Vivemos ode à ignorância- Entrevista ao Programa Faixa Livre sobre a aprovação de mais 51 agrotóxicos pelo governo Bolsonaro

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Ontem concedi uma entrevista ao Programa Faixa Livre onde pude oferecer minhas opiniões sobre a última rodada de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, no que se constitui em uma verdadeira ode à ignorância e ao atraso em nome dos lucros já abusivos do latifúndio agro-exportador,

Como ainda não dispunha da informação de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu rebaixar ainda mais os critérios para avaliação e classificação de toxicidade dos agrotóxicos que podem ser vendidos no Brasil, considero que parte da minha entrevista oferece uma visão subestimada dos riscos que estão sendo criados pelo governo Bolsonaro na área da saúde humana e da contaminação de ecossistemas naturais.  Mas ainda assim que considero que a entrevista traz alertas importantes para o verdadeiro “Armagedon socioambiental” que o governo Bolsonaro está criando no Brasil com sua política “fast track” de aprovação de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo.

Quem deseja ouvir a íntegra desta entrevista, basta clicar abaixo:

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A censura ao Inpe busca esconder a alta eficiência das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro na devastação da Amazônia

03/07/2019 Coquetel de recepção para celebrar o 243º AniversO presidente Jair Bolsonaro e o ministro Marcos Pontes sinalizam que irão censurar os dados de desmatamento produzidos do Inpe. Ao fazer isso, eles tentam esconder o alto sucesso das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro.

Alguém no governo Bolsonaro deve ter lido a fábula do menino Peter que com um dos seus dedos num buraco formado em um dique de proteção, impedindo que a água do mar invadisse a região em que vivia na Holanda. É que só assim se pode entender a disposição de censurar os dados produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o explosivo desmatamento que ocorre ao longo de 2019 na porção brasileira da bacia Amazônica.

É que tomando a fábula holandesa o Inpe é apenas um dos buracos no dique da mentira que se pretende criar para esconder o sucesso (notem que eu disse o sucesso) das políticas do governo Bolsonaro para acelerar o desmatamento na Amazônia. Ao se censurar o Inpe restarão vários buracos que farão esse dique desmoronar. A verdade é que a anunciada censura do Inpe que não mais poderá (dependendo da vontade de Jair Bolsonaro) divulgar publicamente os dados de desmatamento vai se provar rapidamente um tiro no pé do governo Bolsonaro.

Reafirmo que o Inpe é apenas um dos institutos de pesquisa que possuem ferramentas de monitoramento contínuo do avanço do desmatamento da Amazônia brasileira.  E, pior, o Inpe tem agido escrupulosamente como instituto de pesquisa público e preservado o Brasil de maiores vergonhas ao divulgar os dados que gera de forma não apenas organizada, transparente, mas, também, de forma bastante pragmática.

Se tivesse de culpar alguém nesse imbróglio envolvendo os dados de desmatamento, o presidente Jair Bolsonaro deveria culpar a própria eficiência. É que ele apontou um ministro do Meio Ambiente que eficientemente desmontou estruturas de governança e sucateou com velocidade meteórica as estruturas de comando e controle que existiam na Amazônia e no Cerrado.  A consequência disso foi que todos os “drivers” que estavam moderadamente contidos nas últimas décadas puderam agir com completa liberdade, consumindo florestas nativas como a voracidade de um bando de saúvas bravas. 

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Paralisação de estruturas de proteção ambiental causou aumento explosivo do desmatamento na Amazônia.

Em outras palavras, o que o Inpe tem feito é medir o grande sucesso das políticas anti-ambientais acertadas por Jair Bolsonaro com seus grupos de apoio político dentro de atores díspares como madeireiros, garimpeiros e latifundiários.  É essa a realidade que as ações aparentemente alopradas de Jair Bolsonaro e do dublê de ministro de Ciência e Tecnologia e turista espacial,  Marcos Pontes, de condenar a forma de divulgação dos dados de desmatamento pelo Inpe é só uma tentativa canhestra de esconder o sol com a peneira.

