Revistas predatórias e revistas fronteiriças, uma entrevista com Jeffrey Beall

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Por Heiner Mercado Percia

Jeffrey Beall é um dos oradores convidados no 4º Encontro Regional de Editores de Periódicos Acadêmicos que será realizado de 5 a 7 de junho na cidade de Medellín, Colômbia. Ele serviu como bibliotecário na Universidade do Colorado, na cidade de Denver, até 2018 e foi a pessoa que chamou a atenção para um certo tipo de publicações e editores, cunhados por ele como predadores, o que representa um problema para a ciência.

Esta breve entrevista visa não só servir como uma prévia para a sua palestra, mas também para tentar esclarecer algumas dúvidas sobre a clareza dessa noção.

Heiner Mercado (HM): Você foi perguntado várias vezes, mas eu ainda gostaria de perguntar se puder. Eu acredito que, apesar do uso generalizado do termo “predatório” para se referir a um certo tipo de publicações e editores, nem sempre é claro quando usá-lo corretamente e assim evitar cometer uma injustiça contra, digamos, uma publicação de baixa qualidade científica que, embora não pretenda aproveitar financeiramente o modelo do Acesso Aberto, compartilha algumas características de uma publicação abusiva. Por exemplo, muitos editores enviam e-mails para convidar pesquisadores a publicar em seus periódicos. Esta é uma prática muito comum, tanto entre revistas predatórias como entre outras revistas que não seriam referidas com precisão como predadoras. A questão então é a seguinte: O que é um periódico predatório ou editor? Essa definição mudou?

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O professor e bibliotecário Jeffrey Beall no período em que trabalhava na University of Colorado/Denver.

Jeffrey  Beall (JB): Na minha experiência, os defensores do acesso aberto tentam forçar discussões sobre se “predatório” é o melhor termo a ser usado ou não para distrair dos problemas criados pelos editores predatórios e criar confusão e dúvida em relação a esses editores e sobre  Acesso. Eu sempre usei a definição “editores predatórios são aqueles que exploram o modelo de acesso aberto para seu próprio lucro”. Nenhuma definição é perfeita, especialmente para algo que é determinado por um julgamento subjetivo, e não devemos jogar jogos de palavras para fazer o problema desaparecer. Eu não confiaria em uma única característica de um editor (como spam) para determinar que é um predador.
 
HM: Mas é possível estabelecer uma diferença clara entre periódicos predatórios e periódicos de baixa qualidade, ou aqueles que não são incluídos no Web of Science ou Scopus, ou seja, periódicos de acesso aberto que não precisam cobrar dos autores porque eles são inteiramente financiados por universidades ou associações científicas?

JB: Por favor, lembre-se que a avaliação de periódicos acadêmicos para determinar se eles são predatórios ou não não é uma ciência exata – como a matemática – e não devemos tentar transformá-la em uma. Em quase todos os casos, a maioria das pessoas concorda que um determinado periódico é predatório ou não. As únicas discordâncias surgem com os periódicos fronteiriços. Além disso, não cometa o erro de pensar que, se uma revista estiver incluída no Web of Science ou no Scopus, isso não é predatório. Como as pessoas e o leite, os periódicos podem “ir mal” e passar de não predatórios para predatórios.

HM: O que você quer dizer com periódicos fronteiriços?

JB: São periódicos difíceis de classificar como predatórios ou não predatórios. Eles possuem algumas características de um periódico predatório e alguns de um periódico respeitado. Com esses periódicos, é difícil ou impossível obter um consenso sobre a qualidade da revista. Haverá discordância significativa. Com os periódicos predatórios não limítrofes, geralmente há um forte consenso de que se trata de um periódico predatório. Muitas vezes, os únicos que defendem uma revista predatória são aqueles que nela publicaram e que obtiveram crédito acadêmico por seus artigos, ou pesquisadores felizes por terem finalmente encontrado uma publicação que aceitará e publicará seu trabalho, depois de ter seus manuscritos rejeitados. por muitas revistas ao longo dos anos.

HM: Como surgiu a ideia de compilar uma lista negra? Como você desenvolveu critérios tão precisos e por que os publicou em um blog?

