi Sérgio Moro, ex-juiz e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro. É polêmico porque em 2018 ele condenou Lula à prisão em um julgamento questionável, que foi posteriormente anulado. Como Ministro da Justiça de Bolsonaro, ele renunciou após dezesseis meses no cargo. Moro é rejeitado pela esquerda e para os apoiadores de Jair Bolsonaro ele é um “traidor”. Mas a elite econômica o escolheu como candidato.

O fato de Lula, de 76 anos, entre todos os povos, agora ser o portador da esperança para a esquerda pode ser visto como um sinal de fraqueza. A esquerda não produziu uma personalidade carismática semelhante desde o fim de sua presidência em 2011, e os altos índices de aprovação para ele são principalmente o resultado de nostalgia. No reinado de Lula, as receitas de exportação de petróleo, minério de ferro e soja borbulhavam, os pobres estavam sendo ajudados, o consumo estava em alta e o real estava forte.

Mesmo assim, Taliria Petrone defende a candidatura de Lula porque ele é o único que pode unir a esquerda e tirar Bolsonaro do cargo. Para Aline Conceição, da favela do Campinho, já está claro em quem ela vai votar: “Comíamos carne com o Lula”, diz ela. Isso deve ser suficiente como resposta.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “WOZ Die Wochenzeitung [Aqui!].

Mais de 300 milhões de pessoas devem sofrer com a insegurança alimentar até 2050, aponta estudo

Novo relatório da Visão Mundial mostra como as mudanças climáticas afeta a produção de alimentos e o acesso das pessoas a nutrientes; entidade aponta que se negociações da COP26 fracassarem, crianças serão as mais afetadas

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São Paulo, novembro de 2021. Um novo relatório divulgado nesta quarta-feira (10) pela Visão Mundial – ONG humanitária de proteção da infância e da adolescência – aponta que 26% das crianças em todo o mundo sofreram de má-nutrição em 2020 e que a situação pode piorar se o quadro atual de mudanças climáticas não for revertido. De acordo com o estudo, o número de pessoas que enfrentam crises de fome aumentou de forma constante nos últimos cinco anos pela primeira vez em décadas. Se a mesma trajetória dos últimos for mantida, a entidade prevê que mais de 300 milhões de pessoas enfrentarão a insegurança alimentar até 2030.

O documento foi publicado faltando poucos dias para o encerramento da COP26, como forma de alertar líderes globais sobre as consequências desastrosas que um fracasso nas negociações em Glasgow pode ter sobre populações de todo o planeta. Intitulado Mudança Climática, Fome e Futuros das Crianças”, o relatório estuda a ligação entre as alterações no clima e o risco de fome nas populações, em especial as consequências a longo prazo na desnutrição de crianças.

“Crianças em todo o mundo têm relatado que experimentam o impacto devastador das mudanças climáticas todos os dias – e seus avisos devem ser ouvidos em alto e bom som pelos líderes da COP26”, diz o CEO e presidente internacional da Visão Mundial, Andrew Morley.

Figura: os dez países que mais poluem (esquerda) em comparação com os dez países com mais pessoas em situação aguda de insegurança alimentar (Fonte: Banco Mundial) – Divulgação

“Ouvimos histórias de partir o coração, de que a água está se tornando escassa e os meios de subsistência das famílias destruídos por tempestades, enchentes e secas recorrentes, que podem levar à fome e à desnutrição com riscos para a vida. As crianças muitas vezes não têm escolha a não ser abandonar a escola e são forçadas a trabalhar ou se casar por seus pais, que lutam para sobreviver”, completa.

Segundo o estudo, enquanto os países economicamente mais ricos produzem a grande maioria das emissões de gases de efeito estufa, os eventos climáticos extremos impactam, desproporcionalmente, os países de baixa renda de maneira mais aguda. 

Em 2018, Madagascar contribuiu com apenas 0,06% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas está enfrentando o que poderia ser o primeiro quadro de fome na história moderna causado pelas mudanças climáticas, com a insegurança alimentar afetando um total estimado de 1,14 milhão de pessoas.

Para comunidades em países em desenvolvimento, em especial na África e na América Latina, uma alta dependência da produção agrícola local se traduz um alto risco de devastação devido a eventos meteorológicos extremos. “Uma colheita que não dê certo pode ter resultados imediatos e consequências no comércio local, além de danos a longo prazo, limitando o acesso a alimentos nutritivos”, alerta i relatório, elaborado a partir de estatísticas de entidades como o Programa Alimentar Mundial e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

Em comparação com 2019, houve um acréscimo de pessoas afetadas pela fome, em 2020, de 46 milhões África, 57 milhões na Ásia e cerca de 14 milhões na América Latina e Caribe. “Quase uma em cada três pessoas no mundo (2,37 bilhões) não teve acesso a alimentos adequados em 2020 – um aumento de quase 320 milhões de pessoas em apenas um ano”, revela o documento da Visão Mundial.

“Conflitos, COVID-19 e mudança climática estão interagindo para criar novos e agravantes focos de fome e estão revertendo os ganhos que as famílias tiveram para escapar da pobreza”, explica o diretor de Advocacy e Relações Institucionais da Visão Mundial, Welinton Pereira.

A extinção do “Bolsa Família” sinaliza uma nova etapa na guerra aos pobres no Brasil

bolsa familiaGoverno Bolsonaro extingue “Bolsa Família” e deixa milhões de brasileiros passando fome e sem alternativas à vista

Em meio a mais um caso aparente de caos organizado, o governo Bolsonaro deixou morrer o “Bolsa Família“, sem que haja ainda um programa que permita a entrega de recursos para milhões de brasileiros que hoje passam fome.  Essa extinção por morte desassistida se soma a outras ações do governo Bolsonaro, como o virtual esvaziamento do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)  que tem contribuído para viabilizar a entrega de alimentos produzidos pela agricultura familiar em escolas públicas. Assim, para avançar as políticas ultraneoliberais que alimentam os lucros fabulosos e crescentes dos bancos, está evidente que o governo Bolsonaro decidiu exterminar todas as políticas sociais que, de alguma forma, serviram nos últimos 20 anos para aliviar a pobreza e a fome no Brasil.