Já se sabe que a real questão por detrás do esperneio do governo Bolsonaro acerca da exposição do seu próprio sucesso é o medo de que parceiros comerciais importantes, a começar pela União Europeia, tomem medidas punitivas contra os produtos agrícolas brasileiros por causa da devastação que está sendo permitida nba Amazônia. Mas como alguém que já participou da publicação  vários artigos científicos sobre a perda de cobertura vegetal na Amazônia posso adiantar que censurar o Inpe só vai acelerar e aprofundar os problemas que o Brasil vai enfrentar por causa do que está sendo impulsionado pelo governo Bolsonaro com suas políticas anti-ambientais. 

Entretanto, como bom senso é algo que inexiste no governo Bolsonaro, tenho certeza de que a censura ocorrerá e os custos econômicos e políticos serão imensos. Melhor seria celebrar o próprio sucesso e deixar o Inpe documentá-lo de forma autônoma.

Governo do Veneno: com mais 51 agrotóxicos liberados, o total liberado em 2019 chega a 290

agrotoxicos 1Com mais 51 agrotóxicos liberados, governo Bolsonaro agora totaliza 290 liberações apenas em 7 meses de mandato.

Em meio aos embates provocados pelo presidente Jair Bolsonaro com os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais por causa dos dados de desmatamento, o Ministério da Agricultura aproveitou o barulho presidencial para publicação a liberação de mais 51 agrotóxicos, o que eleva o total aprovado em 2019 a estratosféricos 290.

Esse ritmo de aprovação de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo por causarem danos à saúde humana e ao meio ambiente, é uma afronta aos brasileiros que sofrem com as doenças que são associadas a muitos desses produtos, e coloca em risco a exportação de commodities agrícolas para mercados importantes como a União Europeia.

Mas aparentemente, como no caso dos dados do desmatamento, os ministros do governo Bolsonaro contam com a apatia da população brasileira e com a cumplicidade dos governos que compram produtos contaminados com agrotóxicos que eles muitas vezes baniram para seus próprios agricultores.

Esse tipo de aposta é acima de tudo irresponsável em todos os sentidos. É que ao apostar em letargia e cumplicidade, os membros do governo Bolsonaro apostam que a contaminação de ecossistemas naturais, o adoecimento de populações expostas direta ou indiretamente aos venenos que estão sendo liberados em tempo recorde, bem como o desaparecimento de espécies de polinizadores valem o lucro que eles talvez não tenham a garantir para o latifúndio agro-exportador.

Como estou atualizando a base de dados que iniciei quando os primeiros 28 agrotóxicos tiveram sua aprovação publicada em janeiro, vou inserir os produtos aprovados hoje para identificar as variáveis que elenquei e que envolvem o solicitante do registro, o fabricante primário do produto autorizado, o país de origem da empresa que fabrica o produto, o nível de toxicidade humana e ambiental, bem como o status do produto na União Europeia. Após adicionar esses dados na base, vou postar outro artigo sobre as aprovações de hoje.

Entretanto, posso adiantar que o principio ativo Sulfoxaflor, conhecido por dizimar enxames de abelhas, está na lista de aprovados desta segunda-feira, aumentando ainda mais o número de produtos disponíveis no mercado brasileiro com essa mesma característica macabra.

E como já venho avisando desde que essa febre de aprovação de agrotóxicos começou em janeiro, que ninguém se surpreenda se começarem banimentos em escala de produtos que sejam flagrados com níveis acima dos tolerados em outras partes do mundo.  Isto sem falar na possibilidade de que o boicote iniciado na Suécia por Johannes Cullberg encontre rápida ressonância em outras partes da Europa, apenas para começo de conversa.

