Ibama suspende aplicação de agrotóxicos à base de fipronil

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 O Ibama publicou no dia 29 de dezembro de 2023, comunicado para suspender, como medida cautelar, a aplicação de agrotóxicos à base de fipronil por meio de pulverização foliar em área total, ou seja, não dirigida ao solo ou às plantas. A medida visa a proteção aos insetos polinizadores até que o referido procedimento de reanálise do agrotóxico seja concluído pelo Ibama.

O fipronil, ingrediente ativo de vários agrotóxicos, encontra-se sob reavaliação ambiental pelo Ibama desde setembro de 2022, em razão dos indícios de efeitos adversos graves às abelhas associados ao uso desses agrotóxicos, observados em estudos científicos e relatados em diversas partes do mundo.

As avaliações já realizadas indicam a potencial existência de risco ambiental inaceitável às abelhas, decorrente da deriva da pulverização, para todos os produtos à base de fipronil com indicação de uso via aplicação foliar.

O comunicado justifica a suspensão com base no “direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” e que a “proteção do meio ambiente auferida pelos princípios da precaução e da prevenção se dá com a implementação de medidas que possam prevenir a ocorrência de danos”.

Os titulares de registro de agrotóxicos que contenham fipronil como ingrediente ativo têm prazo de 90 dias, contados a partir da publicação do Comunicado, para publicar folheto complementar, etiqueta ou outro meio eficaz, com a frase de advertência:

“Este produto é tóxico às abelhas. A aplicação aérea não é permitida. A pulverização foliar não dirigida ao solo ou às plantas, ou seja, aplicações em área total, não é permitida. Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental, sujeito a penalidades cabíveis e sem prejuízo de outras responsabilidades.”


Fonte: Assessoria de Comunicação do Ibama

Ibama mostra que 6 dos 10 agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2022 causam câncer e outras doenças graves

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Em seu última publicação da série de Boletins Anuais sobre defensivos, elaborados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o relatório revela quais foram os 10 agrotóxicos mais vendidos [ingredientes ativos] em 2022. De acordo com os dados analisados, as moléculas mais comercializados, em toneladas, foram: Glifosato e seus sais; 2,4-D; Atrazina, Mancozebe; Acefato; Clorotalonil, Dibrometo de Diquat, Glufosinato – Sal de Amônio, Clorpirifós e Metomil.

Os Boletins Anuais sobre agrotóxicos, elaborados pelo Ibama são documentos informativos, construídos a partir das informações constantes nos Relatórios de Produção, Importação, Comercialização e Exportação (fonte primária), após análise e tratamento dos dados recebidos, com o objetivo de disponibilizar e dar esclarecimento, a qualquer interessado, acerca das quantidades consolidadas de ingredientes ativos, em toneladas, comercializados no ano-base de sua publicação.

Os dados sintetizados sobre a comercialização de agrotóxicos mostram que em 2022 Em 2022, um total de 232 empresas titulares de registro de produtos defensivos enviaram ao Ibama relatórios autodeclaratórios de Produção, Importação, Comercialização e Exportação de defensivos por produto registrado, em atendimento ao art. 41 do Decreto n° 4.074/2002. Foram recebidos 4.025 relatórios de produtos formulados (PF) e 2.241 relatórios de produtos técnicos (PT), totalizando 6.266 relatórios anuais.

A posição desses agrotóxicos mais vendidos em 2022 mantém basicamente o que já ocorreu em 2020 e 2021, conforme documentado pela professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina, Sonia Heiss. E é aí que a porca torce o rabo, pois a professora Heiss apurou, pelo menos 7 desses agrotóxicos foram identificados como potenciais causadores de diversas doenças, incluindo câncer e alterações no sistema endócrino.

Abaixo a descrição das doenças que podem ser causadas pela exposição aos agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2022:

  • Acefato: Inseticida e acaricida que, segundo estudos de 2017, é citotóxico e genotóxico sobre espermatozoides humanos. Além disso, pesquisas de 2016 o associam ao desenvolvimento do diabetes tipo 2, hiperglicemia, disfunção no metabolismo de lipídios, danos ao DNA e câncer.
  • Atrazina: Estudos realizados em 2017 apontaram que o herbicida está associado ao aparecimento de diversos tipos de câncer, como de estômago, linfoma não-Hodgkin, próstata, tireóide, ovário, mal de Parkinson, asma, infertilidade e baixa qualidade do sêmen. E também malformações congênitas/teratogênese.
  • Clorotalonil: Fungicida causador de desregulação endócrina, conforme mostrou estudo de 2019.
  • Clorpirifós: Segundo pesquisas realizadas em 2017 e 2018, o inseticida está associado ao surgimento de diversos tipos de câncer, como no cérebro, pulmão, colorretal, leucemia e sarcoma de tecidos moles. Além disso, mal de Parkinson, asma, infertilidade, malformações congênitas, disfunções sexuais, desordem do déficit de atenção e hiperatividade (ADHD), autismo, atrasos no desenvolvimento. Sem contar intoxicações agudas severas e danos ao sistema nervoso central.
  • Glifosato: Classificado como potencialmente cancerígeno pela Agência Internacional para a Pesquisa sobre Cancer (IARC) desde 2015, o glifosato também tem sido associado principalmente ao desenvolvimento do linfoma de non-Hodgkin.
  • Mancozebe: Pesquisa de 2017 aponta que o fungicida e acaricida causa câncer de tireóide.

