Brasil é sumariamente vetado de discursar na cúpula do clima na ONU

bolsoImagem: Valter Campanato

Por André Zanardo, editor do Justificando

Na próxima segunda (23) em Nova York, acontecerá a reunião da cúpula do clima, um dia antes da 74˚ Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

O evento foi convocado pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres como uma forma de aumentar o diálogo entre os chefes de Estado e possibilitar que se amplie as expectativas dos compromissos com o meio ambiente.

À jornalista Ana Carolina Amaral, do Blog Ambiência da Folha de São Paulo, o enviado especial da secretaria-geral da ONU, Luis Alfonso de Alba afirmou que o Brasil teria sumariamente vetado de participar por não ter apresentado nenhum plano para aumentar o compromisso com o clima.

Estima-se até agora que 63 países irão participar discursando no evento, que terá como um dos assuntos centrais de discussão as queimadas ocorridas na Amazônia. Conforme apresentado por Luis Alfonso Alba, também devem ser impedidos de participar os Estados Unidos, Arábia Saudita, Japão, Austrália e Coreia do Sul.

74˚ Assembleia Geral da ONU

Já sobre a Assembleia Geral da ONU que ocorre na terça (24), existe muita expectativa sobre a participação do Brasil que deve historicamente abrir com o discurso de abertura. Entretanto, existe muitas dúvidas sobre a participação do Presidente Jair Bolsonaro, que ainda não confirmou a participação devido ao boletim médico de autorização que deve ser esperado para sair nesta sexta.

As alegações oficiais do Planalto acusam que Bolsonaro está sob restrição médica e se recupera de uma cirurgia de hérnia desde o dia 8 de setembro. O médico do presidente, Luis Antonio Macedo afirmou que ainda não sabe se o presidente terá alta médica.

Caso o presidente não participe, será designado que Ernesto Araújo, Ministro das Relações Exteriores assuma o discurso inaugural.

Sob risco de protestos massivos e superexposição negativa da imagem de Bolsonaro, aliados mais próximos como a Deputada Carla Zambelli (PSL), defendem que o presidente não compareça na próxima semana à Nova York. Já o presidente afirmou que comparecerá nem que seja de cadeira de rodas.

O clima que antecede os trabalhos prevê que o Brasil seja criticado por protestos nas ruas e nos discursos dos chefes de Estado durante o evento oficial. O motivo das críticas são o descompromisso do governo Bolsonaro com as pautas ambientais e ataques diplomáticos realizados contra autoridades internacionais.

André Zanardo é editor no Justificando, ativista pelos Direitos Humanos e advogado.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site Justificando [Aqui!].

Jair Bolsonaro aprofunda agonia da mídia corporativa ao dispensar publicação impressa de documentos oficiais

print electronic media

Já tem algum tempo que mídia corporativa brasileira vem vivendo uma lenta agonia por sua incapacidade aguda de se ajustar à emergência das mídias eletrônicas. Em função disso, muitos veículos tradicionais já desapareceram e outros tantos estavam vivendo um processo crônico de definhamento.  

Essa situação de agonia é mais explícita nas cidades do interior onde inexiste uma base ampla de leitores e assinantes, o que torna a manutenção de edições impressas quase que um desperdício de papel jornal, pois a maioria dos potenciais interessados já migrou para plataformas eletrônicas que são muito mais eficazes em obter informações e transmiti-las quase em tempo real.

Essa agonia toda tem feito que muitas sirenes tenha soando e resultando no que se convenciona chamar no meio jornalístico de “Passaralhos” com demissões de redações inteiras, as quais estão sendo substituídas por contribuições externas sob a forma dos manjados artigos de opinião, ou pela contratação de estagiários parcamente remunerados (muitos mal entrados nos cursos de comunicação).

Como aquilo que está ruim sempre pode piorar, o presidente Jair Bolsonaro resolveu extinguir uma das últimas fontes de renda da mídia corporativa ao desobrigar a publicação impressa de editais de concursos e licitações em jornais. 

Além de ser uma tremenda ingratidão de Jair Bolsonaro com um segmento empresarial que lhe foi muito útil na caminhada para a presidência, essa desobrigação deverá causar o fechamento de muitos veículos tradicionais e outros nem tradicionais assim.

