Relatório lança luz sobre os negócios da Harvard University no mercado de terras em cinco continentes

PT Map Harvard global farmland holdings

Uma investigação realizada pela GRAIN e pela ONG brasileira Rede Social de Justiça e Direitos Humanos revelou os caminhos pelos quais o fundo patrimonial (endowment) da Universidade de Harvard manipulou um obscuro esquema comercial para adquirir o controle sobre cerca de 850.000 hectares de terras agrícolas em cinco continentes, ao longo dos últimos dez anos. O relatório produzido pela investigação detalha os negócios agrícolas de Harvard e seus vínculos com diversos conflitos por terra e por água, inclusive casos de grilagem no Brasil.

“Estimamos que o fundo patrimonial de Harvard gastou mais de US$ 1 bilhão na última década comprando fazendas ao redor do mundo, muito mais do que qualquer outro fundo patrimonial ou de pensão”, afirma Devlin Kuyek, pesquisador da GRAIN. “Fizeram investimentos de alto risco aparentemente com pouca precaução (due diligence) em algumas das áreas mais atingidas por conflitos no mundo, como África do Sul e o nordeste do Brasil.”

Os investimentos de Harvard em terras agrícolas foram estruturados através de uma rede encoberta de subsidiárias, registradas em várias jurisdições, como a do estado norte-americano de Delaware e a das Ilhas Cayman. A GRAIN e a Rede Social analisaram detalhadamente as declarações de impostos de renda de algumas das principais subsidiárias do fundo para montar um quadro abrangente das aquisições de propriedades agrícolas pelo mundo, e então verificaram os impactos de algumas dessas transações sobre comunidades locais.

“Identificamos fazendas de quase 300.000 hectares que a Universidade de Harvard comprou no Cerrado brasileiro, a savana mais biodiversa do mundo”, relata Daniela Stefano, pesquisadora da Rede Social. “Nossa pesquisa sobre esses empreendimentos revela que Harvard se envolveu em grilagem, danos ambientais e a destruição de fontes de água das comunidades locais.”

As transações fundiárias da Universidade norte-americana no Brasil se concentram no nordeste do Cerrado, onde terras tradicionalmente trabalhadas por comunidades locais estão sendo tomadas num ritmo frenético por empresas de agronegócios, para a produção em escala de culturas comerciais como soja e cana.

“Descobrimos vários casos em que Harvard comprou terras de grupos brasileiros com títulos inválidos sobre os imóveis”, segundo Daniela. “Em alguns desses casos, as comunidades locais haviam sido forçadas a saírem das terras. Em outros, persistiam litígios de longa data sobre as terras, que Harvard não poderia ignorar.”

As aquisições arriscadas de terras agrícolas pela Universidade renderam compensações de milhões de dólares para os gerentes de seu fundo e para seus parceiros comerciais. No entanto, parecem ter prejudicado os ganhos do próprio fundo patrimonial. No ano passado, após uma reavaliação de seus investimentos em madeira e terras agrícolas, o fundo patrimonial da universidade determinou a redução de sua carteira de “recursos naturais” em US$ 1,1 bilhão.

“A experiência de Harvard no negócio de terras agrícolas deve servir de lição para investidores institucionais ainda inclinados a se envolverem no setor”, adverte Kuyek. “Os riscos que os gerentes de fundos de Harvard assumiram deixaram um rastro de conflitos sobre terra e água, ainda sem solução.”

A GRAIN e a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos propõem que os estudantes, professores e ex-alunos de Harvard exijam que o fundo patrimonial da Universidade suspenda todos os investimentos em terras agrícolas e que adote medidas imediatas para resolver todos os conflitos fundiários relacionados a seus ativos agrícolas atuais. A universidade precisa garantir que as comunidades atingidas por seus investimentos em terras sejam adequadamente compensadas pelos danos.

Baixar o relatório (disponível em Português, Inglês, Francês e Espanhol): https://www.grain.org/e/6008

Contatos para jornalistas:

Daniela Stefano, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos São Paulo, Brasil 
daniela.stefano@gmail.com
+ 55 11 94907-5921
www.social.org.br

Devlin Kuyek, GRAIN Montreal, Canadá devlin@grain.org +1 514 571-7702 www.grain.org

GRAIN è uma pequena organização internacional sem fins lucrativos que promove os sistemas alimentares com base na biodiversidade e o controle comunitário.

