De frango a tomate, veja por que a comida produzida nos EUA está te machucando

As recentes notícias sobre o glifosato e o câncer só destacam um problema mais amplo com nosso sistema: nossa obsessão em matar o mundo natural está nos envenenando

traqtorAo tentar controlar as culturas com herbicidas, antibióticos e pesticidas, criamos insetos, ervas daninhas e doenças resistentes ao nosso controle. Foto: Scott Olson / Getty Image

Por Maria Rodale para o “The Guardian”

As recentes manchetes que anunciam bilhões de dólares em danos a pessoas que tiveram câncer depois de usar o Roundup são apenas a ponta de um iceberg muito grande. Existem mais de 1.000 ações judiciais contra a empresa controladora da Monsanto, a Bayer, esperando para ser ouvidas pelos tribunais. Além das preocupações sobre esse herbicida específico à base de glifosato, deveríamos estar falando sobre os inúmeros outros produtos químicos potencialmente punitivos em nosso sistema alimentar.

Afinal, nossa comida e nossa saúde estão profundamente conectadas. Os gastos com a saúde nos EUA aumentaram para US $ 3,5 trilhões por ano e, no entanto, estamos mais doentes do que a maioria dos outros países desenvolvidos. Enquanto isso, nosso sistema alimentar contém milhares de produtos químicos que não foram provados seguros e muitos que são proibidos em outros países.

Como chegamos a esse ponto? Ao contrário de grande parte do mundo desenvolvido, o sistema regulatório americano não opera segundo o princípio da precaução. Em outras palavras, em vez de substâncias potencialmente perigosas serem banidas de nossos alimentos, como ocorre na Europa, por exemplo, substâncias químicas preocupantes são normalmente consideradas inocentes até que se prove a culpa. Como resultado, somos as cobaias em nosso próprio experimento. E nosso desejo por comida rápida, barata e abundante apenas aumenta a velocidade com que somos introduzidos a novas substâncias não testadas.

Foi uma corrida mortal para o fundo do poço. Por décadas, operamos o princípio de que, se pudermos eliminar seletivamente as partes indesejáveis ​​do mundo natural, poderemos controlar nossos futuros. Os agricultores operam dessa maneira, mas também proprietários de casas, equipes de rodovias e paisagistas. Nós espalhamos herbicidas, fungicidas, pesticidas, inseticidas, fertilizantes, antibióticos, hormônios e várias outras toxinas que matam tudo ao redor. Até coisas boas.

Estamos nos conscientizando da perda do que podemos ver: abelhas, borboletas, a diversidade de plantas dos nossos ecossistemas. Também precisamos nos preocupar com o microbioma invisível e fungos no solo que alimentam a vida acima, armazenar carbono e absorver água.

Em um esforço para controlar e matar a natureza, perdemos cada vez mais o controle e nos machucamos. Ao tentar controlar as culturas com herbicidas, antibióticos e pesticidas, criamos insetos, ervas daninhas e doenças resistentes ao nosso controle.

E nosso ataque químico terá efeitos a longo prazo. Nossos fertilizantes e pesticidas penetram nas águas subterrâneas e nos córregos, dirigem-se para o mar e criam zonas mortas e marés vermelhas. Eles também penetram na nossa água potável. Tome por exemplo a Atrazine, um herbicida produzido pela empresa suíça Syngenta (e também proibido na Suíça), que é encontrado em poços em toda a América. A lista de possíveis riscos para a saúde das causas da Atrazina é muito longa para ser listada em sua totalidade, mas inclui câncer, resultados insatisfatórios e defeitos de desenvolvimento.

Então, como reverter esse declínio na qualidade de nossa comida e saúde? O sistema alimentar é uma vasta e complicada teia interconectada – lenta de movimentar e propensa à inércia. Para mudar o resultado, precisamos mudar o paradigma.

Você pode se surpreender que isso possa começar a repensar nossos sentimentos sobre o cocô. Em um afastamento radical da medicina ocidental moderna, os transplantes fecais estão sendo desenvolvidos como um tratamento para tudo, de Clostridium difficile – uma infecção mortal que enfrenta um grande número de pacientes – a alergias alimentares. Depois de décadas de hospitais tentando esterilizar todos os seres vivos, acontece que, como o solo, precisamos de um sistema microbiano diversificado para criar e manter a saúde.

O que isso tem a ver com o nosso sistema alimentar? O Instituto Rodale estuda a agricultura convencional e orgânica há mais de 30 anos e descobriu que um sistema orgânico baseado em esterco é a maneira mais produtiva, mais eficiente e mais saudável de cultivar. Um sistema baseado em estrume compostagem resíduos de animais e retorna para a terra. Em um sistema convencional, o esterco animal é descartado – muitas vezes em poças tóxicas que poluem o ar e a água – e, em vez disso, são usados ​​fertilizantes químicos.

Em vez de tentar controlar nosso ambiente agrícola matando coisas e desperdiçando nosso maior fertilizante (cocô), devemos cultivar um sistema que nutra um solo saudável e diversificado que realmente melhore com o tempo.

Na tentativa de melhorar nosso sistema alimentar, o instituto também está trabalhando em um novo padrão para agricultura: Certificação Orgânica Regenerativa. (Divulgação completa: meu pai cunhou o termo “agricultura orgânica regenerativa” no final dos anos 80.) Supervisionada pelo Instituto Rodale, as práticas orgânicas regenerativas envolvem atender aos padrões federais para o bem-estar orgânico, mas também animal, tratamento justo dos trabalhadores e termo saúde do solo.

Ao reimaginar nossa comida e nossa saúde no contexto de um sistema próspero, podemos criar um paradigma totalmente novo onde, em vez de tentar matar e controlar as coisas, estamos criando um sistema alimentar abundante e vibrante que pode nos nutrir por muito tempo no futuro.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!]

Com a aprovação de mais 31 produtos, governo Bolsonaro chega a 197 agrotóxicos em 2019

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Com mais 31 produtos  autorizados para comercialização, governo Bolsonaro chega ao número recorde de 197 agrotóxicos liberados apenas cinco meses de 2019.

O Diário Oficial da União publicou na sua edição desta 3a. feira (21/05) o Ato No. 34 de 16 de Maio de 2019 que autoriza a comercialização de mais 31 agrotóxicos no mercado brasileiro, o que leva a uma aprovação recorde de 197 produtos antes que se complete o quinto mês do governo Bolsonaro. Com esta aprovação, o Brasil possui agora estratosféricos 2.262 liberados para comercialização em seu território, muitos deles proibidos em outras partes do mundo por serem potencialmente danosos à saúde humana e ao meio ambiente.

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Como construí uma base de dados para acompanhar e identificar as principais características dos agrotóxicos aprovados apenas no governo Bolsonaro, sob a batuta da “Musa do Veneno”, a ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/ES), já acrescentei estes 31 “novos produtos”, e já posso compartilhar alguns dados que, digamos, saltam aos olhos, em uma primeira análise.

A supremacia chinesa no fornecimento de produtos técnicos

A China que vem paulatinamente assumindo o controle do fornecimento de produtos técnicos com os quais se fabricam as formulações que são utilizadas na agricultura brasileira é o país sede de 27 (87%) das empresas que constam como as primeiras, senão as únicas, fabricantes dos agrotóxicos que constam como aprovados no Ato No. 34.  Por sua vez, apenas um dos produtos técnicos aprovados é fabricado no Brasil.

Tal dependência da indústria de agrotóxicos da China tende a se aprofundar na medida em que muitos produtos que estão sendo banidos na União Europeia estão tendo sua produção transferida para lá.

Essa realidade objetiva explica o porquê do discurso anti-chinês que marcou as primeiras semanas do governo Bolsonaro ter basicamente sumido do noticiário. Isto sem falar na recente visita do vice-presidente Hamilton Mourão à China, certamente para tentar acalmar o humor dos dirigentes do governo chinês em relação aos discursos alinhados ao governo de Donald Trump que andaram sendo proferidos pelo presidente Jair Bolsonaro, e que foram claramente antagônicos à manutenção da China como principal parceiro comercial do Brasil.

Fripronil, o  assassino de abelhas, entra com mais 2 produtos no mercado brasileiro

Ao contrário de que alegou a ministra Tereza Cristina em relação ao que seria o uso ilegal do Fipronil por agricultores brasileiros, o Ato No. 34 traz a aprovação de mais agrotóxicos à base deste princípio ativo, totalizando 3 agrotóxicos aprovados desde que ela assumiu a pasta da Agricultura.

A ampliação da abundância de produtos que contém Fipronil deverá impactar ainda mais a população de abelhas. É que o Fipronil tem sido diretamente associado ao extermínio de centenas milhões de abelhas. Apenas no Rio Grande do Sul, o Fipronil foi responsabilizado por pelo menos 80% da mortandade de colmeias inteiras de abelhas.

Com a ampliação do uso e a falta de fiscalização, o mais provável é que haja um aumento ainda maior no extermínio de abelhas. É que além do Fipronil, houve ainda a aprovação de dois agrotóxicos à base do Imadacloprido, um agrotóxico Neonicotinóide, que também sido associado ao chamado “colapso” das abelhas. Outro neonicotinóide aprovado nessa leva foi o Tiametoxam que, ao contrário do Imadacloprido, é proibido na União Europeia.

