Amazônia em chamas: a supremacia da economia de fronteira e avanços tecnológicos explicam o tamanho do fogo

amazon fire(Photo: Mario Tama/Getty Images)

Enquanto milhares de imagens de fogo literalmente incineram a falsa polêmica levantada pelo presidente Jair Bolsonaro e por seu improbo ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cresce um misto de comoção e aturdimento de como podemos estar assistindo a tamanha destruição e em tal velocidade.

A pista para entender o que está ocorrendo pode estar em um relatório razoavelmente desconhecido no Brasil e que foi escrito por Michael E. Colby para o Banco Mundial onde ele apresenta sua tipologia para os diferentes paradigmas o manejo do ambiente em face do processo de desenvolvimento econômico. 

É que no continuum criado  por Colby aparece o que ele chamou de “Economia de Fronteira” onde o que predomina é uma visão da natureza como uma fonte infinita e aberta de recursos, de onde se pode tirar tudo sem que haja quaisquer preocupações com a sustentabilidade ambiental ou, ainda, com a distribuição dos  custos que essa forma desregulada de acesso inevitavelmente causa.

E me parece que é justamente a supremacia da “Economia de Fronteira” que estamos assistindo neste momento, o que tem sido viabilizado não apenas pelas políticas ambientais do governo Bolsonaro, mas pela presença de diversos clones de Jair Bolsonaro nos governos estaduais.  Essa combinação permitiu o desmanche das precárias estruturas de comando e controle que impediram nas últimas décadas que a “Economia de Fronteira” hoje hegemônica em relação a outras formas de exploração capitalista. Agora que esses controles sumiram, os agentes que só podem agir livremente em regimes econômicas da “Economia de Fronteira” estão agindo em sua plenitude, e com as repercussões devastadoras que estão emergindo nas redes sociais e mais pontualmente nas telas de TV.

Um aspecto que sempre merece esclarecimento é que os agentes (ou “drivers”) da “Economia de Fronteira” sempre estiveram presentes e agindo, e são relativamente conhecidos na literatura sobre as idas e vindas dos esforços de modernizar o Capitalismo na fronteira amazônica.  Entre os “drivers” clássicos estão os madeireiros, garimpeiros e grileiros de terras, latifundiários, bem como os agricultores sem terra descapitalizados. Além disso, as formas de interação entre esses agentes também foi fartamente ilustrada, pois apesar de existir certa autonomia entre eles, também sempre existiu formas de cooperação. Agindo junto ou sobre esses agentes sempre estiveram membros das elites políticas e econômicas que inicialmente ocuparam a Amazônia, e que historicamente ocuparam a direção dos governos estaduais e municipais. 

Outros agentes que começaram a estar presente com o avanço da fronteira que foi viabilizado pelos grandes projetos implantados na Amazônia pelo regime militar de 1964 foram as grandes corporações econômicas (i.e. bancos, mineradoras, montadoras de carros) a quem não apenas foi oferecida a oportunidade de operar em seus ramos específicos, mas também de serem grandes proprietárias de terra.  Apesar desses agentes econômicos representarem uma face mais moderna do Capitalismo, o fato é que dentro da Amazônia os mesmos sempre tenderam a operar dentro dos parâmetros da fronteira, e não raramente recorreram à violência extrema para impor seus interesses. Tudo dentro da melhor concepção da “Economia de Fronteira”.

Entender essa complexa combinação de agentes e seu comportamento de acesso ilimitado aos recursos naturais da Amazônia é o primeiro passo para entendermos o que está acontecendo neste momento. Entretanto, penso que algo mais precisa entrar na equação que é o avanço tecnológico das ferramentas de extração de recursos, bem como uma modificação nas formas de colaboração entre todos os agentes aqui citados.  A existência de máquinas e insumos que permitem que mais áreas sejam incorporadas à economia de fronteira tem o dom de potencializar a capacidade de destruição que cada um desses agentes possuía anteriormente.  Como também ocorreu uma modificação nas formas com que esses agentes agem, o mais provável é que estejam cooperando mais eficientemente em vez de estarem competindo entre si.  Um exemplo seria a ação combinada entre madeireiros e grandes proprietários de terra que agem de forma coordenada para remover os recursos madeireiros e abrir caminho para haja uma derrubada acelerada da vegetação desprovida de essenciais florestais de valor comercial.

O importante é que seja quem estiver colaborando com quem, o que temos como padrão neste momento é a capacidade de remover mais vegetação nativa e em um espaço muito menor do tempo em relação ao que ocorreu na década de 1970.  Tudo isso torna ineficaz o uso das taxas relativas e absolutas acumuladas na Amazônia para minimizar o que estamos assistindo em 2019. É que tudo indica que estamos diante de um novo regime de desmatamento cuja velocidade estamos apenas começando a ver. Como sou o co-autor de um artigo científico sobre o desmatamento no interior de unidades de conservação no estado de Rondônia onde ficou demonstrado que é preciso se verificar o comportamento longitudinal do desmatamento mesmo em face de taxas absolutas que parecem residuais,  o que mais me preocupa é que as taxas que estão sendo verificadas na Amazônia apontam para um cenário mais devastador e que se dará em tempo bem menor.

