Começou! Rede de supermercados sueca convoca boicote a produtos brasileiros por causa da farra dos agrotóxicos

Johannes CullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede de supermercados Paradiset, mandou retirar todos os produtos brasileiros de suas prateleiras por causa da aprovação de 197 agrotóxicos pelo governo Bolsonaro. Cullberg está convocando um boicote generalizado ao Brasil até que o presidente Bolsonaro mude a política de aprovação “fast track” de agrotóxicos.

Desde o final de janeiro, quando a agência de vigilância sanitária da Federação Russa alertou o governo Bolsonaro que iria parar de comprar soja brasileira se algo não fosse feito para diminuir a quantidade do herbicida Glifosato, venho avisando que o Brasil corre o risco de sofrer um banimento generalizado por causa do uso excessivo de agrotóxicos (muitos deles banidos no resto do mundo) em nossas lavouras.

Alheios aos riscos da imposição deste cordão sanitário por causa dos agrotóxicos,  membros do governo Bolsonaro e da bancada ruralista continuaram sua marcha do veneno, o que ficou explícito pela aprovação de 197 agrotóxicos em menos de 6 meses, um verdadeiro recorde nacional.

Hoje, em pleno Dia Mundial do Meio Ambiente, o Rede França Internacional (RFI) repercutiu uma matéria publicada pelo jornal sueco “Dagens Nyheter” onde é informado que o presidente da rede de supermercados especializados em produtos orgânicos Paradiset, Johannes Cullberg, decidiu retirar todos os produtos brasileiros de suas prateleiras por causa do ritmo frenético de aprovação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro.

boicote suecoManchete do Dagens Nyheter, um dos maiores da Suécia, diz “supermercado sueco boicota produtos brasileiros”.

Mas Cullberg está indo mais longe ainda e está convocando um boicote generalizado de todas as redes suecas  de supermercados em relações aos produtos brasileiros. A razão para isso ele explica no vídeo abaixo, e se resume basicamente sua posição nos seguintes termos “decidimos suspender a compra de todos os produtos brasileiros até que o Senhor Bolsonaro pare sua política louca de permissão de agrotóxicos de forma livre“.  

Cullberg diz ainda para o presidente Bolsonaro “arrumar sua merda e parar com a aprovação “fast track” de agrotóxicos”. 

É provável que a mensagem de Johannes Cullberg caia inicialmente em ouvidos mocos já que a rede que ele fundou e comanda é dedicada a produtos orgânicos que normalmente já não compraria produtos brasileiros produzidos à base de agrotóxicos e fertilizantes químicos. Entretanto, a sinalização de que Cullberg está propondo um boicote generalizado até que o governo Bolsonaro abandone a sua farra de agrotóxicos não deverá cair em ouvidos tão moucos como os da ministra Tereza Cristina e da bancada ruralista, não apenas na Suécia, mas em outros países europeus onde os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos são bem bem menos tolerantes do que aqueles utilizados no Brasil.

 

Com novo corte de bolsas de pós-graduação, governo Bolsonaro coloca futuro científico do Brasil em xeque

brain drain 1Com os cortes no orçamento do MEC, o governo Bolsonaro está apontando o caminho do aeroporto para uma geração promissora de jovens cientistas brasileiros.

O anúncio no dia de ontem de que haverá um corte adicional de 2.700 bolsas de pós-graduação possibilita ao governo Bolsonaro atingir um recorde na eliminação de recursos voltados para ampliar a capacidade científica do Brasil.  Os primeiros perdedores desse corte de 6.200 bolsas são os programas de pós-graduação, especialmente aqueles situados nas regiões Norte e Nordeste, justamente aquelas onde a formação de quadros mais capacitados está mais atrasada.

É preciso dizer que se em primeira vista perdem os programas, o principal perdedor dessa remoção de recursos da pós-graduação é o próprio país, que se verá cada vez mais empurrado para uma condição de importador de tecnologias, inclusive para aquelas onde nossas condições naturais impõe vantagens e desvantagens, a começar pela disseminação de doenças associadas à transmissão por mosquitos, como é o caso da Dengue, da Zika e da Chikungunya . Mas perderemos também na área de tecnologias para o desenvolvimento de materiais sustentáveis para a construção civil, para a melhoria dos processos de produção agrícola, e por aí vai.

O fato do Brasil estar hoje sob o comando sobre uma combinação de ideólogos neoliberais com indivíduos que têm completo desdém pelo conhecimento científico representa um poderoso salto para trás no sentido do desenvolvimento de um sistema nacional de ciência e tecnologia que permitisse o aproveitamento de nossas capacidades, sejam humanas ou naturais.

O maior paradoxo dessa situação é que haverá o inevitável êxodo de uma série de jovens pesquisadores de uma geração altamente promissora que irá para países como a Alemanha que, neste momento, estão fazendo justamente o caminho oposto do tomado pelo governo Bolsonaro e investido bilhões de euros em suas universidades e institutos de pesquisa. E, pior, o Brasil ainda terá de pagar o dinheiro que não terá para poder adquirir tecnologias que esses jovens pesquisadores brasileiros irão desenvolver, aproveitando inclusive a boa base que receberam em seu treinamento científico dentro das universidades brasileiros que o governo Bolsonaro está optando por desmantelar.

Por isso mesmo é que é preciso manter a mobilização em defesa das universidades públicas e do nosso emergente sistema nacional de Ciência e Tecnologia. É que esse jogo for mantido na forma que o governo Bolsonaro decidir organizar o tabuleiro, o resultado final será um tremendo xeque mate nas nossas possibilidades de competir com um mínimo de viabilidade de sermos um país que não é apenas um espaço depósito de oportunidades perdidas.

 

Desmatamento aumenta em quantidade recorde na Amazônia brasileira

Ambientalistas temem que 2019 seja um dos piores anos para o desmatamento na memória recente

desmatamentoInspetores ambientais percorrem uma área afetada pela mineração ilegal no estado do Pará, na bacia amazônica do Brasil. A floresta tropical perdeu 739 km² durante os 31 dias de maio Foto: Vinicius Mendonça / AP

Por Jonathan Watts para o “The Guardian”

O desmatamento da Amazônia brasileira subiu no mês passado para o nível mais alto de um mês de maio desde o início do atual método de monitoramento, gerando preocupações de que o presidente Jair Bolsonaro esteja dando um passe livre para extração ilegal de madeira, e para a ampliação da agricultura e da mineração.

A maior floresta tropical do mundo – que é um fornecedor vital de oxigênio e sequestro de carbono – perdeu 739 km2 durante os 31 dias de maio de 2019, o equivalente a dois campos de futebol a cada minuto, de acordo com dados da agência de monitoramento por satélite do governo, o INPE.

Embora um único mês seja curto demais para confirmar as tendências de longo prazo, o mês de maio é considerado um guia importante porque marca o início da estação seca, que é quando a maior parte das queimadas e outras formas de desmatamento são realizadas.

A menos que o governo envie um sinal claro de que não tolerará uma nova aceleração, os ambientalistas temem que nos próximos meses haverá um aumento que poderia tornar 2019 um dos piores anos de desmatamento na memória recente.

“O governo não pode negar esses números de sua própria agência. A questão agora é o que eles farão a respeito ”, disse Carlos Souza, do grupo de monitoramento independente Imazon. “Até o final de julho, teremos uma ideia clara do impacto dos recentes movimentos para desmantelar as políticas ambientais. ”

Desde que o político de extrema direita Jair Bolsonaro assumiu a presidência do Brasil em janeiro, ele enfraqueceu o Ministério do Meio Ambiente, afrouxou os controles sobre a exploração econômica da Amazônia, interrompeu a demarcação da terra indígena e incentivou os interesses da mineração e da agricultura a se expandir na região.

Como o presidente Jair Bolsonaro criticou o IBAMA, a principal agência de monitoramento do governo como uma “indústria de multas”, este órgão emitiu menos penalidades do que em qualquer momento em 11 anos e o número de operações de inspeção caiu 70% em relação ao ano passado.

O ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, Ricardo Salles, que foi condenado por fraude ambiental e nunca visitou a região amazônica antes deste ano, minou ainda mais o moral dos servidores do IBAMA ao não nomear chefes regionais e demitir inspetores veteranos. No início desta semana, o jornal Folha de São Paulo informou que ele estava se movendo para privatizar o monitoramento por satélite da floresta amazônica.

Ricardo Salles também tem irritado os governos da Noruega e da Alemanha, ao propor que a voz da sociedade civil seja enfraquecida ao decidir como o Fundo Amazônia, que possui fundos de US $ 1,3 bilhão, será gasto.

