O Brasil e seu grande salto para trás

bolson

Presidente Jair Bolsonaro é o engenheiro do “Grande Salto para Trás” do Brasil.

Após a conquista do poder em 1949, a participação na Guerra da Coreia e o sucesso do 1º Plano Quinquenal (1953-1957), o líder chinês Mao Tsé-tung lançou o Grande Salto para Frente (1958-1962), um programa de profundas reformas cujo objetivo era acelerar o crescimento da economia chinesa.  O grande salto para frente de Mao Tsé-Tung acabou tendo efeitos inesperados e acabou colhendo um fracasso que quase terminou o experimento do socialismo na China.

Image result for salto para trás bolsonaro

Cartaz de propaganda oficial da política do “Grande Salto para Frente” implementada pelo Partido Comunista da China sob a liderança de Mao Tsé-tung.

Pois bem, quase 6 décadas depois do programa de reformas de Mao Tsé-tung, temos no Brasil um governo cujo lema parece ser a realização do “Grande Salto para Trás“, justamente numa época em que a China é uma das economias mais fortes do planeta, justamente porque se livrou das consequências mais negativas de seu próprio salto.

Esse grande salto para trás está se manifestando em todos as frentes em que o governo Bolsonaro mais investe, a começar pelas relações políticas e comerciais com os EUA, onde em troca de nada palpável, o Brasil está alienando grandes parceiros comerciais e colocando um risco aquele setor da economia que ainda mantém a balança comercial em tintas azuis que é o latifúndio agro-exportador (auto rebatizado de “agronegócio”).

Mas as ameaças não param na agricultura, pois o processo de desindustrialização iniciado pelo governo de Fernando Henrique Cardoso está sendo aprofundado, com o fechamento de fábricas importantes como a de caminhões da Ford em São Bernardo do Campo (SP) e da ROCHE no Rio de Janeiro , e a venda da EMBRAER para multinacional BOEING, justamente em um momento em que a empresa sediada em Chicago se encontra particularmente fragilizada por causa de vários acidentes inexplicáveis com suas aeronaves.

Image result for protesto fechamento ford

Operários protestam contra fechamento da fábrica de caminhões da multinacional Ford em São Bernardo do Campo (SP).

O “Grande Salto para Trás” também está  sendo dado na área da ciência e tecnologia, pois o encurtamento do orçamento federal para a área está comprometendo pesquisas essenciais para o Brasil, e nos afastando daquela comunidade de países que podem gerar ganhos bilionários com novos produtos e técnicas. A maioria das universidades e institutos de pesquisas federais se encontram hoje, na melhor das hipóteses, em estado comatoso e muitos grupos de pesquisa estão sendo inviabilizados, o que vem incentivando a que ocorra um processo de migração de jovens pesquisadores para outros países que estão executando o caminho oposto do Brasil, a começar pela China e pela União Europeia.

Mas nenhuma outra área está dando um salto para trás tão eloquente quanto a do meio ambiente. Além do avanço do processo de desmatamento na Amazônia e no Cerrado, o Brasil hoje experimenta uma regressão completa na proteção de áreas ecológicas de extremo valor sob as mãos de todo tipo de agente, o que já está causando o retorno de graves processos de contaminação ambiental, a começar pelo garimpo de ouro ilegal que está liberando toneladas de mercúrio nos rios da Amazônia. Para garantir isso, o governo Bolsonaro, sob a batuta do ainda ministro Ricardo Salles, vem tentando desmanchar o sistema nacional de proteção ambiental, utilizando métodos que seriam inaceitáveis em qualquer país que clame ser democrático. 

Related image

Após vários anos sob controle, o desmatamento na Amazônia voltou a crescer em 2018 e está ainda mais acelerado em 2019.

O grande salto para trás já é visível nos milhões de desempregados e domicílios desprovidos de uma pessoa sequer que esteja gerando renda. Esse processo de volta acelerada para o passado também está presente no aumento do número de ativistas sociais que estão sendo assassinados, bem como no aumento exponencial das taxas de feminicídio que estão espalhando terror e medo por todo o território nacional.

