O Brasil foi transformado em um campo de testes para as vacinas contra a COVID-19

Devido à grande circulação do vírus no país, quatro vacinas candidatas estão sendo testadas em 22 mil voluntários, incluindo a da britânica AstraZeneca, relançada no sábado, 12 de setembro.

VACINA 1Na Universidade de São Paulo, 24 de junho. Os ensaios estão sendo conduzidos lá para as vacinas da Universidade de Oxford e AstraZeneca. AMANDA PEROBELLI / REUTERS

Por  Anne Vigna para o Le Monde

Uma ala do Centro Nacional de Vacinação, no imenso campus da Fundação Oswaldo-Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, foi liberada para instalar uma nova linha de produção, ainda rodeada de celofane. “É aqui que serão fabricadas as futuras vacinas contra a COVID-19”, garante a assessoria de imprensa da Fiocruz, maior centro público de pesquisas médicas do Brasil. Em seus laboratórios farmacêuticos, Bio-Manguinhos e Far-Manguinhos, já são produzidas muitas vacinas administradas no Brasil.

Como parte da parceria com a Universidade de Oxford e a farmacêutica britânica AstraZeneca, a Fiocruz espera um dia produzi-los contra a Covid-19, enquanto os ingleses anunciam a retomada do julgamento no sábado, 12 de setembro, suspenso por uma semana após a reação negativa do paciente.

“Nossa parceria não se limita a testar a vacina”, explica Mauricio Zuma, diretor do laboratório médico de Bio-Manguinhos. É claro que estamos felizes em ajudar nessa luta global. Mas o que nos motiva acima de tudo é ter obtido uma transferência de tecnologia com os ingleses. Caso contrário, o Ministério da Saúde poderia simplesmente ter feito uma negociação comercial e comprado as futuras vacinas. “

Foi em junho que a Fiocruz se tornou parceira local das duas entidades britânicas para organizar os ensaios clínicos fase III de sua vacina. Esses exames não acontecem nesses prédios, mas na rede hospitalar dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

A tarefa não é tão simples: trata-se de encontrar 5.000 profissionais de saúde, todos voluntários, que tenham contato frequente com o SARS-CoV-2. “Não adianta testar a vacina em uma pessoa que ficará em confinamento em casa, ela só ficará exposta muito pouco ao vírus. Por outro lado, um médico, uma enfermeira, um fisioterapeuta estão todos em contato com o vírus ”, acrescenta o diretor de Bio-Manguinhos .

“Faça algo concreto”

No Brasil, a equipe é bastante voluntária, como Denise Abranches, cirurgiã-dentista do Hospital Universitário de São Paulo, que foi a primeira a testar a vacina em junho. “Assim que soube desse recrutamento, me apresentei. Sou responsável pela higiene bucal dos pacientes intubados há sete meses na unidade de terapia intensiva. Estou na linha de frente e sou o primeiro interessado em uma vacina. “

O ginecologista Alberto Freitas, do Rio de Janeiro, teve a mesma reação. “Recebi as informações através dos grupos de WhatsApp que existem entre médicos. Junto com meus colegas de consultório, vemos muitos pacientes com COVID-19 e decidimos participar para fazer algo concreto no combate a essa epidemia ”, afirma. Alberto participou do ensaio clínico da Universidade de Oxford, mas não teria problemas para testar outro. Atualmente, quatro empresas farmacêuticas do país realizam ensaios clínicos em 22.000 voluntários.

Além da vacina da Oxford e da AstraZeneca, a farmacêutica chinesa Sinovac fechou outra parceria em junho com o instituto científico público Butantan, para a fase III da vacina CoronaVac, que será testada em 9 mil voluntários. .

Mais recentemente, outras duas empresas americanas conseguiram o direito de fazer testes no Brasil: a Pfizer vai organizar um dos quase mil voluntários da Bahia, enquanto a Janssen, laboratório da gigante Johnson & Johnson, atualmente está recrutando 7.000 em vários estados do país.

VACINA 2Vacina Sinovac no hospital São Sans Lucas em Porto Alegre, Brasil, 8 de agosto. DIEGO VARA / REUTERS

O Brasil está interessado em projetos globais de vacinas por vários motivos. Em primeiro lugar, pela circulação ativa do vírus com mais de 4,1 milhões de casos confirmados no país, número ainda considerado desvalorizado pelo grupo de pesquisadores brasileiros da COVID-19. Segundo dados recentes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço regional da OMS, o continente americano concentra o maior número de profissionais de saúde infectados com o vírus no mundo, com 570 mil casos confirmados e 2.500 mortes desde março. A maior parte desse contingente encontra-se no Brasil, com 270.000 casos de profissionais, antes dos Estados Unidos (140.000 casos) e do México (cerca de 100.000 casos).

Por outro lado, a grande diversidade genética da população brasileira – com a presença de genes europeus, africanos e asiáticos – permite uma ampla representatividade do planeta. Por fim, o Brasil conta com instituições científicas renomadas e um grande número de facilidades para considerar ensaios clínicos em larga escala e, eventualmente, produzir as vacinas. Junto com a Argentina e o México, o Brasil é um dos poucos países do continente com essas capacidades.