Rede Social de Justiça e Direitos Humanos promove a defesa legal, pesquisa, educação popular e suporte jurídico para garantir uma política de direitos humanos econômicos, sociais, cuturais e civis para os movimentos sociais do Brasil.

Harvard University, a latifundiária, enfrenta problemas por seus investimentos na América Latina

Os multimilionários e polêmicos investimentos da Universidade de Harvard em terras na América Latina

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Harvard é considerada uma das melhores universidades do mundo e também é a mais endinheirada. Getty Images

Alguns discutem se Harvard é a melhor universidade do mundo. Mas ninguém duvida de que seja a mais endinheirada.

Seu patrimônio próprio, superior a US$ 36 bilhões (o equivalente a R$ 142 bilhões), ultrapassa o PIB de países como Paraguai, Honduras ou El Salvador.

Harvard é, em si, uma potência não apenas em termos de prestígio, mas também econômica. E nos últimos anos decidiu investir em terras na América Latina (Brasil incluído), uma opção que lhe tem trazido dores de cabeça – algumas delas por causa de terras que comprou na Bahia.

Críticos acusam a instituição de má gestão ambiental, de adquirir imóveis com irregularidades nos títulos de propriedade e, no melhor dos casos, de ter feito um mau negócio.

Tudo começou com o colapso financeiro global de 2007, quando os mercados de ações despencaram em todo o planeta.

Como muitos dos destinos tradicionais de seus investimentos estavam em dificuldades por causa da crise econômica, os especialistas financeiros que administram o patrimônio de Harvard decidiram embarcar em uma estratégia de compra de terras agrícolas em países em desenvolvimento, inclusive a América Latina, esperando que essas fazendas mantivessem a rentabilidade que não se via mais em Wall Street.

Harvard investiu em terras rurais no Uruguai, no Chile, na Argentina e no Brasil, entre outros países da região.

Venda de terras

Mas o investimento se justificou? Em muitos casos, parece que não.

Em outubro de 2017, a Harvard Management Company, empresa que administra os investimentos da universidade, anunciou que reduziu em US$ 1 bilhão (R$ 3,94 bilhões) o valor estimado de sua carteira de investimentos em recursos naturais em todo o mundo, ante o fraco desempenho desses negócios.

Foi então anunciada, entre outras medidas, a venda de uma fazenda no Uruguai, cujo valor se estimava em US$ 120 milhões (R$ 473,35 milhões) e incluía 20 mil hectares de plantações de eucalipto.

brasil harvard

Vista aérea do interior do Brasil: terras no país e em outros da América Latina foram compradas por Harvard

Mas a rentabilidade insatisfatória dessas propriedades poderia ser apenas um dos problemas de Harvard como proprietária de terras na América Latina.

Há vários anos, entretanto, a instituição também enfrenta uma controvérsia legal por causa de sua propriedade na Bahia, com 140.000 hectares e comprada por intermédio de uma subsidiária, a Caracol Agropecuária.

De acordo com a agência de notícias Bloomberg, alguns questionam em Harvard se o negócio foi feito, de fato, com os legítimos proprietários.

Algum tempo atrás, vários agricultores da região foram à Justiça brasileira argumentar que, há mais de uma década, eles praticavam agricultura de subsistência nessas fazendas, que eram então propriedade do Estado.

Os agricultores afirmam que foram expulsos irregularmente da área por um grupo de latifundiários brasileiros, supostamente com títulos de propriedade, e então a venderam a Harvard.

As autoridades brasileiras estudam há anos essas supostas irregularidades.

Um relatório apresentado em 2014 por uma comissão estadual argumentou, segundo a Bloomberg, que sua recomendação era revogar títulos de propriedade – descritas como resultado de um “festival de procedimentos irregulares e ilegais que resultaram na usurpação de terras públicas”, situação sucedida pela compra o terreno pela Caracol, a empresa associada a Harvardo.

As autoridades do Estado da Bahia “estão decidindo se entrarão com uma ação para reivindicar a propriedade dos títulos”, observou a Bloomberg no final de abril.

Mas não há notícias de medidas legais concretas tomadas contra Harvard, apesar de a disputa estar em curso há tantos anos.

Questionada sobre o caso pela BBC News Mundo, a Harvard Management Company informou que adota a política de não comentar “investimentos específicos”.

