Avatar, Papa Francisco, inferno e paraíso na subida dos Andes

la pampa

Por Foster Brown e Vera Reis Brown*

Este título deve parecer um pouco confuso; nos deixe fazer as conexões.  O filme Avatar de 2009 de James Cameron é um dos filmes mais populares no mundo e tem gerado discussões diversas sobre seus temas[1]. Trata-se de uma lua extraterreste chamada Pandora coberta de uma floresta exuberante, com grupos nativos vivendo em harmonia com a natureza.   Humanos, procurando um elemento chamado unobtanio[2], chegaram a Pandora para fazer mineração, destruindo a floresta e ameaçando os grupos nativos.    Cameron disse que fez o filme como um alerta sobre o que estamos fazendo com o nosso planeta Terra, pois precisamos encontrar paz com a natureza[3].

O Papa Francisco publicou a sua Carta Encíclica Laudato Si em 2015, abordando o mesmo assunto – cuidar da nossa Casa Comum, a Terra, frente a deterioração ambiental e social que está acontecendo[4].  Dentro da Carta, o Papa enfatiza a mudança cultural que precisamos fazer, citando os povos indígenas da Amazônia como exemplo de como conviver com a natureza[5].  

No dia 19 de janeiro deste ano, o Papa visitou Puerto Maldonado em Madre de Dios, Peru, exatamente para detalhar a sua mensagem.  Ele se reuniu preferencialmente com lideranças indígenas de várias partes da Amazônia[6] e na sua mensagem a elas, ressaltou como suas culturas podem servir como modelos para conviver com a natureza: “Vós sois memória viva da missão que Deus confiou a todos: cuidar da Casa Comum.” Também criticou a cultura dos mineiros de ouro:  “Paralelamente, há outra devastação da vida que está associada com esta poluição ambiental causada pela extração ilegal. Refiro-me ao tráfico de pessoas: o trabalho escravo e o abuso sexual.”

Cameron e o Papa escolheram o contraste entre a mineração e a vida na floresta tropical como metáfora da relação da sociedade humana e a Terra.   Mineração aluvial de ouro, que predomina nas florestas Amazônicas de Madre de Dios e Cusco, promove impactos visualmente marcantes, as vezes criando terrenos semelhantes às crateras da lua.  Também os mineiros frequentemente usam o metal líquido e tóxico de mercúrio para concentrar o ouro.  Além destas características, este tipo de mineração atrai outras atividades degradantes, como o Papa notou.

No fim do ano tivemos a oportunidade de ir de carro de Puerto Maldonado a Cusco, passando via Quincemil, uma pequena cidade na subida dos Andes.  Quincemil é onde o Padre René Salizar, um ativista de direitos humanos e ambientais e amigo, atua.  

No caminho de Puerto Maldonado passamos a área de mineração chamada “Las Pampas” onde dezenas de milhares de mineiros trabalham na esperança de ficar ricos.  Os lados da estrada nesta área servem como lixão e deu para ver indicações de bordéis, etc. via as placas nas lojas.   Em suma, parece um pedaço do Inferno na Terra para a maioria dos seus residentes. 

Iniciando a subida dos Andes, chegamos a 600 metros de elevação em Quincemil, onde as chuvas são duas a três vezes maior do que as de Puerto Maldonado ou Rio Branco.   A floresta Amazônica fica ainda mais exuberante. Folhas de samambaia, por exemplo, são maiores do que uma pessoa.  Os rios fluem com força e nos lembrou as cenas do filme Avatar.

Mas a mineração tem chegado na vizinhança de Quincemil e serve como motor econômico da cidade. O Padre René nos pediu para fazer uma palestra sobre o que está acontecendo na Terra e distribuiu anúncios da palestra pela cidade.  Quem participou foi o grupo de estudo chamado Laudato Si que ele coordena e alguns oficiais da cidade. O seu grupo se sente pequeno frente as forças econômicas, mas afirmamos que mudanças podem acontecer se batalhar para isso.  Existem sinais de esperança, como Laudato Si do Papa.

