Durante muito tempo, as grandes empresas de tecnologia conseguiram vender a expansão da inteligência artificial como um processo inevitável, sinônimo de progresso, inovação e desenvolvimento econômico. Entretanto, uma reportagem de Pamela Ferdinand, publicada pelo The New Lede, mostra que essa narrativa começa a encontrar um obstáculo inesperado: a resistência organizada das populações locais que serão obrigadas a conviver com a infraestrutura física necessária para sustentar a chamada revolução da IA.
O caso descrito na reportagem ocorre no estado do Kansas, onde moradores passaram a questionar a instalação de enormes centros de processamento de dados (data centers) destinados principalmente ao treinamento e funcionamento de sistemas de inteligência artificial. Embora frequentemente apresentados como empreendimentos de alta tecnologia e baixo impacto ambiental, esses complexos exigem enormes quantidades de eletricidade e água, além de provocar ruído permanente, ocupar extensas áreas de terra e demandar novas linhas de transmissão elétrica. O que parecia uma infraestrutura invisível revela, na prática, uma pesada pegada territorial.
O aspecto mais interessante da reportagem talvez seja mostrar que a oposição não decorre de um movimento ideológico tradicional. Agricultores, moradores rurais, conservadores, ambientalistas e representantes de diferentes espectros políticos começam a compartilhar preocupações semelhantes. A questão deixa de ser simplesmente tecnológica para assumir uma dimensão profundamente territorial: quem suporta os custos ambientais e sociais da economia digital?
Esse fenômeno merece atenção especial no Brasil. Existe uma tendência recorrente de imaginar que a economia digital ocupa apenas o “mundo virtual”. Na realidade, a inteligência artificial depende de uma infraestrutura extremamente material: minas para extração de minerais estratégicos, fábricas de semicondutores, grandes sistemas de geração elétrica, redes de transmissão, cabos submarinos e gigantescos centros de dados funcionando ininterruptamente. Em outras palavras, o aparente caráter imaterial da IA repousa sobre uma base física que consome recursos naturais em escala crescente.
É justamente essa materialidade que começa a alimentar conflitos socioambientais. Nos Estados Unidos, comunidades locais passaram a perguntar por que deveriam aceitar aumentos na demanda por energia, maior consumo de água e alterações na paisagem para atender empresas globais cujos lucros dificilmente permanecerão no território. A promessa de geração de empregos também perde força quando se observa que, após a fase de construção, os data centers operam com um número relativamente reduzido de trabalhadores altamente especializados.
Essa situação lembra, em muitos aspectos, os conflitos provocados por grandes projetos extrativos e de infraestrutura observados há décadas em diferentes partes do mundo. Muda a mercadoria, muda a tecnologia, mas permanece a mesma lógica de concentração dos benefícios econômicos e distribuição desigual dos custos ambientais. Em vez de minas de carvão ou grandes barragens, surgem agora verdadeiras “fábricas digitais” cujo funcionamento depende de um fluxo contínuo de energia, água e capital.
Não por acaso, a resistência também cresce rapidamente em outros estados norte-americanos. Protestos simultâneos ocorreram recentemente em dezenas de estados, enquanto diversos projetos foram suspensos, adiados ou rejeitados por governos locais em razão da pressão popular. A expansão da infraestrutura da inteligência artificial começa, assim, a enfrentar um problema que seus promotores não anteciparam: a perda de sua licença social para operar.
No Brasil, esse debate ainda engatinha. Entretanto, seria um erro imaginar que permaneceremos à margem dessa corrida global. A crescente demanda por eletricidade, água e minerais estratégicos tende a ampliar a pressão sobre nossos sistemas ambientais, especialmente em regiões já marcadas pela expansão do agronegócio, da mineração e dos grandes projetos energéticos. Se nada mudar, a inteligência artificial poderá acrescentar uma nova camada à já extensa lista de conflitos territoriais produzidos pelo capitalismo contemporâneo.
Talvez a principal contribuição da reportagem de Pamela Ferdinand seja justamente desfazer uma ilusão bastante difundida: a de que a inteligência artificial habita apenas a nuvem. Na realidade, essa “nuvem” possui endereço, ocupa território, consome recursos naturais e produz impactos ambientais concretos. E, como demonstra o caso do Kansas, as comunidades diretamente afetadas começam a dizer que não pretendem pagar essa conta em silêncio.
