FAPERJ em falha: atraso de bolsas expõe crise estrutural

Enquanto outros estados reajustam e pagam em dia, o Rio de Janeiro normaliza o atraso, a desigualdade e o silêncio institucional

A crise das bolsas da  Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) já não pode mais ser tratada como um problema administrativo pontual. O que está em curso é algo mais profundo: a desestruturação silenciosa da pós-graduação no estado do Rio de Janeiro. A combinação entre valores defasados, atrasos na implementação e ausência de previsibilidade transformou aquilo que deveria ser política de fomento em um mecanismo de precarização acadêmica.

O ponto de partida dessa crise é conhecido, mas raramente enfrentado com a devida franqueza: o valor das bolsas. Em nível nacional, as bolsas da CAPES passaram quase uma década congeladas até sofrerem um reajuste em 2023, quando o mestrado passou para cerca de R$ 2.100 e o doutorado para R$ 3.100. Ainda assim, mesmo após o reajuste, esses valores permanecem modestos diante do custo de vida — especialmente em cidades como a do Rio de Janeiro.

O problema é que, no caso fluminense, a situação é ainda mais grave. Outras fundações estaduais não apenas acompanham reajustes, mas os superam deliberadamente como estratégia de fortalecimento científico. A FAPESP, por exemplo, paga atualmente cerca de R$ 3.120 a R$ 3.300 para mestrado e até R$ 6.810 para doutorado . Já a fundação do Espírito Santo elevou suas bolsas a níveis superiores aos federais, com mestrado em torno de R$ 3.200 e doutorado em R$ 4.500, explicitamente com o objetivo de recompor perdas inflacionárias .

Ou seja: enquanto outros estados tratam a bolsa como instrumento estratégico de investimento em capital humano, o Rio de Janeiro a mantém como um valor corroído — e, pior, incerto.

Porque o problema não é apenas quanto se paga, mas se e quando se paga. Editais da própria FAPERJ seguem anunciando cronogramas relativamente organizados, com previsão de implementação de bolsas em janelas específicas ao longo do ano, como maio e setembro . No papel, há planejamento. Na prática, há um abismo entre o edital e a realidade vivida pelos estudantes. A implementação atrasa, o pagamento não chega, e o bolsista — que já recebe pouco — passa a não receber nada.

É nesse ponto que a crise assume sua face mais cruel. A pós-graduação brasileira, por definição, exige dedicação exclusiva. Sem bolsa, não há renda alternativa legítima. O estudante não está apenas com dificuldades: ele está estruturalmente impedido de cumprir aquilo que o sistema exige dele. A bolsa deixa de ser apoio e passa a ser um fator de instabilidade.

Na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), essa distorção se torna ainda mais visível. A coexistência de bolsas pagas por diferentes agências, e até com verbas descentralizadas da própria FAPERJ, escancara uma desigualdade interna difícil de justificar: enquanto alguns estudantes recebem regularmente, outros — vinculados à FAPERJ “padrão” — enfrentam atrasos indefinidos. Cria-se, assim, uma hierarquia informal de sobrevivência dentro da própria pós-graduação da universidade do “Terceiro Milênio”.

Mas talvez o elemento mais perturbador de toda essa crise seja o silêncio. A ausência de posicionamento firme por parte de reitorias, pró-reitorias e coordenações não é apenas omissão — é cumplicidade passiva com a precarização. Ao não denunciar publicamente os atrasos, ao não pressionar institucionalmente por soluções, as universidades contribuem para a normalização de uma situação que deveria ser tratada como colapso.

E isso tem efeitos concretos e mensuráveis. Atrasos de bolsas significam evasão. Significam estudantes abandonando projetos, interrompendo pesquisas ou migrando para outros estados — justamente aqueles que oferecem melhores condições. Significam perda de competitividade científica. Significam, em última instância, um processo de “fuga de cérebros” interno, silencioso e contínuo.

Há ainda um dano menos visível, mas igualmente grave: a erosão da confiança institucional. Quando editais são lançados, resultados divulgados e bolsas prometidas — mas não implementadas —, o sistema perde credibilidade. E ciência não se sustenta apenas com financiamento: ela depende de previsibilidade, confiança e compromisso.

