MPF/RJ quer a destinação de R$ 2,5 bilhões para a saúde do Rio de Janeiro

fesAção visa que mínimo constitucional seja cumprido com destinação direta de verbas federais a conta do Fundo Estadual de Saúde
 
O Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro (RJ) ajuizou ação civil pública, com pedido de liminar, para que a União retenha parcialmente os valores correspondentes ao Fundo de Participação dos Estados (FPE) com o repasse direto da importância retida ao Fundo Estadual de Saúde, de forma a assegurar os recursos financeiros necessários para o investimento obrigatório em ações e serviços públicos de saúde.
 
O Estado do Rio de Janeiro deixou de transferir ao Fundo Estadual de Saúde a totalidade dos recursos financeiros destinados a investimentos obrigatórios em saúde pública, nos termos previstos na Constituição Federal, colocando em risco a continuidade dos serviços de saúde, com evidente prejuízo aos usuários do SUS. Conforme constatado, não foram destinadas no ano de 2016 as verbas estaduais de destinação obrigatória para a saúde na ordem de R$ 2.505.516.126,73.
 
“A dramática situação do financiamento da saúde pública fluminense no exercício de 2016 se soma ao quadro igualmente drástico observado até o exercício de 2015, objeto de ação civil pública proposta no ano passado, quando já se havia apurado restos a pagar de 2013, 2014 e 2015 em montante superior a R$ 1 bilhão. O Estado não pode simplesmente dizer que não vai empenhar, nem pagar o percentual mínimo constitucional. Isso porque se trata de verbas obrigatórias, por força da regra constitucional ou de pactuação no SUS, e a falta do repasse devido acarreta inegáveis prejuízos à adequada prestação dos serviços de saúde, culminando na interrupção parcial ou plena paralisação de serviços e gerando maiores agravos à saúde e à vida da população usuária do SUS”, argumentam as procuradoras da República Aline Caixeta, Roberta Trajano e Marina Filgueira, autoras da ação civil pública.
 
Ausência de empenho e estratégia contábil
A Constituição Federal definiu um percentual mínimo obrigatório para investimento em saúde pública. Nos Estados, 12% das receitas oriundas de impostos estaduais e de transferências constitucionais possuem destinação vinculada às ações e serviços públicos de saúde.
 
O Estado do Rio de Janeiro, agora no ano de 2016, além de não empenhar no percentual de 12% da sua arrecadação, ainda deixou de pagar expressivas despesas de saúde, já liquidadas, descumprindo, assim, o piso constitucional. Esses recursos deixaram de ser aplicados em ações de saúde, acabando por reduzir drasticamente o valor efetivo do financiamento a cargo do Executivo estadual em descumprimento ao mínimo constitucional fixado.
 
“Neste contexto, podemos afirmar que os valores destinados à efetivação do direito à saúde, inserido dentre os direitos sociais nucleares ao mínimo existencial, são prioridades intangíveis dos orçamentos públicos e não comportam dotações omissas, insuficientes ou meramente simbólicas.
 
É fato notório que o Estado do Rio de Janeiro atravessa hodiernamente situação de expressivo desequilíbrio financeiro e econômico, com impactos negativos no financiamento obrigatório dos serviços públicos de saúde. Todavia, tal conjuntura não pode ser utilizada pelo Estado do Rio de Janeiro como argumento legítimo para justificar o descumprimento material do piso constitucional para o financiamento da saúde, gerando tamanho deficit para o setor. Isto porque a vinculação obrigatória de recursos financeiros mínimos para as ações e serviços públicos de saúde, mais do que assegurar a efetividade e a concretização de tais direitos sociais, demonstra a posição preponderante em que foi alçada a saúde pelo pacto social concretizado na Constituição de 1988”, afirmam as procuradoras.
 
Diante disso, o MPF pede que a União condicione o repasse de recursos provenientes de receitas do Fundo de Participação dos Estados ao emprego das verbas em ações e serviços de saúde, no montante de R$ 2.505.516.126,73, correspondente ao valor que deixou de ser aplicado no exercício de 2016, mediante depósito direto em conta-corrente vinculada ao Fundo Estadual de Saúde, medida excepcional prevista na Constituição Federal (art. 160, parágrafo único, inciso II).
 