Diretor do Inpe dá exemplo de como agir em tempos de negação da ciência

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Confrontando por Jair Bolsonaro por causa dos dados de desmatamento na Amazônia, o presidente do Inpe classificou as declarações presidenciais como sendo pusilânimes e covardes.

Confrontando com as declarações do presidente Jair Bolsonaro dando conta que os dados divulgados sobre o desmatamento da Amazônia seriam “mentirosos“, o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências,  o engenheiro com doutorado em física Ricardo Magnus Osório, usou de semelhante contundência para dizer que as declarações presidenciais seriam pusilânimes (i.e., eivadas de vulnerabilidade moral) e covardes. Além disso, Magnus Osório ainda disse que as declarações de Jair Bolsonaro eram equivalentes a um papo de botequim.

Além de posicionar em campo moral mais elevado, Ricardo Magnus Osório lembrou que os dados do Inpe são a maior série histórica sobre registros de sensoriamento remoto em florestas tropicais, remontando ao início da década de 1970; sendo por isso uma referência mundial em estudos sobre mudanças na cobertura da terra. 

Aliás, a alta qualidade da ciência produzida pelos pesquisadores do Inpe está demonstrada nos milhares de artigos científicos, relatórios técnicos, dissertações de mestrado e teses de doutorado que usaram os dados gerados pelo Inpe. Essa repercussão extrapola faz muito tempo os limites das fronteiras brasileiras. Bastaria a algum assessor (talvez o “impoluto” Onyx Lorenzoni) realizar uma rápida busca no Google para que o presidente do Brasil não estivesse sendo agora motivo de piadas desairosas em nível mundial por causa das declarações de botequim sobre a ciência produzida por uma das jóias preciosas da ciência brasileira.

Confrontado com as declarações de Ricardo Magnus Osório de que gostaria de um encontro “frente a frente” para esclarecer eventuais dúvidas sobre os dados do desmatamento da Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro fez o que sempre faz quando se defronta contra um oponente que não pisca diante dele, empreendeu um recuo que tem a aparência de um avanço. É que perguntado pela imprensa sobre a crise com o Inpe, Jair Bolsonaro afirmou duas coisas em relação às declarações ao que disse. A primeira é que enviaria o seu ministro da Ciência Tecnologia, o “astronauta”  Marcos Pontes ou talvez o do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, para conversar com o presidente do Inpe.

A segunda declaração de Jair Bolsonaro foi de reclamar de que a divulgação dos dados de desmatamento estariam prejudicando a imagem externa do Brasil. De quebra, Bolsonaro renovou suas dúvidas sobre a validade dos dados gerados pelo Inpe, dizendo que os mesmos se pareceriam muito com os do ano passado (o que é verdade). Aqui o caso é de um atirador que tenta matar o mensageiro por não gostar da mensagem que ele carrega. É que o que verdadeiramente prejudica o Brasil neste momento e por décadas que ainda virão é o ritmo acelerado de desmatamento que está ocorrendo na Amazônia, sob a aprovação tácita do governo Bolsonaro que desmanchou as estruturas de governança e prejudicou fortemente as operações de comando e controle que continham a sanha dos saqueadores das riquezas naturais na Amazônia.  

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Os dados do desmatamento na Amazônia que tanto irritaram Jair Bolsonaro fazem parte da maior série histórica existente no mundo sobre florestas tropicais.

O grande engano do presidente Jair Bolsonaro é pensar que atacando o Inpe ele estará resolvendo o problema que suas políticas de economia de fronteira estão criando na Amazônia. Pelo contrário, o Inpe é uma instituição que apesar de ser vista como cientificamente independente sempre agiu de forma pragmática para não ferir os interesses econômicos e políticos brasileiros. Se houver uma degradação da capacidade de ação do Inpe, com certeza sobressairão os estudos de organizações internacionais que possuem igualmente bases de dados robustos sobre desmatamento, e que as usarão para defender melhor determinadas posições que não sejam as do Brasil. Esse é um fato tão fácil de medir quanto o desmatamento que os garimpeiros, madeireiros e latifundiários que votaram em Jair Bolsonaro estão causando na Amazônia.