Diante desse quadro regressivo é preciso entender que para garantir o grande salto para trás, a imposição da repressão e da violência se tornará cada vez mais necessária, pois já existem demonstrações claras de que a maioria do nosso povo não quer retornar para o passado.  Assim, restará o caminho do enfrentamento a esse esforço concentrado de desmanche do Brasil enquanto um nação viável para a maioria do seu povo. Mesmo sabendo que isto aumentará o nível de repressão e violência não há outro caminho a não ser impedir que o “Grande Salto para Trás” seja executado sem a devida oposição de todos os que querem que o Brasil caminhe para frente, especialmente no tocante ao estabelecimento de um sistema social onde a riqueza gerada coletivamente deixe de ser apropriada por uma minoria que sequer mora aqui.

 

Ao abandonar palestinos, Jair Bolsonaro coloca o Brasil numa realidade nova e mais perigosa

bolso bibi

Benjamin Netanyahu e Jair Bolsonaro se cumprimentam no Rio de Janeiro em dezembro do ano passado (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Já viajei por um pequeno número de países e nunca me senti sob nenhum tipo de risco especial apenas por ser brasileiro.  Também nunca me preocupei com possíveis atentados terroristas em solo brasileiro, especialmente aqueles organizados por segmentos extremistas do Islamismo.

Uma das razões para isso era a posição histórica da diplomacia brasileira de apoiar a causa palestina, mas sem se tornar adversária do Estado de Israel, o que evidenciou até hoje a correção da postura pragmática que perdurou até janeiro dentro do nosso ministério de Relações Exteriores.

Esse tempo de pragmatismo de resultados está sendo encerrado com a visita que será realizada pelo presidente Jair Bolsonaro a Israel onde quase certamente será anunciada a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, no que será um aprofundamento do abraço dado nas ações da diplomacia estadunidense liderada por Donald Trump, Mike Pompeo e John Bolton.

Esse é um erro estratégico sob todos os pontos de vista, incluindo o político e o comercial, além do aumento do risco de atentados terroristas contra brasileiros dentro e fora de nosso território nacional. 

As consequências desse erro já serão sentidas pelo próprio presidente Jair Bolsonaro que está sendo aguardado em Israel por protestos organizados pela comunidade palestina. Como ele deverá ser mantido sob estrita proteção do governo de Israel, é bem provável que nem entenda o nó que está desatando.  Mas o Brasil e os brasileiros que não terão as benesses dessa proteção estarão entrando num mundo totalmente novo com as decisões sendo tomadas por Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores.  

 

Atmosfera política repressiva aprofunda fuga de cérebros do Brasil

Atmosfera em universidades brasileiras preocupa organização internacional que protege acadêmicos ameaçados

Em entrevista à Pública, pesquisadora do Scholars at Risk diz que tem sido procurada por professores que querem deixar o país temendo pela própria vida

brain drain 1

Por Natalia Viana para a agência Publica

Desde as eleições, as universidades brasileiras têm se tornado um campo de batalha onde crescem as denúncias de assédio, achaques e ameaças contra professores que são identificados como “de esquerda”. No final de outubro, pouco antes de 17 campi universitários serem invadidos pela polícia por manterem cartazes com mensagens antifascistas, professores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) receberam uma carta anônima listando o nome de 15 docentes e estudantes de ciências humanas ameaçados de serem “banidos” da instituição depois da posse de Jair Bolsonaro. A carta detalha que todas as pessoas nomeadas desenvolvem pesquisas e trabalham com o público LGBT, ou seriam “lésbicas, gays, prostitutas e partidários de esquerda”.

A violência em ambiente universitário já tem alertado a comunidade internacional. Há oito meses, a organização Scholars at Risk, ou Acadêmicos em Risco, em português, tem sido procurada por professores brasileiros que se sentem inseguros no país. Sediada nos Estados Unidos, a organização é uma rede de instituições de ensino superior que promove a liberdade acadêmica, ajudando pesquisadores e professores ameaçados de morte a sair de seus países por um tempo. A rede é formada por 520 universidades, como a Universidade de Washington, nos EUA, a Universidade do Chile e a City University, em Londres, no Reino Unido.

Até o ano passado, apenas um brasileiro tinha contatado a organização. Agora, já são 18.

“Devido à mudança significativa para a direita na atmosfera sociopolítica no Brasil que levou à eleição de Bolsonaro, os candidatos do Brasil relatam instabilidade, medo de serem detidos ou presos, assédio e medo de serem mortos ou desaparecerem”, resume Madochée Bozier, assistente do programa de proteção a professores universitários, em entrevista à Pública.