Há ainda que se lembrar que o Fipronil é proibido para uso na União Europeia e só pode ser usado em condições altamente restritas nos EUA. Além disso, o Fipronil ficou conhecido, e posteriormente banido, por causa do escândalo envolvendo a contaminação de milhões de ovos de galinha que tiveram de ser recolhidos em países como Bélgica, Holanda, Alemanha, França, Suécia, Reino Unido, Áustria, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Polônia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Dinamarca.

O discurso da segurança continua sendo negado na prática

Um dos discursos mais comuns para justificar a aprovação acelerada de agrotóxicos é de que os novos produtos seriam mais modernos e seguros. Este discurso não resiste ao exame prático por duas razões básicas. A primeira é que a imensa maioria dos produtos sendo aprovados já estão disponíveis no mercado brasileiro. A segunda é que dos 31 agrotóxicos aprovados no Ato No. 34, 45% deles estão localizados nas faixas de maior toxicidade (I e II) para a saúde humana.

Outro exemplo de que não há de novo nos agrotóxicos que estão sendo aprovados via “fast track” foi a aprovação de mais 3 agrotóxicos à base da Glicina Substituída, ou seja, o Glifosato. Acontece que neste momento há uma clara rejeição ao uso deste herbicida em função das crescentes evidências de que o mesmo seria indutor do Linfoma Non-Hodgkin. Apenas nos EUA, a Bayer/Monsanto foi condenada em 3 casos que foram julgados, e no caso mais recente a multinacional alemã foi condenada a pagar uma indenização de 2 bilhões de dólares americanos a um casal de agricultores que teria contraído o Linfoma de Non-Hodgkin a partir de um longo período de exposição ao produto.

Todas essas evidências estão sendo desprezadas pela Anvisa e pelo Ministério da Agricultura e aqui no Brasil estão sendo aprovados inúmeros produtos contendo a Glicina Modificada como seu princípio ativo.

Além disso, há que se notar que 29% dos produtos liberados no Ato de No. 34 estão proibidos na União Europeia.

O céu é o limite para saciar a fome de venenos por parte da agricultura brasileira?

Como estamos apenas no mês de Maio, é muito provável que outras centenas de agrotóxicos sejam aprovados pelo governo Bolsonaro até o final de 2019. Essa é uma situação que deverá ser acompanhada de perto por todos os que se preocupam com a saúde coletiva dos brasileiros, e com os nossos ecossistemas naturais.

É que a fome insaciável por venenos agrícolas está transformando o Brasil numa espécie de banheira de produtos químicos banidos em outras partes do mundo.  Como a maioria dos brasileiros está desinformada dos amplos impactos que esse processo de uso indiscriminado de agrotóxicos poderá trazer sobre a saúde de gerações inteiras, é importante que a comunidade científica e os movimentos sociais continuem acumulando informações que possam ser transmitidas de uma forma compreensível aos que estão hoje na linha de frente do uso desses produtos que são os trabalhadores rurais, e os que estão sendo expostos de forma indireta a partir do consumo de água e alimentos contaminados, que somos todos nós.

 

Monsanto é atingida por veredito de US$ 2 bilhões por causa do Glifosato

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Recipientes de Roundup, um herbicida feito pela Monsanto, em uma prateleira de uma loja de ferragens em Los Angeles.

Por Bob Egelko para o “San Francisco Chronicle”

Um júri de Oakland concedeu uma vultosa indenização de US $ 2 bilhões nesta segunda-feira (13/05) a um casal da área da Baía de São Francisco em função de ambos sofrerem de câncer depois de pulverizar o herbicida Roundup da Monsanto em suas propriedades por mais de 30 anos.

É o terceiro veredito contra a Monsanto, todos em ações na Bay Area e, de longe, o maior julgamento contra a empresa.

Alva Pilliod, 76, de Livermore foi diagnosticado com linfoma não-Hodgkin em 2011, e sua esposa, Alberta Pilliod, 74, foi diagnosticada em 2015. Eles usaram o Roundup para matar ervas daninhas em razão de três propriedades que possuíam na área. O advogado deles estimou que pulverizou 1.500 galões do herbicida em 30 anos.

Os médicos dizem que ambos os cânceres estão em remissão, mas podem ocorrer novamente.

Após menos de dois dias de deliberações, um júri do Tribunal Superior da Comarca de Alameda concedeu a cada um deles US $ 1 bilhão em indenizações punitivas contra a Monsanto, com danos adicionais de US $ 37 milhões para Alberta Pilliod e US $ 18 milhões para seu marido por dor e sofrimento e perdas econômicas.

O processo do casal foi um dos primeiros de mais de 13.000 casos em todo o país a ir a julgamento contra o gigante agroquímico. A Monsanto, agora uma subsidiária da Bayer AG, nega que o Roundup seja perigoso e observa que ele foi repetidamente considerado seguro pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA).

Em agosto, um júri do Tribunal Superior de San Francisco concedeu US $ 289 milhões em danos ao ex-zelador da escola Dewayne “Lee” Johnson, de Vallejo, cujos médicos dizem que ele pode ter menos de um ano de vida por causa do linfoma não-Hodgkin. Um juiz mais tarde reduziu o prêmio para US $ 78,5 milhões. E em março, um júri federal concedeu mais de US $ 80 milhões a Edwin Hardeman, do condado de Sonoma, que foi diagnosticado com o mesmo câncer de linfonodo frequentemente letal após pulverizar o herbicida em sua propriedade em Forestville por mais de 26 anos.

Em uma declaração segunda-feira, Bayer disse que o último veredito conflita com “o consenso entre os principais reguladores de saúde em todo o mundo de que produtos à base de glifosato podem ser usados ​​com segurança e que o glifosato não é carcinogênico”. O glifosato é o ingrediente ativo do Roundup herbicida.

A empresa está apelando dos outros dois casos e disse que vai apelar do veredito de hoje. No mínimo, é quase certo que os US $ 2 bilhões em indenizações punitivas serão substancialmente reduzidos, já que a Suprema Corte dos EUA determinou que os danos para punir um acusado por conduta maliciosa geralmente não devem ser mais do que 10 vezes os danos concedidos para compensar os demandantes por suas perdas.

A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), um braço da Organização Mundial de Saúde, classificou o glifosato como uma provável causa de câncer humano em 2015, mas permanece legal nos Estados Unidos e na Europa.

“Os júris informados pela ciência independente rejeitaram repetidamente o mito promovido pela Monsanto de que o glifosato não apresenta riscos de câncer”, disse Nathan Donley, cientista do Centro de Diversidade Biológica, na segunda-feira.

Advogados do Pilliods e outros demandantes ofereceram evidências de que a Monsanto estava em contato próximo com a EPA, enquanto o governo estudava o glifosato. Eles acusaram a empresa de ser responsável por estudos científicos de “escrita fantasma” apresentados à agência federal e de ter trabalhado junto com a EPA para minar as críticas da IARC.

Ao pedir ao júri US $ 1 bilhão em indenizações punitivas na semana passada, o advogado Brent Wisner disse que a Monsanto fatura US $ 892 milhões por ano, e que uma quantia enorme é necessária para “punir a empresa por 45 anos mentindo para o público”.

A empresa negou as irregularidades e disse ao júri que o câncer do Pilliod´s tinha outras causas prováveis: os dois haviam sofrido anteriormente outros tipos de câncer que os tornavam mais vulneráveis, e Alberta Pilliod era uma fumante de longa data.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo “San Francisco Chronicle” [Aqui!].

Lobistas da Monsanto ficharam ilegalmente personalidades francesas

Documentos que vimos mostram o uso de arquivos para identificar pró e anti-glifosato. Práticas que provavelmente são ilegais. Uma queixa foi arquivada.

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Vista da sede da Monsanto em St. Louis, EUA, maio de 2016. AFP / Michael B. Thomas

Por Gaël Lombart para o LeParisien

Compartilhar uma lista de pessoas, com seus detalhes de contato e opiniões, sem o seu consentimento, é ilegal. A FleishmanHillard, uma subsidiária de um dos maiores grupos de comunicação do mundo, supostamente usou essa prática em nome de um de seus clientes, a Monsanto, para fins de lobby, como revelado por L ‘ Olho das 20 horas da França 2, quinta-feira à noite.

Documentos Le Parisien viu mostrar que FleishmanHillard usou, no final de 2016, dois arquivos contendo 239 nomes no total, com raras exceções personalidades francesas – políticos, jornalistas ou representantes de organizações público ou privado – com comentários sobre sua posição sobre o glifosato ou sobre seu possível apoio à Monsanto.

Na época, o gigante de pesticidas está a desenvolver uma estratégia ofensiva para defender a sua imagem e a de sua substância herbicida classificados em março de 2015 “provavelmente cancerígeno pela Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (IARC), uma agência especializada das Organização Mundial da Saúde (OMS). Como o Le Monde revelou em janeiro de 2019, a Monsanto confiou à FleishmanHillard um programa chamado “Let Nothing Go” para monitorar e responder a comentários negativos na Internet, mas também para influenciar personalidades.

Identificados como “oponentes” ou “apoiadores”

Um dos arquivos da FleishmanHillard inclui 200 nomes, com informações de contato pessoal (endereços postais, e-mails, número de telefone …) e um em cada cinco sistemas de classificação. A credibilidade, influência e capacidade de apoio dos indivíduos mencionados pela Monsanto são avaliados em seis temas (agricultura, meio ambiente, nutrição, OGM, pesticidas e saúde).

Juntamente com 91 jornalistas, a categoria mais representada, há 28 executivos sindicais agrícolas, 25 políticos e 15 cientistas. Entre as pessoas-alvo, o atual ministro da Economia, Bruno Le Maire, então parlamentares dos Republicanos. Sete parlamentares verdes também estão em jogo, incluindo os deputados José Bové e Michèle Rivasi.