Reitero mais uma vez a necessidade de que se faça uma ampla defesa da autonomia científica dos pesquisadores do Inpe. É que nessa defesa repousa a capacidade de toda a comunidade científica brasileira continuar produzindo ciência de forma autônoma.  Nesse sentido, são positivas as notas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Sociedade Brasileira de Física apoiando o Inpe e seu corajoso diretor. Entretanto, esse movimento de solidariedade deve ser generalizado, independente dos campos do conhecimento. O que está posto na mesa é o futuro da ciência nacional, ainda que reverberado a partir de um discurso que parece papo de botequim.

Finalmente, quero apontar que a postura do presidente do Inpe de responder de forma pronta e papas na língua ao ataque que ele e os pesquisadores receberam de Jair Bolsonaro deveria ser o modus operandi enquanto durar esse governo que opera para amedrontar e calar os que são percebidos como críticos e, em muitos casos, são apenas portadores de verdades que são inconvenientes aos poderosos de plantão.

 

Protesto contra liberação de 239 agrotóxicos será realizado domingo (21/7) em SP

O governo Bolsonaro liberou, em apenas 200 dias de governo, 239 agrotóxicos, alguns proibidos na União Europeia por serem extremamente tóxicos. Prejudiciais para a saúde humana e causadores de doenças graves e fatais, como o câncer, os pesticidas também fazem mal para a natureza. Para lutar contra eles, uma manifestação foi marcada para o próximo domingo.

morango agrotoxicoFoto: Reprodução / Facebook

A manifestação, que recebeu o nome de “Marcha Agrotóxico MATA” será realizada a partir das 14 horas e a concentração será no Museu de Arte de São Paulo (MASP).

“Em resumo, nos últimos seis meses, foram registrados no Brasil 33 novos produtos agrotóxicos altamente tóxicos para a saúde humana (aqueles cuja dose letal esta entre 5 e 50 mg/kg), 63 novos produtos extremamente tóxicos para a saúde humana (cuja dose letal esta em menos de 5 mg/kg), 115 novos produtos muito perigosos para o meio ambiente e cinco novos produtos altamente perigosos para o meio ambiente (considerando os parâmetros de bioacumulação, persistência, transporte, toxicidade a diversos organismos, potencial mutagênico, teratogênico e carcinogênico da Portaria 84/1996 do IBAMA)”, diz a descrição do evento no Facebook sobre o protesto. 

De acordo com a organização da manifestação, outros estados também estão se organizando para realizar atos contra a liberação dos agrotóxicos e, em breve, as datas e locais serão divulgados.

“Estamos sendo envenenados com tantos agrotóxicos e precisamos agir!”, dizem os organizadores.

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Este material foi originalmente publicado pela Agência de Direitos Animais (Anda) [Aqui!]

Professora da USP destroça mito do uso seguro de agrotóxicos no Brasil

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A professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo  Larissa Mies Bombardi é hoje uma das maiores conhecedoras dos problemas envolvendo o uso de venenos agrícolas nas grandes monculturas plantadas para exportação no Brasil.  Em função disso, ela vem sendo atacada por entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador (o chamado agrobusiness).

No vídeo abaixo ela fala de forma bastante esclarecedora sobre as graves consequências do uso descontrolado de venenos agrícolas em altas quantidades e sem qualquer fiscalização efetiva no cotidiano das áreas onde os mesmos são estudados.

Abaixo uma entrevista conduzida pelo jornalista Bob Fernandes onde a professora Larissa Bombardi discorre de forma esclarecedora sobre um dos maiores mitos criados para justificar o uso dos agrotóxicos na agricultura, qual seja, de que é possível fazer uso seguro dessas substâncias de forma segura.

