Cortes na ciência e tecnologia vão agravar fuga de cérebros

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Intencional ou não, um dos primeiros efeitos que os cortes draconianos que foram executados pelo ministro Abraham Weintraub, aquele que possui dificuldades extremas com o cálculo de porcentagens, no sistema nacional de pós-graduação será acelerar um processo que historicamente drena recursos humanos do Brasil que é conhecido pela alcunha de “fuga de cérebros”. 

Esse processo não é de hoje, mas será aprofundado por uma opção de retirar investimentos da ciência e tecnologia para encher os cofres dos grandes agentes internacionais e nacionais que fazem a festa com dinheiro público a partir da especulação financeira.

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Eu já vinha sendo procurado por jovens pesquisadores interessados em sair do Brasil para procurar oportunidades de treinamento em nível de pós-graduação em centros como Canadá e Austrália.  Essas conversas geralmente revolviam em torno da necessidade de manter ou aprofundar treinamentos iniciados no Brasil em países onde há maior estabilidade no aporte de verbas.  Como realizei no meu doutorado e meu pós-doutorado nos EUA, quem me procurou estava buscando informações sobre como não só acessar programas em universidades estrangeiras, mas também sobreviver ao duro teste que é viver fora do Brasil enquanto se estuda e faz pesquisas.

O que os presentes cortes drásticos feitos pelo governo Bolsonaro acabarão causando, em um sistema que objetivamente se tornou um dos mais promissores do mundo ao longo das últimas décadas onde houve uma certa melhora no aporte de recursos, será acelerar um processo que sempre existiu.  Uma das razões para isso é que muitos desses jovens pesquisadores (e até alguns assim não tão jovens) já alcançaram algum tipo de expertise científica que será facilmente assimilada em países que estão realizando o percurso oposto ao do Brasil e realizando investimentos pesados em ciência e tecnologia.

Um exemplo é a União Europeia que apenas na iniciativa conhecida como “Horizon 
Europe” irá investir algo em torno de R$ 500 bilhões entre 2021 e 2027.  Esse montante ainda será acrescido de investimentos feitos pelos próprios países europeus, a começar pela Alemanha que está planejamento investimentos de R$ 800 bilhões em suas universidades e institutos de pesquisa entre 2021 e 2030.

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Com  o “Horizon Europe”, a União Europeia irá investir R$ 500 bilhões no desenvolvimento científico e tecnológico apenas entre 2021 e 2027.

Como estive recentemente na Finlândia pude constatar que também naquele país estão sendo realizados investimentos massivos nas universidades, os quais estão permitindo a atração de excelentes quadros científicos de todas as partes do mundo para fortalecer a capacidade de produção em todas as áreas de conhecimento. Um modelo que, aliás, a China já vem executando há alguns. 

Os apoiadores do governo Bolsonaro poderão dar de ombros e dizer que o aeroporto será o melhor caminho para aqueles que não quiserem “amar” o Brasil que está sendo montado pelo “mito”.  O problema é que ao perdermos quadros científicos, aumentaremos ainda mais a nossa dependência em todo tipo de produto, a começar, por exemplo, por vacinas e remédios contra doenças tropicais.  Cito aqui o caso da pesquisadora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Letícia Takahashi ,que anunciou a sua desistência do seu programa de doutoramento cujo foco seria a continuidade de suas pesquisas sobre a Leishmaniose, doença transmitida por mosquitos, que cresceu quase 53% nos últimos 26 anos no Brasil e que pode ser fatal. Não ficarei surpreso se alguma universidade estrangeira vier ao nosso país para recrutá-la, pagando muito mais do que os minguados R$2.200,00 que ela receberia na forma de uma bolsa de pesquisas da CAPES.

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Leticia Takahashi, pesquisadora que teve que interromper o doutorado por falta de bolsa. Arquivo pessoal

Assim é preciso que fique claro que se centenas ou até milhares de pesquisadores decidirem sair do Brasil em busca de condições de trabalho, os culpados serão não apenas os membros do governo Bolsonaro que engendraram os cortes operados no sistema nacional de ciência e tecnologia, mas também aqueles que podendo pressionar para que isso não ocorresse estão se omitindo. Um desses personagens omissos é o ministro da Ciência e Tecnologia, o auto intitulado astronauta Marcos Pontes, que está assistindo a tudo o que está sendo com cara de paisagem.  Se é para se comportar assim, melhor seria ele voltar a anunciar travesseiros feitos como se fossem da NASA, mas que não o são.