O caso da FAPERJ evidencia uma contradição estrutural. De um lado, a fundação continua lançando editais e reafirmando seu compromisso com a formação científica . De outro, falha em garantir o básico: a materialização dessas promessas na vida concreta dos estudantes. Não se trata mais de um problema técnico. Trata-se de uma escolha política — explícita ou por omissão.

Se o atual cenário persistir, o Rio de Janeiro corre o risco de consolidar um modelo perverso: formar pesquisadores em um ambiente de instabilidade crônica, onde a excelência acadêmica convive com a insegurança material. Um modelo em que a produção científica sobrevive não por apoio institucional, mas apesar dele.

E ciência, como se sabe, não floresce no improviso. Ela exige estabilidade, compromisso e, acima de tudo, respeito por aqueles que a constroem diariamente.

Por que o interesse em mestrado e doutorado está caindo no Brasil

Com desestímulo financeiro e social, sistema de pós-graduação no país enfrenta queda na procura, ociosidade de vagas e fuga de cérebros

Laboratório de Produtos e Tecnologia em Processos | Foto: ViktoFoto: Viktor Braga/Universidade Federal do Ceará/FLICKR/Creative Commons

Por Edson Colambori para o “Jornal Nexo”

O sistema de pós-graduação no Brasil enfrenta uma interrupção em seu ciclo virtuoso. Desde 2018, o que se percebe é um viés de desinteresse dos recém-graduados pelos cursos de mestrado, pós-graduação e pós-doutorado.

Recentemente, informações veiculadas na proposta de Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG), feita pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), demonstraram que cerca de 25% dos cursos de mestrado oferecidos em 20 áreas do conhecimento (de um total de 49) tiveram demanda menor do que a oferta. Em relação ao doutorado, ao menos 12 áreas sentiram uma diminuição da procura que pode superar 30%.

Desenvolvida pela Capes para o registro e acompanhamento dos programas de pós-graduação no país, a Plataforma Sucupira apontou uma ociosidade de 21% nas vagas de mestrado e 25% no doutorado em 2020. Nos anos seguintes, entre 2021 e 2022, registrou-se uma diminuição de mais 11% na quantidade de ingressantes.

Os dados do PNPG mostram que o desinteresse tem sido mais intenso pelas engenharias, que tiveram uma baixa de aproximadamente 28% no número de novos pós-graduandos. Se em 2015 foram 12.551 ingressantes, em 2022 o número caiu para 9.090. A queda de ingressantes foi de 23% nas ciências agrárias, 14% nas biológicas, 12% nas exatas e da terra. Os números indicam que o viés de queda vem desde 2018. Antes, portanto, da pandemia.

A constatação da diminuição do interesse no mestrado e pós-graduação provoca reflexões. Por que os jovens estão se afastando? Quero dar aqui uma contribuição para esse debate tão necessário e estreitamente ligado ao desenvolvimento do país.

Desestímulo financeiro e social

Começo por uma consideração relacionada ao tempo de formação de um doutor: mais de vinte anos da vida de um jovem. Acompanhe comigo: do ensino fundamental I e II (nove anos) ao ensino médio (três anos) são cerca 12 anos na educação básica. Mais quatro anos de curso superior, em média, e outros quatro a seis no mestrado e pós-graduação.

Ou seja, é preciso muita resiliência e o que tem acontecido é um grande desestímulo financeiro e social que dificulta aos mais jovens a busca por essa formação. Ao mesmo tempo, é uma realidade que fere a percepção da importância e da necessidade de doutores para o crescimento e o avanço científico, filosófico e tecnológico de um país.

Fato é que o investimento na educação, em especial na formação dos doutores, vem se deteriorando há décadas. O valor das bolsas de pós-graduação não é suficiente para que o doutorando se dedique em tempo integral à sua formação intelectual.

Para agravar esse cenário, a pandemia de COVID-19 acelerou o processo de desmotivação para cursar ensino superior que vinha se delineando. Nos anos 2020 a 2022, o governo do período fez um grande desserviço à sociedade brasileira no que diz respeito ao conceito e metodologia científica para o desenvolvimento tecnológico de um país.

Baixos valores das bolsas

A associação desses contratempos a várias outras dificuldades ajuda a entender a evasão dos estudantes em todos os níveis de ensino. Além do investimento de um tempo prolongado da vida do estudante, muitas outras dificuldades inerentes ao processo de formação do doutor atrapalham o percurso acadêmico.