A verdade inescapável que emerge dessa brilhante entrevista é de que estamos sendo envenenados em nome dos interesses econômicos dos grandes latifundiários brasileiros. E aqui, mais uma vez, é preciso defender a reputação científica da professora Larissa Bombardi que está sendo vilipendiada por causa de estudos rigorosos que ela vem conduzindo e que são de completo interesse público.

Dados do INPE mostram desmatamento em ritmo explosivo na Amazônia

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Enquanto o Brasil é distraído por situações e “causos” envolvendo as idas e vindas do governo Bolsonaro, a realidade imposta no chão das florestas continuam tomando um ritmo explosivo em termos de remoção de vegetação nativa. Isso é o que mostra a série de dados produzida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que apontam para a remoção de cerca 1.000 km2 de florestas apenas na primeira metade de julho (ver figura abaixo).

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Esse avanço explosivo da franja de desmatamento resulta de uma política deliberada de desmantelamento dos mecanismos (limitados) de comando e controle que existiam no governo federal até a chegada de Jair Bolsonaro à presidência da república, o que foi acompanhado pela colocação de um ministro anti-ambiente para dirigir a pasta estratégica do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles.

A continuarmos no atual ritmo, a possibilidade é de que não apenas haja uma alteração imediata no funcionamento dos ecossistemas em escala regional, mas também no plano nacional e global.  A coisa aqui é simples: a transferência da umidade que está diretamente associada à existência das florestas amazônicas cessará e poderá acarretar uma diminuição acentuada das precipitações em outras partes do Brasil, bem como contribuirá para uma elevação do aquecimento do planeta. 

Essa associação entre as florestas amazônicas e a regulação climática está estabelecida em estudos científicos rigorosos, e está sendo propositalmente negligenciada pelo governo Bolsonaro para atender alianças políticas com os setores mais retrógrados da política nacional, os quais, em muitos casos, estão diretamente envolvidos na pilhagem e destruição das florestas nacionais.

Esses dados de desmatamento explosivo certamente vão inquietar os governos europeus com quem o governo Bolsonaro recentemente celebrou um acordo de livre comércio. É que apesar dos interesses e ganhos econômicos imediatos que o acordo entre o Merco Sul e a União Europeia irão privilegiar, há na Europa uma pressão pública para o controle e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Essa pressão tenderá a aumentar quando os dados produzidos pelo Inpe se tornarem amplamente públicos.

Uma coisa que posso adiantar é que os mecanismos de espalhamento, as áreas preferenciais de pilhagem, e os agentes envolvidos no processo estão mapeados. Entender isso será fundamental para desmascarar quaisquer alegações feitas por agentes do governo Bolsonaro no sentido de menosprezar e denegrir os estudos feitos pela comunidade científica acerca da remoção das florestas amazônicas.

Não obstante a situação que está colocada na Amazônia e no Cerrado é extremamente grave e precisa ser devidamente respondida. Do contrário. todos os piores cenários estimados em centenas de artigos científicos publicados ao longo das últimas décadas serão empalidecidos pela realidade criada pelo governo Bolsonaro.

Finalmente, em função dos dados potencialmente danosos aos interesses políticos e econômicos dos aliados do governo Bolsonaro é bem provável que ocorra um ataque frontal à capacidade do Inpe de continuar monitorando o desmatamento na Amazônia e no Cerrado brasileiro. Apoiar politicamente os pesquisadores do Inpe que conduzem o processo de monitoramento do desmatamento é essencial neste momento. Do contrário, não me surpreenderia com o início de uma perseguição explícita a eles e a todos que utilizam os dados de alta qualidade que eles produzem.

 

Johannes Cullberg se dirige aos brasileiros para explicar sua campanha de boicote a produtos nacionais contaminados por agrotóxicos e desmatamento

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Johannes Cullberg, fundador e CEO da rede de supermercados orgânicos sueca Paradiset, está aumentando seus esforços para ampliar os participantes do boicote a produtos agrícolas brasileiros não orgânicos por causa de alta utilização de agrotóxicos e da associação direta com o desmatamento na Amazônia.