No congresso, o dominante lobby agrícola está pressionando por mais relaxamentos, incluindo o desmantelamento do sistema de áreas protegidas.

O filho mais velho de Bolsonaro, Flavio, que é senador, recentemente propôs uma reforma do Código Florestal que eliminaria a obrigação dos agricultores na Amazônia de manter a cobertura florestal em 50-80% de sua propriedade. Esta medida abriria uma área maior do que o Irã para as indústrias extrativas. Uma onda crescente de reclamações de terras especulativas está sendo registrada dentro das reservas, o que está colocando mais pressão sobre as fronteiras.

“O aumento do desmatamento é deprimente, mas não é surpreendente: você tem um governo no Brasil que está desmantelando quase todas as políticas ambientais implementadas desde 1992, e que está perseguindo agentes ambientais federais, fortalecendo os criminosos ambientais”, disse Carlos Rittl, executivo secretário do Observatório do Clima, uma ONG formada por uma coalizão de grupos ambientalistas. “No entanto, devemos esperar e ver como vai se comportar em junho.”

Outros fatores podem ter contribuído para o aumento. Os primeiros meses deste ano foram nublados e chuvosos, o que dificultou o monitoramento por satélite, então algumas áreas podem ter sido perdidas por varreduras anteriores. O mau tempo também pode ter levado os madeireiros e fazendeiros a adiar o desmatamento até maio. A economia, que muitas vezes é uma propulsora do desmatamento durante os períodos de alta nos preços da carne bovina e da soja, também está em crise, embora Bolsonaro tenha indicado que o agronegócio pode ajudar a elevar o Brasil em direção ao crescimento positivo.

A esse respeito, ele está ecoando e ampliando a mensagem de seus predecessores como presidente, Dilma Rousseff e Michel Temer, ambos presidindo períodos de desmatamento acelerado, à medida que se tornaram dependentes do lobby rural e das exportações de commodities para a China e a Europa.

Outro fator é a expansão de projetos de infraestrutura, incluindo estradas e usinas hidrelétricas. O estado brasileiro que sofreu o maior desmatamento no mês passado foi o Pará, que abriga a rodovia BR-163 através da Amazônia e a barragem de Belo Monte.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

A proteção climática está sendo corroída na Amazônia brasileira

amazoniaO governo brasileiro está  se esforçando para reduzir as políticas ambiental e agora está visando o Fundo Amazônia – um projeto climático de sucesso que também foi criado com fundos da Alemanha.

Uma contribuição de convidado por Adriana Ramos para o “Frankfurt Allgemeine”

Durante anos, o Brasil conseguiu fortalecer sua política ambiental, graças ao apoio internacional e alemão, reduzindo significativamente o ritmo do desmatamento na floresta amazônica.

Entre 2004 e 2009, a taxa anual de desmatamento foi reduzida em 73%. O reconhecimento desses esforços pelos governos norueguês e alemão levou à criação do Fundo Amazônia em 2008. O princípio básico do fundo: quanto mais dióxido de carbono o Brasil economiza com a conservação da floresta, maiores serão os valores a serem pagos no longo prazo. prazo pelos doadores. O Brasil se comprometeu a realocar esses fundos para a proteção das florestas.

O Fundo Amazônia é uma conquista da sociedade brasileira e se baseia nos esforços empreendidos desde 2004 no Plano de Ação de Desmatamento da Amazônia, que visava reduzir o desmatamento e promover o uso sustentável da floresta tropical. A ideia básica do plano era incluir não apenas autoridades ambientais, mas todas as políticas do setor governamental e a sociedade como um todo no combate às causas do desmatamento.

A participação de instalações de pesquisa e organizações não-governamentais com experiência em sensoriamento remoto e conhecimento no local tem sido importante na calibragem e refino do monitoramento do desmatamento, que é operado pelo Instituto Brasileiro de Sensoriamento Remoto. Como resultado, a dinâmica do desmatamento poderia ser melhor avaliada e as ações realizadas de maneira mais direcionada. Os resultados são inegáveis: entre 2004 e 2009, a taxa anual de desmatamento diminuiu de 27.800 km2 para 7.500 km2.

Ataques ao fundo

O Fundo Amazônia administrado pelo BNDES financia projetos de estados da Amazônia, autoridades ambientais, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil e povos indígenas. Cerca de 60% dos fundos foram investidos em projetos federais e estaduais até o momento.

Nos últimos anos, o fundo foi atacado por setores que se opõem à agenda da sustentabilidade. Em 2017, uma comissão parlamentar de inquérito voltou sua atenção para a demarcação de áreas indígenas e a reforma agrária. Ao fazê-lo, o uso correto dos fundos foi questionado. No entanto, a auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União confirmou a implementação satisfatória do Fundo Amazônia.

No entanto, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou uma revisão de todos os projetos do fundo como parte de sua estratégia para reduzir a política ambiental brasileira. Salles agora está atacando as ONGs e o Fundo Amazônia, alegando preocupação com o uso adequado dos recursos. De fato, ele não tem nenhum interesse na luta contra o desmatamento.

Oponentes do desmatamento são enfraquecidos

O ministro solicitou todos os documentos do projeto e simulou um procedimento de auditoria sem envolver os órgãos de supervisão e sem submeter critérios. Com alusões e calúnias, ele atacou organizações da sociedade civil. Em uma conferência de imprensa, no entanto, ele teve que reconhecer que a auditoria era a tarefa das autoridades de supervisão.

Os ataques têm sistema. Isso permitirá que o governo enfraqueça todas as iniciativas para combater o desmatamento. O Ministério do Meio Ambiente, originalmente destinado a ser dissolvido pelo Presidente Bolsonaro, atualmente não tem uma política nem uma estratégia de redução do desmatamento. O plano de sucesso que levou ao estabelecimento do Fundo Amazônia, assim como os Departamentos de Manejo Florestal Sustentável e Mudança Climática, foram retirados do organograma do ministério. No momento, não está claro qual entidade governamental será responsável pelos compromissos do Brasil de reduzir o desmatamento sob o Acordo de Paris.

Governo Bolsonaro desagrada comitê de direção

O ministro Ricardo Salles também não gosta da estrutura de governança do fundo. Uma condição estabelecida pelos doadores nas negociações com o governo brasileiro foi considerar a diversidade dos atores sociais envolvidos na estrutura de governança do Fundo. O objetivo era garantir uma discussão participativa sobre critérios de financiamento, prioridades e diretrizes, e evitar que o Fundo preenchesse os déficits orçamentários públicos. Como resultado, foi criado um Comitê Gestor, liderado pelo Ministério do Meio Ambiente e composto por representantes do governo federal, dos estados, do setor privado, da ciência e da sociedade civil, cada um com um assento para os povos indígenas, pequenos agricultores e ONGs.

Seguindo uma diretriz do governo Bolsonaro para reduzir sua participação nos assuntos sociais, o ministro Salles está atualmente tentando restringir a participação da sociedade civil no comitê gestor do Fundo Amazônia. O objetivo é facilitar o financiamento de projetos que o governo considera prioritários sem ter que negociar com outras partes interessadas.

Isso inclui o pagamento de indenização aos proprietários de terras cujas terras estão localizadas em áreas protegidas, financiamento que é contrário às regras do fundo. Agora, o governo pretende aprovar um decreto que alterará as regras de financiamento e a composição do Comitê Diretor.

Isso torna cada vez mais claro que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que não pode apresentar uma política para combater o desmatamento, ainda quer decidir unilateralmente quais recursos do instrumento financeiro internacional devem ser usados ​​para fortalecer uma política inexistente.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo jornal “Frankfurt Allgemeine” [Aqui!].

Itamaraty usa dados errados para defender agro brasileiro

Agromitômetro analisa nota preparada pela chancelaria para subsidiar diplomatas no exterior e detecta distorções, falácias, erros factuais e referências elogiosas a políticas que o governo Bolsonaro está desmontando

ernesto araujo

O Chanceler Ernesto Araújo, que nega o aquecimento da Terra (Foto: Arthur Max/MRE).

DO OC – O Ministério das Relações Exteriores preparou uma nota contendo informações sobre desmatamento e agronegócio. O objetivo é subsidiar diplomatas que precisam responder aos crescentes questionamentos feitos no exterior à política ambiental do governo Bolsonaro.

A nota, à qual o OC teve acesso, tenta vender a sustentabilidade do agronegócio brasileiro usando uma série de dados errados, distorções e meias-verdades. Além disso, várias das políticas às quais o documento se refere, que supostamente afiançariam a sustentabilidade da produção brasileira, vêm sendo abandonadas ou ativamente desconstruídas pelo governo de Jair Bolsonaro. Um exemplo são as políticas de clima, que a nota canta em prosa e verso, mas que o chanceler Ernesto Araújo acusa de serem uma armação globalista e o ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, considera “secundárias”.

