O crescimento acelerado do “trash science”. Um caso clássico de oferta e demanda?

Ao longo de 2015 tratei aqui neste blog do problema do crescimento e validação do “trash science” e de seus efeitos perversos sobre o processo de disseminação de conhecimento científico, bem como da distribuição de verbas estatais para pesquisadores.

Para minha pouca surpresa, a reação inicial que obtive de muitos pesquisadores foi de rejeição à publicização até da existência deste problema. Apesar de não concordar, acho até compreensível que muitos não queiram nem ouvir falar sobre qualquer esforço de separar “o trigo do joio”. Afinal, além de se manterem num Olimpo com pés de barros, esses pesquisadores estão sendo beneficiados pela concessão de verbas pelas principais agências de fomento brasileiras.

O pior é que ao longo do ano passado tive ainda que presenciar a tentativa de linchamento do Professor Jeffrey Beall por causa de uma postagem em seu blog acerca da eficiência da plataforma Scielo em disseminar artigos e revistas ali hospedados.  O ultraje que acometeu dezenas de editores de revistas brasileiras só tem paralelo no imenso silêncio que existe acerca do problema e das consequências do “trash science” para a ciência, e especificamente a brasileira.

Agora, já nos primeiros dias de 2016 estou sendo novamente procurado para publicar em revistas predatórias, como mostra a imagem abaixo.

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Além de deixar curioso sobre como meu endereço eletrônico institucional foi “fisgado” pelos editores do “International Journal of Environmental and Agriculture Research“, não posso deixar de pensar que se eles estão me alcançando, o mesmo estará ocorrendo com centenas de outros docentes de universidades brasileiras. É que dentro das leis estritas de mercado, raramente há oferta se não houver um mínimo de demanda. Em outras palavras, tem gente que está respondendo positivamente a este pedido de convite.

Mas será por falta de ignorância e excesso de boa fé, combinadas com a necessidade de engordar o CV Lattes, que isto ocorre? A minha resposta é… dificilmente. É que, apesar do incômodo gerado pela “black list” do Professor Beall, quase todo mundo já sabe da sua existência e das formas de acessá-la.

No caso do convite acima, bastou identificar a editora do “International Journal of Environmental and Agriculture Research“, a AD Publications (ver cabeçalho da sua página na internet) e depois acessar a lista do Professor Jeffrey Beall (Aqui!) para saber a resposta.

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E não deve ser surpresa que a AD Publications está na Beall´s List of Predatory Publishers.  Mas isto também deixar claro que estar listado não é um fator de inibição para os editores que o próprio professor Beall continuam a se reproduzir como cogumelos em pastagens após dias de chuva intensa.

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Entretanto, a pergunta que me parece mais relevante é a seguinte: quantos pesquisadores se sentem na obrigação de verificar listas como a formulada pelo Professor Beall? E mais importante ainda: será que o trabalho iniciado pela CAPES para remover jornais “trash” do Qualis Capes vai continuar sem a pressão de jornalistas como Maurício Tuffani que é um dos poucos a tratar do problema de forma aberta na mídia corporativa (Aqui!)?

Eu diria que em tempos de forte restrição financeira e das imensas pressões pela validação meritocrática do trabalho das universidades, deixar de atacar o problema do “trash science” será um tremendo tiro no pé.  É que nada melhor para quem justificar cortes orçamentários do que fisgar publicações “trash” para desvalorizar toda a comunidade científica brasileira. 

E, sim, continuo esperando uma posição coletiva dos editores de revistas científicas brasileiras sobre o problema, de preferência no mesmo tom de ultraje com que procuraram demonizar o trabalho do Professor Jeffrey Beall. Caso contrário, o ultraje não terá passado de uma tentativa de se assumir responsabilidades.

Jeffrey Beall publica capítulo em livro lançado em Portugal sobre a produção científica no mundo do “trash science”

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O Professor Jeffrey Beall da Colorado University-Denver que se especializou na divulgação de revistas e editoras predatórias que produzem e disseminam o que eu chamo de “trash science” acaba de contribuir com o capítulo em um livro publicado pela editora portuguesa Livros Labcom (Aqui!).