Em uma coluna de comentários, quatro de seus colegas, em Estrasburgo, estão carimbados como “pró-glifosato”. Uma posição refutou Philippe Juvin com o parisiense: “Concordo totalmente em ser pró-glifosato. “Chocado” com o processo, o deputado LR imagina que ele tem que ser comparado ao seu grupo, o Partido Popular Europeu (EPP), “que contou com um estudo da OMS e da FAO que o glifosato não era carcinogênico.”

Um pesquisador é descrito como o “principal adversário científico” do herbicida. Um jornalista é acusado de ser um “oponente” e outros sete recebem o título de “adversário forte” (“oponente forte”), enquanto um colunista de mídia é visto como “forte apoiadora”.

Metas prioritárias

Um segundo arquivo se concentra em 74 nomes, alguns faltando no primeiro documento. Metas prioritárias para a campanha da Monsanto, muitas das quais incluem políticos, jornalistas e representantes sindicais em sua maior parte. Um código de cores distingue “aliados”, “possíveis aliados a serem recrutados”, “partes interessadas para educar” e “partes interessadas a serem observadas”.

Um memorando da FleishmanHillard datado de 10 de janeiro de 2017 destaca a importância de atuar nesses “principais interessados” no contexto da renovação do glifosato na União Européia. Naquela época, os estados membros não conseguiram concordar, com a França pedindo uma nova autorização de curto prazo.

De acordo com este documento, as personalidades identificadas no arquivo “determinarão como as políticas tomarão sua decisão final para a votação do país na renovação”. No arquivo de código de cores, Xavier Bertrand, presidente da região de Hauts-de-France, é assim rotulado como “potencial aliado para recrutar”.

“Esses elementos envolvem apenas o autor do arquivo. Isto não reflecte a posição de Xavier Bertrand, que é que não podemos aceitar uma moratória sobre o glifosato que seja diferente entre os Estados-Membros, o que cria uma distorção da concorrência entre os agricultores “, reagimos na comitiva dos escolhidos, questionados por Le Parisien.

“Isolar” a voz dos ministros “anti-glifosato”

A categoria “Stakeholders to Monitored”, que é menos desenvolvida, inclui dois ministros, dois conselheiros ministeriais e um punhado de tomadores de decisão do governo que têm voz nas decisões sobre pesticidas. Os nomes de Ségolène Royal e Marisol Touraine, respectivamente na Transição Ecológica e Saúde, são acompanhados por esta menção lapidar: “Ela é anti-glifosato. O “objetivo” da campanha para eles é “isolar” sua “voz”.

“Vemos que a Monsanto era, na época, uma estratégia muito identificada para garantir que os opositores do glifosato fossem bem identificados e, tanto quanto possível, combatessem. O que me choca sem me surpreender é a existência de uma estratégia para impor um produto que sabemos ser perigoso para a saúde pública “, diz Marisol Touraine. O ex-ministro também deplora a presença “espantosa” nas listas de conselheiros ministeriais, cuja posição sobre os arquivos não deveria ser pública.

Entre os “aliados” em potencial e aqueles a serem “vigiados”, os “interessados ​​em educar” reúnem um atual ministro, um de seus antecessores, conselheiros do Elysée e Matignon, vários políticos e 16 jornalistas. Suspeitam-se de poder “balançar-se”, por outras palavras para poder convencer-se.

O memorando de 2017 lembra as boas perguntas para todos os “influenciadores”: “O que nossos alvos precisam? O que os motivará a apoiar a renovação (glifosato, Ed)? Mais surpreendente: a nota pede para aprender sobre os hobbies das pessoas-alvo, por exemplo, tênis ou golfe. Por que tal interesse por um hobby? O artigo sugere que a estratégia da FleishmanHillard é emergir no mundo imaginário de usos pouco conhecidos, mas potencialmente atraentes, do glifosato, em lugares como greens, herbicidas gananciosos.

Outra tendência desejada, sem dúvida, considerando a reputação controversa da Monsanto: “debates” devem “focar” na substância em questão, não na multinacional …

Por que é ilegal?

Nenhuma das pessoas que entrevistamos foi informada de sua presença nesses arquivos antes de vazarem. No entanto, mesmo antes da entrada em vigor do Regulamento Europeu de Proteção de Dados (GDPR) em 2018, a lei francesa é clara: as pessoas catalogadas devem dar consentimento e ter o direito de acesso e retificação aos seus registros, especialmente se o objetivo é detalhar suas opiniões pessoais.

“Se não tivermos o consentimento da pessoa, devemos ter um interesse legítimo em construir o arquivo e não acho que um arquivo apresentando pessoas como oponentes entre no padrão da CNIL”, Commission Nationale Informatique et Libertés, explica Étienne Papin, advogado da Corte de Paris.

“Seja um comentário textual que é neutro, difamatório ou prejudicial em seu conteúdo, é o mesmo sob a lei de 1978. O sistema de notação, seja números, letras, códigos de cores, está em auto-dados pessoais. É geralmente aplicado o mesmo tratamento jurídico a estes códigos que os textos “, sublinha este especialista em direito informático.

Ambos os arquivos foram escritos em inglês e um deles foi consultado em Paris e em Bruxelas, segundo a France 2. Contactado por Le Parisien, Sandrine Cormary, diretor executivo da FleishmanHillard France até janeiro de 2017, disse desconhecer a existência de tais documentos. “O fato de fazer listagens é algo bastante comum em nossa profissão. Mas todo o nosso grupo está obviamente em conformidade com a lei francesa de proteção de dados e com o RGPD “, disse a atual executiva da France Omnicom, a gigante global de relações públicas FleishmanHillard.

A Bayer, o grupo farmacêutico que se fundiu com a Monsanto em 2018, também diz que eles ignoram esses documentos. “Essas não são práticas atuais na Bayer”, disse uma porta-voz do grupo na França. Afirma que o contrato entre a Monsanto e a FleishmanHillard foi concluído no final de 2018. Desde então, a Bayer selecionou outra agência de comunicação, a Partners in Innovation, que inclui membros da FleishmanHillard.

Vários procedimentos em vista

Tendo conhecimento desses arquivos, o jornal Le Monde apresentou uma denúncia em 26 de abril com o promotor público da República em Paris, especialmente para a retenção de dados “revelando as visões políticas e filosóficas de uma pessoa sem o seu consentimento”.

Qualificado em uma lista como sendo um  “oponente forte”, o jornalista Stéphane Foucart, co-autor da denúncia, é apresentado em outro documento, como “um ativista mobilizado contra a renovação do glifosato”. Quatro outros jornalistas do jornal da tarde estão presentes nos arquivos.

O procedimento poderia ser emulado. Contactada, a associação Future Generations anunciou sua intenção de registrar uma queixa. No séquito de Xavier Bertrand, especifica que o presidente da Hauts-de-France “se reserva o direito de um possível processo quando ele puder acessar o conteúdo desses arquivos”. “Não surpreende estar entre as pessoas de quem a Monsanto não gosta”, disse a ex-ministra do Meio Ambiente, Corinne Lepage, “tomará as medidas necessárias” se considerar o processo ilegal.

Quanto ao parisiense-hoje na França, incluindo três jornalistas aparecem nas listas, ele já planejou para aproveitar o Cnil.

Quem encontramos nos arquivos?
95 jornalistas
39 políticos
30 representantes de sindicatos de agricultores
17 membros de ONGs
16 cientistas
11 membros de organizações públicas  e da administração pública
8 líderes de organizações da indústria
7 funcionários ministeriais ou do Elysee
5 membros do setor de distribuição
4 fazendeiros influentes no Twitter
7 pessoas de diversas origens

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Esta reportagem foi originalmente publicada em francês pelo LeParisien [Aqui!].

O Brasil da Bayer, o Brasil da Monsanto

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Em 25 maio de 2018, Alan Tygel da Campanha Contra os Agrotóxicos e Pela Vida), foi a convite dos Acionistas críticos na Assembleia Geral Anual da Bayer AG em 25 de maio de 2018 Bonn

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Campanha Permanente contra os Venenos Agrícolas e pela Vida organiza no Brasil resistência a pesticidas e plantas e sementes modificadas transgênicas. FONTE:CAMPANHA PERMANENTE CONTRA OS AGROTÓXICOS E PELA VIDA

Prezadas senhoras e senhores,

Meu nome é Alan Tygel, sou da Campanha Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Do ponto de vista da Bayer, o Brasil é um país muito promissor. O Brasil é o país que usa mais agrotóxicos no mundo. E o Brasil é o país que promete o maior crescimento na venda de agrotóxicos. No Brasil, a Bayer foi a empresa em 2014, o segundo maior vendedora de agrotóxicos. Após a aquisição da Monsanto, a Bayer ficará em primeiro lugar, com uma participação de mercado de cerca de 23%.

E o Brasil tem a segunda maior área de sementes geneticamente modificadas do mundo. Em contraste com o país com a maior do mundo cultivo área de plantas geneticamente modificadas – os EUA – O Brasil tem planos para colocar sementes transgênicas até mesmo nos cultivos de algodão. Além disso, a autoridade responsável pelo registro de autoridade plantas geneticamente modificadas CTNBio, estão em processo de tramitação a aprovação de licenças para novos cultivos transgênicos. Assim, não é de admirar quando dois milhões de hectares de terra estejam sendo definidos para o cultivo de arroz transgênico.