Também em São Paulo, o Instituto Butantan reformou parte de seus prédios para poder fabricar as futuras vacinas. Esse centro de pesquisas, que agora depende do Estado de São Paulo, também assinou um acordo de transferência de tecnologia com a farmacêutica chinesa Sinovac. “Procuramos parceiros em todo o mundo, inclusive na China, e a Sinovac procurava um parceiro específico na região”, diz Ricardo Palacios, diretor de pesquisas médicas do Instituto Butantan.

Estoque de hidroxicloroquina

Fiocruz e Butantan fazem parte da mesma rede de produtores de vacinas para países em desenvolvimento (DCVMN, por sua sigla em inglês). “Os países do Sul estão um pouco deixados de lado. Mas, graças às transferências de tecnologia, conseguimos avançar com a mesma velocidade e qualidade de pesquisa das empresas privadas dos países ricos ”, explica o Sr. Palacios.

O outro problema que o Brasil terá de superar diante dessa pandemia é o “ceticismo corona” de seu presidente. Em 31 de agosto, Jair Bolsonaro afirmou que “ninguém pode forçar ninguém a tomar a vacina”. A declaração do presidente foi amplamente criticada tanto pelo diretor da OMS quanto por cientistas brasileiros. A intervenção do senhor Bolsonaro está em total desacordo com a lei que ele mesmo assinou em 6 de fevereiro e que especifica precisamente que, “em situação de pandemia, o governo poderá fazer a vacinação obrigatória”.

Mas, para si mesmo, o presidente brasileiro não vê utilidade de uma vacina quando, segundo ele, há uma cura muito eficaz a partir da hidroxicloroquina. Jair Bolsonaro continua a promovê-la ativamente em todas as oportunidades. Talvez porque, após uma produção massiva decidida pelo executivo, o Brasil tenha hoje dezoito anos de estoque desse medicamento eficaz contra a malária.

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Este texto foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Maior estudo feito no Brasil prova que hidroxicloroquina é ineficiente para tratamento da COVID-19

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Um estudo intituladoHydroxychloroquine with or without Azithromycin in Mild-to-Moderate COVID-19(ou em português “Hidroxicloroquina com ou sem Azitromicina em casos leves a moderados de COVID-19”) foi publicado hoje pela respeitada revista “The New England Journal of Medicine” envolvendo 667 pacientes de 55 hospitais brasileiros mostra que a hidroxicloroquina, mesmo quando acompanhada pela azitromicina, não resulta em qualquer evolução positiva no tratamento da COVID-19.

AUTORES

Esse resultado não deve causar nenhuma surpresa para os médicos que estão na frente da batalha inglória em que se transformou o combate à pandemia da COVID-19 no Brasil, mas deverá aprofundar as dificuldades políticas do presidente Jair Bolsonaro e do general Eduardo Pazuelo, ministro interino da Saúde.  É que enquanto o presidente Jair Bolsonaro virou uma espécie de garoto propaganda de um remédio que agora se revela ser completamente ineficaz, o general Pazuelo terminou por ajustar os protocolos do Ministério da Saúde ao uso de um medicamento que se comprovou ser inútil para o tratamento da COVID-19.

conclusões

Estudo com 667 pacientes mostrou que o uso de Hidroxicloroquina com ou sem Azitromicina não melhorou a condição clínicas dos pacientes com COVID-19

Entre outras más notícias, o artigo produzido pela Coalizão COVID-19 Brasil mostra que os pacientes que receberam a combinação entre Hidroxicloroquina e Azitromicina ficaram sujeitos a uma série de efeitos colaterais, muitos dos quais poderiam ser fatais para pacientes com comorbidades graves.

Ainda que estudos científicos sejam sempre sujeitos a exames apurados antes e depois de sua publicação, os resultados deste trabalho deveriam gerar um alerta generalizado em torno do contínuo apoio dispensado pelo governo federal, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro, ao uso de um medicamento que agora se mostra mais um criador de problemas do que a droga milagrosa que foi publicizada.

Em nota, a Sociedade Brasileira de Infectologia recomenda abandono completo da hidroxicloroquina em qualquer fase da COVID-19

bolso cloroquinaO presidente Jair Bolsonaro continua atuando como garoto propaganda de um medicamento que agora tem recomendado o seu completo abandono pela Sociedade Brasileira de Infectologia no tratamento da COVID-19

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) nesta sexta-feira, dia 17, o Informe 16 em que recomenda o abandono “urgente e necessário” da hidroxicloroquina para qualquer fase do tratamento contra a COVID-19. Esta decisão da SBI considerou dois estudos clínicos publicados nesta quinta-feira nos EUA, no Canadá e na Espanha. O documento afirma que a SBI “acompanha sociedades médicas científicas dos países desenvolvidos e a Organização Mundial de Saúde (OMS)”.  

A SBI informou que os referidos estudos clínicos foram publicados em “revistas médicas prestigiosas avaliando a eficácia e segurança da hidroxicloroquina (HCQ) no tratamento precoce da COVID-19, isto é, nos primeiros dias de sintomas”.

