O CDL do Porto do Açu, um perfeito exemplo de “corporate washing”, e com selo de qualidade dado por instituições públicas de ensino

ACU1

Passeando ontem pela “timeline” na rede social “Instagram” me dei de cara com a página oficial  do Porto do Açu (@Porto.do.Açuquando pude visualizar diversas imagens relativas ao chamado “Conselho de Desenvolvimento Local” que foi supostamente criado em setembro de 2020, com a participação direta do Instituto Federal Fluminense (IFF) e da Universidade Federal Fluminense (UFF), conforme anunciado na página do evento que está hospedada no sítio oficial do antigo CEFET na rede mundial de computadores.

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Pois bem, qual é o problema com a propaganda em torno deste suposto “Conselho de Desenvolvimento Local do Porto do Açu”.  O primeiro é que procurando na página oficial do Porto do Açu não localizei qualquer menção ao tal “CDL do Porto do Açu”, e muito menos ainda sobre quem são seus membros e  quem os mesmos dizem representar. Na prática, o único nome publicamente assinalada como pertencente a este “conselho” é o reitor do IFF, Jefferson Manhães. 

Além disso, a propaganda do “CDL do Porto do Açu” menciona ações genéricas no campo da “educação, sustentabilidade e empreendedorismo sustentável, desenvolvidas em parceria com órgãos públicos locais” sem que se saiba, por exemplo, qual é o nível de articulação com a Secretaria Municipal de Educação de São João da Barra (PMSJB), que é quem deve responder legalmente por este tipo de ação no “território” que fica no entorno imediato do Porto do Açu.

Agora, a questão que deveria ser analisada com mais cuidado é quais são os interesses que uma empresa privada controlada por um fundo financeiro multinacional de “private equity” tem em criar um simulacro de conselho para influenciar em áreas que dizem respeito à gestão territorial de uma área sobre a qual não possui jurisdição legal.  

A resposta para essa charada aparentemente está bem longe dos agricultores familiares que tiveram suas terras tomadas e os pescadores artesanais que tiveram suas principais áreas de pesca interditadas pela implantação do Porto do Açu, o que privou as milhares de famílias pertencentes a esses dois grupos de seus meios básicos de produção e reprodução social. É que está óbvio que todos os anúncios de responsabilidade social e ambiental que são geradas pela Prumo Logística Global não estão direcionados para quem conhece efetivamente a sua forma de gerenciar o território. Os destinatários dessa propaganda são, na verdade, os acionistas do EIG Global Partners que não querem ter seus investimentos associados às múltiplas formas de destruição social e ambiental que são marcas registradas do empreendimento iniciado pelo ex-bilionário Eike Batista.

Em outras palavras, o “CDL do Porto do Açu” não passa de uma tentativa de demonstrar a adequação a mecanismos existentes da chamada “corporate governance”  (ou em bom português “governança corporativa“) que se tornou uma exigência para o sucesso de grandes projetos corporativos.  Mas até aí “morreu o Neves”, pois os gerentes da Prumo Logística Global estão fazendo o que um mercado financeiro globalizado demanda de quem quer participar da dança com um ar de mínima respeitabilidade. O que me causa estranheza mesmo é que tenhamos pesquisadores e dirigentes de instituições públicas de ensino se associando a esse esforço do que eu tenho chamado de “corporate washing”, uma variante cada vez mais praticada do “greenwashing“. Mas uma coisa me parece certa: esta associação de figuras como o reitor Jefferson Manhães a esse simulacro de democracia corporativa não é fruto de ingenuidade.