Governo Bolsonaro exonera responsável por monitorar Amazônia no Inpe

queimadasA demissão acontece em meio às maiores taxas de alerta de desmatamento da Amazônia dos últimos cinco anos. Imagem: Getty Images

Por Giovana Girardi para

Em meio às maiores taxas de alerta de desmatamento da Amazônia dos últimos cinco anos, foi exonerada hoje a pesquisadora responsável pelo trabalho de monitoramento da devastação florestal no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Lubia Vinhas ocupava o cargo de coordenadora-geral de Observação da Terra do Inpe, departamento responsável pelos sistemas Deter e Prodes, que acompanham o desmatamento da Amazônia. A exoneração foi publicada no Diário Oficial desta segunda, assinada pelo ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, pasta à qual é vinculada o Inpe. O motivo ainda não foi esclarecido. A reportagem procurou o ministério, mas ainda não recebeu uma resposta.

Na sexta-feira (10), o órgão atualizou em seu site os dados referentes ao desmatamento da Amazônia em junho, apontando que o ritmo de alta se manteve, mesmo com uma ação de militares na região desde maio e com a pressão que vem sendo feita por investidores estrangeiros para que o governo controle o problema.

Alertas feitos pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indicam a perda de 1.034,4 km² no mês de junho, alta de 10,65% em relação a junho do ano passado, quando os alertas apontaram desmate de 934,81 km². Em apenas um mês, foram derrubados na Amazônia o equivalente à área da cidade de Belém (Pará).

É o mês de junho com maior devastação dos últimos cinco anos. Já são 14 meses consecutivos de alta no corte da floresta em relação aos mesmos meses do ano anterior. Em oito desses meses, as taxas bateram os recordes do registro desde 2015

No acumulado desde agosto (quando se inicia o calendário anual para fins de detecção do que ocorre na floresta), o Deter indica a devastação de 7.566 km², ante 4.589 km² no período de agosto de 2018 a junho de 2019. O aumento para esse período é de 65% .

O valor até o momento já é maior do que o acumulado de todos os alertas dos 12 meses entre agosto de 2018 e julho de 2019: 6.844 km². Somente nos primeiros seis meses deste ano, foram mais de 3 mil km² de florestas perdidos, o equivalente a duas vezes a área da cidade de São Paulo.

No ano passado, quando alertas do Deter começaram a indicar que a Amazônia estava sendo devastada, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, rejeitaram inicialmente os dados e chegaram a alegar que eles eram mentirosos. O estresse acabou culminando, em agosto, na exoneração do então diretor do Inpe, Ricardo Galvão.

Alguns meses depois, quando foram divulgados os dados do sistema Prodes, que traz os dados oficiais de desmatamento na floresta, confirmou-se que a perda de vegetação na Amazônia, entre agosto de 2018 e julho de 2019 havia sido a maior desde 2008.

Apesar dos números alarmantes, da cobrança de investidores estrangeiros e nacionais, das denúncias feitas por agentes ambientais, pesquisadores e ambientalistas, o problema não cessa. As taxas mensais de alertas do Deter continuaram em alta desde então.

O governo enviou em maio deste ano uma nova operação militar para a floresta, a Verde Brasil 2, mas no mesmo período, o desmatamento continuou subindo.

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Este artigo foi originalmente pelo jornal “O Estado de São Paulo” [Aqui!].

Mourão falha e desmatamento mantém viés de alta na Amazônia

Dados confirmam recorde para junho e a maior área acumulada em alertas para o período fiscal desde 2008

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Área desmatada de 1.022 ha na APA Triunfo do Xingu, na cidade de São Félix do Xingu, no Pará, com alerta de desmatamento do Deter detectado entre agosto de 2019 a junho de 2020

Por Karen Mota para o Greenpeace

São Paulo, 10 de julho, de 2020 – O desmatamento segue alcançando níveis alarmantes na floresta Amazônica, é o que comprova os dados do sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje. Os dados apontam alertas de desmatamento em uma área de 1.034 km² para junho, um aumento de 11% em relação ao mesmo mês do ano passado (935km²) e representam o pior junho desde 2007. Apesar dos números crescentes, o governo federal segue ineficaz em lidar com o problema, dando assim, prosseguimento à sua política antiambiental que fragilizou órgãos de fiscalização, como Ibama e ICMBio, enquanto prevê uma grande quantidade de recursos para operações militares ineficazes, sob comando do vice-presidente Hamilton Mourão.