Segundo o Informe 16 da SBI, um dos estudos avaliou pacientes com COVID-19 em 40 estados americanos e 3 províncias do Canadá. O grupo que recebeu hidroxicloroquina, em comparação aos pacientes que receberam placebo (preparação neutra sem efeitos farmacológicos), não teve nenhum benefício clínico: não houve redução na duração dos sintomas, nem de hospitalização, nem impacto na mortalidade. Mais da metade dos pacientes receberam HCQ em 1 dia do início dos sintomas. Em 43% dos pacientes que receberam HCQ, eventos adversos foram observados, destacando-se efeitos gastrointestinais como dor abdominal, diarreia e vômitos.

A nota da SBI aponta ainda que outro estudo foi conduzido na Espanha e avaliou a eficácia virológica (redução da carga viral na nasofaringe) e clínica (redução da duração dos sintomas e hospitalização). Nenhum benefício virológico,nem clínico foi observado nos pacientes que receberam HCQ, em comparação ao grupo que não recebeu nenhum tratamento farmacológico (grupo placebo).

Como já haviam sido publicados estudos clínicos randomizados com grupo controle demonstrando que a HCQ não traz benefício clínico nem na profilaxia (prevenção), nem em pacientes hospitalizados, esses dois estudos completam a avaliação de eficácia e segurança do seu uso nas três fases da doença: profilaxia, tratamento precoce (primeiros dias de sintomas) e pacientes hospitalizados (que geralmente ocorre próximo ao 7o dia de sintomas).

“Com essas evidências científicas, a SBI informou que acompanha a orientação que está sendo dada por todas sociedades médicas científicas dos países desenvolvidos e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) de que a hidroxicloroquina deve ser abandonada em qualquer fase do tratamento da COVID-19”, afirma a entidade no comunicado.

Veja abaixo imagem do Informe 16 da Sociedade Brasileira de Infectologia.

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Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro continua posando de garoto propaganda de um medicamento que um das principais sociedades científicas da área médica agora propõe que seja completamente banido no tratamento da COVID-19.

Em tempo: no dia de hoje, o Brasil já alcançou  2.046.328 de infectados e 77.851 óbitos pela COVID-19.

“Ciência do desespero” retarda a busca por drogas contra o coronavírus

ap imageDoris Kelly, 57 anos, senta-se em sua casa na segunda-feira, 29 de junho de 2020 em Ruffs Dale, Pensilvânia. Kelly foi um dos primeiros pacientes em um estudo do COVID-19 na Universidade de Pittsburgh Medical Center. “Parecia que alguém estava sentado no meu peito e eu não conseguia respirar”, disse Kelley sobre a doença. (Foto AP / Justin Merriman)

Marilynn Marchione para a Associated Press

Desesperado para resolver o dilema mortal da COVID-19, o mundo clama por respostas rápidas e soluções de um sistema de pesquisa não construído para a pressa.

O resultado irônico, e talvez trágico: os atalhos científicos diminuíram a compreensão da doença e atrasaram a capacidade de descobrir quais medicamentos ajudam, prejudicam ou não têm efeito algum.

À medida que as mortes pelo coronavírus aumentavam incessantemente nas centenas de milhares, dezenas de milhares de médicos e pacientes corriam para usar drogas antes que pudessem se provar seguros ou eficazes. Uma série de estudos de baixa qualidade obscureceu ainda mais o cenário.

“As pessoas tinham uma epidemia na frente delas e não estavam preparadas para esperar”, disse o Dr. Derek Angus, chefe de tratamento intensivo do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh. “Nós fizemos a pesquisa clínica tradicional parecer tão lenta e complicada”.

Não foi até meados de junho – quase seis meses depois – quando surgiram as primeiras evidências de que um medicamento poderia melhorar a sobrevivência. Pesquisadores no Reino Unido conseguiram inscrever um em cada seis pacientes hospitalizados com COVID-19 em um grande estudo que descobriu que um esteróide barato chamado dexametasona ajuda e que um medicamento contra a malária amplamente usado não ajuda. O estudo mudou a prática da noite para o dia, apesar de os resultados não terem sido publicados ou revisados ​​por outros cientistas.

Nos Estados Unidos, um estudo menor, porém rigoroso , descobriu que um medicamento diferente pode reduzir o tempo de recuperação de pacientes gravemente enfermos, mas muitas questões permanecem sobre seu melhor uso.

Os médicos ainda estão buscando freneticamente qualquer outra coisa que possa combater as várias maneiras pelas quais o vírus pode causar danos, experimentando medicamentos para derrame, azia, coágulos sanguíneos, gota, depressão, inflamação, AIDS, hepatite, câncer, artrite e até células-tronco e radiação .

“Todo mundo tem buscado algo que possa funcionar. E não é assim que você desenvolve boas práticas médicas ”, disse Steven Nissen, pesquisador da Cleveland Clinic e consultor frequente da Food and Drug Administration dos EUA. “O desespero não é uma estratégia. Bons ensaios clínicos representam uma estratégia sólida. ”

Poucos estudos definitivos foram realizados nos EUA, com alguns prejudicados por pessoas que consomem drogas por conta própria ou métodos relaxados de empresas farmacêuticas que patrocinam o trabalho.