“À luz da mudança na narrativa política e cultural no país, muitos acadêmicos decidiram deixar o Brasil para continuar o seu trabalho fora do país por medo”, completa.

Scholar At Risk

publica brain drain
Madochée Bozier é assistente do programa de proteção a professores universitários
Leia os principais trechos da entrevista:

Qual é o procedimento para pedir apoio do Scholars at Risk e que tipo de apoio é dado?

Somos uma rede internacional de instituições de ensino superior dedicada a promover a liberdade acadêmica e ajudar acadêmicos, professores e pesquisadores universitários ameaçados. A proteção é uma das três áreas programáticas e nós oferecemos uma gama de serviços aos que estão em risco, incluindo assistência para deslocá-los para outra posição em uma universidade que faz parte da nossa rede de assistência para que continuem seu trabalho acadêmico no local onde estão ou em outro local. No entanto, nossa especialidade é garantir trabalhos temporários, de curto período, seja para dar aulas ou fazer pesquisas, para profissionais com pós-graduação e experiência em lecionar e publicar em jornais científicos.

O Brasil era um país de onde chegavam bastantes pedidos de ajuda até o ano passado? Ou houve um aumento em 2018?

Nossos países de onde chegam mais pedidos são Turquia, Síria, Iraque, Irã e Iêmen. Até o ano passado, havíamos recebido apenas um candidato a assistência de um acadêmico brasileiro. Desde julho de 2018, tem havido um crescente e constante aumento em candidaturas de professores e universitários brasileiros, tanto dentro como fora do país. Hoje já são 18. Neste momento, não estamos prestando assistência a nenhum acadêmico do Brasil.

Qual o motivo desses pedidos de ajuda?

Devido à mudança significativa para a direita na atmosfera sociopolítica no Brasil que levou à eleição de Bolsonaro, os candidatos do Brasil relatam instabilidade, medo de serem detidos ou presos, assédio e medo de serem mortos ou desaparecerem. Como muitas minorias, incluindo pessoas LGBTQ+, negros, feministas, indígenas etc., têm sido alvejadas por políticas do novo governo e por eleitores de direita, muitos desses acadêmicos que fazem parte desses grupos ou estudam esses grupos notam que, embora não tenham recebido ameaças diretas, eles se sentem ameaçados em continuar seu trabalho acadêmico, agora visto como a antítese da ideologia de direita de Bolsonaro.

Qual é a sua análise de movimentos como o Escola sem Partido, que incentiva estudantes a filmar professores que consideram estar “doutrinando” os alunos com “ideologias esquerdistas”?

Os candidatos que nos contatam relatam que esses movimentos, apoiados e endossados pelo governo atual, encorajam uma atmosfera de repressão que aumenta os riscos à livre expressão de indivíduos brasileiros e da sociedade brasileira como um todo. Esses acadêmicos acreditam que as novas medidas de Bolsonaro visam alterar a sociedade brasileira e ampliar as tensões preexistentes e históricas sobre identidades culturais para criar mais divisões entre as classes sociopolíticas e raciais no Brasil. Aqueles que nos buscam para pedir ajuda relatam que essas medidas têm levado a ataques diretos ao ensino superior e ao enfraquecimento da universidade como instituição autônoma. À luz da mudança na narrativa política e cultural no país, muitos acadêmicos decidiram deixar o Brasil para continuar o seu trabalho fora do país por medo.


Esta entrevista foi originalmente publicada pela agência de jornalismo investigativo Publica [Aqui!]

Um deserto de ideias

deserto de ideias

Um deserto de ideias foi como o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia (DEM) definiu o governo do presidente Jair Bolsonaro após mais uma semana de ações bizarras onde ficou ainda mais claro que estamos diante de um governante que não tem propostas para construir, mas apenas para destruir, como próprio reconheceu em uma fala na Embaixada do Brasil durante a sua recente visita à capital dos EUA, Washington.

Mas a definição de um governo que é um deserto de ideias poderia ser facilmente aplicada ao governo do jovem prefeito Rafael Diniz (PPS) que apesar de deter um dos maiores orçamentos municipais do Brasil continua a governar no passo de uma tartaruga com as quatro patas quebradas.