Situação deve piorar com a promulgação do Pacote do Veneno

Se a situação já está grave, a recente promulgação da Lei 14.785 de 27 de dezembro de 2023 (o famigerado Pacote do Veneno) deverá aprofundar a liberalização da importação, produção e comercialização desses agrotóxicos altamente prejudiciais à saúde humana e ao meio ambiente, inclusive para os que causam câncer e o extermínio de polinizadores.

Aliás, há que se enfatizar que muito provavelmente os representantes da bancada ruralista inseriram cláusulas específicas sobre a permanência de agrotóxicos cancerígenas na Lei 14.785 com base nos dados recolhidos pelo Ibama, o que torna importante a divulgação dos mesmos para além dos representantes do latifúndio agro-exportador e dos fabricantes de venenos agrícolas.

Mas uma certeza seguindo o que está estipulada pela primeira Lei de Murphy que é “se alguma coisa tem a mais remota chance de dar errado, certamente dará.”

Enquanto governo Lula concede aumentos para apenas para PRF e PF, servidores do IBAMA anunciam movimento de luta

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O ano de 2024 começa no ritmo de alta tensão dentro dos servidores públicos federais à luz das políticas restritivas impostas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para uma reposição linear das perdas salariais acumuladas nos últimos anos. A temperatura subiu ainda mais com o anúncio de que o governo Lula anunciou um reajuste salarial escalonado para seis cargos na Polícia Federal (PF) e na Polícia Rodoviária Federal (PRF). O acordo abrange as carreiras de delegado, perito criminal, agente, escrivão e papiloscopista na PF, além dos policiais rodoviários federais.

O problema fica ainda mais evidente com a decisão dos servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) anunciaram já no dia 1 de janeiro que se restringirão à realizar atividades internas em face do descaso com as suas demandas salariais e de condições de trabalho (ver imagem abaixo).

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A verdade é que apesar de todas os acenos feitos em suas viagens internacionais, o presidente Lula ainda está devendo ações concretas para valorização dos servidores não apenas do IBAMA, mas também do ICMBio, na medida em que eles estão na linha de frente da defesa das florestas brasileiras, mas sem a devida valorização ou condições mínimas de trabalho.

‘PL do Veneno’: Ibama pede a Lula seis ‘vetos essenciais’ à nova lei dos agrotóxicos

Repórter Brasil teve acesso a nota técnica do Ibama que recomenda veto a seis artigos da nova lei de agrotóxicos. Ministério do Meio Ambiente endossa o relatório; Lula tem até o dia 27 para decidir

rb agrotoxicosAtivistas do Greenpeace protestam contra projeto de lei que afrouxa regras para aprovação de novos agrotóxicos (Foto: Bárbara Cruz/Greenpeace)

Por André Borges, de Brasília (DF) para a Repórter Brasil 

A ala ambiental do governo federal aumentou a pressão nesta semana para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vete trechos da nova lei de agrotóxicos, conhecido durante sua tramitação no Congresso como PL do Veneno. O texto flexibiliza regras e facilita a entrada de novos agrotóxicos no país.

Repórter Brasil apurou que técnicos do Ibama elaboraram uma lista com a recomendação de seis vetos ao texto, aprovado pelo Senado no dia 28 de novembro.

O documento, acessado com exclusividade pela reportagem, já foi remetido ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) para encaminhamento à Presidência da República. Lula tem até o dia 27 para decidir sobre a sanção ou vetos à nova lei.

O relatório aponta “retrocessos”, “inconstitucionalidades” e lista seis “vetos essenciais” sobre o texto que está nas mãos do governo. Lula terá até o dia 27 para decidir sobre o assunto. A Presidência tem a prerrogativa de cortar ou não artigos do texto, mas não está habilitada a modificar a redação. Em caso de vetos, o Congresso pode realizar uma nova votação para tentar restabelecer o conteúdo suprimido.

A Repórter Brasil procurou o Ministério do Meio Ambiente e a Casa Civil da Presidência da República para comentar o teor do documento elaborado pela área técnica do Ibama. Por meio de sua assessoria, o MMA declarou que aprova as propostas de veto e que elas serão encaminhadas ao Palácio do Planalto.

“O MMA endossa a posição apresentada pelo Ibama e prepara hoje uma nota técnica neste sentido”, declarou o ministério.

A Casa Civil informou que pediu a análise dos órgãos envolvidos no tema, o que também inclui a Advocacia-Geral da União (União). “A Casa Civil da Presidência encaminhou o Projeto de Lei 1459/2022 para manifestação dos órgãos envolvidos e aguarda retorno”, informou.

Quais são os vetos propostos pelo Ibama?

O principal pleito do Ibama é a manutenção dos critérios técnicos e científicos que embasam a liberação e a fiscalização dos agrotóxicos (Foto: Unsplash)

1) Redução das competências

O principal pleito do Ibama é a manutenção dos critérios técnicos e científicos que embasam a liberação e fiscalização dos agrotóxicos. O texto aprovado no Senado retira do órgão ambiental federal e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a função de analisar impactos à saúde e ao meio ambiente, em casos de agrotóxicos já registrados que venham a sofrer algum tipo de alteração em sua composição química – situação bastante comum no setor. Ao pedir o veto deste trecho (artigo 27º), o Ibama se justifica no documento: “O resultado disso é que o risco da avaliação ambiental se torna uma mera formalidade.”