Ressalte-se que esse cenário se ajusta perfeitamente ao ideário ultraneoliberal que o ministro Paulo Guedes vem pregando, pois o que ele nos oferece como visão de economia é o que alguns rotulam de “anarco capitalismo” que é apenas uma nova roupagem para a “Economia de Fronteira”, pois o que se prega é a completa ausência do papel de intervenção do Estado a quem resta operar para que os indicadores de saúde econômica não espantem os especuladores internacionais que se refastelam com o dinheiro público. O problema é que ao Brasil e aos brasileiros restará um país que está torrando a sua biodiversidade em prol de uns trocados.

Desmatamento na Amazônia: a sombra do boicote às commodities brasileiras aponta no horizonte

bolso boicotePolíticas anti-ambientais e declarações provocadores do presidente Jair Bolsonaro devem resultar em um amplo comercial às commodities agrícolas brasileiras

O Brasil, muito em parte graças à postura diplomática desastrosa do presidente Jair Bolsonaro, está semeando muitos ventos e poderá acabar colhendo fortes tempestades  em função do que está acontecendo na Amazônia neste momento.  É que pode se denotar pela informação que dois dos principais veículos da mídia a Alemanha  (a revista a Der Spiegel e o jornal Die Zeit) começaram a falar abertamente na realização de um boicote aos produtos agrícolas brasileiros por causa da forma irresponsável com que o governo brasileiro vem tratando a explosiva expansão da franja de desmatamento para dentro das regiões mais interiores da Amazônia.

Para agravar o quadro, o presidente Jair Bolsonaro foi pego divulgando um vídeo de uma caçada à baleias nas Ilhas Faroe (que é parte da Dinamarca) como se representasse uma ação realizada pela Noruega que recentemente descontinuou o financiamento do chamado Fundo Amazônia justamente por causa do avanço descontrolado do desmatamento na Amazônia. 

Enquanto isso a campanha de boicote iniciada pelo CEO da rede Paradiset , Johannes Cullberg, continua ganhando corpo na Suécia, tendo sido criada uma página oficial na rede social Facebook para ampliar a comunicação dentro e fora do país escandinavo.

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Um dado curioso sobre o avanço da ideia de boicote a produtos brasileiros por causa do avanço do desmatamento e do uso de agrotóxicos proibidos na União Europeia está ganhando versões similares em outros países além da Suécia que pode aumentar exponencialmente a pressão contra a ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.

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Esse cenário já fazendo com que diversas vozes do interior dos setores que hoje se beneficiam da exportação de commodities agrícolas a emitirem alertas sobre os riscos que estão sendo postos na mesa por causa das políticas anti-ambientais, destacando-se entre essas vozes as dos ex-ministros da Agricultura e latifundiários Blairo Maggi e Kátia Abreu. Entretanto, na última edição dominical do jornal “Folha de São Paulo” também foi dado amplo espaço ao pecuarista Mauro Lúcio Costa que possui opera com pecuária bovina no município paraense de Paragominas onde o mesmo alerta para os riscos trazidos pelas visões ambientalmente regressivas do governo Bolsonaro.

Eu particularmente tenho uma forte desconfiança que o presidente Jair Bolsonaro e seus ministros anti-ambiente (Tereza Cristina, Ricardo Salles e Ernesto Araújo) não irão dar ouvidos às preocupações de setores mais pragmáticos do latifúndio agro-exportador, visto que as alianças estabelecidas durante a campanha eleitoral foram com setores que são extremistas em suas posições anti-ambiente e anti-povos indígenas. E estes setores estão extremamente com a piromania que emana do interior do governo Bolsonaro. Aliás, se alguma crítica existe a mesma se dá no sentido de que toda as regressões já cometidas nas políticas anti-ambientais ainda são insuficientes. Essa é a verdade.

O mais interessante é que em meio à guerra comercial que está em pleno curso entre EUA e China, uma das peças que serão movidas no tabuleiro será justamente a do comércio de commodities agrícolas. O problema é que se União Europeia decidir migrar suas comprar para os fazendeiros dos EUA, não há nenhuma garantia de que os chineses se moverão em igual direção aos latifundiários brasileiros. A razão para isso é simples: nos últimos anos, a China formou gigantescos estoques de commodities, o que possibilita aos chineses adotar uma posição mais pragmática e orientada sobre e quanto comprar. Em outras palavras, os EUA estão muito mais para competidores do que aliados do Brasil na questão das commodities, um fator que parece estar sendo francamente desprezado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus ministros pró-EUA.

E se o pior acontecer e o Brasil for reduzido a uma posição de pária internacional por causa das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro, os latifundiários que fizeram campanha para Jair Bolsonaro só terão a si mesmos para culpar.

 

A Amazônia em chamas nas lentes de Araquém Alcântara

O catarinense Araquém Alcântaraque é um dos principais fotógrafos, da atualidade acaba de divulgar em sua página oficial da rede social Facebook uma série de imagens de sua recente visita ao círculo de fogo em que as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro estão transformando a Amazônia brasileira.