Mas, convenhamos, os principais afetados por essa transição toda serão os vendedores de frutas e hortaliças que ainda utilizam folhas velhas de jornais para embrulhar seus produtos.  É que não há sequer vácuo a ser preenchido em função da transição quase completa para as mídias eletrônicas. É que se pode repetir o velho adágio de que “o rei está morto. Longa vida ao rei”.

E vida que segue!

Jair Bolsonaro vira o Coringa em um dos principais programas de TV dos EUA

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Trevor Noah, do “The Daily Show” durante o sketch em que comparou o presidente do Brasil ao vilão “Coringa” por causa das queimadas na Amazônia.

O “The Daily Show” é comandado pelo comediante Trevor Noah e vai ar de segunda a quinta feira pelo canal “Comedy Central”.  O “The Daily Show” é um daqueles programas satíricos que revolve em torno de temas políticos, sendo que Trevor Noah substituiu outro comediante com forte ação política nos EUA,  Jon Stewart.

Nao segmento dedicado a abordar os problemas que estão ocorrendo na Amazônia brasileira e suas repercussões globais em função das mudanças climáticas, Trevor Noah faz um sketch com fortes tintas nos quais o pintado em cores menos favorecidas é justamente o presidente Jair Bolsonaro que é citado como o “Coringa” (em referência ao vilão “preferido” do Batman) das mudanças climáticas.

Apesar do material estar em inglês é bem fácil entender a lógica e a péssima conotação com que o presidente do Brasil é usado para fazer a série de tiradas satíricas que Trevor Noah faz (ver vídeo abaixo).

Mas que ninguém ache que o “The Daily Show” é só um programa de piadas, pois o mesmo representa um amplo espectro político dentro dos EUA, especialmente entre os que se opõe ao governo de Donald Trump.

Assim,  os setores que dependem da exportação de commodities agrícolas e minerais (os quias apoiaram de forma massiva a eleição de Jair Bolsonaro) devem estar muito preocupados com esse segmento do “The Daily Show”. É que apesar de ser o presidente Jair Bolsonaro o “escada” da vez, a piada acaba sendo mesmo a condição em que o Brasil foi colocado pelo seu governo. E , cada vez mais, em meio a boicote que se amplia na Europa, as tiradas de Trevor Noah não têm nada de engraçado para o Brasil.

ONG fundada por Leonardo DiCaprio lança fundo de defesa da Amazônia

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A EarthAlliance,  organização não-governamental criada em julho de 2019 pelo ator Leonardo DiCaprio, pela víuva do fundador da Apple, Laurene Powell Jobs e pelo investidor e filantropista Brian Sheth, formou um Fundo em Defesa da Floresta Amazônica com um compromisso de US $ 5 milhões para concentrar recursos essenciais para comunidades indígenas e outros parceiros locais que trabalham para proteger a biodiversidade da Amazônia contra o surto de incêndios atualmente queimando em toda a região.

A  Earth Alliance também lançou uma campanha mundial de arrecadação de fundos na sua página oficial, e informou que 100%  das doações irão para parceiros que estão trabalhando no local para proteger a Amazônia. Entre as primeiras organizações beneficiadas pelo Fundo Amazônia estão o Instituto Kabu (ligada aos Kayapó), o Instituto Raoni (também ligado aos Kayapó) e o Instituto Socioambiental.

Esse é um desdobramento que deverá incomodar bastante o presidente Jair Bolsonaro que já vê a ação as ações pretéritas das ONGs ambientalistas como uma espécie de obstáculo aos planos de transformar a Amazônia em uma espécie de fronteira aberta para o saque das riquezas naturais ali existentes, nem que para isso seja preciso eliminar os povos indígenas e outras comunidades tradicionais que habitam as florestas.  O fato das doações iniciais da Earth Alliance estarem indo para duas organizações ligadas à etnia Kayapó deverá ser outro elemento causador de contrariedades.

Mas o que a principal contrariedade com a decisão da Earth Alliance de lançar o Fundo Amazônia deverá ser a capacidade de atração de doações que esta ONG possui em função de estar diretamente ligada à Leonardo DiCaprio, cuja proeminência em defesas de causas ambientais o tem colocado como uma personalidade altamente confiável a amplas setores da população mundial.