Queixas ambientais

Imagem mostra pessoas caminhando em frente à Universidade de Harvard
Com muitos dos destinos tradicionais de seus investimentos em dificuldades por causa da crise econômica, Harvard direcionou seu foco a áreas agrícolas de países da América Latina. Getty Images

As polêmicas não param por aí. Harvard também foi acusada por ativistas em pelo menos dois países latino-americanos de comportamentos inadequados em relação ao meio ambiente.

No Chile, o governo local de Chiloé anunciou ações legais contra a Agricola Brinzal, pertencente a Harvard, acusando-a de derrubar florestas nativas e reflorestá-las com espécies estrangeiras.

Segundo o CIPER, Centro de Investigação Jornalística do Chile, “desde 2004, a Universidade de Harvard criou pelo menos 11 empresas no Chile para explorar o negócio florestal”.

“Uma delas é a Agrícola Sapling e Pólo, que enfrenta dois processos judiciais,” supostamente pelo corte ilegal de 76 hectares de mata nativa, afirma o Centro.

Na Argentina, de acordo com reportagem do jornal Clarín, “Harvard possui terras no país e seus alunos a acusam de explorá-las mal”. O jornal acrescenta que a instituição “tem 87 mil hectares na cidade de Corrientes, onde produz madeira”.

Imagem mostra estudantes de Harvard em momento de comemoração, durante cerimônia de formatura
A despeito da polêmica sobre seus investimentos, Harvard continua sendo muito rica. E seu prestígio acadêmico se mantém avassalador. Getty Images

Grupos de ativistas, alguns deles alunos da universidade, acusaram a empresa de ter iniciado uma atividade de exploração florestal que poderia ser prejudicial ao meio ambiente.

A propriedade em questão era usada na plantação de pinheiros e eucaliptos em uma área ambientalmente sensível perto da reserva natural de Ibera, na província argentina de Corrientes.

Quando questionada sobre as queixas que suas propriedades no Chile e Argentina enfrentam, a Harvard Management Company repetiu, em nota à BBC News Mundo, que não comentaria sobre investimentos específicos.

Independentemente das controvérsias ambientais que enfrentou no passado, Harvard parece ter tomado a decisão de reduzir sua participação nos negócios agrícolas na América Latina e em outras regiões do mundo.

Como afirma o jornal britânico Financial Times, em reportagem recente sobre as explicações que os administradores financeiros da universidade têm apresentado, “a mensagem é que era difícil avaliar corretamente os ativos, que era fácil pagar demais por eles no início, que a rentabilidade podia ser ilusória e reposicionar a carteira de investimentos poderia levar anos”.

FONTE: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45221050

Harvard envolvida com grilagem de terras no Brasil

grilagem harvard

Fraudes cartoriais, expulsão de trabalhadores rurais e desmatamento ilegal marcam a história da área de 140 mil hectares do Oeste na Bahia comprada por fundo da universidade americana

Por Flavia Milhorance*

(Colaborou Alícia Prager) Edjarsson Cardoso coloca uma pasta de documentos antigos na mesa de sinuca de um bar mal iluminado em Riachão das Neves, no Oeste da Bahia. Numa manhã chuvosa de domingo, ele reuniu outros seis homens que queriam nos dar provas de sua luta de 20 anos por um pedaço de terra. Todos foram gradualmente expulsos de onde viviam e plantavam comida. Depois de passar por outras mãos, hoje o imóvel pertence a uma subsidiária do fundo patrimonial da Universidade de Harvard.

A história desses sete homens e suas terras perdidas é uma amostra de como as investidas financeiras do fundo de Harvard na agricultura brasileira estão cercadas por acusações de fraudes cartoriais, desmatamento ilegal e expulsão violenta de agricultores de suas casas. E não se trata de um caso isolado. Desde a crise financeira de 2007-08, investidores internacionais vêm buscando ativos menos arriscados e mais rentáveis. Encontraram solo fértil na especulação com a compra de terras em países emergentes, como o Brasil. O aumento da demanda impulsiona as desapropriações de trabalhadores, muitas vezes por meio de grilagem, além de pressionar pelo desmatamento de biomas, como o do Cerrado.