Confesso que posso ter ficado mal acostumado com a minha recente estadia de 6 meses em Lisboa, capital de Portugal, onde predominam ruas e calçadas limpas, serviços públicos funcionando relativamente bem, a começar por uma integração bastante eficiente entre as diferentes modalidades de transporte. 

Mas caminhando pelas ruas da região central de Campos dos Goytacazes nos últimos dias, confesso que não esperava ver as coisas ainda piores do que deixei em agosto de 2018. Não falo aqui apenas das dezenas de lojas que fecharam, mas também do lixo e mato que se acumulam por ruas históricas, que não raramente possuem também pontos de vazamento de esgoto “in natura”.  Em outras palavras, eu não esperava ter aqui o que vi em Lisboa, mas não precisava também encontrar tanta esculhambação. É que, entre outras coisas, voltei pagando um IPTU mais caro do que quando fui.

Aparentemente ciente de que as coisas vão mal, o jovem prefeito resolveu abandonar qualquer sentido de coerência e começou a encher suas secretarias com pessoas a quem ele inclusive maltratou publicamente quando era uma voz eloquente da oposição ao governo Rosinha Garotinho na Câmara de Vereadores.  Isso não chega a ser nenhuma novidade, pois outros governantes cooptaram membros do grupo político do ex-governador Anthony Garotinho e, talvez nem seja assim tão ruim, pois demonstra que a fórmula de um secretariado repleto de menudos neoliberais chegou à exaustão.

O problema é que ao ceder espaços importantes do seu governo a políticos que até recentemente ele e seus menudos neoliberais rotulavam pejorativamente de “rosáceos, fica a pergunta sobre quem mudou desde que o governo foi iniciado sob circunstância e fanfarra em 2017. É que se essas pessoas, algumas que inclusive respeito pelo fino trato e a classe com que se relacionam até com pessoas que pensam diferente delas, estiverem sendo recrutadas para aplicar velhas fórmulas de governança, temos diante de nós que o governo da mudança acaba de terminar precocemente, restando apenas saber no que se transformou. E ao trazer pessoas experientes para seu secretariado, mesmo que sejam oriundas do “garotismo”,  Rafael Diniz está dando umas primeiras mostras de sabedoria desde que começou seu governo. Mas certamente o que prefeito que passaremos a ter, não foi aquele que foi eleito.  Aliás, como tudo indica, esse governo deixou de ser o “governo da mudança” para ser o “governo da Estação Primeira de Mangueira” que, afinal de contas, todos sabemos, é verde e rosa.

Agora, convenhamos, como já estamos nos encaminhando para as eleições de 2020, fica mais uma vez evidente a necessidade de que não apenas os partidos políticos, mas como indivíduos e associações de classe os que possuam expertises estabelecidas sobre os graves problemas que afetam a nossa cidade, arregacem as mangas para que se formule um projeto para a cidade de Campos dos Goytacazes que nos permite superar a crise aguda em que estamos enfiados há pelo menos 4 anos.  As razões para isto são muitas, mas a razão para arregar as mangas  é bem simples: a cidade de Campos dos Goytacazes não tolera mais ser colocada na vanguarda do atraso. Simples assim!

A guerra dos robôs bolsonaristas contra a previdência social

robo

Enquanto manifestações (umas grandes e outras nem tanto) aconteciam pelo Brasil para protestar contra a reforma da previdência proposta pelo governo ultraneoliberal de Jair Bolsonaro, uma verdadeira guerra acontecia nas redes sociais entre os apoiadores e adversários do pacote previdenciário.

O que muitos dos oponentes não sabiam é que estavam tomando parte de uma luta internacional contra um exército de robôs que foram contratados provavelmente por aqueles que têm mais a ganhar com a quebra do modelo de previdência pública e solidária que existe no Brasil para que seja implantada um que será sustentado por contribuições independentes e não solidárias, seguindo o modelo imposto no Chile pela ditadura militar de Augusto Pinochet.

Evidências da participação dessa armada internacional de robôs na defesa do modelo de previdência de capitalização (que só capitaliza realmente as instituições financeiras que vendem pacotes dessa modalidade de especulação financeira) foram divulgadas na rede social Twitter na página dos “Jornalistas Livres” que identificaram países como Bielorússia, Vietnã e Israel como os locais de onde a defesa da chamada “novaprevidência” aparecia no topo dos assuntos mais abordados, os famosos “trending topics” (ver imagem abaixo).

robos

Interessante seria verificar se esses países também sediaram as armadas de robôs que disseminaram tópicos como “kit gay” e “mamadeira de piroca” que tiveram grande impacto nas escolhas feitas pelo eleitorado em 2018.

