A reportagem da jornalista Camila Souza Ramos, publicada no Valor Econômico, traz um dado que deveria soar como um alerta para toda a sociedade brasileira: o eventual fim da Moratória da Soja poderá provocar perdas estimadas em US$ 8,2 bilhões em serviços ecossistêmicos ao longo da próxima década. Um artigo publicado na revista Nature Communications Earth & Environment, demonstra que o desmatamento adicional poderá comprometer funções essenciais da floresta amazônica, como a formação de chuvas, a manutenção da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a geração de energia hidrelétrica.
Embora os números econômicos impressionem, o aspecto mais preocupante talvez seja outro. A Moratória da Soja nunca foi um instrumento perfeito. Desde sua criação, em 2006, ela contribuiu para reduzir a expansão direta da soja sobre áreas recentemente desmatadas na Amazônia, mas não impediu outros vetores de destruição florestal. A pecuária continuou avançando sobre vastas áreas, a grilagem de terras públicas permaneceu ativa e a degradação causada pela exploração madeireira, pelos incêndios e pela abertura de estradas seguiu corroendo a integridade da floresta. Em outras palavras, mesmo com a moratória em vigor, o quadro sempre esteve longe de ser satisfatório.
É justamente por isso que sua eventual extinção representa um risco muito maior do que o simples desaparecimento de um acordo setorial. A retirada desse importante mecanismo de controle poderá transmitir ao mercado um sinal de flexibilização das regras ambientais, estimulando uma nova corrida pela conversão da floresta em áreas agrícolas. Num contexto em que a fiscalização ambiental continua sofrendo com restrições orçamentárias e operacionais, essa mudança tende a acelerar tanto o desmatamento quanto a degradação florestal, tornando muito mais difícil conter o avanço da fronteira agrícola sobre a Amazônia.
Os efeitos dessa dinâmica não se restringem à Amazônia. A perda da cobertura florestal reduz a reciclagem de umidade responsável pela formação dos chamados “rios voadores”, afetando a disponibilidade de água e a regularidade das chuvas em boa parte da América do Sul. O prejuízo alcança diretamente a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento urbano, comprometendo atividades econômicas muito além da região amazônica. Diversos estudos científicos já demonstraram que a continuidade do desmatamento e da degradação florestal aproxima a Amazônia de um ponto de inflexão ecológica, cujas consequências atingirão de forma particularmente severa a própria produção agropecuária na Amazônia e no Cerrado.
Outro mérito da reportagem é mostrar que os custos da destruição da floresta não podem ser medidos apenas pelo valor da madeira ou da terra convertida em lavoura. Os serviços ambientais prestados pela Amazônia sustentam processos ecológicos que permitem o funcionamento da própria economia brasileira. Quando esses serviços desaparecem, toda a sociedade paga a conta, ainda que ela não apareça imediatamente nos indicadores econômicos tradicionais.
O debate sobre o futuro da Moratória da Soja, portanto, vai muito além dos interesses imediatos do setor exportador. O que está em jogo é se o Brasil continuará preservando um dos poucos mecanismos que, mesmo com limitações, ajudou a conter parte da expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia, ou se aceitará o risco de entrar em um novo ciclo de devastação. Se com a moratória a situação já era precária, sua eliminação poderá tornar o desmatamento e a degradação florestal praticamente incontroláveis, aprofundando uma crise ambiental que ameaça o equilíbrio climático, a segurança hídrica e o próprio futuro da produção agrícola brasileira.
Há, porém, um aspecto que torna esse debate ainda mais inquietante. Não é mais possível esperar racionalidade de um segmento do agronegócio que insiste em agir de forma profundamente irracional, mesmo diante do acúmulo de evidências científicas sobre os impactos econômicos do desmatamento e da degradação florestal. Pesquisas científicas realizadas por instituições brasileiras e internacionais demonstram de maneira consistente que a destruição da Amazônia compromete o regime de chuvas, intensifica secas e ondas de calor, reduz a disponibilidade hídrica e ameaça a produtividade agropecuária tanto na Amazônia quanto no Cerrado. Ainda assim, parcelas influentes desse setor continuam pressionando pelo enfraquecimento dos instrumentos de proteção ambiental em nome de ganhos imediatos, ignorando que essa estratégia destrói justamente as bases ecológicas que sustentam sua própria atividade econômica.
Defender o fim da Moratória da Soja, portanto, não representa apenas um retrocesso ambiental. Representa também uma aposta temerária contra a ciência e contra o futuro da agricultura brasileira. A ironia é evidente: em nome de ampliar a produção no presente, esses setores trabalham para inviabilizar as condições climáticas que permitirão produzir no futuro. É difícil imaginar uma demonstração mais clara de irracionalidade econômica e ambiental.