Estou tomando a liberdade de postar essa série de fotografias que mostram com riqueza de detalhes a destruição que está em curso neste momento na porção brasileira da bacia Amazônica. Disseminar essas imagens é uma das formas de desvelar o profundo crime ambiental que está sendo cometido contra os povos e a biodiversidade da Amazônia.

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As chamas que devoram a Amazônia são uma prova do êxito das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro

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O vídeo abaixo apresenta uma prova inegável do êxito das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro que transformaram boa parte da Amazônia brasileira em uma fogueira a céu aberto após a derrubada de milhares de hectares de floresta.

A informação é que este vídeo foi gravado em algum ponto da BR-364 no estado de Rondônia, mas poderia ser em muitos outros pontos da Amazônia onde hoje o fogo domina a paisagem.

A fumaça que já começa a cobrir boa parte da América do Sul somada às imagens de fogo que estão emergindo por todos os cantos nas redes sociais são atestados de que a inércia estabelecida pelo governo Bolsonaro para impedir a proteção de nossas florestas está sendo plenamente exitosa.

Fica apenas a pergunta do porquê da demissão do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o físico Ricardo Galvão, por causa da divulgação dos dados de desmatamento que agora estão se transformando am incêndios gigantescos.

A minha hipótese é que se esperava que com a demissão de Ricardo Galvão se esconderia a verdade inescondível. Faltou combinar com as redes sociais e seus milhões de informantes que não se curvam às vontades deste ou daquele governo.

A Amazônia queima enquanto o improbo Ricardo Salles está à toa na vida

fogo-amazoniaEnquanto as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro colocam tocam fogo na Amazônia, Ricardo Salles está à toa na vida.

Imagens de satélite estão mostrando que boa parte da América do Sul está sendo coberta por nuvens de fumaça vindas das milhares de queimadas que estão sendo acesas com a vegetação que está sendo tombada das florestas da Amazônia brasileira (ver exemplo abaixo).

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Não bastassem as imagens de satélite, relatos de diversas tragédias que estão alcançando aqueles que estão ficando literalmente do fogo cruzado começam a surgir na mídia alternativa, como foi o caso de um casal de idosos que morreu abraçado tentando escapar de um incêndio aparentemente criminoso que atingiu um assentamento de reforma agrária no município de Machadinho do Oeste em Rondônia.

Enquanto o fogo que se espalha por boa parte da Amazônia ceifa vidas e extermina a biodiversidade, o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se ocupa de fazer paródias em sua página oficial na rede social Twitter. Frise-se ainda que a paródia feita foi uma tentativa (tosca é preciso que se diga) de responder à informação que o improbo ministro está sendo investigado pelo Ministério Público Estadual de São Paulo por suposto enriquecimento ilícito entre 2012 e 2017,  período em que ele alternou suas pouca rentáveis atividades como advogado com cargos no governo tucano de Geraldo Alckmin.

Em mais essa mostra de inaptidão para ocupar um ministério chave para a manutenção do Brasil como um “player” não apenas no fornecimento de commodities agrícolas e minerais para os mercados globais, mas também nas políticas internacionais de mitigação das mudanças climáticas, como é o caso do Meio Ambiente (MMA), Ricardo Salles utilizou-se da canção “A banda” para tentar atacar (no caso a mídia corporativa) quem divulga os seus problemas com a justiça, realizando um ataque primário à Chico Buarque e ao jornalista Glenn Greenwald.

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Um conforto nesse tweet é que Ricardo Salles finalmente reconheceu publicamente e em veículo pessoal algo que já é sabido por todos, que é o fato dele “estar à toa na vida”. O problema é que a sua gestão desastrosa à frente do MMA, não apenas a Amazônia queima, como queimam pessoas e a rica biodiversidade que ela contém.

Quando a conta da presença do improbo ministro Ricardo Salles à frente do MMA finalmente chegar (e ela vai chegar), quem hoje ri com a situação criada por ele também vai chorar, como hoje chora quem está perdendo tudo para o fogo alimentada pela ação deliberada de destruir a governança ambiental e os mecanismos de comando e controle está destruindo.

A devastação da Amazônia e os riscos crescentes do isolamento internacional do Brasil

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Múltiplas evidências apontam no sentido de que a porção brasileira da bacia Amazônica está experimentando uma retomada dos ritmos explosivos de desmatamento que marcaram a região durante os anos de 1970. Mas ao contrário do que aconteceu cinco décadas atrás, existem ferramentas de mensuração e publicização de formas predatórias de uso dos recursos naturais existentes na Amazônia.

As primeiras consequências da constatação do avanço explosivo da franja de desmatamento foram a demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) por ter cometido o “pecado” de não ter escondido os números do desmatamento. Depois e provavelmente como consequência disso, os governos da Alemanha e da Noruega resolveram suspender o envio de cerca de R$ 300 milhões que seriam investidos em projetos de conservação.