JB: Sou bibliotecário, estudei organização do conhecimento e entendi o valor de índices e catálogos no acesso à informação. Então, depois que eu defini o problema dos editores predatórios, era natural que eu criasse uma lista deles. Também achei que um blog era uma boa maneira de publicar as informações de uma forma que as pessoas pudessem acessá-las e que eu pudesse adicionar postagens de blogs comentando sobre o fenômeno dos editores predatórios. Em termos de critérios, recebi muita ajuda de pesquisadores de todo o mundo. Sou grato por toda a assistência que recebi de algumas pessoas muito inteligentes e generosas.

HM: Em várias ocasiões, você nos alertou que compilar listas brancas, onde revistas legítimas são listadas, é um erro. Infelizmente, o seu blog não está mais ativo e, embora a lista tenha sido emulada e publicada por outras pessoas (https://predatoryjournals.com/journalshttps://www2.cabells.com/about-blacklist), você ainda aderir a esta ideia de publicar listas negras? Ou, pelo contrário, você acha que agora é possível implementar regras ou critérios novos e eficazes que tornem as listas de permissões mais confiáveis?

JB: Criar  listas brancas não é um erro; usá-las como uma ferramenta para evitar revistas predatórias é, no entanto. Como já disse, os periódicos nas listas de permissões podem ficar ruins, e há um número crescente de exemplos disso. Para um periódico predatório, ser incluído no Scopus é um ingresso para a riqueza, porque combina uma lista branca e um diário de fácil aceitação.

HM: Eu gostaria de perguntar sobre o relacionamento que você estabelece entre a ciência e as publicações científicas. Até que ponto os periódicos ou editores predatórios impactam a ciência?

JB: Revistas acadêmicas, monografias e apresentações em conferências são as ferramentas que usamos para comunicar e registrar descobertas científicas. Na filosofia da ciência, existe um conceito chamado problema de demarcação, e se refere à linha entre a ciência autêntica e a não-ciência. A revisão por pares impõe a demarcação, rejeitando a pseudociência. Mas os jornais predatórios não se importam com a revisão por pares, por isso publicam material que é ciência falsa, material não validado por revisão por pares. Também há o conceito do registro científico. Periódicos predatórios estão envenenando a literatura científica com lixo científico.

HM: Finalmente, você poderia nos dar um vislumbre da conferência que será realizada em 6 de junho na cidade de Medellín no 4º Encontro Regional de Editores de Revistas?

JB: Bem, nas minhas respostas aqui, eu me referi algumas vezes ao conceito de algo bom que se torna ruim, como leite azedo. Assim, neste contexto, quando tenho a honra de me apresentar em Medellín, espero discutir uma revista venezuelana que já foi respeitada, mas que agora está completamente podre.

*Heiner Mercado Percia. Colaborador do blog Journals & Authors, Club de editores. Professor da Universidade EAFIT. Coordenador editorial da revista Co-herencia da Escola de Humanidades da mesma universidade. Twitter: @heinermercado

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Esta entrevista foi inicialmente publicada em espanho e inglês no blog Journals & Authors [Aqui!]

Em meio ao silêncio sepulcral da comunidade científica, trash science chega ao nirvana

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Depois de terem se livrado da incômoda lista produzida por  Jeffrey Beall, usando para isto sabe-se lá quais mecanismos de convencimento, os editores de  revistas de “trash science” devem estar mais felizes do que nunca. 

É que venho constatando cada vez mais a inclusão de artigos publicados por tradicionais editoras de trash science em minha própria contagem de citações na tradicional  base de dados de citação conhecida como “Web of Science”, e que foi criado pelo Institute for Scientific Information (ISI), que foi propriedade da Thomson Reuters, e que hoje está sob o controle da empresa Clarivate Analytics [1].

O primeiro efeito dessa entrada das revistas de “trash science” no Web of Science é, mais do que certamente, o encarecimento das publicações do chamado “open access” que ganharam uma importante chancela de legitimidade ao serem incluídas em uma plataforma que antes estava reservada a revistas que, em tese, publicavam ciência que tivesse passado pelo crivo do sistema de “peer review” (ou revisão por pares em português) . Nesse caso, os proprietários das editores de “trash science” são os claramente vencedores, visto que seus lucros deverão aumentar de forma estratosférica.

O segundo efeito é o que considero mais nefasto para a ciência enquanto um campo intelectual em que os elementos de rigor deveriam guiar aquilo que é publicado. É que a validação dada a revistas de “trash science” implica também na validação daquilo que elas publicam. Tal fato tornará basicamente o artigo científico em algo não apenas ultrapassado em termos de divulgação científica, mas principalmente em um veículo de de divulgação não de resultados científicos que tenham passado pelas provas de acurácia e precisão, mas daquilo que muitas vezes falhou nestas duas dimensões essenciais para que algo seja considerado uma verdade científica.