A boa notícia é que esta ação do Earth Alliance irá fornecer recursos financeiros que estão em alta demanda para fazer a ampla defesa das florestas da Amazônia e de seus povos.

 

 

Após recusa de Bolsonaro ao G-7, líder de boicote aos produtos brasileiros lança campanha para financiar a proteção da Amazônia

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Após recusa do governo Bolsonaro em receber doação do G-7, líder do boicote a produtores brasileiros na Suécia lança campanha de apoio financeiro à proteção da Amazônia

O fundador e CEO da rede sueca de mercearias orgânicas Paradiset, Johannes Cullberg, que iniciou em junho uma campanha de boicote a produtos brasileiros por causa do uso de agrotóxicos banidos na União Europeia e do aumento no desmatamento na Amazônia, reagiu hoje à recusa do governo Bolsonaro em aceitar o apoio financeiro do G-7 para combater as queimadas na Amazônia.

Em vídeo, Cullberg informou que está lançando uma campanha financeira nas redes sociais e na rede Paradiset para levantar fundos que não serão entregues ao governo Bolsonaro, mas sim à ONG Earth Alliance, que é apoiada publicamente pelo ator Leonardo DiCaprio, e ao chamado Amazon Forest Fund

Johannes Cullberg também está convocando outras redes de supermercado e  quaisquer outros negócios na Suécia e na Europa a seguirem o caminho que ele está apontando, pois esta seria a hora de agir, não importando o a quão grande ou pequeno o tamanho da empresa que decida participar do movimento.

A mensagem política de Cullberg fica ainda mais clara quando ele afirma que é preciso  mostrar a Jair Bolsonaro “o incrível poder de muitos quando estamos unidos para proteger o futuro de nossos filhos” (ver abaixo o vídeo explicando o lançamento da campanha).

Essa decisão de Cullberg, mesmo que se concentre inicialmente na Suécia, tem tudo para atingir outros países da Europa em função da esperada repercussão negativa que a recusa do governo Bolsonaro em receber os recursos oferecidos pelo G-7 definitivamente terá na Europa.

Se essa campanha tiver o alcance esperado por Johannes Cullberg, estaremos diante de um exemplo claro de como arrogância misturada com forte virulência verbal tende a causar fortes prejuízos econômicos. No caso atual do atual cenário econômico do Brasil, isto terá efeitos desastrosos, e não adiantará o presidente Jair Bolsonaro ou seus ministros anti-ambiente espenearem. É que eles vão acabar colhendo o que estão plantando. Simples assim!

 

Mídia brasileira “passa o pano” para livrar Jair Bolsonaro de suas responsabilidades na Amazônia

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Li as manchetes das matérias que dominam as capas dos principais veículos da mídia corporativa brasileira e o que vi pode ser sintetizado como um esforço coletivo de “passar o pano” na imagem combalida de Jair Bolsonaro que está completamente chamuscada pelos incêndios devastadores que suas políticas anti-ambientais alimentam na Amazônia e por seus excessos na rede social Twitter, incluindo o ataque sexista à primeira dama da França, a qual já foi vigorosamente respondido por Emmanuel Macron.

Aliás, no tocante às manifestações de Emmanuel Macron, o que verifiquei foi a existência de uma tentativa de mostrá-lo como voz isolada dentro do G-7 e que teria sido derrotado em suas postulações em relação ao controle internacional da Amazônia, caso o Brasil continue permitindo a devastação de uma região que possui papel estratégico no controle das mudanças climáticas.

Aqui é preciso que ninguém caia nesse engano, pois não apenas Emmanuel Macron não é uma voz isolada, pois outros países membros da União Europeia estão dispostos a seguir a mesma orientação da França.  O que parece ter havido na reunião do G-7 foi a tomada de uma posição mais pragmática em prol dos interesses comerciais dos seus membros, principalmente os da Alemanha e da Espanha. Entretanto, os bombeiros dentro do G-7 não vão poder conter a disposição de medidas punitivas contra o Brasil se não houver uma reversão das posições expressas publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro sobre o que eu caracterizei como sendo o exercício da “pirosoberania”. 