O desmonte das instituições ambientais brasileiras pelo novo governo foi denunciado por oito dos nove ex-ministros do Meio Ambiente vivos e será objeto de apuração pelo TCU (Tribunal de Contas da União), que acatou um pedido do Ministério Público na semana passada. Governos estrangeiros, investidores e organismos multilaterais vêm demonstrando preocupação. No fim de abril, 607 cientistas europeus e duas organizações indígenas pediram numa carta na revista Science que a União Europeia condicione qualquer acordo comercial com o Mercosul ao cumprimento de uma série de salvaguardas socioambientais.

Vários dos dados usados pelo Itamaraty já haviam sido checados pelo OC neste vídeo. Nesta edição do Agromitômetro, reproduzimos a nota da chancelaria (em itálico) e comentamos seus pontos problemáticos.

Leia a seguir.

Informação sobre desmatamento

Na qualidade de reconhecida potência ambiental, com as maiores reservas de florestas tropicais, recursos genéticos e água potável do mundo, o País conseguiu, nas últimas décadas, conciliar políticas ambientais eficazes com uma pujante produção agrícola, o que lhe permitiu converter-se em parceiro comercial imprescindível para a segurança alimentar do planeta. O compromisso do Brasil com a conservação e o uso sustentável do meio ambiente coaduna-se plenamente com o direito ao desenvolvimento, fundamental para a geração de empregos e de renda no País, reconhecido no princípio 3 da Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de 1992, além de perpassar toda a Agenda 2030 sobre Desenvolvimento Sustentável.

Atualmente, cerca de 66,3% do território brasileiro são dedicados à proteção e preservação da vegetação nativa (unidades de conservação, terras indígenas,assentamentos rurais, quilombolas, áreas militares, reserva legal nos imóveis rurais e terras devolutas)…

MENTIRA: 67% do território brasileiro está coberto com vegetação nativa. Isso é muito, muito diferente de estar “dedicado à proteção e preservação”. O Itamaraty põe na conta áreas de produção familiar, como terras quilombolas e assentamentos, áreas onde múltiplos usos (inclusive agricultura e mineração) são permitidos, como APAs (Áreas de Proteção Ambiental), terras atualmente com floresta mas que podem ser legalmente desmatadas em propriedades privadas e áreas devolutas – terras públicas sem destinação formal, concentradas na Amazônia. Mesmo que a abordagem fosse correta, dados do Projeto MapBiomas mostram que a proteção efetiva é bem menor: se computarmos o que tem se mantido preservado nos últimos 30 anos, é menos de 50%.

…proporção muito superior à da maioria dos países.

MEIA-VERDADE: Há pelo menos 20 países que mantêm mais floresta como proporção do território que o Brasil, segundo dados do Banco Mundial que podem ser consultadoneste link. A lista inclui o Suriname (98%), o Japão (68%), a Suécia (69%), a Finlândia (73%) e o Congo (67%).

Apenas 30,2% (257.002.000 hectares) das terras brasileiras são de uso agropecuário: 8% de pastagens nativas, 13,2% de pastagens plantadas, 7,8% de lavouras e 1,2% de florestas plantadas. O restante, 3,5% do território nacional, é ocupado por cidades, infraestrutura e outros.

MEIA-VERDADESegundo o cruzamento das bases de dados do Projeto MapBiomas e do Atlas da Agropecuária Brasileira, o Brasil tem 245 milhões de hectares em uso agropecuário, o que dá 29% do país – um pouco menos até do que sugerem os dados da nota do Itamaraty. Essa cifra sobe para 34% do território (295 milhões de hectares) quando se consideram os campos naturais no Pampa e no Pantanal, que podem ser usados para pastoreio. É uma cifra próxima da média mundial, que é de 37%. Cidades, água e infraestrutura cobrem cerca de 5% do país. O Brasil é o quarto maior produtor agrícola do planeta e tem a terceira área sob cultivo, atrás apenas de China e Estados Unidos – países mais extensos e mais populosos que o Brasil. A área agrícola per capita é maior no Brasil (1,17 hectare por habitante) do que nestes dois países (0,34 ha/habitante e 1 ha/habitante, respectivamente). A área agrícola do Brasil equivale a 1,5 vez a área agrícola de todos os países da Europa somados.

A título de comparação, os Estados Unidos utilizam 74,3% do seu território para a
agropecuária, 5,8% são ocupados por cidades e infraestrutura e 19,9% são dedicados à proteção e preservação da vegetação nativa. A produção agrícola dos países da União Europeia ocupa entre 45% e 65%; da China, 17,7%; e da Índia, 60,5%.

FALACIOSO: O documento do Itamaraty usa dois pesos e duas medidas para comparar o Brasil a outros países. Computa, por exemplo, as florestas nativas manejadas nos Estados Unidos na categoria “uso agropecuário”, enquanto as florestas nativas manejadas ou passíveis de manejo no Brasil, como as Florestas Nacionais, são consideradas “área de preservação”. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA, que podem ser consultados aqui, os EUA têm 61% do território sob áreas privadas para agropecuária e outros usos, mas 66% de áreas naturais e de vegetação nativa, quase tanto quanto o Brasil, e 30% do país está sob proteção (12% integral e 18% sob uso sustentável). Nos EUA, a área de cobertura florestal corresponde a 74% do que existia em 1850. Embora haja menos floresta lá do que aqui, a proporção de florestas mantidas lá é maior do que aqui. Pesquisadores da UFMG esmiuçaram a comparação.

Dessa forma, diferentemente do que se possa sugerir, o Brasil é um dos poucos países com capacidade concomitante para produzir e conservar, e sua experiência, suas lições e seus desafios informam a elaboração de políticas sustentáveis em outros países. Contribuem para o alcance desse difícil equilíbrio políticas ambientais especificamente voltadas para a conservação e o manejo sustentável de florestas, com forte participação do setor privado e com o emprego de tecnologias de ponta que permitem produção agropecuária de precisão com sustentabilidade.

O Código Florestal (Lei 12.651/2012) estabelece normas gerais sobre a proteção da vegetação nativa, incluindo Áreas de Preservação Permanente (APPs), e institui, entre outros, áreas de uso restrito e Reservas Legais dentro de propriedades rurais privadas, que variam de 20% (Mata Atlântica) a 80% (Amazônia) da propriedade. Com o Código Florestal, é possível fazer uma distinção entre “desmatamento legal”, que permite o desenvolvimento da agricultura, e “desmatamento ilegal”, que deve ser combatido nasReservas Legais, nas APPs e nas áreas de proteção (unidades de conservação, terras indígenas), por meio de políticas de comando-e-controle, incluindo monitoramento, fiscalização e combate de vetores econômicos e pressões sociais que contribuem para possíveis devastações.

VERDADE, MAS…: Com a anuência do governo Bolsonaro, a bancada ruralista no Congresso está tentando desmontar o Código Florestal. Uma Medida Provisória (867/2018) que trata da regulamentação de um dispositivo específico do código, o Programa de Regularização Ambiental (PRA), recebeu mais de 30 emendas na Câmara que desfiguram a aplicação da lei. A mais polêmica delas permite anistiar desmatamentos numa área equivalente à de Portugal ao alterar o entendimento sobre o percentual de proteção da reserva legal das propriedades. O projeto foi aprovado na Câmara e barrado no Senado, o que fará a MP perder a validade. Mas o presidente Bolsonaro disse nesta semana que editaria uma nova MP sobre o mesmo tema. O filho mais velho do presidente, Flávio, senador pelo PSL do Rio de Janeiro, foi além: propôs um projeto de lei que simplesmente extingue a reserva legal, o que legalizaria todo o desmatamento no Brasil.

O Código Florestal brasileiro permitiu o mais completo mapeamento florestal já realizado com a implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Trata-se de sistema inovador que permite o cruzamento de dados informados pelos proprietários rurais e dados de satélites sobre a cobertura florestal das propriedades.

Segundo dados recentes do CAR, existem no País: 231.779.278 hectares de unidades de conservação (federais e estaduais), equivalentes a 27% do território nacional; e 117.057.916 hectares de terras indígenas em 600 unidades, ou seja, 13,7% das terras brasileiras.