Entre elas, destaco os baixos investimentos nos valores de bolsas e nos laboratórios de pesquisas dos cientistas envolvidos na formação dos doutores e também incertezas de empregos após o doutorado nas instituições de ensino e pesquisa brasileiras. Isso leva a uma fuga cada vez maior de cérebros.

Mas o que fazer para estimular os jovens a apostarem na educação no nível de doutoramento? Tudo começa por um investimento pesado na formação dos indivíduos desde a infância até o final do ensino superior completo. Este investimento passa pela necessidade de melhorar a formação e o salário dos professores do ensino fundamental, médio, e dos professores de ensino superior.

Hoje o início de carreira em uma universidade federal ou estadual está em valores muito defasados em relação às expectativas de um profissional após mais de vinte anos de formação.

Importante lembrar também que 75% dos estudantes universitários estão nas universidades privadas. Portanto, o Ministério da Educação precisa que exigir delas o nível de educação que é pedido aos professores nas universidades públicas. O percentual de doutores nos cursos das instituições privadas é extremamente baixo comparado às instituições públicas.

Não parece aceitável um corpo docente de nível superior que não tenha doutoramento. Essa é a exigência para as universidades públicas, mas o mesmo não vale para o setor privado. Desse modo, as escolas privadas precisam, evidentemente, investir em recursos humanos qualificados em Ensino e Pesquisa, inclusive para absorver os Doutores formados.

Esforço de repatriação

Ademais, as indústrias brasileiras não absorvem os doutores formados no Brasil. Se faz necessária e urgente a discussão de novas leis que favoreçam as indústrias a terem doutores em seus quadros, principalmente no desenvolvimento de novos produtos e novas tecnologias.

Recentemente, o CNPq abriu edital para repatriar doutores brasileiros que estejam fora do Brasil. Trata-se de um investimento com bolsas e enxoval para laboratórios.

No entanto, se não houver políticas para absorver estes doutores como professores ou pesquisadores nas instituições brasileiras, fica difícil acreditar em um sistema vigoroso de realmente investimento que de segurança aos doutores já formados e estabelecidos no exterior.

Penso que essas são algumas medidas que poderão tanto melhorar os cursos como o interesse por eles e a empregabilidade de quem se gradua. Essa problemática precisa ser amplamente discutida.

Além desse investimento pesado e contínuo na formação dos recursos humanos, interligando os pontos de início e término na educação das pessoas, também é crucial demonstrar à sociedade que universidades mais qualificadas, desenvolvidas e produtivas são imprescindíveis para melhoria geral do bem-estar de uma população e para o desenvolvimento de um país.

Eduardo Colombari é professor Titular de Odontologia, campus de Araraquara, Universidade Estadual Paulista (Unesp)


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Fonte: Jornal Nexo

A ciência brasileira está sob contínuo ataque

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Por Bernardo Galvão-Castro,  Renato Sérgio Balão Cordeiro e Samuel Goldenberg*

Apesar da resistência dos cientistas brasileiros, a ciência no Brasil tem sido prejudicada por medidas implementadas pelo governo federal nos últimos 3 anos, como cortes crescentes no orçamento, ataques à autonomia das universidades e uma política geral de negação da ciência. Um recente corte de US$ 110 milhões no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, além da retenção de US$ 490 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, não apenas representa um enorme impedimento para a realização de pesquisas em universidades e institutos de pesquisa, mas também prejudica o desenvolvimento científico futuro de um país.

As consequências incluem uma fuga de cérebros de cientistas e desmoralização e descontentamento entre os pesquisadores científicos brasileiros. Além disso, os cientistas correm o risco de sanções indiretas se suas pesquisas contradizerem as posições sustentadas pelo governo Bolsonaro, como afirmar que a floresta amazônica não está queimando ou que a cloroquina ou a hidroxicloroquina podem ser usadas para tratar COVID-19 com segurança e eficácia.

A recente demonstração de desrespeito aos cientistas foi um decreto federal, emitido em 5 de novembro de 2021, revogando o prêmio da Ordem Nacional do Mérito Científico concedido a dois cientistas, Adele Schwartz Benzaken e Marcus Vinicius Guimarães de Lacerda.