O dia seguinte vimos um destes sinais. O secretário municipal de desenvolvimento social de Quincemil nos levou para conhecer o aterro sanitário que o município está construindo.   Ficamos impressionados com a qualidade da construção. A única preocupação que o secretário tinha foi a de poder convencer a população a pagar para usar o aterro.  Ele pediu que escrevêssemos um artigo para estimular o uso do referido aterro.

Se os residentes de Quincemil precisarem um incentivo, é só olhar o inferno de Las Pampas, comparando-o ao paraíso das florestas de Quincemil.  Vivemos num planeta finito;  chegou o momento em que não temos mais lugares para degradar. A sociedade humana é quem efetivamente decide se prefere morar num inferno ou num paraíso.

cachoeira

Cachoeira entre Masuko e Quincemil, Carretera Interoceanica, Peru. 27Dez17.

A decisão não depende somente de mineiros no Peru. Afinal nós consumimos ouro para obturações dentárias e nos celulares.  A nossa demanda ajuda a degradar o paraíso. 

A Amazônia é a nossa Pandora e o Papa reafirma que a maneira como estamos tratando os povos e o ambiente da Amazônia vai levar a deterioração social e ambiental. A escolha de Quincemil é uma escolha que todos fazemos, talvez em termos menos marcantes. Afinal, algumas das piores deteriorações ambientais são quase invisíveis, como o acúmulo de gás carbônico na atmosfera ou de mercúrio em ecossistemas aquáticos da Amazônia. 

Os residentes de Quincemil precisam decidir se vão pagar os custos de depositar o seu lixo num aterro, e também decidir se a mineração vai produzir um paraíso ou um inferno. Nós precisamos fazer decisões equivalentes.  Nesta terra incógnita de novos paradigmas e valores, guias éticos como a Carta da Terra[7] e a Carta Encíclica Laudato Si do Papa Francisco podem ajudar.  

A chave é buscar as soluções, porque não buscar significa seguir as tendências atuais. As tendências vão nos levar mais provavelmente ao inferno no lugar de paraíso, seja na subida dos Andes, seja nas margens do Rio Acre.     

* Foster Brown é pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) e do Curso de Mestrado em Ciências Florestais (CiFlor) da UFAC. Cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT Servamb e do Grupo de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da UFAC. Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre (CEGdRA). Coordenador do Projeto MAP- Resiliência.   Vera Reis Brown,  Bióloga, Mestre e Doutora em Engenharia Ambiental pela Universidade de São Paulo/USP; Diretora técnica do Instituto de Mudanças Climáticas e Regulação dos Serviços Ambientais do Estado do Acre – IMC; Secretaria Executiva da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais – CEGdRA/Sema; e Professora dos cursos de Ciências Biológicas e Arquitetura da Uninorte

Este artigo foi publicado originalmente no Jornal A Gazeta, pC1-2, 30jan18.  http://agazetadoacre.com/avatar-papa-francisco-inferno-e-paraiso-na-subida-dos-andes/

[1] https://en.wikipedia.org/wiki/Themes_in_Avatar; http://www.thegeektwins.com/2010/05/flawed-science-of-avatar-floating.html; ;

[2] http://james-camerons-avatar.wikia.com/wiki/Unobtanium

[3] http://www.telegraph.co.uk/culture/film/film-news/6782339/James-Cameron-says-Avatar-a-message-to-stop-damaging-environment.html

[4] https://en.wikipedia.org/wiki/Laudato_si%27

[5] Laudato Si  P38, Amazonia, P144-146. aborigenas

[6] https://thetablet.org/pope-francis-speech-to-the-amazon-people-puerto-maldonado-peru/; http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2018/january/documents/papa-francesco_20180119_peru-puertomaldonado-popoliamazzonia.html

[7] http://www.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-21/carta-da-terra; http://earthcharter.org/

Mudança de paradigma – o colapso de populações naturais de seres vivos está minando o funcionamento da biosfera

 Resultado de imagem para biosphere and collapse of natural populations

Por Foster Brown*

Paradigmas[1] são ideias básicas que usamos para construir a nossa visão do mundo. Em sua essência, eles servem como simplificações que nós humanos aplicamos para lidar com a vida.   Um paradigma reinante ainda em algumas mentes é que a Natureza é bonita, mas dispensável.  Precisamos fazê-la nossa servente ou eliminá-la se ficar inconveniente. A Amazônia como fronteira para ser conquistada, faz parte deste paradigma.  Aliás, este paradigma tem servido a humanidade para a grande parte da sua história, por bem e por mal. 