A combinação da extensão das unidades de conservação com a das terras indígenas resulta num total de 348.837.194 hectares de áreas consideradas “protegidas” segundo parâmetros das Nações Unidas, ou seja, 41% do País, equivalente à superfície de pelo menos 15 países europeus. Esse percentual é muito superior ao de países agroexportadores concorrentes do Brasil, como Austrália (que protege 19,2% do seu território), os Estados Unidos (13%) e o Canadá (9,7%).

MENTIRA: O CAR, que é autodeclaratório, não é fonte de dados de unidades de conservação e terras indígenas. O Cadastro Nacional de Unidades de Conservação aponta a existência de 158 milhões de hectares de UCs continentais no Brasil sendo que 18% apresentam sobreposições entre si. Além disso 11,4 milhões de hectares das áreas protegidas são sobreposição de Terras Indígenas e Unidades de Conservação.

A soma de todas as unidades de conservação continentais, incluindo a categoria APA, muito permissiva (80% do território do Distrito Federal está numa APA, por exemplo), e de todas as terras indígenas (que, de fato, representam 14% do território), perfaz 259 milhões de hectares, cerca de 30% do território nacional – não 41%, como a nota do Itamaraty. É um número não muito distante da média mundial, 25%, e menor do que o de países da América do Sul, como Bolívia e Venezuela (mais de 40% cada um) e de países desenvolvidos, como Alemanha (38%) e Grécia (35%). Além disso, as áreas protegidas estão mal distribuídas no país: a maior parte delas está na Amazônia, região que responde por apenas 10% da produção agropecuária. Retirando a Amazônia, apenas 5% do país – que concentra 90% da produção – está sob alguma forma de proteção.

Além do Código Florestal, existem diversas políticas agrícolas e ambientais que promovem o desenvolvimento de práticas sustentáveis e a conservação de florestas, incluindo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas na Amazônia – PPCDAm , o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas no Cerrado –PPCerrado, para citar alguns. Existem, igualmente, diversas iniciativas de compromisso ambiental do setor privado, as quais serão descritas a seguir.

VERDADE ANTES DE BOLSONARO: O novo governo extinguiu a secretaria responsável pelo PPCDAm e pelo PPCerrado no Ministério do Meio Ambiente e até agora não disse se e como os planos terão continuidade. Não há mais nenhum órgão encarregado de formular as políticas de combate ao desmatamento – o ministro do Meio Ambiente já afirmou que o Ibama bastaria para cuidar disso. O mesmo ministro também lançou um ataque sem precedentes ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação, anunciando a revisão de todas as 334 Unidades de Conservação Federais, que segundo ele foram criadas “sem critério” apesar de contarem com estudos técnicos específicos para a sua criação. Várias poderão ser reduzidas ou até desfeitas.

Participação do setor privado

No que diz respeito à agropecuária, a Lei 12.651/2012 impõe ao agricultor nacional a obrigação de manter um percentual de sua área com floresta ou outra vegetação nativa (Reserva Legal), às suas expensas, inclusive tributárias, sem recebimento de qualquer compensação pecuniária por isso.

FALACIOSO: O Itamaraty dá a entender que os proprietários rurais deveriam receber dinheiro por cumprir a lei. Por essa lógica, então, nas cidades os proprietários de imóveis deveriam receber compensação para cumprir obrigações legais como manter recuo para calçada, observar o espaçamento entre imóveis ou manter áreas permeáveis, ou motoristas deveriam ser compensados por se ater aos limites de velocidade sem poder acelerar até o limite de seus veículos. Pela mesma moeda, os serviços ambientais prestados pelas florestas brasileiras em áreas públicas à agricultura, como manutenção do regime de chuvas, polinização e ciclagem de nutrientes do solo, avaliados em até US$ 700 por hectare por ano, deveriam ser em parte pagos pelos produtores, que os recebem como um subsídio hoje. Por fim as áreas destinadas a área de preservação permanente (APP) e reserva legal (RL) podem ser excluídas do cálculo do ITR (Imposto Territorial Rural), o principal encargo tributário incidente sobre a propriedade rural.

Na Amazônia, esse percentual de conservação obrigatório é de 80% da propriedade. Segundo cálculos do Serviço Florestal Brasileiro, cerca de 212.750.000 hectares são Reserva Legal em áreas privadas brasileiras, aproximadamente 25% do território (aproximadamente 100.000.000 dos quais são declarados como vegetação nativa em propriedades privadas, 12% do território brasileiro – uma área pouco inferior aos territórios de França, Espanha e Portugal combinados), enquanto 257.002.000 hectares são de uso agropecuário (30,2% do território). Portanto, em média, para cada 1 hectare plantado/cultivado, o setor privado tem a obrigação por lei de preservar ou recuperar 0,82 hectare de vegetação nativa.

NÃO É BEM ASSIM: Excluindo-se as sobreposições entre si e com terras indígenas e unidades de conservação de domínio público, as áreas privadas cadastradas no Brasil somam cerca de 365 milhões de hectares e possuem pouco menos de 190 milhões de hectares cobertos com vegetação nativa (primária ou secundária). É correto afirmar que para cada hectare ocupado por agropecuária no Brasil existe 0,74 hectare de vegetação nativa em propriedades privadas – não necessariamente protegidos, como mostram as taxas anuais de desmatamento no Brasil. Sem considerar a Amazônia, que responde por 10% da produção agropecuária brasileira, esse índice cai para 0,64. As áreas de reserva legal das propriedades privadas podem ser utilizadas para produção florestal, como acontece já em escala tanto na Amazônia quanto na caatinga.

Além da instituição das Reservas Legais, contribui para a proteção das florestas brasileiras o desenvolvimento da pesquisa agropecuária de ponta nas últimas décadas, com empresas como a Embrapa à frente, bem como o avanço de tecnologias que aumentaram a produtividade, contribuindo para intensificar a produção e evitar a incorporação de novas áreas à exploração agrícola. Esses avanços tecnológicos permitiram que, nos últimos 40 anos, o crescimento da produção de grãos quintuplicasse, ao passo que a área ocupada pelas plantações permanece praticamente estável.

MEIA-VERDADE: O desenvolvimento da pesquisa agropecuária tem sido a chave para o salto de produtividade da agricultura brasileira, que de fato poupou terras: de 1991 até 2017, a produção de grãos cresceu 312%, enquanto a área plantada cresceu 61%, sendo que parte importante da agricultura cresceu sobre áreas de pastagem. A área ocupada não “permaneceu estável”, como alega o Itamaraty, mas trata-se de um caso de sucesso. Quando se observa a área total ocupada pela agropecuária no Brasil, ela cresceu quase 40% entre 1985 e 2017. Isso decorre principalmente do fato de a pecuária permanecer com índices de produtividade média muito baixos. Segundo o projeto TerraClass, do Inpe e da Embrapa, 63% de toda a área desmatada na Amazônia dos anos 1980 até hoje está ocupada por pastagens em sua grande maioria de baixa produtividade.

À luz do que precede, é correto afirmar que os produtos agrícolas que são produzidos no País comportam a forte contrapartida de serviços ecossistêmicos prestados pela área conservada na Reserva Legal em cada propriedade. Devem ser reconhecidos como commodities que contribuem para a manutenção da biodiversidade, para a proteção de fontes de água potável e para a estabilidade do clima mundial.

MEIA-VERDADEEmbora parte do agronegócio, em especial entre os exportadores de grãos e celulose, venha cumprindo a legislação trabalhista e ambiental, com certificação e rastreabilidade, isso ainda está longe de ser a regra no setor. O Brasil ainda é o país que mais desmata no mundo em termos absolutos: são cerca de 15 mil quilômetros quadrados por ano. As reservas legais vêm sendo desmatadas: propriedades privadas perderam 20% da vegetação nativa nos últimos 30 anos, enquanto as áreas protegidas perderam 0,5%. Cerca de 70% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa vêm da atividade agropecuária, seja diretamente, pelo metano emitido pelo rebanho bovino, seja indiretamente, pelo desmatamento. O Brasil é o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta – seu agronegócio, se fosse um país, seria o oitavo maior emissor do mundo, à frente do Japão.

Atualmente, o Brasil concorre nas exportações de grãos com países desenvolvidos como os Estados Unidos e a Austrália, mantendo grande parte de seu território intacto.

No que se refere à produção de soja, está vigente desde 2006 a Moratória Brasileira da Soja, iniciativa originalmente liderada pelo setor privado.

MENTIRA: A moratória da soja começou devido a uma iniciativa do Greenpeace, que em 2006 denunciou que a soja que alimentava os frangos do McDonald’s vinha de desmatamento ilegal na Amazônia. O setor privado aderiu com relutância, por pressão dos compradores estrangeiros.