Um terceiro efeito é que, especialmente em países onde esses índices são usados para decidir a alocação de recursos públicos em fomento à ciência, teremos cada vez mais a premiação de pesquisadores que se sirvam das editoras predatórias para turbinar seus currículos para aumentar indevidamente as suas chances de obterem suporte para seus projetos de pesquisa. Tal efeito será desastroso não apenas para o avanço da ciência pura, mas também da aplicada, representando um vexaminoso exemplo de desperdício de recursos públicos.

O assombroso, ao menos para mim, é o completo silêncio que está cercando a chegada das editoras “trash science” ao nirvana dos indexadores de citação como é o caso do Web of Science.  Este silêncio é mais do que uma simples omissão, mas representa uma opção de cumplicidade em relação ao processo de validação do que pode ser considerado ou não como sendo ciência de qualidade.

E viva o trash science!


[1] https://clarivate.com/

Caçando Jeffrey Beall para calar a incomoda verdade sobre as revistas predatórias

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Até o início de 2017 era um leitor assíduo do blog que o Professor Jeffrey Beall da University of Colorado-Denver possuía na plataforma WordPRess, e lamentei que repentinamente ele tenha interrompido postagens e removido todo o material que havia depositado, principalmente os relacionados às editoras e jornais predatórios (ou como chamo pessoalmente de reprodutores de lixo científico).  Entretanto, graças a um par de artigos publicados pelo “Times of Higher Education” pude finalmente entender as razões que levaram ao professor Beall a tomar uma medida tão drástica e que literalmente deixou a incontáveis membros da comunidade internacional órfãos da valiosa informação sobre os editores predatórios e suas estratégias de venda e publicação de lixo científico [1 e 2]

Agora, já sei que Jeffrey Beall encerrou seu blog por pressões diretas da sua própria instituição e pelo medo de ser demitido do cargo que ali ocupa.  E isso já foi até explicitado num artigo publicado por Beall na revista “Biochemia Medica” em um artigo publicado em Maio deste ano [3]. Mas a leitura do artigo de um dos artigos da “Times of Higher Education” também elucida uma das fontes principais dos ataques feitos contra a lista preparada por Jeffrey Beall. E surpreendentemente, Beall aponta o dedo para seus próprios pares em outras bibliotecas universitárias, os quais estariam focados demais na rejeição às revistas publicadas pelas grandes editoras científicas mundiais para se deter de forma cuidadosa nos riscos que estão sendo criados pela disseminação do lixo científico publicado por jornais predatórios.

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O fato  é que não é preciso ir longe para verificar que muitos dos que se concentraram em atacar o trabalho voluntário de Jeffrey Beall,  de forma até virulenta, não mostram a mínima disposição para sequer falar dos riscos que estão sendo criados pela disseminação de um incontável número de revistas de acesso aberto cujo valor científico é praticamente nenhum.  Um dos resultados disso é o fato de que muitos pesquisadores estão se tornando vítimas de esquemas criminosos que são utilizados para ludibriar incautos em nome da velocidade de publicação.

Neste caso, me interessaria saber quantas novas “editoras” e revistas predatórias foram lançadas após o encerramento do blog do Professor Beall. Como ele mesmo descreve todo tipo de tentativas de coação para que ele interrompesse a publicação de sua lista, imagino que este crescimento esteja sendo exponencial em 2017. 

Uma coisa é certa: o problema causado pela proliferação de revistas (se é possível de chamá-las assim) científicas predatórias representa um grave risco à credibilidade da ciência, o que é particularmente grave num contexto histórico onde as forças mais reacionárias da sociedade vem escolhendo os cientistas como alvos específicos da sua fúria anti tudo o que pareça ser socialmente progressivo. Um exemplo disso é o presidente dos EUA, Donald Trump, que vem desmantelando toda a infraestrutura científica que foi construída na principal economia do planeta, de modo a impedir que sejam formulados alertas sobre o grave cenário ambiental em que estamos envolvidos.

