França lança plano para evitar desmatamento que pode impactar soja transgênica

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Parcela da Floresta Amazônica desmatada para uso de agricultores. REUTERS/Nacho Doce

Por RFI

O governo francês adotou nesta quarta-feira (14) sua “Estratégia Nacional contra o Desmatamento Importado (SNDI)”. O plano interministerial prometido ao ex-ministro ecologista Nicolas Hulot tem como objetivo oficial “encerrar até 2030 o desmatamento causado pela importação de produtos florestais ou agrícolas não sustentáveis”, o que pode ter impacto na soja transgênica produzida no Brasil e em outros países da América Latina, destinada à alimentação do gado, além do óleo de palma do sudeste da Ásia e o cacau da África.

Um relatório recente da ONG WWF mostrou que nos últimos cinco anos a França contribuiu potencialmente para o desmatamento de 5,1 milhões de hectares apenas com a importação de sete matérias-primas, incluindo a soja, o couro e o dendê. Entre 1990 e 2015, a área florestal do planeta foi reduzida em 129 milhões de hectares, uma superfície equivalente ao dobro do tamanho do território francês. Esse desmatamento é responsável por cerca de 11% das emissões globais de gases de efeito estufa e tem consequências desastrosas para a biodiversidade.

De acordo com cálculos da ONG Envol Vert, divulgados na semana passada, os hábitos de consumo dos franceses (carne, ovos, couro, agrocombustíveis, cacau, borracha etc.) levam a um desmatamento anual massiço.

O plano de 17 medidas propõe uma mudança nas práticas de todos os atores do mercado, começando pelos países produtores dessas matérias-primas. No entanto, a iniciativa não tem caráter vinculante nem prevê sanções.

Monitoramento visual das áreas desmatadas

No início de 2019, será lançada uma plataforma onde as empresas francesas importadoras desse tipo de insumo poderão se informar sobre produtos de origem duvidosa, tendo acesso a dados de controles de fronteira aprimorados, dados alfandegários e de monitoramento por satélite da cobertura florestal. Essa plataforma também terá a missão de desenvolver até 2020 um selo de “desmatamento zero” para orientar os consumidores. O plano não prevê multas ou a proibição de importações, mas aposta numa mudança de mentalidade para reduzir o desmatamento.

As matérias agrícolas visadas inicialmente pelas medidas são soja, óleo de palma, carne bovina, cacau, borracha e madeira. Mas a lista poderá ser acrescida de outros produtos, como café, algodão, cana-de-açúcar, milho e produtos de mineração, em etapas de revisão do dispositivo previstas em 2020 e 2025.

Campanha de imagem

Em relação à soja transgênica utilizada na alimentação do gado, a intenção do governo é promover alternativas, em discussão com os produtores, para alcançar a autonomia proteica a partir de 2030. Mas nada impede que até lá atores públicos, como municípios e regiões, além de empresas, adotem a tática de “nomear para envergonhar” (“name and shame), educando os consumidores para marcas e produtos que não respeitam as florestas, disse o Ministério da Transição Ecológica.

O diretor-geral da WWF na França, Pascal Canfin, felicitou o governo pela “estratégia nacional mais completa produzida até hoje nessa área”. A iniciativa propõe “um ângulo concreto” para enfrentar o declínio da biodiversidade, afirma Canfin, um tema que ainda enfrenta lacunas jurídicas e de conteúdo político e diplomático sensíveis. Segundo Canfin, as mudanças vão depender da capacidade de liderança política e da mobilização da sociedade civil nessa direção.

Já a ONG Greenpeace considerou “tímidos” os avanços do governo e lembrou que o plano não remedia a autorização concedida à petrolídera Total para importar 550 mil toneladas de óleo de palma para sua biorefinaria de La Mède (sul). Clément Senechal, responsável pela campanha de florestas na Greenpeace França, criticou a falta de mecanismos de coerção no plano, nenhuma proibição ou regulação. “Como poderemos freiar o desmatamento dessa forma?”, questionou Senechal.

FONTE: http://br.rfi.fr/franca/20181114-franca-lanca-plano-para-evitar-desmatamento-que-pode-impactar-soja-transgenica?fbclid=IwAR0FrSGr_ODzMxxQ6uFNW4BKZZKyjOnNUVj2NaxEHekBJUB-dMoza5EywTg

 

França proíbe neonicotinóides a partir de 1º de setembro

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Os pesticidas neonicotinóides, amplamente vistos como uma das principais causas do declínio das populações de abelhas, devem ser proibidos na França a partir deste sábado, 1º de setembro.

A proibição se estenderá a sete inseticidas neurotóxicos – acetamipride, clotianidina, imidaclopride, tiaclopride, tiametoxam, nitenpiram e dinotefurano – e é projetada para proteger o número de abelhas em declínio e o resultante fracasso das colheitas.