A iniciativa alcançou resultados consistentes, como a contenção a apenas 2% da expansão da produção de soja em áreas de desmatamento ilegal desde 2008. Iniciativa similar no Cerrado ficou conhecida como o “Manifesto do Cerrado”.

VERDADE, MAS…: A moratória de fato foi um sucesso, apesar de ter quase implodido várias vezes. Tentativas de expandi-la ao cerrado têm enfrentado resistência do setor privado.

Com relação à sustentabilidade da pecuária, responsável por cerca de 65% das áreas desmatadas da Amazônia, tem obtido êxito o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, implementado pelo Ministério Público Federal juntamente com frigoríficos. Atualmente, cinco estados da região amazônica estão contemplados no TAC.

MEIA-VERDADEComo o nome indica, o TAC da carne não foi uma iniciativa do setor e sim um acordo feito com o Ministério Público para evitar que as empresas voltassem a delinquir e garantir que continuassem recebendo crédito rural. O TAC foi um importante primeiro passo na regularização da pecuária na Amazônia, mas o setor continua sendo o principal responsável pelo desmatamento na Amazônia– que vem aumentando desde 2012 após oito anos com tendência de queda.

Quanto ao setor florestal privado, segundo dados da IBA, estima-se que, para cada hectare de floresta plantada no Brasil, o setor privado conserva 0,7 hectare de vegetação nativa. Atualmente, o setor de florestas plantadas possui um total de 7.84 milhões dehectares. Estima-se que, até 2030, o setor alcance 2 milhões de hectares de novas áreas de plantio florestal comercial, baseado na intensificação sustentável e na adoção de boas práticas de manejo. O crescimento do setor florestal privado deve ser considerado importante para a conservação ambiental no Brasil.

VERDADEO setor de florestas plantadas tem o melhor desempenho de sustentabilidade de todo agronegócio brasileiro. Se todo o agronegócio brasileiro tivesse a performance em sustentabilidade do setor de florestas plantadas, seguramente o Brasil teria a produção rural mais sustentável do mundo.

O setor de florestas plantadas é responsável pela geração de 508 mil empregos diretos e 3,2 milhões de empregos indiretos. Juntamente com o setor agropecuário, são mais de 20 milhões de empregos diretos e indiretos. Esse número é expressivo, tendo em conta que a população economicamente ativa do Brasil é de aproximadamente 104 milhões de pessoas. O campo é portanto responsável, direta ou indiretamente, por aproximadamente um quinto dos empregos brasileiros e tem potencial para gerar muito mais oportunidades de trabalho.

Florestas e mudança do clima

Atualmente, estão vigentes no País as seguintes normas e compromissos no âmbito das ações de combate à mudança do clima com implicações para o setor florestal:

VERDADE ANTES DE BOLSONAROAs políticas citadas abaixo são de fato importantes e é bom que o Itamaraty reconheça seu valor, porque o governo Bolsonaro tem se dedicado a desmontá-las, uma a uma.

– Política Nacional sobre Mudança do Clima (Lei nº 12.187/2009); com meta de redução de 36,8% a 38,9% das emissões em 2020 em relação à trajetória calculada em 2009, será cumprida graças à estimativa inflada de crescimento anual do PIB (5%). Mas sua principal meta, a redução de 80% no desmatamento da Amazônia, não será cumprida. Para que fosse, seria necessário chegar a 2020 com desmatamento na casa dos 3.900 km2/ano. Estamos em 8.000 km2 em 2018.

– Lei de Proteção da Vegetação Nativa (Lei nº 12.651/2012) – Implementação dos Programas de Regularização Ambiental (PRAs); o Código Florestal está sendo atacado no Congresso pela bancada ruralista e pelo filho do Presidente da República. A implementação do Cadastro Ambiental Rural já foi adiada três vezes e o PRA ainda não foi concluído. Em resumo, não se está recuperando floresta, nem se está cortando crédito de quem não recuperou.

– NDC do Brasil – compromisso de recuperar de 12 milhões de hectares de florestas até 2030 para usos múltiplos, eliminar o desmatamento ilegal no bioma Amazônia até 2030, fortalecer o cumprimento do Código Florestal; há uma confusão na nota sobre o que é a NDC: trata-se da meta de reduzir emissões em 37% até 2025. Para cumpri-la, o governo listou uma série de ações, entre elas restaurar 12 milhões de hectares e zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030.

O Brasil até hoje não apresentou um plano de implementação da NDC, nem uma estratégia de longo prazo. Ao contrário, extinguiu a secretaria responsável por isso no MMA e a divisão que negociava o Acordo de Paris no Itamaraty. O chanceler do Brasil é um franco negacionista do clima, que recentemente atribuiu o aquecimento da Terra a “termostatos” (sic) “no asfalto”. Também o é o ministro do Meio Ambiente, que se refere às mudanças climáticas como uma “discussão acadêmica” e já disse que o governo “não será ativo” no debate climático internacional – segundo ele, há problemas mais “tangíveis” para atacar no país.

– Desafio de Bonn e da Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, com a meta de promover a recuperação de 12 milhões de hectares até 2030;

Não há sequer instância no governo para cuidar da sua implementação.

– Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Decreto 8.792, de 23 de janeiro de 2017 e Portaria Interministerial nº 230, de 14 de novembro de 2017) ;

Idem.

– Zoneamento Agrícola de Risco Climático – ZARC;

– Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas na Amazônia – PPCDAm;

Seu futuro é incerto após a extinção da diretoria que cuidava de sua implementação no MMA. Até hoje o governo não disse o que será feito dele.

– Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e Queimadas no Cerrado – PPCerrado;

Idem.

– Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura – Plano ABC;

Foi mantido no Ministério da Agricultura, mas seus recursos no Plano Safra vêm caindo ano a ano. No ano passado, a linha de crédito do Programa ABC, que implementa o Plano ABC, foi a menor desde a sua criação – menos de 1% do Plano Safra.

– Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima – PNA.

Foi engavetado após a extinção da Secretaria de Mudanças Climáticas do MMA.

O Brasil foi um dos poucos países em desenvolvimento a informar uma Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), com metas de redução absoluta de emissões de
gases de efeito estufa para o conjunto da economia, no âmbito do Acordo de Paris sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. A NDC brasileira
indicou, entre outros, o compromisso de fortalecer políticas e medidas com vistas a alcançar, até 2030, o desmatamento ilegal zero na Amazônia brasileira, a compensação das emissões de gases de efeito estufa provenientes da supressão legal da vegetação, bem como a restauração e o reflorestamento de 12 milhões de hectares de florestas.

VERDADE, MAS…: O atual governo não apenas não fez nenhum movimento no sentido de implementar sua NDC como tem jogado ativamente contra as políticas de controle de desmatamento e o Código Florestal, que formam o pilar da NDC. O ministro do Meio Ambiente, principal responsável pela implementação, sequer acredita em mudanças climáticas causadas por seres humanos.

No que se refere ao período pré-2020, o País antecipou o cumprimento do objetivo das Ações de Mitigação Nacionalmente Apropriadas (NAMAs) quanto à redução de emissões de gases de efeito estufa associada à redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

MENTIRA: Quando as metas brasileiras foram anunciadas, antes da conferência de Copenhague (2009), a principal delas era reduzir o desmatamento em 80% na Amazônia. Quando o país registrou a meta na ONU, esses 80% de redução foram “traduzidos” em toneladas de CO2 (564 milhões). O governo vem tentando argumentar que já cumpriu a meta em toneladas de CO2 usando um truque contábil: computar o carbono supostamente “sequestrado” em florestas em propriedades privadas inscritas no Cadastro Ambiental Rural – que, como já vimos, é autodeclaratório. O fato permanece, porém, que o atual nível de desmatamento é mais do que o dobro previsto na meta para 2020.

A meta para o cerrado, que foi calculada sem o monitoramento adequado do desmatamento no bioma e ainda sofreu um expurgo da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, já estava cumprida desde antes de ser enunciada.

Ressalte-se que a redução das emissões de gases de efeito estufa provenientes de desmatamento ocorreu simultaneamente ao aumento da produção
agrícola no País.

VERDADE: Isso demonstra que, ao contrário do que afirma o Presidente da República, a conservação ambiental não atrapalha a produção.

Ressalte-se também o REDD+ – instrumento desenvolvido no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) para recompensar financeiramente países em desenvolvimento por seus resultados relacionados a atividades de redução de emissões no setor florestal. No Brasil, a Estratégia Nacional para REDD+ (ENREDD+), estabelecida em 2015, tem como objetivo contribuir para a mitigação da mudança do clima por meio da eliminação do desmatamento ilegal, da recuperação dos ecossistemas florestais e do desenvolvimento de uma economia florestal sustentável de baixo carbono, gerando benefícios econômicos, sociais e ambientais.