O órgão ambiental explica que, da forma como o texto está hoje, quaisquer modificações que venham a ocorrer nas características essenciais de um agrotóxico já registrado – situação que pode, inclusive, torná-lo mais tóxico do que originalmente – passam a ser atribuição exclusiva do Ministério da Agricultura (Mapa). Isso significa que a Anvisa e o Ibama deixam de ser ouvidos nessas situações.

“As alterações podem impactar diretamente no perfil ecotoxicológico e toxicológico do agrotóxico, inclusive com a presença de novas impurezas que podem torná-lo mais tóxico do que quando registrado inicialmente”, afirma o órgão ambiental, apontando ainda que a mudança afronta a Constituição Federal. “Trata-se de flagrante retrocesso socioambiental, uma vez que hoje esse tipo de avaliação é realizado de forma conjunta.”

2) Análises complementares

O texto aprovado pelo Congresso prevê ainda que as reavaliações de agrotóxicos pelo Ibama e a Anvisa sejam apenas complementares (artigo 28º) à análise do Mapa. Em outras palavras, caberá ao Ministério da Agricultura, a seu critério, requerer ou não essas informações.

O Ibama alerta que essas reavaliações conduzidas pela Anvisa e Ibama “são pautadas em robusta base técnico-científica”, por se tratar de “processos investigativos sobre efeitos adversos à saúde e/ou meio ambiente”. Por isso, diz o Ibama, estes órgãos “não podem ser rebaixados à condição de mero complemento da análise do órgão de Agricultura”.

Como exemplo das exigências desta análise técnica, o Ibama lembra que, pelas regras atuais, o coordenador desse processo é definido conforme o tipo de reavaliação de produto, ou seja, pelas “atividades finalísticas de cada autoridade participante do registro” de cada agrotóxico. “O órgão de Agricultura não detém o saber e competência institucional para atuar nesses temas”, afirma o relatório do órgão ambiental.

3) Substituição de produtos

O Ibama também requer a derrubada de uma regra que condiciona ao Mapa a adoção das medidas de segurança.

Segundo o artigo 31 do texto aprovado no Senado, se for constatado que um produto causa potenciais danos ao meio ambiente ou à saúde humana, sua restrição, suspensão, cancelamento ou proibição somente poderá ser efetivada caso existam outros “produtos substitutos”, elencados pelo Ministério da Agricultura.

“Com isso, medidas necessárias ao bem estar humano e equilíbrio ecológico ficam condicionadas à ação do órgão registrante (Mapa)”, afirma o Ibama, que classifica a regra como “retrocesso socioambiental com ofensa ao direito à vida saudável e ao equilíbrio ambiental”.

4) Controle de embalagens de agrotóxicos

No que diz respeito a embalagens de agrotóxicos, o texto aprovado no Congresso (artigo 41º) dispensa a necessidade de o fabricante gravar informações de modo indelével, ou seja, com rótulos em relevo, impossíveis de serem removidos sem danificações. 

A nova regra dispensa a necessidade deste tipo de tratamento visual em relação ao nome da empresa titular do registro, além de não tornar obrigatória a advertência sobre o não reaproveitamento das embalagens, medida básica de saúde e segurança.

O artigo, alerta o Ibama no documento, dificulta a responsabilização das empresas que façam a destinação inadequada das embalagens de agrotóxicos. “Retroceder no controle de embalagens desses produtos, facilitando a remoção da inscrição da empresa titular e a sua indevida reutilização, constitui retrocesso socioambiental e maior risco à saúde e ao meio ambiente. Vai de encontro à prática de controle de embalagens de agrotóxicos no Brasil há mais de 30 anos”, afirma a autoridade ambiental.

5) Produtos cancerígenos

Até hoje, os agrotóxicos e seus componentes só podem ser produzidos, comercializados e utilizados, se previamente registrados conforme as diretrizes e exigências dos órgãos federais responsáveis pelos setores da saúde, do meio ambiente e da agricultura.

A nova lei (artigo 4º)  altera esse entendimento e diz que, agora, serão proibidos apenas os produtos que apresentarem um “risco inaceitável”, abrindo espaço para um tipo de tolerância ao risco. Ocorre que não há clareza sobre os critérios para embasar essa decisão.

“É relevante e urgente garantir que os filtros de proibição vigentes sejam mantidos. O filtro escolhido é vago e insuficiente. O Brasil não pode ser caminho livre para substâncias banidas em outros países”, alerta o Ibama.

O órgão federal destaca que não é aceitável o registro de um agrotóxico que tenha maior ação tóxica sobre o ser humano e o meio ambiente do que aqueles que já foram registrados para o mesmo fim. 

“De igual maneira, não é razoável admitir o registro no Brasil de agrotóxicos para os quais o país não dispõe de métodos de desativação, não haja antídoto ou tratamento eficaz”, diz o relatório do órgão federal. “A ciência indica não existir risco aceitável ao câncer. Segundo a Fiocruz, não há uma relação de dose resposta para produtos cancerígenos. Pequenas doses podem gerar danos irreversíveis à saúde das pessoas.”

6) Saldão do registro

A nova lei cria uma taxa única para o registro de agrotóxicos, ao contrário do que ocorre atualmente. Segundo o Ibama, no entanto, não há um estudo sobre as estimativas de receitas que serão geradas por essa nova taxa.. Paralelamente, o texto (artigo 66º) revoga uma série de regras relativas às taxas ambientais que já estão envolvidas com esse processo. 