Outra coisa que precisa ser mencionada é que mais uma vez foram os veículos internacionais que expuseram a verdadeira dimensão da tragédia que continua ocorrendo na Amazônia. Tivesse o problema sido apenas tratado por veículos da mídia corporativa brasileira, o mais provável é que continuássemos totalmente desinformados e achando que essa era apenas mais uma estação “normal” de queimadas.  Entretanto, como os veículos internacionais não apenas possuem bons profissionais, mas como os colocam em campo para fazer jornalismo de verdade, pudemos ver que não há nada de normal no que está acontecendo na Amazônia.

É graças à mídia internacional e ao funcionamento intenso das redes sociais que não se pode mais esconder o que as pesadas colunas de fumaça estavam escondendo.  Simples assim!

Imprensa francesa destaca sexismo de Bolsonaro e farpas de Weintraub contra Macron

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A troca de críticas e ofensas entre Jair Bolsonaro e o presidente da França, Emmanuel Macron, motivadas pelos incêndios na Amazônia, respingou também na primeira-dama francesa, Brigitte Macron, de 66 anos.Sergio LIMA / AFP

A imprensa francesa nesta segunda-feira (26) destaca sexismo de Bolsonaro contra a primeira-dama francesa e insultos do ministro da Educação Abraham Weintraub, que chamou Emmanuel Macron de “calhorda” e “cretino” no final de semana.

Pelo Twitter, Weintraub chamou Emmanuel Macron de “calhorda oportunista buscando apoio do lobby agrícola francês”, a respeito da ameaça de que a França não ratificaria o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia caso o Brasil não agisse contra os incêndios na Amazônia.

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“Ferro no cretino do Macrón [sic]”, tuitou ainda Weintraub. Questionada a respeito dessas declarações nesta segunda-feira (26), a ministra da Justiça francesa, Nicole Belloubet, disse em entrevista a um canal francesa que não comentaria “esse tipo de baixaria”.

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“A sugestão do presidente francês, de que assuntos amazônicos sejam discutidos no G7 sem a participação dos países da região, evoca mentalidade colonialista descabida no século XXI”, alfinetou Jair Bolsonaro na sexta-feira (23).

Macron também acusou Bolsonaro de ter ‘mentido’ sobre o clima no G20 de Osaka, atiçando os comentários do lado brasileiro.

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Jair Bolsonaro endossou um comentário de um internauta no Facebook, que zombava da mulher de Macron 

O jornal Le Parisien desta segunda-feira acusa o presidente brasileiro de sexismo, por ter comentado um post de um internauta com fotos das duas primeiras-damas e dizendo que o francês estava “com inveja”. Bolsonaro respondeu ao simpatizante: “não humilha o cara. KKKKK”.

A imprensa francesa também cita o apelido que o guru Olavo de Carvalho criou para se referir ao presidente francês: “macrocon”, um jogo de palavras unindo “Macron” e “con”, xingamento de baixo calão na língua francesa. Os jornais franceses também falam de Eduardo Bolsonaro, que na sexta-feira retuitou um vídeo dos coletes amarelos, chamando Macron de “idiota”.

 

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede França Internacional [Aqui!].

Governo Bolsonaro: entre a piada pronta e a tragédia

bolso panela~çoPresidente Jair Bolsonaro e a primeira-dama Michelle com o humorista Jonathan Nemer

O site UOL informou hoje que o presidente Jair Bolsonaro não pode ouvir do Palácio do Planalto o panelaço que comeu solto em Brasília no momento do seu pronunciamento sobre as queimadas da Amazônia porque se encontrava assistindo em um espetáculo de um humorista gospel (fico imaginando que tipo de piada é contada por um artista dessa estirpe) em Águas Claras que fica na região metropolitana da capital federal.

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Pensando bem, ninguém pode culpar o presidente Jair Bolsonaro por preferir piadas gospel ao seu próprio discurso que pode parecer até piada, mas não passa de uma espécie de relato lisérgico de um governo que está conseguindo fechar as portas para as commodities agrícolas brasileiras.

