Ormuz: o gargalo energético do capitalismo global

O gráfico que segue logo abaixo que mostra o ritmo do tráfego de navios petroleiros no Estreito de Ormuz revela um cenário de forte deterioração logística após a intensificação das tensões militares envolvendo Irã, Israel e os Estados Unidos. Observa-se uma queda abrupta no fluxo de navios petroleiros logo após o episódio destacado no gráfico, indicando um movimento de retração do transporte marítimo em uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta. Cerca de 20% do petróleo consumido globalmente passa diariamente pelo estreito, o que transforma qualquer instabilidade regional em um problema de escala mundial.

A redução do tráfego sugere que armadores, seguradoras e grandes operadores logísticos já estão reagindo ao aumento do risco geopolítico. Mesmo sem um bloqueio formal do estreito, o simples aumento da percepção de insegurança vem sendo suficiente para elevar os custos de seguro marítimo, reduzir a circulação de embarcações e provocar atrasos no abastecimento internacional. Isso tende a gerar forte volatilidade no preço do barril de petróleo, pressionando inflação, cadeias produtivas e custos de transporte em praticamente todas as economias dependentes de combustíveis fósseis.

Os impactos sobre a economia mundial serão profundos nos próximos meses. O primeiro efeito esperado é o aumento do preço da energia, afetando diretamente transporte marítimo, aviação, geração elétrica e indústria petroquímica. Em seguida, ocorre uma propagação inflacionária global: combustíveis mais caros elevam custos logísticos, pressionam alimentos, manufaturas e bens industriais. Países importadores líquidos de petróleo, especialmente na Europa e na Ásia, podem enfrentar desaceleração econômica combinada com inflação persistente, fenômeno semelhante a processos de estagflação observados em crises energéticas anteriores.

Outro ponto crítico é que o gráfico mostra não apenas uma oscilação pontual, mas uma quebra estrutural do fluxo regular de petroleiros após fevereiro. Isso indica que o mercado passou a incorporar o risco de conflito prolongado no Golfo Pérsico. Em um contexto de estoques globais apertados e recuperação desigual da produção em diferentes regiões produtoras, qualquer interrupção adicional pode desencadear choques ainda mais severos sobre o mercado energético.

No caso brasileiro, os efeitos podem ser particularmente graves para a agricultura de exportação. Embora o Brasil seja produtor relevante de petróleo, o país mantém forte dependência externa de fertilizantes nitrogenados, potássicos e fosfatados, muitos deles associados direta ou indiretamente à dinâmica energética global. A produção de fertilizantes nitrogenados depende intensamente do gás natural — cujo preço tende a subir junto com o petróleo — enquanto fertilizantes potássicos importados possuem cadeias logísticas altamente sensíveis ao custo do transporte marítimo.

Esse cenário pode provocar desabastecimento parcial e aumento expressivo no custo dos insumos agrícolas, afetando especialmente commodities exportadoras como soja, milho, algodão, café e cana-de-açúcar. O agronegócio brasileiro opera em larga escala e com elevada dependência de fertilização intensiva. Caso ocorram atrasos logísticos ou encarecimento prolongado dos fertilizantes, produtores poderão reduzir aplicação de nutrientes, comprometendo produtividade, margens de lucro e competitividade internacional.

Além disso, os impactos tendem a ser desiguais regionalmente. Grandes grupos exportadores podem conseguir absorver parte dos custos ou antecipar compras, enquanto médios e pequenos produtores ficam mais vulneráveis à volatilidade internacional. Isso pode ampliar processos de concentração econômica no campo e pressionar cadeias alimentares internas, elevando preços domésticos de alimentos.

A crise também evidencia uma fragilidade estrutural da economia brasileira: a dependência externa de insumos estratégicos mesmo em um país com enorme peso agrícola e energético. O risco geopolítico no Oriente Médio acaba revelando como a segurança alimentar global permanece profundamente conectada à estabilidade das rotas internacionais de petróleo e gás. Em outras palavras, uma crise militar no Golfo Pérsico pode rapidamente se transformar em inflação agrícola, insegurança alimentar e desaceleração econômica em países distantes como o Brasil.

Tudo isso posto junto revela o quanto foi precipitada e mal calculada a aventura militar comandada pelos EUA e por Israel contra o Irã. Como eu já havia escrito logo no início do conflito, a situação tinha tudo para dar errado. E deu.

Grandes empresas petrolíferas investem bilhões em novos locais de perfuração para escapar da turbulência no Golfo Pérsico

Uma instalação de produção de petróleo ao largo da costa da África Ocidental em 2015.© George Osodi/Bloomberg News

Por Collin Eaton para “Wall Street Journal” 

A Exxon Mobil, a Chevron e outras empresas de energia estão acelerando suas buscas por novas oportunidades de exploração de petróleo e gás, bem longe dos perigos da guerra no Oriente Médio.