Disponível desde meados da década de 1990, os pesticidas neonicotinóides têm sido usados ​​com frequência para se livrarem de lagartas venenosas de chenille, cochonilhas, pulgões e tatuzinhos, e são amplamente descritos como os pesticidas mais comumente usados ​​no mundo.

No entanto, os neonicotinóides – mesmo em pequenas quantidades – foram responsabilizados pelo declínio do número de abelhas e problemas associados, com  apicultores notando um declínio significativo na atividade das colmeias, e um aumento nas taxas de mortalidade desde a introdução dos pesticidas.

As substâncias já estão sob restrição da UE desde 2013.

Em abril, a UE proibiu o uso de clotianidina, tiametoxam e imidaclopride de uso em fazendas e campos (embora ainda sejam permitidos em estufas), com a proibição entrando em vigor em 19 de dezembro deste ano.

A França irá mais longe, com uma lei de biodiversidade feita em 2016, banindo finalmente todas as substâncias em questão a partir de 1º de setembro.

Exceções podem ser concedidas até 1º de julho de 2020, mas apenas para pesticidas feitos com acetamipride, e apenas em “pequenas quantidades”, disse o ministro francês para a transição ecológica.

No entanto, algumas organizações ambientais pediram ao governo que vá ainda mais longe, banindo totalmente os pesticidas, muitas vezes chamados de “neonicotinóides de nova geração”.

Estes incluem a flupiradifurona (que já não é permitida na França) e o sulfoxaflor, um ingrediente ativo em muitos pesticidas – embora uma campanha para suspender a venda do último ano passado tenha sido bem-sucedida.

François Veillerette, da ONG Générations Futures, disse: “Não devemos parar de proibir apenas esta família [de pesticidas]. Muitos outros também deveriam ser banidos ”.

A proibição não foi bem recebida pelos agricultores e produtores, que dizem estar em um “impasse dramático” e alegam não ter opções definitivas de substituição para as substâncias proibidas.

Apesar disso, a Agência Francesa de Segurança Alimentar l’Agence Nationale de Sécurité Sanitaire de l’Alimentation, de l’Environnement et du Travail (Anses) sustentou que “existem substitutos suficientemente eficientes e operacionais” para a grande maioria dos usos atualmente permitidos. de neonicotinóides.

FONTE: https://www.connexionfrance.com/French-news/Neonicotinoids-pesticides-to-be-banned-in-France-from-September-1-2018

A França, uso intensivo de agrotóxicos, e sua primavera silenciosa

Bruant proyer

O jornal britânico “The Guardian” repercutiu no dia de hoje (21/03) uma matéria publicada originalmente pela agência France Press  que publicou os resultados de duas pesquisas (uma em escala nacional e outra em escala local) dando conta que está ocorrendo uma diminuição acelerada de população de pássaros na França por causa, principalmente, do aumento no uso de agrotóxicos apenas nos últimos 15 anos [1].

No que pode se transformar na consumação da previsão feita pela bióloga Rachel Carlson no hoje clássico “Primavera Silenciosa”, lançado originalmente em 1962, que notou já no final da década de 1950 os ricos colocados pelo uso de agrotóxicos nas populações de aves [2],  pesquisadores do Museu Nacional de História Natural (MNHN) e do Centro Nacional para a Pesquisa Científica  (CNRS) da França encontraram evidências de que as populações de várias espécies de pássaros já diminuíram em  pelo menos 70% nas últimas décadas. 

As causas dessa diminuição está a diminuição das fontes de alimento, principalmente insetos, e também o aumento da área cultivada com monoculturas que, por sua vez, diminui as áreas em pousio.

Para os pesquisadores do MNHN o ritmo de diminuição na população de aves já beira uma catástrofe ecológica, na medida em que, apesar dos objetivos traçados pelo governo francês de cortar o uso de agrotóxicos pela metade até 2020, a quantidade usada pelos agricultores franceses vem aumentando nos últimos anos.

Ainda segundo os pesquisadores franceses, as tendências observadas na França também estão sendo observadas no resto da Europa, o que torna ainda mais grave as descobertas feitas por eles.

Não custa observar que o uso de agrotóxicos é fortemente regulado na União Européia, enquanto que muitos princípios ativos que foram banidos por lá estão sendo vendidos legalmente no Brasil.  Em outras palavras, o que está ruim na França pode estar ainda pior no Brasil.

Quem desejar ler o comunicado conjunto do MNHN e do CNRS sobre a pesquisa que detectou a diminuição das populações de aves na França,  basta clicar [ Aqui!]