Alguns poderão dizer que os cientistas que escolhem publicar em revistas predatórias são igualmente culpados pelo problema.  O problema é que as pressões feitas sobre os pesquisadores para que publiquem ou desapareçam acabam contribuindo para que a régua da escolha de onde publicar esteja sendo usada de forma muito frouxa.  Além disso, como ainda inexistem mecanismos para substituir a Beall´s List, aumentou-se consideravelmente o fosso da ignorância sobre quais e onde estão as revistas predatórias, o que nos coloca numa situação objetiva de “faroeste caboclo” onde é cada um por si mesmo.

Um aspecto final que precisa ser ressaltado é que parece prevalecer dentro da comunidade científica internacional (e na brasileira isso se dá de forma marcante) um silêncio em relação às revistas predatórias que normalmente se esperaria se encontrar em favelas dominadas por narcotraficantes ou milicias.  E como estamos no meio de uma profunda crise econômica nota-se muito pouca disposição para sequer tocar nesse assunto. E isto é lamentável, já que a consequência imediata disso será um aumento ainda maior na proliferação das revistas predatórias.


[1https://www.timeshighereducation.com/news/journals-blacklist-creator-blames-university-website-closure;

[2https://www.timeshighereducation.com/news/beall-social-justice-warrior-librarians-betraying-academy.

[3] Para baixar o artigo do professor Beall na Biochemia Medica, basta clicar [Aqui!]

Nature publica duas cartas que lamentam o fim da Lista de Jeffrey Beall

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A respeitada revista Nature publicou na sua edição do último dia 27 de Abril duas cartas de lamento sobre o encerramento da lista de revistas predatórias (trash science) do professor Jeffrey Beall (ver abaixo).

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De forma geral as cartas assinadas pelos professores Vinicius Giglio e Osmar Luiz e a do professor Wadim Strielkowski apontam na mesma direção: a Beall´s List cumpria um papel inestimável na identificação de editores e revistas predatórias, e seu desaparecimento deixou muita gente perdida na selva formada pelas publicações “trash”.

Mas ambas as cartas vão além do lamento e cobram que editoras e instituições de pesquisa estabeleçam critérios que contribuam para a identificação de revistas científicas meritórias de publicação, bem como a necessidade de que sejam estabelecidos bancos de dados que permitam a rápida identificação destes reprodutores de lixo científico, de modo a que a comunidade científica os evite. 

Por fim, a carta assinada por Strielkowski aponta para a necessidade de que sejam estabelecidos comitês de ética cientifica para que estes estabeleçam diretrizes que possam facilitar a identificação das revistas e editoras predatórias.

Ainda que eu considere todas essas considerações mais do que necessárias, tendo a ficar cético quanto à disposição da comunidade cientifica mundial,  e a brasileira em particular, de atacar frontalmente o problema representado pelas revistas reprodutoras de “trash science“.  É que as revistas predatórias apenas suprem um nicho de mercado que está diretamente associado à aceitação explícita do dogma do “publicar ou perecer” que guia premiações individuais e alocação de verbas estatais e privadas para a pesquisa científica em todo o mundo. A verdade é que enquanto a cultura do produtivismo, que premia quantidade em vez de qualidade, não for revista como critério de alocação de verbas e estabelecimento de padrões salariais, o mais provável é que as revistas predatórias continuem a florescer como cogumelos em pastagens em dias de chuva.

Assim, até que se mudem os padrões de premiação, o mais provável é que cada vez mais tenhamos lixo acadêmico sendo apresentado como ciência genuína.  E de lá da sua trincheira na Universidade do Colorado, é bem provável que Jeffrey Beall ainda seja quem mais saiba os caminhos que deveriam ser trilhados para que se evite essa verdadeira hecatombe que ronda a ciência mundial. Resta saber se alguém vai procurá-lo para ouvir o que ele tem a dizer. A ver!

Jeffrey Beall publica lista de 2017 e mostra o trash science em franco crescimento

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Graças ao trabalho voluntário do professor Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado-Denver, que lança desde 2011 a sua lista de editoras e revistas predatórias, pesquisadores de todo o mundo vem gradativamente sendo municiados com as informações necessárias para que evitem contribuir para a expansão do que eu rotulei como “trash science”.  Esse trabalho é particularmente importante para países como o Brasil que vivem sobre a pressão crescente para que seus cientistas publiquem mais, mesmo que o ambiente de financiamento de suas pesquisas enfrentem cenários de completa incerteza como o que é atualmente oferecido pelo governo “de facto” de Michel Temer.