A Exxon delineou recentemente um plano potencial para investir até US$ 24 bilhões nos campos de petróleo em águas profundas da Nigéria, enquanto a Chevron expandiu sua presença na Venezuela. A BP adquiriu participações em blocos de petróleo na costa da Namíbia e a TotalEnergies assinou um acordo de exploração com a Turquia. As principais empresas petrolíferas poderão, juntas, gerar US$ 120 bilhões em valor com seus empreendimentos de exploração nos próximos anos, estimou na quinta-feira a empresa de pesquisa e consultoria energética Wood Mackenzie.

Os contratos futuros de petróleo dos EUA estão sendo negociados perto de US$ 88 o barril, acima da faixa de US$ 65 em que oscilavam antes da guerra. Os preços despencaram na sexta-feira depois que o presidente Trump e autoridades iranianas disseram que o Estreito de Ormuz havia sido reaberto. O Irã posteriormente afirmou que o estreito havia sido fechado novamente.

As empresas petrolíferas querem maximizar a sua produção para tirar proveito dos preços mais altos, mas dentro dos limites dos seus orçamentos atuais e sem assumir os custos adicionais de grandes investimentos, disseram pessoas familiarizadas com o assunto.

De acordo com a Wood Mackenzie, as principais companhias petrolíferas, em conjunto, gastaram em média US$ 19 bilhões por ano em exploração global entre 2021 e 2025.

Executivos do setor energético também estão focados em uma missão de longo prazo: encontrar petróleo e gás suficientes para sustentar seus lucros até a década de 2030, disseram algumas fontes. O fechamento do Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento crucial para o petróleo e o gás entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, reteve 20% do consumo diário mundial de petróleo e gás natural liquefeito.

Os ataques do Irã à infraestrutura energética e o gargalo na navegação na região do Golfo Pérsico desencadearam uma corrida global pelo petróleo e reduziram em bilhões de dólares a receita de algumas empresas petrolíferas ocidentais . No entanto, a alta nos preços da energia está proporcionando à indústria petrolífera uma entrada inesperada de capital, que deverá ajudá-la a explorar territórios antes inacessíveis ou abandonados há anos. Esse influxo de capital ocorre após muitas empresas de perfuração reduzirem os gastos com exploração para retornar mais dinheiro aos acionistas.

“Nunca subestime o entusiasmo das pessoas que trabalham na exploração e produção de petróleo e gás ao enxergarem oportunidades. Elas dizem: ‘Nossa, não seria ótimo se pudéssemos fazer isso ou aquilo?’”, disse Edward Chow, pesquisador sênior não residente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais e ex-executivo da Chevron. “Agora, você tem o dinheiro para fazer isso.”

Durante uma teleconferência na quinta-feira com executivos da Exxon, Chevron e outras companhias petrolíferas, o Secretário de Energia, Chris Wright, e o Secretário do Interior, Doug Burgum, os instaram a continuarem aumentando a produção de petróleo para conter a alta dos preços diante de uma iminente escassez de oferta.

Algumas empresas petrolíferas ocidentais com operações no Oriente Médio sofreram perdas significativas. A Exxon afirmou que a guerra reduziu sua produção global de petróleo e gás em 6% no primeiro trimestre. A empresa prevê uma perda de receita de cerca de US$ 5 bilhões por ano, após danos sofridos em instalações de gás natural no Catar. Sua parceira, a Qatar Energy, estimou que os reparos podem levar até cinco anos.

Por ora, espera-se que o setor de petróleo e gás desvie sua atenção do Golfo Pérsico. Poucos dias antes do início da guerra, a Chevron anunciou que estava iniciando negociações exclusivas com a Basra Oil, do Iraque, para adquirir uma participação em um dos maiores campos de petróleo terrestres do mundo, o West Qurna 2. No entanto, analistas afirmam ser improvável que as empresas petrolíferas ocidentais fechem grandes negócios no Oriente Médio até que o conflito esteja totalmente resolvido.

O campo petrolífero de West Qurna 2, no Iraque, em 2014.© Essam Al-Sudani/Reuters

Em vez disso, as consequências econômicas da guerra estão levando as empresas a diversificar seus portfólios e a distribuir o risco de interrupções pelo mundo. As empresas de energia também estão tentando aumentar suas reservas. Os produtores mundiais de petróleo precisam encontrar recursos suficientes para adicionar 300 bilhões de barris às suas reservas coletivas para atender à demanda global até 2050, de acordo com a Wood Mackenzie.

Exxon, Chevron, Shell, BP e TotalEnergies estão analisando atentamente novas oportunidades de perfuração na África, América do Sul e Mediterrâneo Oriental, que poderiam reabastecer suas reservas para a próxima década.

Na semana passada, a Exxon deu um passo importante rumo à perfuração na costa da Grécia. Nos últimos meses, a empresa assinou acordos preliminares de exploração com o Iraque, a Turquia e o Gabão. Em Trinidad e Tobago, a empresa está realizando estudos sísmicos para encontrar petróleo e gás nas águas profundas do país. Os investimentos internacionais da Exxon totalizaram cerca de US$ 9 bilhões no ano passado, incluindo seus projetos em andamento.