Segue a luta: o grupo de agricultores que não desistiu das terras (Foto Alicia Prager)
Segue a luta: o grupo de agricultores que não desistiu das terras (Foto Alicia Prager)

Ameaças que levam à expropriação

A gleba Campo Largo está do lado esquerdo do Rio Grande, em Cotegipe, município próximo a Riachão das Neves. A área de 140 mil hectares, maior do que a cidade do Rio de Janeiro, está  no centro da disputa. Nos anos de 1990, cerca de 240 famílias de pequenos agricultores começaram a se estabelecer no local inabitado que, segundo souberam pelo programa de Reforma Agrária, pertencia ao governo (eram as chamadas terras devolutas). A região onde há a interseção do Cerrado com a Caatinga tinha pouca água, mas grande potencial de produção.

Os agricultores fizeram empréstimos, construíram suas casas e plantaram milho, feijão, arroz e mandioca. Também começaram a pagar os impostos relativos à terra, à espera da regularização de posse. Não tinham títulos, como muitos do Brasil rural. Antes trabalhadores de grandes fazendas, eles estavam ajeitando a vida de uma forma mais independente. Mas, ainda naquela década, começaram a sofrer ameaçadas para deixar o lugar.

Casas de agricultores destruídas em 2010: segundo ONG ação foi de pistoleiros (Foto de divulgação)
Casas de agricultores destruídas em 2010: segundo ONG ação foi de pistoleiros (Foto de divulgação)

“Pessoas armadas começaram a chegar aqui, colocar cercas, queimar plantações, destruir nossas casas”, contou Edjarsson, representante de uma associação de 22 famílias que reivindicam 50 hectares de terra cada. Ele também fugiu das ameaças e se estabeleceu em Riachão das Neves, onde vive de aposentadoria.

Muitos simplesmente desistiram da terra com medo da violência. Mas as famílias que resistiram seguem brigando pelos 1,100 hectares, uma ínfima parte da propriedade em jogo.

“Não pedimos muito. Só queremos colocar um fim nesse negócio de pistoleiro e ter o direito de ir e vir. Eu mesmo já fui ameaçado por homens armados na época, apontaram a arma para mim”, diz Antônio Augusto França. “Nós estamos sofrendo as consequências há 24 anos. Estamos todos pobres, velhos, cansados e doentes”.

Títulos forjados e desmatamento ilegal

Com a violência se intensificando, o Estado da Bahia decidiu intervir. Em 2014, a Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA) do governo baiano concluiu uma ação discriminatória rural, uma perícia  que mapeou a situação da propriedade, recolhendo matrículas e depoimentos. Na denúncia, o procurador responsável pelo caso, Estácio Marques Dourado, concluiu que as terras foram “usurpadas” do estado através de “irregularidades cartoriais absurdas”, com a expulsão violenta de trabalhadores e “preocupantes agressões ambientais”. Também confirma a morte de um homem no conflito, sem dar detalhes.

“Esta (ação) discriminatória constitui-se – em extensão territorial – na maior já realizada pelo Estado (da Bahia)”, escreveu Dourado. A conclusão da ação discriminatória, à qual tivemos acesso, foi encaminhada à Procuradoria Geral do Estado (PGE) da Bahia pedindo a anulação das matrículas das terras, que foram adquiridas “de formas fraudulentas, irregulares e, portanto, ilegítimas”, acrescentou o procurador.

No entanto, ainda não houve abertura judicial do processo. “Posso afirmar que houve pressão de políticos ligados ao agronegócio para o caso não andar”, diz Maurício Correia, da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais do Estado da Bahia. Agora, o grupo planeja pressionar a PGE para dar continuidade ao processo.

Ligamos para a CDA, mas Dourado não trabalha mais na instituição e não conseguimos localizá-lo. Também contactada, a PGE diz que o processo está, sim, correndo e que a entidade vinha tentando uma mediação com os envolvidos.

“A questão transcende um litígio fundiário, mas envolve a própria atividade econômica predominante na região, com geração de empregos, e cujas conseqüências provocariam efeitos colaterais sociais graves”, justificou por nota a procuradora-chefe da Procuradoria Administrativa da PGE-BA, Bárbara Camardelli Loi.

Ela acrescenta que a Caracol não conseguiu justificar a posse da terra pela documentação e, “menos ainda, (como foi) capaz de formar o latifúndio hoje registrado em nome da empresa”. Com isso, diz ela, “a tentativa não obteve êxito”. Em fevereiro agora, a procuradora recomendou, portanto, a abertura de uma ação judicial, que deverá ser instaurada em breve, segundo o órgão, pedindo que as terras sejam devolvidas ao Estado

Propriedade internacional

As terras passaram de mãos em mãos desde a década de 1970. Do deputado estadual Márcio Cardoso, falecido, para o fazendeiro piauiense José Oduvaldo Oliveira Souza, e, por final, para a companhia sulista Caracol Agropecuária LTDA, criada em 2007. Esta última transição de propriedade ocorreu por partes entre 2008 e 2012.