A resposta do governo brasileiro a partir do que vem dizendo o presidente Jair Bolsonaro é um misto de incompreensão e afronta. Uma das pérolas foi sugerir ao governo de Angela Merkel que utilize os recursos retidos na conservação de suas próprias florestas, aparentemente sem saber que a Alemanha é um dos países mais florestados do continente europeu. A resposta alemã veio na forma de um vídeo sarcástico publicado pela Embaixada da Alemanha em Brasília onde somos convidados a visitar os parques nacionais alemães onde a beleza natural se mistura com a eficiência de sua proteção.

O problema é que, por falta de um ministro de Relações Exteriores com um mínimo de capacidade de representar bem os interesses brasileiros,  não se está entendendo o real significado da suspensão do envio de, convenhamos, uma quantia que é pequena em relação ao montante da balança comercial que o Brasil possui com a União Europeia da qual a Alemanha é um dos principais membros.  Como já escrevi aqui, o que Alemanha e Noruega estão fazendo é iniciar um alerta não ao presidente Jair Bolsonaro, mas aos líderes do latifúndio agro-exportador para que contenham o ímpeto do governo federal no sentido de permitir o desmatamento desenfreado da Amazônia e do Cerrado.  E os pontos do relógio para que os donos do “agronegócio” ajam já começaram a girar.

E os pontos tenderão a girar mais rápido se aos grileiros, madeireiros e garimpeiros que continuem sua marcha de devastação sem serem incomodados. Não entender os motivos da diplomacia europeia para exigir a contenção do desmatamento na Amazônia levará em um primeiro momento ao que o ex-ministro e latifundiário da soja Blairo Maggi vaticinou como uma volta à estaca zero do agronegócio brasileiro. Depois disso virão outras consequências duras e que deverão em um amplo isolamento do Brasil no cenário internacional.  O caminho da transformação do Brasil em um pária internacional está sendo aberto nas florestas amazônicas.

Após acordo com Mercosul, empresário sueco promete cruzada contra produtos brasileiros

Em entrevista, empresário revela que está articulando ampliação de boicote entre outros supermercados europeus e lança plataforma para angariar apoio da população ao veto

Por Mariana Simões, Agência Pública/Repórter Brasil

“Um dia de manhã li no jornal que o governo Bolsonaro estava enlouquecendo com os pesticidas e que quase 200 pesticidas tinham sido liberados no mercado. Eu fiquei muito chateado e frustrado” explica, em tom indignado e com um sotaque carregado, o empresário sueco Johannes Cullberg, ao telefone. “Eu decidi que eu não posso apoiar esse tipo de comportamento. Percebi que a única maneira de demonstrar a minha insatisfação é boicotando todos os produtos brasileiros em nossas lojas”.

Johannes Cullberg é fundador e CEO do Paradiset, a maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia. Em junho, as suas lojas começaram a boicotar produtos brasileiros como suco de laranja, cacau, café, uma variedade de melões e outras frutas. Após ler sobre o acordo com o Mercosul, ele agora promete convencer outros varejistas a fazerem o mesmo.

Empresários bem-sucedido do varejo, Cullberg estabeleceu na Noruega a filial da Lidl, uma das maiores redes de supermercado de desconto do mundo. Johannes atuou como Diretor de Compras da Lidl por dois anos e nesse tempo inaugurou 25 lojas com mais de 1200 produtos. Em 2014, e interessou em promover a saúde e a sustentabilidade e por isso decidiu participar ativamente desse movimento.

“Nós temos três redes de supermercados grandes na Suécia e elas são todas muito parecidas. Então há quatro anos eu decidi fundar a minha própria rede,” conta o empresário. “O mercado se chama Paradiset, o que significa paraíso. Eu queria criar um estabelecimento que preza pelos meus valores. Na prática isso significa que as minhas lojas têm menos produtos porque só temos comida de verdade. O foco é a saúde e a sustentabilidade,” conclui.

publica 1Johannes Cullberg é fundador da maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia

Com quatro anos de vida, Paradiset já tem 4 lojas e 100 funcionários e a tendência, segundo Johannes, é expandir. Há um ano, o empresário liderou a primeira campanha de crowdfunding do mundo para beneficiar uma rede de supermercados. Levantou quase 2 milhões de euros em apenas 20 dias. Johannes acredita que a crescente influência da sua rede de supermercados vai ajudar a impulsionar a sua campanha contra os produtos brasileiros.

Quando a embaixada do Brasil na Suécia respondeu ao boicote enviando uma carta aberta, Johannes percebeu que a sua iniciativa já estava começando a surtir efeito. A carta frisava que “é preocupante que, embora muitos outros países tem um uso de pesticidas muito mais alto, só o Brasil tem sido mencionado na imprensa e na mídia”. Isso, segundo o comunicado, porque “o Brasil é o quinto ou sétimo colocado no mundo de acordo com parâmetros aplicados a pesticidas em estudos mundiais, sendo que esses rankings se baseiam em volume total por hectare ou por capita.”

