O MEC está nas mãos de um economista não sabe a diferença entre 500 mil e 500 milhões

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Um dos maiores problemas que vejo no atual governo não tem nada a ver com a linha ideológica adotada, pois essa estava explícita no momento em que milhões de brasileiros (57,8 milhões para ser mais correto) escolheram Jair Bolsonaro para presidir o Brasil. O problema com o atual presidente e seus ministros mais falantes é o descompromisso mais escancarado possível com dados reais para formular o quer que seja em termos de suas políticas.

O vídeo abaixo seria motivo de um pedido imediato de demissão ou de demissão imediata estivéssemos em tempos menos bagunçados na república brasileira.  E o que ele mostra? Mostra o momento em que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, divulga um custo errado em 3 ordens de grandeza (um erro na ordem de mil vezes) para a avaliação do nível de alfabetização, durante anúncio oficial na última quinta-feira (02/05) em Brasília.

Como se vê no vídeo, Weintraub festejou inicialmente um gasto contratado de apenas 500 mil reais para a avaliação, que deve atingir cerca de 7 milhões de estudantes. Além disso, ele ressaltou o valor várias vezes, dizendo que “cada real do contribuinte” era importante. “Vamos avaliar não só o desempenho das crianças como o sistema de ensino como um todo. Nós vamos fazer um exame para 7 milhões de crianças a um custo de 500 mil reais.  A postura nossa é sempre de dizer ao pagador de imposto e à sociedade onde está sendo alocado o imposto. Então, uma avaliação que vai ser feita a 7 milhões de crianças a um custo total de 500 mil reais, para saber se as coisas estão andando bem”, comemorou o ministro.

O problema é que, minutos depois, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação do exame, informou que o valor estimado para a sua realização, na verdade, de cerca de 500 milhões de reais. “O presidente do Inep [Elmer Vicenzi] (o mesmo que no vídeo diz “Missão Dada”, supostamente cumprida) informa que o valor estimado para a aplicação do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2019 é de aproximadamente 500 milhões de reais. O valor de 500 mil reais foi incorretamente apresentado ao ministro na coletiva de imprensa realizada nesta data, em função de uma inconsistência material na planilha de custos elaborada pelo Inep”, informou a nota oficial do Instituto.

Depois da correção, o que disse Weintraub sobre o assunto? Absolutamente nada, pois estava ocupado demais cortando em quase 40% o orçamento das universidades e institutos federais. Aliás, Weintraub também estava ocupado dando explicações sobre suas notas baixas em diversas disciplinas no curso de graduação em Ciências Econômicas da Universidade de São Paulo (USP), uma delas sendo justamente Complementos de Matemática I, onde tirou zero na primeira vez que a cursou.

Mas o trágico aqui é que está demonstrado pelo próprio ministro Weintraub que ele não faz a menor ideia da diferença entre 500 mil e 500 milhões, apesar de seus longos anos de atividade no setor financeiro. Afinal, a diferença entre o que ele anunciou e o que realmente custará é de “meros” R$ 499,5 milhões.E isto, meus caros leitores, mostra apenas a ponta do grande iceberg de despreparo que Weintraub é. E salve-se quem puder.

Docente da UFPA que teve título de doutor cassado por plágio é exonerada de funções administrativas

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No dia 27 de outubro de 2015 repercuti a cassação do título de doutorado de uma docente da Universidade Federal do Pará (UFPA) por motivo de plágio (Aqui!).  O caso era mais peculiar já que a docente era responsável pelo processo de avaliação institucional da instituição, e ainda atuava como avaliadora de cursos de graduação em plano nacional pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) que é vinculado ao Ministério da Educação (MEC).

Pois bem, quase quatro meses após essa cassação, o Diário do Pará publicou uma matéria comunicando que a referida professora havia sido exonerada de suas funções administrativas (seja isso lá o que for), tendo que retornar aos cofres públicos todos os valores que recebeu, na forma de gratificações e progressões salariais, como recompensa por deter um título que acabou sendo cassado.

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Eu costumo dizer que no meio acadêmico (que está longe de ser composto por anjos), a pessoa vive ou sobrevive pelo que se pode ligar ao seu nome em termos de ações de formação de novos pesquisadores e, mais importante, publicações.  Assim, o “nome” é algo pelo qual se pode ser laureado ou excomungado e enviado para o inferno acadêmico. Nesse caso, a professora em questão deve estar experimentando algumas labaredas fortes.

Se isso for verdade, alguns poderiam dizer que ela está recebendo o que merece, já que quem comete plágio acadêmico conhece bem os riscos envolvidos, especialmente quando já se chegou ao nível de doutoramento. 

Apesar disto ser verdade, existem evidências suficientes de que os plágios de dissertações e teses se tornou uma epidemia mundial. O que parece variar é o tempo que se leva para apurar e punir, especialmente se quem plagiou estiver em postos altos de comando como foi o caso da ministra da Educação da Alemanha, Annette Schavan, que teve seu título de doutora na Universidade de Dusseldorf cassado em 2013 e acabou tendo que renunciar ao cargo (Aqui!). Mas, no caso em tela, o incrível é que se passou mais de uma década para que se chegasse ao veredito de que a docente da UFPA cometido plágio!

Por outro lado, dizer que o plágio se tornou epidêmico sem explicar as causas, torna-se insuficiente.  No caso brasileiro, além dos elementos prosaicos que envolvem retornos financeiros para os títulos de pós-graduação, penso que a lógica produtivista que tem guiado a consolidação do nosso sistema nacional de pós-graduação é uma das causas principais não apenas para a proliferação do plágio, mas como da lerdeza existente em identificar e punir os transgressores.

É que presos a uma lógica de que quantidade é que importa, docentes e dirigentes institucionais acabam permitindo toda sorte de frouxidão na condução da formação dos futuros mestres e doutores, e que não raramente deságua na aprovação de documentos claramente desqualificados.  A lógica dominante é que quase ninguém lê as dissertações e teses, mas os artigos, capítulos de livros ou livros que as mesmas geram.

Essa lógica perversa que permite a proliferação do plágio também facilita a proliferação exponencial das chamadas “editoras predatórias” que se especializam em publicar “trash science“, muitas vezes financiadas com dinheiro público.  É que neste mundo imperfeito que se gera a partir da quantidade sobre qualidade, também se sabe que a imensa maioria desse lixo científico tampouco será lido ou, se lido, levado à sério.

De minha parte, venho insistindo que o atual contexto de valoração da quantidade sobre a qualidade precisa ser urgente e radicalmente transformado.  Do contrário, continuaremos produzindo uma ciência que é tão cara quanto inútil para as necessidades estratégicas do Brasil. Lamentavelmente, poucos quadros qualificados têm se mostrado dispostos a falar abertamente desse problema. E se isso continuar assim, não tenho dúvidas que outros casos de plágio vão surgir. Resta saber se vão ser apurados e punidos e numa velocidade mais célere. E tome “trash science“!