A opção do governo em não adotar um plano concreto para impedir o desmatamento e as queimadas na Amazônia, além de colocar vidas em risco, também aumenta dramaticamente a vulnerabilidade econômica do Brasil. Isto é cada vez mais visível na relutância de alguns países europeus a acordos comerciais com o Brasil, e nas cartas enviadas ao governo brasileiro por representantes de países, investidores e empresas internacionais pedindo ações concretas para a defesa da maior floresta tropical do planeta.

A reação do governo às pressões é esconder o problema atrás de uma cortina feita de campanha publicitária, viagens e ações de fachada. “Mitigar e reverter os danos causados por esta política anti-ambiental à floresta e à imagem do país exigirá muito mais: precisamos de resultados concretos, e para isso será necessário um plano robusto para conter tamanha destruição, na linha do que foi o PPCDAM – a começar por ações de comando e controle em caráter permanente e executadas por órgãos competentes e bem aparelhados. Este é um caminho – já conhecido – que este governo insiste em ignorar”, afirma Cristiane Mazzetti, da campanha de Amazônia do Greenpeace. “Os números crescentes estampam a verdade, se enganam aqueles que aceitarem o que foi apresentado pelo governo até então como uma garantia de mudança de cenário”, completa.

A destruição avança com velocidade assustadora até mesmo em áreas protegidas (Unidades de Conservação e Terras Indígenas). Cerca de 67% do garimpo realizado na Amazônia no mês de junho ocorreu dentro dessas áreas. Foram desmatados 387 hectares para realização de garimpo em Terras Indígenas e 1.021 hectares em Unidades de Conservação somente no mês de junho. “Em meio a pior pandemia do século, nem mesmo o desastre ambiental de 2019 e a repercussão internacional do descaso do governo brasileiro com seu maior patrimônio natural e com os povos indígenas, parecem ser o bastante para fazer com que medidas concretas e inteligentes sejam tomadas para combater o crime na floresta”, avalia Cristiane.

imagens amazoniaApui, Amazonas Rodovia Transamazônica. À esquerda área em 28/03/2020 e à direita estado da área em 16/06/2020.

O Deter aponta a tendência da taxa oficial de desmatamento (Prodes), mesmo sem o último mês do chamado “ano fiscal do desmatamento”, medido entre os meses de agosto e julho, a área com alertas já soma 7.540km² (agosto de 2019-junho de 2020) 10% de crescimento em comparação com o ano anterior fechado (6.844km² entre agosto de 2018 e junho 2019), é o maior acumulado para o período fiscal desde 2008. Como resultado já esperado deste cenário, a taxa oficial do desmatamento, que ultrapassou os 10.000 km² em 2019, tende a ser ainda maior em 2020. “Não temos mais tempo a perder, os dados estão evidenciando o rastro do fogo, é urgente a adoção de ações verdadeiramente eficazes para garantir a integridade da floresta e a vida daqueles que nela residem”, completa Cristiane.

Desmatamento aumenta por 14 meses seguidos na Amazônia brasileira

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  • O desmatamento na maior floresta tropical da Terra aumentou pelo décimo quarto mês consecutivo, de acordo com dados divulgados hoje pelo governo brasileiro.
  • Atualmente, o desmatamento na Amazônia brasileira está 83% à frente de um ano atrás.
  • O alto nível de desmatamento nos primeiros meses de 2020 significa que o ano está se preparando para uma estação de incêndio ruim.
  • O aumento do desmatamento incomoda os cientistas que temem que a combinação da perda de florestas e os efeitos das mudanças climáticas possam levar a floresta amazônica a se inclinar para um ecossistema mais seco.