Mas enquanto avança sua guerra contra os pobres, Jair Bolsonaro arranja um tempo para ser ignorado na cúpula do G-20 onde vem passando por situações embaraçosas, pois está sendo evitado por quase todo os líderes presentes. Mas nem isso parece ser um problema para o presidente brasileiro que vem aproveitando a agenda sem compromissos para praticar seu turismo de rua em Roma, como se no Brasil não houvessem milhões de pessoas passando fome (ver imagem de passeio de Jair Bolsonaro pelas ruas de Roma).

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A questão que merece ser refletida não é nem a posição de Jair Bolsonaro acerca dos pobres e da necessidade de manter uma estrutura de amortecimento para a crise social que as políticas de seu (des) governo agravaram. Bolsonaro e seu governo são, digamos, incorrigíveis. O problema maior são as elites econômicas que se comportam como se não houvesse nada de ruim ocorrendo sob o “Sol de parador”, pois está claro que se depender dos banqueiros e latifundiários, Jair Bolsonaro não só continuará presidindo o Brasil, mas como haverá cobrança para que aprofunde sua guerra contra os pobres.

Um elemento que também merece reflexão é sobre a posição dos partidos ditos de esquerda que nas suas administrações em estados e municípios não estão se comportando de forma muito diferente do governo federal. Isso revela que mesmo que Jair Bolsonaro seja derrotado eleitoralmente em 2022, haverá necessidade de se organizar a classe trabalhadora para enfrentar a devastação social e ambiental que suas políticas estão criando.  Em outras palavras, não se pode ter qualquer ilusão que a simples vitória eleitoral vai nos tirar do atoleiro em que fomos colocados pela dupla Bolsonaro e Guedes.

Ao olhar para ruas cada vez mais cheias de brasileiros desempregados e passando fome, a certeza que fica é que o caminho de saída não se fará pela via das urnas.

Mistura explosiva: endividamento, fome e o “Novo” Bolsa Família

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Por Luciane Soares da Silva*

Desde o início da pandemia em fevereiro de 2020, no Brasil, assistimos a um processo de deterioração das condições gerais de vida da população em todas as cidades. A visibilidade desta deterioração estava no aumento do número de famílias vivendo nas ruas, nas filas de emprego, na impossibilidade de cumprimento do isolamento social nas favelas. Vimos de perto formas de improvisação dos governos municipais, de negação do governo federal e de autoritarismo de governos estaduais que tentaram forçar seus servidores ao retorno presencial em mais de uma ocasião.  Um elemento comum deve ser destacado ao longo de toda a pandemia: a capacidade de organização da sociedade civil nos processos de resistência e fraternidade política. Nas favelas, foi mais comum que funcionassem ações coletivas para alimentação e medidas sanitárias do que ação efetiva das Prefeituras. Sindicatos da educação, da justiça e categorias organizadas rechaçaram as investidas de retorno ao trabalho de forma atabalhoada e colocando vidas em risco. Cidadãos comuns reuniram forças e organizaram entregas sistemáticas de alimento  à centenas de famílias em situação de pobreza e extrema pobreza. Movimentos de produção rural e  pequenos agricultores doaram toneladas de alimentos à população.

Os meses passaram, as mortes por COVID-19 aumentaram e passamos a lidar com duas frentes de problemas: uma crise sanitária e outra humanitária. Os auxílios recebidos não foram suficientes para enfrentar a insegurança alimentar que já estava na mesa dos brasileiros. Principalmente mulheres que chefiam famílias e vivem de trabalho informal. Principal grupo a perder suas fontes de renda com a pandemia. Não havia mais como vender alimentos em festas, realizar diárias, ocupar-se de trabalhos estéticos e uma infinidade de ocupações que dependem de um mercado de alimentação, lazer, turismo, serviços em geral.

Chegamos ao fim de 2021 com o fechamento natural deste quadro: o acirramento da pobreza. Na Portelinha, comunidade localizada em Campos dos Goytacazes, é certo arriscar que mais de 50% das famílias vive quadro de desemprego e insegurança alimentar. Para além disto, é possível supor que esta realidade pode ser amplificada para a cidade e capitais.  São milhões de desempregados e as cenas de pessoas revirando o lixo não produz qualquer efeito sobre o governo federal. Temos a comprovação de que o ministro da economia tem lucrado como nunca ao longo dos meses recentes. E é certo dizer que ele odeia pobres.

Que temos um presidente genocida, não é preciso repetir. Temos uma tarefa pela frente no dia 15 de novembro. E a considerar a gravidade do quadro de fome e desemprego no país, esta tarefa não é fácil. Será necessário reafirmar as bandeiras que foram levantadas ao longo destes dois anos. Sobre a importância do funcionalismo, do SUS, da Universidade, da Ciência. Será necessário denunciar os crimes ambientais cometidos pelo governo Bolsonaro e seus apoiadores. Mas talvez seja igualmente necessário fazer o diálogo com aqueles que neste momento estão revirando todo e qualquer lugar no qual possam encontrar alimento.  A experiência da fome é limítrofe pois estabelece para quem a vive, uma condição de não humanidade. Em um cenário de desigualdade no qual vemos estas diferenças de forma ampliada, será preciso quebrar algumas paredes e direcionar energia ao contato com periferias, zonas rurais, população em situação de rua e outros territórios em vulnerabilidade.