Este é o Brasil da Bayer. Este é o Brasil da Monsanto.

Mas há outro Brasil também. O Brasil onde eu moro. Esta é a terra da agricultura camponesa, a terra da diversidade alimentar, a terra da mandioca e do milho indígena. É neste Brasil que a nossa Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida “leva as vozes de milhões de pessoas a uma só voz”. E essa voz diz “não!” a agrotóxicos e plantas e sementes modificadas transgênicas. E essa voz diz “sim!” para construir um movimento em direção à agroecologia.

No outro Brasil, há a cada ano 6.000 pessoas que precisam de tratamento médico para intoxicação por venenos agrícolas. Mas sabemos que os números reais são certamente dez vezes maiores. Porque a maioria dos envenenados mora no campo, onde há pouco ou nenhum acesso a cuidados médicos. Os agricultores cometem suicídio, as crianças nascem com danos, os bebês mostram sinais de puberdade. Tudo provado por causa dos venenos agrícolas.

Na sua política de responsabilidade social e ambiental, a Bayer declara que é aconselhável seguir as instruções no folheto informativo, a calibração do equipamento de aplicação, a utilização de vestuário protector prescrito, a limpeza do equipamento e a eliminação adequada das águas residuais após a utilização.

Peço-lhe, portanto: Você acha que Bayer está livre de tal culpa por todo o envenenamento e todo o sofrimento? Então, as próprias vítimas são culpadas?

O portfólio de venenos agrícolas da Bayer registrados no Brasil inclui 109 produtos fabricados com 50 ingredientes ativos diferentes. Seus best-sellers no Brasil são os produtos à base de carbendazim e imidaclopride. Ambas as drogas estão na lista das dez substâncias mais utilizadas. É pura coincidência que uma das duas substâncias na União Europeia (UE) seja proibida, a outra seja banida? Além disso, a Bayer vendida no Brasil oito outros ingredientes ativos utilizados em produtos que são proibidos na UE: Thidiazuron, Tiodicarbe, Ioxinil, iprodiona, indaziflam, Etiprol, Etoxissulfurom e Cloridrato de Propamocarbe.

Eu lhes pergunto: Vocês acham que sua política de enviar venenos agrícolas proibidos há longa data na Alemanha para países em desenvolvimento é eticamente justificável? O que a Bayer fará com o glifosato da Monsanto se ele for banido na União Europeia por ser cancerígeno?

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Alan Tygel na ação de protesto durante a reunião geral anual da Bayer AG FONTE:UMBRELLA ASSOCIATION OF CRITICAL SHAREHOLDER

Atualmente, uma enorme pressão está sendo exercida no Brasil para derrubar a lei existente sobre agrotóxicos. Em seu lugar, os congressistas da bancada ruralista propõem uma lei sobre agrotóxicos. Isso reduziria o papel das autoridades sanitárias e ambientais no registro de agrotóxicos e aboliria as disposições do Registro de Venenos Agrícolas Carcinogênicos. Atualmente, 250.000 pessoas assinaram uma petição contra esse projeto, mas este projeto é abertamente apoiado pelo Sindiveg, a associação setorial da qual a Monsanto e a Bayer são membros.

Em 2018, a Monsanto participou de nove reuniões com o Ministério da Agricultura do Brasil e a Bayer em seis, algumas das quais diretamente com o ministro da Agricultura do Brasil, Blairo Maggi.

A Bayer considera justificado fazer lobby com o objetivo de enfraquecer a legislação nos países subdesenvolvidos e fornecer produtos já proibidos na Alemanha para o Brasil?

A Bayer também tem muito a ser criticado em relação às plantas transgênicas no Brasil: a Bayer tem atualmente onze patentes sobre sementes transgênicas no Brasil. Após a aquisição da Monsanto, que tem 23 patentes, a Bayer seria a dona de quase metade de todas as 75 modificações transgênicas registradas no Brasil.

Hoje vocês falam muito sobre plantas transgênicas sendo sustentáveis ​​e contribuindo para a redução de venenos agrícolas. Na realidade, porém, estamos experimentando uma trágica contaminação ambiental, a perda de uma herança genética preservada há séculos e um aumento maciço no consumo de agrotóxicos.

O caso da coruja cápsula de algodão Falters (Helicoverpa armigera) mostra claramente o problema: em 2012, a população dos Falters explodiu porque o milho transgênico geneticamente modificado não poderia mais prejudicá-lo. Em grande parte do nordeste brasileiro, houve então uma situação extrema de emergência, que chegou a uma perda de bilhões de reais. Em resposta, o Brasil importou uma toxina agrícola que já era proibida no país há muito tempo, porque é altamente prejudicial para o sistema nervoso humano: o benzoato de emamectina. O Ministério da Agricultura, que era tão transgênico, viu a culpa do milho transgênico, mas sobre a lei no ano passado, a aprovação do benzoato de emamectina no Brasil.

Entre 2007, quando o primeiro produto transgênico da Bayer foi registrado no Brasil e em 2014, o consumo de venenos agrícolas aumentou 52%. Estudos recentes indicam que esse aumento é em grande parte devido à soja transgênica, uma área em que a Monsanto é a campeã de vendas.

Contra esse pano de fundo, gostaríamos de saber: o seu entendimento de sustentabilidade inclui esse alto consumo de venenos agrícolas induzidos pelo uso de plantas transgênicas? Sua compreensão da sustentabilidade inclui a contaminação ambiental e o desequilíbrio ecológico causado por uma profunda desconsideração pelos direitos humanos dos pequenos agricultores?

Prezadas Senhoras e Senhores, Acionistas. Se vocês acham que o Brasil é a terra do lucro, não importa o preço e a que custo, e se vocês acham que pode despejar todo o seu lixo que não é bom aqui no nosso país, então tenha certeza que nós iremos Resistir.

Obrigado pela sua atenção.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo site Amerika21 [Aqui!]

Pesquisadores da WSU veem efeitos inter-geracionais do Glifosato sobre a saúde

Estudo encontra ‘aumentos dramáticos’ em várias doenças por causa da exposição ao Glifosato

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O pesquisador da Universidade Estadual de Washington, Michael Skinner, analisou os efeitos sobre a saúde através das gerações do Glifosato.

Pesquisadores da Universidade Estadual de Washington ( a Washington State University) descobriram uma variedade de doenças e outros problemas de saúde na prole de segunda e terceira gerações de ratos expostos ao Glifosato, o herbicida mais popular do mundo.  Em um primeiro estudo desse tipo, os pesquisadores viram descendentes de ratos expostos que desenvolveram doenças da próstata, dos rins e do ovário, obesidade e anormalidades de nascimento.

Michael Skinner, professor de ciências biológicas da WSU, e seus colegas expuseram ratas grávidas ao Glifosato entre o oitavo e o 14º dia de gestação. A dose – metade da quantidade esperada para não mostrar nenhum efeito adverso – não produziu efeitos nocivos aparentes nem nos pais nem na primeira geração de filhos.

Mas escrevendo na revista Scientific Reports, os pesquisadores dizem que viram “aumentos dramáticos” em várias patologias que afetam a segunda e terceira gerações. A segunda geração teve “aumentos significativos” nas doenças dos testículos, ovários e glândulas mamárias, bem como na obesidade. Nos homens de terceira geração, os pesquisadores observaram um aumento de 30% nas doenças da próstata – três vezes o da população de controle. A terceira geração de mulheres teve um aumento de 40% na doença renal, ou quatro vezes a dos controles.

Mais de um terço das mães de segunda geração tiveram gravidezes malsucedidas, com a maioria dos afetados morrendo. Dois de cinco homens e mulheres na terceira geração eram obesos.

Skinner e seus colegas chamam esse fenômeno de “toxicologia geracional” e eles o vêem ao longo dos anos em fungicidas, pesticidas, combustível para aviação, o composto plástico bisfenol A, o repelente de insetos DEET e o herbicida atrazina. No trabalho estão as mudanças epigenéticas que ligam e desligam os genes, muitas vezes por causa de influências ambientais.

Skinner disse que decidiu estudar o glifosato “por ser um dos compostos mais comumente usados ​​em todo o mundo”.

O Glifosato tem sido objeto de numerosos estudos sobre seus efeitos na saúde. O estudo de Skinner é o terceiro nos últimos meses feito apenas em Washington . Um estudo da Universidade de Washington, publicado em fevereiro, descobriu que a substância aumentava o risco de linfoma não-Hodgkin em até 41%. Um estudo da Universidade Estadual de Washington, publicado em dezembro, descobriu que os moradores do estado que moram perto de áreas sujeitas a tratamentos com o herbicida são um terço mais propensos a morrer prematuramente devido à doença de Parkinson.

A toxicologia geracional do produto químico representa uma nova desvantagem que, segundo Skinner e seus colegas, deve ser incorporada às estimativas de seu risco.

“A capacidade do Glifosato e de outros agentes tóxicos ambientais para impactar nossas gerações futuras precisa ser considerada”, escrevem eles, “e é potencialmente tão importante quanto a toxicologia de exposição direta feita hoje para avaliação de risco”.

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A pesquisa foi apoiada por uma bolsa da John Templeton Foundation. Os co-autores do artigo são a pesquisadora de Graduação Deepika Kubsad, o professor assistente de pesquisa Eric Nilsson, a assistente de pesquisa Stephanie King, a pesquisadora sênior Ingrid Sadler-Riggleman e o pesquisador associado Daniel Beck.