A embaixada não mencionou o fato de que, no mesmo estudo mundial, feito pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) em 2013, o Brasil aparecia como líder mundial se considerarmos o total de agrotóxicos usados. Não há dados globais mais recentes.

“Na verdade, eu fiquei contente de ter recebido a carta da embaixada porque demonstrou que eu havia incomodado pessoas de alto escalão. Isso é um bom sinal. Espero que da próxima vez eu receba uma carta do governo brasileiro. Esse é o próximo passo”, diz o empresário.

Johannes decidiu também publicar uma resposta ao comunicado do governo brasileiro. “Deixa-me explicar novamente porque eu acho que um boicote de produtos brasileiros é necessário,” diz a carta. “De acordo com o European Network of Scientists for Social and Environmental Responsibility só em 2016 o Brasil registrou 4,208 casos de intoxicação por exposição a pesticidas e 355 mortes por químicas agrícolas. Eu contesto que esses números estão longe de ser aceitáveis para mim e não deveriam ser aceitáveis para ninguém.”

O boicote ganhou atenção na mídia brasileira e sueca e motivou Johannes a lançar depois uma campanha nas redes sociais com a hashtag #boycottbrazilianfood e uma petição online.

Mas Johannes diz que foi a notícia do acordo entre o Mercosul e a União Europeia que o motivou para elevar a discussão para um novo patamar. “Quando eu vi essa notícia sobre o acordo com a União Europeia e ainda por cima sabendo que a Comissária do Comércio da Comissão Europeia é sueca, eu fiquei muito chateado,” contou Johannes à reportagem.

“Agora eu vou em cima do governo sueco para ver como eu posso agitar as coisas na Suécia e na União Europeia porque me deixa louco que o Bolsonaro pode afetar tanta gente agora que está à frente do governo brasileiro. Se você pulveriza agrotóxicos nas comidas produzidas no Brasil, a gente também está consumindo isso na Suécia.”

Johannes já está começando a trilhar o caminho para levar a sua campanha adiante. O próximo passo, diz, é persuadir concorrentes na Suécia a aderirem ao boicote. “O segundo maior supermercado da Suécia está pensando em aderir ao boicote. Eu conheço os CEOs de todos os mercados. Eu acho que vou conseguir persuadi-los porque a campanha pode ser estrategicamente boa para eles em termos de relações públicas”.

O empresário acredita que os seus mais de quinze anos de experiência vão ajudá-los a impulsionar o boicote, em relação ao qual ele mantém a determinação.

“Se você não sabe como funcionam as grandes corporações vai ser difícil. Eu já fui CEO de empresas de grande porte cotadas na bolsa de valores. Então eu entendo o que motiva esse tipo de empresa. Eu sei conversar com os CEOs,” diz Johannes. “Eu quero que isso se transforme em uma iniciativa corporativa,” conclui.

Para poder conversar com os seus concorrentes Johannes diz que é importante traçar uma estratégia de divulgação baseada na ciência. Por isso, ele está se alinhando a comunidade científica e construindo com eles a linguagem da sua campanha.

“Estou contando com a ajuda de alguns professores de diversas universidades. Então eu vou juntar todos eles para utilizar o poder e o conhecimento dos especialistas. Eu acredito que é sempre bom utilizar a expertise de quem conhece melhor para poder utilizar uma linguagem [na campanha] que as corporações e outros possam compreender,” diz.

Além de atuar na frente empresarial, Johannes diz querer construir um movimento maior junto à sociedade civil na internet. Ele pretende usar o boicote para lançar luz sobre o uso alarmante de pesticidas na produção agrícola brasileira nas redes sociais e assim mobilizar as pessoas para deixar de consumir produtos brasileiros.

“Eu acho que isso tem tudo a ver com o poder do consumidor. O que eu estou dizendo é que se [os outros supermercados] não aderirem ao boicote agora, nós temos que mostrar a eles que não vamos consumir mais os produtos brasileiros. Então é isso eu estou tentando fazer é construir um movimento de baixo para cima porque acredito que isso é mais eficiente hoje,” diz o empresário.

publica 2Johannes lançou a campanha #boycottbrazilianfood para boicotar produtos brasileiros por uso de agrotóxicos

O dono do Paradiset diz que a sua determinação para lutar contra o uso de agrotóxicos está relacionada com uma profunda preocupação que ele tem pelo estado do nosso planeta. Inspirado pela ativista sueca de 16 anos Greta Thunberg, que lidera um movimento na Europa para frear os avanços das mudanças climáticas no mundo, Johannes diz também querer contribuir para um movimento maior.