Enquanto isso, a Chevron reforçou sua equipe de exploração, inclusive por meio da aquisição da Hess no ano passado, por US$ 53 bilhões. A empresa contratou Kevin McLachlan, ex-executivo da TotalEnergies, para o cargo de vice-presidente de exploração. A Chevron destinou US$ 7 bilhões para investimentos em projetos offshore em todo o mundo neste ano.

Na Venezuela, onde a Chevron é o maior investidor estrangeiro , a empresa concordou na semana passada com um acordo de troca de ativos que fortalecerá sua posição em regiões ricas em petróleo pesado e viscoso, preferido pelas refinarias americanas. A estatal Petróleos de Venezuela vendeu à Chevron uma participação adicional de 13% em uma de suas joint ventures na Venezuela. Outro projeto, no qual a Chevron detém 30% de participação, recebeu direitos de desenvolvimento para uma área vizinha.

Bombas de extração de petróleo perto do Lago Maracaibo, na Venezuela.© Leonardo Fernández Viloria/Reuters

Em uma conferência sobre energia realizada em Houston no mês passado, o CEO da Chevron, Mike Wirth, afirmou que a recente mudança nas leis que regem os contratos de combustíveis fósseis no país é um bom primeiro passo.

“Ainda há coisas que acredito que precisam acontecer para incentivar o investimento na escala que as pessoas gostariam de ver”, disse Wirth. Ele acrescentou que as operadoras na Venezuela precisam de uma resolução de disputas mais duradoura e previsível, entre outras preocupações.

A Casa Branca está pressionando para que mais empresas petrolíferas americanas invistam no setor petrolífero venezuelano, que se encontra em situação precária. A maioria das empresas de perfuração se mostra cautelosa em investir no país após anos de má gestão.

A Chevron planeja realizar trabalhos de exploração ainda este ano no Egito, onde detém 9 milhões de acres líquidos no Mar Mediterrâneo, e confirmou recentemente descobertas substanciais de petróleo no Golfo do México. No início deste ano, a empresa conquistou quatro concessões offshore perto da Grécia, além de um bloco petrolífero na Líbia.

Prevê-se que os preços do petróleo permaneçam elevados nos próximos meses, mesmo que o gargalo no Estreito de Ormuz seja resolvido.

“Preços elevados e sustentados do petróleo são os melhores aliados da exploração”, disse Schreiner Parker, analista da Rystad Energy, uma empresa de pesquisa e consultoria. “A médio e longo prazo, haverá um prêmio de risco atrelado a cada barril extraído do Golfo Pérsico, o que incentivará a exploração em novas áreas.”

Escreva para Collin Eaton em collin.eaton@wsj.com


Fonte: msn.com

Razões não faltam para o Irã se tornar um novo Vietnã estadunidense

Como muitos, venho acompanhando os desdobramentos do ataque combinado de forças dos EUA e de Israel ao Irã. Para além da mídia corporativa nacional e internacional, cuja cobertura me parece excessivamente enviesada, é necessário recorrer a outras fontes para compreender a real dimensão do conflito.

O primeiro ponto é incontornável: em termos convencionais, o Irã não tem como fazer frente ao poderio militar de EUA e Israel. Ambos operam, na prática, como uma força integrada quando se trata de guerra, com superioridade esmagadora em armamentos e capacidade de mobilização. Ainda assim, essa vantagem não encerra a questão.

A experiência histórica mostra que superioridade tecnológica não garante vitória. Como ocorreu no Vietnã e no Afeganistão, os iranianos acumulam décadas de preparação para formas heterodoxas de combate. Isso já se reflete no uso combinado de armamentos antigos e tecnologias mais avançadas. Mais do que isso, o Irã alterou a dinâmica do conflito ao atingir bases e centros estratégicos dos EUA no Golfo Pérsico, transformando uma operação que se imaginava breve em um embate de duração incerta.

O impacto financeiro dessa mudança é significativo. Um único radar, que o Irã afirma ter destruído no Qatar, é avaliado em cerca de 1,1 bilhão de dólares. A isso se somam os danos em diversas bases militares, impondo custos imediatos — como reposicionamento de equipamentos — e, sobretudo, despesas de longo prazo com reconstrução.

No plano estratégico, o simples anúncio do possível fechamento do estreito de Ormuz já produz efeitos globais. Por essa rota passa parcela relevante da produção de petróleo e gás do Golfo Pérsico. Mesmo que se trate de um blefe, o impacto sobre os preços internacionais de combustíveis é imediato, com potenciais consequências econômicas e políticas que extrapolam os países diretamente envolvidos e atingem uma economia global já fragilizada.