Em carta a ministro da Educação, CAPES adverte sobre caos por causa de cortes orçamentários

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Se o sistema de pós-graduação brasileiro já não precisa mais de más notícias, eis que o Conselho Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) enviou ontem uma correspondência ao ministro de Educação, o Sr. Rossieli Soares da Silva, dando conta da interrupção de pelo menos 198 mil bolsas a partir de agosto de 2019 em função de cortes orçamentários promovidos na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) do ano que vem (ver documento abaixo).

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Segundo o que afirma a nota assinada por Abílio Baeta Neves, atual presidente da Capes, os cortes promovidos no montante aprovado pelo congresso nacional terá efeitos profundos não apenas no sistema nacional de pós-graduação (afetando em torno de 93 mil discentes e pesquisadores), mas também na formação de profissionais da educação básica no âmbito da chamada Universidade Aberta do Brasil (atingindo 245.000 beneficiados, entre alunos e bolsistas, professores, tutores, assistentes e coordenadores).

Se confirmados estes cortes e a paralisação dos programas citados pelo presidente da Capes, teremos certamente um agravamento da crise de migração de pesquisadores brasileiros e a liquidação de importantes instrumentos de qualificação profissional e científica que são atualmente financiados com os recursos que agora estão sendo eliminados.

Por essas e outras é que não podemos continuar assistindo a processo político como espectadores de uma telenovela da Rede Globo. A situação é grave e merece ser tratada com a mais profunda seriedade. E melhor que seja mais cedo do que tarde.

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Pesquisadores da Uerj publicam artigo na Science denunciando os graves riscos que correm as universidades públicas brasileiras

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A revista Science, que é tida dentro da comunidade cientifica como uma das mais importantes fontes de conhecimento científico mundial, publicou hoje na seção “Letters”, um artigo de autoria de Carla C. Siqueira e Carlos Frederico da Rocha, ambos pesquisadores do Departamento de Ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) (ver reprodução abaixo).

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O tema do artigo é a grave situação a que estão submetidas as universidades públicas brasileiras neste momento.  O caso da Uerj é tratado de forma mais direta e o artigo oferece detalhes da deterioração que está ocorrendo tanto na infraestrutura física, como na condição em que os servidores da universidade estão tendo que trabalhar, inclusive com a falta do pagamento de salários.

Além de prever os riscos que poderão ser causados por uma privatização forçada da Uerj, o artigo ainda aponta para o problema da evasão de cérebros que deverá afetar a condição de funcionamento de grupos de pesquisa inteiros e, consequentemente, a capacidade brasileira de produzir ciência de alta qualidade.

Os detalhes oferecidos neste artigo deverão não apenas causar escândalo dentro da comunidade científica internacional, mas provavelmente servirão para aguçar a vinda de dirigentes de universidades estrangeiras para contratar pesquisadores brasileiros.  

Quem desejar acessar o artigo no formato pdf, basta clicar  (Aqui!)

 

 

Brasil de Temer & Meirelles no ritmo da “fuga de cérebros”

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Enquanto a atenção da maioria dos brasileiros está corretamente colocada sobre os devastadores efeitos das anti-reformas que estão sendo realizadas pelo governo “de facto” de Michel Temer na previdência social e nos direitos trabalhistas, outro desmanche está ocorrendo de forma mais silenciosa, mas que poderá efeitos igualmente devastadores sobre o futuro do Brasil.

Falo aqui dos efeitos devastadores que os cortes orçamentários na área de Ciência e Tecnologia já estão tendo no interior das universidades e centros de pesquisas brasileiros (ver figura abaixo).

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De maneira objetiva, os números mostram que o governo Temer, sob os auspícios do ministro/banqueiro Henrique Meirelles, está impondo um recuo de financiamento que joga a ciência brasileira para trás em pelo menos uma década, justamente em um momento em que estávamos dando passos importantes na consolidação de várias áreas de pesquisa, incluindo a biotecnologia e das doenças tropicais.