Por Rhett A. Butler para a Mongabay

O desmatamento na maior floresta tropical da Terra aumentou pelo décimo quarto mês consecutivo, de acordo com dados divulgados hoje pelo governo brasileiro. Atualmente, o desmatamento na Amazônia brasileira está 83% à frente de um ano atrás.

mong 22Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais  (Inpe) mostram que 830 km de floresta tropical foram desmatados na “Amazônia Legal” durante o mês de maio, elevando o desmatamento total desde 1 de agosto para 6.437 quilômetros quadrados, uma área maior que Delaware ou Palestina. O Brasil acompanha o desmatamento com base no ano que vai de 1º de agosto a 31 de julho.

mong 3Desde 1º de janeiro, o desmatamento na região atingiu 2.033 km2, em comparação com 1.454 kmnos primeiros cinco meses de 2019, um aumento de 40%.

A análise independente da Imazon, uma ONG brasileira, acompanha aproximadamente o que está sendo relatado oficialmente pelo governo.

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Os novos dados foram divulgados dois dias depois que o INPE revisou sua estimativa oficial de 2019 para o desmatamento da Amazônia para cima para 10.129 km2 , marcando a primeira vez que o desmatamento na região ultrapassou 10.000 km² desde 2008. O desmatamento também está subindo em outros países da Amazônia , de acordo com dados da Universidade de Maryland (UMD) e do World Resources Institute (WRI).

mong 5O aumento do desmatamento perturba os cientistas que temem que a combinação de perda de floresta e os efeitos das mudanças climáticas possam levar a floresta amazônica a se inclinar para um ecossistema mais seco, mais propenso ao fogo, que gera menos chuvas locais e regionais, retira menos carbono da floresta. atmosfera e é menos hospitaleiro para espécies adaptadas às densas e úmidas florestas da planície amazônica. Os impactos nas economias locais e regionais que dependem da precipitação da Amazônia podem ser devastadores, privando áreas agrícolas, represas hidrelétricas e cidades da América do Sul da água. Já existem sinais de tendências de secagem sustentadas na Amazônia, anunciando o que pode estar por vir.

A curto prazo, o alto nível de desmatamento nos primeiros meses de 2020 significa que o ano está se preparando para uma estação de incêndio ruim. Normalmente, as árvores são cortadas após a estação das chuvas desaparecer em abril ou maio. A queima normalmente atinge o pico máximo durante a estação seca de julho a outubro, mas este ano já está em andamento: no início desta semana, os pesquisadores do Projeto Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP) relataram o primeiro grande incêndio na Amazônia em 2020 . Os dados sugerem que 2020 poderia ser um ano particularmente terrível para a Amazônia.

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Este texto foi originalmente publicado em inglês pela Mongabay News and Inspiration from Nature´s Frontline [Aqui!].

Nota técnica do INPE alerta sobre efeitos devastadores da explosão do desmatamento na Amazônia em 2020

Desmamento acumulado entre 1 de agosto de 2019 e 14 de maio de 2020, já representa 89% da área detectada para o periodo equivalente em 2018/2019.

Smoke billows during a fire in an area of the Amazon rainforest near Porto VelhoOndas de fumaça emergem de um incêndio florestal em Rondônia em 2019.  Reuters

Uma nota técnica preparada pelo Laboratório de Ecossistemas e Ciências Ambientais nos Trópicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apresenta dados  que deverão gerar repercussão internacional, na medida em que mostram um avanço consistente do desmatamento na Amazônia brasileira, e um recuo nos dispêndios financeiros por parte do governo Bolsonaro em medidas que pudessem frear este processo. 

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A referida nota técnica afirma, entre outras coisas, que “no ano de referência (2019/2020), a área de alertas de desmatamento acumulada entre , com uma projeção de desmatamento de 9.319±480 km2″ .  A nota acrescenta ainda que tal “estimativa de desmatamento corresponde a aproximadamente de 95% da taxa oficial de desmatamento em 2019 (9.762 km2)“. E que “sem uma intervenção imediata, espera-se que as atividades de desmatamento continuem crescentes nos próximos meses, como observado no mesmo período em 2019, e que mais um recorde de desmatamento na história recente da Amazônia brasileira” .

Os dados apresentados na nota técnica do INPE também  mostram que o estados do Pará, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas concentram o grosso do desmatamento, que agora avança de forma consistente dentro de unidades de conservação.(ver figura abaixo).