Para isto, Johannes Cullberg organizou um grupo de apoiadores na rede social Facebook, o #BoycottBrazilianFood, e também está utilizando a sua página oficial no Instagram para disseminar sua mensagem contra a aprovação em ritmo alucinado de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro e contra o desmatamento na Amazônia.

Johannes Cullberg também acaba de produzir um vídeo direcionado ao público brasileiro onde ele explica as razões do boicote que ele impôs dentro da rede Paradiset contra produtos contaminados por agrotóxicos vindos do Brasil.

No vídeo mostra acima, Cullberg informa sobre suas razões e conclama aos brasileiros para que se juntem ao boicote contra alimentos contaminados por agrotóxicos, dizendo que:

” Sou Johannes Cullberg, fundador da Paradiset, uma cadeia de supermercados de alimentos naturais e orgânicos na Suécia. Eu comecei minha empresa para que meus filhos e todos na Suécia pudessem obter comida que fosse boa para as pessoas e boa para o planeta. Quando vi o que Bolsonaro estava fazendo com vocês, o povo brasileiro e também o resto do mundo, usando pesticidas para produção de alimentos tão venenosos que não permitiam na Europa e também aumentando o desmatamento da Amazônia, fiquei muito zangado e chateado! Então decidi boicotar todos os produtos alimentícios não orgânicos do Brasil para mostrar que não podemos aceitar esse desenvolvimento. Em 2019, precisamos cuidar melhor do nosso planeta, não matá-lo. Nós já produzimos mais alimentos no mundo do que podemos comer e 1/3 de toda a comida é desperdiçada. Então não precisamos de mais comida. E nós não precisamos de mais comida venenosa. Precisamos de comida melhor para todos, não apenas para os ricos! A embaixada brasileira na Suécia me disse para parar a campanha, mas eu não vou. Em vez disso, vou me esforçar mais. Com a ajuda do povo da Suécia e da Europa, espero poder mostrar ao governo Bolsonoro que precisamos parar de envenenar o Brasil e o resto do mundo e começar a cuidar dele. Por favor, junte-se a mim neste boicote. Juntos podemos mover montanhas. E governos. Muito Obrigado!”

Dentre as informações importantes oferecidas por Johannes Cullberg no vídeo dirigido aos brasileiros está a que nos diz que a Embaixada do Brasil pediu para que ele suspendesse a sua campanha de boicote aos produtos contaminados por agrotóxicos e associados ao desmatamento da Amazônia. Esse é um gesto típico de quem não entende como os países democráticos realmente funcionam, além de demonstrar um parco entendimento do tipo de efeito colateral que esse tipo de cobrança indevida acabaria gerando.

De toda forma, o gesto de Johannes Cullberg de se dirigir diretamente aos brasilei, ros demonstra que ele vai continuar mobilizando esforços para ampliar o boicote à produção agrícola brasileira que não siga os padrões de sustentabilidade que ele almeja. Essa informação é fundamental para dinamizar os esforços contra a política de aprovação “fast track” de agrotóxicos altamente tóxicos pelo governo Bolsonaro.

E uma coisa é certa, aos se dirigir diretamente aos brasileiros e conclamar que eles se juntem ao boicote contra produtos contaminados por agrotóxicos e associados ao desmatamento na Amazônia, Johannes Cullberg mostra mais preocupação com a saúde brasileira do que todos os ministros do governo Bolsonaro juntos.

Mais uma barragem rompe no Brasil. Não será a última

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A mídia corporativa está informando que mais uma barragem rompeu no Brasil, agora em  Pedro Alexandre (BA), tendo já inundado o povoado de Quati, que integra o município.  Segundo informações do site UOL, as águas que escaparam desta barragem também atingiram parte da cidade de Coronel João Sá, a 40 km do ponto de rompimento (ver vídeo abaixo).

