Incêndios como estratégia de apagamento da memória e do patrimônio arquitetônico em Campos dos Goytacazes

Apesar de não gostar de antecipar trabalhos acadêmicos que eu esteja desenvolvendo com meu grupo de pesquisa, o mais recente incêndio de um edifício tombado pelo seu valor histórico, o Hotel Flávio, me faz pensar que no centro histórico de Campos dos Goytacazes estamos diante de uma eficiente estratégia de apagamento da  nossa rica memória arquetônica via a ocorrência de sinistros. No caso do Hotel Flávio, o mesmo foi construído ainda no século XIX e pertenceu aos familiares do Visconde de Araruama, tendo sido tombado pelo Coppam em 12 de setembro de 2013.

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O fato é que um dos meus orientandos tem no forno um detalhado artigo científico apresentando um mapeamento cuidadoso dos casos de incêndio que consomem edifícios de valor histórico (tombados ou não), sua posterior demolição e trasnformação em estacionamentos. Aliás, vamos esperar para ver o que acontecerá no espaço que hoje abriga o prédio histórico do Hotel Flávio. O meu palpite com base em meu conhecimento científico sobre o centro histórico de Campos? Um estacionamento, é claro.

Temos associado a essa situação à criação de espaços de espera e de reserva de valor, na medida em que os estacionamentos seriam usados como mecanismos de geração de renda até que o centro histórico seja, digamos, abraçado pelo mercado imobiliário que se serviria de um dos metros quadrados mais caros da cidade para gerar o chamado processo de “gentrificação” que tornaria aquela área, mais uma vez, o lócus de produção e reprodução das classes mais abastadas da cidade.

Sabe o que é Gentrificação? - APEGAC

E tudo isso sem que haja a devida reação do poder público para proteger e conservar um patrimônio arquitetônico que contém o segundo maior acervo de edifícios ecléticos do Rio de Janeiro.

Finalmente, adianto que quando o artigo supracitado for finalmente publicado, o mesmo será obviamente postado aqui neste espaço.

 

Patrimônio arquitetônico sob a égide da destruição em ritmo de estacionamentos

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A informação que o fabuloso casarão do antigo Hotel Flávio está com os dias contados já seria trágica [1], se não fosse o fato de que o centro histórico de Campos dos Goytacazes está sendo alvo de um processo muito mais amplo de desconstrução de seu rico patrimônio arquitetônico.  Pelo menos isso é que foi descoberto após um exaustivo trabalho de pesquisa pelo agora cientista social André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos que foi condensado na monografia de graduação intitulada “O Projeto de Revitalização do Centro Histórico de Campos Dos Goytacazes: Tensões, Disputas e o Desaparecimento do Patrimônio Arquitetônico Campista e que foi recentemente defendida por ele no âmbito do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

Inicialmente orientado a pesquisar os resultados do projeto de revitalização do centro histórico, André Vasconcellos acabou se defrontando com um amplo processo de erradicação dos prédios históricos que dão a Campos dos Goytacazes a condição de detentora de um dos maiores acervos da arquitetura eclética no Brasil.   E o interessante foi a descoberta de que este processo acabou gerando um fenômeno ainda a ser melhor estudado que é o crescimento acelerado de estacionamentos em terrenos onde previamente estavam localizados prédios que detinham exemplares da arquitetura eclética. É que após um mapeamento cuidadoso,  André Vasconcellos acabou identificando um crescimento de 50 para 80 estacionamentos apenas entre 2017 e 2018 (ver mapa abaixo).

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No mapa acima, cada bandeira representa um estacionamento localizado dentro do centro histórico de Campos dos Goytacazes.

O mais interessante é que tais estacionamentos, seguindo o tamanho dos lotes que ocupam, possuem capacidades que variam de 2 a 3 veículos para até várias dezenas de vagas nos maiores.  O que parece mesmo importar é desprover o lote de prédios tombados e deixar o terreno gerando valor na forma de aluguel ou ganho direto via a implantação de estacionamentos.

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Uma coisa é certa: ou o Conselho de Preservação do Patrimônio Arquitetônico do Município de Campos dos Goytacazes (COPPAM) começa a trabalhar efetivamente o que ainda resta do acervo arquitetônico ainda existente no centro histórico da nossa cidade ou número de estacionamentos vai aumentar mais ainda.  É que disposição e estratégias para garantir isso não faltam. Ao contrário da disposição dos agentes supostamente responsáveis pela sua proteção que parecer ser mínima.


[1] http://folha1.sites.fiveedit.com.br/_conteudo/2018/07/geral/1236362-demolicao-do-hotel-flavio-sem-previsao-de-fim.html