[1] https://www.theguardian.com/world/2018/mar/21/catastrophe-as-frances-bird-population-collapses-due-to-pesticides

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Rachel_Carson

Repressão policial durante a final da Eurocopa: futebol e luta de classes na França

Os locutores das emissoras das Organizações Globo nem se deram ao trabalho de citar, mas mesmo durante o jogo final da Eurocopa, a repressão policial comeu solta nas proximidades da tal “fan zone” instalada nas proximidades da Torre Eiffel, como mostram as imagens abaixo.

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Felizmente para os trabalhadores franceses, o governo socialista (socialista?) não vai poder usar um título que não veio para calar a revolta dos trabalhadores e da juventude que hoje lutam em defesa de seus direitos na França.

 

Com ou sem “Euro Copa” a França ferve em revolta

Hoje começa a chamada “Euro Copa” em Paris. Mas outro acontecimento que parece não dar sinal de abatimento é a revolta generalizada da classe trabalhadora e da juventude francesas contra a chamada “Lei Khmori” que ataca frontalmente direitos duramente conquistados ao longo da história.

E o governo do pseudo Partido Socialista (PS) sabe que o resto da Europa assiste com cuidado o que está acontecendo na França, pois a forte reação que está ocorrendo poderá afetar outros países que tentem o mesmo tipo de caçada aos direitos conquistados pela luta dos trabalhadores.

Abaixo um vídeo mostrando uma manifestação ocorrida em Paris na semana passada e que está tendo repetições ao longo da França todos os dias. 

França 2016, a revolta escondida

Uma revolta que une trabalhadores e a juventude sacode diariamente a França há vários meses, e sem qualquer sinal de que vai acabar.  As marchas e enfrentamentos entre uma massa revoltada com a caçada aos seus direitos e a polícia vem causando comparações não com o Maio de 1968, mas com outra insurreição ainda mais sangrenta ocorrida em março de 1871, a da Comuna de Paris.

Se olharmos a maioria dos veículos da mídia corporativa (brasileira e mundial) o silêncio é quase completo. Até parece que as coisas mais importantes que estão ocorrendo na França são o Torneio de Roland Garros e a Copa de Seleções da Europa que deverá ser iniciada no dia 10 de junho.

Por que tanto silêncio em torno da revolta que varre a França? No caso do Brasil, é provável que seja a grande semelhança entre a reforma das leis trabalhistas francesas que o presidente socialista (socialista?) François Hollande impôs por decreto com aquilo que o presidente interino Michel Temer anuncia que vai fazer com a CLT, qual seja, desmontá-las para aumentar o lucro dos patrões.

Em outras palavras, o silêncio é por medo de que haja um efeito de contágio e que também aqui haja a mesma poderosa aliança entre a classe operária e a juventude. E com uma diferença bastante clara: enquanto François Hollande foi eleito, Michel Temer chegou ao poder interino por meio do que está sendo rotulado de “soft coup d´état” (golpe de Estado suave como chamou o Papa Francisco).

Quero ainda notar que a revolta em curso na França serve para enterrar certos modismos acadêmicos de “teóricos”, os ditos pós-modernos, que previam que a classe operária havia perdido sua centralidade na luta por justiça social. Ao se levantar contra a Lei Khomri, arrastando consigo a juventude e os camponeses, os trabalhadores franceses mostram de forma evidente que não há mudança que não passe pela classe operária organizada.

E uma última palavra para as burocracias sindicais que continuam freando a organização da classe trabalhadora no Brasil: se o que estamos vendo na França, e por contágio na Bélgica, chegar nos trópicos, não serão apenas os líderes políticos da burguesia que serão varridos do mapa. 

E abaixo dois vídeos que mostra apenas dois dos milhares de enfrentamentos que estão ocorrendo na França por causa da reforma trabalhista que cassa direitos em nome da empregabilidade. E por tudo o que essa revolta representa para os trabalhadores e a juventude do mundo, meus votos é que o resultado alcançado seja a derrota da Lei Khomri.

As elites brasileiras adoram a França. Deviam ver o que anda acontecendo por lá!

As elites brasileiras adoram gastar suas fortunas na França. Muitos vão para lá em seus jatinhos particulares, alugam limusines e saem pelo país gastando partes de suas fortunas. Aliás, isso também se estende a parlamentares como Eduardo Cunha e a governadores como Sérgio Cabral. Em suma, a França aguça o que há de “melhor” nas elites brasileiras.

Pois bem, com a iminente tomada do poder por Michel Temer, uma série de medidas estão sendo anunciadas para dilapidar direitos sociais e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Pois bem, o presidente francês François Hollande vive nesse momento uma profunda revolta social por ter proposta coisas muito semelhantes ao que Michel Temer vem anunciando que adotará.

Bom, como eles adoram tanto a França, as imagens abaixo deviam ver como os trabalhadores e a juventude estão respondendo à tentativa de precarização de seus direitos.  É que acontece na França, poderá bem acontecer por aqui. E Vive le France!