A possibilidade de envio de tropas terrestres ao território iraniano adiciona um elemento ainda mais delicado. Ressurge, nesse contexto, o espectro da chamada Síndrome do Vietnã: a perspectiva de um conflito prolongado, em terreno adverso, no qual forças locais exploram vantagens geográficas e táticas para desgastar um adversário tecnologicamente superior.

Diante desse cenário, a ideia de uma guerra rápida e controlada contra o Irã revela-se ilusória. Tudo indica que o conflito tende a se tornar mais complexo, prolongado e potencialmente mais sangrento do que muitos anteciparam.

Ataque ao Irã: a crise capitalista e a grande guerra que se aproxima rapidamente no horizonte

Fordow e o B-2: conheça a usina do Irã e o bombardeiro dos EUA

O ataque das forças armadas dos EUA às instalações nucleares do Irã será noticiado de diversas formas, mas certamente a melhor cobertura não virá da mídia corporativa, seja a nacional ou a global. O problema aqui é que mais do que nunca, informação é algo estratégico demais para ser compartilhado com leigas. Quem nos ensinou isso foi o geógrafo francês Yves Lacoste em seu livro “A Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra” quando ele enuncia que existe a geografia dos bancos escolares e a leigos (a maioria de nós) e a dos Estados maiores que usam as informações geográficas para planejar as guerras que assolam o mundo para garantir o controle de matérias primas e rotas comerciais. Acima de tudo, é preciso lembrar que La Coste disse nesse livro que o “mundo é ininteligível para quem não tem um mínimo de conhecimentos geográficos“.

É preciso notar que o não menos célebre jornalista Seymour Hersh anunciou com precisão horas antes em seu blog no Substack o início dos ataques realizados contra as instalações nucleares iranianas.  Se Hersh sabia do que ia acontecer, acho difícil que não houvesse o devido nível de alerta em Teerã cujos serviços secretos são conhecidos por serem bastante alertas e possuírem agentes infiltrados em diversos serviços de inteligência do mundo. Tanto isto é verdade é que poucas horas depois, agências de notícias iranianas informaram que todo o urânio enriquecido de posse do país tinham sido movidos para outras instalações.

Como consequência da destruição das instalações, o que temos agora é provavelmente uma pulverização locacional do material enriquecido e da dispersão de parte das máquinas de enriquecimento.  Com isso, é provável que o risco dos iraniano possuírem uma bomba atômica tenha aumentado em vez de diminuir.  Com isso, aumentam as chances de uma guerra prolongada, dado que invadir o Irã não é algo factível dada as características geográficas (como geógrafo não posso deixar de notar essa ironia) que tornam o país de difícil invasão terrestre. 

Restará aos EUA e a Israel continuar jogando bombas poderosas para dobrar o Irã militarmente ou esperar que o regime iraniano seja derrubado por alguma revolta interna.  Ambas as possibilidades são cercadas de dificuldades estratégicas, mesmo porque, apesar da torcida de muitos analistas de plantão, as armas iranianas mais modernas ainda não foram usadas e provavelmente estão reservadas para outras fases da guerra que se iniciou com os ataques israelenses e ganha agora maior envergadura com a entrada aberta dos EUA no conflito.

O risco real é que outras forças comecem a se envolver no conflito, pois os interesses geopolíticas envolvidos vão muito além do trio atual. Há que se lembrar que o Irã tem a Rússia e a China como aliados estratégicos, e esses dois países não vão ficar assistindo esta situação de mãos cruzadas, ainda que suas ações não se tornem tão explícitas como as dos EUA.  Assim, ainda que não entrem diretamente no conflito, é provável que russos e chineses irão dar uma mãozinha para o Irã. E essa maõzinha virá reacheada de mísseis e drones de guerra. Com isso, está garantida a instalação de um conflito que começa regional, mas poderá se tornar rapidamente global.

Finalmente, há que se analisar toda essa situação tendo como pano de fundo a grave crise que o sistema capitalista atravessa, tanto do ponto de vista econômico, como do geopolítico. Que os EUA e a União Europeia perderam a corrida contra a China é algo evidente, o que grava os problemas vividos com a hegemonia financeira que marca o funcionamento do capitalismo no Ocidente.  Com isso, uma grande guerra se torna algo quase que inevitável, dado que em momentos de crises sistêmicas, a opção é sempre a guerra. Isto aconteceu nas duas grandes guerras mundiais, e tem toda chance de acontecer agora, ainda que não imediatamente.

Na geopolítica de crise sistêmica, as aparências enganam…e matam

Por Douglas Barreto da Mata 

Desde os primórdios, quando os ajuntamentos de pessoas começaram a disputar territórios e recursos entre si, tão importante quanto o esforço militar de cada parte, era o controle da narrativa. Se a História é a tradução da versão dos vencedores, definir quem, e como se conta essa história é crucial. Desde os papiros até os meios digitais muita confusão e distração foram produzidas, confundindo não só o senso comum, mas também acadêmicos e pessoas dotadas de acesso às informações mais, digamos, qualificadas.