Ainda que estejamos mais informados e alertas para os efeitos danosos e os interesses econômicos que estão por detrás da disseminação de milhares de revistas que combinam captação de recursos via autores e a disseminação exponencial de ciência de baixa qualidade, o fato é que o problema está longe de ser controlado, como bem demonstrou a recente reviravolta nos graus atribuídos a centenas de revistas na base Qualis.

Como a situação nas universidades brasileiras que se apresenta para a comunidade científica já em 2016 é de uma combinação esquizofrênica de mais cortes de verbas e aumento da pressão por produção científica. Em função desse cenário é importante que haja um debate amplo e aberto sobre os rumos que a produção científica vem tomando por causa das revistas e editoras predatórias que se aproveitam do nicho de mercado criado por essa combinação nefasta. Do contrário, vamos correr o risco  termos ainda mais “trash science” sendo vendida como ciência.

Um aspecto final nessa obra é de que ao contribuir para um livro de “acesso aberto”, Jeffrey Beall mostra que o seu problema não é com a forma de disseminação da ciência, mas com a qualidade e  o conteúdo do que está sendo vendido como ciência pelas editoras e revistas que produzem e disseminação “trash science”. 

Disponibilizo abaixo todas as informações sobre a obra que constam do sítio da Livros Labcom, e também o link para baixar a obra gratuitamente. 

Comunicar e Avaliar Ciência

por Anabela Gradim e Catarina Moura (Org.)

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Sinopse

A comunidade científica é hoje o resultado inequívoco do modo como os últimos anos acentuaram exponencialmente o desafio de definir e estabilizar parâmetros que permitam que a comunicação e avaliação de ciência possam beneficiar da credibilidade necessária à sustentabilidade de um complexo paradigma. Pensado na sequência – e como resultado – de uma conferência internacional sobre Modelos de Publicação Emergentes organizada no âmbito de um projeto dedicado, justamente, à Comunicação de Ciência, este livro reflete e faz eco, a partir de treze ensaios, das preocupações dos milhares de investigadores, professores, estudantes e bibliotecários que sentem, sobre o seu trabalho (sobre o seu futuro), a pressão permanente de um sistema cujo intrincado agenciamento permanece, até certa medida, opaco.

Índice

Introdução – 1

Parte I
INTEGRIDADE ACADÉMICA E INDICADORESDE PRODUÇÃO E AVALIAÇÃO

Os editores predatórios estão a destruir a integridade da comunicação académica- 11
Jeffrey Beall

Por Albert Einstein, o editor, você, e eu – 31
Allen W. Wilhite e Eric A. Fong

Produção científica nas ciências sociais e humanidades:problemas e alternativas – 47
João Costa

A universidade portuguesa nos rankings: estratégias de melhoria – 57
Paula Pechincha, António Marques e José António Sarsfield Cabral

A avaliação da produção científica em biotecnologia, direito e artes:proposta de um modelo – 87
Sofia Fernandes

 

Parte II
DESAFIOS DO OPEN ACESS NA POLÍTICA CIENTÍFICA

Editores predatórios e modelos de Open Access – 111
Anabela Gradim

OpenAIRE e comunicação da ciência: a infraestrutura Open Accesspara a investigação na Europa – 127
Pedro Príncipe

Eu sei que tu sabes que eu cito: uma visão estratégicada publicação em ciência –  135
João Fernando Ferreira Gonçalves

Ciência e técnica vitivinícola 30 anos de desafios – 149
J. Silvestre; S. Canas; J. Eiras Dias

Parte III
TEORIAS, MÉTODOS E ESTUDOS DE CASOEM COMUNICAÇÃO DE CIÊNCIA

Investigação em, sobre e através da Arte do ponto de vista da publicação:aspectos epistemológicos e de validação – 157
Francisco Paiva

Argumentação gráfica: a modelização diagramáticana comunicação da ciência – 177
Irene Machado

Cartografia dos métodos digitais: no cruzamento entre os estudos sociaisda ciência e tecnologia e as ciências da comunicação? – 203
Chiara Carrozza e Tiago Santos Pereira

A necessidade de uma melhor comunicação da matemática na imprensa – 241
Susana Simões Pereira, José Manuel Pereira Azevedoe António José de Oliveira Machiavelo

FONTE: http://www.livroslabcom.ubi.pt/sub/livro.php?l=147#sthash.eb9sCOaI.dpuf

O difícil trabalho de desvendar os (des) caminhos da produção de “trash science”

Percorrer e desvendar os caminhos do que eu rotulo de “trash science” pode parecer fácil, mas não é.  Um procedimento normal dos editores predatórios é enviar uma mensagem como a que aparece na imagem abaixo para vender a participação numa conferência ou a rápida publicação numa revista que esteja associada aos seus organizadores.