Pois bem, o professor Beall acaba de liberar a sua lista anual de editoras e revistas predatórias, e ainda acrescentou dados relativos a métricas fajutas e revistas legítimas que foram sequestradas por editoras predatórias (Aqui!).   Uma rápida olhada nas tabelas abaixo vai mostrar que a invasão do “trash science” está se tornando um problema crucial para a ciência mundial, pois o avanço em todos os indicadores escolhidos é impressionante.

Esse crescimento exponencial na produção de “trash science” se deve a uma combinação de variáveis que estão invariavelmente ligadas à s da produção científica em mais uma commodity. Mas obviamente sobram os aspectos relacionados à distribuição de verbas públicas e privadas para pesquisadores, bem como benefícios funcionais, seja no aumento de salários ou na obtenção da almejada estabilidade empregatícia dentro de universidades e instituições de pesquisa.

No caso brasileiro, todas as evidências apontam para a penetração irrestrita das editoras e e revistas predatórias dentro da nossa comunidade científica. Um fato que vem contribuindo para isso é a adoção de uma opção quantativa (no caso o número de publicações alcançadas por um determinado pesquisador) para se definir todo tipo de premiação, seja no plano individual ou dos programas de pós-graduação. 

E, pior, a única manifestação pública que ouvi nos últimos anos sobre a lista preparada pelo professor Beall foi um repúdio coletivo por parte de editores de revistas científicas brasileiras contra uma postagem que ele publicou acerca do alcance limitado da plataforma Scielo  (Aqui!).

Mas como nunca é tarde para se aprender, espero que os pesquisadores e instituições de pesquisa brasileiros comecem a prestar mais atenção no trabalho de Jeffrey Beall. É que se isso não acontecer, corremos o risco de virarmos uma espécie de mais um paraíso do “trash science” ao modo do que já ocorre em muitos países da periferia capitalista.   A verdade é que continuar fingindo que o problema não existe vai atrasar ainda mais a evolução do nosso sistema nacional de ciência.

Nunca é demais lembrar que os próximos anos serão marcados por uma forte contenção de verbas para a pesquisa científica no Brasil.  Isto nos obriga a cobrar critérios mais claros para o que vai ser distribuído. Do contrário, acabaremos vendo o grosso dos recursos indo para as mãos dos que não hesitam recorrer ao trash science para turbinar seus currículos.

Por ora, resta-me saudar o incansável trabalho de Jeffrey Beall. É que sem ele não teríamos a menor ideia do tamanho do problema ou de como evitar cair nas milhares de arapucas que vendem gato por lebre.

 

Jeffrey Beall e os “super achievers” da ciência salame

O Professor Jeffrey Beall, que costumeiramente traz análises e revelações sobre os efeitos da propagação exponencial de revistas predatórias sobre a qualidade das publicações científicas, acaba de produzir uma postagem lapidar sobre o irmão siamês do “Trash science“, o também pernicioso “Salami science” (Aqui!).

E Jeffrey Beall faz isto tratando do caso de dois “super achievers” (pesquisadores que se notabilizam por produzirem “solo” ou acompanhados um número acima da média de publicações anuais) da ciência mundial cuja produção combinada é de deixar a maioria dos que conhecem o caminho que um determinado artigo precisa percorrer para ser finalmente publicado se perguntando qual é o segredo de tamanha produtividade.   O próprio Jeffrey Beall desvenda parte do mistério ao destrinchar as publicações, e as claras repetições de conteúdos, dos professores Shahaboddin Shamshirband e Dalibor Petković em revistas científicas aparentemente sérias.

Eu mesmo já tratei neste blog do papel negativo que a prática do “Salami science” causa tanto na qualidade da ciência, como nos sistemas de premiação e distribuição de recursos para a pesquisa científica , e que é potencializada pela existência do mercado de “Trash science (Aqui! e Aqui!).

Uma coisa que é citada por Jeffrey Beall e com a qual eu concordo é sobre o risco de que a tolerância ao “Salami science” acarreta para a comunidade científica, na medida em que o sistema do “peer review” se funda no compromisso de que um dado experimento seja submetido apenas numa dada revista, impedindo a multiplicação de submissões e, consequentemente, de publicações de um mesmo resultado. Ao se romper com essa regra básica, tudo se torna possível. Até o rompimento dos padrões éticos que deveriam guiar a busca de publicar um artigo científico. É que se isto se tornar prática, não haverá muito o que se esperar em termos de qualidade e rigor.