A esquerda brasileira, por exemplo, está tão perdida quanto cego em tiroteio. A mídia brasileira é um caso à parte, com raríssimas e honrosas exceções. Ela não está perdida, ela está na coleira. Jornalistas brasileiros, na maioria, não pensam por si, só reproduzem o conteúdo que vem da matriz, os EUA. É um trabalho constante de sustentação de um pensamento hegemônico global, sem qualquer compromisso com verdade factual, ou intenção de pensar “fora da caixa”.

Assim, em um estranho universo, mídia e esquerda se juntam, cada qual por uma razão distinta, a primeira por burrice, a segunda por má fé, e apresentam visões muito ruins sobre o tabuleiro geopolítico, e claro, sobre os conflitos que envolvem Israel.

Sim, eu sei. Ideologicamente há argumentos para odiar Israel, desde a ideia esdrúxula de sua existência, a partir de 1948, sua posição agressiva a partir de então, e culminando com os episódios recentes, o holocausto palestino e a guerra com o Irã. Eu já disse isso aqui antes.

Uma coisa é uma posição política e afetiva a favor dos mais fracos. Outra é desconhecer a História. Apesar de serem os únicos que confrontam o império estadunidense, e terem sido alvo de agressões por muito tempo, passando pelas Cruzadas e outros embates, as sociedades islâmicas são teocráticas, ultra conservadoras e com hierarquia de classes rígidas. Não são um paraíso socialista.

Lá nos idos do início do capitalismo, e nos períodos anteriores de acumulação primitiva, o Islã reunia condições tecnológicas e científicas muito mais avançadas, e dominavam rotas de comércio cruciais (uma cena ilustrativa é o Saladin oferecendo gelo no deserto para os prisioneiros cruzados, no filme Cruzadas). Foram massacrados em um momento que a História e seus desígnios decidiu quem ia dar o salto Paes uma sociedade de produção capitalista, ou não. Se não fosse por esse motivo, o mundo ocidental não existiria como conhecemos, e talvez Hollywood fosse Meca. Por isso foram massacrados, embora a justificativa tenha sido a fé.

Então é, no mínimo, contraditório, a esquerda desconhecer que combater o autoritarismo israelense não faz sentido, se a escolha for autoritarismo islâmico, que são regimes que praticam o modo de produção capitalista, mais atrasados pelas razões já expostas aí em cima.

Por outro lado, a mídia nacional (sucursal da Casa Branca), bate tambor por Israel, e vende o conto do mocinho contra o bandido, reduzindo a questão a uma luta entre o mundo (ocidental) “esclarecido” e os “bárbaros” do Islã, requentando ódios medievais misturados com ressaca da guerra fria. Não, não se luta por democracia ou por valores universais no oriente médio, a disputa ali é por grana. Aliás, no mundo todo. No entanto, não é só isso.

O que está em colisão são três grandes modelos autoritários, que se colocam em blocos: O complexo sino-indo-russo e associados, aqui juntos o Irã e facções do mundo árabe, e do outro, EUA, Europa, e associados, incluindo Israel e partes do mundo árabe. A América Latina parece hesitar, mas não vai resistir muito, e deve aderir, a um ou outro bloco, no todo ou dividida. Essa parte Sul do mapa talvez seja o local de alternativas genuínas, todas abortadas, é claro, pelo esforço EUA-Europa.

O sucesso chinês e, de certa forma, os relativos sucessos russo e indiano estabeleceram um padrão a ser perseguido pelas potências ocidentais decadentes, que se ressentem do fardo “democrático”, ou seja, da impossibilidade de fazer o capitalismo sem amarras ambientais, eleitorais e de regulamentação, melhor dizendo, impondo rígidas regras para retirar “obstáculos sociais” do caminho, com planejamento verticalizado ao máximo. Se antes chineses eram conhecidos pelas cópias, hoje é o “mundo livre” que deseja o padrão chinês de gestão política do capitalismo.

Diferente da Segunda Guerra, nos dias atuais não há oposição de um suposto bloco “democrático” contra um eixo totalitário. A contenda é para saber quem será o mais autocrático. Esqueça a “vocação humanista europeia”. Essa farsa acabou na tentativa de insuflar a Ucrânia contra a Rússia (outra historinha da mídia nacional).

Mesmo desse jeito, pensando de forma pragmática, o fato é que torcer pelo Irã exige o desprendimento, em outras palavras, vontade de andar a pé e deixar uma pauta de produtos (derivados de petróleo, ou quase tudo) fora de nossa vida ocidental. É Israel que, como preposto militar dos EUA e da Europa, mantém o preço do petróleo em um patamar que nos permite viver. Dura verdade, mas é a verdade.