A ciência fez a sua parte neste paradigma de dominação via a geração de conhecimento que foi usado para controlar a Natureza. Mas ao mesmo tempo, a ciência revelou que a separação entre humanos e a Natureza é artificial.

A ligação começa com a observação que o oxigênio molecular, que faz um quinto da nossa atmosfera, é basicamente ausente nos outros planetas do nosso sistema solar. O oxigênio é um produto da Natureza ou, usando um termo mais atual, da biosfera[2] – o conjunto de ecossistemas que fazem a vida no nosso planeta.

Ele é tão fundamental que esquecemos do seu papel, que pode ser revelado via a pergunta – quanto tempo se pode viver sem respirar?  O acúmulo de oxigênio e o regulamento da sua concentração e outros gases, como gás carbônico, metano e nitrogênio durante dezenas a centenas de milhões de anos foi um resultado de processos mediados pela biosfera, especialmente pelas plantas, bactérias e animais, principalmente os invertebrados.   

Mas a ciência tem suas limitações e no momento, temos dificuldade de entender exatamente como a biosfera participa nestes ciclos que mantêm condições propicias para a vida no planeta. 

Nem sempre as condições foram tão propicias e no registro geológico podemos encontrar cinco períodos de grandes extinções nos últimos quatro centos e quarenta milhões de anos, começando com o Ordoviciano-Siluriano, depois o  Devoniano  (365 milhões de anos atrás), Permiano-Triássico (250 milhões de anos atrás) , Triássico-Jurássico (210 milhões de anos atrás) e Cretáceo-Terciário (65.5 milhões de anos atrás).[3]    Mas recentemente embarcamos numa sexta extinção.

Esta sexta extinção tem algumas diferenças.  Primeiro, somos nós que estamos causando estas extinções.  Segundo, em comparação com a maioria das outras extinções, a velocidade é extremamente rápida. Terceiro, as ações nos próximos anos e décadas vão influenciar decisivamente a severidade desta sexta extinção.

Mas é importante ressaltar que o jogo é muito mais do que a extinção de uma ou outra espécie, ele envolve a inoperância que a redução e eventual extinção de animais e plantas causam nos ciclos que mantêm a vida.  

Além da destruição de habitats como causa de extinções, as mudanças climáticas estão alterando ambientes rapidamente.  Alguns céticos[4] finalmente convencidos que as mudanças são reais,  agora falam de quem ganha e quem perde com as mudanças, como se fosse um jogo de futebol. Só que num jogo de futebol, 50% ganha e 50% perde e não 99+% perdendo e menos de um por cento ganhando.

Outros acham que evolução vai resolver as extinções com a criação de novas espécies.[5]  Mas estas novas espécies não vão repovoar áreas empobrecidas durante a minha vida nem na vida do meus bis-bis-bis netos. Sim, algumas bactérias vão ganhar, como as que produzem metano na região de tundra que já está aquecendo extremamente rápido e podem gerar uma bomba de metano, acelerando mais ainda o aquecimento global[6].  

Neste contexto, li dois artigos recentemente que aumentaram mais ainda a minha preocupação[7].  Na Alemanha em várias áreas de preservação foram levantadas as concentrações de insetos voadores desde 1986.  O estudo encontrou um decréscimo de mais de 75% na biomassa deles em 27 anos[8]. Seria melhor dizer que foi um colapso nas populações. Para os que só sabe que mosquitos de dengue e zika são insetos, uma queda destes parece legal, mas insetos fazem funcionar muitos processos em ecossistemas, desde polinização de plantas até a reciclagem da vegetação e da bosta de animais e formam a base da cadeia trófica. Podemos achar ou esperar que isto é um fenômeno restrito a Alemanha, mas as indicações são que não.   

Num outro estudo[9] usando animais conhecidos como vertebrados (os peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos), os autores usaram a frase “aniquilação biológica” no título para descrever a tendência atual. Eles encontraram colapsos de populações, especialmente de mamíferos, causados por uma variedade de pressões humanas e estimaram que já houve uma queda de 50% nos números de indivíduos de vertebrados com uma tendência de acelerar a queda.  