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E como onde há desmatamento, há fogo, a nota técnica aponta que a intensificação do
processo de desmatamento “resultará diretamente em mais eventos de queimadas na Amazônia em 2020”.  Além disso, a nota prevê que “o fogo do desmatamento, quando combinado com mais fontes de ignição, mais bordas florestais e a possibilidade de um clima mais seco, deverá intensificar a disseminação de focos de incêndio de forma descontrolada na paisagem, gerando incêndios como os observados em 1998, 2005, 2010, 2015/2016”, o que já está ocorrendo mesmo que a alta estação das queimadas não tenha sido iniciada (ver figura abaixo).

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Por outro lado, a nota técnica também indica clara preocupação com a redução orçamentária ocorrida no IBAMA para possibilitar as ações de Normatização e Fiscalização em 2020, pois houve na Lei Orçamentária Anual (LOA), traduz-se pela redução de R$ 97,6 milhões em 2019 para R$ 76,8 milhões em 2020,  o representa 21%  a menos para o financiamento das ações que poderiam impedir o avanço das atividades ilegais que hoje aceleram os processos de desmatamento e degradação dos biomas amazônicos. Mais grave ainda é que chegando ao sexto mês do ano,  o valor empenhado para a realização das ações de controle ambiental não está próximo sequer da metade do mínimo necessário para atingir a redução de desmatamento planejada para 2020 (ver figura abaixo).

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A nota conclui que é imperativo os cenários já ocorrendo no chão da Amazônia para que se evite a degradação ambiental, a propagação de queimadas, e o aprofundamento do colapso do sistema de saúde nos estados amazônicos que já se encontram sob forte pressão por causa do avanço desenfreado da pandemia da COVID-19.

Quem desejar ler a íntegra da nota técnica do INPE, produzida em conjunto com o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), basta clicar [Aqui!].

Desmatamento explode na Amazônia e já é quase o dobro do anterior

Dados são do sistema de monitoramento do Inpe, órgão ligado ao governo federal; Pará tem uma das situações mais críticas

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A extração ilegal de madeira corre em ritmo acelerado na Amazônia, fazendo com que o volume do desmatamento acumulado de agosto de 2019 a março deste ano já chegue ao dobro do verificado no mesmo intervalo anterior, quando a derrubada recorde da floresta virou alerta global. Uma área superior a três vezes a cidade de São Paulo já foi abaixo neste período.

Os números são do próprio governo federal. O Estado fez um levantamento dos dados captados na região amazônica pelo Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), ferramenta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que serve para orientar ações de fiscalização contra o desmate. Foram checados os cortes feitos de agosto (mês que começa a medição oficial) até o 26 de março deste ano, data mais atual disponível pelo sistema.

Veja o texto na íntegra: O Estado de S. Paulo

Desmatamento na Amazônia: o desastre agora é oficial

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Se até ontem o governo Bolsonaro se respaldava no argumento de que o sistema DETER não tem precisão adequada para medir o desmatamento, os números oficiais do desmatamento da Amazônia oriundos do sistema PRODES não deixam dúvidas: a destruição da floresta é dramática. Os dados anuais consolidados do desmatamento Amazônia mostram que, apesar da profunda e duradoura recessão econômica vivida pelo Brasil, a área desmatada alcançou a marca de 9.762 km², a mais alta desde 2008, quando a economia do país ainda crescia a ritmo acelerado.

O período avaliado pelo PRODES, que vai de 1º de agosto do ano passado a 31 de julho deste ano, corresponde a cinco meses de governo de Michel Temer e sete meses de gestão de Jair Bolsonaro.

O aumento em relação aos 12 meses anteriores, de 29,5%, foi o maior percentual de aumento de um ano para o outro em mais de duas décadas e leva a medalha de bronze na série histórica do PRODES, perdendo apenas para 1995 (crescimento de 95%) e 1998 (31%).

A taxa oficial ficou pelo menos 1.500 km² acima da tendência de aumento do desmatamento que vinha sendo observada a partir de 2012. Segundo técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), se a taxa seguisse a tendência dos últimos anos, teria ficado em torno de 8.278 km².