É bem provável que os países que hoje se notabilizaram por sediar as armadas de robôs pró-reforma da previdência tenham sido também palco das “fake news” que turbinaram os votos em Jair Bolsonaro.

O importante aqui é notar que com a criação da internet e dos espaços que possibilitam a atuação desses robôs cibernéticos, não há país ou assunto que estejam imunes à modalidade de guerra híbrida em que nada realmente é o que parece ser. Muito menos apoios misteriosos a um pacote de reformas que destruirá a solidariedade intergeracional entre os brasileiros, apenas para aumentar ainda mais os lucros já estratosféricos que os bancos auferem às custas do suor e do sacrifício dos trabalhadores brasileiros.

O Olavo do mercado

olavo-do-mercado

Por Luís Felipe Miguel*

Nas eleições do ano passado, diante da inviabilidade eleitoral de seus candidatos, os grupos dominantes do Brasil se viram frente a uma encruzilhada. Podiam reabrir um caminho de negociações com o PT, que lançara um candidato presidencial mais do que palatável, Fernando Haddad, e assinalava com clareza sua disposição para pactuar um lulismo 2.0, adequado às condições adversas do pós-golpe de 2016. Esse caminho implicava restabelecer algum grau de vigência da Carta de 1988 e alguma moderação no frenesi pela destrutiva de direitos e de políticas de proteção social. A outra opção era apoiar um candidato destemperado e despreparado, notabilizado por seu discurso histriônico de apologia à violência e com notórias ligações suspeitas com grupos criminosos. A burguesia, as elites políticas tradicionais, a imprensa e as classes médias não titubearam e escolheram a segunda opção.

Com Bolsonaro na presidência batendo o recorde mundial de vexames por minuto, muitos desses setores estão preferindo guardar distância de seu eleito. Da goiabeira ao golden shower, passando por Queiroz e pelos laranjais, são muitos os motivos para evitar associação com o novo governo, que agora apanha até em editoriais do Estadão. Mesmo o ex-juiz Sérgio Moro, o herói da cruzada para salvar o Brasil do petismo, desmoralizou-se rapidamente. Sobra apenas um pilar do bolsonarismo no poder, o tsar da economia, Paulo Guedes, avalista do apoio do capital ao ex-capitão, até então visto com desconfiança, como um estatista autoritário – o problema, claro, residia no “estatista”, não no “autoritário”.

A cobertura da imprensa é significativa. Guedes é tratado como alguém que sabe o que faz e um dos problemas centrais de Bolsonaro seria não priorizar, na presidência, a defesa das “reformas” prometidas por seu ministro. Mas a competência e a sensatez de Paulo Guedes podem entrar na conta das fake news.

“Paulo Guedes é o arauto de uma forma de fundamentalismo de mercado que bem pode ser descrita como uma espécie de terraplanismo econômico.”

 

Não se trata só da ignorância absoluta sobre a gestão do ministério, ilustrada pelo episódio da célebre conversa com o então presidente do Senado, Eunício Oliveira, em que Guedes desdenhou a aprovação do orçamento da União dizendo “o orçamento eu faço depois”, ou pela exoneração sumária de todos os funcionários com cargo de confiança que haviam trabalhado nos governos petistas, paralisando as atividades por longo período – não era possível nomear outros para seus lugares, porque até os funcionários que sabiam como fazer as nomeações tinham sido afastados… Nem é apenas a incapacidade de discutir e negociar, com grupos sociais ou com o parlamento, adotando sempre um tom de ameaça.

Mais do que isso, Paulo Guedes é o arauto de uma forma de fundamentalismo de mercado que bem pode ser descrita como uma espécie de terraplanismo econômico. Todas as evidências mostram que a brutal desregulamentação que ele advoga não leva ao crescimento, mas somente à concentração da riqueza e à pauperização da população. A privatização ensandecida de Guedes e de seu assessor Salim Mattar não equilibrará as contas públicas e privará o Estado brasileiro de receitas e de instrumentos de ação. Sua fúria contra o funcionalismo público, que o leva a aventar o fechamento de instituições como o IBGE, só pode ser classificada de irracional: não é possível imaginar um Estado moderno, mesmo mínimo, que se prive dos instrumentos básicos de aferição da situação da sociedade que ele quer comandar.