Na avaliação dos técnicos do órgão ambiental, essa mudança contraria o interesse público, ao incentivar o registro de produtos potencialmente danosos à saúde e ao meio ambiente, devido à potencial “renúncia de receitas auferidas dos serviços ambientais”.

PL rechaçado por cientistas

O texto aprovado pelo Congresso prevê ainda que as reavaliações de agrotóxicos pelo Ibama e a Anvisa sejam apenas complementares (Foto: Otávio Almeida / Greenpeace)

Apesar das indicações de vetos, não há sinalização de que Lula deverá acatar as sugestões. Como mostrou a Repórter Brasil, o texto aprovado no Senado contou com o apoio da base do governo, após negociações com a bancada ruralista realizadas ainda durante a transição de governo, no fim do ano passado, e a aprovação da PEC do reequilíbrio fiscal, neste ano.

O projeto original já recebeu mais de 20 manifestações contrárias da comunidade científica, entre elas o Instituto Nacional do Câncer, a Fiocruz e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, além da Anvisa e Ibama.

Desde que o senado aprovou a lei, diversas organizações pediram o veto do presidente. Um deles foi o manifesto entregue ao presidente durante a COP, assinado por Greenpeace, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, e o Observatório do Clima, entre outros.

Só nesta terça-feira (12), o Ministério da Agricultura publicou a aprovação para comercializar 18 novos agrotóxicos no país.


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Este texto foi inicialmente pela Repórter Brasil [Aqui!].

Encarregados de combater o desmatamento na Amazônia, agentes ambientais brasileiros protestam contra condições de trabalho sob Lula

torasAgente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA) inspeciona árvore extraída da floresta amazônica, em uma serraria durante operação de combate ao desmatamento, em Placas, Pará, Brasil, 20 de janeiro de 2023. REUTERS/Ueslei Marcelino//Arquivo Foto Adquire Direitos de Licenciamento

Por Jake Spring para a Reuters

DUBAI (Reuters) – Mais de 1.500 trabalhadores das agências federais  que atuam contra o desmatamento no Brasil estão exigindo melhores salários e condições de trabalho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de acordo com uma carta que assinaram e que foi revisada pela Reuters na quarta-feira.

Os agentes ambientais foram encarregados de executar a postura mais dura de Lula em relação ao desmatamento, um elemento-chave de sua campanha para restabelecer o Brasil como líder em mudanças climáticas, através da emissão de multas por infrações ambientais, entre outros meios.

As taxas de desmatamento na floresta amazônica brasileira caíram 50% nos primeiros 10 meses da presidência de Lula, mas os trabalhadores dizem que continuam mal pagos e sobrecarregados de trabalho enquanto Lula apregoa o seu sucesso na Conferência Climática COP28 da ONU, em Dubai.

A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, é vital para conter as alterações climáticas porque absorve grandes quantidades de gases com efeito de estufa que provocam o aquecimento global.

Os trabalhadores do IBAMA, órgão federal de fiscalização ambiental, e do  ICMBIO, agência encarregada de proteger as unidades de conservação,  acusaram Lula de “deslealdade” e disseram que suas condições de trabalho ameaçavam o combate ao desmatamento.

O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, nomeado por Lula, disse que os servidores tinham razão. “Boa parte dos resultados do desmatamento foram frutos do seu trabalho”, disse Agostinho à Reuters à margem da COP28.

“É uma afirmação justa da parte deles, mas trabalhamos com limitações”.

Agostinho disse que espera poder contratar mais trabalhadores no próximo ano e culpou o Congresso por atrasar as aprovações orçamentais.

O gabinete de Lula, o ICMBio e o Ministério do Meio Ambiente não responderam imediatamente a um pedido de comentário.

As taxas de desmatamento dispararam sob o governo do antecessor de direita de Lula, Jair Bolsonaro, que procurou abrir mais áreas da Amazônia à agricultura e à mineração, argumentando que isso tiraria a região da pobreza.

Jair Bolsonaro enfraqueceu os órgãos ambientais e os criticou abertamente por emitirem multas ambientais.

Reportagem de Jake Spring; edição por Miral Fahmy


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Organizações do Pará e do Amapá entregam carta à Petrobrás contra a exploração de petróleo na Foz do Amazonas

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Representantes do Observatório do Marajó, SOS Costa Amazônica e Greenpeace entregam carta aberta à Petrobras. Crédito: Divulgação

As organizações Observatório do Marajó, SOS Costa Amazônica e Greenpeace entregaram ontem, em Belém do Pará, uma carta aberta contra a extração de petróleo na Foz do rio Amazonas a duas executivas da Petrobrás: Mayara Martins Aquino, Coordenadora Técnica de Projetos de Exploração, e Priscila Moczydlower, Coordenadora de Responsabilidade Social. A ação ocorreu após evento realizado pela Associação do Ministério Público do estado para discutir aspectos positivos e negativos da exploração de petróleo na região.