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Este artigo foi publicamente originalmente em inglês pela WSU [Aqui!]

Nova pesquisa em humanos mostra ligação entre doença hepática avançada e exposição ao herbicida Glifosato

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Resultados avançam pesquisa anterior mostrando exposição ao herbicida Roundup causou doença hepática

Um novo estudo mostra que pacientes com uma forma avançada de doença hepática gordurosa não-alcoólica (NAFLD) chamada esteato-hepatite não alcoólica (NASH) e têm níveis mais elevados de resíduos de glifosato na urina, em comparação com pacientes com a forma menos grave de DHGNA.

Os pacientes com EHNA são considerados de alto risco de desenvolver doenças ainda mais graves, como cirrose e câncer de fígado.

O estudo foi conduzido pelo professor Paul Mills do Departamento de Medicina Familiar e Saúde Pública da Universidade da Califórnia, em San Diego, com o envolvimento do Centro de Pesquisa em NAFLD em La Jolla, Califórnia. O tamanho da amostra foi de 97 pacientes.

O novo estudo avança os conhecimentos de uma pesquisa anterior liderada pelo Dr. Michael Antoniou no King’s College London. A equipe do Dr. Antoniou descobriu que ratos alimentados com o herbicida Roundup a base de glifosato em níveis muito baixos dentro dos limites regulatórios de segurança desenvolveram NAFLD e NASH durante um longo período de dois anos.

O estudo do Dr. Antoniou, sendo um ensaio de alimentação animal controlada, mostra uma ligação causal entre a exposição ao herbicida Roundup e NAFLD e NASH.

O estudo de  professor Mills não prova que o glifosato realmente cause doença hepática. É um estudo “depois do fato” em humanos com doença hepática, em que a exposição ao herbicida glifosato não foi controlada, mas a excreção de glifosato foi medida depois que os indivíduos ficaram doentes. No entanto, mostra uma correlação entre níveis elevados de glifosato na urina humana e NASH.

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O estudo sugere que as pessoas devem minimizar sua exposição ao herbicida glifosato e outros pesticidas, buscando alimentos cultivados organicamente.

Comentando sobre o novo estudo, o Dr. Antoniou disse: “Nossos estudos com animais de laboratório identificaram a exposição ao Roundup como um fator de risco previamente insuspeito para o desenvolvimento de DHGNA e EHNA. A pesquisa conduzida pelo Prof Mills dá um passo à frente, demonstrando que isso também pode ser um fator de risco em humanos “.

Dr. Antoniou continuou: “A questão que permanece sem resposta é qual (is) componente (s) de herbicidas à base de glifosato comercial constitui o fator de risco NAFLD-NASH. É o glifosato sozinho, ou os adjuvantes tóxicos presentes em formulações comerciais, ou uma combinação do dois? Mais estudos são necessários para resolver esta questão crucial. ”

Exatamente como os níveis de excreção de glifosato na urina se correlacionam com as quantidades realmente presentes nos órgãos vitais do corpo não são conhecidos. A indústria de pesticidas afirma que altos níveis de urina são uma coisa positiva, porque o corpo está excretando com sucesso o produto químico.

No entanto, esta noção é contrariada pela pesquisa liderada pela Dra. Monika Kruger na Alemanha. A Dra. Kruger descobriu que os níveis de glifosato em uma variedade de órgãos em vacas leiteiras eram muito semelhantes aos da urina. Isso sugere que o glifosato pode se acumular no corpo. Além disso, pessoas com doenças crônicas apresentaram níveis mais elevados de resíduos de glifosato na urina do que humanos saudáveis, sugerindo que altos níveis de excreção de glifosato não são um sinal saudável.

Além disso, um estudo separado em mulheres grávidas que vivem nos EUA mostrou que os níveis de glifosato na urina estão correlacionados com a redução do tempo de gravidez.

O estudo de Prof Mills acrescenta peso à probabilidade de que altos níveis de glifosato na urina sejam um sinal de problemas de saúde, pelo menos em relação à DHGNA, especialmente NASH.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo GMWatch [Aqui!]

Julgamento do Câncer causado pelo Roundup: e-mails mostram Monsanto em “relações aconchegantes” com servidores de agência ambiental

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A estrutura química do glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup da Monsanto (via Wikipedia)

Por Mary Dinzeo para a Corthouse News Service

OAKLAND, Califórnia (CN) – Como o processo jurídico envolvendo o Glifosato, herbicida mais usado no mundo, e sua conexão com o câncer de casal na Califórnia se estende até a terceira semana, o advogado mostrou ao júri mais registros revelando uma relação confortável entre a empresa de agroquímicos e os servidores da agência federal responsável pela regulação do uso de agrotóxicos, a Environmental Protection Agency (EPA).

O advogado Brent Wisner, representando os autores Alva e Alberta Pilliod,  mostrou um depoimento em vídeo do porta-voz corporativo da Monsanto, William Reeves, na segunda-feira, no qual ele reconheceu que os executivos da Monsanto trocaram mensagens de texto com reguladores que participaram do comitê da  EPA que classificou o glifosato, ingrediente principal no Roundup, como não carcinogênico para humanos.

A equipe jurídica da Pilliods espera que essas trocas de e-mails e textos sejam evidências suficientes de conluio entre a Monsanto e a EPA para atrasar uma revisão da Agência de Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças, uma agência de saúde pública ligada aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. 

Alva e Alberta Pilliod, que desenvolveram Linfoma não-Hodgkin  com quatro anos  de diferença um do outro, afirmam que o Roundup foi um fator substancial em causar o câncer.  Alva e Alberta pulverizaram o herbicida por cerca de 30 anos em suas propriedades, e acusam a Monsanto de encobrir os danos do produto.

Em 18 de junho de 2015, o cientista da Monsanto, Eric Sachs, enviou uma mensagem de texto para a ex-toxicologista da EPA, Mary Manibusan, perguntando se ela conhecia alguém na Agência para Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças.

“Sim. Onde especificamente? ”Manibusan perguntou.

“Sobre perfis de toxinas”, disse Sachs, referindo-se à “toxicidade”. A agência vinha trabalhando em um perfil toxicológico do glifosato logo após a classificação do herbicida da Agência Internacional para Pesquisa sobre o Cancro de 2015 como “provavelmente carcinogênico para humanos”. A EPA anunciou a revisão em fevereiro de 2015 com uma data de publicação planejada em outubro.

“Já faz um tempo, mas eu posso. Querida, eu conheço muitas pessoas, então você pode contar comigo ”, Manibusan disse a Jenkins.

“Estamos tentando fazer tudo o que pudermos para evitar que um IARC doméstico ocorra com esse grupo. Pode precisar da sua ajuda ”, disse ele.

Wisner também mostrou os e-mails internos do júri sobre os esforços da Monsanto para que a agência esperasse com sua revisão até depois da própria reavaliação da EPA / avaliação preliminar de risco do glifosato.

Em 23 de junho de 2015, Dan Jenkins, contato da Monsanto com várias agências reguladoras dos EUA como a EPA, escreveu em um e-mail aos colegas dizendo que a Agência para Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças (ATSDR) havia assegurado a Jack Housenger, na época diretor do Escritório da EPA para Programas de Agrotóxicos, que colocaria seu relatório em espera.

“O Diretor da ATSDR e o Chefe de Escritório prometeram a Jack Housenger (diretor do Escritório de Programas de Pesticidas dos EUA) colocar seu relatório ‘em espera’ até depois que a EPA publicasse sua avaliação preliminar de risco (PRA) para o glifosato. A EPA não terá a reunião final do grupo técnico interno de revisão de câncer até que as monografias do IARC sejam publicadas e, portanto, não divulgará a PRA até depois disso (supondo que isso significaria em meados de agosto) ”, escreveu Jenkins. “O ATSDR citou um relatório de Auditoria do GAO ao argumentar que seu processo é diferenciado e não duplicativo. Eles olham para elementos de conclusão diferentes e disseram à EPA que não “fazem um apelo ao câncer”, mas acho que devemos continuar sendo cautelosos. A EPA me enviará o nome do Chefe do Escritório para que possamos marcar uma reunião.

Em uma resposta, agradecendo Jenkins pelo acompanhamento de 24 de junho, o toxicologista William Heydens, da Monsanto, escreveu: “Distinguível e não duplicativo”? A sério? E eu vou acreditar que não “fazer uma chamada ao câncer”, quando eu vejo isso. De qualquer forma, pelo menos eles sabem que estão sendo vigiados, e espero que eles façam algo muito estúpido … ”

Naquele mesmo dia, Jenkins respondeu: “Concordo completamente. Mary Manibusan me disse ontem que a EPA teve vários problemas no passado com o ATSDR chegando a conclusões diferentes. … Ela descreve o ATSDR como sendo muito conservadora, na mesma forma que o IARC, bem como o fato de que eles são baseados em riscos ”.

Ele então acrescentou: “Me deixa muito nervosa”.

No começo daquele ano, Heydens enviou a Jenkins um e-mail sobre como lidar com “as consequências da IARC”.

No final da mensagem, Heydens disse: “AGORA A PERGUNTA – Quais são seus pensamentos sobre se aproximar da EPA e ter uma conversa, provavelmente genérica, sobre qual área eles consideram mais problemática (por exemplo, epidemiologia humana versus bioensaios com animais versus genetox) ou simplesmente perguntar se há alguma coisa que possa ajudá-los a defender a situação? ”

Em sua resposta, Jenkins sugeriu que Heydens entrasse em contato com Jesudoss “Jess” Rowland, diretor de divisão do Escritório de Programas de Agrotóxicos da EPA. Rowland também foi presidente do Comitê de Revisão de Avaliação do Câncer da EPA, responsável pela avaliação da carcinogenicidade do glifosato na EPA.