Guedes gosta de reciclar o velho dito de que a esquerda tem coração e a direita tem cérebro, mas parece que a ele faltam ambos. Ele é imune ao raciocínio lógico, ao aprendizado com a experiência histórica e à realidade factual. A reforma da Previdência, prioridade máxima dele e do capital hoje, serve de exemplo. O modelo pinochetista, que ele deseja implantar no Brasil, é um perfeito caso de fracasso – exceto para os especuladores que roubaram a poupança da classe trabalhadora. Mesmo com ajustes que foram feitos para minorar a situação (com intervenção, vejam só, do Estado!), os aposentados recebem em média menos da metade do que lhes havia sido prometido. Mais de 90% deles ganham cerca de metade do salário mínimo. Os jornais noticiam uma onda de suicídios de idosos, o que talvez seja mesmo a solução ideal para Guedes.

“Guedes gosta de reciclar o velho dito de que a esquerda tem coração e a direita tem cérebro, mas parece que a ele faltam ambos.”

A insensibilidade das nossas elites para com a situação da classe trabalhadora é notável e se manifesta com especial virulência no debate sobre a previdência. Guedes não tem o monopólio dela. Rodrigo Maia, por exemplo, interveio para dizer que “todo mundo consegue trabalhar até os 80 anos” (como a expectativa de vida está em 75 anos, percebe-se que muitos vão ter que procurar emprego na condição de almas penadas). Mas essa cegueira de classe, ainda que comum, é indesculpável naqueles que deveriam governar a totalidade dos brasileiros. Para Maia, como para Guedes, aposentadoria é o que se dá à mão de obra tornada inservível e o aposentado não conta como um ser humano que ainda tem uma vida a viver. Para o trabalhador e a trabalhadora, ao contrário, a aposentadoria é a ansiada alforria. O momento em que eles podem alcançar um pouco da liberdade existencial de que os burgueses desfrutam. Para isso, é preciso que tenham duas coisas: alguma tranquilidade material e suficiente saúde.

Essa perspectiva é silenciada sistematicamente no debate brasileiro sobre a reforma da Previdência. Um debate limitado, enviesado, com dogmas que, justamente por serem tão frágeis, não podem sofrer questionamentos. Esses dogmas incluem o enquadramento da questão exclusivamente sob o ângulo contábil e a “bomba relógio” do “indiscutível” desequilíbrio estrutural. Outro dogma é a ideia de que trabalhador existe para trabalhar, isto é, para gerar mais-valor, enquanto tiver um sopro de energia no corpo.

Guedes é, hoje, o repetidor-mor desse discurso dogmático. Seu papel é enunciar certezas e impedir o debate sobre elas. A mídia gosta de diferenciar os olavetes e fanáticos religiosos, que formariam a “ala psiquiátrica” do governo, de seu homem no Ministério da Economia. Mas Paulo Guedes não é tão diferente do guru de Richmond, em seu apego a teorias sem fundamento e em sua arrogância e truculência na discussão pública. Faltam o charuto, o licor de laranja e o tapete com a pele do pobre urso bebê, mas, a seu modo, ele é o Olavo do mercado.

*Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política da UNB, e autor de Democracia e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018) e, em conjunto com Flávia Biroli, Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014), entre outros. Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.


Este artigo foi originalmente publicado pelo blog da Boitempo [Aqui!]

Agronegócio vive mar de agruras após ter apostado todas as suas fichas em Jair Bolsonaro

bolso agro

O agronegócio (leia-se latifúndio agroexportador) que apostou todas as suas fichas na candidatura de Jair Bolsonaro, agora se vê engolfado por um mar de agruras.

Os lideres do chamado agronegócio (na verdade o clássico latifúndio agro-exportador) optaram massivamente pela candidatua vencedora de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018, provavelmente na expectativa de ampliaram os seus ganhos fabulosos com a exportação de commodities agrícolas.

A realidade, entretanto, vem sendo muito diferente das expectativas. O fato é que desde o início do governo do presidente Bolsonaro o setor está sendo inundado por uma coleção interminável de más notícias.  Primeiro veio a má notícia de que a Arábia Saudita decidira suspender a compra de carne de frango vinda de cinco frigoríficos brasileiros, o que foi um golpe duro já que o país árabe é o maior importador brasileiro.