Em resposta a essa revogação, 200 ganhadores de prêmios anteriores escreveram uma carta expressando sua objeção, e 23 outros cientistas brasileiros atualmente indicados para este prêmio retiraram seus nomes em solidariedade a seus colegas injustamente desacreditados.

Esse ato também desencadeou uma reação imediata de várias sociedades acadêmicas e científicas brasileiras, incluindo a Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). No início de 2020, pesquisa de Borba e colegasmostraram que doses mais elevadas de cloroquina não devem ser recomendadas para o tratamento de COVID-19 grave.

Benzaken era o ex-diretor do Departamento Brasileiro de DST / HIV-Aids e Hepatites Virais da Secretaria de Vigilância em Saúde (Ministério da Saúde), que foi demitido em janeiro de 2019.

Os ataques perpetrados pela atual administração federal não se limitam à ciência e aos cientistas e afetam a educação, a saúde pública, o meio ambiente e os programas culturais.,,

Esperamos que o Brasil não continue a se pautar pela negação e evite a degradação da ciência.

Todos os autores são pesquisadores eméritos da Fundação Oswaldo Cruz. Declaramos não haver interesses conflitantes*.

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Este texto foi escrito foi inicialmente em inglês e publicado pela revista “Lancet” [Aqui!].

Fuga de cérebros, uma calamidade para o Brasil

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Por Isaac Roitman

Tem sido demonstrado que o capital humano, nível de educação da população, é uma variável extremamente importante nos modelos de crescimento econômico. Países que investiram em educação avançaram também em estabilidade política, crescimento econômico e lograram conquistas sociais importantes. Não menos importante é ter uma política permanente na formação de lideranças políticas e em todas as áreas de conhecimento.

No Brasil, nossas lideranças, na sua maioria, não estão à altura para superarmos as crises que vivemos. A liderança é um talento que precisa ser identificado e desenvolvido. Howard Gardner define talento “por um arranjo complexo de aptidões ou inteligências, habilidades instruídas e conhecimento, disposições de atitudes de motivações que predispõem um indivíduo a sucessos em uma ocupação, vocação, profissão, arte ou negócio”. No Brasil a identificação e desenvolvimento de talentos e lideranças são incipientes.

Na área de Ciência e Tecnologia, a partir da criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na década de 50 do século passado, tivemos um progresso extraordinário especialmente na formação de recursos humanos.

Um dos programas mais importantes do CNPq, o de Iniciação Científica, que tem hoje a participação de cerca de 100 mil estudantes do ensino básico e universitário, representa um celeiro para a formação de futuros cientistas. Em adição, foi também notável a implantação de um sistema de pós-graduação de qualidade, fundamental para o desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro.

Vivemos uma realidade econômica desfavorável. Equivocadamente, em vez de aumentarmos os investimentos em Ciência e Tecnologia, como instrumento para superarmos a crise, os investimentos têm sido cortados. Universidades e centros de pesquisas tentam dar continuidade aos seus projetos. Apesar disso, muitos foram interrompidos. Os jovens pesquisadores desencantados começam a emigrar para países onde a Ciência e Tecnologia são valorizadas. É o que chamamos de “fuga de cérebros”.

Essa diáspora de nossos talentos e lideranças é motivo de extrema preocupação, pois comprometerá o desenvolvimento e o futuro do Brasil. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 0,2% da população brasileira possui doutorado, enquanto a média dos países pertencentes à organização é de 1,1%. Se não interrompermos rapidamente essa diáspora, teremos em alguns anos números mais assustadores explicitando o nosso retrocesso.

A comunidade acadêmica e científica, através de suas organizações – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Academia Brasileira de Ciências (ABC), Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais (Andifes), Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) e outras –, tem alertado para essa verdadeira calamidade que comprometerá a qualidade de vida das gerações futuras.

É importante a restauração imediata das verbas das agências de fomento: CNPq, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), fundações estaduais de apoio a pesquisas e outras. Vamos todos lutar contra essa insanidade, interrompendo essa verdadeira calamidade que é a fuga de cérebros no Brasil.

*Isaac Roitman é  professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências

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Artigo publicado originalmente em Monitor Mercantil (https://monitordigital.com.br/fuga-de-cerebros-uma-calamidade-para-o-brasil).

