A questão dos biocombustíveis no Brasil: expansão ou crise climática?

Por Monica Piccinini da Cenarium Amazon Agency

O esforço do Brasil para expandir  os biocombustíveis  é essencial para sua estratégia de “impulsionar a agenda de descarbonização” e construir uma “bioeconomia” robusta, preparando o cenário para que isso se torne um foco importante na próxima Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) no Brasil em novembro de 2025.

Durante cerimônia na Base Aérea de Brasília, em outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou:

“O Brasil liderará a revolução energética mundial”

A declaração veio ao assinar a Lei do Combustível do Futuro, um conjunto de iniciativas que visam avançar o setor de bioenergia do país.  o presidente Lula  acrescentou:

“O Brasil vai sair na frente porque vocês, empreendedores, que têm capacidade de produzir, de pesquisar. Promulgar essa lei demonstra que nenhum de nós tem o direito de continuar desacreditando que esse país pode ser uma grande economia.”

Lula  anunciou  um aumento na mistura de etanol à gasolina de 22% para 27%, com meta de 35% até 2030. A mistura de biodiesel, atualmente em 14%, aumentará em um ponto percentual ao ano, com meta de atingir 20% até março de 2030.

Os mandatos de biocombustíveis   geraram uma demanda implacável por culturas, incluindo cana-de-açúcar, milho, soja e óleo de palma.

A produção de etanol e biodiesel no Brasil atingiu quase 43 bilhões de litros em 2023, de acordo com o Anuário Estatístico Brasileiro de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis de 2024, publicado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis ( ANP ).

No Brasil,  os biocombustíveis  compõem 25% dos combustíveis de transporte – uma parcela notavelmente alta em comparação a outras nações – e essa proporção ainda está aumentando. O bioetanol lidera o setor de biocombustíveis, representando uma média de 49% em termos de energia do consumo total de gasolina e etanol.

Jorge Ernesto Rodriguez Morales , professor e pesquisador em política ambiental e governança de mudanças climáticas no Departamento de História Econômica e Relações Internacionais da Universidade de Estocolmo, mencionou:

“Historicamente, a política energética brasileira alcançou sucesso significativo, em grande parte devido ao desenvolvimento da indústria do petróleo juntamente com biocombustíveis e outras fontes de energia. Essa diversificação permitiu que o Brasil dependesse menos de importações de energia do mercado global, promovendo um grau de independência energética e segurança crítica para a estabilidade econômica.

“Ao reduzir a dependência de fontes externas de energia, a economia brasileira fica menos vulnerável a choques externos, como flutuações nos preços do petróleo e do gás. O etanol de cana-de-açúcar, em particular, tem sido essencial nesses desenvolvimentos, posicionando a bioenergia – uma forma de energia renovável derivada de materiais orgânicos recentemente vivos conhecidos como biomassa – na vanguarda das estratégias nacionais para combater as mudanças climáticas”, ele acrescentou.

Brilho verde

Embora a bioenergia tenha sido promovida como uma estratégia climática, há um debate em andamento na comunidade científica sobre a real  sustentabilidade  da produção de biocombustíveis.

Alguns cientistas argumentam que a produção de biocombustíveis é um processo negativo em energia que pode levar a várias consequências socioambientais. Isso inclui o aumento dos preços dos alimentos que ameaçam a segurança alimentar e a conversão de florestas para o cultivo de biocombustíveis. Alguns afirmam que apresentar a bioenergia como uma estratégia climática serviu como justificativa para a expansão da indústria no Brasil e no mundo.

“Apesar do seu sucesso, a indústria de biocombustíveis no Brasil se desenvolveu dentro de objetivos mais amplos de desenvolvimento e segurança territorial, muitas vezes colocando pressão significativa sobre ecossistemas e comunidades em um ambiente institucional que geralmente ignorava as preocupações socioambientais.

“Essa coevolução insustentável de caminhos de desenvolvimento e bioenergia – marcada pelo desmatamento, colonização de terras e expansão agrícola – limitou o espaço de adaptação na agricultura. Como resultado, a política climática atual é amplamente orientada para estratégias dependentes de caminho e potencialmente mal-adaptativas, como depender do etanol de cana-de-açúcar para transporte”, explicou  Morales .

Um  relatório  da Royal Society levanta preocupações sobre a expansão da produção de biocombustíveis, destacando questões como o impacto nos preços dos alimentos, o aumento potencial nas emissões de gases de efeito estufa devido a mudanças diretas e indiretas no uso da terra (LUC) associadas à produção de matéria-prima para biocombustíveis e os riscos de degradação da terra, das florestas, dos recursos hídricos e dos ecossistemas.

O relatório da Royal Society recomenda auditoria abrangente das cadeias de fornecimento de biocombustíveis como essencial, juntamente com o aumento da transparência, disponibilidade de dados e compartilhamento. Esses elementos são cruciais para garantir que a avaliação do ciclo de vida (ACV) dos biocombustíveis seja confiável e benéfica para a formulação de políticas.

O uso de matérias-primas como cana-de-açúcar, óleo de palma, milho e soja — predominantes no Brasil — gerou  controvérsia significativa,  principalmente devido à competição com a produção de alimentos e preocupações sobre a conversão de terras agrícolas em produção de combustível. A crescente demanda por produtos agrícolas representa um risco de aumento do desmatamento e do uso de terras com alto valor de biodiversidade para satisfazer essa demanda, juntamente com o consumo de água doce relacionado.

O Regulamento Livre de Desmatamento da UE (EUDR) identifica a soja como um dos principais impulsionadores do desmatamento no mundo. Os interesses comerciais parecem ser a principal barreira para remover os biocombustíveis de soja da Diretiva de Energia Renovável, já que a Europa importa quase 90% de sua soja para produção de biodiesel do Brasil, Argentina e Estados Unidos.

O Dr David Pimentel, professor de ecologia e ciências agrícolas na Universidade Cornell, afirmou que não há terra, água e energia suficientes disponíveis para a produção de biocombustíveis. Ele também destacou questões ambientais associadas à conversão de safras em biocombustíveis, como poluição da água por fertilizantes e pesticidas, poluição do ar, erosão do solo e contribuições para o aquecimento global.

Pimentel conduziu  cálculos  que contabilizaram todos os insumos necessários para produzir etanol, incluindo maquinário, sementes, mão de obra, água, eletricidade, fertilizantes, inseticidas, herbicidas, combustível, secagem e transporte. Ele descobriu que produzir um litro de etanol de grau combustível (5.130 kcal) requer um insumo energético de 6.600 kcal, indicando que a produção de biocombustível é um   processo de energia negativa .

Um relatório publicado no  periódico Biofuel  afirma que a medição de emissões de gases de efeito estufa ligadas ao combustível etanol deve contabilizar as emissões em todos os estágios, incluindo produção, processamento, distribuição e uso de veículos. Essa avaliação abrangente é conhecida como as principais emissões de LCA do poço às rodas, juntamente com quaisquer emissões adicionais resultantes de LUC.

Morales discutiu alguns dos impactos da implementação de uma política climática que depende de combustíveis de biomassa:

“A política climática atual posiciona os combustíveis baseados em biomassa como um substituto para combustíveis fósseis no setor de transporte, com o etanol de cana-de-açúcar como uma solução emblemática para a redução de gases de efeito estufa nas negociações climáticas internacionais. No entanto, aumentar a produção de bioenergia pode ter sérios impactos socioambientais.

“Assim como a produção de alimentos, o etanol requer terra, água e nutrientes, o que significa que uma expansão em larga escala pode intensificar os efeitos colaterais negativos do crescimento agrícola. Isso inclui desafios socioambientais significativos relacionados a objetivos de desenvolvimento sustentável, como desmatamento (ODS 15), emissões de CO2 por mudança no uso da terra (ODS 13), perdas de nitrogênio (ODS 13, 14, 15), retiradas insustentáveis ​​de água (ODS 14) e riscos à segurança alimentar (ODS 2), entre outros”, ele acrescentou.

Políticas de Biocombustíveis

Durante o período colonial do Brasil   (1500-1822), as plantações de cana-de-açúcar estabeleceram a base para o poder político por meio do monopólio da terra e da escravidão. Políticas foram implementadas para promover os interesses econômicos do setor do agronegócio.

Em resposta à crise energética e açucareira dos anos 70, o Brasil lançou um programa nacional de etanol chamado “Pró-Álcool” em 1975. Essa iniciativa incluía incentivos fiscais, subsídios e menores custos de financiamento para beneficiar a indústria da cana-de-açúcar, incluindo produtores, plantadores, destiladores e o setor automotivo.

A política “Pró-Álcool” levou a repercussões significativas, como a exploração de trabalhadores bóias-frias ) e a degradação ambiental, que o  governo brasileiro  negligenciou por preocupação de que as regulamentações ambientais pudessem prejudicar o crescimento e o desenvolvimento econômico.

De 1992 a 2004, enquanto as emissões totais de gases de efeito estufa do Brasil aumentaram em 80%, o governo defendeu seu apoio ao etanol por motivos ambientais, posicionando  a bioenergia  como uma “fonte de energia sustentável”. Essa abordagem enquadrou a bioenergia como parte de uma estratégia climática, levando à sua promoção em níveis internacionais para combater as mudanças climáticas.

No entanto, os impactos socioambientais da produção de bioenergia foram amplamente ignorados, incluindo o LUC direto e indireto, a perda de água e biodiversidade, o desmatamento, a poluição por fertilizantes e a erosão do solo.

Em 2017, foi lançada a iniciativa “ Renovabio ” como um novo programa governamental que visa  promover  o crescimento do setor de bioenergia, com ênfase em vários tipos de biocombustíveis, como biodiesel, biometano, bioetanol e bioquerosene.

Um  relatório  publicado no periódico Biofuels indica que o programa RenovaBio do Brasil não considera o LUC direto ou indireto em sua calculadora de emissões, o que pode levar a uma superestimação dos níveis de descarbonização e incentivar a produção de biocombustíveis com maiores impactos ambientais. Para garantir que o programa seja ambientalmente eficaz e forneça sinais apropriados aos tomadores de decisão, é crucial incorporar parâmetros de LUC na calculadora.

“A diplomacia do etanol do Brasil visa retratar a nação como consciente do clima, usando o biocombustível como alavanca nas negociações climáticas. Muitos países seguiram o exemplo ‘bem-sucedido’ do Brasil ao integrar a bioenergia em suas políticas climáticas, embora seus custos sociais e ambientais sejam amplamente reconhecidos”, mencionou Morales.

Expansão de biocombustíveis

A Raízen, formada a partir da fusão da Cosan e Shell, juntamente com BP Bunge, Atvos, São Martinho, Tereos, Lincoln Junqueira, Cofco, Coruipe, Adecoagro, Katzen, Millenium, Brasil BioFuels (BBF) e Agropalma, representam algumas das principais empresas de bioenergia in Brazil.

Em outubro, a Katzen International, uma importante empresa de bioetanol,  anunciou  a conclusão bem-sucedida e o lançamento do projeto de expansão da planta de bioetanol da INPASA Agroindustrial S/A em Sinop, Mato Grosso. Essa expansão impulsionou a capacidade de produção da planta para 2,1 bilhões de litros por ano, estabelecendo-a como a  maior  instalação de bioetanol de moinho seco à base de grãos do mundo.

A produção de etanol de milho no Brasil  deve  atingir 7,7 bilhões de litros em 2024/25, o que representa um aumento de 20% em relação aos anos anteriores.

The biofuel industry is making significant investments in the state of Pará. Governor Helder Barbalho has announced plans for a biofuel refinery to be established in the municipality of Redenção, located in the southeastern part of the state. A collaboration between the Mafra Group and Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA), which together comprise Grão Pará Bioenergia, will contribute over $350 million to this project.

“Essas são as agendas que serão desafiadoras para nós: a agenda da floresta, a agenda da produção de energia. São agendas diferentes em que cada uma delas pode apresentar suas soluções”, disse  Barbalho .

Junto com a refinaria, um serviço de engorda para gado será fornecido para fazendeiros parceiros, permitindo que eles usem as instalações da refinaria para confinar seus animais. A principal matéria-prima para confinamento de gado será o Dried Distillers Grain (DDG), um subproduto da produção de etanol de milho.

Conflitos

Um relatório da ONG  Imazon  revelou que o Pará foi responsável por 57% das áreas florestais degradadas na Amazônia. A degradação florestal saltou de 196 km² em setembro de 2023 para 11.558 km² no mesmo mês deste ano – um aumento de quase 60 vezes.

O estado do Pará, que sediará a COP30, é marcado por conflitos, incluindo aqueles relacionados à indústria do óleo de palma. As plantações de palma no Pará cobrem uma área que já foi floresta tropical, aproximadamente 226.834 hectares, quase equivalente ao tamanho de Luxemburgo.

Uma investigação da ONG  Global Witness  revelou que duas grandes   empresas  brasileiras de óleo de palma , a Agropalma  e a Brasil Biofuels (BBF), estavam envolvidas em  conflitos  com comunidades locais no estado do Pará. A BBF enfrentou alegações de crimes ambientais e esforços violentos para suprimir comunidades indígenas e tradicionais. Enquanto isso, a Agropalma foi associada a despejos comunitários e grilagem de terras.

Um  estudo  dos cientistas Lucas Ferrante e Philip Fearnside revelou que empresas de biocombustíveis, como a Millenium Bioenergia, estão estabelecendo uma cadeia de produção de biocombustíveis e produtos alimentícios derivados de monoculturas em terras indígenas da Amazônia e dentro de outras comunidades tradicionais.