VERDADE ANTES DE BOLSONARO:

VERDADE ANTES DE BOLSONARO: O ministro do Meio Ambiente, como amplamente noticiado, empreende um ataque inédito ao Fundo Amazônia: já acusou irregularidades inexistentes nos convênios com ONGs, atacou a equipe gestora, causando a demissão da diretora do fundo, e quer mudar a governança de seu comitê orientador de forma a interferir politicamente na destinação da verba. Também anunciou que pretende usar recursos do fundo para pagar por desapropriações em áreas protegidas, o que afronta diretamente o objetivo da doação e as regras do BNDES.

Recentemente, o País teve aprovado pelo Fundo Verde para o Clima (GCF) a Proposta de Pagamentos Baseados em Resultados de REDD+ Alcançados pelo Brasil no Bioma Amazônia nos anos de 2014 e 2015, o qual atinge US$ 96,4 milhões. Essa proposta foi submetida em resposta à chamada do Programa Piloto para Pagamentos por Resultados de REDD+ do GCF e contém, além de iniciativas de fortalecimento da ENREDD+, programa piloto inovador de incentivos para serviços ambientais na região da Amazônia Legal, em conformidade com os artigos 41 e 58 do Código Florestal do Brasil, com a ENREDD+ e com a NDC do Brasil.

VERDADE ANTES DE BOLSONAROO diretor responsável por finalizar a negociação com o GCF foi exonerado assim que o Conselho do fundo aprovou o pagamento ao Brasil. Hoje o recurso também está no limbo, à espera da nomeação de quem o opere no governo.

DEMA I – 29.05.2019

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Esta análise foi originalmente publicada pelo Observatório do Clima [Aqui!].

Como os povos indígenas estão sendo tratados com táticas de salame na Amazônia brasileira

A Amazônia brasileira está passando por um dos seus piores momentos” –  e os povos indígenas estão sendo tratados com táticas de salame. 

Sob o presidente Jair Messias Bolsonaro, os índios continuam sendo pressionados na Amazônia. No estado do Pará, cada vez mais fazendeiros de soja e garimpeiros estão invadindo seus territórios.

mineração

Uma mina ilegal de estanho em Novo Progresso que está sendo protegida por guardas armados (4 de novembro de 2018). (Imagem: Ricardo Moraes / Reuters)

Por Thomas Spleen para o “Neue Zürcher Zeitung

A lancha de alumínio orbita as copas das árvores projetando-se da água no estreito Rio São Sebastião a uma velocidade vertiginosa. Sem os saudar, os Parakanã passam pelos garimpeiros trabalhando em pequenas balsas, que sugam o fundo do rio com mangueiras do tamanho de um homem. De tempos em tempos, os indígenas têm que parar, porque as linhas de abastecimento intrusivas do rio estão no caminho. Então a floresta se abre subitamente de ambos os lados, tocos de árvores queimados e a terra arenosa derrubada pelas dragas dos garimpeiros jazia diante deles. Mas onde os Parakanã deveriam mostrar a mutilação de suas terras?

Na margem norte do rio pertencente à área indígena Apyterewa, que foi demarcada para eles em 2007, há sinais placas de  sinalização que anunciam «terra protegida».  Nessas placas são mostrados o artigo constitucional 231, que deu aos povos indígenas de todo o Brasil os direitos sobre as áreas que tradicionalmente habitavam em 1988, e, além disso, o artigo 18 da lei indígena de 1973, que permite apenas a exploração econômica da terra.  O artigo 161 do Código Penal, que proíbe a supressão ou deslocamento tapume, marco, ou qualquer outro sinal indicativo de linha divisória, para apropriar-se, no todo ou em parte, de coisa imóvel alheia

Receba o que você merece

Mas a área ao longo do poderoso Rio Xingu, no estado do Pará, no norte do Brasil, é vulnerável. O estado é representado apenas por alguns funcionários da Funai e um punhado de policiais. Os milhares de garimpeiros e fazendeiros que penetram cada vez mais profundamente em Apyterewa não são detidos. Desde meados do ano passado, o desmatamento no Xingu vem se acelerando rapidamente, com quatro vezes mais do que nos meses anteriores somente em agosto.

Naquela época, o político populista de direita Jair Messias Bolsonaro de repente se colocou com uma série pretendente a vencer a eleição presidencial. Os ex-militar prometeu abrir as terras indígenas e parques naturais para a mineração. Desde que Jair Bolsonaro assumiu o cargo de presidente em janeiro, os sinais de alerta foram deixados abandonados ao longo das margens do rio. O estado que uma vez fez a demarcação, agora mudou de lado. Embora Bolsonaro ainda não tenha implementado oficialmente suas promessas, nas intermináveis ​​extensões da Amazônia isso não importa. Os agricultores e garimpeiros já estão recebendo o que “merecem” de qualquer maneira.

Bolsonaro tem generais em seu gabinete que chegaram na Amazônia na década de 1970 como soldados para completar essa missão. Naquela época, eles construíam estradas de longa distância através das florestas, sobre as quais chegavam produtores de soja e fazendeiros do sul do Brasil. Naquela época já havia planos para construir hidrelétricas no poderoso Xingu antes de seu estuário no baixo Amazonas. Mas foi somente sob a administração do ex-presidente Lula da Silva que os planos foram implementados a partir de 2010.

O mundo tradicional está se rompendo

Embora as aldeias do Parakanã estejam localizadas a cerca de 300 km a frente da represa de Belo Monte,  os seus efeitos podem ser sentidos aqui. A vida selvagem ficou louca com as mudanças de fluxo,  afetando a vida dos povos indígenas. De repente, crocodilos e serpentes de água atacaram onde as crianças sempre se banhavam felizes. Os peixes grande desapareceram. Como os garimpeiros contaminaram os rios com mercúrio, comer peixe já não é uma boa ideia. De repente, os Parakanã passaram a morrer de doenças estranhas.

Como compensação pela barragem, os seus operadores tinham que atender aos requisitos sociais. Portanto, os Parakanã agora têm um pequeno hospital, mas faltam remédios e equipes médicas. Os geradores de energia também não foram instalados. E a promessa de expulsar todos os não-indígenas da aldeia de Apyterewa não foi cumprida. Novas estradas bateu agricultores das florestas através do qual os jovens índios podem agora rugindo com seus novos motocicletas.

Até os barcos de alumínio rápidos de até 50  km por hora são presentes de operadores de barragens. Com eles os homens da aldeia em seis horas chegarão a Altamira, a antiga cidade da selva, que cresceu vigorosamente depois da construção da represa de Belo Monte. Lá, os indígenas vendem o gás a que têm direito e gastam seu dinheiro nos cabarés. De volta a suas aldeias, eles trazem consigo doenças sexualmente transmissíveis. O mundo tradicional de Parakanã se quebra pouco a pouco.

Missão evangélica

É a brecha através da qual os missionários evangélicos invadem o mundo indígena.  É possível vê-los com suas camisetas “Jesus vai mudar você”  por toda a Amazônia. Na aldeia de Parakanã, até mesmo um renomado pregador evangélico já desembarcou. Ele deu três bois para os indígenas fazerem um churrasco. Desde então, eles rezam em sua igreja da vila, embora suas antigas tradições sejam chamadas lá como coisas do diabo. A Igreja Católica adverte em vão para que não abandonem as tradições comunais e as crenças indígenas.

A eleição de Bolsonaro é uma verdadeira reviravolta dos acontecimentos. A minoria evangélica elegeu o populista de direita para o cargo de presidente do Brasil. Agora, pela primeira vez na história do Brasil, os evangélicos também ditam o discurso público. Sob Bolsonaro, a aspiração de cada indivíduo por riqueza deve vir em primeiro lugar. Para isso, pode-se concluir nas igrejas evangélicas que o pagamento dos dízimos  é um contrato personalizado com Deus, que recompensa a pessoa com riqueza. Enquanto isso, a idéia dos católicos de que o bem comum está sempre acima do indivíduo é denunciada como comunismo.

Os garimpeiros são os representantes perfeitos do novo zeitgeist (i.e., o espírito definidor ou humor de um período particular da história, como mostrado pelas idéias e crenças do tempo). Na eleição Bolsonaro enviou-lhes mensagens via o aplicativo WhatsApp.  Essas mensagens diziam que eles serão respeitados como cidadãos iguais em vez de serem perseguidos como infratores da lei.  Jair Bolsonaro gosta de garimpar em seu tempo livre. E ele se identifica com os Outlaw Lucky Knights que se candidatam a encontrar ouro nas florestas da Amazônia. Que eles destruam o meio ambiente não incomoda Jair Bolsonaro. Os rigorosos requisitos ambientais estão prestes a acabar, promete o presidente Bolsonaro, que considera as mudanças climáticas como  sendo uma mentira disseminada pelos comunistas.