O Irã é um regime que existe como oposição aos EUA, mas não significa que isso nos favoreça. Talvez aqui e ali, mas não se pode confundir o regime iraniano com aquele que foi derrubado pelos EUA, em 1953, quando o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh prometeu estatizar o petróleo. Naquela época o Irã era um país secular (religião separada do Estado), que foi transformado em uma brutal ditadura pela CIA.

Na década de 1970, os aiatolás mobilizaram a resistência e o ódio, fermentando esse movimento com fanatismo religioso, e o resto todo mundo sabe. O Irã é uma analogia da nossa extrema-direita por aqui, que mistura religião, repressão de costumes, e hierarquias políticas.

Engraçado é também assistir os ultra direitistas atacando o Irã e a Palestina, quando nesses locais estão instalados regimes que esses contingentes políticos nacionais desejam instalar no Brasil Religiosos, autocráticos e ultra capitalistas.

A geopolítica, às vezes, exige deslocamentos e alinhamentos temporários, demanda sopesarmos qual é mal menor, e o que é ou não possível para alcançar um objetivo estratégico. Acima de tudo, requer bom senso. Eu leio muita gente boa por aí babando russos e chineses, imaginando um mundo cor de rosa pós EUA.

Não creio que a solução para a esquerda e para o Brasil seja mudar de dono. Ao mesmo tempo, a aversão que a extrema-direita brasileira tem pelo Islã e China, ou o amor incondicional ao EUA não se justificam.

Marina Silva declara ‘guerra’ ao fogo enquanto fumaça cobre Brasília e São Paulo

Ministra do Meio Ambiente sugeriu que ações criminosas estão por trás do aumento de incêndios florestais, fechando escolas e suspendendo voos

fumaça rbFumaça cobre rodovia em Ribeirão Preto, no nordeste do estado de São Paulo. Fotografia: Joel Silva/Reuters

Por Tom Philips, no Rio de Janeiro, para o “The Guardian” 

Marina Silva, ministra do Meio Ambiente do Brasil, declarou que seu país está “em guerra” com o fogo depois que uma onda histórica de incêndios — das profundezas da Amazônia ao sudeste rural — cobriu Brasília e São Paulo com fumaça, proibiu voos e forçou o fechamento de escolas.

Falando após uma reunião de emergência com o presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo, Marina Silva chamou o pico repentino de incêndios florestais no interior do estado de São Paulo de “incomum” e disse que a polícia federal estava investigando as causas. Três pessoas foram presas.

Alguns temem que o Brasil possa estar testemunhando uma repetição do Dia do Fogo de 2019 : uma onda de conflagrações deliberadas e politicamente carregadas que devastaram a floresta amazônica no primeiro ano da presidência ambientalmente calamitosa de Jair Bolsonaro.

Referindo-se à situação em São Paulo, Marina Silva, uma ambientalista veterana, disse aos repórteres: “Em praticamente dois dias, vários municípios estão queimando ao mesmo tempo. Isso não faz parte da nossa curva de experiência em todos esses anos que estamos trabalhando com fogo.

“Esta é uma verdadeira guerra contra o fogo e contra o crime”, acrescentou o ministro após visitar a sede do órgão de proteção ambiental Ibama com Lula.

Três dos seis biomas brasileiros — a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado — vêm sentindo o calor desde o início deste ano, com o primeiro registrando o maior índice de incêndios em quase 20 anos no primeiro semestre de 2024. Especialistas e autoridades atribuem esses níveis recordes de destruição a uma seca feroz agravada pela crise climática e pelo fenômeno natural El Niño .

“O Brasil está em chamas”, disse Cristiane Mazzetti, uma ativista florestal do Greenpeace Brasil, que disse que o país estava preso em “um ciclo vicioso de queimadas”. “Ao mesmo tempo em que os incêndios florestais produzem gases de efeito estufa e agravam as mudanças no clima que causam extremos climáticos, como secas extremas prolongadas, essas secas severas e prolongadas também causam a intensificação dos incêndios florestais.”

Mas é a situação no estado economicamente mais importante do Brasil, São Paulo, que chamou a atenção do público nos últimos dias. Enquanto os incêndios devastavam os campos de cana-de-açúcar e fazendas rurais, as redes sociais se encheram de imagens de pesadelo mostrando colunas de fumaça preta subindo em céus laranja e cinza.

“O apocalipse chegou”, tuitou uma moradora de Campinas, cidade a cerca de 112 km de São Paulo, ao lado de imagens do incêndio tóxico de cor tangerina do lado de fora de sua janela.

Mais ao norte, em Altinópolis, centenas de ravers foram forçados a fugir de um festival de música eletrônica enquanto as chamas consumiam seu acampamento e palco. “Foi assustador”, disse uma frequentadora da festa em pânico, Isabella Rocha, à CNN Brasil.

Na segunda-feira, houve cenas mais terríveis na capital, Brasília, onde os céus cheios de fumaça se assemelhavam aos de um apocalipse aéreo urbano chinês . Mais de uma dúzia de voos foram cancelados na cidade vizinha de Goiânia no domingo devido à má visibilidade.