Sob a sombra de Weintraub, Brasil vive processo acelerado de fuga de cérebros

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O ministro da Educação Abraham Weintraub durante suas mais recentes férias

A BBC publicou hoje uma matéria sobre o processo acelerado de fuga de cérebros que o Brasil está passando em função do êxito da ações de desmonte da ciência nacional por parte do governo Bolsonaro.  As razões apresentadas pelos entrevistados oferecem respostas relativamente conhecidas: falta de perspectivas profissionais, valor baixo das bolsas de pós-graduação e, principalmente, os ataques contra a ciência que tem sido transformada em um espécie de inimiga interna.

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Não há como negar que esta perda de cérebros trará profundos prejuízos para a ciência brasileira e, por extensão, ao processo de desenvolvimento econômico nacional.  É que está mais do que provado que apenas países com sistemas científicos fortes possuem a possibilidade de estarem aptos a participar da economia global em condições de competitividade.  Sem ciência o que resta é a exportação de matérias-primas (as famosas commodities) cujo valor agregado é irrisório, o que cria um grave desequilíbrio na balança comercial dos países que escolhem esse caminho de funcionamento para suas economias.

Ditaria a razão que o financiamento da ciência estivesse fora das disputas ideológicas e que o fortalecimento do desenvolvimento científico fosse colocado como um objetivo estratégico de qualquer governo, independente da ideologia de seus mandatários. Mas já está evidente que o governo Bolsonaro não opera, e não irá operar, no campo da racionalidade, pois suas alianças fundamentais são com setores que possuem uma oposição intrínseca não apenas à razão, mas também à lógica. 

Além disso, desmantelar a ciência nacional é coerente com a tal guerra cultural que não apenas o presidente Jair Bolsonaro, mas vários de seus ministros abraçam. É que esta tal guerra cultural é, na prática, uma corruptela para ocultar a oposição ao pensamento científico crítico que está na base do desenvolvimento científico.

Tenho certeza que, longe de lamentar a perda de tantos jovens pesquisadores para instituições distribuídas ao redor do mundo, os mentores da “guerra cultural”  que embala a agenda ideológica do governo Bolsonaros devem estar é celebrando esse êxodo. É que daí sobra mais espaços para figuras como o “imprecionante” ministro da Educação, Abraham Weintraub continuarem espalhando a fantasia de que a ciência brasileira é comunista ou coisas do gênero.  Em outras palavras, a fuga de cérebros é uma espécie de confirmação do reinado de Weintraub, ainda que ele incorpore o que há de mais intelectualmente lamentável dentro do Brasil.

Minha expectativa é que essa perda de cérebros sirva como uma espécie de salvação de capacidades que, quando ultrapassarmos o período trágico que vivemos atualmente, poderão retornar ao Brasil para dar continuidade ao trabalho que estão deixando para trás neste momento. 

Em tempo:  cresce o escândalo em torno da troca de gabaritos nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) cuja responsabilidade última está nas mãos do “imprecionante” Abraham Weintraub.  Ele mesmo já admitiu que, apesar de todo o seu êxito em desmantelar a ciência nacional, poderá cair por causa do embaraço que está sendo criado em torno de um sistema que até o início desse governo estava sendo cada vez mais assimilado como um instrumento viável.  Se Weintraub cair por causa de sua própria incompetência, talvez saia sem que tenha que responder pelos maiores danos que criou enquanto está ministro da Educação. 

 

Governo Bolsonaro asfixia ciência nacional e acelera o avanço para a neocolônia Brasil

C&TCortes feitos no financiamento do CNPq e da CAPES significam a interrupção de pesquisas estratégicas para o Brasil e deverão alimentar a fuga de cérebros.  Tânia Rego/Agência Brasil

Em um país com milhões de desempregados oficiais e outros tantos milhões vivendo de vender doces e salgados em semáforos na maioria das suas cidades, a decisão do governo Bolsonaro de cortar recursos que mantinham milhares de jovens cientistas pode até passar despercebida aos que passam fome e todo tipo de privação. Mas esta decisão que compromete o futuro da nossa capacidade de desenvolvimento econômico com um mínimo de autonomia não deveria passar em brancos por todos aqueles que entendem o papel da ciência e da tecnologia no processo de crescimento econômico.