A Millenium  anunciou planos de “parceria” com comunidades indígenas e tradicionais, propondo trabalho não remunerado para produzir milho, peixe, galinhas, porcos e gado confinado. Essa abordagem não só infringe os direitos humanos, mas também representa um risco de desencadear novas pandemias devido a saltos zoonóticos ligados à degradação ambiental.

O Brasil precisa expandir a produção de biocombustíveis para atender à crescente demanda, o que aumentará as pressões logísticas em todo o país. Críticos para essa expansão são os projetos de infraestrutura, como a construção de rodovias como a BR-319 da Amazônia, conectando Manaus a Porto Velho, e o projeto ferroviário Ferrogrão, ligando Sinop, no Mato Grosso, ao porto de Miritituba, situado do outro lado do Rio Tapajós, de Itaituba, no Pará. Esses desenvolvimentos provavelmente causarão degradação ambiental irreversível e afetarão adversamente inúmeras comunidades indígenas e tradicionais nessas áreas.

Morales destacou a posição e as prioridades do governo brasileiro em relação à expansão da produção de biocombustíveis:

“Na política ambiental estrangeira, o governo brasileiro tem sido historicamente relutante em priorizar a proteção ambiental em detrimento do crescimento econômico, frequentemente atribuindo grandes problemas ambientais aos países desenvolvidos. Embora várias administrações tenham feito esforços para abordar desafios ambientais como perda de biodiversidade e mudanças climáticas, essas questões continuam sendo preocupações secundárias, frequentemente vistas como obstáculos a objetivos políticos e econômicos de curto prazo.

“Posicionar a bioenergia como uma estratégia climática justificou efetivamente políticas mais amplas de apoio à indústria de biocombustíveis e contribuiu para a lavagem verde da política climática do Brasil no cenário internacional. Vários países espelharam a abordagem do Brasil, adotando a bioenergia em suas agendas climáticas em resposta”, ele acrescentou.


Fonte: Revista Cenarium

Greenwashing: Coca-Cola é acusada de abandonar sua meta de 25% de embalagens reutilizáveis

Ativistas dizem que o aparente abandono da promessa de 2030 pela empresa é uma “aula magistral de greenwashing”

coke greenwashingA Coca-Cola já foi citada por pesquisadores como uma das marcas mais poluentes do mundo quando se trata de resíduos plásticos 

Por Helena Horton, Repórter de meio ambiente para o “The Guardian”

Pesquisadores já mostraram que a empresa está entre as marcas mais poluentes do mundo quando se trata de resíduos plásticos.

Em 2022, a empresa prometeu vender 25% de suas bebidas em garrafas de vidro ou plástico recarregáveis ​​ou retornáveis, ou em recipientes recarregáveis ​​que poderiam ser enchidos em fontes ou “dispensadores de estilo livre da Coca-Cola”.

Mas pouco antes da cúpula global sobre plásticos deste ano , a empresa excluiu a página do seu site que descrevia essa promessa e não tem mais uma meta para embalagens reutilizáveis.

Em vez disso, suas metas de embalagem agora dizem que ela “visará usar de 35% a 40% de material reciclado em embalagens primárias (plástico, vidro e alumínio), incluindo o aumento do uso de plástico reciclado para 30% a 35% globalmente”. Sua meta anterior prometia “usar 50% de material reciclado em nossas embalagens até 2030”.

O compromisso atual também diz que a empresa “ajudará a garantir a coleta de 70% a 75% do número equivalente de garrafas e latas introduzidas no mercado anualmente”.

Quando a meta foi anunciada em 2022, Elaine Bowers Coventry, diretora comercial e de clientes da empresa, disse: “Acelerar o uso de embalagens reutilizáveis ​​fornece valor agregado para consumidores e clientes, ao mesmo tempo em que apoia nossa meta de um mundo sem desperdício de coletar uma garrafa ou lata para cada uma que vendemos até 2030.”

O compromisso original foi removido do site da empresa em algum momento após 20 de novembro, que foi quando as negociações do tratado global de plásticos começaram. O novo anúncio da empresa não inclui nenhuma menção ao seu compromisso reutilizável.

Esta semana, quase 200 nações não conseguiram chegar a um acordo para reduzir a produção de plásticos em uma reunião em Busan, Coreia do Sul. A semana de negociações não conseguiu resolver as profundas divisões entre países de “alta ambição” que buscam um acordo globalmente vinculativo para limitar a produção e eliminar gradualmente produtos químicos nocivos, e nações de “ideias semelhantes” que querem se concentrar em resíduos.

Os ativistas pediram que empresas como a Coca-Cola migrassem de alvos de plástico reciclado para alvos de garrafas reutilizáveis, porque os itens de uso único são o problema, e os itens de uso único reciclados ainda acabam poluindo o meio ambiente na maioria das vezes.

“O último movimento da Coca-Cola é uma aula magistral de greenwashing, abandonando metas de reutilização previamente anunciadas e escolhendo inundar o planeta com mais plástico que eles nem conseguem coletar e reciclar efetivamente. Isso só reforça a reputação da empresa como a maior poluidora de plástico do mundo”, disse Von Hernandez, coordenador global do grupo de campanha Break Free from Plastic. “Se eles nem conseguem manter seus compromissos de baixo nível, como podem alegar que estão falando sério sobre lidar com a crise global do plástico?”

A Coca-Cola Company foi contatada para comentar. Ela disse anteriormente ao The Guardian: “Nós nos importamos com o impacto de cada bebida que vendemos e estamos comprometidos em fazer nosso negócio crescer da maneira certa.”


Fonte: The Guardian

Na Feira de Oportunidades do Fidesc, Porto do Açu faz mais uma sessão gratuita de “corporate washing”

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O vice-presidente do Fidesc, Rodrigo Lira, participou da cerimônia de abertura da 7a. Feira de Oportunidades. Fonte: Ascom/UENF 

Já notei aqui neste espaço o papel que instituições públicas de ensino têm desempenhado um papel de possibilitar ao Porto do Açu espaços de limpeza de imagem, seja por via das táticas de “greenwashing” ou mesmo de “corporate washing.   Pois bem, esta semana foi a vez do IFF no âmbito da 7a. edição da chamada “Feira de Oportunidades” ser palco de uma mesa que serviu para representantes de empresas sediadas no interior do porto criado por Eike Batista fazerem um exercício de limpeza de imagem que em situações normais custaria muito dinheiro em propaganda, mas graças ao Fidesc acabou saindo de graça.

O tema da referida mesa foi “Porto do Açu e os diferentes negócios do Complexo” e teve como mote oferecer aos estudantes que lá estiveram informações sobre “os diversos setores de atuação do Porto, desde logística e energia até projetos de sustentabilidade e inovação, destacando sua importância estratégica para a economia regional e nacional.” Com isso, os estudantes poderiam entender “como o Porto do Açu conecta mercados, promove o desenvolvimento local e abre portas para novos negócios“.

O que os estudantes não puderem acessar foram informações sobre as práticas de remoção violenta de centenas de famílias de suas terras, muitas vezes com grandes contingentes da Polícia Militar, para dar espaço a um empreendimento que gera pouquíssimos empregos em nível local. Assim, além de venderem ilusões sobre oportunidades que não existem, os porta-vozes do porto têm a oportunidade de moldar mentes e ganhar corações para um empreendimento que até agora gerou mais custos sociais e ambientais do que trouxe qualquer contribuição para superar a crônica falta de empregos que persiste nos municípios de seu entorno. E, que se frise, vai continuar no que depender do Porto do Açu.

O mais lamentável é ver dirigentes de instituições públicas se prestando ao papel de  escada (usando um termo do teatro) para que o Porto do Açu possa fazer propaganda de maravilhas inexistentes, enquanto os agricultores familiares e pescadores artesanais do V Distrito de São João da Barra estão excluídos de suas terras e das áreas de pesca que sempre utilizaram para garantir a sua reprodução econômica e social.

Greenwashing foi o grande vencedor da primeira semana da COP29

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Por The Canary 

À medida que a COP29 entra em sua segunda semana – o que exatamente a primeira entregou? Bem, o veredito de alguns grupos não é muito encorajador. Na verdade, olhando para os detalhes, parece que, na verdade, a reunião das partes foi pouco mais do que um greenwashing para mercados de carbono enquanto a crise climática continua.

COP29: apenas cumprindo com o greenwashing?

Nas semanas que antecederam a COP29 em Baku, Azerbaijão, a presidência sinalizou seu forte compromisso em finalizar as negociações sobre os mercados internacionais de carbono do Artigo 6, que haviam fracassado anteriormente na COP27 em Sharm El-Sheikh, Egito, em 2022, e na COP28 em Dubai, em 2023.

Em sua reunião em outubro, o Órgão de Supervisão (SBM) determinou a criação de regras para o novo mecanismo de mercado de carbono do Artigo 6.4, finalizou seus padrões sobre  metodologias  e atividades relacionadas a  remoções  e, em um movimento sem precedentes, afirmou que os padrões entraram em vigor imediatamente.

Os rumores de que a Presidência da COP iria apressar a aprovação dessas novas regras imediatamente se mostraram verdadeiros quando, no primeiro dia da COP29, a CMA, o órgão da ONU que toma decisões sob o Acordo de Paris,  aprovou automaticamente os padrões do SBM .

Os mercados avançam enquanto outras áreas de negociação permanecem estagnadas, além de uma referência aos mercados voluntários no texto atual do NCQG (Nova Meta Quantificada Coletiva), levantam o espectro de uma COP que só cumpre com a lavagem verde.

Kelly Stone, coordenadora da rede CLARA e analista sênior de políticas da ActionAid USA, disse:

Esta foi uma abdicação sem precedentes de autoridade e responsabilidade. Permitir que o Supervisor Body mova seus padrões adiante com um truque processual é uma doação inaceitável de poder e responsabilidade para uma entidade não eleita e irresponsável.

Os governos devem reafirmar sua autoridade e proteger as comunidades da linha de frente.

As negociações dos artigos 6.2 e 6.4 do SBSTA chegaram a um impasse; foram transferidas para esta semana

Apesar do sucesso da Presidência da COP em aprovar os padrões definidos pelo Órgão de Supervisão do Artigo 6.4, as negociações sobre os Artigos 6.2 e 6.4 sob o SBSTA chegaram a um impasse na semana passada e serão retomadas na segunda semana.

6.2 

6.2 As negociações sob o SBSTA provaram estar bastante travadas na primeira semana. Enquanto o texto produzido no final da semana será a base para futuras negociações, ele foi enviado sem consenso.

Os principais pontos de discórdia são o registro (a entidade onde as negociações são registradas) e uma coleção de pontos que poderiam tornar mais rígida a estrutura de negociação extremamente flexível do 6.2.

Os EUA e alguns outros países insistem que o registro 6.2 pode refletir apenas dados em vez de manter unidades, o que significa que os países devem desenvolver seu próprio registro funcional ou usar aqueles dos mercados voluntários de carbono. Isso prejudica significativamente os países sem os meios para criar seu próprio registro.

Vários países que desejam melhorar a orientação 6.2 propuseram opções de texto para obter informações iniciais e relatórios detalhados e consequências para a não conformidade. Mas essas opções foram diluídas ou desapareceram completamente. Ainda assim, alguns países rejeitam até mesmo as solicitações mais marginais de transparência ou responsabilização.

Informações sobre as ações dos países sob 6.2 podem vir anos após terem estabelecido sua atividade. Além disso, quando essas informações são revisadas e deficiências ou omissões são encontradas, nada pode impedir um país de negociar as unidades defeituosas que ele emitiu.

6.4 

Nas negociações 6.4 sob o SBSTA, as questões a serem resolvidas sobre autorizações e transferências do registro eram principalmente técnicas e não causaram grande controvérsia. Ainda assim, não se chegou a um consenso.

Nas negociações 6.4 sob o CMA, um grupo de contato se reuniu apenas uma vez e continuará esta semana para discutir mais orientações sobre algumas das metodologias e padrões de remoção adotados pelo Supervisory Body. É essencial que as principais brechas no mecanismo 6.4 sejam fechadas, mas o primeiro rascunho desta orientação parece fraco demais para isso.

Isa Mulder, especialista em políticas do Carbon Market Watch, disse sobre 6.2 e 6.4:

A segunda semana está se preparando para ser difícil para os mercados de carbono do Artigo 6. Enquanto um grande número de países pede mais ambição, a janela de oportunidade para fazer isso está se estreitando. É essencial que o envolvimento de ministros e negociadores de alto nível não resulte em comprometimentos significativos de qualidade em prol de um acordo.

Artigo 6.8 O programa de trabalho para abordagens não mercantis passa para a segunda fase

Embora alguns padrões para mercados de carbono tenham avançado na semana passada, as Partes concordaram na sexta-feira com um conjunto de  atividades para a segunda fase do programa de trabalho do Artigo 6.8  para abordagens não mercantis para auxiliar os países na implementação de suas contribuições nacionais determinadas (NDCs).

O Artigo 6.8 pode apoiar um amplo escopo de iniciativas para financiamento climático, mitigação, ambição e integridade ecológica, nenhuma das quais envolverá a transferência de resultados de mitigação por meio de compensação e geração de créditos de carbono para comercialização.

Embora o financiamento para apoiar as abordagens não mercantis do Artigo 6.8 ainda não tenha sido encontrado, uma proposta dos Países em Desenvolvimento com Ideias Semelhantes e da Bolívia seguirá adiante, que “reconhece a importância de abordagens não mercantis integradas, holísticas e equilibradas… incluindo ‘Ações Centradas na Mãe Terra’”, como:

  • Garantir a integridade de todos os ecossistemas e a conservação da biodiversidade ao abordar as mudanças climáticas.
  • Melhorar diferentes sistemas de valores, incluindo viver em equilíbrio e harmonia com a Mãe Terra, conforme reconhecido por algumas culturas, no contexto do enfrentamento das mudanças climáticas.