Em declarações à rede de TV GloboNews, o diretor do Ibama, Rodrigo Agostinho, disse que a seca extrema deste ano deixou a Amazônia e o Pantanal particularmente vulneráveis ​​às chamas.

“Mas … o fogo não aparece espontaneamente”, ele continuou, notando que nenhum dos incêndios recentes pareceu ter sido provocado por raios. “A maioria dos incêndios no Brasil foi provocada por alguém: às vezes … para destruir a floresta, às vezes … por sadismo”, Agostinho acrescentou sobre a “temporada de queimadas” anual, quando os fazendeiros tradicionalmente limpam a terra com fogo.

Ele disse que 3.000 bombeiros estavam lutando para controlar os incêndios em meio a temores de que o problema se intensificaria entre agora e outubro. “[Mas] o que vimos em algumas regiões é que assim que apagamos o fogo aqui, logo ali alguém o ateou novamente. Isso precisa parar.”


Fonte: The Guardian

No contra-ataque iraniano a Israel, o que mais importa é a mensagem

ataque iraniano

No dia 01 de abril, Israel bombardeou a embaixada iraniana em Damasco, capital da Síria, e matou pelo menos um general, além de causar a destruição generalizada do edifício. A resposta ocidental capitaneada pelos EUA foi um misto de passar a mão na cabeça de Benjamin Netanyahu que ordenou o ataque com uma forte preocupação com a reação iraniana que iria inevitavelmente acontecer.

Passadas menos de duas semanas, a resposta iraniana veio em um mistura de drones militares, mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro. Logo após o fim do bombardeio, o governo de Israel veio a público dizer que havia interceptado 99% das armas iranianas, o que implicaria que o esforço iraniano teria sido facilmente neutralizado.

Após estes acontecimentos, este domingo deverá ser repleto de reuniões políticas, incluindo uma do Conselho de Segurança da ONU, onde a maioria aliada aos EUA deverá apoiar as reclamações israelenses, causando a emissão de declarações de denúncia ao regime iraniano. Essas declarações terão efeito próximo de zero, na medida em que China e Rússia deverão vetar qualquer resolução condenando o Irã.

A preocupação real é, na verdade, com a eventual resposta de Israel que poderá optar por contra-atacar o território iraniano, como é desejo antigo de Benjamin Netanyahu que necessita ampliar o seu arco de guerra para não ser defenestrado do cargo de primeiro-ministro, o que deverá ser seguido pelo seu aprisionamento por motivos crimes do colarinho branco para os quais existem provas suficientes para sua condenação pela justiça israelense.

Uma coisa que vem sendo dita é que o ataque iraniano, além de ter sido telegrafado para quem poderia impedir o sucesso do ataque (no caso os EUA, o Reino Unido, França, e também Israel), também utilizou armas que não estão na linha de frente do arsenal da república islâmica. Esses dois fatos são vistos como uma falta de desejo (ou hesitação) dos iranianos em iniciar uma guerra ampla com Israel, visto como mais poderoso e recheado de aliados ainda mais poderosos (a começar obviamente pelos EUA).

Esse é um raciocínio que despreza o fato de que a simples decisão do Irã de atacar o território israelense é algo que desafia frontalmente o status quo vigente pelo menos desde a derrota árabe na breve guerra do Yom Kippur em 1973. A verdade é que esse ataque, em meio à resistência palestina em Gaza, acaba demonstrando que Israel não é mais visto como invencível e que pode sim ser desafiado militarmente. Esse não é um desdobramento qualquer, pois se essa percepção de fraqueza se sedimentar, o que não faltará no Oriente Médio vai ser gente querendo realizar ataques contra alvos israelenses, seja dentro de Israel ou fora dele.

O que está posto pelo contra-ataque iraniano é um aumento exponencial da volatilidade política não apenas do ponto de vista regional, como também global. É que a economia global já vinha sendo perturbado fortemente pela ação das milícias iemenita Houthi que vem afetando o trânsito de navios comerciais no Mar Vermelho, uma região vital para o comércio internacional.

A questão que fica é se teremos ou não uma guerra regional ampliada a partir do contra-ataque iraniano.  Eu diria que apesar dos desejos do primeiro-ministro israelense, a questão palestina vai acabar pesando contra essa possibilidade. É que com os pés atolados em Gaza, a abertura de uma frente mais ampla contra o Irã, obrigaria aos principais patronos de Israel, os EUA, a entrarem diretamente no teatro de guerra.

De toda forma, a bola agora está com Benjamin Netanyahu, o que certamente não contribui para gerar uma expectativa de apaziguamento para a situação explosiva que ele mesmo criou. 

Após 2 anos de guerra, ucranianos estão ficando mais descontentes com os rumos do seu país

ucrania guerra

Por Katharina Buchholz para o Statista

Os ucranianos permaneceram firmes na sua crença na vitória contra a Rússia durante grande parte do rescaldo da invasão que começou em Fevereiro de 2022. Agora, dois anos depois, esta base começa a tremer.