– Acho que você e eu podemos falar com Jess Rowland e discutir isso abertamente. Ele nos dará uma conversa direta ”, disse Jenkins.

“Isso seria ótimo Dan”, respondeu Heydens.

Jenkins respondeu no dia seguinte, dizendo a Heydens que Rowland o chamara “do nada” pedindo um nome de contato na Agência de Substâncias Tóxicas e Registro de Doenças.

“Ele me disse que não há coordenação e ele queria estabelecer alguns dizeres: ‘Se eu puder matar isso, eu deveria ganhar uma medalha’. No entanto, não tenha esperanças, duvido que a EPA e a Jess possam matar isso; mas é bom saber que eles vão realmente fazer o esforço agora para coordenar devido à nossa preocupação premente e compartilhada de que o ATSDR é consistente em suas conclusões com a EPA ”, escreveu Jenkins a Heydens.

Em outubro, Jenkins também enviou uma mensagem de texto ao executivo da Monsanto, Phillip Miller, na época vice-presidente de assuntos regulatórios e governamentais globais. “Lembre-se que a ATSDR disse que também divulgaria sua visão em outubro”, disse ele. “Disse EPA para agradar e mantê-los alinhados.”

Sob o questionamento em vídeo de Wisner, Reeves não pôde fazer outra coisa senão confirmar o conteúdo das mensagens, mas ele disse: “Eu nunca ouvi ninguém na EPA dizer que eles iriam dizer ao ATSDR o que fazer”.

A ATSDR não divulgou seu perfil toxicológico no glifosato em outubro em 2015. Na verdade, ela não divulgou seu relatório preliminar até 8 de abril de 2019, quase quatro anos depois. O relatório adotou uma abordagem cautelosa, dizendo: “Numerosos estudos relataram razões de risco maiores que 1 para associações entre exposição ao glifosato e risco de Linfoma não-Hodgkin ou mieloma múltiplo; no entanto, as associações relatadas foram estatisticamente significativas apenas em alguns estudos ”.

O comitê de Rowland divulgou seu documento de avaliação do câncer sobre o glifosato em 1º de outubro de 2015, constatando que “as evidências epidemiológicas neste momento são inconclusivas para uma relação associativa causal ou clara entre o glifosato e o NHL”.

Reeves disse que sempre foi a posição da Monsanto de que não há evidências ligando o Roundup e o câncer. Ele citou, juntamente com as conclusões da EPA, relatórios da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos e da Agência Europeia de Produtos Químicos e conclusões de reguladores do Japão, Canadá, Nova Zelândia e Austrália de que o glifosato não é carcinogênico.

Espera-se que os advogados da Pilliods concluam seu caso na próxima semana, quando a Monsanto – agora pertencente à gigante química alemã Bayer AG – trará seus próprios especialistas.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela Corthouse News Service [Aqui!]

Monsanto gastou US $ 17 milhões em um ano para desacreditar a Agência Internacional do Câncer por causa do Glifosato

Até que ponto a Monsanto quis desacreditar os cientistas internacionais de câncer que acharam o herbicida glifosato da empresa um provável carcinógeno humano e promover uma contra-mensagem de segurança ao glifosato? O suficiente para alocar cerca de US $ 17 milhões para a missão, em apenas um ano, de acordo com evidências obtidas por advogados representando vítimas de câncer processando a Monsanto.

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Por Sustainable Pulse

Esse detalhe e outros sobre o funcionamento interno das operações de relações públicas da Monsanto vieram à tona em um depoimento gravado em 22 de janeiro do executivo da Monsanto, Sam Murphey. O trabalho de Murphey na Monsanto incluía direcionar as relações com a mídia global e “esforços de defesa em apoio a grandes litígios, questões políticas e ameaças à reputação” envolvendo o negócio de herbicidas à base de glifosato da empresa. E uma das maiores ameaças veio desses cientistas do câncer. Murphey agora trabalha para a Bayer depois que a empresa alemã comprou a Monsanto no verão passado.

O juiz do distrito dos EUA, Vince Chhabria, não permitiu que a divulgação do orçamento anti-IARC por Murphey fosse apresentada como prova no julgamento de Hardeman V. Monsanto, que chegou a um veredito de US $ 81 milhões sobre danos na semana passada.

Mas a evidência de Murphey deve ser introduzida no julgamento de Pilliod versus Monsanto, que começou na quinta-feira passada no Tribunal Superior do Condado de Alameda, em Oakland, Califórnia.

Já se passaram quatro anos desde que a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC) revisou a literatura científica publicada e revisada por pares sobre glifosato e descobriu que o herbicida é provavelmente carcinogênico, com uma associação particular ao linfoma não-Hodgkin. A IARC faz parte da Organização Mundial de Saúde e classificou mais de 1.000 substâncias quanto ao seu risco de câncer, normalmente sem muita controvérsia.

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Mas o glifosato era diferente. Após a classificação de março de 2015, centenas e milhares de pessoas diagnosticadas com Linfoma Não-Hodgkin após exposições aos herbicidas da Monsanto entraram com uma ação contra a gigante agroquímica.

Também imediatamente após a classificação do glifosato na IARC – e continuando até hoje – os cientistas que pesquisam câncer tornaram-se objeto de condenação generalizada por parte de uma variedade de organizações, indivíduos e até mesmo de alguns legisladores dos EUA. Eles têm sido acusados ​​de operar não com base em ciência sólida, mas em nome de uma agenda política, coleta seletiva de dados e promoção da ciência da pornografia, entre outras coisas. As críticas foram ampliadas e repetidas em todo o mundo em artigos de notícias, artigos de opinião, blogs, anúncios do Google na Internet e muito mais.

Documentos internos da Monsanto revelados por mais de 11 mil processos contra a empresa mostram que, entre outras táticas, a Monsanto tem secretamente usado terceiros para enviar mensagens anti-IARC porque os executivos da empresa e agentes de relações públicas acharam que as informações apareceriam mais credível proveniente de entidades separadas da Monsanto.

Em seu depoimento, perguntaram a Murphey quanto a empresa gastou tentando lançar dúvidas sobre a classificação da IARC.

Em seu depoimento, perguntaram a Murphey quanto a empresa gastou tentando lançar dúvidas sobre a classificação da IARC.

Aqui está um pouco da troca:

Pedram Esfandiary, advogado do autor: “Então é verdade que a Monsanto alocou milhões de dólares em resposta à classificação da IARC, correto?”

Murphey: “Nós – nós tivemos – tivemos que gastar uma quantidade significativa de recursos, ao longo de vários anos, corrigindo informações errôneas e respondendo a perguntas do público sobre o glifosato.”

Esfandiary: “A Monsanto alocou milhões de dólares para responder à classificação da IARC?”

Murphy: “Sim”

Esfandiary: “Você sabe o quanto a Monsanto alocou para ele em 2016?”

Murphey: “Eu só posso falar dentro do contexto de, você sabe, atividades de relações públicas, você sabe, coisas que eu teria estado diretamente envolvido. Mas em 2016, você sabe, eu acredito para alguns dos projetos em que eu estava envolvido. foram cerca de 16 ou 17 milhões. ”

Esfandiary: “$ 16 ou 17 milhões… foram alocados para responder ao esclarecimento da IARC (stet)?

Murphey: “Não, não especificamente e exclusivamente focado no IARC. É – teria focado no engajamento e nas relações com a mídia e outras atividades sobre o glifosato, de forma mais geral. ”

Esfandiary perguntou então a Murphey quanto custaria à empresa realizar um teste de bioensaio a longo prazo sobre o câncer de seus produtos formulados de glifosato, algo que a empresa reconheceu que nunca fez. Murphey disse que não sabia.

O ano de 2016 foi particularmente crítico para a Monsanto porque, além de enfrentar litígios, a licença de glifosato da empresa estava sendo renovada na Europa, e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA também estava revisando o registro do glifosato.

Como foi gasto o dinheiro?