Souparna Lahiri, consultora sênior de políticas climáticas e de biodiversidade da Global Forest Coalition, disse:

O texto decidido confirma o que a CLARA vem defendendo há anos: há barreiras genuínas para a rápida implementação de abordagens não mercantis, mas desbloquear todo o potencial do Artigo 6.8 ajudará as Partes a aumentar a ambição em suas NDCs, o que os mercados de carbono não podem. O verdadeiro potencial do Artigo 6.8 não pode ser alcançado sem que os países do sul global se unam contra a cabala de países ricos que bloqueiam o progresso.

Uma avaliação abrangente dos riscos nos mercados de carbono é necessária agora que as regras estão em vigor

Membros da Climate Land Ambition and Rights Alliance (CLARA) estão preocupados que regras estejam sendo criadas sem levar em consideração os riscos e impactos dos mercados de carbono e outras atividades do Artigo 6.

De acordo com uma pesquisa publicada na semana passada na revista Nature , que analisou um quinto do volume de créditos de carbono emitidos até o momento (quase um bilhão de toneladas de CO 2 e), menos de 16% dos créditos de carbono emitidos para os projetos investigados constituem reduções reais de emissões. 

O objetivo das atividades do Artigo 6 é melhorar a cooperação internacional para aprimorar os esforços globais de mitigação, mas, até o momento, nenhuma avaliação holística e científica de risco e impacto foi feita nas atividades planejadas do Artigo 6 sob as regras que foram construídas. Os membros da CLARA estão insistindo fortemente para que os governos realizem avaliações de risco e impacto social, ambiental e legal em todos os portfólios onde essas regras estão em vigor.

COP29: o tempo das compensações para os mercados de carbono acabou

Jannes Stoppel, Conselheiro Político para Biodiversidade e Política Climática do Greenpeace, disse sobre o furor dos mercados de carbono:

Expandir o potencial para compensar as emissões destruidoras do clima aqui na COP29 é um tapa na cara daqueles que sobreviveram a eventos climáticos extremos ao redor do mundo. Os líderes não podem compensar a si mesmos para sair da crise climática.

É responsabilidade deles reduzir as emissões agora, em todos os setores, para mitigar o colapso dos pontos de inflexão climática. Ninguém sabe o que as regras fracas que estão sendo desenvolvidas aqui, sob a influência de milhares de lobistas de combustíveis fósseis e tecnologia de redução, significarão.

Negociar orçamentos de carbono em vez de reduzir emissões é uma aposta perigosa contra o tempo que não temos. Sério, o tempo para compensações acabou.

Imagem em destaque via Canary


Fonte: The Canary

O nosso Greenwashing de cada dia: o Porto do Açu e sua sustentabilidade ambiental para inglês ver

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A mídia corporativa campista noticiou na semana passada o fato do Porto do Açu ter conquistado o obscuro “Prêmio Mundial de Sustentabilidade” da igualmente obscura “Associação Internacional de Portos” (IAPH) no que poderia ser configurado como um prêmio entre parceiros.

Mas, afinal, qual tem sido a grande contribuição do Porto do Açu para a “sustentabilidade” que presumo ser ambiental? Se olharmos para o passivo sociambiental do empreedimento encontraremos de tudo um pouco, incluindo erosão costeira, salinização de águas continentais, áreas de exclusão para a pesca artesanal e expulsão da agricultura familiar de territórios onde esteve fincada por quase 200 anos.

Porém, uma área que é pouco tocada quando se fala da tal sustentabilidade ambiental do Porto do Açu que se refere ao consumo de água doce. Não sei quantos ainda lembram, mas o projeto original do Porto do Açu incluía a realização de um processo de transposição de águas do Rio Paraíba do Sul (ver imagens abaixo).

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Pois bem, em 30 de julho de 2018, postei neste mesmo blog, um texto em que abordava exatamente as consequências do fracasso do projeto de transposição para o abastecimento de água potável no Porto do Açu. Tempo vem, tempo vai, a coisa mais recente que ouvi falar sobre o abastecimento de água no Porto do Açu foi via o canal do Portal Viu na rede social Youtube, em outubro de 2023, onde o vice-presidente do comitê de bacia do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana, José Armando Falcão, sobre o uso do aquífero Emburê para abastecer todas as empresas localizadas no empreendimento (ver vídeo abaixo).

O interessante é que pouco depois dessa entrevista, em novembro de 2023, eu republiquei um texto da Agência Públcia que colocaba o Porto do Açu estava entre os maiores consumidores hídricos do Brasil, com um volume outorgado anual de 142,4 bilhões de litros de água. No entanto, não consegui localizar maiores informações sobre não só sobre o que foi informado naquela reunião pelos gestores do porto, nem sobre as medidas que já foram adotados para cobrar pelo uso de água retirada do aquifero Emburê.

Mas afora a questão econômica, fica a questão ambiental, visto que, como foi alertado pelo José Armando Falcão na conversa com o jornalista Roberto Barbosa, um dos riscos envolvidos no uso excessivo de água do Emburê poderia resultar na penetração de água salina, o que poderia piorar ainda mais o problema que já foi causado pela penetração de água salgada vinda dos aterros que foram construídos no período de implantação do Porto do Açu.

Por essas e outras, que eu olho com muito ceticismo para a propalada sustentabilidade do Porto do Açu que está mais para inglês ver e dar prêmio para parceiros.  E com toda justiça que só servem para fortalecer a impressão de que esses prêmios não passam de troféus de greenwashing corporativo. Acredita neles quem quer.

Estudo na UENF conclui que projetos de governança sócio-corporativa do Porto do Açu são formas de “green/social washing”

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Ação de voluntários do Abraçu, um dos projetos e programas de governança sócio-corporativa do Porto do Açu

Aprovada por uma banca examinadora no dia 27 de junho de 2024 no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), a dissertação de Mestrado da minha orientanda Jesa Mariano foi depositada ontem em sua versão final.  O título do trabalho é “Sob a égide das corporações: uma análise dos projetos de governança sócio-corporativa desenvolvidos no entorno do Porto do Açu” e traz os resultados de uma pesquisa cujo objetivo era examinar a abrangência e resultados efetivos de uma série de programas executados em São João da Barra para supostamente compensar os danos socioambientais e econômicos da implantação e funcionamento do Porto do Açu.

As análises realizadas em evidencias documentais e informações obtidas em trabalho de campo mostram que as estratégias de governança sócio-corporativa adotadas pelas empresas do Porto do Açu falharam em proporcionar uma reparação concreta dos danos e perdas causados às comunidades atingidas, sendo meras formas de greenwashing e socialwashing. A principal razão pela incongruência das ações executadas é que as mesmas foram pontuais e que, consequentemente, não conseguiram mitigar os impactos socioambientais causados pela implantação e funcionamento do Porto do Açu.

Esses resultados indicam que as tentativas de  estabelecer mecanismos de reparação a partir da lógica empresarial, visando basicamente manter uma imagem corporativa positiva, não tem a capacidade de resolver os problemas socioambientais gerados pela implantação e funcionamento de grandes empreendimentos portuários. Assim, os projetos/programas publicizados pelas empresas têm mais o sentido de diminuir o risco social das suas atividades, onde o discurso ético e socialmente responsável é basicamente utilizado para manter uma imagem positiva junto aos acionistas existentes ou potenciais, sem oferecer soluções efetivas para os problemas gerados pelo empreendimento. A falta de registros
confiáveis acerca da execução e alcance das ações de responsabilidade sócio-corporativa também aparece como um elemento de descrédito das mesmas.

Finalmente, a pesquisa revelou que os programas de governança sócio-corporativa por não oferecem reparação dos danos e perdas causados aos atingidos pela implantação do Porto do Açu acabam na perpetuação do descontentamento dos atingidos em relação ao empreendimento.

Quem desejar baixar o arquivo desta dissertação, basta clicar [Aqui!].

Jogos Olímpicos do Greenwash? Público aponta o dedo para a Coca-Cola sobre resíduos plásticos nas Olimpíadas

Gigante das bebidas sob fogo por uso excessivo de garrafas e copos, apesar da promessa dos organizadores de Jogos mais verdes de todos os tempos

coke parisBizarro’: Coca-Cola sendo despejada de uma garrafa de plástico em um copo de plástico em um dos muitos estandes da Coca-Cola em Paris 2024. Fotografia: Ed Alcock/The Guardian 

Por Angelique Chrisafis, em Paris, para o “The Guardian”

As Olimpíadas de Paris prometiam ser os Jogos mais ecológicos da história, reduzindo pela metade a quantidade de plástico de uso único em comparação com Londres 2012.

Grupos ambientais franceses, no entanto, criticaram o que chamaram de uma visão “bizarra” e “surreal” em barracas de bebidas de certos locais administradas pelo patrocinador principal, a Coca-Cola. Os garçons podem ser vistos enchendo copos plásticos reutilizáveis, os chamados “eco-copos”, de garrafas plásticas de 50cl, acumulando sacos de garrafas vazias para reciclagem.

Os ativistas ambientais disseram que milhões de garrafas plásticas de bebidas sendo despejadas desnecessariamente em milhões de copos plásticos eram um uso duplo de plástico e equivaliam a “greenwashing”.

Reciclar e reutilizar… a piscina Georges Vallerey, que será usada para treinamento de natação, foi equipada com um novo teto retrátil de madeira.
Assentos de garrafas plásticas e piscinas de madeira: Paris pode proporcionar as Olimpíadas mais enxutas e verdes até agora?

A Coca-Cola, gigante americana de bebidas que é uma das maiores produtoras de plástico do mundo, é uma das principais patrocinadoras olímpicas e a única empresa que fornece 18 milhões de bebidas nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris , incluindo Coca-Cola, Fanta e Sprite, que são vendidas aos espectadores pagantes e fornecidas aos atletas na beira do campo.

A empresa disse em uma declaração que “apoia as ambições dos Jogos de reduzir o plástico de uso único” e estava comprometida em reduzir o desperdício. Ela disse que mais da metade de suas bebidas nas Olimpíadas – 9,6 milhões – eram “sem plástico de uso único” depois que instalou 700 fontes de refrigerante e trouxe garrafas de vidro.

No entanto, a empresa disse que, onde as fontes de refrigerante não pudessem ser instaladas, cerca de 6,2 milhões de bebidas seriam servidas ao público a partir de garrafas plásticas recicladas, que seriam despejadas em copos reutilizáveis. A Coca-Cola ficaria com as garrafas plásticas vazias para garantir que todas fossem recicladas. A empresa disse que não poderia instalar fontes de refrigerante em todos os locais dos Jogos para atender às “melhores condições de segurança e qualidade dos alimentos”, devido a restrições técnicas e logísticas.

Em locais de jogos que vão do polo aquático no Centro Aquático ao tênis em Roland Garros, ou atletismo no Stade de France, quando os espectadores receberam um copo de plástico que poderia ser devolvido para resgatar um depósito de € 2, muitos ficaram surpresos ao vê-lo cheio de uma pequena garrafa de plástico.

Uma lixeira enche em um dos locais de alimentação olímpicos
Uma lixeira cheia de garrafas plásticas. Fotografia: Ed Alcock/The Guardian

Ingrid Vanhée, da associação de biodiversidade Noé, postou fotos de copos e garrafas de plástico no Stade de France dizendo que sentia que os espectadores estavam sendo “tomados por idiotas” e que a empresa estava tentando “ganhar a medalha de ouro por greenwashing”. O deputado centrista Philippe Bolo postou de um evento de handebol perguntando por que, se copos reutilizáveis ​​estavam sendo usados, eles não estavam sendo enchidos em fontes.

“Esta não é uma boa vitrine para a França ou para a Coca-Cola”, disse a conselheira regional e porta-voz do Partido Verde Francês, Sophie Bussière, sobre as garrafas plásticas sendo despejadas em copos plásticos.

“Nós realmente não podemos continuar a estragar momentos magníficos de celebração coletiva como as Olimpíadas com esse tipo de comportamento de delinquentes ambientais.”

Marine Bonavita, líder do projeto na ONG Zero Waste France, disse: “Pegar uma garrafa de plástico e despejá-la em um copo plástico reutilizável não é nossa visão de plástico zero não é chocante apenas para as ONGs, mas para os cidadãos, e é por isso que as pessoas estão postando sobre isso nas redes sociais.”

Antes dos Jogos, a Zero Waste France, a France Nature Environnement e outras ONGs alertaram sobre o “greenwashing” em torno das bebidas nos Jogos. Os refrescos para muitos atletas serão servidos em garrafas plásticas recicladas, descartáveis ​​e lacradas para proteção contra potencial “doping de sabotagem” – para evitar que as bebidas sejam adulteradas. Isso exigiu uma isenção por motivos de saúde pública da lei antidesperdício da França , que proíbe a distribuição de garrafas plásticas descartáveis ​​em locais abertos ao público. As ONGs escreveram às autoridades do governo francês para questionar essa isenção e pedir detalhes completos, mas disseram que não tiveram uma resposta adequada.

Também estão sendo feitas perguntas sobre os 13 milhões de copos plásticos reutilizáveis ​​disponíveis para os espectadores nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos – que podem ser devolvidos mediante um depósito de € 2.

Dois espectadores em um dos muitos estandes da Coca-Cola que podem ser encontrados em instalações olímpicas ao redor da cidade de Paris
A Coca-Cola é a única fornecedora de bebidas nos Jogos. Fotografia: Ed Alcock/The Guardian

Muriel Papin, da associação No Plastic in My Sea, disse que era “surreal” ver bebidas de garrafas plásticas despejadas em copos plásticos, descrevendo isso como “heresia, perda de tempo e dois plásticos em vez de um”. Ela disse que, como os copos reutilizáveis ​​são vistos com a marca das cores da Coca-Cola específicas para os Jogos de Paris, alguns espectadores podem vê-los como itens de colecionador e não devolvê-los.