Com a chegada do Natal, dos embrulhos, perus, luzes, férias, viagens, todos este quadro parecerá ainda mais distópico. Com a segunda dose no braço, famílias planejam realizar encontros interrompidos. Quando as festas acabarem estaremos de frente para uma eleição. O candidato Bolsonaro pretende levantar sua popularidade com um novo auxílio. O Programa Auxílio Brasil pretende substituir o Bolsa Família. Além de ainda não ter uma clara dotação orçamentária, o programa institui penduricalhos meritocráticos. Existem pontos questionáveis sobre a relação entre creches e rede privada, uma vez que os municípios ficarão fora desta intermediação[1], bagunçando relações que podem ser melhor administradas a partir da esfera municipal. Das muitas mudanças cujo objetivo parece ser “incentivar” crianças, jovens e adultos a produzir melhor, a mais assustadora é certamente a que propõe consignar o auxílio. Exatamente: um incentivo ao micro empreendedorismo de pessoas em condição de extrema pobreza. Neste texto não será possível detalhar as implicações e fragilidades contidas na proposta. Mas vale a pena citar o conteúdo original da Medida Provisória 1.061 de 9 agosto de 2021 que institui o Programa Auxílio Brasil e o Programa Alimenta Brasil[2]:

Da consignação

Art. 23. Os beneficiários de programas federais de assistência social ou de transferência de renda poderão autorizar a União a proceder aos descontos em seu benefício, de forma irrevogável e irretratável, em favor de instituição financeira que opere modalidade de microcrédito, para fins de amortização de valores referentes ao pagamento mensal de empréstimos e financiamentos, até o limite de trinta por cento do valor do benefício, nos termos do regulamento.

Supondo que o auxílio seja suficiente para cobrir o valor atual de uma cesta básica em São Paulo, o que o governo pretende ao instituir um “consignado” sobre valores que mal possibilitam a alimentação de uma família?

Sabemos que há um risco real de que este auxílio reabilite Bolsonaro entre os mais pobres. Isto porque a economia não crescerá em 2022 no ritmo necessário para sanar a precariedade vivida por estas famílias. E possivelmente ele usará este instrumento para percorrer o Brasil em sua campanha. O Bolsa Família sempre foi o coração das administrações petistas. Não são poucas as críticas feitas ao programa, não são poucos os defensores do programa. O certo é que vivemos uma inflação galopante que inviabiliza qualquer recuperação da mínima dignidade da população em situação de extrema pobreza. A linha entre os remediados e os miseráveis vão perdendo seus contornos. É certo que alguém colhe estes dividendos. Economicamente. Politicamente.

Nosso desafio neste dia 15 de novembro é manter o diálogo com a população, evitando que um genocida assuma o poder por mais quatro anos a partir da  consignação da miséria alheia.

[1] https://piaui.folha.uol.com.br/o-que-muda-no-novo-bolsa-familia/

[2] https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/medida-provisoria-n-1.061-de-9-de-agosto-de-2021-337251007

**Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Agroindústria é falsa solução para a fome, afirmam especialistas

Webdossiê “Sistemas Alimentares: fome, corporações e alternativa”, organizado pela ONG FASE, reúne 9 especialistas em diferentes áreas para mostrar que monoculturas industrializadas agravam a situação da fome no país em vez de solucionar

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Técnicos do Fórum Econômico de Davos e da ONU afirmaram, na Cúpula Mundial dos Sistemas Alimentares, que o sistema alimentar do mundo está “quebrado”. Para eles, a capacidade do planeta em render frutos que alimentem toda a população humana está ameaçada; e apenas a agroindústria poderia resolver a crise. Mas será que as monoculturas são, de fato, o “celeiro do mundo”? Hoje, 70% da população global serve suas refeições com frutos da agricultura familiar e camponesa; e apenas 30% da população mundial é alimentada pela cadeia alimentar industrial. E você? Sabe de onde vem sua comida? A ONG FASE reuniu 9 especialistas para fazer o dossiê “Sistemas Alimentares: fome, corporações e alternativa”, onde são apontadas soluções alternativas à agroindústria. São profissionais de diferentes áreas; de nutrição e engenharia agrônoma até economia e antropologia.

O documento, disponível online a partir deste sábado (16), Dia Mundial de Combate à Fome,  no site sistemasalimentares.fase.org.br é um compilado de 9 artigos acompanhados de vídeos e entrevistas. Ele é dividido em quatro temas: “Fome é política”; “Políticas de abastecimento e compras públicas”; “Soberania Alimentar no campo-cidade”; e “Comer é um ato político”. O dossiê busca aprofundar o debate sobre as cadeias de produção de alimentos e as políticas de abastecimento, numa tentativa de explicar como como estes, entre muitos aspectos, influenciam na soberania e segurança alimentar da nação.

Falsas soluções

Seriam as monoculturas e os alimentos fortificados a solução mais efetiva para a questão da fome? A antropóloga Maria Emília Lisboa Pacheco afirma que não:

“As receitas tecnológicas que se apresentam não levam em conta os fatores ecológicos, socioeconômicos, culturais e os direitos humanos de um mundo onde cresce a fome, que já atinge cerca de 800 milhões de pessoas, onde cresce a obesidade e desnutrição, e onde acentuam-se as mudanças climáticas, caracterizando um cenário que vem sendo denominado de sindemia global.”

Maria Emília é representante do Fórum Brasileiro de Soberania, Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) e assessora do Programa Direito à Segurança Alimentar, Agroecologia e Economia Solidária da FASE.

Já sobre sobre os alimentos ditos “enriquecidos”, ela explica porque são um tiro no pé:

“Os riscos se expressam em possíveis efeitos tóxicos com a ingestão excessiva de nutrientes,  impactos na cultura alimentar, erosão genética  e interferência  na autonomia dos agricultores, guardiões da diversidade de sementes.”