Poucos dias depois ocorreu a notificação feitas pela Rússia de que se não houver uma diminuição dos resíduos do herbicida Glifosato, um dos principais destinos da soja brasileira será fechado até que os níveis de contaminação baixem.

rosselkhoznadzor1

Agora foi a vez da China recusar a habilitação de frigorificos brasileiros, frustrando as expectativas de grandes empresas do setor (por exemplo JBS, Marfrig e Minerva que esperavam uma notícia diferente após a visita de técnicos chineses a dez abatedouros de aves e bovinos.

china certificação

Para completar esse cenário desastroso, em sua visita recente aos EUA o presidente Jair Bolsonaro isentou produtores estadunidenses de tarifas na venda de trigo no Brasil, e  abriu  possibilidade de que isto seja também garantido à produção de suínos o que poderá representar uma concorrência dura para produtores brasileiros e argentinos.

Como o dito agronegócio é tudo menos pop, há que se ver como reagirão seus líderes dentro e fora do congresso nacional. Mas uma coisa, se essas notícias ruins não foram revertidas logo, o mais provável é que haja uma reação clara para mostrar descontentamento com os ruídos causados nas relações comerciais pela chamada agenda ideológica do governo Bolsonaro, a qual aliena alguns dos principais compradores das commodities brasileiras.

E pensar que este setor foi tratado a pão de ló durante os governos dos presidentes Lula e Dilma Rousseff. Talvez aí resida uma certa justila poética nas agruras que não param de ocorrer para os latifundiários brasileiros.

Desmantelamento de leis e caos ambiental sob Bolsonaro

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina

Na imagem os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina (Agricultura) se “vestem de índios” ao visitar uma monocultura de soja plantada ilegalmente em terra indígena no Mato Grosso.

O site “Direto da Ciência” divulgou hoje a publicação de um artigo publicado pela revista Nature Ecology & Evolution dando conta dos efeitos dramáticos que a chegada de Jair Bolsonaro à presidência da república poderá em termos da aceleração do processo de erosão de medidas de proteção ambiental no Brasil.

Como alguém que tem estado envolvido em estudos sobre a dinâmica de desmatamento da Amazônia brasileira desde o início da década de 1990 e nas repercussões do uso de agrotóxicos sobre a saúde humana e ecossistemas naturais, só posso ficar ainda mais preocupado com os elementos levantados por Denis Abessa, Ana Famá e Lucas Buruaem.

É que todas as ações que já foram tomadas no âmbito dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente sinalizam para um aprofundamento do processo de desmantelamento do frágil sistema de proteção ambiental que foi implantado a duras penas no Brasil a partir de 1973 com a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente que ficou sob o comando do recentemente falecido João Paulo Nogueira Neto.

Os efeitos deste desmantelamento serão sentidos por gerações inteiras, na medida em que se contribuirá para a ampliação da degradação ambiental em todo o território, mas especialmente na Amazônia e no Cerrado, justamente num momento em que as primeiras manifestações de eventos atmosféricos extremos que estão associadas às mudanças climáticas globais estão se manifestando em diversas partes do planeta, como foi o caso do ciclone Idai que arrasou cidades inteiras em Moçambique e no Zimbábuae.

Para ler mais sobre este artigo, sugiro a leitura da matéria publicada no Direto da Ciência que pode ser acessada [Aqui!]

Jair Bolsonaro comete erros estratégicos graves ao atacar imigrantes e parceiros comerciais na visita aos EUA

Jair Bolsonaro, durante entrevista à rede de TV conservadora Fox

A ultraconservadora FoxNews aponta para o apoio de Jair Bolsonaro a Donald Trump para que um muro seja construído na fronteira com o México.

Não sou muito afim de adotar a linha de indignação exacerbada com que articulistas de direita e de esquerda estão analisando os vários pronunciamentos (equivocados) que o presidente Jair Bolsonaro está proferindo em sua visita oficial aos EUA.  Prefiro apontar algo básico que é a inevitável consequência que tais pronunciamentos terão não sobre a imagem pública de Jair Bolsonaro, mas sobre os interesses econômicos e políticos do Brasil.

bolsonaro usa 1

Ao afirmar que a maioria dos imigrantes (incluindo aí os milhares de brasileiros que vivem nos EUA) desejam mal aos estadunidenses e atacar a França por uma suposta política permissiva em relação ao acolhimento de migrantes em seu território, Jair Bolsonaro consegue isolar o Brasil, justamente em um momento em que mais precisamos de inclusão.