Os dados do inquérito divulgado recentemente pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev mostram que, embora quase 70% dos ucranianos afirmassem, pouco depois do início da guerra, que o seu país estava avançando na direção certa, este número diminuiu agora para apenas 44%. A porcentagem de entrevistados que afirmaram que o país estava seguindo o caminho errado aumentou no mesmo período, de apenas 16% para 46%.

Depois de a tão esperada contra-ofensiva da Ucrânia ter fracassado em 2023, o novo ano começou com más notícias para as forças de defesa do país, uma vez que a Rússia reconquistou território no meio de questões de reabastecimento militar por parte dos aliados ocidentais da Ucrânia.

O crescente descontentamento também aparece em outras pesquisas do instituto , embora de forma mais lenta. Também em Fevereiro, apenas 60 por cento dos ucranianos disseram que o seu país venceria definitivamente a guerra e 29 por cento disseram que provavelmente o faria. Este é um resultado baixo para a Ucrânia , considerando que em Maio de 2022, 80% estavam certos da vitória e outros 15% esperavam-na. Embora em Maio de 2022, 90% dos ucranianos afirmassem confiar no presidente Wolodymyr Zelensky, este mês este número mudou para apenas 60%.  Enquanto isso, 69% ainda disseram que era correta a decisão de cancelar as eleições deste ano e que Zelensky permanecesse no poder até depois do fim da lei marcial.

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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo Statista [Aqui! ].

Bilhões de pessoas ameaçadas pela fome no mundo, mas a prioridade do Ocidente é fazer guerras

As organizações da ONU estão soando o alarme em vista dos números persistentemente altos. A vontade política que sobra para fazer guerra, falta para combater a fome

trigoImportante para a nutrição global, mas atualmente em perigo: colheita de trigo na Ucrânia (08/09/2022)

Por Ina Sembdner para o JungeWelt

Enquanto a riqueza global continua a crescer, bilhões de pessoas permanecem sem acesso seguro e regular a alimentos suficientes. 2,4 bilhões de pessoas, para ser preciso, o que representa quase 30% da população mundial. Este número para o ano passado vem do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2023“, publicado em Roma na quarta-feira pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD), o Fundo das Nações Unidas para a Infância UNICEF, o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além disso, milhões de pessoas – sobretudo na África, onde uma em cada cinco é afetada – voltaram a sofrer várias formas de fome. Também em 2022, havia 739 milhões, quase tanto quanto em 2021 e ainda significativamente mais do que antes da pandemia de corona em 2019, quando havia cerca de 613 milhões de pessoas sofrendo de fome ou desnutrição. A Organização das Nações Unidas, na verdade, havia se proposto a querer eliminar a fome no mundo até 2030 – o que, diante dos acontecimentos atuais, é ilusório. No prefácio do relatório, os chefes das cinco organizações da ONU agora têm que admitir que 600 milhões de pessoas ainda passarão fome em 2030. E continua a “vontade política” de “implementar soluções em larga escala”, como reclama o presidente do FIDA, Álvaro Lario. “Podemos erradicar a fome

No entanto, o mundo ocidental está longe disso. A principal prioridade aqui é a guerra e a militarização. Além de conflitos como na Síria ou no Iêmen e os efeitos da mudança climática, o relatório culpa a Rússia e sua invasão da Ucrânia “com suas consequências para o abastecimento de grãos nos países mais pobres”. Nem uma palavra sobre as consequências das sanções ocidentais, que afetam severamente o comércio de fertilizantes.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

O conflito na Ucrânia já tem ganhadores: os especuladores financeiros

trigoColheita de trigo na Índia

Por JungeWelt

Em vista do aumento dos preços nos mercados agrícolas como resultado da guerra na Ucrânia, a organização de proteção ao consumidor Foodwatch está pedindo barreiras mais fortes às apostas financeiras que impulsionam os preços. Em vista da iminente crise de fome em alguns países, “apostar” nos preços das commodities agrícolas é insuportável, disse o diretor de estratégia do Foodwatch, Matthias Wolfschmidt. “É necessária transparência sobre quem tem quais reservas de grãos – esta é a única maneira de combater o medo da escassez.” Ele exige que a UE estabeleça limites efetivos de especulação e acabe com as apostas no aumento dos preços.

Os preços subiram porque empresas e governos temiam que não pudessem mais comprar trigo, óleo de girassol ou outros alimentos básicos, disse Wolfschmidt. Os especuladores financeiros alimentaram isso ainda mais apostando no aumento dos preços nas bolsas de commodities. O setor financeiro já é um vencedor do ataque russo, criticou o Foodwatch. Os reguladores da UE e dos EUA continuaram a carecer de ferramentas eficazes para limitar a especulação. (dpa/jW)


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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui! ].