O capital investido nessa terra vem de sócios estrangeiros.

A Caracol pertence à Harvard Management Company (HMC), que gerencia e faz parte do fundo patrimonial  (chamado endowment) da Universidade de Harvard. Mas esta ligação não é direta: a HMC detém duas subsidiárias que controlam a Caracol: Guara LLC e Bromelia LLC – como mostram dados da Receita Federal e da declaração de impostos da HMC  – este último vazado ao público.

endowment é o patrimônio acumulado por meio de doações recebidas pela universidade, prática comum nos Estados Unidos. No caso de Harvard, esse patrimônio de US$ 37,1 bilhões (R$ 122 bilhões) é gerenciado pela HMC, subsidiária da universidade.

Tanto a Guara LLC quanto a Bromelia LLC têm registro ativo na Receita Federal, mas endereço no exterior: na HMC, em Boston. Não há contatos das empresas disponíveis na internet, nem mesmo no cadastro da receita. A assessoria da HMC foi contactada três vezes, inclusive com questionamentos de suas subsidiárias, mas reafirmou que “não discute investimentos específicos”.

“Muitas companhias deliberadamente criam estruturas que as tornam difíceis de rastrear”, diz Devlin Kuyek, pesquisador da ONG Grain. Ele também explica que sistemas complexos de propriedade foram desenvolvidos para ocupar brechas na legislação brasileira.

Com o aumento da compra de terras por estrangeiros, o Brasil decidiu restringir este tipo de aquisição em 2010 – projeto que voltou a ser discutido recentemente. Hoje, estrangeiros podem adquirir até 25% da área de um município; se for de uma única nacionalidade, o limite cai para 10%. A propriedade da Caracol representa 35% da área de Cotegipe.

“Caracol e Harvard têm a obrigação de checar se a terra adquirida está livre de conflitos. Se não fazem isso, é culpa deles”, diz Devlin Kuyek.

A Caracol, inclusive, foi informada sobre a natureza problemática da terra ainda durante as negociações, afirma Martin Mayr, da ONG 10envolvimento, que supervisiona o caso. Mayr também informou que o dono anterior ofereceu aos camponeses que restavam compensações materiais e financeiras para deixarem a terra antes de vendê-la à Caracol, a partir de 2008.

“Quem não aceitou, tornou-se alvo de ameaças e violências de pistoleiros”, acrescenta Mayr. Hoje, nenhuma das 240 famílias segue vivendo lá, acrescenta.

Além dessas alegações, a Caracol ainda foi multada em R$ 123 mil pelo Ibama por desmatamento ilegal. Os inspetores avistaram de um voo 47 pilhas de madeira removidas sem licença ambiental em 2013.

Comunidade de Cotegipe encontra a polícia: quem resistiu sofreu ameaças (Foto de divulgação)
Comunidade de Cotegipe encontra a polícia: quem resistiu sofreu ameaças (Foto de divulgação)

Parte de uma tendência maior

Famílias que perdem o acesso à terra hoje enfrentam um campo de batalha diferente do de anos atrás. “A grilagem é um processo histórico no Brasil, mas a dinâmica disso está mudando. Hoje, há estruturas de investimentos internacionais por trás destas violações. Isto é algo novo ao qual se deve prestar mais atenção”, diz Fábio Pitta, da ONG Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

Um trabalho do Banco Mundial identificou um crescente interesse global na aquisição de terras – tanto para a produção de comida quanto para a simples especulação com o ativo. E de acordo com o grupo de monitoramento global Land Matrix, ao todo 26,7 milhões de hectares foram transferidos para mãos internacionais entre 2000 e 2016, 2% da terra agriculturável.

A especulação internacional a partir da aquisição de terras é uma tendência que veio na esteira da crise financeira de 2007-08. Em busca de retornos estáveis, corporações financeiras se voltaram para a compra de propriedades rurais em países emergentes. O imóvel se torna o ativo – a produção agrícola gerada dali é uma via secundária de lucro. Uma vez convertida em área produtiva ou implementadas melhorias, o preço da terra tende a subir. Dessa forma, lucra-se através de aluguel, compra e venda de terras ou até por meio de produtos financeiros, como os debêntures.  