“Se as pessoas não devolverem os copos reutilizáveis, se os levarem para casa e os colocarem num armário ou os jogarem num caixote do lixo na rua, é desperdício”, disse ela.

No Stade de France, várias pessoas bebendo dos copos plásticos reutilizáveis ​​que receberam em uma barraca de bebidas da Coca-Cola disseram que não sabiam que poderiam devolvê-los. Outros disseram que os guardariam como lembranças. Rikke, um gerente de marketing da Dinamarca, assistindo ao atletismo, disse: “Gostei do design do copo, tenho copos Hard Rock em casa e vou adicionar isso a eles.”

Nathalie Gontard, diretora de pesquisa do Instituto Nacional Francês de Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente e autora do livro sobre resíduos plásticos, Plastique, Le Grand Emballement , disse que despejar plástico de garrafas plásticas em copos plásticos era “uma maneira um tanto bizarra de lidar com a questão da poluição plástica”.

“O público não é estúpido e todos se sentem decepcionados”, disse Gontard, acrescentando que deveria haver bebedouros em todos os locais e copos lavados e reutilizados no local. Ela disse que a reciclagem de plástico – que consome muita energia e é limitada em quantas vezes pode ser feita – “deveria ser uma solução apenas para plásticos absolutamente essenciais, o que estes não são”.


Fonte: The Guardian

Indústria da carne age para distrair, atrasar e inviabilizar ação climática, diz relatório

Trabalho de organização europeia analisou 22 das maiores empresas de carne e laticínios em quatro continentes

meat industry“Os novos comerciantes da dúvida” foi lançado esta semana. Imagem: Divulgação/Changing MArkets Foundation

Por Cristiane Prizibiscki para o “Eco”

Relatório divulgado esta semana pela organização holandesa Changing Markets Foundation revela o que seriam as principais práticas empregadas sistematicamente pelos gigantes mundiais da carne e dos laticínios que resultam em distração, atraso e inviabilização do enfrentamento da crise climática. Intitulado “Os novos comerciantes da dúvida”, o trabalho analisou as ações de 22 das maiores empresas de carne e laticínios do mundo – incluindo a brasileira JBS – em quatro continentes.

Segundo o relatório, o setor tem inviabilizado ações climáticas significativas a nível global por meio de lobby junto a políticos, investimentos maciços em publicidade para públicos mais jovens e uso de ciência enganosa para minimizar o impacto que suas atividades têm nas emissões de metano e disseminar falsas alegações climáticas. 

Documentos obtidos via leis de acesso à informação revelam, por exemplo, o extraordinário acesso que o setor tem a políticos. Somente na última década, representantes da indústria da carne e laticínios tiveram mais de 600 reuniões de alto nível com a Comissão Europeia.

“Memorandos internos revelam como o principal grupo europeu da indústria láctea celebrou a manutenção do metano fora da legislação sobre qualidade do ar e está a preparar-se para mantê-lo assim nas próximas revisões da lei previstas para 2025”, diz trecho do relatório.

Fazendo uma comparação às táticas usadas pelas indústrias do tabaco e dos combustíveis fósseis, o relatório também revela que as grandes empresas do setor empregam táticas como a intimidação e o medo sobre consumidores e pequenos agricultores, ao alegarem que leis mais restritivas, por exemplo, implicariam em prejuízos para tais públicos.

A pesquisa envolveu mais de 15 investigadores especializados e jornalistas de investigação e decorreu entre fevereiro de 2023 e junho de 2024. 

A investigação mostra que as grandes indústrias do setor estão especialmente preocupadas com as gerações mais jovens, que consomem menos carne e laticínios do que as gerações anteriores. Elas visam, diz o documento, a “Geração Z” (nascidos entre 1995 e 2010) com campanhas publicitárias enganosas no TikTok e no Instagram, promovendo falsamente a carne e os laticínios como escolhas sustentáveis ​​e mais saudáveis ​​em países de alto consumo como os EUA e o Reino Unido, contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os sistemas alimentares contribuem para aproximadamente um terço das emissões globais, sendo 60% provenientes da pecuária – a maior fonte de metano produzido pelo homem. No entanto, apenas 15 das 22 grandes empresas de carne e laticínios têm uma meta de emissões líquidas zero e nenhuma cumpre as normas da ONU. A Danone é a única empresa com uma meta específica de metano. 

“Tivemos as Grandes Indústrias do Tabaco, tivemos as Grandes Petrolíferas, agora temos as Grandes Carnes e Laticínios. ‘Os novos comerciantes da dúvida’ é uma exposição impressionante das táticas das grandes empresas de carne e laticínios. O relatório descreve exemplos específicos e flagrantes de campanhas de desinformação, greenwashing e interferência política. Esclarece como a indústria manipula o preço e os tipos de alimentos que comemos”, diz o pesquisador Paul Behrens, Professor Associado de Mudanças Ambientais na Universidade de Leiden, na Holanda.


Fonte: O (Eco)

Preparando o desastre: Como o Brasil se tornou um laboratório de agroinvestimentos financeiros

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Por Grain

“Agro é pop, agro é tech, agro é tudo” é um popular slogan transmitido desde 2016 em anúncios veiculados pela maior emissora de TV no Brasil. Financiadas pelo agronegócio, as peças mostram, de um lado, imagens de trabalhadores rurais felizes em plantações de soja, milho, algodão e cana-de-açúcar, e, de outro, famílias satisfeitas nas cidades por poderem comer, vestir-se e abastecer seus carros graças à agroindústria, sugerindo uma espécie de ciclo virtuoso.

Como parte do marketing, a grande mídia repete como mantra que o setor responderia por cerca de 25% do PIB brasileiro e, portanto, seria a grande fonte da riqueza nacional.

Essa imagem triunfalista do agronegócio combina perfeitamente com a estratégia dos relativamente novos Fundos de Investimentos nas Cadeias do Agronegócio, os Fiagros, que prometem que qualquer um poderia ficar com parte da riqueza do setor, tornando-se “sócio” do agronegócio. Criados em 2021, os Fiagros oferecem cotas de participação a partir de apenas R$ 10 (US$ 2), dando ao investidor uma rentabilidade, no geral, acima dos juros exercidos no país (em média 12% ao ano) e isenta de impostos[1].

O fenômeno não se restringe ao Brasil. No México, as Agritechs, que prestam assessoria de investimentos agrícolas, principalmente na produção de frutas vermelhas, agave e abacate para exportação, multiplicaram-se nos últimos anos. Através de aplicativos de celular, muitos jovens investidores nas cidades entram em pools de semeadura para se converterem “em donos de seu próprio lote de ouro verde” ou em “coproprietários de ativos, beneficiando-se dos rendimentos gerados”, mas se mantendo bem distantes das consequências desse lucro fácil, como a captura ilegal de terras, água e exploração de mão de obra análoga à escravidão[2] [3].

Embora ainda sem o atual esforço pela popularização dos investimentos financeiros, nos anos 2000 a Argentina introduziu milhares de hectares para produção, principalmente, de soja transgênica, cotada em dólar nos mercados de capitais, para garantir a rentabilidade dos investidores dos pools de siembra, que chegava 38% ao ano em 2008[4].

Com o sistema, uma nova figura, a de “gestor agrícola”, passa a organizar a produção argentina desde escritórios em qualquer parte do mundo, a partir de recursos levantados por meio de fundos comuns de investidores. Esses tipos de fundos aumentaram em 270% entre 2004 e 2008, contribuindo para colocar um quarto da superfície agricultável do país nas mãos de sociedades anônimas[5] [6]. A partir de 2008, a grave crise Argentina afugentou os rentistas, reduzindo significativamente a atuação dos pools de siembra. E, embora as atuais políticas ultraliberais do recém-eleito presidente Javier Milei prometam “Todo poder a los pools”, e ao capital financeiro, o país assiste a manifestações contundentes de amplos setores da população – de setores do agronegócio nacional a camponeses, de indígenas a parte das forças armadas-, contra a venda das riquezas nacionais e a estrangeirização das terras[7].

Nos Estados Unidos, uma estrutura muito parecida aos atuais Fiagros no Brasil foi proposta em fins dos 1970, o AG-Land Trust. Um fundo especializado na compra de terras com objetivo de inflacionar seu valor para vendê-las com lucro, para distribuição de ganhos de capital isentos de impostos aos cotistas – nesse caso, apenas investidores institucionais. A iniciativa encontrou forte oposição dos agricultores e logo foi bloqueada no Congresso americano – e posteriormente por várias leis agrícolas estaduais anticorporativas -, já que foi vista como uma estratégia de Wall Street para gerar bolhas financeiras sobre o preço das terras, e resultar em uma maioria de agricultores expropriados, submetidos a pagar altos arrendamentos para uma pequena elite financeira rentista[8].

Mas, a partir dos anos 1980, vários instrumentos passaram a facilitar a aquisição de terras por investidores institucionais nos EUA, como os fundos de investimentos em terras florestais e agrícolas, os chamados REITs (Real Estate Investments Trust). Até março de 2023, o valor das terras agrícolas controladas ou de propriedade de investidores institucionais no país era de mais de US$ 15 bilhões, um aumento em 66% em relação a 2008, quando estas terras passam a funcionar mais como um ativo financeiro destinado à rentabilidade dos investidores, rendendo, em 2022, 9,64%[9]. Já o valor total de mercado das propriedades de terras florestais até março de 2023 foi de mais US$ 24 bilhões, com rentabilidade de 12,9%[10]. Enquanto isso, o número de fazendas familiares em 2023 nos EUA é quase quatro vezes menor que em 1935, de 6,8 milhões de fazendas para 1,8 milhões[11].

O Brasil pode estar seguindo o mesmo caminho. Três anos depois de lançados os primeiros Fiagros no país, especialistas apontam que o resultado dessa operação pode ser catastrófico[12]. E que, sob o slogan do “agro é pop, agro é tech, agro é tudo”, agentes financeiros e do agronegócio tentam vender gato por lebre para encobrir o estado de falência econômica, ecológica e social do setor, além do alto risco desses investimentos.

Ao lançar um mecanismo de empréstimo privado para atrair amplos setores da população, o tal pujante setor, em realidade, mostra que só se sustenta através da emissão de dívida sobre dívida, de subsídios estatais e do constante achatamento dos custos de produção, o que significa exploração de trabalho, expropriação de terras, água e outros recursos naturais[13].

Com a ideia de que todos podem ser “sócios do Agro”, esses fundos tentam abocanhar a poupança popular para socializar os riscos e as dívidas do setor e financiar a expansão da agroindústria e tudo que a acompanha historicamente. Capturar as economias da população para financiar mais cercamentos de terras, exploração do trabalho e expropriação de recursos naturais, pode ser uma das mais perversas consequências desta nova estratégia financeira do agronegócio.

Sócios de dívidas

Atualmente, o Brasil possui três tipos de Fiagros: 1) o Fiagro Participação (Fiagro-FIP), que investe principalmente em ações de empresas do agronegócio; 2) o Fiagro-FIDC, constituído por direitos creditórios, ou seja, pelos instrumentos de dívidas do setor (“títulos do agronegócio”);e 3) o Fiagro Imobiliário (Fiagro-FII), que investe em imóveis rurais, direitos de crédito imobiliários até os direitos creditórios do agronegócio.

Enquanto o Fiagro de partipações e o Fiagro de terras são fechados à investidores milionários, o Fiagro de dívidas é aberto a todos. O Fiagro Imobiliário, por ter um leque maior de tipos de ativos, são os mais procurados, contando com 60 fundos, 69 mil contas, e representando quase metade do total do patrimônio dos Fiagros (R$ 17,1 bilhões). Até setembro de 2023, 66% dos seus investimentos eram em títulos de dívida e 20% em bens imóveis, segundo Boletim CVM agronegócio de setembro de 2023.

Desde a alteração da lei dos títulos do agronegócio em 2020 e a criação dos Fiagros em 2021, o volume do mercado de dívida e instrumentos de captação do agronegócio no mercado financeiro mais que duplicou, segundo Boletim de Finanças Privadas do Agronegócio do Ministério da Agricultura.

Os títulos de dívida do agronegócio dominam as carteiras dos Fiagros. O principal deles, o Certificado de Recebível do Agronegócio (CRA), emitido apenas por securitizadoras, representa 55% do total do patrimônio dos Fundos, segundo a CVM. Com rentabilidade atrelada aos altos juros exercidos no país, resgate do valor investido em curto prazo e pagamentos de dividendo mensais sem impostos, vem sendo a opção mais procurada. Mas também a que envolve maior risco, já que depende dos pagamentos dos produtores que, com os preços da soja e milho em baixa e os custos dos insumos em alta, começam a atrasar pagamentos e anunciar calotes contra os Fundos, ou melhor, contra os novos ‘sócios” (de dívidas) do Agro.[14]

Em maio de 2023, por exemplo, uma das Usinas de açúcar emissoras de CRA que compõe parte do portfólio dos Fiagros XPAG1 e XPCA11 administrados pela XP investimentos, a Usina Ester S.A, requereu recuperação judicial por um endividamento de mais R$ 650 milhões (US$ 130 milhões), comprometendo o pagamento mensal dos CRAs, que compõem os patrimônios dos fundos[15]. Mesmo os Fundos ajuizando pedido de apreensão de parte da produção armazenada pela Usina e com acordo judicial para o pagamento, a rentabilidade das cotas foi afetada. O XPCA11, com mais de 100 mil investidores, que pagava rentabilidade 176% do índice vinculado aos juros em fevereiro de 2023, em junho de 2023 entregou 127%[16].