O documento apoia a negativa dada pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) à perfuração no bloco FAZ-M-59. Ao longo do manifesto, descrevem-se alguns cenários para possíveis derramamentos de óleo, que poderiam atingir áreas de manguezais, úmidas e de restinga, além de parques de proteção como o Parque Nacional do Cabo Orange, reduto de onças pintadas da Amazônia. A carta indica que existe também o risco de destruição de uma biodiversidade marinha ainda pouco conhecida e de espécies sob risco de extinção, como peixe-boi-marinho, tartaruga-de-pente, tartaruga verde e tartaruga-de-couro.

Outro risco apontado pelo documento é o de incidente diplomático em caso de vazamento de petróleo na região, já que em poucas horas o material derramado poderia alcançar a Guiana Francesa. Ainda mais grave é o fato de que o plano de contingenciamento da Petrobrás não contempla ou considera esses riscos, além de deixar de lado o impacto às comunidades tradicionais.

Os impactos foram destacados por Valma Teles, diretora institucional do Observatório do Marajó e liderança ribeirinha de Portel, na ilha paraense. “As comunidades tradicionais do Pará e do Amapá vivem sem justiça social, racial, de gênero, climática e energética. Não temos direito à informação, participação cidadã, vida digna, meio ambiente, água, alimento, entre tantos outros direitos básicos. Queremos soluções para essas questões e a garantia de autonomia e integridade no processo de transição energética. Parem essa tentativa de exploração de petróleo na foz do Amazonas e na Margem Equatorial”, clama.

Por fim, a carta indica que a Amazônia já vem sendo alvo de saques pela mineração e pela exploração hidrelétrica. Nenhuma das promessas de desenvolvimento atreladas a essas políticas de exploração se confirmou até hoje, por exemplo com políticas públicas que garantam a qualidade de vida da população local. Muito pelo contrário, elas têm deixado apenas um rastro de destruição ambiental e social na região.

Esta mesma carta foi entregue aos Ministérios dos Direitos Humanos e da Cidadania, do Meio Ambiente e das Mulheres.
Assinam 72 instituições: ADINCOCMA, Angelita- Projeto Encontrar Contar e Encantar, Articulação do povo Galibi marworno, Associação Cultural Cururu, Associação Cultural, Esportiva e Assistencial Cururu, Associação dos Assentados do Assentamento Agroestrativista Tartarugal Grande, Associação dos trabalhadores agroextrativista da estrada do Arapijó (ASTAE), Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha Piria_ Gurupi_ ASSREMAV, Associação Gira Mundo, Caritas, Cáritas Paroquial Cristo Bom Pastor, Centro Palmares de Estudos e Assessoria por Direitos, Centro Vida Orgânica, CMB confederação das mulheres do Brasil, Coesus- Coalizão Não Fracking Brasil, Coletivo Campesino Amazônico – COCA, Coletivo castanhal lixo zero, Coletivo Jovens Cuíras – Juventude Amazônida dos Manguezais, Coletivo Miri, Coletivo Pará Ciclo, Coletivo Utopia Negra Amapaense, Comissão Diocesana de Justiça e Paz de Castanhal, Comissão Justiça e Paz de Breves, Comissão Pastoral da Terra AnapuJane, Comitê de Energia Renovável do Semiárido-CERSA, Confrem, Cooperação da Juventude Amazônida para o Desenvolvimento Sustentável, COJOVEM, CPT (comissão pastoral da terra AP), Ehnapam, Ecologia Humana Natureza e Povos amazônicos, Estuário Serviços, Estuário Serviços consultorias socioambientais, FAOR Fórum da Amazônia Oriental, Fórum Paraense de Educação do Campo, Fórum Permanente pela Democracia, Grupo de Pesquisa(-ação) em Gestão Costeira Decolonial na Amazônia, Grupo de Trabalho Amazônico – GTA, Grupo Mãe Terra – Lago Grande, Grupo Natureza é vida, Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, IFPA, IFPA Campus Bragança, Instituto de Proteção a Defensores é Defensoras e da Amazônia (Pororoca), Instituto Dom Azcona de Direitos Humanos (IDA), Instituto EcoVida, Instituto Internacional Arayara, Instituto Mapinguari, Instituto Quelônios Mário, International Rivers Brasil, Levante Popular da Juventude, Liga das mulheres pelo Oceano, Mab/Ap, Mandí, Mar Sem Petróleo, Movimento dos Ribeirinhos (as) das Ilhas e Várzeas de Abaetetuba – MORIVA, Movimento Lixo Zero Amapá, Movimento Marajó Vivo, Movimento Pela Soberania Popular na Mineração – MAM, Observatório do Clima, Observatório do Marajó, OPG Observatório do Petróleo E Gás, Pastoral da terra anapá, PIME, Rádio São Francisco FM, Rede Ecoprofética em Defesa da Amazônia (REDA), Refe de Notícias da Amazônia RNA, Resex mocapajuba, Sala Verde Tucujú: Espaço Socioambiental Freiriano, Sindicato dos trabalhadores rurais de TARAUACÁ, SINDTIFES/PA, SINPAF-PA, Sintepp, UFPA/CUNTINS.

Presidente do IBAMA revoga instrução que previa destruição de equipamentos usados em práticas ilegais, mas “esquece” de apontar novas diretrizes

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O Diário Oficial da União traz hoje a curiosa (na ausência de melhor palavra) Instrução Normativa  Nº 6,  de 6 de março de 2023 que a Instrução Normativa nº 3, de 23 de janeiro de 2018, que estabelece os procedimentos para a aplicação da medida cautelar de destruição ou inutilização de produtos, subprodutos ou instrumentos utilizados na prática da infração ambiental, no âmbito das ações de fiscalização ambiental.