O problema é que a mídia internacional vai aproveitar a deixa e começou a castigar a despreocupação de Jair Bolsonaro em trocar ouvir o seu próprio discurso e favorecer a ida a um show de piadas. Um exemplo disso foi o jornal britânico “The Guardian” que resolveu sapecar uma manchete bem indigesta ao notíciar essa escapada do palácio presidencial onde ficou notado que “Bolsonaro desfruta de um show de comédia, enquanto a crise das queimadas descontroladas continua“. 

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Mas pior que escapar de ouvir o próprio pronunciamento para ir a um espetáculo humorístico gospel fez o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que resolveu se comportar como um menino mimado que não sabe brincar no playground. É que acossado pelos resultados devastadores de sua eficiente política de desmanche ambiental, Ricardo Salles resolveu apontar o dedo para Angola e para o Congo (não falou qual deles) que estariam com mais focos de queimados do que o Brasil.

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Além dessa ser a desculpa do roto falando do mal lavado,  Salles arrisca criar ainda mais problemas diplomáticos para o Brasil, em um momento que, convenhamos, o nosso país já está mais do que encrencado. É que a ausência de maiores informações sobre que tipo de área está sendo queimada nos dois países citados pode não apenas implicar em informação falsa, como também pode se estar atiçando ainda mais fogo para cima do Brasil ao correr risco de sermos vistos não apenas como irresponsáveis com os nossos ecossistemas naturais, mas também como aqueles que mexem com os outros apenas para se livrar das próprias responsabilidades.

O problema para Jair Bolsonaro e Ricardo Salles é que não vai ser nem vendo show de piadas ou fazendo piadas que o Brasil vai sair do bem sem saída que fomos colocados pela implantação de políticas anti-ambientais que foram oferecidas ao resto do mundo com pitadas monstruosas de desrespeito e soberba. É essa postura, tanto quanto a expansão da área desmatada, que criaram uma crise internacional que ameaça fechar mercados estratégicos para as commodities agrícolas.

Aliás, desde 2016 venho alertando para o risco que o Brasil estava correndo em se tornar um pária ambiental em nível mundial.  O que o governo Bolsonaro, sob a ação lépida e faceira do presidente e do seu ministro do Meio Ambiente, conseguiu fazer foi acelerar a chegada desse tratamento.  O que parece ter sido menosprezado nessa passagem para pária ambiental foram os custos políticos e econômicos que decorreriam disso. 

E agora que o Brasil, e não Angola ou o Congo, se transformou na bola da vez de possíveis punições diplomáticas por causa das políticas anti-ambientais que o governo Bolsonaro vem aplicando, a dúvida é de como sair da armadilha em que estamos metidos. Mas uma coisa é certa: não vai ser indo a shows de humor gospel ou apontando o dedo para outros países que isto vai acontecer.

Jair Bolsonaro e sua estranha pirosoberania

bolso piroJair Bolsonaro inova e cria a “pirosoberania”. O problema será convencer os parceiros comerciais a aceitarem tanta inovação.

O presidente Jair Bolsonaro usou hoje sua página oficial na rede social Twitter para rebater uma manifestação do seu congênere francês Emmanuel Macron que está querendo uma reunião do G-7 nas próximas 48 horas para discutir medidas para combater os devastadores incêndios que estão ocorrendo na Amazônia brasileira.

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Segundo Jair Bolsonaro, o presidente francês estaria possuindo de uma mentalidade “colonialista” ao querer discutir medidas para impedir que o holocausto amazônico continue (ver imagem abaixo).

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Jair Bolsonaro foi seguido nesse discurso pseudamente pró-soberania por vários de seus ministros, incluindo o negacionista das mudanças climáticas, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Segundo Araújo, o Brasil está sofrendo “uma campanha embalada por falsidades ambientais” por ter supostamente acordado do sono de algumas décadas.

As falas combinadas do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Ernesto Araújo representam para mim uma inovação na argumentação em prol de devastar impunemente a Amazônia para ali implantar o reinado de uma modalidade da “economia de fronteira” apoiado em um conceito curioso que parecer ser o da “pirosoberania” (liberdade para tocar fogo). 