Direito à alimentação de qualidade

A antropóloga explica, também, haver uma artificialização dos alimentos, fazendo com que eles se tornem produtos ultraprocessados que, segundo ela, não seriam comidas, mas sim fórmulas industriais:

“Atualmente cresce o seu consumo. Esses produtos não são propriamente alimentos, mas, sim, formulações industriais feitas inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, amido, proteínas), derivados de constituintes de alimentos (gorduras hidrogenadas, amido modificado) ou sintetizadas em laboratórios com base em matérias orgânica como petróleo  e carvão (corantes,  aromatizantes realçadores de sabor e vários tipos de ativos. Buscam dotar os produtos de propriedades sensoriais atraentes, com impactos na saúde, na cultura alimentar e na vida social, como nos ensina o Guia Alimentar para a população brasileira, tantas vezes contestado pelas empresas”.

Portanto, o que o dossiê mostra é que o direito à alimentação é um direito humano e deve ser feito com acesso ao que popularmente se conhece como “comida de verdade”. Ou seja, alimentos de origem natural, produzidos de forma sustentável.

Política da fome

Já o ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), Francisco Menezes, atual assessor de políticas da ActionAid, afirma que a fome no Brasil é um problema crônico e político. Ele conta que a situação de insegurança alimentar é agravada conforme avançamos na análise interseccional de gênero, raça e territorial. Estão em maior risco os lares chefiados por mulheres negras ou pardas e de baixa escolaridade. O acesso à alimentação de qualidade também é reduzido entre essas famílias.

Mesmo quando o Brasil saiu do Mapa da Fome, em 2014, mantiveram-se situações de fome entre indígenas, quilombolas e povos tradicionais. Segundo Menezes, faltou ao Brasil a democratização do acesso à terra e uma política nacional de abastecimento, cuja ausência provoca reflexo direto no preço dos alimentos atingindo desproporcionalmente a população mais pobre.

“Se o empobrecimento se acelerou com a pandemia, outro fator que intensificou a insegurança alimentar e a fome foi a elevação dos preços de alimentos básicos, impactando justamente aqueles mais pobres, em que a aquisição de alimentos pesa consideravelmente. Em 2020, o componente da alimentação na inflação foi três vezes maior do que o índice médio, por conta da elevação dos preços do arroz, feijão, óleos vegetais, carnes e até ovos, entre outros. Resultado da ausência de uma política de abastecimento voltada para a maior parte da população penalizando justamente aqueles mais vulneráveis”, afirma 

Soluções reais

Há, no entanto, outras estratégias de combate à fome para além da monocultura industrial. Os sistemas alimentares territoriais são construídos com técnicas baseadas nas experiências dos povos tradicionais e de agricultores familiares. Desta forma, se busca uma cadeia de produção mais justa e socialmente responsável, com foco no papel das mulheres e em tecnologias sociais. Quem produz alimentos diversificados protege a biodiversidade, a saúde e a natureza.

No centro destes princípios estão o Direito Humano à Alimentação e Nutrição Adequadas, a soberania alimentar, a agroecologia e os valores de justiça social e alimentar e da democracia.

Saiba mais: O que são sistemas alimentares?

Sistemas alimentares são o conjunto dos processos produtivos relacionados à alimentação. É todo o caminho que a comida percorre, desde a semeadura até a hora da refeição. Quando esses sistemas sofrem desequilíbrios, como a oferta massiva de alimentos superprocessados, as pessoas passam a se alimentar de forma não saudável. Consequentemente, a saúde da população é afetada, e isso acaba se tornando um problema global.

Saiba mais: O que é agroecologia?

Agroecologia-espírito-santo

Agroecologia é uma forma de agricultura sustentável que agrega conhecimentos formais, vindos das faculdades de agronomia, com os conhecimentos ancestrais de agricultores familiares e comunidades tradicionais. Seus métodos buscam superar os danos causados pela prática da monocultura, dos transgênicos, dos fertilizantes industriais e dos agrotóxicos.

A agroecologia tem uma perspectiva emancipatória.  Cada vez mais, ela se situa no campo do debate e das práticas com o objetivo da transformação dos sistemas alimentares em conexão com a natureza. Combinada com a perspectiva da soberania alimentar apresenta-se como alternativa hoje e para o futuro.

Na sua dimensão social, defende as relações de igualdade, reconhecendo que as mulheres historicamente são as guardiãs da biodiversidade e dos bens comuns. Posiciona-se contra o racismo e reconhece que uma sociedade pluriétnica, com diferentes formas de apropriação e uso da terra e dos bens da natureza, é um componente fundamental da democracia e do enfrentamento dos grandes desafios na relação entre sociedade e natureza.

Enquanto o povo come osso, JBS alcança lucro histórico com a exportação de carne

Enquanto aos pobres comem ossos, os irmãos Batista ficam cada vez mais ricos com os lucros fabulosos da JBS

A capa do jornal carioca “Extra” é uma espécie de síntese acabada da situação gerada pela política econômica executada pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019, pois mostra que o fenômeno da corrida aos ossos por brasileiros pobres está se tornando um fenômeno ampliado em todo o território nacional (ver imagem abaixo).

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Essa corrida aos ossos reflete não o fracasso, mas o sucesso da política de desnacionalização da economia brasileira, iniciada no governo do presidente “de facto” Michel Temer, e largamente ampliada pelo presidente Jair Bolsonaro a partir das políticas ultraneoliberais do seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes.

Esse sucesso está demonstrado de forma irrefutável na fila formada por brasileiros para coletar o descarte de ossos que os supermercados corriqueiramente realizam, e que antes eram usados como ração animal. Agora, graças ao sucesso das políticas da dupla Bolsonaro/Guedes restou aos brasileiros pobres correr atrás do “caminhão de ossos” em uma situação que explicita o nível de degradação econômica e social que tais políticas geraram.

A outra face do sucesso das políticas ultraneoliberais do governo Bolsonaro aparece sob a forma dos lucros astronômicos auferidos pela “campeã nacional”, a JBS, que alcançou incríveis R$ 4,4 bilhões de lucro apenas no terceiro trimestre de 2021, no mesmo exato período em que a fome avança como fogo em canavial em dia de vento (ver imagem abaixo).