É que sem ciência e tecnologia produzidas dentro de nossas fronteiras, o Brasil se tornará cada vez mais uma espécie de neocolônia dos países que estão hoje investindo pesadamente no desenvolvimento de sua capacidade de estabelecer novas formas de gerar riqueza sem depredar completamente rios e florestas, como é modelo que o governo Bolsonaro abraça com sofreguidão.

O que os cortes no investimento em ciência e tecnologia significam então é muito mais do que podar os sonhos de jovens pesquisadores que ficarão sem meios de sustento para continuarem dentro de universidades públicas (isso porque perto de 100% da ciência produzida no Brasil ocorre dentro delas) cada vez mais sucateadas e incapacitadas de pagarem sequer suas contas de água e eletricidade.

Gosto sempre de citar a entrevista que dei ao jornal Diário de Notícias que é publicado a partir de Lisboa onde teci um cenário tenebroso para a ciência brasileira com o nosso país sob o comando do presidente Jair Bolsonaro. Olhando em retrospectiva, penso que acertei na maior parte das minhas previsões do que estaríamos vivendo. Mas vejo que subestimei a intensidade do ataque que sofreríamos, e as condições que já estão postos representam quase que um extermínio de nossas instituições universitárias públicas.  Acrescento ainda que sob o impacto da forte recessão que vivemos, as instituições privadas de ensino superior também estão vivendo problemas graves que ameaçam deixar apenas com menor qualidade de portas abertas.

Um desdobramento imediato do ataque do governo Bolsonaro à ciência brasileira será a partida de milhares de jovens e não tão jovens pesquisadores para outras partes do mundo, começando pela Europa e pela América do Norte. É que em função dos investimentos feitos nos últimos 50 anos, o Brasil desenvolveu uma série de áreas da ciência que estão em forte demanda, o que implicará em um processo de recrutamento que nos tirará muita gente capacitada e que rumarão para o exrerior em busca das condições de estabilidade financeira e emocional que todo pesquisador necessita para avançar seus estudos.  Em outras palavras, continuada a atual situação asfixia financeira, o Brasil viverá um intenso processo de “fuga de cérebros” que provavelmente não ocorreu em períodos de exceção como foi a vigência do regime militar instalado em 1964. E com os saem sairão um enorme conhecimento acumulado em áreas como doenças tropicais,  aumento da produtividade agrícolas e novas formas de exploração do petróleo em áreas profundas.

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“A fuga de cérebros aponta o fracasso de um país”

Desta forma, considero que é mais necessário do que nunca que de dentro das universidades e instituições de pesquisa públicas seja iniciado um processo vigoroso de resistência política ao projeto de desmanche que está imposto pelo governo Bolsonaro sob a batuta trôpega de Jair Bolsonaro, Abraham Weintraub e Marcos Pontes. Isso precisa ser feito não apenas em nome das necessidades imediatas dos pesquisadores que tiveram suas bolsas cortadas, mas principalmente o futuro da ciência nacional.  Se nada for feito, a nossa transformação em uma neocolônia será inevitável.

 

Cortes na ciência e tecnologia vão agravar fuga de cérebros

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Intencional ou não, um dos primeiros efeitos que os cortes draconianos que foram executados pelo ministro Abraham Weintraub, aquele que possui dificuldades extremas com o cálculo de porcentagens, no sistema nacional de pós-graduação será acelerar um processo que historicamente drena recursos humanos do Brasil que é conhecido pela alcunha de “fuga de cérebros”. 

Esse processo não é de hoje, mas será aprofundado por uma opção de retirar investimentos da ciência e tecnologia para encher os cofres dos grandes agentes internacionais e nacionais que fazem a festa com dinheiro público a partir da especulação financeira.

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Eu já vinha sendo procurado por jovens pesquisadores interessados em sair do Brasil para procurar oportunidades de treinamento em nível de pós-graduação em centros como Canadá e Austrália.  Essas conversas geralmente revolviam em torno da necessidade de manter ou aprofundar treinamentos iniciados no Brasil em países onde há maior estabilidade no aporte de verbas.  Como realizei no meu doutorado e meu pós-doutorado nos EUA, quem me procurou estava buscando informações sobre como não só acessar programas em universidades estrangeiras, mas também sobreviver ao duro teste que é viver fora do Brasil enquanto se estuda e faz pesquisas.