Democratização das finanças ou captura das poupanças populares?

Até março de 2024, 98 Fiagros estavam registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) do Brasil, acumulando um patrimônio líquido de R$ 34 bilhões (US$ 6,8 bilhões), distribuídos por 690 mil contas, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima)[17]. Desse total, apenas 43 fundos, que somam um patrimônio de R$ 20,5 bilhões (US$ 4,1 bilhões), estão listados na Bolsa de Valores B3, reunindo 490 mil investidores. Desses investidores na bolsa, 94% são pessoas físicas, participando com 83% do volume dos investimentos[18].

Isto significa que mais da metade destes Fundos, com 60% de seu patrimônio total, não estão listados em bolsa, e estão concentrados nas mãos de apenas 29% de investidores, sobre os quais nada se sabe, já que não têm obrigação de divulgar relatórios mensais. O único tipo de Fiagro que não está listado em Bolsa é o que investe na compra de ações para participação em empresas do agronegócio (Fiagro-FIP), que, embora representem quase 40% do patrimônio total dos Fiagros (R$ 13,5 bilhões, ou US$ 2,7 bilhões) contam com apenas 73 investidores. Como esse tipo de Fundo pode investir até 20% de seu capital em ativos no exterior, este Fiagro, longe dos holofotes, pode constituir um relevante mecanismo de remessa dos lucros e dividendos, sem pagamento de impostos, para fora do país.

Se de um lado esses Fundos fechados beneficiam especialmente famílias super ricas, que podem formar um fundo apenas para escapar do pagamento de impostos, por outro, a oferta pública de cotas com alta rentabilidade a todos os tipos de investidores, livre de impostos, também torna os Fiagros uma opção de investimento atrativa e acessível à população[19].

Mas a elevada rentabilidade está sempre associada a um alto risco. Os Fiagros são considerados um investimento arriscado, já que têm seu patrimônio lastreado em ativos suscetíveis a fatores externos, como o clima, pragas, quebras de safra, crédito e seguro, direitos de propriedade das terras, problemas com infraestrutura logística e de transportes. Por isso, a “democratização” dos investimentos visa atrair as economias de pessoas físicas de todas as classes para fazer os Fundos ganharem musculatura e criarem um patrimônio suficiente para dissipar desconfianças de investidores mais graúdos, como fundos de pensão e de investimentos.

Os Fiagros vêm pagando dividendos expressivos, uma média de 1,13% ao mês, segundo relatório de novembro de 2023 [20][21]. Tal rentabilidade se deve porque a maior parte do patrimônio desses fundos é composta por títulos de dívida que remuneram segundo os juros exercidos no país, hoje em 11,25% anuais[22]. Até agora, portanto, os Fiagros surfaram na onda dos maiores juros reais do mundo, enquanto produtores rurais rolam suas dívidas a um custo estratosférico, ampliando o ciclo vicioso de endividamento do setor.

Embora o mercado de capitais e os investimentos financeiros sejam concentrados pela fatia mais rica da população, o número de investidores no Brasil vem aumentando. Seriam hoje 60 milhões de pessoas, com aumento de investidores em todas as classes sociais, com destaque para a classe C – domicílios que ganham entre R$ 2,9 mil e R$ 7,1 mil – (aumento de 29% para 36%)[23]. A chamada financeirização da economia aposta nesta transferência gradual das economias populares da caderneta de poupança (que lidera as aplicações hoje no país) e da previdência pública (fonte de renda de 90% da população aposentada) para mecanismos financeiros como os fundos de investimentos.

O marketing pesado do “Agro é tudo” vem funcionando como um dos principais mecanismos de popularização do mercado de capitais, e que conta com influencers nas redes sociais e YouTube que ensinam a identificar o tipo de aplicação e investir de forma simples e rápida através de poucos cliques em aplicativos de celular[24]. Entre aplicar suas economias na previdência pública, na poupança ou mesmo em negócios próprios, muitos trabalhadores vêm caindo na tentação de buscar retornos rápidos através destes mecanismos financeiros.

O maior aumento do número de investidores ocorreu entre a população que vive no Cerrado brasileiro, de 33% para 43% do total da população, justamente onde estão situadas as principais “cidades do agronegócio”[25]. Os que hoje podem estar aplicando suas economias em títulos de dívida do agronegócio e em cotas dos Fiagros, podem ser filhos e netos dos 30% da população rural que, entre 1980 e 2010, tiveram de migrar para as cidades ou outras áreas, em grande medida devido aos deslocamentos forçados gerados pela massiva tomada de terras da região para expansão dos monocultivos de soja[26].

“Fiagros de terras”: financeirizar para concentrar

Embora os imóveis rurais representem apenas 17% dos ativos investidos pelos Fiagros, o volume de investimentos em terras quase dobrou de junho para setembro de 2023, passando de R$ 1,8 bilhões para R$ 3 bilhões[27]. Os chamados “Fiagros de terras” que têm 100% dos investimentos em terras agrícolas são, no geral, fechados a investidores profissionais (com investimentos acima de R$ 10 milhões/US$2 milhões) e qualificados (acima de e R$ 1 milhão/US$ 200 mil), com o objetivo de valorização da terra a médio e longo prazo – de 8 a 10 anos-, e pagamento de dividendos anuais.

Além da isenção fiscal sobre os rendimentos, a lei também prevê o não pagamento de impostos no momento da venda de um imóvel rural para esses fundos. O pagamento se dá apenas sobre o lucro com a revenda de cada cota no mercado de capitais, e não sobre toda a propriedade no ato da venda. Grandes proprietários podem constituir esses Fundos como estratégia de transferência de herança sem pagar os impostos ou mesmo para simular negócios com as terras para fraudar dívidas.

Mas mais grave: essa renúncia fiscal na negociação de terras através dos Fiagros tem o potencial de concentrar a propriedade nas mãos desses fundos, alterando a própria lógica de composição do preço da terra. Além da avaliação sobre fatores concretos como a qualidade do solo, o relevo, a presença de água e de infraestrutura, o preço também passa a ser influenciado pelos interesses desta nova classe de rentistas da terra e a dinâmica de compra e venda das cotas.

Para perseguir maior rentabilidade, os fundos passam a arrendar as terras a produtores e empresas especializadas em perseguir uma produção com maior valor de mercado e retornos rápidos, geralmente commodities negociadas em dólar em mercados futuros (e não comida), e agora não só agropecuárias, mas também “agroambientais”. Os arrendamentos visam a valorização das terras até o momento da venda, com direitos de preferência de compra para o arrendatário, e a distribuição dos lucros aos investidores. Os Fiagros, portanto, podem ser usados como mecanismos para se criar bolhas especulativas sobre os preços, como através da compra e venda de terras entre si. (Ver Box 2 Fiagro Verde: especialização financeira na inflação das terras).

Fiagro Verde lucra com recuperação questionável de pastagens

Em 2023, foi criado o primeiro Fiagro Verde, o fundo AGBI III Carbon Fiagro FIP, administrado pela gestora AGBI real assets, com status de “fundo verde” ou “fundo art.9” do Acordo de Paris (certificação acima de fundos ESG), seguindo os critérios da Climate Bonds Iniciative (CBI) e da Sustainable Finance Disclosure Regulation (SFDR), utilizados como padrão na União Europeia[28].

O objetivo do fundo é a recuperação de pastagens, com aplicação de questionáveis técnicas e tecnologias para fixação de carbono no solo (carbon farming), a fim de gerar a emissão e comercialização de créditos de carbono, certificados pela Verra – uma das mais conhecidas no mundo, mas também por seu envolvimento com projetos de carbono altamente controversos[29] [30].

A estratégia de regeneração do solo de áreas de pastos degradados parte de uma conta muito mais econômica que ambiental, já que acaba por intensificar a degradação dos solos e o desmatamento, enquanto inflaciona o preço das terras. Por um lado, a expansão dos monocultivos agrícolas ou de árvores plantadas sobre áreas de pastos já “limpas” é bem mais econômica do que desmatar e destocar florestas[31]. Por outro, pressiona a pecuária para que avance sobre as florestas e vegetação nativa. Além de quadruplicar o valor das terras ao converter pastos de baixo rendimento em terras agrícolas (ver gráfico preços das terras aumentam no Brasil), essa especialização na “modernização verde” das terras agrícolas feita pelos Fundos pretende inflacionar ainda mais o preço das terras com seu histórico de “descarbonização”.

Outros dois Fundos da gestora que realizaram recuperação de pastagens venderam duas fazendas com valorização de 451% em oito anos e de 517% em sete anos[32]Mesmo com a cotação da arroba do boi para baixo e os negócios com terras estagnados frente aos anos anteriores, as terras de pastagens se valorizaram quatro vezes mais que as terras agrícolas no Brasil em 2023[33].

É de se esperar um aumento do número da compra de terras degradadas pelos Fiagros verdes sobre os 30 milhões de hectares que o Brasil se comprometeu a “recuperar” entre 2020-2030, através do Plano Agricultura de Baixo Carbono+.

Dentre as cotas mais rentáveis dos Fiagros estão justamente as de terras agrícolas. A remuneração dessas cotas depende do valor dos arrendamentos, no geral, vinculados ao valor da saca de soja por hectare, que também varia conforme a disponibilidade de água para irrigação[34]. O que demonstra tanto a alta vinculação entre o preço das terras e das commodities agrícolas nas regiões produtoras, como também a precificação indireta da água pelos agentes financeiros, o que também impacta, por sua vez, no valor dos arrendamentos, da terra e agora também das cotas dos fundos.

Dentre esses “Fiagros de terras” estão os três administrados pela XP investimentos, que juntos somam 35 mil hectares, na região do Matopiba, arrendados para a SLC Agrícola para produção principalmente de soja, mas também milho, algodão e braquiária[35]. A empresa é a maior produtora de soja do país, e não por acaso, também responsável pelo desmatamento de pelo menos 30 mil hectares de vegetação nativa no Cerrado[36] [37]. Duas destas fazendas estão situadas em Correntina na Bahia, palco dos conflitos mais intensos por água da história do país, cada vez mais capturada por corporações e projetos de irrigação[38].

Se a rentabilidade das cotas é rapidamente impactada com a expectativa de calote nos pagamentos das dívidas, o mesmo não ocorre com a violência extraeconômica. Mesmo em tempos de “finanças verdes”, na prática, o mercado de capitais e os investidores perseguem a maior rentabilidade, e isso geralmente vem acompanhado por negócios com terras griladas, desmatadas, com extração ilegal de água ou com presença de trabalho escravo. (Ver Tabela: “Fiagros de terras”: captura de terras agrícolas, água e desmatamento).

Os agentes do mercado de terras avaliam que o atual período traz grande oportunidade para compras de terras baratas. Após uma intensa valorização nos últimos três anos, com preços médios das terras para a produção de grãos subindo 128%, em 2023 essa curva estagnou[39]. A perda de rentabilidade dos produtores com a queda das commodities e aumento dos custos de produção pode inserir um bom estoque de terras com descontos no mercado. Contexto que pode levar a um próximo período de concentração da propriedade das terras nas mãos dos Fiagros e de seus investidores milionários, retirando-as das mãos de produtores endividados ou sem capital para manter suas terras.

Fonte: Colussi J., G. Schnitkey, N. Paulson, and J. Baltz. “Farmland Prices in Brazil More than Doubled in the Last Three Years.” farmdoc daily (13): 79, Department of Agricultural and Consumer Economics, University of Illinois at Urbana-Champaign, April 28, 2023.

O próprio governo brasileiro estuda a criação de “Fiagros de terra de dívida”, em que de um lado os credores – revendas, fornecedores, bancos, tradings – se tornam sócios do Fundo, e de outro o produtor, que transfere a fazenda tornando-se arrendatário do Fiagro. O pagamento das dívidas seria feito com a produção até que ao final do prazo, o produtor teria direito de recomprar as cotas e recuperar o imóvel. Algo pouco provável se o período de concentração de terras se confirmar, facilitando a criação de bolhas especulativas sobre seu preço[40].

Por trás do véu da “democratização” das finanças e da propriedade, esta financeirização das terras tende a gerar justamente seu contrário: mais concentração de capital e de terras como propriedade de elites financeiras.

Grilagem e blindagem para investidores, inclusive estrangeiros

Para conferir segurança aos investidores, os instrumentos de dívida do agronegócio e os Fiagros contam com garantias privilegiadas para o seu pagamento. Com a criação do chamado “patrimônio de afetação”, a Lei do Agro permite separar o todo ou partes de imóveis rurais proporcionais à dívida, como garantia para pagar especificamente as obrigações das empresas do agronegócio. Caso não haja pagamento, as terras afetadas pela dívida devem ser transferidas para o nome do credor diretamente no cartório de registro de imóveis, não sendo necessário acionar a justiça. E se o credor for um investidor estrangeiro, a Lei dos títulos do Agro passa a autorizar a transferência das terras para estrangeiros em caso de execução de dívida, independentemente dos limites de acesso à terra por estrangeiros. Uma burla à Lei que limita o controle das terras por estrangeiros no país[41].

Essas terras afetadas para o pagamento específico do mercado de dívidas do agronegócio não podem ser objeto de compra e venda, doação, recuperação judicial ou falência, e tampouco servir para pagar outras dívidas, a não ser as dívidas fiscais, previdenciárias e trabalhistas do produtor ou empresa devedora. Portanto, embora haja esse mecanismo de blindagem das terras em favor do pagamento aos investidores, o Estado e os trabalhadores mantêm a preferência na fila dos credores, podendo deixar os novos rentistas a ver a navios.