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O interessante é que os lucros da JBS poderiam ter sido ainda maiores caso a corporação multinacional (muito em parte graças aos generosos aportes feitos durante o período Neodesenvolvimentista dos governos do PT), não estivesse enfrentando contratempos em suas operações de exportação no Brasil e o encarecimento com a compra de insumos usados na produção de ração animal.

O fato é que a corrida aos ossos pelos pobres e os lucros fabulosos da JBS são duas faces da mesma moeda que é a existência de políticas governamentais que têm permitido o aumento da concentração da riqueza em uma sociedade que historicamente é marcada por uma das maiores separações entre ricos e pobres em todo o planeta.

Reconhecer a insustentabilidade social que essa dicotomia é o primeiro requisito para qualquer possibilidade de que o Brasil possa sair da situação precaríssima em que se encontra neste momento. Além disso, há que se reconhecer que os pantomimas executadas pelo presidente Jair Bolsonaro para encobrir a catástrofe social que as políticas do seu governo estão gerando são apenas a ponta de um imenso iceberg que sintetiza uma verdade inescapável: vivemos sob os efeitos de um golpe de estado que dispensa a realização de outro como desejam os segmentos de extrema-direita que apoiam o status quo que comanda o Brasil neste momento, com militares, com STF, com tudo, como anteviu Romero Jucá no período em que se tramava a derrubada da presidente Dilma Rousseff.

Fuzil ou feijão, o que a maioria dos brasileiros quer? Jair Bolsonaro prefere fuzil porque não lhe falta feijão

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A pandemia da COVID-19 vem aumentando o número de pessoas sem emprego e sem casa, trazendo consigo um aumento acelerado das pessoas que estão passando fome no Brasil.  Essa situação deveria sensibilizar a todos os brasileiros, mas pelo menos um parece estar passando ao largo da miséria de milhares de famílias brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro.

É que, aproveitando o cercadinho preenchido com apoiadores, o presidente do Brasil aproveitou esta sexta-feira para fazer uma propaganda da compra de fuzis, enquanto chamava de idiotas aqueles que demandam ações para que o brasileiro possa comprar um item que até recentemente era básico na dieta dos brasileiros, o feijão (ver vídeo abaixo).

Ao se buscar o preço do fuzil 762, o que aparente ter a preferência de Jair Bolsonaro, o preço não sai por menos do que R$ 12 mil, ainda que este este possa ser vendido em 12 parcelas, mas ao preçode R$ 14.417,90.

Aí aparece a questão: o que será que a maioria dos brasileiros, e não a maioria de apoiadores que preenchem os cercadinhos abertos por Jair Bolsonaro para reverberar sua agenda política: fuzil ou feijão?

Antes que eu me esqueça: no mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro fazia propaganda de fuzil e criticava quem quer feijão na mão dos brasileiros,  uma de suas ex-esposas, Ana Cristina Valle, que é investigada no conhecido “Esquema das Rachadinhas” da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) se mudou para uma mansão de R$ 3,2 milhões na região do Lago Sul em Brasília para supostamente ajudar os negócios do seu filho Jair Renan a deslanchar.  Com certeza nessa mansão não deverá faltar feijão. 

Epidemia de fome que afeta milhões de brasileiros é capa no “The New York Times”

Dezenas de milhões de brasileiros enfrentam fome ou insegurança alimentar à medida que a crise da COVID-19  se arrasta no país, matando milhares de pessoas todos os dias

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Fazendo fila para almoçar fora de uma instituição de caridade católica em São Paulo. O número de pessoas que passam fome quase dobrou no Brasil recentemente

Ernesto Londoño e 

RIO DE JANEIRO – Adolescentes magricelas seguram cartazes em navios de cruzeiro com cartazes que dizem fome – fome – em letras grandes. As crianças, muitas delas sem ir à escola há mais de um ano, imploram por comida em supermercados e restaurantes. Famílias inteiras se espremem em acampamentos frágeis nas calçadas e pedem leite em pó para bebês, biscoitos ou qualquer outra coisa.

Um ano após a pandemia , milhões de brasileiros passam fome.

As cenas, que proliferaram nos últimos meses nas ruas do Brasil, são a prova cabal de que a tentativa do presidente Jair Bolsonaro – de proteger a economia do país evitando políticas públicas de saúde para controlar o vírus- falhou.

Desde o início do surto, o presidente brasileiro se mostra cético quanto ao impacto da doença e desdenha a orientação de especialistas em saúde, argumentando que os prejuízos econômicos dos fechamentos, a suspensão das atividades empresariais e as restrições de mobilidade que recomendaram ser uma ameaça maior do que a pandemia para a fraca economia do país.

Esse sacrifício causou uma das maiores taxas mortes no mundo, mas também falhou em seu objetivo: manter o país à tona

O vírus afeta o tecido social ao estabelecer recordes dolorosos, enquanto a crise da saúde se agrava e leva as empresas à falência, matando empregos e atrapalhando ainda mais o avanço de uma economia que há mais de seis anos praticamente não cresceu.

Daniela dos Santos prepara uma refeição no centro de São Paulo.  A pandemia exacerbou a crise econômica do Brasil e aumentou o número de desempregados e desabrigados.

Daniela dos Santos prepara uma refeição no centro de São Paulo. A pandemia exacerbou a crise econômica do Brasil e aumentou o número de desempregados e desabrigados

Os voluntários distribuem sopas e sanduíches.

Os voluntários distribuem sopas e sanduíches

No ano passado, as transferências emergenciais de dinheiro do governo ajudaram a colocar alimentos na mesa para milhões de brasileiros. Mas quando esse dinheiro foi reduzido este ano em face de uma crise de dúvida que se aproximava, muitos armários foram deixados vazios.