E a política ampliou o problema. Dezenas de milhares de pessoas experimentaram um remédio contra a malária depois que o presidente Donald Trump o promoveu implacavelmente, dizendo: “O que você tem a perder?” Enquanto isso, o principal especialista em doenças infecciosas do país, Dr. Anthony Fauci, alertou “eu gosto de provar as coisas primeiro”. Por três meses, estudos fracos polarizaram as vistas da hidroxicloroquina até que várias mais confiáveis ​​a consideraram ineficaz.

“O problema com o ‘remédio para pistoleiros’ ou o remédio praticado onde há um palpite é que levou a sociedade como um todo a se atrasar em aprender coisas”, disse o Dr. Otis Brawley, da Universidade Johns Hopkins. “Não temos boas evidências porque não apreciamos e respeitamos a ciência.”

Ele observou que, se os estudos tivessem sido realizados corretamente em janeiro e fevereiro, os cientistas já sabiam até março se muitos desses medicamentos funcionassem.

Até pesquisadores que valorizam a ciência estão adotando atalhos e regras de flexão para tentar obter respostas mais rapidamente. E os jornais estão correndo para publicar resultados, às vezes pagando um preço pela sua pressa com retratações.

A pesquisa ainda é caótica – mais de 2.000 estudos estão testando tratamentos com COVID-19, da azitromicina ao zinco. O volume pode não surpreender diante de uma pandemia e de um novo vírus, mas alguns especialistas dizem que é preocupante o fato de muitos estudos serem duplicados e carecerem do rigor científico para resultar em respostas claras.

“Tudo sobre isso parece muito estranho”, disse Angus, que lidera um estudo inovador usando inteligência artificial para ajudar a escolher tratamentos. “Tudo está sendo feito no horário da COVID. É como esse novo relógio estranho em que estamos correndo.

Aqui está uma olhada em alguns dos principais exemplos de “ciência do desespero” em andamento.

Uma droga contra a malária se torna viral

Para os cientistas, foi uma receita para o desastre: em uma crise médica sem tratamento conhecido e uma população em pânico, uma figura pública influente empurra uma droga com efeitos colaterais potencialmente graves, citando depoimentos e um relatório rapidamente desacreditado de seu uso em 20 pacientes.

Trump divulgou a hidroxicloroquina em dezenas de apresentações a partir de meados de março. A Administração de Alimentos e Medicamentos permitiu seu uso emergencial, apesar de estudos não terem demonstrado segurança ou eficácia para pacientes com coronavírus, e o governo adquiriu dezenas de milhões de doses.

Trump pediu pela primeira vez que tome azitromicina, um antibiótico que, como a hidroxicloroquina, pode causar problemas no ritmo cardíaco. Depois das críticas, ele se limitou a dar conselhos médicos, pedindo “Você deve adicionar zinco agora, eu quero jogar isso lá fora”. Em maio, ele disse que estava tomando os remédios para prevenir a infecção depois que um assessor deu positivo.

Muitas pessoas seguiram seu conselho.

Rais Vohra, diretor médico de um centro de controle de venenos da Califórnia, contou sobre um paciente de 52 anos de idade, COVID-19, que desenvolveu um batimento cardíaco irregular após três dias em hidroxicloroquina – do medicamento, não do vírus.

“Parece que a cura foi mais perigosa do que os efeitos da doença”, disse Vohra.

Estudos sugeriram que a droga não estava ajudando, mas eram fracos. E o mais influente , publicado na revista Lancet, foi retirado depois que grandes preocupações surgiram sobre os dados.

Almejando melhores informações, um médico da Universidade de Minnesota que havia sido recusado por financiamento federal gastou US $ 5.000 do seu próprio dinheiro para comprar hidroxicloroquina para um teste rigoroso usando pílulas placebo como comparação. No início de junho, os resultados do Dr. David Boulware mostraram que a hidroxicloroquina não impediu o COVID-19 em pessoas intimamente expostas a alguém com ele.

Um estudo do Reino Unido considerou o medicamento ineficaz para o tratamento, assim como outros estudos dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA e da Organização Mundial de Saúde.

O colega de Boulware, Dr. Rahda Rajasingham, pretendia matricular 3.000 profissionais de saúde em um estudo para verificar se a hidroxicloroquina poderia prevenir infecções, mas recentemente decidiu parar às 1.500.

Quando o estudo começou, “havia a crença de que a hidroxicloroquina era essa droga maravilhosa”, disse Rajasingham. Mais de 1.200 pessoas se inscreveram em apenas duas semanas, mas isso diminuiu depois de alguns relatórios negativos.

“A conversa nacional sobre este medicamento mudou de todo mundo quer esse medicamento … para ninguém quer nada com ele”, disse ela. “Isso meio que se tornou político, onde as pessoas que apoiam o presidente são pró-hidroxicloroquina”.

Os pesquisadores só querem saber se funciona.

Aprenda como a coisa vai

Em Pittsburgh, Angus está buscando algo entre a abordagem “just try it” de Trump e Fauci “faça o estudo ideal”.