“A minha motivação é deixar o planeta em um estado melhor do que eu o encontrei quando nasci. Para isso, vamos precisar tomar medidas sérias. Precisamos impedir homens como o Bolsonaro de fazer o que estão fazendo,” diz Johannes. “Temos que seguir o Acordo de Paris e atingir as metas impostas pela ONU e o que me preocupa é que o Bolsonaro e outros líderes mundiais estão dando meia volta e estão acelerando na direção oposta”.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pela Agência Publica [Aqui!]. Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

MP gaúcho quer suspensão de agrotóxico que levou ao extermínio de abelhas

Proibido na Europa justamente por ser letal aos polinizadores, o fipronil obteve três novos registros junto ao governo Bolsonaro

 

abelha-mortaEntre outubro passado e março deste ano foram mortas 400 milhões de abelhas em 32 municípios gaúchos

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo – A Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre pediu nesta quarta-feira (14) que o governo do Rio Grande do Sul suspenda o fipronil do Cadastro Estadual de Registro de Agrotóxicos. O ofício enviado à Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam) e às secretarias da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural e de Meio Ambiente e Infraestrutura é desdobramento do inquérito civil instaurado para apurar as causas do extermínio de abelhas no estado.

Entre outubro passado e março deste ano foram exterminadas 400 milhões em colmeias de 32 municípios gaúchos.  De acordo com o promotor de Justiça Alexandre Saltz, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, “a necessidade é de prevenir novos danos ambientais irrecuperáveis derivados da aplicação do produto”.

Não bastasse a crueldade contra os insetos, o extermínio põe em risco a produção de alimentos. Segundo a organização Bee or not to Be?, idealizada pelo professor titular aposentado da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto Lionel Segui Gonçalves, as abelhas são os maiores polinizadores do planeta. Atuam diretamente na reprodução de mais de 85% das plantas com flores das matas, florestas e áreas verdes, conferindo importante equilíbrio aos ecossistemas. E de mais de 70% das culturas agrícolas, garantindo a ampliação da produtividade no campo e a melhoria na qualidade de frutos e sementes. Na busca por alimento, coletam também o pólen produzido pelo órgão masculino da flor e o carregam para a parte feminina. É nesse processo de polinização que a planta se reproduz.

Banido

O fipronil que está na mira do MP gaúcho foi banido da União Europeia em 2017. Pesquisas realizadas pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, constataram que a substância matou milhares de abelhas na França entre 1994 e 1998. E que as mortes ocorreram logo que o produto foi lançado.

A devastação de colmeias inteiras de apicultores gaúchos, porém, não parece preocupar o Ministério da Agricultura do governo de Jair Bolsonaro (PSL). Desde o início da gestão foi concedido registro – que permite a produção e venda – para mais 290 produtos. Desse total, dois são para a substância pura e outros dois para misturas com o acetamiprido, da classe dos neonicotinoides.

Das novas liberações, pelo menos 21 são nocivas às abelhas. São 12 da classe dos neonicotinoides, três da fenilpirazol e seis sulfoxaminas. “Os piores são o fipronil, do segunda classe, e o sulfoxaflor, da terceira, estes todos produzidos pela Dow Chemical. Aparentemente são mais perigosos que os neonicotinoides. Embora não haja mocinhos nessa película, é bom lembrar que alguns neonicotinoides estão liberados na União Europeia, enquanto os dois outros grupos estão proibidos. O fipronil está praticamente banido até nos Estados Unidos, onde é usado apenas em casos extremos”, avalia o professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski, que monitora as liberações de agrotóxicos.

Seja como for, a classe dos neonicotinoides está diretamente associado ao extermínio de abelhas em todo o mundo. Estudo financiado por 28 países da União Europeia concluiu que tais inseticidas representam grande risco para diferentes tipos de abelhas. Tanto que esses países proibiram o imidaclopride e a clotianidina, da Bayer, que comprou a Monsanto, e o tiametoxam, da Syngenta. Porém, coerente com a via de sentido contrário que escolheu para trafegar, o Brasil deu sinal verde também para seis pedidos para fabricar imidaclopride e dois para tiametoxam.

Com sequela

No último dia 6, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina (DEM-MS), a “musa do veneno”, juntou o diretor da Anvisa, Renato Porto, e a diretora do Ibama, Carolina Mariani, entre outros, para tentar explicar à imprensa as principais questões envolvendo os agrotóxicos no país.

Os gestores foram enfáticos na defesa da tese de que o Brasil aparece na 44ª posição em um ranking do Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) sobre uso de defensivos agrícolas. E não na primeira. Na perspectiva adotada pelo governo, o consumo foi de 4,31 quilos de agrotóxicos por hectare cultivado em 2016. E que entre os países europeus que utilizam mais defensivos que o Brasil aparecem a Holanda (9,38 kg/ha), Bélgica (6,89 kg/ha), Itália (6,66 kg/ha), Montenegro (6,43 kg/ha), Irlanda (5,78 kg/ha), Portugal (5,63 kg/ha), Suíça (5,07 kg/ha) e Eslovênia (4,86 kg/ha).

Uma tese contestada pela pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Departamento de Geografia da USP. Conforme explicou no final de junho à Agência Pública, quando se divide o consumo brasileiro de agrotóxico pela área plantada há diluição desse volume gigantesco. Isso porque é considerada área cultivada regiões como pastos, que são terras improdutivas. “Uma conta faz com que o Brasil fique lá embaixo no ranking”.