No ano passado, cerca de 19 milhões de pessoas passaram fome, quase o dobro dos 10 milhões que passaram por situação semelhante em 2018, o ano mais recente para o qual há dados, segundo o governo brasileiro e um estudo de privação durante a pandemia realizado por uma rede de pesquisadores brasileiros engajados no assunto.

E o estudo mostrou que cerca de 117 milhões de pessoas, ou cerca de 55 por cento da população do país, enfrentam insegurança alimentar com acesso incerto à nutrição em 2020, um salto enorme em relação aos 85 milhões que estavam nessa situação há dois anos.

“A forma como o governo lidou com o vírus agravou a pobreza e a desigualdade”, disse Douglas Belchior, fundador da UNEafro Brasil, uma das várias organizações que se uniram para arrecadar fundos para levar despensas a comunidades vulneráveis. “A fome é um problema sério e incurável no Brasil”.

Luana de Souza, 32, era uma das mães na fila do lado de fora de um banco de alimentos improvisado em uma tarde recente na esperança de conseguir um saco de feijão, arroz e óleo. Seu marido havia trabalhado em uma empresa de organização de eventos, mas ficou sem emprego no ano passado devido a oito milhões de pessoas que se juntaram ao desemprego no Brasil durante a pandemia e aumentaram a taxa de 14% ao vivo, de acordo com o Instituto de Geografia e Estatística. do Brasil.

No início, a família administrou cuidadosamente a ajuda do governo, disse De Souza, mas neste ano, quando cortaram os pagamentos, eles tiveram dificuldades.

“Não há trabalho”, disse ele. “E as contas continuam chegando.”

Ismael dos Santos pede moedas em semáforo

Ismael dos Santos pede moedas em semáforo

Membros de uma igreja evangélica distribuem cafés da manhã

Membros de uma igreja evangélica distribuem cafés da manhã

Em 2014, a economia brasileira entrou em recessão e não havia se recuperado quando a pandemia estourou. Bolsonaro costumava evocar a realidade de famílias como a de De Souza, que não podem ficar em casa sem trabalhar para argumentar que os bloqueios impostos pelos governos da Europa e de outros países ricos para impedir a disseminação do vírus eram insustentáveis ​​no Brasil.

No ano passado, governadores e prefeitos de todo o país decretaram a suspensão das atividades de negócios não essenciais e ordenaram restrições à mobilidade, medidas que Bolsonaro chamou de “extremas” e alertou que causariam desnutrição.

O presidente também descartou a ameaça do vírus, lançou dúvidas sobre as vacinas , que seu governo começou a obter tardiamente, e muitas vezes encorajou multidões de seus apoiadores em eventos políticos.

Uma segunda onda de casos este ano levou ao colapso do sistema de saúde em várias cidades, e as autoridades locais impuseram uma série de medidas duras e se viram em guerra com o Bolsonaro.

“As pessoas precisam de liberdade, de direito ao trabalho”, comentou no mês passado, dizendo que as novas medidas de quarentena impostas pelos governos locais equivaliam a viver em uma “ditadura”.

Este mês, quando o número de mortes diárias causadas pelo vírus ultrapassou 4.000, Bolsonaro reconheceu a gravidade da crise humanitária que seu país enfrenta. Mas ele não assumiu a responsabilidade e, em vez disso, culpou as autoridades locais.

“O Brasil está no limite”, disse ele, argumentando que a culpa foi de “quem fechou tudo”.

Mas economistas disseram ser “um falso dilema” dizer que as restrições ao controle do vírus agravariam a crise econômica do Brasil.

Em carta aberta às autoridades brasileiras no final de março, mais de 1.500 economistas e empresários pediram ao governo que imponha medidas mais rígidas, incluindo um bloqueio.

“Não é razoável esperar que a atividade econômica se recupere de uma epidemia descontrolada”, escreveram os especialistas.

A economista Laura Carvalho publicou um estudo que mostrou que as restrições podem ter um impacto negativo na saúde econômica de um país no curto prazo, mas que, no longo prazo, teria sido uma estratégia melhor.

“Se o Bolsonaro tivesse implementado medidas de confinamento, teríamos saído antes da crise econômica”, disse Carvalho, professor da Universidade de São Paulo.

A abordagem do Bolsonaro teve um amplo efeito desestabilizador, disse Thomas Conti, professor do Insper, uma escola de negócios.

“O real brasileiro foi a moeda mais desvalorizada entre todos os países em desenvolvimento”, disse Conti. “Estamos em um nível alarmante de desemprego, não há previsibilidade para o futuro do país, as regras orçamentárias são violadas e a inflação cresce sem parar”.

A comida é distribuída e batizados são realizados

A comida é distribuída e batizados são realizados

A deterioração da crise COVID-19 do país deixou Bolsonaro politicamente vulnerável. Este mês, o Senado lançou uma investigação sobre a forma como o governo está lidando com a pandemia. Espera-se que o inquérito documente erros, incluindo apoio governamental para medicamentos ineficazes para tratar COVID-19 e falta de suprimentos médicos básicos, como oxigênio. Algumas dessas falhas provavelmente serão responsabilizadas por causar mortes evitáveis.

Creomar de Souza, analista político e fundador da consultoria Dharma Politics em Brasília, disse que o presidente subestimou a ameaça que a pandemia representava para o país e não elaborou um plano abrangente para enfrentá-la.

“Eles acreditaram que não seria algo sério e presumiram que o sistema de saúde poderia cuidar disso”, disse ele.

De Souza disse que Bolsonaro sempre fez campanha e governou de forma combativa, apresentando-se aos eleitores como uma alternativa aos rivais perigosos. Sua resposta à pandemia foi consistente com aquele manual de operação, disse ele.

“A grande perda, além do aumento do número de vítimas nesta tragédia, é uma erosão da governança”, disse ele. “Estamos diante de um cenário altamente volátil, com muitos riscos políticos porque o governo não cumpriu as políticas públicas”.