O impacto em termos de perdas materiais e de vidas humanas certamente será medido nos próximos dias, mas é provável que mais uma vez não fiquemos sabendo da real extensão dos danos.

O problema da segurança das centenas de barragens espalhadas dentro do território nacional já tinha ficado explícito com os rompimentos que ocorreram em Mariana e Brumadinho, e seria de se esperar que medidas urgentes tivessem sido tomadas para a realização de uma auditoria nacional independente para que se estabelecesse o nível de risco a que essas estruturas se encontram.

Entretanto, a agenda de desmantelamento das estruturas de monitoramento e fiscalização que está sendo aplicada pelo governo Bolsonaro indica que continuaremos vivendo em uma espécie de voo cego em meio a centenas de barragens que possuem estruturas pouco inseguras ou em vias de rompimento, especialmente aquelas construídas por grandes mineradoras.

Por essas e outras é que não hesito em afirmar que o caso do rompimento dessa barragem não deverá ser o último. E salve-se quem puder.

Por onde andavam as centrais sindicais enquanto o governo Bolsonaro destruía a previdência social?

reforma 1Sem o apoio político e a mobilização de centrais sindicais e movimentos sociais, a bancada de oposição levou uma goleada de 379 a 131 na votação da contrarreforma da previdência.

Passei a tarde toda acompanhando a precária cobertura online que foi oferecida tanto pela mídia corporativa quanto pelos portais e blogs da chamada mídia alternativa. Enquanto se preparava o massacre da previdência social, algo que estava explicitamente óbvio da cobertura da mídia era que as principais centrais sindicais brasileiras não estavam do lado de fora se manifestando de forma massiva para inocular algum tipo de preocupação no coração dos nobres deputados que puderem assim em maioria esmagadora aprovar o projeto de contrarreforma que o governo Bolsonaro preparou para alimentar o sistema de especulação financeira que hoje asfixia a economia brasileira.

O placar final pela aprovação do chamado texto principal foi de 379 votos a favor e 131 votos contra, um verdadeiro baile da agenda de destruição da previdência social pelo governo de extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro.

Mas é interessante notar que este placar nos remete a um número muito similar que foi o do impeachment da presidente Dilma Rousseff.  Assim, nada de novo na capacidade das forças de direita mobilizarem um batalhão de deputados cuja compreensão das dimensões de determinadas decisões beira o zero.

Por isso, se há que se olhar para um lugar onde devem ocorrer correções para os graves embates sociais que ocorrerão em um futuro não muito distante é justamente dentro do sistema sindical e dos movimentos sociais que ontem, como já havia ocorrido no impeachment de Dilma Rousseff,  não se organizaram para defender conquistas duramente conquistadas pela classe trabalhadora brasileira. É neste e deste campo que precisamos cobrar explicações, de modo a que os seus dirigentes parem de fazer pose de estátua enquanto se amplia o massacre sobre os pobres brasileiros.

Uma curiosidade sobre a votação de ontem foram os votos dos deputados Tábata Amaral (PDT/SP) e Tiririca (PL/SP).  É que enquanto a primeira, muito festejada por segmentos da esquerda por sua participação na derrubada do pífio ministro da Educação  Ricardo Vélez-Rodriguez, votou a favor da destruição da previdência social dos trabalhadores, o segundo foi o único deputado do seu partido a votar contra. Esses dois votos mostram bem como o parlamento brasileiro não é um lugar onde pode se cair na primeira impressão ou esperar coerência.  Por isso mesmo a importância da organização popular e o fim de qualquer esperança de que o parlamento é um veículo útil para a luta dos trabalhadores e da juventude.

Finalmente, ficou demonstrado que a tal “nova política” do presidente Jair Bolsonaro só serve mesmo para iludir seus eleitores, pois na hora que foi preciso o que valeu mesmo foi a velhíssima política do tomá lá, dá cá.  E segue o cortejo!