Em uma pandemia, “deve haver um caminho do meio, de outra maneira”, disse Angus. “Não temos o luxo do tempo. Nós devemos tentar aprender enquanto fazemos. ”

Os 40 hospitais do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh na Pensilvânia, Nova York, Maryland e Ohio ingressaram em um estudo em andamento no Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia que atribui aleatoriamente pacientes a um dos vários tratamentos possíveis e usa inteligência artificial para adaptar os tratamentos, nos resultados. Se um medicamento parece um vencedor, o computador designa mais pessoas para obtê-lo. Os perdedores são rapidamente abandonados.

O sistema “aprende rapidamente, então nossos médicos estão sempre apostando no cavalo vencedor”, disse Angus.

Um pequeno número de pacientes que recebem os cuidados habituais serve como um grupo de comparação para todos os tratamentos sendo testados, para que mais participantes acabem tentando experimentar alguma coisa.

Mark Shannon, um caixa bancário aposentado de 61 anos de Pittsburgh, foi o primeiro a entrar.

“Eu sabia que não havia cura conhecida. Eu sabia que eles estavam aprendendo à medida que avançavam em muitos casos. Eu apenas confio neles ”, ele disse.

Shannon, que passou 11 dias em uma máquina de respiração, recebeu o esteróide hidrocortisona e se recuperou.

Doris Kelley, professora de pré-escola de 57 anos em Ruffs Dale, sudeste de Pittsburgh, ingressou no estudo em abril.

“Parecia que alguém estava sentado no meu peito e eu não conseguia respirar”, disse Kelley sobre o COVID-19.

Ela tem asma e outros problemas de saúde e ficou feliz em deixar o computador escolher entre os muitos tratamentos possíveis. Ele a designou para receber hidroxicloroquina e ela voltou para casa alguns dias depois.

É muito cedo para saber se o medicamento de um paciente ajudou ou se ele teria se recuperado por conta própria.

O caminho turbulento para o Remdesivir 

Quando o novo coronavírus foi identificado, a atenção voltou-se rapidamente para o remdesivir, um medicamento experimental administrado por meio intravenoso que se mostrou promissor contra outros coronavírus no passado, restringindo sua capacidade de copiar seu material genético.

Médicos na China lançaram dois estudos comparando o remdesivir com o tratamento usual de pacientes hospitalizados graves e moderadamente doentes. O fabricante do medicamento, Gilead Sciences, também iniciou seus próprios estudos, mas eles eram fracos – um não tinha um grupo de comparação e, no outro, pacientes e médicos sabiam quem estava recebendo o medicamento, o que compromete qualquer julgamento sobre se ele funciona.

O NIH lançou o teste mais rigoroso, comparando o remdesivir aos tratamentos com placebo intravenoso. Enquanto esses estudos estavam em andamento, Gilead também distribuiu o medicamento caso a caso a milhares de pacientes.

Em abril, os pesquisadores chineses encerraram seus estudos mais cedo, dizendo que não podiam mais registrar pacientes suficientes porque o surto diminuiu lá. Em um podcast com um editor de periódico, Fauci deu outra explicação possível: muitos pacientes já acreditavam que o remdesivir funcionava e não estavam dispostos a ingressar em um estudo em que pudessem terminar em um grupo de comparação. Isso pode ter sido especialmente verdadeiro se eles pudessem obter o medicamento diretamente de Gileade.

No final de abril, Fauci revelou resultados preliminares do estudo NIH, mostrando que o remdesivir reduziu o tempo de recuperação em 31% – 11 dias em média, contra 15 dias para aqueles que receberam os cuidados usuais.

Alguns criticaram a divulgação desses resultados, em vez de continuar o estudo para ver se o medicamento poderia melhorar a sobrevivência e aprender mais sobre quando e como usá-lo, mas monitores independentes haviam aconselhado que não era mais ético continuar com um grupo de placebo assim que um benefício era aparente.

Até esse estudo, o único outro grande e rigoroso teste de tratamento com coronavírus era da China. Enquanto o país corria para construir hospitais de campanha para lidar com a crise médica, os médicos designaram aleatoriamente pacientes do COVID-19 para receber dois medicamentos antivirais usados para o tratamento do HIV ou os cuidados usuais e publicaram rapidamente os resultados no New England Journal of Medicine.

“Esses pesquisadores foram capazes de fazer isso em circunstâncias inacreditáveis”, disse o principal editor da revista, Dr. Eric Rubin, em um podcast. “Tem sido decepcionante que o ritmo da pesquisa tenha sido bastante lento desde então.”

Por que a ciência importa

Por não testar adequadamente os medicamentos antes de permitir o uso em larga escala, “repetidamente na história médica, as pessoas se machucam mais frequentemente do que ajudaram”, disse Brawley.

Durante décadas, a lidocaína foi usada rotineiramente para evitar problemas no ritmo cardíaco em pessoas suspeitas de ataques cardíacos até que um estudo em meados da década de 1980 mostrou que a droga realmente causou o problema que deveria prevenir, disse ele.

Alta Charo, advogado e bioeticista da Universidade de Wisconsin, lembrou o clamor dos anos 90 de conseguir que as seguradoras cobrissem transplantes de medula óssea para câncer de mama até que um estudo sólido demonstrasse que “simplesmente deixavam as pessoas mais miseráveis ​​e doentes” sem melhorar a sobrevivência.