Grupos de defesa e organizações de direitos começaram este ano uma campanha Tem Gente Com Fome , ou Pessoas com Fome, com a intenção de arrecadar fundos de empresas e indivíduos para entregar despensas às pessoas necessitadas em todo o país.

Belchior, um dos fundadores, disse que a campanha leva o nome de um poema do escritor e artista plástico Solano Trindade. Descreve cenas de miséria vividas no Rio de Janeiro, percorre bairros pobres dos quais o Estado esteve ausente por décadas.

“Mais e mais famílias estão pedindo comida para ser entregue mais cedo”, disse Belchior. “E dependem mais das ações da comunidade do que do governo”.

Uma fila de pessoas esperando a entrega da comida

Uma fila de pessoas esperando a entrega da comidaJoaquim Ribeiro procura material reciclável para vender.

Joaquim Ribeiro procura material reciclável para vender

Carine Lopes, 32, presidente de uma escola comunitária de balé em Manguinhos, um bairro da classe trabalhadora do Rio de Janeiro, respondeu à crise transformando sua organização em um centro de ajuda improvisado.

Desde o início da pandemia, o preço dos produtos básicos aumentou dramaticamente nas lojas próximas, disse ele. O custo do óleo de cozinha mais do que triplicou. Um quilo de arroz dobrou. À medida que a carne se tornou cada vez mais proibitiva, os churrascos aos domingos se tornaram uma raridade na vizinhança.

Por muito tempo, Lopes estava acostumado a receber ligações de pais que queriam desesperadamente uma vaga para seus filhos na escola de balé, mas agora ele se acostumou com algo muito diferente. Todos os dias, velhos conhecidos e desconhecidos lhe enviam mensagens de texto perguntando sobre as cestas básicas que a escola de balé distribui semanalmente.

“Essas mães e pais estão apenas pensando no básico agora”, disse ela. “Eles ligam e dizem: ‘Estou desempregado, não tenho mais nada para comer esta semana. Há algo que você possa nos dar? ‘

Quando o vírus finalmente desaparecer, as famílias mais pobres terão mais dificuldade para se recuperar, disse ele.

Lopes se desespera pensando em alunos que não conseguiram se conectar a aulas online de suas casas porque não têm conexão com a internet, ou onde o único aparelho com tela pertence a um pai / mãe que trabalha.

“Ninguém vai poder concorrer a uma bolsa com um aluno de classe média que conseguiu acompanhar as aulas com sua boa internet e seus tablets”, disse. “A desigualdade está se agravando.”

ny8 hungerEntrega de doações

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The New York Times” [Aqui!  ] .

Agronegócio esquizofrênico: supersafras bilionárias e um povo faminto

O Ministério da Agricultura comemora a supersafra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos. E a fome cada vez mais ronda famílias brasileiras

fome-no-brasilA China compra 80% da soja produzida no Brasil. A maior parte vai para a produção de ração para bovinos, suinos e aves

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O Ministério da Agricultura está exultante com a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos anunciada esta semana. Isso porque o resultado recorde representa 15,4 milhões de toneladas a mais que na safra 2019/2020. Um feito e tanto em tempos de pandemia de covid-19, que esfriou a economia ao afetar negócios e empregos e levar o país a um tombo de 4,1% em seu PIB, que já estava encolhido. E mais grave ainda: empurrou milhões de brasileiros para situação de pobreza extrema e de fome.

O milho teve uma produção recorde, de 108 milhões de toneladas, e com isso deve superar em 5,4% a safra anterior, diz o Ministério. No caso da soja, segue a tendência de crescimento na área cultivada, e ainda pode crescer 4,1%, com 135,1 milhões de toneladas. Já o arroz e o feijão de cada dia, que são base da dieta dos brasileiros, não alcançam tais patamares. Foram apenas 3,3 milhões de toneladas de feijão e 11 milhões de toneladas de arroz.

“Salvação da lavoura”

Há anos a agropecuária é considerada a “salvação da lavoura” quando o assunto é produção, exportações e balança comercial. Beneficiado por subsídios, como descontos e isenção de ICMS e de imposto de importação, fora o perdão de PIS e Cofins, o setor se acha. Tanto puxa brasa para a sua sardinha que se autointitulou “pop, tech e tudo”. E com tudo isso, a fome aumenta no país das supersafras e volta a assombrar milhões de brasileiros. Como isso é possível?

Dois anos antes da pandemia, entre junho de 2017 e julho de 2018, mais de 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer conforme a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE. Desse total, perto de 8 milhões moravam na zona urbana e pouco mais de 2 milhões na zona rural, onde a rigor se produzem alimentos. 

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Entre 2017 e 2018, 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer. Inação do governo na pandemia agravou a situação da fome no país. (Arquivo/Agência Brasil)

De acordo com a pesquisa, a insegurança alimentar grave – quando a pessoa relata passar fome – atingiu em cheio 4,6% das famílias brasileiras, o equivalente a 3,1 milhões de lares. E ainda segundo o IBGE, o quadro vem piorando. Aumentou 43,7% em cinco anos.  

Mais desigualdade

A tendência é que tenha se agravado com a pandemia, pois esta ao chegar já encontrou um Brasil marcado pelo aprofundamento da desigualdade social a partir do golpe de 2016. “Parte significativa dos trabalhadores está sem a proteção social do trabalho formal devido à crise estrutural do capitalismo”, destaca a socióloga Sirlândia Schappo. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sirlândia observa que essa crise de dimensões globais assola o país mais intensamente a partir de 2014. Em seu artigo “Fome e insegurança alimentar em tempos de pandemia da COVID-19“, ela assinala: “O reflexo imediato foi a ampliação do trabalho informal, que passou de 39,1% da população ocupada em 2014 para para 41,5% em 2018, segundo o IBGE”.