No depoimento, Murphey foi questionado sobre um documento interno da Monsanto de julho de 2015 chamado “IARC Follow Up” que citava uma meta de “invalidar a relevância da IARC” e “proteger a liberdade de operar” (FTO). Ele foi questionado sobre uma série de ações realizadas para minimizar ou desacreditar o trabalho do IARC que foram estabelecidas nessa e em outras comunicações internas da Monsanto. Várias páginas do depoimento são completamente classificadas, por ordem judicial, por isso não é possível ver tudo o que foi dito por Murphey em seu depoimento. Mas aqui estão alguns exemplos do que foi discutido:

  • Ampliando as mensagens do pró-glifosato / Roundup através de “canais de terceiros”. Um exemplo de usar uma terceira parte para falar dos pontos de discussão da Monsanto foi um artigo que apareceu na plataforma de contribuição da Forbes que parecia ser escrito por Henry Miller, que na época era um membro da Hoover Institution na Universidade de Stanford. Documentos internos da Monsanto mostram que a peça criticando a IARC foi realmente redigida pela Monsanto e enviada a Miller com um pedido para que ele publicasse o material.
  • Outras manobras de opinião. Pouco antes da classificação do IARC, Dan Goldstein, executivo da Monsanto, discutiu cinco “rascunhos potenciais de Op Eds que ele escreveu para“ toxicologistas médicos para trabalhar ”que incluíam“ parágrafos sobre críticas à IARC ”. Goldstein estava enviando o rascunho de artigos para médicos e cientistas, com a esperança de que eles adotassem os rascunhos como seus e os publicassem, mostram os registros. A Monsanto estava disponível para “coordenar as versões da Op-Ed” ​​conforme necessário, disse Murphey em seu depoimento.
  • Estratégia “Let Nothing Go”. Segundo Murphey, a iniciativa envolveu “monitorar cuidadosamente a cobertura da mídia” com foco na União Européia. “Tivemos vários mercados em que estávamos – e que priorizamos”, disse Murphey. O projeto exigia o monitoramento de histórias e o destaque ou sinalização daqueles que continham o que a Monsanto via como informações imprecisas ou informações erradas sobre a empresa ou seus produtos, ou histórias que não incluíam a perspectiva ou o ponto de vista da empresa. Alguém seria então designado para acompanhar esses repórteres, “pro-ativamente chamando repórteres nesses casos, para compartilhar uma declaração, para fornecer algum contexto adicional, e para encorajar esses repórteres a nos contatar no futuro”, disse Murphey.
  • Convencer um repórter da Reuters a escrever uma reportagem minando a validade da classificação da IARC foi outro exemplo do trabalho de Murphey. E-mails de dentro da Monsanto mostraram que Murphey enviou uma lista de pontos de discussão e uma narrativa sugerida à repórter da Reuters Kate Kelland pedindo que ela escrevesse uma história que acusava Aaron Blair, presidente do grupo de trabalho sobre glifosato da IARC, de esconder dados que teria mudado a conclusão da IARC sobre o glifosato. Murphey disse a Kelland em um e-mail de abril de 2017 que era “informação vitalmente importante que precisa ser relatada”. Ele também disse a ela para tratar a informação que ele enviou como “fundo”, significando que ela não deveria mencionar a idéia e os materiais da história. da Monsanto. Kelland então escreveu a história que a Monsanto queria. Um depoimento de Aaron Blair indicou que as acusações contidas na história eram falsas, mas Kelland não incluiu uma cópia do depoimento em sua história. A história foi promovida pela Monsanto e pelas organizações da indústria química e anúncios do Google e foi retomada e repetida pelos meios de comunicação em todo o mundo. Murphey disse em seu depoimento que ele não colocou nenhuma pressão indevida sobre Kelland, e a Monsanto acreditava que a história era válida e importante. “Uma vez que eu forneci a informação inicial para – para a Sra. Kelland, ela estava livre para fazer com essa informação o que ela achava adequado”, disse ele. “E a decisão de investigar uma reportagem e, finalmente, publicá-la foi sua decisão e a decisão de seus editores na Reuters.”

Murphey disse que não havia nada de nefasto nos esforços que a Monsanto realizou após a publicação do parecer da IARC. Ele disse que o plano da empresa incluiu o “envolvimento com terceiros para fornecer informações, compartilhar pontos de discussão e outros recursos” junto com “divulgação à mídia, para garantir equilíbrio e precisão, e o contexto e perspectiva corretos sobre a ciência em cobertura de – do nosso produto. ”

“À medida que avançávamos, após a classificação da IARC, novamente, éramos muito diretos ao nos envolvermos com grupos de agricultura, interagindo com os jornalistas, interagindo nas mídias sociais para compartilhar – para compartilhar os pontos de vista da empresa”, disse Murphey no depoimento. “Nós – vocês sabem, mantivemos nossos  esforços- mantivemos grupos de agricultura e outros informados. Ficamos satisfeitos que muitos deles continuaram a falar também sobre o que eles viam como uma classificação imprecisa. Mas a Monsanto sempre foi muito, novamente, eu apenas enfatizo- muito franca em compartilhar nossas visões sobre a classificação.

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Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pelo site Sustainable Pulse [Aqui!]

Um aborto a cada quatro grávidas

A cidade em que o agrotóxico glifosato contamina o leite materno e mata até quem ainda nem nasceu

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Por Nayara Felizardo para o “The Intercept”

O FILHO DE MARIA Félix, de 21 anos, resistiu pouco mais de seis meses de gestação. Morreu ainda no ventre, com apenas 322 gramas. A causa do aborto, que aconteceu com 25 semanas de gravidez, foi má formação: o bebê tinha o intestino para fora do abdômen e também problemas no coração. Não é incomum que as mães da região percam seus filhos precocemente. O bebê de Maria, ao que tudo indica, foi mais uma vítima precoce do agrotóxico glifosato, usado em grandes plantações de soja e de milho em Uruçuí, a 459 km de Teresina, no Piauí.

O mesmo veneno que garante a riqueza dos fazendeiros da cidade, no sul do estado, está provocando uma epidemia de intoxicação com reflexo severo em mães e bebês. Estima-se que uma em cada quatro grávidas da cidade tenha sofrido aborto, que 14% dos bebês nasçam com baixo peso (quase do dobro da média nacional) e que 83% das mães tenham o leite materno contaminado. Os dados são de um levantamento do sanitarista Inácio Pereira Lima, que investigou as intoxicações em Uruçuí na sua tese de mestrado em saúde da mulher pela Universidade Federal do Piauí.

Conheci a história de Maria Félix Costa Guimarães na maternidade do hospital regional Tibério Nunes, na cidade de Floriano. É para lá que as mulheres de Uruçuí são encaminhadas quando têm problemas na gravidez. Nos primeiros exames, feitos em julho, já havia sido identificada a má-formação no feto. Em setembro, no leito do hospital, encontrei a jovem, que lia a Bíblia e se recusava a comer. Carregava um olhar entristecido, meio envergonhado. Ela tinha sofrido o aborto no dia anterior e aguardava o médico para fazer uma ultrassom e se certificar de que não seria necessária a curetagem (cirurgia para retirada de restos da placenta).

Maria não tinha condições emocionais para conversar, por isso falei com a sua tia, a intercept 2funcionária pública Graça Barros Guimarães. Ela não sabia sobre a pesquisa realizada em Uruçuí, mas acredita nos resultados apontados por Lima. “Se a gente for avaliar, o agrotóxico causa problema respiratório e de alergia. Então é claro que se a mulher tiver grávida, o bebê pode se contaminar também”.

Graça me contou que a sobrinha sempre esteve rodeada de fazendas de soja. A casa onde vive, em Uruçuí, fica a cerca de 15 km de uma plantação. Antes, ela morava na zona rural do município de Mirador, no Maranhão, onde também há plantio de soja. “Os fazendeiros tomaram conta de tudo.”

 

Laudo do ultrassom que constatou a morte do bebê. ‘A principal consequência é a atrofia de alguns órgãos’, diz o médico.Imagem: Reprodução

 Em meados de agosto estive em Uruçuí para conversar com profissionais da saúde e com os trabalhadores agrícolas. Eu queria entender como viviam as pessoas no município contaminado pelo glifosato, e se elas tinham noção de que o problema existe. Também liguei para o pesquisador Inácio Pereira Lima, que culpa o agronegócio pelo adoecimento das pessoas. “Tudo isso é consequência do modelo de desenvolvimentoeconômico em que só o lucro está em foco, independente das consequências negativas para a população”, ele me disse.

Epidemia de glifosato

O glifosato é o agrotóxico mais usado no Brasil. É vendido principalmente pela Monsanto, da Bayer, com o nome comercial de Roundup. Seus impactos na saúde humana são tão conhecidos que o Ministério Público pediu que sua comercialização fosse suspensa no Brasil até que a Anvisa fizesse sua reavaliação toxicológica. Em agosto, a justiça aceitou e o glifosfato foi proibido. A suspensão foi classificada como um “desastre” pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e foi duramente combatida por ruralistas e pela indústria.

A decisão, no entanto, foi derrubada pela justiça em segunda instância poucas semanas depois. Maggi – que também é conhecido como “rei da soja” – não escondeu o seu entusiasmo com a liberação do agrotóxico:

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A Monsanto diz que o produto é seguro, mas e-mails da empresa divulgados no ano passado mostram que ela pressionou cientistas e órgãos de controle nos EUA para afirmarem que o glifosato não causa câncer. Isso não impediu a Monsanto de ser condenada a pagar mais de R$ 1 bilhão a um homem que está morrendo de câncer nos Estados Unidos. Cerca de 4 mil ações parecidas estão em curso naquele país.

O produto representa quase a metade de todos os agrotóxicos comercializados no Piauí. O pesquisador Lima explicou que a presença da substância no leite materno indica a contaminação direta ou que as quantidades utilizadas na atividade agrícola da região são tão elevadas, que o excesso não foi degradado pelo metabolismo da planta. As mulheres estudadas por ele sequer trabalham nas lavouras: elas estão intoxicadas porque fazem limpeza, cozinham nas fazendas ou porque comeram o herbicida nos alimentos. Lima, em sua tese, explica que o organismo é contaminado pela pele e vias respiratória e oral.

Mulheres, as maiores vítimas

Pelos registros do hospital regional de Uruçuí, os abortos ocorrem geralmente em mulheres entre 20 e 30 anos, que chegam até a 10ª semana de gestação. O número elevado de casos é citado por Iraídes Maria Saraiva, enfermeira plantonista. “São muitas as mulheres que chegam com sangramento ou já com o ultrassom mostrando que o feto não tem batimentos cardíacos. A maioria desses abortos são espontâneos”, me disse.