Escrevendo no Journal of American Medical Association, os ex-cientistas da FDA drs. Jesse Goodman e Luciana Borio criticaram o incentivo ao uso de hidroxicloroquina durante esta pandemia e citaram pressão semelhante para usar uma combinação de anticorpos chamada ZMapp durante o surto de Ebola de 2014, que diminuiu antes que a eficácia desse medicamento pudesse ser determinada. Foram necessários quatro anos e outro surto para descobrir que o ZMapp ajudou menos de dois tratamentos semelhantes.

Durante o surto de gripe suína 2009-2010, o medicamento experimental peramivir foi amplamente utilizado sem estudo formal, os drs. Benjamin Rome e Jerry Avorn, do Brigham and Women’s Hospital, em Boston, anotaram no New England Journal. Mais tarde, a droga deu resultados decepcionantes em um estudo rigoroso e, finalmente, foi aprovada apenas para casos menos graves de gripe e para pacientes não hospitalizados gravemente enfermos.

Os pacientes são melhor atendidos quando nos apegamos à ciência, em vez de “cortar custos e recorrer a soluções rápidas atraentes e arriscadas”, escreveram eles. A pandemia causará danos suficientes e os danos ao sistema para testar e aprovar medicamentos “não devem fazer parte do seu legado”.

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Marilynn Marchione pode ser seguida no Twitter: @MMarchioneAP

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela Associated Press [Aqui!].

Hidroxicloroquina: O último estudo de Didier Raoult não convenceu muitos epidemiologistas

A ausência de um grupo de controle estritamente comparável torna mais uma vez impossível concluir sobre a eficácia do tratamento proposto por Didier Raoult para combater o Covid-19

raoultO infectologista Didier Raoult,  da Aix Marseille University e do IHU-Méditerranée Infection, após sua audiência pela comissão de inquérito na Assembléia Nacional em Paris, 24 de junho. THOMAS COEX / AFP

Por Hervé Morin para o Le Monde

Em 24 de junho, diante da comissão de inquérito da Assembléia Nacional encarregada de examinar a gestão da pandemia de Covid-19 na França, o infectiologista Didier Raoult deixou de lado sua equanimidade diante da pergunta final. perguntou o deputado MoDem du Gard Philippe Berta: “por que você não realizou um estudo clínico digno do nome, desde o início, que pudesse responder definitivamente, sim ou não, a hidroxicloroquina tem efeito? Você sabia muito bem que esses ensaios pseudo-clínicos não eram absolutamente admissíveis por ninguém ” , perguntou o parlamentar, que também é geneticista. Imediatamente, o especialista em doenças infecciosas de Marselha respondeu que “quanto menos pessoas houver em um teste, mais significativo será. (…)Qualquer ensaio que envolva mais de 1.000 pessoas tenta demonstrar algo que não existe. “ Antes de exclamar: ” Eu sou um grande cientista! “

Quinta-feira, 25 de junho, um dia após essa troca, sua equipe da IHU Méditerranée Infection publicou na Travel Medicine and Infectious Disease ( TMAID ) um grande estudo com 3.119 pessoas tratadas com o “protocolo de Raoult” em comparação com outros pacientes com recebeu outro tratamento. Conclusão? “Os resultados sugerem que o diagnóstico precoce, isolamento e tratamento de pacientes Covid-19 com pelo menos três dias de administração de hidroxicloroquina e azitromicina levam a resultados clínicos significativamente melhorados e menor carga viral mais rápido do que com outros tratamentos. “

Este estudo era aguardado com entusiasmo: Didier Raoult o mencionara em vários dos vídeos transmitidos por seu instituto, destilando diagramas que todos agora podem examinar à vontade. Como os anteriores, menores, realizados pela equipe de Marselha, este é um estudo retrospectivo, que por construção possui uma força probatória mais baixa do que o padrão de estudos clínicos prospectivos. Objetivam comparar grupos de pacientes formados aleatoriamente de acordo com critérios predefinidos, a fim de evitar vieses diversos. Didier Raoult novamente justificou essa escolha perante os deputados: “A ética básica é que, quando temos provas de que algo funciona, paramos o julgamento” – para que todos os pacientes se beneficiem do tratamento.

A “evidência”, mesmo apoiada por mais pacientes, ainda não parece ganhar a aprovação de um grande número de epidemiologistas. “Ninguém de ninguém”, resume Dominique Costagliola, vice-diretora do Instituto Pierre-Louis de epidemiologia e saúde pública (Universidade Sorbonne, Inserm), que lista as razões pelas quais a comparação entre os pacientes tratados e os outros não é válida: aqueles os que recebem o protocolo promovido pela IHU são, em média, mais jovens, menos propensos a doenças crônicas, apresentam sintomas menos graves e danos nos pulmões – fatores que penalizam o grupo de “outros pacientes”. Eles haviam recebido a combinação hidroxicloroquina-azitromicina em três dias, um ou ambos. Tentativas de corrigir esses vieses não a convencem.