Outro aspecto que Jeffrey Beall é a política de “hands off” que os chamados “super achievers” gozam em suas instituições. Eu mesmo já tenho presenciado a existência de pesquisadores extremamente prolíficos em seu número de publicações, mas que são claramente incapazes de contribuir minimamente para a qualidade intelectual dos programas de graduação e pós-graduação nos quais participam. A estes “super achievers” resta a desculpa de que são “ratos de laboratório”  que se ocupam apenas de suas pesquisas.  Mas até aí morreu o Neves. É que apesar de todas as suas omissões e incongruências, os “super achievers” são vendidos dentro de suas instituições como o exemplo a ser seguido, já que seriam eles os pilares da captação de recursos tão escassos quanto necessários.

Entretanto, o que pouco se fala é que ao se sobrevalorizar os supostos “super achievers“, o que se faz é contribuir para a privatização das pesquisas já que eles acabam por monopolizar espaços físicos dentro de suas instituições e a distribuição de verbas pelas agências de fomento.

Ainda que o aparecimento do “Salami science” e do “Trash science” seja parte de uma evolução da indústria das publicações científicas e da comodificação da ciência mundial, ignorar os seus efeitos deletérios por mais tempo poderá trazer danos irreparáveis para a produção e evolução do conhecimento científico, especialmente nos países localizados da periferia do Capitalismo.  O problema aqui é saber se haverá quem queira enfrentar os dois irmãos siameses de frente.  É que com raras exceções, como as do Professor Jeffrey Beall nos EUA (Aqui!) e do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!) no Brasil, a maioria dos que conhecem o problema prefere olhar para  o outro lado.

A expansão das revistas de”trash science”: por que devemos nos importar?

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Não sei se estou sendo alvo pessoal de uma campanha de marketing de diferentes “editoras” de revistas que disseminam “trash science”, mas minhas contas de correio eletrônico estão sendo especialmente bombardeadas nas últimas semanas com anúncios me convidando a publicar artigos em áreas que vão desde a pediatria até a engenharia de materiais (vejam abaixo três amostras destes convites)

A coisa é tão escancarada que nem é preciso visitar o blog do Prof. Jeffrey Beall (Aqui!) para verificar se editora e revista estão na sua lista de revistas predatórias.  E só esse fato explicita o fato de que o mercado de lixo científico está em processo de florescimento e não o contrário.

A pergunta que se sucede, por que o mundo do “trash science” para estar tão bem a despeito de esforços localizados para mostrar a verdadeira natureza dessa parte da indústria das publicações científicas? A primeira ideia que me ocorre é que seguindo as leis de mercado, oferta e demanda acabam se retroalimentando. Mas a coisa me parece ser mais complexa, pois se olharmos os custos envolvidos para que se publique nessas revistas caça-níqueis, há também que se introduzir análises sobre quais são os ganhos que os pesquisadores ou proto-pesquisadores acabam recebendo em troca pelos investimentos que fazem.

O mais crítico disso tudo é que ao se banalizar e incorporar como válidos artigos que não seriam publicados em revistas que sejam minimamente sérias no uso do processo de revisão por pares (ou peer-review), temos uma contaminação perigosa não apenas no que é tomado como sendo ciência, mas também nos processos de premiação e contratação. 

Outro aspecto que me preocupa com o caminho praticamente livre que essas revistas trash possuem é o processo anti-pedagógico que elas cumprem junto às novas gerações de pesquisadores. É que se tacitamente legitimar a publicação nesses veículos, e ainda por cima premiar quem faz isto, o que estamos dizendo a jovens pesquisadores é que o vale-tudo está oficializado na disseminação do conhecimento científico. Se isto já é um problema em países onde a comunidade científica já é robusta e bem consolidada, imaginemos o que isto causa nos países da periferia capitalista.

Finalmente, no caso brasileiro afora algumas tentativas de expor os malefícios do “trash science” (cito explicitamente os esforços do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!)), o silêncio é quase total e as publicações de baixa qualidade em inglês canhestro abundam.  No caso brasileiro, o silêncio sepulcral do CNPq e da CAPES  sobre este problema, bem como a objetiva falta de ação para coibir  a premição do “trash science” são sinais de que temos um árduo desafio pela frente. Resta saber quem vai querer comprar esta briga, especialmente num tempo em que convivemos com um encurtamento brutal de verbas para a pesquisa.