Luta diária pela sobrevivência

No caminho também está Apyterewa. O governo os aconselhou a arrendar metade de suas terras para os agricultores que já moram lá. Eles não voltariam de qualquer maneira, disseram eles. E se necessário, o Congresso poderia até mesmo dissolver seu território. Ameaças e cachos, sedução e intimidação. É a velha tática de salame que costumava roubar os povos indígenas do oeste dos Estados Unidos. E também funciona no século 21 no Brasil. Será que o Xingu terá em breve cassinos, como em Connecticut?

Cerca de vinte por cento da Amazônia já foi cortada. As áreas indígenas são as últimas grandes áreas florestais intactas ao sul da Amazônia. Que alguns povos indígenas têm um território tão vasto é injusto para o resto da sociedade, diz Bolsonaro. O lobby agrícola aliado espera que as reservas naturais e as reservas indígenas sejam reduzidas em breve.

mineração 1Vista de uma mina ilegal de estanho perto de Novo Progresso, no estado do Pará, Brasil. (Imagem: Ricardo Moraes / Reuters)

Por outro lado, os Munduruku ficam  300 km a oeste. Aqui, onde o rio Tapajós e o Amazonas fluem juntos, a fronteira agrícola na forma de campos de soja distantes já atinge o poderoso rio. Na aldeia de Munduruku eles alcançam até dez metros. Os deuses podem mais uma vez ser gentis o suficiente para cantar canções? Você lidera uma luta diária pela sobrevivência, diz o líder Josenildo. As substâncias químicas pulverizadas pelos agricultores contaminaram seus rios. Eles sofrem de tontura, falta de ar e náuseas.

Por anos os Munduruku estão lutando por seu território. De acordo com a constituição de 1988, a Funai teria que transferir todas as áreas indígenas tradicionais para os povos indígenas em 1993. Mas a resistência dos poderosos políticos locais é grande. Eles venderam a terra indígena para os fazendeiros de soja com documentos forjados, dizem eles nas proximidades de Santarém. Quando os Munduruku quiseram informar a Comissão Interamericana de Direitos Humanos no final do ano passado, os produtores de soja bloquearam a estrada com dúzias de veículos para impedir a passagem emissários da Organização dos Estados Americanos (OEA) .

O lobby agrícola é determinado

O presidente Bolsonaro também se apoia nas deficiências. Como um de seus primeiros atos oficiais, ele tirou a Funai do poderoso Ministério da Justiça e a colocou no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.  A ministra Damares Alves, um pregadora evangélica, já fez um nome para si mesmo como um ávido missionário indiano. Além disso, Bolsonaro privou a Funai da responsabilidade pela demarcação de terras para os povos indígenas. Esta é agora a responsabilidade do Ministério da Agricultura. No entanto, o lobby agrícola no poder depende da expansão da produção de soja.

Passo a passo, Santarém está sendo transformada em um polo de comércio de soja. A poucos quilometros  da vila de Munduruku, os produtores de soja vindos do Centro Oeste estão chegando pela BR 363 que foi construída pelos militares na década de 1970. O destino deles é o porto da multinacional  Cargill em Santarém, de onde os navios de carga descem. Amazônia em direção ao oceano Atlântico.  Atualmente, mais quatro portos de carga estão sendo construídos na região de Santarém. As comunidades pesqueiras locais já estão preocupadas com sua existência.

O fato do estado estar ausente da fronteira agrícola é uma decisão deliberada, acredita Luis de Camões Lima Boaventura. O governo admite que os indígenas estão sendo envenenados e as riquezas de seus territórios estão sendo ilegalmente exploradas, afirma o jovem promotor público de Santarém. Quase toda semana, ativistas que faziam campanhas pelos direitos dos indígenas às suas vem sendo assassinados. Não só o estado não faz nada contra a injustiça, mas intensifica deliberadamente o conflito. O promotor tira uma conclusão deprimente: “A Amazônia brasileira está passando por apenas um dos seus piores momentos”.

A Controversa Hidrelétrica de Belo Monte

Até o final do ano, a barragem de Belo Monte será concluída após quase nove anos de construção e investimento de cerca de R$ 50 bilhões. Com uma produção máxima de 11.233 megawatts seria a terceira maior do mundo, depois da represa das Três Gargantas  na China, e da brasileira-paraguaia Hidrelétrica de Itaipu. No entanto, devido às fortes flutuações de precipitação, os especialistas esperam uma média anual de apenas 4.000 megawatts. Isso ameaçaria a ocorrência de bilhões de reais em perdas. Além disso, o polêmico “Belo Monstro”, que é assim chamado pela população, é marcado por escândalos de corrupção e protestos espetaculares. Ativistas indígenas e ambientais repetidamente conseguiram atrasar o projeto nos tribunais. No final, milhares de habitantes da região tiveram que ser reassentados, incluindo povos indígenas, cujas áreas ancestrais foram inundadas. Os projetos sociais prometidos pelas operadoras da Hidrelétrica de Belo Monte ainda não foram implementados em grande parte.  Há ainda a controversa concessão de licenças ambientais para a mineração dos gigantescos depósitos de ouro da região para o grupo canadense de mineração Belo Sun Mining Corporation. Essa é mais uma ameaça de expulsão da população ancestral.

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Esta reportagem foi originalmente escrita em alemão e publicada pelo jornal “Neue Zürcher Zeitung”, que é publicado em Zurique na Suiça [Aqui!].

“The Intercept Brasil” circula íntegra de relatório engavetado pelo governo Bolsonaro sobre uso de drogas no Brasil

Publicamos pela primeira vez o estudo sobre drogas que o governo escondeu

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Por Tatiana Dias e  Ines Garçoni para o “The Intercept Brasil”

HÁ DOIS MESES, o Intercept e a Casa da Democracia revelaram que o governo esconde desde 2017 o 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas, pesquisa nacional que investigou o consumo de substâncias lícitas e ilícitas por brasileiros. O estudo, feito pela Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, foi o maior já feito sobre o tema – foram ouvidas 16.273 pessoas em 351 cidades – e custou aos cofres públicos mais de R$ 7 milhões.

Mas a Secretaria Nacional de Política de Drogas, a Senad, órgão do Ministério da Justiça responsável por encomendar a pesquisa, decidiu engavetá-la. A alegação oficial é que ela tem problemas metodológicos. Mas, segundo especialistas, o embargo tem outra razão: o resultado contrariou o governo. Conforme o Intercept divulgou em abril, o levantamento mostrou, por exemplo, que só 0,9% da população usou crack alguma vez na vida – um número que está longe do que o governo alardeia como “epidemia”.

O atual ministro da Cidadania, Osmar Terra, foi um dos responsáveis por embargar o levantamento. Em entrevista nesta semana, ele disse que “não confia” no estudo e que a Fiocruz tem “viés de defender a liberação das drogas. As declarações do ministro fizeram com que o assunto chegasse até ao Jornal Nacional, que divulgou alguns dos resultados publicados há dois meses pelo Intercept (sem os créditos, mas essa é outra história).

Em abril, logo depois que publicamos os resultados da pesquisa, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, autorizou a divulgação do relatório – desde que ele não fosse associado à Senad, do Ministério da Justiça. O governo exige que a Fiocruz devolva os R$ 7 milhões da pesquisa, alegando que ela não cumpriu o edital. A Fiocruz diz que cumpriu e, neste momento, o caso está sendo avaliado pela Advocacia Geral da União.

Em abril, quando publicamos a história pela primeira vez, avaliamos que divulgar o documento na íntegra poderia colocar em risco os objetivos da pesquisa e contribuir para que o levantamento fosse definitivamente engavetado pelo governo. Por causa dos últimos acontecimentos, no entanto, decidimos que é interesse público divulgar, na íntegra, o que o estudo mostrou.

Leia o relatório completo:

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Esta matéria foi originalmente publicada pelo site “The Intercept Brasil” [Aqui!]

Mídia brasileira recorre a ilusionismos para minimizar protestos contra cortes na educação

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Abri hoje a página do UOL, um dos principais portais de notícias do Brasil, e descobri que a cobertura das manifestações de ontem simplesmente mingou a ponto de eu ter dificuldade de encontrar qualquer menção a elas. Indo ao site do “O GLOBO” descobri que o governo Bolsonaro tem outros problemas ainda maiores do que a Educação. Cobertura das manifestações de ontem, igualmente raquíticas.