Observação severa

O farmacologista e pneumologista Mathieu Molimard (Universidade de Bordeaux) fez a mesma observação severa: “O que podemos dizer? Comparamos repolho e cenoura e, mesmo ajustando o tamanho das folhas, permanece repolho e cenoura. “ A comparação com outras regiões francesas avançadas ou outros países lhe parece da mesma maneira que ele ” não fazia sentido”. Outro lembrete metodológico: em ensaios clínicos, geralmente definimos a “intenção de tratar” os grupos, ou seja, se um paciente deixa seu grupo original por um motivo ou outro, ele deve sempre ser levado em consideração na análise estatística, como tendo permanecido ali, mesmo que isso penalize as conclusões.“Portanto, aqueles que tiveram menos de três dias de hidroxicloroquina devem permanecer no grupo HCQ, especialmente se sua passagem no grupo controle estiver ligada a uma morte (difícil de continuar após a morte) ou uma passagem em terapia intensiva” , explica- ele.

O que pensa um observador mais distante das brigas franco-francesas em torno da hidroxicloroquina, Anton Pottegard, professor de farmacoepidemiologia (Universidade do Sul da Dinamarca)? Recentemente, ele ajudou a definir diretrizes para a condução adequada desses estudos diante da emergência do Covid-19 – diretrizes aprovadas pela Sociedade Internacional de Farmacoepidemiologia . “Em resumo, não confio nos resultados do estudo “, diz ele. Por quê ? Porque ele não atende aos requisitos mais básicos aos quais deve se inscrever. Existem muitos problemas, cada um dos quais é de grande preocupação. Em conjunto, eles tornam este estudo 100% inútil para orientar a prática clínica. “

Ele explica: “Os que são tratados são comparados com os que não são. O principal problema é que aqueles que não sobrevivem ao tratamento são classificados como não tratados. “ Ele oferece uma comparação voluntariamente grotesca: ” Eu poderia propor um novo ensaio clínico: beijar os pacientes na testa por três dias. Eu compararia aqueles que teriam recebido os três beijos com aqueles … que não teriam sobrevivido para recebê-los. O efeito do tratamento seria ótimo: nenhum dos pacientes que recebeu meu tratamento teria morrido. “ Embora não fosse o mesmo naqueles que não receberam todo o tratamento … Ele também aponta para os pacientes do grupo controle colocado por causa de contra-indicações cardíacas – que são fatores de risco ter um Covid-19 mais sério.

Não há nada a aprender com a análise da grande coorte seguida na IHU? “É certamente o maior estudo do mundo hoje, com amplo monitoramento clínico em um ambiente hospitalar (externo ou interno) de um grande número de pacientes (mais de 3.700), desde um diagnóstico precoce, graças a testes maciços , observa Mahmoud Zureik, professor de epidemiologia na Universidade de Versalhes-Saint-Quentin, no LinkedIn. Ele fornece informações extremamente valiosas sobre a história natural da doença (taxa de mortalidade, taxa de hospitalização, lesões pulmonares por tomografia computadorizada realizadas quase sistematicamente, evolução, …). Essas são as únicas informações a serem retidas neste estudo. Mas já é muito. Pena que os autores focalizem e valorizem este estudo apenas da perspectiva de comparar tratamentos com as principais deficiências metodológicas que impedem qualquer conclusão válida. “

Perguntas sobre a revista que hospedou o estudo

A essas críticas metodológicas são acrescentadas perguntas sobre a revisão que hospedou o estudo. Philippe Gautret, terceiro autor, também é editor associado do TMAID , no qual a equipe de pesquisadores da IHU publicou oito artigos desde o início de 2020. Não foi a primeira escolha de Didier Raoult, que esperava publicar seu trabalho no The Lancet , mais prestigiado, mas a revista médica britânica o rejeitou desde o início, lembrou os deputados.

Ele falou sobre suas suspeitas: Lancet , por causa de seu tropismo anti-Trump e, portanto, anti-hidroxicloroquina promovido pelo presidente americano, preferiu publicar um estudo desfavorável a essa molécula. O estudo foi retirado em 4 de junho devido à recusa da empresa americana Surgisphere em compartilhar os dados em que supostamente se baseava – um episódio que não ajudou a dissipar os debates em torno da hidroxicloroquina.

“Como editor chefe da TMAID, eu mesmo administrei o artigo enviado pela IHU por causa de seu conteúdo polêmico , explica Patricia Schlagenhauf (Universidade de Zurique). Convidei sete revisores e os autores revisaram seus manuscritos de acordo com suas solicitações e as minhas. Philippe Gautret não esteve envolvido neste processo editorial. Um editor associado a um jornal pode enviar um artigo a ele, desde que seja gerenciado por outro editor, é uma prática padrão. Conheço Philippe Gautret há quinze anos e ele é um homem de honra. “

O fato de sete revisores analisarem o manuscrito não tranquiliza Anton Pottegard. “Apesar de me entristecer, devo concluir que sua publicação é um novo exemplo de uma falência completa do sistema de revisão por pares” , conclui.

Contactado para reagir a essas críticas, Didier Raoult e sua equipe não haviam nos respondido no momento da publicação deste artigo.