O esforço da equipe da musa do veneno veio da pressão dos próprios ruralistas diante da repercussão negativa de uma paródia apresentada no programa Zorra, na noite de 3 de agosto. Na esquete em formato de desenho animado, o ruralista pulveriza agrotóxico na goiaba em um sítio em que os agrotóxicos e os transgênicos alteraram profundamente a vida e a saúde das pessoas. A inconsequente – e prevista – farra dos agrotóxicos no governo Bolsonaro foi criticada em horário nobre, pouco depois da venda de imagem pop do agro.

Confira a crítica aos agrotóxicos em O Sítio do Pica Pau com Sequela:

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Rondônia: desmatamento, fogo e fumaça

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Uma parte significativa da minha produção científica foi desenvolvida a partir de quase duas décadas de pesquisas de campo no estado de Rondônia. Ao longo desse tempo vi a paulatina e cada vez mais rápida substituição da florestal tropical por imensos campos de pastagem e, no último período, por uma combinação delas com “plantations” de soja. O resultado vinha sendo uma devastação paulatina, mas em ritmo constante, que já produziu mudanças detectáveis no clima daquela parte da Amazônia brasileira.

Entretanto, os relatos que venho tendo de colegas pesquisadores que estão ou estiveram em Rondônia é que em 2019 o ritmo do desmatamento se acelerou tremendamente, ameaçando principalmente unidades de conservação e terras indígenas, principalmente a que abriga o povo Uru-Eu-Wau-Wau.

Agora, graças à disseminação acelerada de imagens, tive acesso ao vídeo abaixo que foi postado por um praticante de voo livre que vive em Rondônia.  O vídeo mostra toda a região central de Rondônia completamente tomada por fumaça que, como o seu produtor e narrador informa, é oriunda de milhares de pontos de queimadas o que pode parecer exagerado, mas parece ser correto em função do volume de material particulado no ar.

Quando essas imagens circularem pelo mundo toda a retórica de acobertamento do avanço agressivo da franja de desmatamento que o governo Bolsonaro pôs em campo, e que resultou na demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), irá ser totalmente desacreditada.

E como já declarou em entrevista ao jornal Valor Econômico o ex-ministro da Agricultura e latifundiário Blairo Maggi, toda essa situação levará o agronegócio brasileiro à estaca zero.  Mas aparentemente parece que vai ser preciso um boicote internacional às commodities brasileiras para que as piadas de botequim do presidente Jair Bolsonaro sejam substituídas por políticas responsáveis que combinem os interesses econômicos com a preservação ambiental.

Ministério da Agricultura engana a população com dados falsos sobre agrotóxicos

consumo agrotóxicos

Nosso consumo de agrotóxicos por hectare fica em 7kg/ha, e não 4,3kg/ha como afirma a FAO e o MAPA / Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

 

Imagem de perfil do ColunistaCampanha Contra os Agrotóxicos

No último 6 de agosto, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) publicou um release de imprensa intitulado “Esclarecimentos sobre Registros de Defensivos Agrícolas“. Em relação a este documento, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida declara que:

A publicação deste texto é claramente uma resposta à indignação crescente na sociedade brasileira em relação ao ritmo exorbitante de liberações de agrotóxicos após o início do governo Bolsonaro. Ao torcer e distorcer os dados para tentar se defender, como mostraremos a seguir, o governo tenta esconder que sua única missão é privilegiar as multinacionais fabricantes de agrotóxicos, facilitando a venda de agrotóxicos em detrimento da saúde da população;

O release afirma que, entre os agrotóxicos liberados este ano, há apenas duas substâncias novas. Esta afirmação contradiz, por si só, o mesmo release, que mais à frente afirma que “o objetivo de fazer a fila andar no Brasil é justamente aprovar novas moléculas, menos tóxicas e mais ambientalmente corretas, e assim substituir os produtos antigos”. Ou as novas liberações estão trazendo novidades, ou não estão. Os dois ao mesmo tempo não é possível.

Este discurso contraditório tem sido adotado também pela Ministra Tereza Cristina, por exemplo em matéria publicada pelo MAPA no mesmo dia: “Fazer a fila de registros andar traz defensivos mais eficientes e menos tóxicos, explica ministra“. Ora, se entre 290 agrotóxicos liberados em 2019 apenas 2 são novos, onde estão os agrotóxicos menos tóxicos e mais eficientes? Cabe lembrar que uma das duas “novidades” é o Sulfoxaflor, comprovadamente danoso às abelhas. Por sinal, 42% dos agrotóxicos registrados em 2019 são Extremamente ou Altamente Tóxicos. Isso, é claro, antes da mudança promovida pela Anvisa, que fará com que estas mesmas substâncias ganhem uma “roupa nova” e passem ser inofensivos.

A publicação afirma que “Não é correto comparar todos os defensivos que são utilizados na Europa, por exemplo, com os produtos usados no Brasil”, afirmando que os produtos que são proibidos por lá na verdade não são necessários na Europa, por conta das diferenças de culturas e temperatura. Este é um argumento muito usado pelo agronegócio, mas que não se sustenta.