Não posso deixar de lembrar que as igualmente raquíticas manifestações em prol do governo Bolsonaro que ocorreram no dia 26 de maio foram turbinadas por essa mesma mídia que viu nelas uma espécie de chancela popular para a impopular reforma da previdência e outras maldades que estão sendo impostas para dar vazão a um projeto de desestruturação completa do pouco que existe no estado brasileiro em termos de distribuir a hiper concentrada riqueza nacional.

Uma cobertura mais balanceada acabei encontrando no jornal “El País” que mantém uma redação no Brasil e que notou que apesar de menor em número de participantes, as manifestações de ontem continuaram mantendo um padrão de grande distribuição geográfica, o que sinaliza problemas para o governo Bolsonaro.

Essa não é a primeira vez que a mídia brasileira adota um padrão enviesado de cobertura de acontecimentos políticos importantes. E provavelmente não será a última, pois apesar de aparentemente não gostarem da forma com que o presidente Jair Bolsonaro governa o Brasil, os donos dos principais veículos da mídia brasileira são defensores da agenda ultraneoliberal que o ministro Paulo Guedes está tentando implantar. Aí qualquer eventual divergência com o jeito de governar é sacrificada em nome do projeto maior do ajuste neoliberal que Jair Bolsonaro incorpora em suas ações de governo.

Mass que ninguém precisa se desesperar com essa cobertura desnivelada e parcial, pois faz tempo que a mídia brasileira não controla a informação como um dia já controlou. [E que com todos os seus defeitos e qualidades, as redes sociais e a mídia alternativa que elas impulsionam deram um show de cobertura no dia de ontem.  Qualquer um que tiver curiosidade e interesse em saber o que realmente se passou no dia de ontem, e o que ainda vem pela frente só tem que procurar fora da cobertura oficialista da mídia corporativa.

A força da juventude brasileira foi mostrada nas ruas neste 30 de Maio. Dia 14 de Junho será a vez dos trabalhadores

Fui perguntado por diversas vezes como eu achava que seria esse 30 de Maio no tocante à força dos atos que estavam marcados para diferentes partes do Brasil para protestar contra os cortes draconianos feitos pelo governo Bolsonaro no orçamento da educação pública, e que aplicou doses extras de perversidade contra universidades e institutos federais. 

A minha sincera resposta a quem me perguntou era de que não tinha certeza, mas suspeitava que as manifestações de hoje superariam os que foram realizados no último dia 26 pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, mas que não tinha certeza se seriam tão grandes quanto aqueles que ocorreram no dia 15 de Maio.  M

Após um longo dia, a avaliação que estou vendo é que os atos de hoje não só superaram aqueles feitos pelos apoiadores de Bolsonaro, mas que podem ter superado os protestos do dia 15. as mesmo que as manifestações deste 30 de maio tenham sido menores, algo que deveria preocupar o governo Bolsonaro é a alta capilarização dos protestos que atingiram desde cidades grandes até as bem pequenas. Com um tipo de capilarização política como essa, os problemas do governo Bolsonaro que já não são desprezíveis, tenderão a aumentar.

A repercussão e a força dos atos mostra que as redes sociais que já ajudaram bastante o presidente Jair Bolsonaro, agora estão servindo para organizar a volta da juventude brasileira às ruas, dando força política às suas organizações de classe. E desta vez nada indica que estamos tendo uma repetição da ojeriza às bandeiras dos partidos de esquerda como aconteceu em 2013.

Abaixo imagens de diversas partes do Brasil mostrando a pujança e a diversidade de cores que explicitam bem a diferença com o viés cromático das manifestações pró-Bolsonaro.

Para piorar a situação do governo Bolsonaro houve hoje a alusão direta da juventude brasileira participar de forma ativa da greve geral que deverá ocorrer no dia 14 de Junho. É que se a greve geral gerar o mesmo tipo de energia que as manifestações de hoje geraram, a fragilidade política do governo Bolsonaro que já é alta deverá subir alguns degraus a mais.

O desmanche da governança ambiental pelo governo Bolsonaro será desastroso para a economia brasileira, mas este é o menor dos problemas

jair bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro e seus ministros agem para desmantelar a governança ambiental e as proteções que foram estabelecidas ao longo de décadas de luta em defesa do meio ambiente. 

A escalada que está sendo empreendida pelo governo Bolsonaro traz tantas más notícias ao mesmo tempo que chega a difícil enumerá-las ou dizer qual das medidas é pior para o Brasil, a começar por sua economia cada vez mais dependente da exportação de commodities agrícolas minerais.

A lista inclui o sucateamento e a perda de autonomia de ação de órgãos vitais para a aplicação das leis ambientais como o IBAMA e o ICMBIO, o desmantelamento do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), a tentativa de utilizar os recursos do Fundo Amazônia para premiar grileiros de terras públicas, a aprovação em massa de agrotóxicos altamente tóxicos e muitos já banidos em outras partes do mundo, e a tentativa de impor a fórceps as crenças negacionistas  em torno das mudanças climáticas que hoje afetam a Terra. Há ainda a tentativa de desfigurar o Código Florestal para beneficiar 4% dos proprietários rurais que se negam a cumprir a lei no tocante à recomposição de áreas desmatadas irregularmente.

Quando postas juntas todas essas medidas aparecem como o que são, ou seja, o cumprimento de promessas eleitorais que foram feitas durante a campanha eleitoral de 2018 pelo agora presidente Jair Bolsonaro aos setores mais retrógrados dos setores que controlam a agricultura brasileira, arriscando inclusive alienar aqueles que dentro do setor querem manter uma aparência de responsabilidade para garantir acessos a mercados onde existem padrões mínimos de preocupação com a manutenção dos ecossistemas naturais da Terra e com a vida dos povos indígenas.

Por isso, se enganam os que dentro ou fora do governo Bolsonaro que o Brasil tem uma espécie de passe livre para desmatar, poluir e descumprir acordos internacionais, sem que isso tenha consequências sobre a nossa economia, especialmente os segmentos envolvidos na exportação de commodities. É que ao contrário de alguns ministros saudosistas de tempos mais plúmbeos, não estamos mais na década de 1970.

Não sou ingênuo em achar que eventuais restrições às commodities brasileiras por causa do desmantelamento da nossa governança ambiental vá se dar porque os governos dos países centrais estejam voluntariamente comprometidos com uma pauta que una crescimento econômico com sustentabilidade ambiental. A verdade é que a maioria não está. O problema é que onde o sistema de controles está minimamente estabelecido, a União Europeia, por exemplo, os governos são obrigados a levar em conta o que a comunidade científica e, especialmente, as populações estão dizendo sobre a necessidade de não se naufragar o planeta em um jogo sem volta na área ambiental.  A demonstração disso foi o avanço significativo dos partidos Verdes nas últimas eleições para o Parlamento Europeu.

E como estamos mais frágeis como atores na cena política mundial a partir da completa subalternização aos interesses do governo de Donald Trump, um dos passos mais prováveis que serão executados contra o Brasil será o boicote aos nossos produtos agrícolas e minerais.

Mas pior que o cerco econômico será o político. É que, ao contrário do que deseja o presidente Donald Trump e seu vassalo que ocupa atualmente o Palácio do Planalto, o mundo hoje está cada vez mais alicerçado em estruturas multilaterais e que possuem fortes impactos sobre a circulação de bens, pessoas e recursos de capitais. Disto decorre a possibilidade de que o Brasil sofra um processo de isolamento político que o país nunca conheceu em sua história.

Mas como alguém me lembrou durante uma palestra que ministrei na Universidade de Helsinki no final do ano passado, a reação principal a esse ataque virulento à governança ambiental que foi construída com muito suor e sangue tem de vir de dentro do Brasil, até para ampliar as pressões que podem vir de fora.  E razões para enfrentar a agenda de desmantelamento  da nossa governança ambiental do governo Bolsonaro que está sendo executada aos trancos e barrancos pelos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Tereza Cristina (Agricultura) são bem palpáveis e com resultados imediatos.

A tarefa principal que se coloca neste momento é organizar a ação de associações científicas, organizações da sociedade civil, movimentos sociais e sindicatos em prol da defesa das estruturas de proteção ambiental e, principalmente, daqueles que estão na linha de frente de combate às regressões que estão sendo impostas pelo governo Bolsonaro.  Esse será um passo inicial fundamental para que não tenhamos que lamentar a destruição não apenas de estruturas de governança, mas também de nossos rios e florestas e dos povos que nelas vivem.