O problema é que a aplicação desta pirosoberania já está colocando em xeque a capacidade do agronegócio brasileiro continuar acessando mercados importantes como o da União Europeia.  E aí caímos em uma situação curiosa, pois em tese a liberdade geral, ampla e irrestrita  que Bolsonaro e Araújo parecem querer ter em transformar as florestas amazônicas em cinzas com o apoio da pirosoberania esbarra na óbvia dificuldade de que importantes parceiros comerciais do Brasil não vai aceitar isso calados. 

Um complicador que existe para o governo Bolsonaro é que a inclinação de existir um alinhamento total ao presidente Donald Trump esbarra no fato de que Brasil e EUA competem pela hegemonizar determinados mercados com as mesmas commodities. Este fato limita objetivamente a aplicação da pirosoberania. 

A verdade é que Jair Bolsonaro e Ernesto Araújo podem até espernear contra as manifestações de Emmanuel Macron contra a devastação da Amazônia, mas não tem como ignorar que os franceses têm nas mãos a possibilidade, por exemplo, de impedir a ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. E isto efetivamente ocorrer,  é bem provável que os barões do agronegócio brasileiro comecem a repensar a sustentação que dão a Jair Bolsonaro no congresso nacional, apenas para começo de conversa.

Estou cada vez mais curioso para saber quando o ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vai iniciar o prometido tour por capitais europeus para tentar mostrar que a coisa não está tão feia no Brasil. É que se ele demorar muito a ir, vai correr o risco de ser convidado a não fazer isso até que alguma medida comece a ser tomada para apagar os milhares de pontos de incêndio que está acesos na Amazônia brasileira. O presidente da Bolivia, Evo Morales, já deu mostras de ser mais atento aos humores dos seus parceiros comerciais europeus, pois contratou um avião supertanque para apagar os focos de incêndio que estão consumindo cerca de 500 mil hectares do lado boliviano da Amazônia.

Finalmente, há que se ver até onde Jair Bolsonaro irá levar a aplicação da sua pirosoberania. Se demorar a mudar de posição, é bem provável que se confirmem os piores medos de líderes do latifúndio agro-exportador como Blairo Maggi que já disse que agronegócio brasileiro será levado à estaca zero por causa do discurso anti-ambiental do governo Bolsonaro.

Agronegócio sente pressão internacional e já se afasta de Bolsonaro

Diretor da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Brito, acredita que é questão de tempo para o Brasil sofrer boicotes internacionais e que vai custar caro ao país reconquistar a confiança de alguns mercados. “Não podemos transformar o presidente da República”

bolso chapeuFoto: José Cruz/Agência Brasil

Os discursos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) com relação à política ambiental do país tem preocupado autoridades e empresários do agronegócio, em especial os exportadores. A percepção é de que o setor corre sério risco de sofrer boicotes internacionais, como já tem acontecido na área de proteção ambiental, e que será necessário agir sem o apoio do presidente. O chefe da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Brito, disse em entrevista ao Valor que acredita ser “questão de tempo” tais boicotes e que “vai custar caro ao país reconquistar a confiança de alguns mercados”.

“Precisamos parar com essa mania de achar que o Brasil é o único produtor mundial de alimentos e que, se a gente não fornecer, ninguém o fará. A lei de mercado é clara: deixe um espaço vazio e alguém irá ocupar”, afirmou Brito. Para ele, o setor precisará trabalhar “de forma uníssona” para tentar reverter os danos causados pela percepção sobre a política ambiental do governo. “Não podemos transformar o presidente da República”, disse.

A exigência de um agronegócio que seja pautado na proteção ambiental é algo trivial fora do Brasil. No entanto, sustentabilidade é um tema que apresenta prioridades diferentes no governo Bolsonaro com relação aos países europeus. Esse choque de interesses poderá trazer consequências graves, como o cancelamento do acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia.

O ex-ministro da Agricultura no governo de Michel Temer, Blairo Maggi (PP), chama atenção para a cláusula do acordo entre os blocos permite que a Europa barre importações do Brasil, o que poderia ter complicações por conta das falas do presidente. “Essas confusões ambientais poderiam criar uma situação para a UE dizer que o Brasil não estaria cumprindo as regras. E não duvido nada que a gritaria geral que a Europa está fazendo seja para não fazer o acordo. A França não quer o acordo”, disse.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Revista Fórum [Aqui!] .