Mesmo com restrições, o Brasil é uma das cinco nações com as maiores taxas de aquisição de terras por estrangeiros. O que o torna tão popular é que aqui o ativo é considerado mais seguro do que em outros países em desenvolvimento, diz Devlin Kuyek: “Mas há também muitos conflitos de terras e violações de direitos humanos envolvidos”, pondera.

Os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – conhecidos pelo setor agrícola como Matopiba – estão na última fronteira de expansão do agronegócio e são o principal alvo da especulação com terras, de acordo com o relatório da ONG Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Matopiba é atraente a investidores estrangeiros porque a terra é barata e tem projeções de valorização rápida.

Cerrado: áreas ameaçadas pela ação de especuladores estrangeiros (Foto Alícia Prager)
Cerrado: áreas ameaçadas pela ação de especuladores estrangeiros (Foto Alícia Prager)

Esse aumento da procura por investidores estrangeiros está indiretamente relacionada com – ou terceirizando, como diz a Rede Social – a expropriação de agricultores, comunidades tradicionais e tribos indígenas, que comumente não têm títulos, como no caso de Campo Largo. No Brasil, isso ainda vem acelerando o desmatamento do Cerrado – um bioma que abriga 5% da biodiversidade mundial e oito das 12 bacias hidrográficas brasileiras.

Além de Harvard, outro fundo internacional, o Teachers Insurance and Annuity Association – College Retirement Equities Fund (TIAA-CREF) é atuante no setor agrícola brasileiro. Trata-se de uma das maiores firmas de investimento dos Estados Unidos, que gerencia fundos de pensão não só de lá, mas do Canadá e da Suíça. Já foi alvo de pressão em 2015 pela falta de transparência com seus ativos, sobre os quais também havia acusações de violações de direitos humanos.

Não se faz muito com a terra hoje

Do total da área da propriedade, menos de 300 hectares foram destinados à plantação de milho, feijão, soja e eucalipto, de acordo com o relatório baiano de 2014. Outros 14 mil hectares viraram pastos para as 3.200 cabeças de gado. Mas ano após ano, a área se torna menos produtiva.

Daniela Stefano, da ONG Rede Social, esteve em Cotegipe no início de março e conseguiu entrar na fazenda. Ela confirma não ter visto movimentação na propriedade, usada especialmente para o plantio de eucalipto e a criação de gado. Além disso, o número de empregados caiu para 50 pessoas, contra os 84 de poucos anos atrás, diz ela. Grandes porções da propriedade ainda estão cobertas por vegetação natural. Ela não avistou homens armados no local durante sua visita.

Ainda assim, a situação parece tensa como nunca. Stefano participou de uma reunião com a comunidade e a Granflor, que faz parte da Caracol e é responsável pela gestão do local. “Quando perguntaram ao representante da empresa se a Caracol sabia do conflito antes de comprar a terra, ele simplesmente saiu da sala”, diz. A Caracol e a Granflor não se posicionaram.

Enquanto isto, aqueles homens por trás da mesa de sinuca amargam a perda de suas casas. “A terra está lá parada, não podemos fazer nada”, diz Pedro dos Santos Serpa. “A única coisa que eu queria ouvir hoje é: olha, toma, aqui está a sua terra, você pode produzir nela”.

Após a conversa regada por um café açucarado, Edjarsson Cardoso recolhe cuidadosamente os documentos e os dispõem novamente em ordem cronológica nas folhas de plástico. Por uma última vez, ele folheia e confere a pasta verde-água antes de se despedir e deixar o bar. E sai segurando, com firmeza, cada pedaço de papel que possa provar que eles têm razão.

A pasta de documentos dos agricultores que lutam para recuperr suas terras (Alicia Prager)
A pasta de documentos dos agricultores que lutam para recuperr suas terras (Alicia Prager)

*FLAVIA MILHORANCE  é jornalista com mais de dez anos de experiência em reportagem e edição em veículos de imprensa do Brasil e exterior, como BBC Brasil, O Globo, TMT Finance e Mongabay News. Mestre em jornalismo de negócios e finanças pelas Universidade de Aarhus (Dinamarca) e City University, em Londres.

FONTE: https://projetocolabora.com.br/meio-ambiente/harvard-envolvida-com-grilagem-de-terras-no-brasil/