O que os presentes cortes drásticos feitos pelo governo Bolsonaro acabarão causando, em um sistema que objetivamente se tornou um dos mais promissores do mundo ao longo das últimas décadas onde houve uma certa melhora no aporte de recursos, será acelerar um processo que sempre existiu.  Uma das razões para isso é que muitos desses jovens pesquisadores (e até alguns assim não tão jovens) já alcançaram algum tipo de expertise científica que será facilmente assimilada em países que estão realizando o percurso oposto ao do Brasil e realizando investimentos pesados em ciência e tecnologia.

Um exemplo é a União Europeia que apenas na iniciativa conhecida como “Horizon 
Europe” irá investir algo em torno de R$ 500 bilhões entre 2021 e 2027.  Esse montante ainda será acrescido de investimentos feitos pelos próprios países europeus, a começar pela Alemanha que está planejamento investimentos de R$ 800 bilhões em suas universidades e institutos de pesquisa entre 2021 e 2030.

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Com  o “Horizon Europe”, a União Europeia irá investir R$ 500 bilhões no desenvolvimento científico e tecnológico apenas entre 2021 e 2027.

Como estive recentemente na Finlândia pude constatar que também naquele país estão sendo realizados investimentos massivos nas universidades, os quais estão permitindo a atração de excelentes quadros científicos de todas as partes do mundo para fortalecer a capacidade de produção em todas as áreas de conhecimento. Um modelo que, aliás, a China já vem executando há alguns. 

Os apoiadores do governo Bolsonaro poderão dar de ombros e dizer que o aeroporto será o melhor caminho para aqueles que não quiserem “amar” o Brasil que está sendo montado pelo “mito”.  O problema é que ao perdermos quadros científicos, aumentaremos ainda mais a nossa dependência em todo tipo de produto, a começar, por exemplo, por vacinas e remédios contra doenças tropicais.  Cito aqui o caso da pesquisadora da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Letícia Takahashi ,que anunciou a sua desistência do seu programa de doutoramento cujo foco seria a continuidade de suas pesquisas sobre a Leishmaniose, doença transmitida por mosquitos, que cresceu quase 53% nos últimos 26 anos no Brasil e que pode ser fatal. Não ficarei surpreso se alguma universidade estrangeira vier ao nosso país para recrutá-la, pagando muito mais do que os minguados R$2.200,00 que ela receberia na forma de uma bolsa de pesquisas da CAPES.

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Leticia Takahashi, pesquisadora que teve que interromper o doutorado por falta de bolsa. Arquivo pessoal

Assim é preciso que fique claro que se centenas ou até milhares de pesquisadores decidirem sair do Brasil em busca de condições de trabalho, os culpados serão não apenas os membros do governo Bolsonaro que engendraram os cortes operados no sistema nacional de ciência e tecnologia, mas também aqueles que podendo pressionar para que isso não ocorresse estão se omitindo. Um desses personagens omissos é o ministro da Ciência e Tecnologia, o auto intitulado astronauta Marcos Pontes, que está assistindo a tudo o que está sendo com cara de paisagem.  Se é para se comportar assim, melhor seria ele voltar a anunciar travesseiros feitos como se fossem da NASA, mas que não o são.

Em carta a ministro da Educação, CAPES adverte sobre caos por causa de cortes orçamentários

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Se o sistema de pós-graduação brasileiro já não precisa mais de más notícias, eis que o Conselho Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) enviou ontem uma correspondência ao ministro de Educação, o Sr. Rossieli Soares da Silva, dando conta da interrupção de pelo menos 198 mil bolsas a partir de agosto de 2019 em função de cortes orçamentários promovidos na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) do ano que vem (ver documento abaixo).

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Segundo o que afirma a nota assinada por Abílio Baeta Neves, atual presidente da Capes, os cortes promovidos no montante aprovado pelo congresso nacional terá efeitos profundos não apenas no sistema nacional de pós-graduação (afetando em torno de 93 mil discentes e pesquisadores), mas também na formação de profissionais da educação básica no âmbito da chamada Universidade Aberta do Brasil (atingindo 245.000 beneficiados, entre alunos e bolsistas, professores, tutores, assistentes e coordenadores).