Ainda segundo Sirlânia, a pandemia pode ter ampliado em 56% a pobreza em países como o Brasil, como prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trabalhadores domésticos perderam o emprego. E, sem o apoio de políticas sociais, se viram diante da subnutrição e da falta de serviços básicos, como saneamento básico e saúde.

Plano safra

Logo que assumiu, o governo Bolsonaro apresentou um Plano Safra para 2019/2020 que já sinalizava as dificuldades que viriam pela frente. Dos R$ 225,59 bilhões destinados à agropecuária, o crédito rural ficou com R$ 222,74 bilhões. O problema é que desse montante, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) recebeu apenas R$ 31,22 bilhões. Como custear a produção e a comercialização?

“A partir de 2016, com o golpe e a Emenda 95, do teto de gastos, as políticas sociais e programas de transferência de renda foram sendo esvaziadas. Equipamentos de segurança alimentar, como banco de alimentos, foram fechados. Assim que tomou posse, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) não foi extinto, mas tem orçamento ridículo, de R$ 500 milhões. Esse montante, aliás, resulta de muita pressão das organizações da agricultura familiar durante a pandemia. Mas mesmo assim, esse orçamento ainda insuficiente não foi totalmente executado”, disse à RBA a assessora de Direitos Humanos da Fian BrasilNayara Côrtes.

combate à fomePequenos agricultores têm sido atacados. Alternativa econômica de geração de trabalho e renda e combate à fome não está na agenda do governo de Bolsonaro (Itesp)

Mais golpes

Para piorar, Jair Bolsonaro escolheu a agricultura familiar como inimiga. Além de ter excluido esses trabalhadores do auxilio emergencial de R$ 600, vetou quase que integralmente o Projeto de Lei (PL) 735/20. Apresentado em abril e só aprovado em agosto, foi quase que integralmente vetado, pois, de 20 itens, 17 foram derrubados.

Entre os pontos vetados estão o auxílio emergencial no valor de R$ 600 pagos em cinco parcelas, como aos trabalhadores urbanos, recursos para compras públicas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), renegociação e adiamento de dívidas e linhas de crédito emergenciais. Tudo o que era considerado essencial pelos agricultores. Até hoje é aguardada apreciação dos vetos, que depende de muita pressão para ser pautada.

Para Bolsonaro, não há previsão financeira para essas ações. No entanto, o governo concedeu benefícios ao agronegócio, facilitando o acesso a crédito e a financiamento de dívidas de grandes produtores e desoneração do segmento em contribuições à Seguridade Social.

Segundo levantamento da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e pelo Fórum Brasileiro pela Soberania e Segurança Alimentar (FBSSAN), em 2019 o rendimento total da agricultura familiar foi de aproximadamente R$ 27 milhões. O número de produtores de alimentos era 4,5 mil. Até setembro de 2020, os mesmos produtores venderam o equivalente a R$ 3,6 milhões.

Sem recursos para plantar

“Muitos não têm recursos para plantar e muitas vezes falta o que comer”, disse Nayara Côrtes. “Levamos anos para construir uma política de segurança alimentar para ser totalmente desconstruída em pouco tempo. E pensar que em 2014, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome para voltar 6 anos depois.”

O retrocesso é tão grande que há no Congresso a proposta de votação em regime de urgência de um projeto de interesse das indústrias. Trata-se do PL 3.292/2020, de autoria do deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO), que propõe mudar o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Entre as mudanças, abolir a compra de alimentos, da prioridade dada a comunidades tradicionais indígenas e de remanescentes de quilombos.

E a supersafra?

Conforme os autores do Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos –, não é de hoje que o discurso do combate à fome é utilizado para alavancar o desenvolvimento tecnológico com fins prioritariamente comerciais. Assim, a aplicação de mais tecnologia na produção agrícola é difundida como a única solução capaz de eliminar a escassez de alimentos e a carência de nutrientes.

Na realidade, porém, as supersafras servem apenas para dar lucro, e não para matar a fome da população. Nessa perspectiva, toneladas e toneladas de soja, milho, cana e outras commodities têm como destino o mercado mais lucrativo no momento, seja a produção de alimentos, agrocombustíveis ou ração para bovinos, suínos e aves. Esta aliás, tem sido a principal aplicação da soja comprada pela China, que corresponde a 80% da produção brasileira. É preciso alimentar a fome dos novos padrões alimentares adotados pelos chineses; ninguém come tanta soja assim.

Ironicamente, esse sistema alimenta a fome e a subnutrição. E por outro lado, o crescimento da obesidade, transtornos alimentares diversos e doenças crônicas. “Da mesma forma, as desigualdades e as injustiças socioambientais também fazem parte das contradições desse modelo em que a comida aparece como mercadoria, e a fome como um negócio com segmentos diversificados, que vão da ausência ao excesso”, dizem os autores do Atlas.

Engordar lucros

O cultivo de soja ou outros grãos nos latifúndios que avançam sobre assentamentos e terras indígenas e de povos tradicionais, ou nas lavouras que invadem a Amazônia, assim como o gado, não vão matar a fome daqueles que ainda possa comprar comida no Brasil. E sim engordar o lucro de empresas de exportação e importação desses produtos. É o caso da Archer Daniels Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company. E também das empresas de sementes transgênicas e agrotóxicos, como a Bayer, dona da Monsanto, a Basf, Dow e outras.

A saída, segundo especialistas, está em novas práticas que contribuam não apenas para a produção de alimentos e a soberania alimentar. Mas também com a produção sustentável de alimentos de verdade, livres de venenos, com a reconexão com a natureza, com respeito a quem produz e com a democratização do acesso ao direito à terra.

Terminal da Cargill Amsterdam, Holanda. Contraste com um mundo de fome (Alf van Beem/Wikimedia Commons)

fecho

Este texto foi publicado originalmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].