Corpos contaminados, agricultura dependente de agrotóxicos

Pesquisa internacional evidencia que a exposição aos agrotóxicos é uma característica estrutural do modelo agrícola da Revolução Verde e reforça que a redução do uso de venenos é uma condição para a promoção da saúde, da justiça ambiental e da soberania alimentar

O artigo de Anouk Petitpierre, Aggrey Atuhaire, Christian H. Lindh, Ana M. Mora, Martin Röösli, Philipp Staudacher e Samuel Fuhrimann, publicado na revista The Lancet Planetary Health, traz uma contribuição importante para um tema que costuma permanecer invisível: a exposição cotidiana de pequenos agricultores aos agrotóxicos em países tropicais de baixa e média renda. Em vez de confiar apenas em questionários ou relatos dos trabalhadores, os autores analisaram biomarcadores presentes na urina de mais de 600 agricultores da Costa Rica e de Uganda, oferecendo um retrato objetivo da contaminação ocupacional.

O primeiro resultado impressiona pela contundência: todos os sete biomarcadores pesquisados foram encontrados em praticamente todos os participantes do estudo, confirmando que a exposição aos agrotóxicos é ampla e sistemática entre agricultores familiares, independentemente do país analisado.  Essa constatação desmonta a ideia frequentemente difundida de que o problema estaria restrito ao uso inadequado de equipamentos de proteção ou a comportamentos individuais. A contaminação aparece como uma característica estrutural do atual modelo agrícola.

Outro aspecto relevante é a comparação entre agricultores convencionais e orgânicos. Os pesquisadores verificaram que aqueles que trabalham exclusivamente com práticas orgânicas apresentam concentrações significativamente menores de diversos biomarcadores, com reduções que chegam a 68% em alguns casos. Também foi observado que agricultores que receberam treinamento sobre segurança no manejo de agrotóxicos exibiam níveis inferiores de exposição, embora essa redução tenha sido relativamente modesta quando comparada aos benefícios proporcionados pela adoção da agricultura orgânica.

Há, entretanto, um resultado particularmente provocador. O estudo não encontrou evidências de que o simples uso de equipamentos de proteção individual seja suficiente para reduzir a exposição. Em alguns casos, como no uso de luvas durante a aplicação de determinados inseticidas, a concentração dos biomarcadores foi até maior. Os autores sugerem que o problema decorre do uso inadequado dos equipamentos, da reutilização de luvas contaminadas e da ausência de procedimentos básicos de higiene, demonstrando que distribuir EPIs sem treinamento adequado pode produzir uma falsa sensação de segurança.

Embora o artigo tenha sido desenvolvido na Costa Rica e em Uganda, suas conclusões dialogam diretamente com a realidade brasileira. O Brasil ocupa há anos uma posição de destaque no consumo mundial de agrotóxicos e vem ampliando continuamente o registro de novos produtos, muitos deles contendo ingredientes ativos proibidos na União Europeia. Nesse contexto, a demonstração científica de que pequenos agricultores permanecem cronicamente expostos a múltiplos compostos químicos reforça a necessidade de superar uma visão centrada exclusivamente no “uso seguro” dos venenos agrícolas.

Os dados apresentados também dialogam com o conceito de injustiça ambiental. São justamente agricultores familiares, trabalhadores rurais e comunidades de menor renda que assumem os maiores riscos sanitários para sustentar um modelo agrícola altamente dependente de insumos químicos, enquanto os benefícios econômicos concentram-se nas grandes corporações que controlam o mercado global de sementes, fertilizantes e agrotóxicos. O estudo evidencia que essa desigualdade não é apenas econômica, mas também biológica: ela pode ser medida diretamente no organismo das pessoas.

Nesse sentido, a principal contribuição do trabalho vai além da demonstração de que a agricultura orgânica reduz a exposição aos agrotóxicos. O artigo aponta que uma transição para sistemas produtivos menos dependentes de insumos químicos exige políticas públicas robustas, apoio financeiro aos agricultores, programas permanentes de capacitação e investimentos em pesquisa sobre métodos alternativos de controle de pragas. Os próprios autores defendem que essa transformação depende de subsídios, assistência técnica e mecanismos que permitam aos pequenos produtores migrar para práticas agroecológicas sem sofrer perdas econômicas.

Em um momento em que o debate público frequentemente opõe produtividade e sustentabilidade como se fossem objetivos incompatíveis, o estudo publicado na The Lancet Planetary Health oferece uma evidência importante: reduzir a dependência dos agrotóxicos não é apenas uma questão ambiental, mas uma medida urgente de saúde pública, justiça social e proteção dos trabalhadores rurais que garantem a produção de alimentos.

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