Cabe ainda ressaltar que essas terras afetadas como garantia de dívidas podem ser, na realidade, terras públicas e coletivas griladas[42]. Como denunciado por diversas organizações, o Brasil vem permitindo uma legalização massiva da grilagem histórica de terras públicas, principalmente após golpe institucional de 2016, com a chamada Lei da grilagem, e que vem sendo replicada nos estados, inclusive no Matopiba.[43] Isso significa que a inadimplência de muitos produtores pode levar não à expropriação do patrimônio privado de produtores, mas de terras públicas – de toda a população- e das comunidades locais griladas, e que podem parar nas mãos desses fundos.

Maquiagem verde das dívidas e serviços ambientais como “produto rural”

A nova tendência entre os Fiagros é a de ampliar o portfólio para atividades tidas como de baixo impacto ambiental, com a compra de ativos ou dívidas de empresas de bioenergia ou que utilizam práticas agrícolas “regenerativas”, como a recuperação de pastagens ou o plantio industrial de árvores[44].

Esse interesse nos chamados “títulos verdes” (green bonds) acompanha o movimento global de “limpeza” da imagem das corporações e agentes financeiros, como também aproveita a tendência de crescente valorização desses ativos “baseados na natureza”. Está em franca disputa legal nos países a definição da titularidade, ou seja, quem são os donos dos créditos de carbono florestais e do solo e de outros serviços ambientais, como de conservação das águas.

A lei dos títulos do agronegócio, alterada em 2022, passou a considerar a prestação de serviços ambientais nas fazendas como um novo tipo de “produto rural”, autorizando a emissão de título de dívida sobre bens até então comuns- que não poderiam ser apropriados, negociados ou executados por dívidas, como qualquer outra mercadoria[45]. Passam a ser considerados “produto rural”: os “serviços” de conservação e recuperação de florestas nativas, redução do desmatamento, conservação das águas e solos, e redução de emissões ou manutenção e aumento dos estoques de carbono florestal, entre outros benefícios ecossistêmicos, quando certificados por terceira parte[46].

Isto significa a exclusão das maiorias da presente e futuras gerações do acesso à integridade ambiental necessária à qualidade de vida, e a introdução dos serviços ambientais como garantia de dívidas dos produtores rurais. Precedente que pode influenciar as legislações em outros países para inserir o agronegócio como setor fornecedor de créditos de carbono e de outros serviços ambientais.

Além disso, o compromisso social e ambiental do agronegócio é um desastre, e os Fundos – e quem investe neles – são importantes mecanismos para maquiar de verde este histórico. E pior, passa a vincular, de modo perverso, a expectativa de renda desses novos inventores desavisados à expansão da fronteira agrícola e tudo que a acompanha [47].

O maior Fiagro em patrimônio (R$ 1,6 bilhões de reais, ou US$ 337 milhões), o Fundo Kinea Agro, com 37 mil cotistas, tem 37% de seu patrimônio em CRAs de usinas de açúcar e etanol. Um desses CRAs foi emitido pela Usina Itamarati, no Estado do Mato Grosso, que mesmo com o nome incluído na lista suja de trabalho análogo ao de escravo em 2008, além de várias infrações ambientais, alavancou R$ 150 milhões na emissão de “CRAs verdes”[48]. O Fundo também investiu na compra de três CRAs da Usina Rio Amambai Agroenergia, no Mato Grosso do Sul, da gestora americana Amerra, que teve 2.000 hectares embargados pelo órgão ambiental em 2022 e é investigada por despejos de resíduos de cana em uma lagoa. O que não impediu a emissão e captação de R$ 60 milhões (US$ 12,6 milhões) em CRAs “verdes”[49].

Já o Fiagro XPAC11, administrado pela XP investimentos, com 62 mil cotistas, tem em seu portfólio uma debênture “verde” emitida pela Aço Verde Brasil (AVB), do grupo Ferroeste, que teria 100% de carvão vegetal oriundos de florestas plantadas. A perda de diversidade, esgotamento hídrico, grilagem de terras e expulsões de comunidades locais em todo o mundo, gerados pela expansão dos monocultivos industriais de florestas, não retira a qualidade de “verde” do investimento. Além disso, o XPAC11 tem investimentos nas maiores produtoras de carnes do mundo, como Minerva, Mafrig e BRF, grandes responsáveis pelo avanço do desmatamento, grilagem de terras públicas e também maior setor responsável por manutenção de trabalhadores em situação análoga a de escravos no Brasil[50].

Furando a bolha financeira: revalorização dos comuns para barrar futura geração de expropriados

Não é difícil concluir que o “Agro é dívida!”, dívida histórica econômica, social e ecológica, no Brasil.

Mesmo se considerarmos como verdadeira a conta dos inflacionados 25% do PIB produzidos pelo Agronegócio, o povo não come PIB! O saldo das exportações – e das exportações de soja – é irrelevante para analisar o desenvolvimento social, ou seja, a redução da pobreza, das desigualdades, da fome, do dano ecológico. Mesmo se o PIB fosse algum indicador útil, nessa conta do PIB do agronegócio entram, por exemplo, os ganhos de corporações transnacionais de sementes, agrotóxicos, fertilizantes, maquinário, além dos serviços financeiros que, em grande medida, são remetidos aos países sede, e, portanto, não ficam no país[51].

Além disso, desse número não é deduzida a enorme dívida do setor, da ordem de trilhões de reais, tampouco o que se deixa de arrecadar com isenções fiscais[52] [53]. Só a soja, por exemplo, que representa metade do valor da produção do agronegócio no país, custa quase R$ 60 bilhões (US$ 12 bilhões) ao ano em renúncia fiscal, o dobro do custo da desoneração da cesta básica.[54] Se ainda forem incluídos na balança os custos dos danos irreversíveis ao meio ambiente com contaminação dos territórios e dos corpos doentes, a poluição e erosão genética e dos solos causados pela cadeia industrial do agronegócio, a dívida é impagável.

Mas é importante nos atentar de que não se trata de Fiagros ou apenas da financeirização do agronegócio, das terras e dos sistemas alimentares. Essa aliança entre capital financeiro, bens imobiliários – urbanos e rurais – e seguradoras, faz com que uma cada vez mais restrita e violenta classe de rentistas transformem direitos em propriedade privada e mercadoria, assumindo um peso determinante para a composição do preço da moradia, das terras, dos alimentos, dos transportes, da previdência, da energia, da água e do esgoto.

Barrar a privatização de bens até então comuns e sua posterior valorização financeira, recuperando o significado do que sejam os chamados bens públicos e os âmbitos comuns das economias comunitárias, nas cidades e no campo, que devem ser voltados para a produção de uma vida digna para as pessoas, pode dar boas pistas para se evitar uma futura geração de expropriados: sem tetos, sem terras, sem acesso. Maiorias com direito a apenas uma renda, e isso se financiarem quem os expropriou.

Tabela “Fiagro de terras”: captura de terra agrícolas, água e desmatamento

Fundo/Administradora
Descrição
Fiagro GRWA11 (Greenwich Agro)
Banco Daycoval S.A
(taxa de administração de 1,15% sobre o patrimônio líquido e de 10% de participação nos lucros)
2.590 cotistas pessoas físicas, 2 pessoas jurídicas não financeiras, 2 fundos de investimentos.
Patrimônio líquido: R$ 24,8 milhões (US$ 5 milhões), 55% em bens imóveis
40% em CRAs.
Cota valorizou 15% desde seu lançamento até novembro de 2023. Valor da cota R$ 10 reais (US$2).
*O Fundo não fornece informações sobre os R$ 13 milhões (US$ 2,6 milhões) aplicados em bens imóveis.
Fiagro FZDB11
XP Investimentos S.A
(taxa de administração e gestão de 0,80% sobre o patrimônio liquido inicial corrigido pela inflação e 15% de participação nos lucros)
75 investidores com aplicações acima de R$ 1 milhão (US$ 200 mil). Até janeiro de 2024 o fundo era fechado apenas para investidores com aplicações acima de R$ 10 milhões (US$ 2 milhões)
Patrimônio líquido: R$ 357,7 milhões (US$ 72 milhões) em 13,5 mil ha da Fazenda Tabuleiro I, Correntina/Bahia.
Arrendamento de 9,3 mil há para soja, milho e pouco de algodão até safra 2035/2036 para SLC Agrícola.
Valores em saca de soja por hectare (sc/há), em média, R$ 120 (U$$ 24) a saca. Para área não irrigada: R$ 13 sc/ha.; Área irrigada R$ 22,75 sc/ha e Área de expansão da irrigação R$ 14 sc/ha.
Cota valorizou 10% de seu lançamento até novembro 2023. Valor da cota R$ 100,00 (US$ 20).
Fiagro FLEM1
XP investimentos S.A
(taxa de administração e gestão de 0,80% sobre o patrimônio líquido inicial corrigido pela inflação e 15% de participação nos lucros)
14 investidores profissionais com patrimônio acima de R$ 10 milhões (US$ 2 milhões)
Patrimonio liquido de R$ 283,5 milhões (US$57 milhões) em 12,4 mil há da Fazenda Tabuleiro II, também em Correntina na Bahia, divididas em 13 matrículas.
Arrendamento de 9,3 mil ha com 4 mil ha de soja, 4 mil ha de algodão e 1,3 mil brachiaria semente até safra de 2035/2036 para SLC Agrícola.
Valores em sacas de soja negociadas em média a R$ 120 a saca. Area não irrigada por R$ 13 a sc/ha.
Cotas permanecem com os valores de lançamento de R$ 96,00 (US$ 19), sem valorização.
Fiagro FZDA11
XP investimentos S.A
(taxa de administração e gestão de 0,80% sobre o patrimônio líquido inicial corrigido pela inflação e 15% de participação nos lucros)
477 cotistas qualificados com aplicações acima de R$ 1 milhão (US$ 200 mil). Até janeiro 2024 fechado apenas para investidores com aplicações acima de R$ 10 milhões (US$ 2 milhões).
Patrimônio liíquido de R$ 345,4 milhões (US$ 69,4) com 9 mil ha de
6 Fazendas Xingu em Balsas /Maranhão
Arrendamento de 5,5 mil ha para soja e pouco de milho para SLC Agrícola.
Valores em sacas negociadas a R$ 159 (US$ 32) a saca. 5 sc/ha até 2023/2024 e 13 sc/há até 2035/2036.
Cota se valorizou 22% do lançamento a janeiro 2024. Cota no valor de R$ 96,00 (US$ 19).
Fonte: Relatórios financeiros dos fundos e Boletins mensais dos Fiagros da B3.
IIustração: Matheus Ribs
Designer de infografia: Kartine Ribeiro Gomes
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[1] Conversão 1 U$ = R$ 4,97, utilizando conversor de moeda Oanda em 11 de março de 2024.
[3] GRAIN, “Avocados de la Ira”, 26 de Abril de 2023. https://grain.org/e/6983
[4] Gastón Caligaris, “Acumulación de capital y sujetos sociales en la producción agraria pampeana (1996-2013)”, capítulo El caso de los “grandes pooles de siembra”, Buenos Aires: UbaSociales, 2017. https://www.teseopress.com/produccionagraria/
[5] A lei 24.083/1992 e a Lei 24.441/94 regulamentam os fundos comuns de investimento e os fideicomissos, viabilizando os pools de semeadura como nicho privilegiado do capital financeiro. Frederico y C. Gras. “Globalização financeira e land grabbing: constituição e translatinização das megraempresas argentinas”. In: Bernardes et al. (coord), 2017, p. 11-32.
[6] Censo Nacional Agrário, 2018. Disponível em: https://cna2018.indec.gob.ar/informe-de-resultados.html
[7] Pedro Pereti, “Todo el poder a los pools”, 12 de Dezembro de 2023. https://www.pagina12.com.ar/694385-todo-el-poder-a-los-pools
[8] Madeleine Fairbairn, “Fields of Gold: financing the global land rush”, Ithaca [New York]: Cornell University Press, 2020, p. 30-32.
[9] NCREIF Farmland Index. https://user.ncreif.org/data-products/farmland/ . O retorno acumulado das terras agrícolas entre 1983 e 2010 foi acima de 15% em alguns mercados, ver em: Andrew Gunnoe, “The Political Economy of Institutional Landownership: Neorentier Society and the Financialization of Land”, Rural Sociology, 79 (4); 2014. P. 478–504, 2014: p. 492 e 493.
[10] NCREF Timberland Property Index. https://user.ncreif.org/data-products/timberland/.Estas terras chegaram a taxas de retorno cumulativas de 26.75% ao ano. Ver em Andrew Gunnoe. Ibid.
[12] Lei 14.130/2021 altera Lei 8.668 dos Fundos de investimentos para criar os Fiagros. Ver: Larissa Vitória, “Primeiro Fiagro do Brasil e outros credores de CRA decretam vencimento do título após calote parcial e podem executar garantias”, Seu dinheiro, 7 de março de 2024. https://www.seudinheiro.com/2024/bolsa-dolar/primeiro-fiagro-do-brasil-e-outros-credores-de-cra-decretam-vencimento-do-titulo-apos-calote-parcial-lvit/
[13] Governos militares nos anos 80 e depois na crise cambial dos anos 90, realizaram a securitização das dívidas do agronegócio e de agentes financeiros por meio da substituição dos títulos privados impagáveis por títulos da dívida pública do Tesouro, o que colocou o Estado brasileiro como garantidor das dívidas do agronegócio. Guilherme Delgado, “Do Capital Financeiro na Agricultura à Economia do Agronegócio”, Porto Alegre, UFRGS editora, 2012, p.86-87.
[15] O Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) é um título de crédito que representa promessa de pagamento em dinheiro ou ainda em produção ou imóvel rural, emitidos exclusivamente por companhias securitizadoras. O estoque de CRAs tiveram um aumento de 92% entre janeiro de 2022 e janeiro de 2024, segundo o Boletim do Ministérios da Agricultura.
[16] Luiz Henrique, “Usina Ester fa acordo com detentores de CRAs”, The AgriBiz, 06 Junho de 2023 https://www.theagribiz.com/agribuzz/usina-ester-faz-acordo-com-detentores-de-cras/ e Relatório XPCA11 Janeiro 2024. https://fnet.bmfbovespa.com.br/fnet/publico/visualizarDocumento?id=609370&flnk
[17] Conta é distinto de CPF. O mesmo investidor pode ter mais de uma conta, resultando em concentração dos investimentos.
[19] Investidores pessoas físicas não pagam imposto sobre a rentabilidade das cotas desde que os Fiagros tenham mais de 100 cotistas e detenham até 10% das cotas emitidas ou dos rendimentos distribuídos pelo fundo. A partir de 2024, para isenção de impostos, o cotista não pode acumular junto com outros parentes mais de 30% das cotas do fundo ou de 30% dos rendimentos auferidos.
[20] Dividendos são parte dos lucros distribuídos para os cotistas do fundo ou sócios de uma empresa, que podem ser pagos anualmente ou mesmo mensalmente, a depender da regulamentação. Já os dividend yield seriam a divisão do dividendo anual pelo valor atual da ação, o que dá a taxa de retorno do investimento no mês.
[22] De agosto de 2022 até agosto de 2023 a taxa Selic, referência para os juros no país, estava em 13,75% ao ano.
[23] Anbima, “Raio X do investidor Brasileiro 6º edição”, 2023. https://www.anbima.com.br/pt_br/especial/raio-x-do-investidor-2023.htm
[24] Bruna Bronoski, “Boom de pessoas físicas no mercado financeiro vira alvo de capitalização do agronegócio”, O Joio e o Trigo, 03 de março de 2023. https://ojoioeotrigo.com.br/2023/07/boom-de-pessoas-fisicas-mercado-financeiro-agronegocio/
[26] Carlos Walter Porto-Gonçalves. “Dos Cerrados e de suas riquezas: De saberes vernaculares e de conhecimento científico”, FASE, 2019: p.26-27. https://fase.org.br/wp-content/uploads/2019/12/PUBLICACAO_CERRADO-2.pdf
[28] Nayara Figueiredo, “AGBI busca R$ 150 milhões para Fiagro “verde” e áreas para comprar”, Valor Econômico, 23 de junho de 2023. https://valor.globo.com/agronegocios/noticia/2023/06/23/agbi-busca-r-150-milhoes-para-fiagro-verde-e-areas-para-comprar.ghtml
[29] GRAIN, “From land grab to soil grab – the new business of carbon farming”, 24 de fevereiro de 2022. https://grain.org/e/6804
[30] “Uber utilizo créditos de carbono generados en una granja que empleaba mano de obra esclava”, Timis, 19 de fevereiro de 2024. https://timis.es/uber-utilizo-creditos-de-carbono-generados-en-granja-mano-de-obra-esclava/e Carolina Bataier, “Projeto Jari de créditos de carbono engana comunidades e invade terras públicas no Pará”, De Olho nos Ruralistas, 19 de fevereiro de 2024.