Em excelente artigo recente, a professora Larissa Bombardi cita o exemplo de duas culturas plantadas tanto no Brasil quanto na Europa: uva e laranja, em condições climáticas similares. Entretanto, afirma a pesquisadora, dos 71 agrotóxicos autorizados para a uva no Brasil, 13 são proibidos na União Europeia, e, no caso da laranja, são autorizados 116 agrotóxicos no Brasil, dos quais 33 não são autorizados na União Europeia. A grande maioria dos agrotóxicos hoje banidos na União Europeia foram desenvolvidos por empresas europeias, e eram usados por lá até serem proibidos, ou até que alterações no marco regulatório fizeram com que o registro lá não fosse mais viável.

Prosseguindo na sua saga de incorreções, o MAPA afirma que, “Apesar do aumento do número de registros de defensivos agrícolas que vem ocorrendo nos últimos anos no país, a venda desses produtos registrou redução no período”. O título auspicioso esquece-se de mencionar “o período”. Ao longo do texto, vemos que se refere aos anos de 2016 e 2017, em que, segundo o Ibama, com base em dados informados pelas empresas (e frequentemente revisados para cima após inspeções nestas empresas), as vendas de agrotóxicos caíram de 541.861,09 toneladas para 539.944,95.

O texto não lembra que esta é a primeira queda desde 2009. E ora, qualquer pessoa com um mínimo de compreensão de matemática pode entender que uma redução de 0,3% não pode ser chamada de redução, especialmente se comparada ao aumento de 3,9% de 2015 para 2016, ou de 13,6% de 2012 para 2013, ou de 18,5% de 2009 para 2010. Inclusive, é importante que a variação do consumo de agrotóxicos seja observada à luz do crescimento econômico: em 2015 e 2016, o PIB brasileiro teve queda de -3%, e em 2017 houve um tímido aumento de 1%. Ainda assim, o ritmo de vendas de agrotóxicos seguiu em alta, ficando estável de 2016 para 2017. Ou seja: afirmar que houve redução do consumo de agrotóxicos no Brasil é uma grande mentira.

Finalmente, a grande distorção: “Segundo a FAO, o uso relativo de defensivos no Brasil é menor que o de muitos países da Europa”, e o Brasil estaria em 44º lugar num ranking de uso de agrotóxicos por área. Importante notar como agora se torna válido comparar a produção agrícola do Brasil com a Europa. No caso dos agrotóxicos banidos, o MAPA diz que a comparação não é possível. De todo modo, há dois grandes problemas na afirmação: (1) os dados da FAO estão errados. Eles contradizem os dados do Ibama, que o próprio MAPA utilizou. Para a FAO, o Brasil usou 377.176 toneladas de agrotóxicos em 2016. Mas como vimos acima, na conta feita pelo MAPA, o uso em 2016 foi 541.862 toneladas, um pequeno erro de 44%. A FAO já foi notificada sobre o equívoco. Mas também há um erro no denominador: segundo a FAO, utilizamos os agrotóxicos numa superfície de 87,5 milhões de hectares, quando a soma de lavouras temporárias e permanentes segundo o IBGE em 2016 foi de 76,7 milhões de hectares.

Assim, com estes dois “erros”, nosso consumo de agrotóxicos por hectare fica em 7kg/ha, e não 4,3kg/ha como afirma a FAO e o MAPA. Isto sem contar com os agrotóxicos contrabandeados, que segundo o Sindiveg representam 20% do total comercializado. Considerando os contrabandeados, o índice sobre para 8,5kg/ha.

No entanto, há um segundo problema grave com esta comparação: não é possível comparar o perfil do uso de agrotóxicos em países com práticas agrícolas totalmente distintas. Monocultivos de larga escala como soja, milho e algodão utilizam de fato menos agrotóxicos por hectare em relação à verduras como tomate, pimentão, e outros. Isso não significa, no entanto, que 60 kg de agrotóxicos utilizados em 10 hectares de soja sejam menos nocivos à saúde e ao meio ambiente do que a mesma quantidade de veneno utilizada em 1 hectare de tomate, por exemplo. No primeiro caso, por significar uma área maior, temos inclusive um maior potencial de exposição de pessoas e cursos d’água aos agrotóxicos.

Para citar ao menos um ponto positivo, aplaudimos o fato de que, segundo o documento, “Em menos de uma década, o número de produtores rurais orgânicos registrados no Brasil triplicou”. De fato, este é um grande feito. Porém, considerar o aumento da produção orgânica de responsabilidade do MAPA é mais fraude contida no documento. Este resultado se deve à luta dos movimentos sociais, que conquistaram. durante os governo Lula e Dilma. Políticas públicas como o PNAE, PAA, a certificação orgânica participativa e a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. A luta dos movimentos e a conquista destas políticas (que atualmente estão sendo destruídas), resultaram no significativo aumento da produção orgânica no Brasil, que, no entanto, ainda necessita de muita vontade política para se desenvolver. No mínimo, a mesma vontade política que se tem para liberar novos agrotóxicos.

Edição: Daniela Stefano

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal “Brasil de Fato”  [Aqui!].