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O problema é que a nova instrução não traz nenhuma instrução sobre será feito com os equipamentos que vierem a ser encontrados dentro de unidades de conservação e terras indígenas sendo usados na prática de crimes. O ideal é que a anulação de uma instrução já trouxesse novas diretrizes na nova, mas não foi o que aconteceu.

Como existem muitas pressões sendo feitas sobre o governo Lula por parte de membros de sua própria base parlamentar para que não haja a devida repressão contra crimes ambientais, a situação criada pela remoção da Instrução Normativa nº 3, de 23 de janeiro de 2018 deverá ser acompanhada de perto. É que se não for colocado nada que explicitamente puna a presença desses equipamentos dentro de terras protegidas, o que teremos é a continuidade da boiada passando para alegria completa de Ricardo Salles e seus antigos colegas do governo Bolsonaro.

Porta-aviões brasileiro afundado pode despejar mais de 300 toneladas de substâncias tóxicas no mar

A decisão de afundar a embarcação, além de prejudicial ao meio ambiente, viola tratados internacionais e ignora parecer do Ibama. A recuperação energética de resíduos, tecnologia que transforma o lixo não reciclável em energia, é uma alternativa ambientalmente mais correta e segura para tratar grandes quantidades de materiais perigosos.

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O afundamento do casco do porta-aviões São Paulo, realizado na última sexta-feira (3), pela Marinha do Brasil, é visto com grande preocupação pela Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN).O motivo é que a embarcação pode despejar mais de 300 toneladas de substâncias tóxicas no mar, ignorando, inclusive, parecer do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), que apontou os riscos ambientais de tal atitude.

Em um primeiro momento, o governo da Turquia havia comprado o porta-aviões, de 265 metros de comprimento, para que fosse reciclado, mas devido a uma série de questões, em agosto de 2022 ele foi devolvido ao Brasil. No entanto, a Marinha brasileira se recusou a dar permissão para o navio atracar com segurança em uma base naval e tomou a decisão de afundar o navio no Oceano Atlântico.

A embarcação, carregada de amianto, pode conter mais de 300 toneladas de materiais carregados de Bifenilos Policlorados (PCB), um Poluente Orgânico Persistente (POP), que pode causar sérios danos à vida marinha devido à sua toxidade crônica. Com o afundamento do navio, o Brasil viola, inclusive, a Convenção sobre a Prevenção da Poluição Marinha por Despejo do Protocolo de Londres de Resíduos e Outras Matérias, de 1996, bem como a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes.

Para tratar os PCBs, assim como os POPs, de forma ampla, uma das alternativas mais recomendadas em todo o mundo é a incineração por meio de altas temperaturas, a fim de destruir os contaminantes. Esse método possibilita lidar com grandes volumes desse tipo de material contaminado, de maneira segura e eficiente.

No Brasil, inclusive, é recomendada a incineração para resíduos sólidos permeáveis com concentrações acimada de 50 partes por milhão (PPM), desde que seja devidamente licenciado, com Eficiência de Destruição e Remoção (EDR) mínima de 99,9999%.

Atualmente, uma das soluções mais sustentáveis é o tratamento térmico por meio das Usinas de Recuperação Energética de Resíduos (UREs), que podem facilmente lidar com esse tipo material e ainda gerar energia elétrica, de forma limpa e sustentável, para uma grande parcela da sociedade.

Porém, ao contrário do resto do mundo, o Brasil ainda está atrás quanto à utilização dessa metodologia para transformar o lixo não reciclável em energia. Enquanto há mais de 2,5 mil URE’s em todo o mundo, o país está em processo de construção de sua primeira usina, localizada em Barueri (SP). A planta tem previsão de entrar em operação a partir de 2025.

Governo Lula realiza suas primeiras ações de repressão ao desmatamento ilegal na Amazônia

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Por Jake Spring para a Reuters

URUARA, Brasil, 19 Jan (Reuters) – As primeiras incursões do Brasil contra o desmatamento ilegal na floresta amazônica sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estavam em andamento na quinta-feira, após a promessa do novo líder de acabar com a destruição que aumentou sob seu antecessor Jair Bolsonaro.

A Reuters acompanhou exclusivamente as incursões lideradas pela agência ambiental Ibama no estado da floresta tropical do Pará para impedir que madeireiros e fazendeiros derrubassem ilegalmente a floresta. A agência também lançou batidas esta semana nos estados de Roraima e Acre, disse a coordenadora de fiscalização ambiental do Ibama, Tatiane Leite.

Cerca de 10 agentes do Ibama partiram em caminhonetes na quinta-feira de sua base no município de Uruara, no Pará, juntamente com uma dezena de policiais federais, em direção a uma reserva indígena onde imagens de satélite mostraram madeireiros e fazendeiros trabalhando recentemente na derrubada ilegal da floresta. A missão visa deter ou afugentar madeireiros para evitar novas incursões na floresta e multar quem for flagrado com madeira ilegal.

O governo Bolsonaro reduziu o número de funcionários e fundos para fiscalização ambiental do Ibama em seus quatro anos de mandato, enquanto o ex-presidente criticou repetidas vezes o órgão por emitir multas a fazendeiros e mineradores.