Segundo o Direto da Ciência, com o resultado deste ano do PRODES, o corte raso acumulado na Amazônia até julho deste ano é de 802.570 km², ou 20,1% da área original da parte brasileira da floresta.

Demitido do INPE após a divulgação dos primeiros alertas sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, o físico Ricardo Galvão disse ao Congresso em Foco que o crescimento de 30% da área desmatada comprova os alertas emitidos em agosto e indica que o Brasil não vai conseguir cumprir a Política Nacional sobre Mudança do Clima, a qual prevê uma redução no desmatamento da Amazônia para 3.900 km² de agosto de 2019 a julho de 2020.

A notícia foi repercutida pelos Valor EconômicoO Estado de S. PauloFolha de S. PauloO GloboUOLG1 e O Eco, além dos internacionais The GuardianReuters, AFPBBCAl Jazeera e New Scientist, entre outros.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

O Brasil como lócus planejado da destruição ambiental

salles2Depois de quase dois meses ignorando o problema, o ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vestiu um colete do IBAMA para posar para fotografias em uma praia contaminada por óleo. Imagem: Felipe Brasil/Instituto do Meio Ambiente de Alagoas / Divulgação

Desde o início do governo Bolsonaro, o Brasil se transformou em palco de incidentes ambientais agudos, a começar pelo rompimento do reservatório de rejeitos da mineradora Vale em Brumadinho (MG) e chegando agora à contaminação de mais de 2.000 km de litoral por um derramamento de óleo cuja autoria ainda não se conhece. Entre Brumadinho e a mancha de óleo de origem supostamente desconhecida, ainda tivemos que testemunhar os efeitos da devastação acelerada da Amazônia brasileira. E, sim, não podemos nos esquecer da aprovação massiva de agrotóxicos proibidos em outras partes do mundo para sustentar monoculturas de exportação que, por sua vez, estão na raiz da ampliação da destruição dos biomas amazônicos e do Cerrado.

Em comum todos os eventos citados acima possuem a marca do desmanche da legislação ambiental por diferentes governos submetidos à lógica de que proteção ambiental é oposta aos ganhos econômicos. Em função dessa lógica é que vem se tolerando a transformação do território nacional em uma espécie de lócus preferencial para desastres ambientais cujas perdas econômicas, sociais e ambientais ultrapassam em larga escala qualquer ganho eventual em termos de crescimento econômico. 

Ainda que não carregue uma culpa isolada da destruição ambiental em curso no Brasil, o o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro do Meio Ambiente (ou seria anti-ministro?), Ricardo Salles, já conseguiram em menos de um ano de governo operar um desmantelamento impressionante na capacidade do estado brasileiro de operar dentro de um limite mínimo de segurança quando se trata de impedir que a questão ambiental saia totalmente do controle.  Em vez de ações para aperfeiçoar as ações governamentais, o que a dupla Bolsonaro-Salles fez foi desmantelar e praticamente inviabilizar o trabalho de órgãos fundamentais como o IBAMA, o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade]  e o INPE, congelando políticas ambientais e tornando ineficazes vários  mecanismos de monitoramento que poderiam fornecer respostas eficazes a incidentes ambientais, como  foi o caso do o PNC (Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo).

O resultado desse desmantelamento pode ser agora visto nas taxas explosivas de desmatamento e nas cenas de voluntários tirando com as próprias mãos o óleo que contamina praias, estuários e santuários ecológicos. Como já observei anteriormente, o que está acontecendo na área ambiental não é fruto do acaso ou da má sorte, mas sim de uma ação bem pensada de destruir a governança ambiental, de modo a facilitar a exploração descontrolada de nossos ecossistemas e biomas.

O problema é que nada do que foi feito para facilitar o acesso à áreas que estavam sob regime de proteção por parte de todo tipo de saqueadores (incluindo madeireiros e garimpeiros) compensa economicamente. Aliás, como no caso da Amazônia ou da contaminação das praias do nordeste, o impacto de qualquer ganho eventual será infinitamente menor do que os custos que isto trará com a perda de investimentos e oportunidades para setores que dependem da funcionalidade intacta das regiões atingidas, a começar pelo setores do turismo e da pesca artesanal. 