Online conference

Até ai, tudo bem. O primeiro problema é identificar quem é o organizador da conferência e como e a quem estão ligadas as revistas que são indicadas para publicação dos “artigos selecionados” da conferência.  Tive que gastar uns bons minutos para identificar que as três revistas indicadas pelos organizadores da conferência (cujo endereço de correspondência é localizado na cidade de Nova York).  Mas não consegui identificar com a mesma facilidade onde as revistas são “editadas” (ver a figura abaixo para uma delas).

IJNTSE

Uma pista é dada no site da International Journal of New Technologies in Science and Engineering que informa que 80% dos recursos arrecadados na cobrança de taxas de publicação serão doados para uma organização não governamental voltada para o atendimento de idosos na Índia ((Aqui!)   (Aqui!) )

IJNTSE 2

Mais fácil foi identificar que as revistas estão listadas na “black list” organizada pelo Prof. Jeffrey Beall (Aqui). Além disso, a medida de fator de impacto pelo qual as revistas estaria sendo avaliadas, o “Technical Impact Factor“)  também já foi denunciado pelo Prof. Beall como sendo um dos muitos fatores de impacto piratas que circulam no mercado das revistas predatórias (Aqui!).

Decifrados este percurso sinuoso, volto a me deter no qual denuncia tanto a conferência (que é acima anunciada como ocorrendo apenas via online, ou seja, de forma virtual) como as revistas a ele ligadas como predatórias (ou “trash science” no meu linguajar)  são as datas extremamente próximas entre o prazo limite de envio e a ocorrência da conferência. Outro sintoma são os preços que são oferecidos para os diferentes tipos de participantes. É que apesar das atuais taxas de câmbio, os preços são, digamos, bem camaradas, especialmente para pesquisadores com poucos recursos e desesperados para turbinar seus currículos.

O problema é que, como já foi apontado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog, este processo acaba criando uma situação em que se fortalece e valida a existência de revistas predatórias. E isso ficou bem demonstrado quando 235 revistas predatórias (ou seja produtoras de “trash science“) foram detectadas no chamado Qualis Capes (Aqui!). E como o próprio Maurício Tuffani notou a recente tentativa dos comitês assessores da Capes de fazerem uma limpeza no Qualis Capes não representou mais do que um arranhão na armadura dos “trash science” que estão ali ranqueados (Aqui!).

E o problema é que enquanto convites como o que foi dissecado nesta postagem continuam chegando de forma volumosa, a reação da maioria da comunidade científica brasileira, e também internacional, é de minimizar os impactos mais amplos da disseminação de revistas e conferências predatórias sobre a forma pela qual se produz e avalia a produção científica. Isto já gerou e continuará gerando sérias distorções na formação das futuras gerações de pesquisadores. No caso brasileiro, a coisa é ainda pior, visto que nem uma valorização real se dá ao desenvolvimento científico, como ficou recentemente demonstrado pela nomeação do Sr. Celso Pansera para dirigir o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Jeffrey Beall toca na ferida dos impactos das publicações predatórias sobre a cultura científica (e seus sistemas de premiação)

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Ao longo deste ano tive a oportunidade de falar para diferentes audiências sobre o problema das revistas científicas predatórias e de seus impactos não apenas na qualidade das publicações, mas também na distribuição de verbas por agências de fomento, e também no processo de avaliação da qualidade do trabalho dos professores e da progressão funcional dos mesmos. A reação que venho tendo é um misto de inquietação e letargia.  Essa postura é para um reflexo de uma situação de deterioração da cultura que cercava a produção científica, onde publicar alguma coisa tinha normalmente como pré-requisito a existência de algo meritório de ser mostrado ao resto da comunidade de cientistas.