“A União, conforme veiculado nos meios de comunicação, já se valeu, por algumas vezes desde 2016, do mecanismo excepcional previsto no art. 160, § único, da CR/88, de condicionar a entrega dos recursos provenientes das receitas destinados ao Fundo de Participação dos Estados, em relação ao Estado do Rio de Janeiro, contudo, com fundamento no inciso I, do citado § único, ou seja, ´ao pagamento de seus créditos`. Deve, portanto, a União assim proceder também com relação ao inciso II, do mesmo § único, do art. 160, da CR/88, conforme pleiteado na presente ação, para que seja garantida a aplicação, por parte do mesmo Estado, dos recursos mínimos nas ações e serviços de saúde”, acrescentam as procuradoras da República.
 
Já o Estado do Rio de Janeiro deve assegurar a aplicação das verbas pleiteadas na demanda judicial, a serem depositadas pela União no Fundo Estadual de Saúde, nas ações e serviços de saúde para que seja efetivamente atendido o mínimo constitucional.
 
 
FONTE:  Assessoria de Comunicação,  Procuradoria da República no Rio de Janeiro

Transparência RJ analisa o gastos do estado com Organizações Sociais (OSs) e dá seu vaticínio: é uma farra!

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O blog Transparência RJ (Aqui!) desde o seu lançamento se tornou para mim uma referência no tocante ao esforço de chegar às verdadeiras causas da crise financeira que abala o estado do Rio de Janeiro e dos seus efeitos extremamente desiguais para a sociedade fluminense.

Pois bem, a última postagem feita pelo pessoal do Transparência RJ no dia de ontem se refere aos gastos de diferentes secretarias estaduais com a contratação das chamadas Organizações Sociais (Aqui!). Pois bem, a primeira coisa esquisita que foi identificada foi a inexistência de contratos para um conjunto de 19 contratações que totalizaram a bagatela de R$ 3,2 bilhões com diferentes OSs pela mesmo ente, o Fundo Estadual de Saúde  (ver figura abaixo).

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A postagem também traz informações sobre a curiosa criação de um um núcleo avançado de auditoria e comissões de acompanhamento e fiscalização  após uma série de denúncias emergirem sobre o desvio de verbas envolvendo a contratação das OSs.  

Entretanto, foi verificado que todas essas comissões eram referentes a contratos antigos e já conclusos, o que suscita dúvidas sobre os que ainda estão em execução e com orçamentos bastante polpudos. Além disso, uma “curiosidade” a mais que foi detectada se refere ao fato de quem em pelo menos uma delas, os membros não pertenciam à área da Saúde, mas sim ao Corpo de Bombeiros!

Um contrato que foi analisado na postagem, e que me chamou a atenção pelo seu custo anual de R$ 13 milhões foi firmado pela Secretaria de Esporte e Lazer comandada pelo deputado federal Marcos Antonio Cabral, filho do ex- (des) governador Sérgio Cabral, com a  Espaço, Cidadania e Oportunidades Sociais – ECOS (Aqui!), uma organização não-governamental cuja sede é um sala de escritório no centro da cidade do Rio de Janeiro.

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Coincidentemente ou não, a ECOS está localizada no mesmo prédio onde também funciona (ou funcionou) um posto avançado Agência Estadual de Trabalho e Renda que é vinculada à Secretaria Estadual de Trabalho e Renda. Curiosamente, na sua página a ECOS apenas ações até o ano de 2012.

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Por outro lado, esse contrato me chama a atenção porque o valor a ser desembolsado representa basicamente a dívida atual que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) possui com todos os seus fornecedores por um período inferior pelo qual a  Espaço, Cidadania e Oportunidades Sociais – ECOS foi contratado. Em outras palavras, o dinheiro que falta a Uenf não falta para a ECOS. Eu afirmo isso porque o pessoal do Transparência RJ já detectou o pagamento de R$ 1.000.000,00 para a prestação de serviços por essa organização não-governamental, enquanto que para a Uenf até hoje não se sabe de qualquer pagamento.

Finalmente, o que fica claro em mais essa apuração de gastos é que a crise financeira é mais do que seletiva, e sua face mais punitiva se concentra sobre órgãos públicos como hospitais, escolas e universidades.  Enquanto isso, a iniciativa privada não apenas recebe isenções bilionárias de impostos, mas se favorece com contratos para lá de generosos.