Para ampliar as dificuldades que vivemos, dificilmente haverá um abandono na postura ideológica amparada no paradigma da “Economia de Fronteira” que rege as ações não apenas do governo federal, mas da maioria dos governos estaduais.  Isso certamente ampliará as dificuldades já existentes, pois não apenas os problemas detectados continuarão sem o devido controle, mas como ainda iremos presenciar outros incidentes e situações ainda mais graves. É que o desprezo pela proteção ambiental não será mudada a partir do interior das máquinas de governo envolvidas, mas sim da pressão da maioria da sociedade.

Nesse sentido, as imagens de milhares de cidadãos limpando as praias nordestinas na ausência do governo federal é um indicativo de que as pessoas não estão simplesmente esperando sentadas pelo pior.  Se isso não chega a resolver as questões centrais, ao menos temos um indicativo do caminho a seguir. Resta saber quem vai querer ou poder galvanizar a energia social existente para se contrapor ao desmanche em curso.

Desmatamento na Amazônia em agosto cresce 222% em relação a 2018

Floresta perdeu 1.698 quilômetros quadrados de vegetação, segundo Inpe. Em agosto de 2018, foram 526 quilômetros quadrados. Nos oito primeiros meses de 2019, área desmatada foi 92% superior à do mesmo período de 2018.

desmatamento amazoniaFoto de satélite mostra áreas desmatadas na Amazônia: em julho, desmate cresceu 278% em relação a mesmo mês de 2018

A Amazônia perdeu em agosto deste ano 1.698 quilômetros quadrados de cobertura vegetal, área 222% maior do que a desmatada no mesmo mês de 2018, que foi de 526 quilômetros quadrados, segundo dados divulgados neste domingo pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os números indicam que, apesar da devastação, houve redução na comparação com julho deste ano, em que houve destruição de 2.254 quilômetros quadrados.

Em comparação aos mesmos períodos de 2018, os meses de junho e julho apresentaram, respectivamente, crescimento de 90% e 278% no desmate.

Com os saltos, a área desflorestada da Amazônia nos oito primeiros meses de 2019 chegou a 6.404 quilômetros quadrados, número 92% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior (3.337 quilômetros quadrados).

Os dados foram obtidos pelo Deter, levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia, feito pelo Inpe.

Os informes podem ser usados para indicar tendências de aumento ou diminuição no desmate e servem de parâmetro para que os fiscais do Ibama atuem nas regiões mais ameaçadas.

Incêndios

Em agosto deste ano, foram registrados 30.901 focos de incêndio no bioma Amazônia, segundo dados divulgados dia 1° de setembro pelo Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Esse é o maior número registrado para o mês desde 2010, quando houve 45.018 focos.

Os dados mostraram ainda que, em relação ao mesmo mês do ano passado, os focos de incêndio triplicaram. Em agosto de 2018, foram registrados 10.421 incêndios. Entre janeiro e agosto deste ano, foram registrados ao todo 46.825 focos de incêndio na Amazônia. Esse número é mais do que o dobro observado no mesmo período do ano passado, 22.165.

Em resposta aos incêndios na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro anunciou um decreto proibindo queimadas em todo o Brasil, por 60 dias. Um dia depois, porém, Bolsonaro voltou atrás e autorizou a prática em regiões que estão fora da Amazônia Legal.

A recente aceleração da devastação fez com que os governos de Alemanha e Noruega suspendessem repasses de verba ao Brasil para financiar projetos de desenvolvimento sustentável.

Devido ao desmatamento e às queimadas na região, Bolsonaro se tornou alvo de pesadas críticas de políticos europeus, que ameaçaram suspender o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Alguns políticos alemães chegaram a pedir sanções ao Brasil em razão da maneira como o governo Bolsonaro lida com o meio ambiente.

Bolsonaro se envolveu numa proloNgada troca de farpas com o presidente da França, Emmanuel Macron, que o acusou de mentir sobre suas políticas ambientais durante o encontro do G20 em junho, no Japão, onde foi concluído o pacto comercial entre o bloco dos países sul-americanos e a UE.

MD/efe/ots

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Este artigo foi originalmente produzido pela Deutsche Welle [Aqui!].