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

“The Lancet” publica artigo negando benefícios da cloroquina no combate à COVID-19

Did chloroquine really fail a COVID-19 study—or was the trial ...Estudo científico mostra que cloroquina e hidroxicloroquina são ineficazes no combate à COVID-19, com ou sem o acompanhamento de antibióticos

Uma das principais, senão a principal, revista científica na área da Medicina, a “The Lancet” acaba de publicar um artigo que nega quaisquer benefícios associados ao uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19.

cloroquina trial

De autoria de pesquisadores ligados ao  Brigham and Women’s Hospital Heart  e ao Vascular Center and Harvard Medical School (Massachusets, EUA),  à Surgisphere Corporation (Illinois, EUA), à University Heart Center, University Hospital Zurich (Suiça), ao Department of Biomedical Engineering da Universidade de Utah (Utah, EUA), e ao HCA Research Institute (Tennessee, EUA), o artigo aponta de forma categórica que “não foi possível confirmar o benefício da hidroxicloroquina ou cloroquina, quando usado isoladamente ou com um macrólido (pertencentes a um grupo de antibióticos de amplo espectro), nos resultados hospitalares do COVID-19. Cada um desses esquemas medicamentosos foi associado à diminuição da sobrevida hospitalar e a um aumento da frequência de arritmias ventriculares quando usado no tratamento do COVID-19“.

Este novo estudo é provavelmente um dos (senão o mais) robustos realizados sobre o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina, na medida em que inclui resultados obtidos com 96.032 pacientes (idade média 53,8 anos, 46,3% mulheres) que tiveram COVID-19  e foram hospitalizados durante o período do estudo, tendo preenchido critérios de inclusão. Os autores informam ainda que 14.888 pacientes analisados estavam nos grupos de tratamento (1868 receberam cloroquina, 3783 receberam cloroquina com um macrólido, 3016 receberam hidroxicloroquina e 6221 receberam hidroxicloroquina com um macrólido, sendo que  81.144 pacientes foram colocados no chamado grupo de controle. O resultado final é que 10.698 (11,1%) pacientes morreram no hospital.

Como se vê, quando submetido a uma análise  rigorosa, o mito da utilidade da cloroquina e da hidroxicloroquina para combater a COVID-19 se esfarela rapidamente, não resistindo ao exame próprio de quem realmente tem a capacidade de analisar dados científicos. Por isso, enquanto a comunidade cientifica não produz as alternativas eficazes contra a COVID-19, a melhor alternativa continua e continuará sendo o isolamento social, independente do que pensem os bufões que eventualmente são eleitos para presidir países como o Brasil (Jair Bolsonaro) e os EUA (Donald Trump).

Uso de hidroxicloroquina é associado a problemas cardíacos e mortes na França

O jornal francês “Le Parisien” publicou hoje (10/04) um artigo onde diz que muitos médicos franceses estão preocupados com os riscos associados à prescrição sistemática de hidroxicloroquina como arma anti-coronavírus. A razão para isso é simples: o risco de graves distúrbios cardiológicos nos pacientes.

cloroquina mortal

As preocupações da comunidade médica francesa se devem em boa parte à divulgação pelo Centro de Farmacovigilância da França que informou que desde 27 de março foram registrados 54 casos de problemas cardíacos, incluindo quatro fatais, relacionados à ingestão de hidroxicloroquina para combater a infecção causada pelo COVID-19.

A matéria traz uma entrevista com o professor de farmacologia clínica Milou-Daniel Drici  que afirmou gostaria que todos os hospitais e médicos da França pensassem nisso antes de prescrever o tratamento com hidroxicloroquina para seus pacientes com Covid-19.

Drici estar preocupado com os efeitos indesejáveis, em particular afecções graves, às vezes fatais, no coração de certos pacientes, não param de aumentar na França em conexão com o uso deste medicamento. “Exceto no contexto de ensaios clínicos para avaliar esse medicamento ou no caso de pacientes hospitalizados em estado grave com o acordo colegial dos médicos, ele não deve ser prescrito”, insistiu o professor Drici.

Segundo ele, entre os potenciais efeitos indesejáveis da ​​hidroxicloroquina estão: náusea, vômito, erupções cutâneas, mas também ataques dermatológicos, oftalmológicos, psiquiátricos.

A matéria do “Le Parisien” informa ainda que o Centro de Farmacovigilância observou casos de desconforto, palpitações ou perda repentina de consciência, e que nos casos mais graves, o paciente sofreu arritmia cardíaca: o coração começa a bater de maneira anárquica e desordenada.  

O que se depreende do caso francês é que o uso de hidroxicloroquina não é a panaceia que os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro têm insistentemente apregoado, e que, em muitos casos, em vez de curar o COVID-19, essa droga poderá causar a morte dos pacientes. 

Por isso é que em vez de se procurar por uma droga milagrosa, o que temos de fazer é seguir os protocolos da Organização Mundial da Saúde e aprofundar as medidas de isolamento social.  Do contrário, a contagem de mortos subirá exponencialmente no Brasil, como já ocorreu em outros países onde o sistema de saúde estava em situação menos precária do que o nosso se encontra após anos de sucateamento premeditado.