Bolsonaro deu aos militares e depois ao Ministério da Justiça autoridade sobre as operações de combate ao desmatamento, deixando de lado o Ibama , apesar da vasta experiência e sucesso da agência no combate à destruição da Amazônia.

Uma área maior que a Dinamarca foi desmatada sob Bolsonaro, um aumento de 60% em relação aos quatro anos anteriores.

Lula na campanha eleitoral do ano passado prometeu colocar o Ibama de volta no comando do combate ao desmatamento com financiamento e pessoal reforçados. Ele assumiu o cargo em 1º de janeiro, então dinheiro adicional e equipe ainda não chegaram aos policiais da linha de frente. Mas agentes do Ibama disseram à Reuters que já se sentiam mais fortalecidos por Lula anunciar a proteção ambiental como prioridade máxima.

O governo de Bolsonaro negou vários pedidos da Reuters para acompanhar as missões do Ibama durante seu governo 2019-2022. Seu governo instituiu uma liminar proibindo os agentes do Ibama de falar com a imprensa, que, segundo os agentes, já foi revogada no governo Lula.

“Divulgar batidas para dissuadir criminosos ambientais já é uma grande mudança. Isso não acontecia no governo anterior, cujo objetivo era mostrar que não estávamos fazendo nada”, disse Givanildo dos Santos Lima, agente que comanda a missão Uruara do Ibama.

Lula assumiu o cargo pela primeira vez em 2003, quando o desmatamento da Amazônia estava próximo de seu recorde histórico, e por meio da estrita aplicação das leis ambientais o reduziu em 72%, para um nível quase recorde quando deixou o cargo em 2010.

Jake Spring é  Correspondente Global de Clima e Meio Ambiente, baseado no Brasil. Os interesses incluem ciência, florestas, geoengenharia, criosfera, política/diplomacia climática, responsabilidade e reportagens investigativas. Seu trabalho sobre a destruição ambiental sob o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, recebeu prêmios da Covering Climate Now e da Society of Environmental Journalists. Anteriormente baseado na China, ele é fluente em português e chinês mandarim.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Dossiê mostra ataques de Bolsonaro contra transparência pública e acesso a dados ambientais

Quinto relatório da série Dossiê Bolsonaro revela uma política deliberada do governo para ocultar dados socioambientais e fundiários em prol de interesses privados; casos relatados incluem negativas de acesso à informação, uso da Lei Geral de Proteção de Dados para esconder nomes de latifundiários e perseguição a servidores

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Por Mariana Franco Ramos e Bruno Stankevicius Bassi

Confira o novo relatório da série Dossiê Bolsonaro.

O caráter antidemocrático do governo de Jair Bolsonaro (PL) não se expressa apenas nas violências sistemáticas cometidas contra os profissionais da comunicação. A sonegação de informações e o esfacelamento dos mecanismos de transparência representam uma outra faceta da empreitada bolsonarista contra o interesse público.

Entre a imposição de sigilo de 100 anos a dados solicitados via Lei de Acesso à Informação (LAI) – 65 casos, segundo levantamento do Estadão – e a perseguição empreendida contra servidores públicos e jornalistas, De Olho nos Ruralistas mapeou os principais episódios de censura ocorridos no país durante os últimos quatro anos.

Os dados são apresentados ao público no relatório Um país sob censura, o quinto da série Dossiê Bolsonaro, que narra o histórico de violações do governo, relativas à pauta socioambiental e à captura do poder público pelos interesses corporativos. Confira os quatro primeiros dossiês aqui.

Com capa ilustrada pelo cartunista Renato Aroeira, o dossiê expõe o uso, cada vez mais frequente, da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) para negar acesso a dados de relevante interesse público, como a lista de nomes dos indivíduos e empresas autuados por crimes ambientais ou por trabalho análogo à escravidão. O próprio observatório recebeu essa justificativa em duas ocasiões, ao solicitar dados via LAI: primeiro em um pedido, feito no dia 25 de julho, da lista de fazendeiros multados na operação Abafa, conduzida pelo Corpo de Bombeiro Militar (CBM) em 2022; e depois, na tentativa de acessar a base de dados mais atualizada do Sistema de Gestão Fundiária (Sigef) do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que retirou o nome dos proprietários de terra dos arquivos.

O silenciamento de servidores e de profissionais de imprensa, aliado à ocultação de dados sobre os últimos quatro anos de governo, faz parte de uma estratégia mais ampla de Bolsonaro – e dos aliados no setor privado – para esconder seus crimes e privar as futuras gerações de parte importante de nossa história recente.

Você pode acessar o dossiê completo [Aqui!].

Sob o comando de Salles, Ibama e Icmbio restringiram dados

Uma análise da plataforma Fiquem Sabendo nos microdados de pedidos de informação divulgados pela CGU mostrou que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recusou mais informações e dificultou o acesso a processos em 2019, 2020 e 2021.

O principal motivo citado foi justamente o de que a informação solicitada estaria classificada como sigilosa nos termos da LAI (32% das negativas), seguido por “pedido exige tratamento adicional de dados” (15%), que é quando o órgão alega não ter capacidade de processar toda a informação pedida. Conforme o levantamento, a proporção de pedidos negados mais do que duplicou desde o início da vigência da lei.