Rondônia: desmatamento, fogo e fumaça

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Uma parte significativa da minha produção científica foi desenvolvida a partir de quase duas décadas de pesquisas de campo no estado de Rondônia. Ao longo desse tempo vi a paulatina e cada vez mais rápida substituição da florestal tropical por imensos campos de pastagem e, no último período, por uma combinação delas com “plantations” de soja. O resultado vinha sendo uma devastação paulatina, mas em ritmo constante, que já produziu mudanças detectáveis no clima daquela parte da Amazônia brasileira.

Entretanto, os relatos que venho tendo de colegas pesquisadores que estão ou estiveram em Rondônia é que em 2019 o ritmo do desmatamento se acelerou tremendamente, ameaçando principalmente unidades de conservação e terras indígenas, principalmente a que abriga o povo Uru-Eu-Wau-Wau.

Agora, graças à disseminação acelerada de imagens, tive acesso ao vídeo abaixo que foi postado por um praticante de voo livre que vive em Rondônia.  O vídeo mostra toda a região central de Rondônia completamente tomada por fumaça que, como o seu produtor e narrador informa, é oriunda de milhares de pontos de queimadas o que pode parecer exagerado, mas parece ser correto em função do volume de material particulado no ar.

Quando essas imagens circularem pelo mundo toda a retórica de acobertamento do avanço agressivo da franja de desmatamento que o governo Bolsonaro pôs em campo, e que resultou na demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), irá ser totalmente desacreditada.

E como já declarou em entrevista ao jornal Valor Econômico o ex-ministro da Agricultura e latifundiário Blairo Maggi, toda essa situação levará o agronegócio brasileiro à estaca zero.  Mas aparentemente parece que vai ser preciso um boicote internacional às commodities brasileiras para que as piadas de botequim do presidente Jair Bolsonaro sejam substituídas por políticas responsáveis que combinem os interesses econômicos com a preservação ambiental.

Dados científicos e não balela de Twitter: a explosão do desmatamento na Amazônia é real

Ricardo-Galvão-Abril‘Nós usamos ciência, não balela de Twitter’, disse ex-diretor do Inpe ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles em debate na GloboNews.

O físico Ricardo Galvão, diretor exonerado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aproveitou de um espaço televisivo na GloboNews para expor a incapacidade argumentativa do ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, e, por extensão, do presidente Jair Bolsonaro na discussão acerca da validade dos dados científicos que mostram uma explosão do desmatamento na Amazônia (ver vídeo abaixo).

Um dos muitos pontos altos das posições oferecidas por Ricardo Galvão foi demonstrar que a capacidade e correção científica dos pesquisadores do Inpe possui lastro em um longa experiência com a análise dos dados produzidos por satélites desde a década de 1970. Nesse sentido, Ricardo Galvão apontou para o caráter simplesmente ideológico dos ataques que foram desferidos contra os estudos do Inpe pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo próprio Ricardo Salles.

Pressionado pelos argumentos sólidos de um cientista de renome internacional como Ricardo Galvão, sobrou para Ricardo Salles a prática de atitudes deselegantes e a exposição de um sorriso amarelo toda vez que seus argumentos falaciosos eram destroçados de forma clara e calma por um oponente que se mostrou não apenas superior intelectualmente, mas também no quesito defesa dos interesses nacionais. 

Em relação ao aspecto da defesa dos interesses nacionais sobrou para Ricardo Salles a inglória tarefa de acusar Ricardo Galvão de ser um nacionalista ferrenho que teria ojeriza ao que vem de fora.  Ao fazer isso, Ricardo Salles não só demonstrou o caráter entreguista das suas ações, mas também foi de encontro ao amplo reconhecimento internacional que a alta expertise científica dos pesquisadores do Inpe desfruta em toda a comunidade cientifica internacional.

Por último, ressalto que o professor Ricardo Galvão mostrou nesse debate como deve ser a postura dos cientistas brasileiros ao se defrontarem com a enxurrada de fake news que está sendo produzida para desvalorizar o conhecimento científico com o objetivo de fazer prevalecer balelas produzidas e disseminadas por robôs da internet.