Amazônia em chamas: a supremacia da economia de fronteira e avanços tecnológicos explicam o tamanho do fogo

amazon fire(Photo: Mario Tama/Getty Images)

Enquanto milhares de imagens de fogo literalmente incineram a falsa polêmica levantada pelo presidente Jair Bolsonaro e por seu improbo ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cresce um misto de comoção e aturdimento de como podemos estar assistindo a tamanha destruição e em tal velocidade.

A pista para entender o que está ocorrendo pode estar em um relatório razoavelmente desconhecido no Brasil e que foi escrito por Michael E. Colby para o Banco Mundial onde ele apresenta sua tipologia para os diferentes paradigmas o manejo do ambiente em face do processo de desenvolvimento econômico. 

É que no continuum criado  por Colby aparece o que ele chamou de “Economia de Fronteira” onde o que predomina é uma visão da natureza como uma fonte infinita e aberta de recursos, de onde se pode tirar tudo sem que haja quaisquer preocupações com a sustentabilidade ambiental ou, ainda, com a distribuição dos  custos que essa forma desregulada de acesso inevitavelmente causa.

E me parece que é justamente a supremacia da “Economia de Fronteira” que estamos assistindo neste momento, o que tem sido viabilizado não apenas pelas políticas ambientais do governo Bolsonaro, mas pela presença de diversos clones de Jair Bolsonaro nos governos estaduais.  Essa combinação permitiu o desmanche das precárias estruturas de comando e controle que impediram nas últimas décadas que a “Economia de Fronteira” hoje hegemônica em relação a outras formas de exploração capitalista. Agora que esses controles sumiram, os agentes que só podem agir livremente em regimes econômicas da “Economia de Fronteira” estão agindo em sua plenitude, e com as repercussões devastadoras que estão emergindo nas redes sociais e mais pontualmente nas telas de TV.

Um aspecto que sempre merece esclarecimento é que os agentes (ou “drivers”) da “Economia de Fronteira” sempre estiveram presentes e agindo, e são relativamente conhecidos na literatura sobre as idas e vindas dos esforços de modernizar o Capitalismo na fronteira amazônica.  Entre os “drivers” clássicos estão os madeireiros, garimpeiros e grileiros de terras, latifundiários, bem como os agricultores sem terra descapitalizados. Além disso, as formas de interação entre esses agentes também foi fartamente ilustrada, pois apesar de existir certa autonomia entre eles, também sempre existiu formas de cooperação. Agindo junto ou sobre esses agentes sempre estiveram membros das elites políticas e econômicas que inicialmente ocuparam a Amazônia, e que historicamente ocuparam a direção dos governos estaduais e municipais. 

Outros agentes que começaram a estar presente com o avanço da fronteira que foi viabilizado pelos grandes projetos implantados na Amazônia pelo regime militar de 1964 foram as grandes corporações econômicas (i.e. bancos, mineradoras, montadoras de carros) a quem não apenas foi oferecida a oportunidade de operar em seus ramos específicos, mas também de serem grandes proprietárias de terra.  Apesar desses agentes econômicos representarem uma face mais moderna do Capitalismo, o fato é que dentro da Amazônia os mesmos sempre tenderam a operar dentro dos parâmetros da fronteira, e não raramente recorreram à violência extrema para impor seus interesses. Tudo dentro da melhor concepção da “Economia de Fronteira”.

Entender essa complexa combinação de agentes e seu comportamento de acesso ilimitado aos recursos naturais da Amazônia é o primeiro passo para entendermos o que está acontecendo neste momento. Entretanto, penso que algo mais precisa entrar na equação que é o avanço tecnológico das ferramentas de extração de recursos, bem como uma modificação nas formas de colaboração entre todos os agentes aqui citados.  A existência de máquinas e insumos que permitem que mais áreas sejam incorporadas à economia de fronteira tem o dom de potencializar a capacidade de destruição que cada um desses agentes possuía anteriormente.  Como também ocorreu uma modificação nas formas com que esses agentes agem, o mais provável é que estejam cooperando mais eficientemente em vez de estarem competindo entre si.  Um exemplo seria a ação combinada entre madeireiros e grandes proprietários de terra que agem de forma coordenada para remover os recursos madeireiros e abrir caminho para haja uma derrubada acelerada da vegetação desprovida de essenciais florestais de valor comercial.

O importante é que seja quem estiver colaborando com quem, o que temos como padrão neste momento é a capacidade de remover mais vegetação nativa e em um espaço muito menor do tempo em relação ao que ocorreu na década de 1970.  Tudo isso torna ineficaz o uso das taxas relativas e absolutas acumuladas na Amazônia para minimizar o que estamos assistindo em 2019. É que tudo indica que estamos diante de um novo regime de desmatamento cuja velocidade estamos apenas começando a ver. Como sou o co-autor de um artigo científico sobre o desmatamento no interior de unidades de conservação no estado de Rondônia onde ficou demonstrado que é preciso se verificar o comportamento longitudinal do desmatamento mesmo em face de taxas absolutas que parecem residuais,  o que mais me preocupa é que as taxas que estão sendo verificadas na Amazônia apontam para um cenário mais devastador e que se dará em tempo bem menor.

Ressalte-se que esse cenário se ajusta perfeitamente ao ideário ultraneoliberal que o ministro Paulo Guedes vem pregando, pois o que ele nos oferece como visão de economia é o que alguns rotulam de “anarco capitalismo” que é apenas uma nova roupagem para a “Economia de Fronteira”, pois o que se prega é a completa ausência do papel de intervenção do Estado a quem resta operar para que os indicadores de saúde econômica não espantem os especuladores internacionais que se refastelam com o dinheiro público. O problema é que ao Brasil e aos brasileiros restará um país que está torrando a sua biodiversidade em prol de uns trocados.

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