Se confirmados estes cortes e a paralisação dos programas citados pelo presidente da Capes, teremos certamente um agravamento da crise de migração de pesquisadores brasileiros e a liquidação de importantes instrumentos de qualificação profissional e científica que são atualmente financiados com os recursos que agora estão sendo eliminados.

Por essas e outras é que não podemos continuar assistindo a processo político como espectadores de uma telenovela da Rede Globo. A situação é grave e merece ser tratada com a mais profunda seriedade. E melhor que seja mais cedo do que tarde.

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Pesquisadores da Uerj publicam artigo na Science denunciando os graves riscos que correm as universidades públicas brasileiras

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A revista Science, que é tida dentro da comunidade cientifica como uma das mais importantes fontes de conhecimento científico mundial, publicou hoje na seção “Letters”, um artigo de autoria de Carla C. Siqueira e Carlos Frederico da Rocha, ambos pesquisadores do Departamento de Ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) (ver reprodução abaixo).

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O tema do artigo é a grave situação a que estão submetidas as universidades públicas brasileiras neste momento.  O caso da Uerj é tratado de forma mais direta e o artigo oferece detalhes da deterioração que está ocorrendo tanto na infraestrutura física, como na condição em que os servidores da universidade estão tendo que trabalhar, inclusive com a falta do pagamento de salários.

Além de prever os riscos que poderão ser causados por uma privatização forçada da Uerj, o artigo ainda aponta para o problema da evasão de cérebros que deverá afetar a condição de funcionamento de grupos de pesquisa inteiros e, consequentemente, a capacidade brasileira de produzir ciência de alta qualidade.

Os detalhes oferecidos neste artigo deverão não apenas causar escândalo dentro da comunidade científica internacional, mas provavelmente servirão para aguçar a vinda de dirigentes de universidades estrangeiras para contratar pesquisadores brasileiros.  

Quem desejar acessar o artigo no formato pdf, basta clicar  (Aqui!)

 

 

Brasil de Temer & Meirelles no ritmo da “fuga de cérebros”

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Enquanto a atenção da maioria dos brasileiros está corretamente colocada sobre os devastadores efeitos das anti-reformas que estão sendo realizadas pelo governo “de facto” de Michel Temer na previdência social e nos direitos trabalhistas, outro desmanche está ocorrendo de forma mais silenciosa, mas que poderá efeitos igualmente devastadores sobre o futuro do Brasil.

Falo aqui dos efeitos devastadores que os cortes orçamentários na área de Ciência e Tecnologia já estão tendo no interior das universidades e centros de pesquisas brasileiros (ver figura abaixo).

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De maneira objetiva, os números mostram que o governo Temer, sob os auspícios do ministro/banqueiro Henrique Meirelles, está impondo um recuo de financiamento que joga a ciência brasileira para trás em pelo menos uma década, justamente em um momento em que estávamos dando passos importantes na consolidação de várias áreas de pesquisa, incluindo a biotecnologia e das doenças tropicais.

Uma consequência dessa escassez de verbas é que o Brasil está se tornando um centro dispersor de pesquisadores qualificados, o que por si só representa uma perda gigantesca de investimentos e de recursos humanos estratégicos que foram realizados nas últimas décadas.

Para que se tenha uma ideia da diferença de tratamento que está sendo dado ao investimento em ciência e tecnologia, a China está trilhando o caminho totalmente oposto ao escolhido pelo governo Temer e recebendo pesquisadores de todas as partes do mundo para fortalecer suas instituições de pesquisa. Mas obviamente muitos países vão querer atrair pesquisadores brasileiros e suas habilidades, a começar pelos EUA e os membros da União Europeia.

A situação está se tornando tão alarmante que o Valor Econômico publicou hoje um artigo da autoria da jornalista Lígia Guimarães que mostra de forma bem cuidadosa o cenário desastroso que está se desenhando no horizonte da ciência nacional (Aqui!).

Se confirmado esse cenário de desmanche da ciência nacional, o efeito mais direto será uma profunda regressão da capacidade brasileira de formular saídas estratégicas para problemas sociais, econômicos e ambientais que estão se avolumando no horizonte. E com isso estará assegurada a nossa dependência científica e tecnológica em face dos países do capitalismo central.