Uma consequência dessa escassez de verbas é que o Brasil está se tornando um centro dispersor de pesquisadores qualificados, o que por si só representa uma perda gigantesca de investimentos e de recursos humanos estratégicos que foram realizados nas últimas décadas.

Para que se tenha uma ideia da diferença de tratamento que está sendo dado ao investimento em ciência e tecnologia, a China está trilhando o caminho totalmente oposto ao escolhido pelo governo Temer e recebendo pesquisadores de todas as partes do mundo para fortalecer suas instituições de pesquisa. Mas obviamente muitos países vão querer atrair pesquisadores brasileiros e suas habilidades, a começar pelos EUA e os membros da União Europeia.

A situação está se tornando tão alarmante que o Valor Econômico publicou hoje um artigo da autoria da jornalista Lígia Guimarães que mostra de forma bem cuidadosa o cenário desastroso que está se desenhando no horizonte da ciência nacional (Aqui!).

Se confirmado esse cenário de desmanche da ciência nacional, o efeito mais direto será uma profunda regressão da capacidade brasileira de formular saídas estratégicas para problemas sociais, econômicos e ambientais que estão se avolumando no horizonte. E com isso estará assegurada a nossa dependência científica e tecnológica em face dos países do capitalismo central.

Fuga de cérebros, outra consequência do receituário ultraneoliberal de Temer e Meirelles

A leitura do artigo do jornalista Herton Escobar para revista Science sobre a possibilidade de uma grande onda de fuga de cérebros que estaria sendo gestada pelo sucateamento de universidades e centros de pesquisa nacionais (Aqui!) deveria estar soando um forte alarme no Brasil. Entretanto, a não ser no próprio meio acadêmico, e ainda assim timidamente, outras coisas parecem estar tendo mais atenção, a começar pela revolta que está devorando vários presídios brasileiros.

Mas a questão desta potencial fuga de cérebros é sim algo grave, pois sinaliza para um espiral de descenso que atrasará por décadas a evolução da ciência brasileira, justamente num momento em que a ciência está sendo colocada como um dos elementos de diferenciação na acirrada competição econômica e financeira que está se construindo nos mercados mundiais. 

E quem pode condenar se uma geração inteira de jovens pesquisadores decidir abandonar o Brasil, dada a inexistência de qualquer garantia de que terão empregos após a aprovação da famigerada PEC do Tetos de Gastos que implicou num congelamento tácito na abertura de novas vagas para docentes?

E também é importante notar que diferente dos EUA onde o setor privado assimila quase 40% dos novos doutores (Aqui!), no Brasil são as universidades e centros de pesquisas públicos que assimilam a maioria deles. E mesmo quando uma empresa, normalmente uma multinacional, contrata um doutor, o destino dado é fora do território brasileiro.

Nesse cenário sombrio, posso compartilhar minha própria experiência pessoal. Tendo terminado o mestrado em 1990, justamente no ano de ascensão do governo neoliberal de Fernando Collor, fui recrutado para trabalhar no Oak Ridge National Laboratory num grupo de pesquisas que tinha como objeto as mudanças na cobertura vegetal na Amazônia brasileira. Após 1,5 ano fui aprovado para cursar o Doutorado na Virginia Polytechnic Institute and State University (Virginia Tech) onde tive a possibilidade de ter uma bolsa, a qual foi recusada em prol de uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Tivesse eu optado pelo financiamento oferecido pela Virginia Tech jamais teria retornado ao Brasil para trabalhar na Uenf onde estou desde 1998.

Olhando em retrospectiva, eu posso afirmar sem medo de errar que teria tido uma carreira científica mais sólida e estável se tivesse permanecido nos EUA. É que as habilidades científicas que foram fornecidas na minha graduação e mestrado na UFRJ somadas ao que aprendi no doutorado teriam me garantido emprego e financiamento. Entretanto, voltei para o Brasil para fazer algum tipo de diferença no desenvolvimento do nosso sistema científico, o que, apesar de todos os pesares, creio ter ocorrido.

Apesar de acreditar que tomei uma decisão correta ao voltar para o Brasil há quase 20 anos, e de não estar disposto a retomar o caminho do exílio, não posso obrigar que outros optem como eu por aguentar este momento de crise dentro de instituições que sequer possuem condições de pagar suas contas de serviços básicos como água e eletricidade.