Se as populações, sejam de animais, microrganismos ou plantas, estão em colapso, também estão em colapso os serviços que os ecossistemas fornecem.  Um caso serve como exemplo. Quem bebe água que vem da ETA II em Rio Branco, estaria bebendo o xixi de Xapuri, Brasiléia, Epitaciolândia e Cobija, se não fosse o serviço ambiental oriundo do ecossistema aquático do Rio Acre que purifica as águas de esgoto lançados pelas cidades a montante. Mas a capacidade deste ecossistema não é infinita e tem seus limites.

O Papa Francisco capturou a essência do novo paradigma e repetiu cinco vezes na sua carta Encíclica Laudato Si:  “Tudo está interligado. ” A continuação de colapsos de populações de insetos, vertebrados, até plantas como árvores emergentes nas florestas da Amazônia, vai gerar impactos na sociedade humana.  O futuro da biosfera está entrelaçado com o nosso. Afinal somos todos interligados. 

igreja

Pintura na frente da diocese da Igreja Católica de Iberia, Madre de Dios, Peru. 26nov17.

Referencias discutidas: Hallmann et al. (2017) PLoS ONE 12 (10): e0185809. https:// doi.org/ 10.1371/ journal. pone.0185809

Ceballos et al. (2017) PNAS. E6089–96. https:// doi.org/ 10.1073/ pnas.1704949114.

*Foster Brown é pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) e do Curso de Mestrado em Ciências Florestais (CiFlor) da UFAC. Cientista do Programa de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT Servamb e do Grupo de Gestão de Riscos de Desastres do Parque Zoobotânico (PZ) da UFAC. Membro do Consórcio Madre de Dios e da Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais do Acre (CEGdRA). Coordenador do Projeto MAP- Resiliência


[1] https://www.significados.com.br/paradigma/; https://en.wikipedia.org/wiki/Paradigm

[2] https://en.wikipedia.org/wiki/Biosphere

[3] https://www.amnh.org/exhibitions/dinosaurs-ancient-fossils-new-discoveries/extinction/mass-extinction/; https://supertela.net/curiosidades/astronomia/as-5-grandes-extincoes-em-massa-que-ja-ocorreram-na-terra/

 [4] https://www.bostonglobe.com/opinion/2017/12/06/fewer-deaths-more-greenery-and-other-global-warming-benefits/DgYdJLE1zv4zAZ84BPMOvO/story.html

[5] https://www.washingtonpost.com/outlook/we-dont-need-to-save-endangered-species-extinction-is-part-of-evolution/2017/11/21/57fc5658-cdb4-11e7-a1a3-0d1e45a6de3d_story.html

[6] McCalley, Carmody K., Ben J. Woodcroft, Suzanne B. Hodgkins, Richard A. Wehr, Eun-Hae Kim, Rhiannon Mondav, Patrick M. Crill, et al. “Methane Dynamics Regulated by Microbial Community Response to Permafrost Thaw.” Nature 514 (October 22, 2014): 478.

[7] https://www.nytimes.com/2017/10/29/opinion/insect-armageddon-ecosystem-.html?_r=0.

[8] : Hallmann CA, Sorg M, Jongejans E, Siepel H, Hofland N, Schwan H, et al. (2017) More than 75 percent decline over 27 years in total flying insect biomass in protected areas. PLoS ONE 12 (10): e0185809. https://doi.org/10.1371/journal. pone.0185809

[9] Ceballos, Gerardo, Paul R. Ehrlich, and Rodolfo Dirzo. “Biological Annihilation via the Ongoing Sixth Mass Extinction Signaled by Vertebrate Population Losses and Declines.” Proceedings of the National Academy of Sciences 114, no. 30 (July 25, 2017): E6089–96. https://doi.org/10.1073/pnas.1704949114.

 Artigo publicado no Jornal A Gazeta, Rio Branco, Acre, Brasil.  P. C1-2. 12dez17.   http://agazetadoacre.com/mudanca-de-paradigma-o-colapso-de-populacoes-naturais-de-seres-vivos-esta-minando-o-funcionamento-da-biosfera/