[31]Thimothy Killeen, “¿Qué es más conveniente en la distribución de tierras? | LIBRO”, Mongabay, 4 de Março de 2024.

[32] Relatório AGBI Real Assets Agronegóciohttps://agbi.com.br/agronegocio/
[33] Márcia De Chiara. “Supersafra derruba valorização de terra agrícolas em 2023, depois de ciclo de alta. Estadão: 06 de fevereiro 2024.https://www.farmlandgrab.org/post/view/31999-brasil-supersafra-derruba-valorizacao-das-terras-agricolas-em-2023-depois-de-um-ciclo-de-alta
[34] Top 10 Variação do preço de fechamento desde a data de lançamento do Boletim Mensal de Fundo de Investimento em cadeias agroindustriais (FIAGRO) da B3 de Novembro de 2023 e Janeiro de 2024.
[35] Matopiba é acrônimo para os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, região definida como uma das últimas fronteiras agrícolas do mundo, o que já resultou no desmatamento de 50% do bioma.
[36] Entre agosto de 2022 e julho de 2023, 11 mil Km² foram desmatados no Cerrado, maior taxa dos últimos 8 anos, 75% na região do Matopiba. A Bahia teve o maior incremento de 38% do desmatamento. Dados Prodes Cerrado: https://www.gov.br/ibama/pt-br/assuntos/noticias/2023/mma-divulga-prodes-cerrado-e-plano-para-o-bioma#:~:text=No%20per%C3%ADodo%20Prodes%20(agosto%20de,de%2026%25%20e%2027%25
[37] GRAIN, “A Aliança suja entre agronegócio e grande capital financeira é tudo, menos verde”, 07 de Outubro de 2021. https://grain.org/e/6748
[38] Em 2017 uma multidão de 12 mil pessoas – de um total de 12.600 habitantes (Censo 2010) – saíram às ruas de Correntina com o lema “Ninguém morrerá de sede às margens do Rio Arrojado” contra a captura excessiva de água pelas grandes fazendas. Lu Sodré, “Águas cercadas: como o agronegócio e a mineração secam rios no Brasil”. Brasil de Fato, 30 de julho de 2020.https://www.brasildefato.com.br/2020/07/30/aguas-cercadas-como-o-agronegocio-e-a-mineracao-secam-rios-no-brasil
[39] Márcia De Chiara. “Supersafra derruba valorização de terra agrícolas em 2023, depois de ciclo de alta”, Estadão: 06 de fevereiro 2024.https://www.farmlandgrab.org/post/view/31999-brasil-supersafra-derruba-valorizacao-das-terras-agricolas-em-2023-depois-de-um-ciclo-de-alta
[40] Leandro Gottems, “Ministério da Agricultura dá sinal verde a Fiagros”. Agrolink, 01 de março de 2024. https://www.agrolink.com.br/noticias/ministerio-da-agricultura-da–sinal-verde–a-fiagros_488754.html
[41] Alteração da Lei 13.986/2020 dos títulos do Agro na Lei 5.709/71, que impõe limites de aquisição de terras por estrangeiros.
[42] O termo grilagem surgiu de uma prática de fraude de documentos de terras, inserindo os papéis dentro de uma caixa fechada com grilos, que corroíam e amarelavam os papéis, dando a aparência de envelhecimento. É o grilo ou grilagem das terras públicas e coletivas roubadas.
[43] GRAIN, CPT, AATR, ABRA. “Do golpe político ao golpe fundiário no Brasil”, 26 de dezembro de 2020.
[44] GRAIN, “Regenerative agriculture was a good idea, until corporations got hold of it”. 1 de dezembro de 2023. https://grain.org/e/7067
[45] Lei nº 13.986/2020, posteriormente alterada pela Lei 14.421/22.
[46] A Cédula do Produto Rural (CPR), primeiro título do agronegócio criado em 1994 (Lei 8929), é título que representa a produção rural exigível em produto ou liquidação financeira na data do seu vencimento. A Lei foi alterada tanto para ampliar o rol de quem pode emitir os títulos (passando a incluir além do produtor rural, também as empresas de insumos, comercializadoras, processadores), como ampliar o conceito de “produto rural”, com a regulamentação da CPR verde pelo Decreto 10.828/2021. A CPR alcançou os R$ 309 bilhões, aumento de 144% entre janeiro de 2022 e janeiro 2024. Boletim Finanças Privadas do Agro, fevereiro 2024. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/politica-agricola/boletim-de-financas-privadas-do-agro/boletim-de-financas-privadas-do-agro-fev-2024.pdf/view
[47] GRAIN, “An agribusiness greenwashing glossary”, 7 de setembro de 2022. https://grain.org/e/6877
[48] João Peres, “Fundos do agro impulsionam empresas com histórico de destamatamento, escravidão e grilagem”, O Joio e o Trigo, 20 de julho de 2023.https://ojoioeotrigo.com.br/2023/07/fundo-do-agro-impulsiona-desmatamento
[49]Camila Ramos, “Usina Rio Amambaí capta R$ 60 milhões com “CRA verde”, Valor Economico, 15 de março 2021.https://valor.globo.com/um-so-planeta/noticia/2021/03/15/usina-rio-amambai-capta-r-60-milhoes-com-cra-verde.ghtml
[50]Pecuária industrial foi responsável por 46% dos 63 mil trabalhadores resgatados em situação análoga ao de escravos desde 1995. Environmental Justice Fundation, “Trabalho escravo no setor pecuarista: o caso de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul”, novembro, 2023https://ejfoundation.org/resources/downloads/Trabalho-escravo-no-setor-pecuarista-o-caso-de-Mato-Grosso-e-Mato-Grosso-do-Sul.pdf
[51] Os dados do PIB do Agronegócio são produzidos pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), financiado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) – maior entidade de classe do setor. É possível ver a metodologia empregada aqui: https://www.cepea.esalq.usp.br/br/pib-do-agronegocio-brasileiro.aspx
[52] Em 2016, a dívida do setor somava R$ 1,2 trilhões de reais (ao redor de 310,8 bilhões de dólares), segundo a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Oxfam, Brasil. “Terrenos da desigualdade: Terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural”, São Paulo, novembro de 2016. p. 18 e 19https://oxfam.org.br/wp-content/uploads/2019/08/relatorio-terrenos_desigualdade-brasil.pdf
[53] A chamada Lei Kandir (Lei complementar 87/1996) veda a tributação de imposto sobre a circulação da produção agrícola e minerária para exportação. O agronegócio pagou menos de R$ 16 mil reais (US$ 3,2 mil) em imposto de exportação em 2019. Apenas com os agrotóxicos, cerca de R$ 6.8 bilhões (US$ 1,3 bilhões) deixaram de entrar nos cofres públicos entre 2011 e 2016. Maurício Angelo, “Uma sugestão para Paulo Guedes: acabar com a mamata das isenções fiscais bilionárias para agrotóxicos”. The Intercept, 7 janeiro 2019. https://www.intercept.com.br/2019/01/07/agrotoxicos-isencoes-fiscais-bilionarias

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O projeto foi suspenso após denúncias de que uma instalação de reciclagem construída por um parceiro local na Indonésia violava os regulamentos habitacionais e afetava a saúde da comunidade

Beach Clean up and Brand Audit on Rambut Island, Jakarta

Uma garrafa de lixo com o rótulo “Aqua” da marca Danone flutua na água durante uma limpeza de praia e auditoria de marca no norte de Jacarta, na Indonésia. Foto: Muhamad Adimaja/Greenpeace 

Por  Emma Howard,  Ellie O’Donnell e  Tonggo Simangunsong para a Unearthed

Um projeto de compensação de plástico apoiado pela gigante de alimentos e bebidas Danone foi suspenso , após alegações de que uma instalação de reciclagem foi construída ilegalmente perto de uma comunidade balinesa e sem a devida consulta , descobriu  uma investigação da Unearthed .

O projeto da Danone foi criado como uma tentativa da multinacional francesa de compensar a sua enorme pegada plástica na Indonésia e parte da sua promessa de recuperar mais plástico do que aquele que utiliza no país até 2025.

É um dos primeiros e maiores esquemas de compensação registados no âmbito do novo programa de créditos de plástico desenvolvido pela Verra, o maior emissor mundial de créditos de carbono. 

Mas está em desordem desde maio do ano passado, quando Verra suspendeu a acreditação depois de receber reclamações que, segundo ela, mereciam uma “ revisão adicional ”.   Esta medida ocorreu depois que Verra recebeu reclamações de residentes e ONGs de que uma das instalações do projeto de compensação – a instalação Samtaku Jimbaran em Bali – foi construída a poucos metros das casas das pessoas sem consultar os moradores próximos e estava prejudicando a saúde dos residentes , documentos vistos. pelo programa Unearthed .

A compensação de plástico é um novo mercado, modelado na compensação de carbono, no qual as empresas pretendem reduzir a sua “pegada plástica pagando para “remover” o plástico do ambiente. Isto significa esquemas de financiamento, baseados em grande parte no Sul Global para apoiar a reciclagem, a recolha por catadores de lixo ou a queima de plástico como combustível. 

Espera-se que a procura por estas compensações cresça à medida que as empresas ficam sob maior pressão para enfrentar os danos ambientais causados ​​pelos plásticos descartáveis. No início deste ano, o Banco Mundial e o Citi emitiram um título de créditos de plástico no valor de 100 milhões de dólares que financiará projetos de recolha e reciclagem de plástico acreditados pela Verra em Gana e na Indonésia. 

A Verra tem defendido o seu programa de créditos de plástico aos delegados do tratado global de plástico da ONU, que acaba de entrar na sua quarta ronda de negociações esta semana em Ottawa, Canadá A ONU pretende chegar a um acordo juridicamente vinculativo para acabar com a poluição plástica até ao final do ano. 

Mas os activistas indonésios afirmaram que projectos como o da Danone mostraram que a compensação era apenas uma tentativa inútil por parte das empresas para evitarem combater as causas profundas da poluição por plásticos.

“A compensação do plástico é dinheiro jogado fora – pelo menos da forma como está a ser feito agora”, disse Tiza Mafira, cofundadora do grupo de campanha indonésio Movimento da Dieta do Plástico e diretora da Iniciativa de Política Climática . 