Como não acredito em coincidências ou desatenções por parte dos formuladores das políticas ultraneoliberais que estão grassando de Brasília para todos os estados da federação, o corte de financiamento do sistema nacional de ciência é parte intrínseca da desconstrução do que construído a partir de meados do Século XX, principalmente a partir da criação da Universidade de São Paulo (USP) em 1934, fato que considero chave no   esforço descomunal que foi realizado para vencer o nosso atraso científico e tecnológico. 

Desta forma, não há como esperar sentado para que este vagalhão de medidas regressivas passe por cima de nós para depois juntar os cacos que eventualmente sobrarem. A comunidade cientifica brasileira tem a obrigação de reagir a esse processo de desmanche e impedir que sejamos atropelados por uma massiva fuga de cérebros. É que os riscos são altos demais para ficarmos apenas contemplando o caos que virá se nada for feito.

Mãos à obra contra Michel Temer, Gilberto Kassab, Henrique Meirelles, Luiz Fernando Pezão, Geraldo Alckmin, José Ivo Sartori,  Beto Richa, e todos os outros executores deste projeto de destruição da ciência brasileira.

A PEC 241 e a inevitável fuga de cérebros

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A opinião do professor da Universidade de São Paulo Paulo Artaxo de que a ciência do Brasil irá sofrer um atras de 20 anos por conta da aprovação da PEC 241 (Aqui!) não colocou um desdobramento adicional que me parece inevitável: a inevitável fuga de cérebros que deverá esvaziar universidades e institutos de pesquisa de alguns dos nossos mais promissores quadros.

Essa previsão é uma das mais fáceis de acertar. É que a aprovação da PEC 241 somada à outras medidas punitivas contra quem trabalha em instituições públicas (que não por caso hospedam a maioria dos cientistas brasileiros) irá tornar a saída pelos aeroportos a coisa mais atraente para quem continuar fazendo ciência com algum nível de qualidade.

Essa fuga de cérebros já ocorre historicamente, mas certamente será agravada com a adoção de medidas que vão restringir drasticamente o investimento em ciência e tecnologia (C&T) e piorar a condição salarial e previdenciária dos pesquisadores. 

Para os membros do governo “de facto” essa fuga de cérebros será apenas a confirmação de que investir em C&T é desnecessário já que o país que eles querem, o negócio mesmo é consumir tecnologia pronta. Entretanto, para o resto do Brasil, a fuga de cérebros será catastrófica, visto que tudo o que foi investido nas últimas décadas em recursos humanos vai acabar sendo absorvido por instituições localizadas nos países centrais, principalmente nos EUA para onde muitos já estão se dirigindo neste momento. 

Uma curiosidade nessa potencial fuga de cérebros é o papel que poderá ser cumprido pela China. É que seguindo o caso do futebol profissional onde clubes chineses recrutaram várias estrelas da seleção brasileira com seus salários milionários, o mesmo poderá ocorrer com as universidades e centros de pesquisa que estão neste momento adotando uma política agressiva de recrutamento de pesquisadores estrangeiros.  Se isso se confirmar, o que teremos é uma trágica realidade: enquanto o Brasil vai continuar tentando exportar commodities agrícolas e minerais para os chineses, eles vão tentar nos vender tecnologia desenvolvida por cientistas brasileiros que eles recrutaram. Como já visitei um centro de pesquisa sobre a zona costeira na cidade de Yantai (Aqui!), posso assegurar que quem for para lá, não vai querer voltar.

Um elemento curioso nessa fuga de cérebros é que os primeiros a buscarem soluções individuais que a crise política e a escassez financeira está causando na ciência brasileira são os que estiveram nas ruas vestindo a camisa da CBF pedindo o impeachment de Dilma Rousseff. E tenho absoluta certeza que esses trânsfugas ainda vão dizer que saíram do Brasil para poderem continuar fazendo o que mais gostam e em instituições onde tenham condições de trabalhar apenas se preocupando com o bom funcionamento de seus laboratórios. 

Mas se os cenários mais tenebrosos se confirmarem no tocante ao abandono do financiamento estatal das nossas universidades e centros de pesquisa que ninguém se surpreenda se a fuga for em massa. Afinal de contas, cientistas ou não, as pessoas possuem contas para pagar e famílias para criar.