Ricardo Salles deu início à “lei da mordaça” nos órgãos ambientais. (Foto: Reprodução)

Entre as perguntas não respondidas, há solicitações que pedem acesso a dados sobre operações contra o desmatamento na Amazônia Legal, número de ações de fiscalização realizadas pelo órgão, gastos do Grupo Especializado de Fiscalização do Ibama e o relatório da Petrobras sobre as manchas de petróleo no litoral nordestino.

Sob o mesmo argumento, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) negou acesso até mesmo aos dados básicos das pessoas físicas e jurídicas autuadas em Unidades de Conservação. “Eles mandaram uma lista, mas tirando os nomes das empresas, com o argumento de que a LGPD protegia”, relatou Luiz Fernando Toledo, diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e cofundador da Fiquem Sabendo. “É um problema de administração pública somado à burocracia comandada pelo governo atual, que não incentiva a transparência”, complementa.

Essa diretriz de impossibilitar o acesso a dados relevantes sobre temas ambientais foi, em grande parte, traçada pelo ex-ministro Ricardo Salles, hoje candidato a deputado federal em São Paulo, pelo PL. “Quando o presidente Bolsonaro entrou, o Salles começou a fazer ataques violentos e, ainda em janeiro de 2019, ele deu uma entrevista para a Folha dizendo que os dados não eram suficientemente precisos”, conta Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Essa visão é corroborada por uma servidora do ICMBio que, temendo represálias, pediu para não ser identificada: “É uma tentativa de censura muito desmedida, que vem desde 2019”.

Galvão foi demitido do órgão em agosto de 2022, após a divulgação de dados de desmatamento na Amazônia que desabonavam o discurso que Bolsonaro e Salles tentavam emplacar internacionalmente. Hoje candidato à Câmara pelo PV-SP, o ex-diretor do Inpe deseja criar uma “bancada da ciência”, conforme noticiado pelo observatório: Candidatos defendem ambiente e alertam para as mudanças climáticas“.

Incra removeu dados de sua base fundiária

No Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a situação não é diferente do que ocorre no Ibama e no ICMBio. Em agosto deste ano, o órgão retirou o nome dos proprietários de terra de sua base de dados mais atualizada, o Sistema de Gestão Fundiária (Sigef).

Incra impossibilitou acesso aos nomes de proprietários de terras no Sigef. (Foto: Reprodução)

Informações que eram públicas até então, como código do imóvel, número do processo, data e área, não estão mais disponíveis no site Acervo Fundiário, frequentemente acessado por pesquisadores e jornalistas. Um servidor da autarquia, que pediu para não ser identificado, apontou também a falta de divulgação interna dos atos normativos e a ausência de comunicação direta com a imprensa por parte das assessorias das superintendências regionais como problemas.

“A gente descobriu que em agosto de 2021 o órgão revogou diversas normas sem divulgação interna”, destacou. “No máximo acontece a publicação no Diário Oficial da União (DOU), ou seja, se você não abrir todos os dias, não vai ficar sabendo”. De acordo com ele, em outros momentos a publicação era bastante divulgada por e-mail e na rede eletrônica interna. “Há um avanço no fato de os processos serem eletrônicos, mas há um cerceamento da informação”.

Ainda segundo o funcionário, antigamente as superintendências produziam informações para os repórteres de forma direta. No atual governo, entretanto, os jornalistas que estão nas regionais espalhadas pelo Brasil não podem se comunicar com os veículos de imprensa. “Tudo o que forem falar, sobre qualquer pauta, tem de passar pela direção do Incra”.

“Você tem uma coisa desproporcional da interpretação da lei, de tirar informações massivas de interesse público que não têm relação com propaganda política, sobre a atuação do Estado, por conta de uma possibilidade daquilo ser mal interpretado”, comenta Danielle Belo, da plataforma Open Knowledge. “Você não pode negar o acesso a um processo administrativo inteiro por conta de um dado pessoal”.

Governo promove perseguição de jornalistas

Em junho de 2022, numa audiência pública no Senado, profissionais da comunicação denunciaram o crescimento dos ataques durante o governo Bolsonaro. De acordo com a ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF), entre 2018 e 2021, o Brasil caiu oito posições no ranking mundial de liberdade de imprensa, ocupando a 110ª posição entre 181 países analisados. Além disso, o país se tornou o 2º local mais letal para jornalistas no continente, atrás apenas do México.

Foram ao menos trinta assassinatos de profissionais na última década. Apenas no primeiro semestre de 2021, a RSF registrou 330 ataques, um aumento de 74% em relação ao ano anterior. Na avaliação de Bia Barbosa, coordenadora do Intervozes, os posicionamentos de Bolsonaro, de seus filhos e de autoridades próximas corroboram com os dados. “Nós monitoramos hashtags de hostilidade de ataques a jornalistas e comunicadores numa rede social e, em três meses, coletamos mais de meio milhão de postagens”.

Conforme a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Bolsonaro foi responsável pela maior parte das agressões a profissionais da imprensa em 2021, com 147 das 430 ofensivas denunciadas no período, que incluíram episódios de censura (140 casos) e de tentativas de desqualificar a informação (131 casos). Em relação a 2018, quando foram registrados 135 casos, o aumento foi de 218%.28

Mariana Franco Ramos é jornalista. |

|| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de projetos do observatório. ||

Imagem principal (De Olho nos Ruralistas): Tereza Cristina, Aline Sleutjes, Jerônimo Goergen, Bia Kicis, Kim Kataguiri e Coronel Tadeu tomam frente da censura ao material didático


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Este texto foi originalmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!].