“Este projeto é um exemplo disso. Na Indonésia e em todo o mundo, as empresas estão a investir na remoção do plástico do ambiente, em vez de tentarem evitar a sua produção.” 

A poluição por resíduos plásticos nos cursos de água é um grande problema na Indonésia. A Danone – que descreve a sua subsidiária Aqua como a maior marca de água engarrafada da Indonésia – tem sido repetidamente identificada como o maior poluidor de plástico do país em auditorias de resíduos pela campanha Break Free From Plastic (BFFP). 

Um porta-voz da Danone disse que a empresa continua a trabalhar na Indonésia para reduzir o uso de plástico, melhorar a reciclagem e remover resíduos do meio ambiente.

Ela disse ao Unearthed em fevereiro que as instalações de Bali pertenciam à PT Reciki Mantap Jaya, uma “subsidiária” da empresa indonésia de gestão de resíduos Reciki Solusi Indonesia , mas a Danone forneceu financiamento inicial para o seu sistema de segregação de resíduos e educação comunitária. 

Ela acrescentou que a Danone “estabeleceu expectativas claras em torno dos padrões que esperamos que nossos parceiros cumpram e tomou medidas imediatas em 2023, investigando as reclamações feitas sobre a instalação de processamento de resíduos”.

Em Março, um jornal local noticiou que a Reciki Solusi Indonesia estava a “deixar de ser accionista” em Mantap Jaya e que a instalação de reciclagem estava a reduzir o número de funcionários e a debater-se com equipamentos avariados. 

Depois disso, a Danone disse à Unearthed numa declaração posterior que o seu próprio envolvimento com as instalações de Bali estava agora “concluído” e que a empresa operacional local estava num “período de transição para encontrar um novo investidor”.  

A Unearthed entrou em contato com Reciki Solusi Indonesia para comentar, mas não recebeu resposta.

Delegados acompanham os procedimentos do dia em Nairóbi durante a terceira rodada de negociações para formular um tratado internacional juridicamente vinculativo sobre plásticos até 2024. Foto: James Wakibia/SOPA Images/LightRocket via Getty

Verra disse à Unearthed que não poderia comentar sobre a revisão do “controle de qualidade” do projeto de compensação da Danone, pois ainda está em andamento.

Um porta-voz disse: “Verra acredita que os requisitos de consulta e auditoria do Programa Plástico são os melhores do mercado e servem como modelo de transparência, ação e integridade”.

Ele acrescentou que os créditos de plástico não substituem os esforços “a montante” para reduzir o uso de plástico, e ambos são necessários. “Reconhecemos que é necessário financiamento para abordar a poluição plástica a jusante, enquanto as empresas fazem esforços máximos para reduzir o uso de plástico virgem em primeiro lugar”, disse ele ao Unearthed .

“Mesmo que o mundo tenha parado de produzir plástico hoje, uma grande quantidade de plástico já está no meio ambiente, ou chega até lá se não intervirmos nos esforços de coleta e reciclagem.”

‘Comentários substantivos’

Segundo Verra, o projecto da Danone visa recolher cerca de 170 mil toneladas de plástico na Indonésia até 2030, apoiando a instalação e operação de cinco instalações de processamento de resíduos em todo o país, que deveriam ser todas geridas pela Reciki

Os documentos do projecto mostram que a Reciki constrói estes locais em acordos de “parceria público-privada” com os governos locais, nos quais as autoridades locais fornecem o terreno para as instalações.

A segunda destas instalações – Samtaku Jimbaran – foi inaugurada em Bali em 2021 . Em dezembro de 2022, a Verra registrou o projeto de compensação da Danone em seu programa de redução de resíduos plásticos. 

Mas em Maio do ano passadoVerra escreveu à Danone dizendo que estava começando uma revisão do “controle de qualidade” do esquema de compensação, em resposta a “comentários substanciais das partes interessadas” sobre o projecto. Verra suspendeu a emissão de créditos de plástico do esquema até que esta revisão fosse concluída. 

Onze meses depois, a revisão ainda está em andamento e o status do projeto está marcado como “em espera ” no registro da Verra. A instalação de Bali continuou a funcionar apesar da revisão, mas desde que os desenvolvimentos em Março e o apoio da Danone chegaram ao fim, o seu futuro é agora incerto.

A Danone não comentou se continuaria a buscar o credenciamento da Verra para as instalações de Bali ou para o esquema mais amplo. “Embora tenhamos usado a certificação de projetos usando o esquema Verra no passado, não compramos créditos de plástico deste projeto”, disse o porta-voz da empresa. 

“Acreditamos que são necessárias mais pesquisas para testar a eficácia dos créditos de plástico e seremos guiados pelos princípios estabelecidos pelo Tratado Global das Nações Unidas sobre Plásticos.”

O porta-voz da Danone disse que os créditos de plástico eram apenas uma entre várias soluções para resíduos plásticos nas quais a empresa estava trabalhando. “Com parceiros, apoiamos 36 instalações em toda a Indonésia, juntamente com uma rede de bancos de resíduos comunitários e quase 10.000 coletores de resíduos em toda a Indonésia”, disse ela. “Como resultado destes esforços, conseguimos recolher até 22.000 toneladas de resíduos plásticos por ano.”


Uma mulher com dois meninos está sobre uma madeira coberta por resíduos plásticos trazidos pelas ondas fortes na praia de Jimbaran, perto da instalação em Bali, na Indonésia. Em Bali, famosa entre os turistas pelas suas praias e pores-do-sol, as monções do noroeste trazem um tipo diferente de chegada: grandes quantidades de resíduos plásticos. Foto: Agung Parameswara/Getty

‘Consentimento tácito’

Um porta-voz da Verra disse ao Unearthed que não havia recebido nenhuma informação da Danone indicando que as instalações de Bali não estavam operando adequadamente e estavam buscando novos investidores, ou que a Danone não estava mais fornecendo suporte para isso . adaptar projetos do programa de plásticos, ou retirá-los completamente, mas a Danone não tentou fazer nada disso.

A Verra recusou-se a fornecer quaisquer detalhes sobre os comentários que desencadearam a sua revisão, exceto para dizer que os recebeu entre dezembro de 2022 e abril de 2023. 

No entanto, a Unearthed obteve documentos que mostram que Verra recebeu uma série de reclamações sobre Samtaku Jimbaran durante este período, que incluíam as seguintes alegações: 

  • Que a instalação foi criada em violação dos regulamentos indonésios que proíbem a instalação de uma central de reciclagem num raio de 500 m de habitações residenciais . Os moradores estimam que a casa mais próxima fica a menos de dois metros da borda da instalação.
  • Que muitos residentes tiveram problemas de saúde, incluindo problemas respiratórios, dores de cabeça e dores de estômago , que acreditam terem sido causados ​​pelo cheiro das instalações.
  • Que muitas pessoas que moravam nas proximidades não foram consultadas antes da construção da instalação; a documentação sobre o projeto não foi disponibilizada à comunidade local e não foi publicada em indonésio. 

Imagens de satélite analisadas pela Unearthed indicam que havia mais de 100 casas num raio de 500 metros do local antes de ser construído, com algumas casas a menos de 100 metros de distância.

A Danone afirmou na sua proposta de projecto que Reciki obteve o consentimento da comunidade com base no facto de o projecto ter sido aprovado pelo governo local e a prestação de um serviço público equivaler a “consentimento tácito ” . Também obteve uma carta de consentimento das comunidades vizinhas e disse que o chefe da aldeia estava a participar no processo. 

No entanto, Jero Agung Dirga, o chefe tradicional da aldeia onde a instalação está sediada, disse ao Unearthed que, de acordo com as queixas dos residentes, “a gestão realizou ações de sensibilização”, mas isto foi “com residentes que não foram afetados, que moravam mais longe da localização [da instalação], e não com moradores mais próximos do projeto que vivenciaram os impactos”. Ele próprio não esteve envolvido em nenhuma consulta antes da construção da instalação, acrescentou. 

As reclamações enviadas à Verra no ano passado não foram as primeiras que a empresa de credenciamento recebeu sobre as instalações de Bali. A Unearthed também analisou documentos, arquivados na Verra antes do registro do projeto, nos quais Danone e Reciki respondem a reclamações recebidas em 2022. As empresas admitem que resíduos líquidos contaminados vazaram em cursos de água locais e ocorreram queima de resíduos de tecidos no local , o que poderia ter levado à fumaça preta . Em resposta, a Reciki comprometeu-se a atualizar o seu sistema de gestão de águas residuais e a aumentar a capacidade do seu equipamento para capturar fumo.

Outros documentos vistos pela Unearthed mostram que nos últimos dois anos pessoas reclamaram do cheiro a até um quilômetro de distância. Os moradores queixaram-se de vertigens e problemas de sono , e tiveram que ir ao hospital devido a problemas de saúde que atribuem aos fumos. 

“O cheiro era absolutamente terrível”, disse Owen Podger, um ex-residente que morava a cerca de 150 metros das instalações até se mudar no ano passado, ao Unearthed : “Durante dois meses, tivemos que fechar nossas janelas e portas quase o tempo todo, então durante meses depois, várias horas por dia. Não podíamos sentar do lado de fora de casa ou fazer compras pela manhã. Minha esposa teve câncer e isso tornou os últimos meses de sua vida muito difíceis.”

Dirga disse ao Unearthed que outros moradores também desejam deixar a área. “[Eles] querem vender a sua propriedade, mas não se mudam porque ninguém quer comprá-la, disse ele. “Os principais problemas de que se queixam são o odor, o facto de o local em redor [das instalações] não ser limpo e estarem muito preocupados com a sua saúde.”

De acordo com os documentos do projeto da Danone, a instalação recebe resíduos municipais locais. Separa e enfarda cerca de 40% do plástico desses resíduos para ser vendido para reciclagem; os restantes plásticos de qualidade inferior são convertidos no local em Combustível Derivado de Resíduos (RDF), um processo que transforma resíduos em pellets de combustível através de trituração , calor ou compressão .

No ano passado, o auditor contratado pela Verra descobriu que o RDF, fabricado nas instalações balinesas, não atendia aos padrões legais para venda. A Verra ainda não certificou ou aprovou a produção de RDF da instalação no âmbito do seu programa de plástico. 

As pessoas transportam resíduos plásticos que foram selecionados para serem vendidos a coletores de resíduos plásticos em Denpasar, em Bali. O governo indonésio tem uma meta de redução de resíduos de 30% até 2025. Foto: Sonny Tumbelaka/AFP via Getty.

‘ Greenwashing na imagem da Danone’

Os documentos mostram que a Danone planeou originalmente a emissão de créditos de plástico a partir do seu projecto de compensação na Indonésia, dizendo que seria “benéfico para a sustentabilidade do projecto a longo prazo”. No entanto, mais tarde alterou o seu plano para declarar que os créditos não seriam emitidos e disse que pretendia utilizar o esquema da Verra como certificação independente da quantidade de plástico que está a recuperar na Indonésia.

“Isso ainda está permitindo que a Danone faça uma lavagem verde em sua imagem”, disse Emma Priestland, coordenadora de campanhas da ONG global Break Free From Plastic (BFFP), ao Unearthed. “ A alegação de que estão a combater a poluição plástica através da recolha de mais embalagens do que as que vendem é uma distração destinada a evitar mudanças reais e substanciais no seu modelo de negócio, para que possam continuar a poluir a Indonésia com plásticos de utilização única.”

A Danone é uma das maiores empresas de alimentos e bebidas do mundo . Atualmente, enfrenta um desafio legal por parte de grupos ambientalistas que alegam que não conseguiu resolver adequadamente a sua pegada plástica, utilizando uma lei francesa histórica que exige que as empresas previnam violações dos direitos humanos e danos ambientais na sua cadeia de atividade. Nenhuma decisão foi tomada ainda.

A compensação de plástico é um novo mercado em expansão que surgiu nos últimos anos e que recebeu apoio significativo dos principais poluidores de plástico . As subsidiárias da Unilever da Nestlé fizeram reivindicações de “neutralidade plástica” respectivamente na Índia e nas Filipinas, onde a Plastic Credit Exchange – o maior player no mercado – vendeu a maior parte dos seus créditos.

A Danone faz parte do conselho consultivo do programa de crédito de plástico da Verra e fez parte da iniciativa 3R, um dos esforços iniciais que desenvolveu o conceito de créditos de plástico. Um porta-voz da Verra disse ao Unearthed que “o envolvimento nesses grupos não tem influência na elegibilidade de um projeto ou nos processos que Verra segue para revisar um projeto”. 

Um porta-voz da Verra também negou que seus esforços nas negociações do tratado de plástico equivaliam a lobby e disse ao Unearthed : “Verra é um observador credenciado da ONU e participa do processo do tratado para educar as partes interessadas sobre o papel do Programa Plástico de Verra como uma estrutura para mobilizar financiamento para o plástico. atividades de coleta e reciclagem de resíduos.”

Na terça-feira desta semana, Verra organizou um evento paralelo na rodada de negociações do tratado em Ottawa para discutir o título de créditos plásticos de US$ 100 milhões do Banco Mundial e do Citi. Falando neste evento, Fei Wang, diretor financeiro sênior para soluções de mercado do Banco Mundial, disse: “Esperamos que isto se torne um mercado e esperamos que outros emissores também possam emitir”.

Quando questionado pela Unearthed sobre as questões levantadas pelo projeto Danone, ele disse: “Há sempre projetos que não estão funcionando… é um desafio o que você mencionou e viu em outros projetos, mas é por isso que queremos trabalhar com parceiros que têm um histórico.”

O Banco analisou de forma independente os dois projetos que o título apoia e disponibilizará relatórios aos investidores anualmente, acrescentou.


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Fonte: Unearthed