E, pior, Jair Bolsonaro ainda está fazendo o jogo pedido pelo presidente estadunidense e ataca a China, país que hoje o principal parceiro comercial do Brasil e destino preferencial das nossas exportações de commodities agrícolas e minerais. A falta de sentido nesse ataque já está levantando sobrancelhas não apenas dentro do latifúndio agroexportador, mas também dentro dos setores mais conservadores da mídia brasileira que agora começam a apontar para o caráter destruidor de sua agenda política que, convenhamos,  na prática de uma receita heterodoxa de “nacionalismo entreguista”.

A questão que se apresenta aqui é que todos esses elementos não encontram apoio incondicional nem dentro dos EUA onde até a ultraconservadora rede de TV Fox News fez reportagem onde apontou para possíveis ligações da família Bolsonaro com as milícias no Rio de Janeiro  (ver clip logo abaixo), que dizer então de importantes parceiros comerciais brasileiros como a China, a Rússia e a própria França. 

Como sou geógrafo sempre tendo a buscar as implicações e consequências geopolíticas de determinadas ações que são adotadas pelos nossos governantes. No caso do que está ocorrendo neste momento com a visita do presidente Jair Bolsonaro, avalio que ela está sendo catastrófica para os interesses políticos e econômicos do Brasil. É que neste momento, os EUA estão afundados numa crise política e em dificuldades claras com o seu débito público. Por isso, ao se aliar de forma tão óbvia ao governo Trump, o que Jair Bolsonaro arrisca a fazer é colocar o Brasil para afundar junto com os EUA. E  em um mundo tão conturbado por realinhamentos estratégicos, esse não é certamente um cenário promissor.

Finalmente, eu fico me perguntando como estão se sentindo os imigrantes brasileiros que vivem nos EUA ao serem colocados na vala comum daqueles que “não têm boas intenções” ao irem para lá. É que, como se sabe, Jair Bolsonaro teve uma votação expressiva na comunidade de expatriados brasileiros que vivem nos EUA. 

Para agradar Donald Trump, Jair Bolsonaro vai facilitar deportação de brasileiros vivendo nos EUA

Resultado de imagem para bolsonaro trump

Para agradar Donald Trump, governo Bolsonaro vai facilitar deportação de brasileiros que vivem nos EUA.

Primeiro o Brasil se retirou do Pacto Global da Migração, no que foi a primeira mostra de desapreço por milhares de imigrantes brasileiros que votaram massivamente em sua candidatura, o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Depois, o deputado federal Eduardo Bolsonaro declarou que brasileiros que estivessem ilegalmente seriam uma vergonha para o Brasil.

Agora Bolsonaro e Ernesto Araújo vão fazer algo que prejudicará diretamente um contingente em que obteve votação expressiva.  Estou falando da decisão do governo Bolsonaro de tomar medidas para facilitar a deportação de brasileiros dos EUA.

radar deportação

Essa medida visa meramente facilitar a ação repressiva que o governo de Donald Trump vem empregando para deportar imigrantes, muitas vezes sem que qualquer lei estadunidense esteja sendo violada.  Por isso mesmo, não passa de um gesto de vergonhosa subordinação aos ditames de Donald Trump e sua política anti-imigrantes.

Como vivi na cidade de Bridgeport, estado de Connecticut, vi bema rotina dura em que milhares de brasileiros estavam imersos para garantir o sustento de suas famílias em um ambiente marcado pela ansiedade frente às pressões exercidas pelos órgãos que controlam a vida dos imigrantes dentro dos EUA. Ao se comprometer em facilitar a deportação em vez de atuar para garantir os direitos de cidadãos brasileiros vivendo no exterior, o governo Bolsonaro presta um grande desserviço aos que foram para fora do Brasil para buscar os meios de sobrevivência que não estão sendo garantidos por aqui.

Em outras palavras, essa é uma atitude lamentável e que tornará a vida dos imigrantes brasileiros vivendo nos EUA ainda mais tensa. E para quê? Para apoiar de forma explícita a agenda política de Donald Trump.  Lamentável!