Muitas mulheres têm a gravidez interrompida logo nas primeiras semanas. Sem saber que estão grávidas, elas seguem trabalhando cercadas pelo glifosato. Quando descobrem, já não há mais o que fazer. “Dificilmente é a primeira gravidez e elas não têm doenças pré-existentes. Quer dizer, são mulheres jovens que aparentam ser saudáveis”, observou a enfermeira.

Há ainda as que sabem que estão esperando um filho mas não podem deixar o trabalho, simplesmente porque dependem do salário. As que passam da fase mais crítica e levam a gravidez até o fim correm alto risco de ter má formação do feto.

Na maternidade de Floriano, o coordenador do setor de obstetrícia Luiz Rosendo Alves da Silva já viu muitos casos de aborto e de má-formação. Ele acredita na culpa dos agrotóxicos. “É uma contaminação lenta, gradual e diária. A principal consequência é a atrofia de alguns órgãos, principalmente coração e pulmão”.

Alanne Pinheiro, enfermeira do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), observa que as mulheres estão expostas aos agrotóxicos de forma mais perigosa do que os homens que trabalham diretamente na aplicação do veneno. “Elas ficam na cozinha ou fazem a limpeza das fazendas e acabam inalando o agrotóxico de forma indireta. Como não usam roupas especiais, sofrem mais o efeito da intoxicação passiva.”

PIB alto, salário baixo

A cidade de 21 mil habitantes tem as características comuns do interior, onde a vida acontece sossegada e todo mundo se conhece. Quase um terço da população vive na zona rural. No percurso de 40 km do centro até o Assentamento Flores – onde moram muitos dos trabalhadores com quem eu pretendia conversar – quase não há árvores, exceto em pontos isolados ao redor da casa grande, a sede da fazenda. A sensação é de um enorme deserto e uma riqueza distribuída entre poucos.

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Na pacata Uruçuí, mesmo quem não trabalha diretamente na agricultura está sendo contaminado. Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Uruçuí

Uruçuí não é um município pobre. O PIB per capita, de R$ 49 mil, era o 2º maior do Piauí em 2015, último ano da pesquisa do IBGE. Perdia apenas para a cidade vizinha, a também agrícola Baixa Grande do Ribeiro. Mas na prática, o salário dos trabalhadores é de R$ 1.900 por mês, em média.

Quem enriquece de verdade são os fazendeiros. A maioria deles saiu do sul do Brasil para o cerrado piauiense em busca de terras e do clima ideal para o plantio de suas lavouras. Outros ocupam ou já ocuparam cargos na política como deputados ou vereadores. É o caso do ex-deputado estadual Leal Júnior, eleito três vezes para o mesmo cargo, e da vereadora de Uruçuí Tânia Fianco.

Joana* trabalhou como cozinheira na Fazenda Serra Branca há sete anos. Ela conta que o cheiro do agrotóxico chega até as trabalhadoras, mesmo quando elas não estão nos locais onde o veneno é aplicado. “Dependendo da posição do vento, a gente sentia. E se tivesse aplicando com o avião, era mais forte. Às vezes eu chegava em casa com dor de cabeça e sabia que era do veneno”, lembra ela, que prefere não se identificar. “Sabe como é, né? A gente depende das fazendas”, conforma-se. O marido ainda trabalha no agronegócio.

Se os males causados pelos agrotóxicos se limitassem às mães e aos seus bebês, o problema já seria grave o bastante, mas o sanitarista Inácio Pereira Lima faz um alerta. “Como minha pesquisa foi voltada para a mulher, coletei amostras biológicas exclusivas; por isso foi o leite. Mas, se a pesquisa fosse da população em geral, poderia optar por outro tipo de amostra como sangue ou urina. E talvez chegasse a esses mesmos resultados. Ou seja, toda a população está sob risco, e não só as mães que amamentam”, me explicou o pesquisador.

Ouvi de muitas pessoas da cidade que alguns fazendeiros não são simpáticos com quem os contraria. O conselho que todo mundo me deu foi: “Não fale com eles”. As fazendas têm seguranças armados.

Decidi ir ao escritório da Fazenda Canel, administrada pelas famílias Bortolozzo e Segnini, originárias de Araraquara, no interior de São Paulo. Eles se instalaram no Piauí há 30 anos e são os pioneiros no plantio de soja no estado. Eu queria entender a posição deles. Todos se negaram a conversar comigo. Funcionários justificaram que os responsáveis estavam “viajando para o exterior”.

Mais medo de demissão do que de doença

Na cidade onde quase todo mundo se conhece, o mesmo segredo é compartilhado. Ninguém fala para os profissionais de saúde quando sente os efeitos do agrotóxico no organismo, e dificilmente o hospital é procurado. Se a intoxicação for mais grave, os trabalhadores escondem dos médicos sua possível causa. É muito difícil detectar laboratorialmente doenças causadas por agrotóxico. Se o paciente não fala, muitas internações provocadas pelos químicos não caem na conta deles.

A enfermeira Alanne Pinheiro me disse que as pessoas têm medo de perder o emprego. “Se eles disserem que estão doentes por causa dos agrotóxicos, aquilo pode repercutir na cidade e ficar mal pro fazendeiro. Os trabalhadores têm mais medo de demissão do que de uma doença.”

Há ainda a falta de conhecimento sobre os riscos dos agrotóxicos. “Eles nem acreditam que possa acontecer algum problema grave porque os danos só aparecem a longo prazo. Não existe a percepção de que os males se acumulam e podem trazer doenças irreversíveis, como um câncer que já se descobre em metástase”, diz Alanne.

Um possível exemplo é João*, marido de Helena*. Conversei com ela porque João sai cedo para a Fazenda Nova Aliança e só chega à noite. Este ano, o trabalhador teve uma alergia nos braços, mas decidiu tratar em casa. Sem avaliação médica e sem exames, João se auto-medicou. “Acho que não foi agrotóxico, porque ele é pedreiro e não mexe com veneno. Deve ter sido por causa do cimento”, opina a mulher.

É comum que os moradores atribuam os sintomas da intoxicação a outras causas. “Os pacientes chegam com queixas vagas, como ardência nos olhos. Mas, quando a gente começa a investigar, eles não falam tudo”, comenta a enfermeira Iraídes. Nas raras vezes em que vão ao hospital, são levados por algum funcionário da fazenda. Com essa vigília, o medo de perder o emprego é maior e a saúde fica em segundo plano.

O Centro de Referência em Saúde do Trabalhador está tentando evitar o alto índice de subnotificação: eles treinam os enfermeiros e médicos para que notifiquem os casos de intoxicação quando perceberem os sintomas, independente do que afirmam os pacientes.

Tecnologia para o lucro

Geivan Borges da Silva é técnico em agropecuária e presta assessoria para muitos fazendeiros de Uruçuí. Ele defende que o uso de sementes transgênicas reduz a necessidade de agrotóxicos. “Quase 100% das áreas plantadas aqui são de variedades transgênicas, resistentes a muitos tipos de praga e ervas daninhas”, ameniza.

Na verdade, as provas científicas dizem o contrário. O dossiê sobre agrotóxicos da Abrasco, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, mostra que o uso de transgênicos aumentou a necessidade de defensivos agrícolas. É só olhar para a soja, campeã no uso de agrotóxicos: 93% da safra é transgênica, e a quantidade de litros de produtos químicos aumentou mesmo assim.

Na região sul do Piauí, as sementes de milho, soja e algodão também são vendidas pela Monsanto, a mesma que fornece o glifosato, de acordo com o cadastro de junho de 2018 da Agência de Defesa Agropecuária do Piauí, a Adapi.

Outra tecnologia defendida por Silva é a que minimiza a disseminação do agrotóxico no ar: usa-se um produto que aumenta o peso da gota, fazendo com que ela desça diretamente na planta e não disperse com o vento. “Tudo é agricultura de precisão para reduzir os custos”, argumenta.

É certo que essas tecnologias otimizam a produção agrícola, mas elas foram incapazes de evitar a intoxicação de Emanuel*, que trabalha como operador de máquina de aplicação de agrotóxico na Fazenda Condomínio União 2000.

Após um ano trabalhando, Emanuel sentiu tontura, fraqueza, ardência nos olhos e chegou a vomitar. Quem conta essa história é a esposa dele, Rosa*. “Nós fomos pro hospital e quando saiu o resultado do exame, deu que tinha agrotóxico no sangue. A médica passou remédio, mandou ele se afastar do trabalho por um tempo e tomar muito leite”.

Emanuel melhorou, mas há três anos voltou para o mesmo ofício. “Ele já me disse que só fica até o final desse ano. Não vale a pena perder a saúde por causa de dois mil por mês”, diz Rosa. Eram 18h quando me despedi. O marido dela ainda não tinha chegado. Ele trabalha para a vereadora Tânia Fianco, do PSDB.

No Brasil, o Projeto de Lei conhecido como PL do Veneno pretende liberar mais rapidamente vários produtos, entre eles muitos que são à base de glifosato. O lobby da indústria é pesado, e ataca sobretudo a Anvisa, agência reguladora suscetível a todo tipo de pressão e que já mostrou que está disposta a fazer o jogo das grandes corporações.

*Os nomes dos trabalhadores foram alterados para preservar suas identidades.

Foto em destaque: ultrassom que constatou a má-formação no filho de Maria Félix. Ele morreu ainda no útero, com 25 semanas, por causa de má-formação no abdômen e no coração.


Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo site jornalístico “The Intercept” [ Aqui!]