No caso brasileiro, a aceitação do engordamento de currículos via a colocação de trabalhos em revistas predatórias possui um efeito especialmente pernicioso que é de atrasar um processo de desenvolvimento científico no qual o nosso país já embarcou de forma tardia.  É que ao aceitarmos a penetração do “ethos” do “trash science” acabamos por investir recursos escassos e preciosos em publicações que efetivamente apenas objetivam recolher dinheiro, sem medir a qualidade do acaba sendo publicado.

Mas como já observei em várias ocasiões, o problema da expansão exponencial do “trash science” não se resume ao Brasil. Pelo contrário, o crescimento de publicações predatórias só é possível porque existe um amplo mercado a ser ocupado em escala global. O problema é que a expansão deste mercado acabou por criar graves deformações na forma de avaliar e valorar a produção científica.

Felizmente, existem vozes que estão soando o alarme sobre os impactos da expansão do “trash science“, e uma delas é o professor Jeffrey Beall da Universidade do Colorado-Denver que considero ser um dos pioneiros no alerta sobre os impactos prejudiciais das revistas predatórias sobre a qualidade das publicações científicas.  O Prof. Beall é o criador do que é provável a mais ampla listagem de editoras e revistas predatórias, e que se transformou num instrumento bastante útil a todos aqueles que querem evitar cair na armadilha dos “trash publishers(Aqui!).

Agora, o Prof. Beall acaba de publicar uma análise na revista “Information Development” que eu considero ser um ótimo ponto de partida para todos que querem entender melhor as modificações trazidas, bem como os desafios que isto criou, para a cultura científica.  O artigo cujo título é “Predatory journal and the breakdown of research cultures” pode ser baixado de forma gratuita (Aqui!). 

Beall predatory pubs

Aliás, o que gostaria de ver é como reagem aquelas dezenas de editores de revistas científicas brasileiras que recentemente embarcaram numa espécie de “vendetta” coletiva contra o Prof. Beall por causa de uma postagem em que ele questionava a capacidade da plataforma Scielo de tornar conhecida o conteúdo das revistas que são ali hospedadas. É que passada aquela verdadeira tempestade num copo d´água, o Prof. Beall continua tocando na ferida exposta das revistas predatórias, as quais, interessantemente, ocupam principalmente o espaço de publicações de acesso aberto que procuram preencher.

E agora, será que teremos alguma reação aos comentários que estão contidos na peça produzida pelo Prof. Beall ou vamos ter que continuar assistindo a caçada impiedosa ao mensageiro, enquanto o “trash science” se expande a um custo financeiro altíssimo? A ver!

Maurício Tuffani disseca o crescimento exponencial do “trash science”. E eu pergunto: por que tanto silêncio em torno do problema?

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O jornalista Maurício Tuffani aborda novamente em seu blog hospedado na Folha de São Paulo a questão da produção de “trash science“, onde mostra que o número de revistas “trash” vem tendo um crescimento exponencial nos últimos anos. Essa produção de ciência “trash” é provavelmente um sinal perverso dos efeitos da transformação da ciência em mais uma “commodity”. 

Além disso, no caso brasileiro, a produção de “trash science” tem tido um papel ainda mais danoso, já que não apenas o sistema de ranqueamento dos programas de pós-graduação tem sido afetado pelo engordamento da produção científica por artigos publicados em revistas “predatórias”.  E de forma adicional, o trânsito livre que foi dado para que pesquisadores sejam premiados por engordar seus CVs com “trash science” resultou numa espécie  de “vale tudo” ,cujo resultado final tem sido o crescimento também exponencial de ruído científico.

Um aspecto que julgo especialmente importante na postagem que vai abaixo é o quase absoluto silêncio que reinava na comunidade científica brasileira acerca da contaminação causada pelas publicações “trash” no desenvolvimento da ciência brasileira. E também considero que as medidas recentes tomadas pela Capes para rebaixar ou até excluir publicações do chamado Qualis Capes são claramente insuficientes.

É que enquanto ficarmos no paliativo, os que mais se beneficiam com o engordamento de CVs por artigos produzidos via “trash science” vão continuar fingindo que continua tudo como dantes no quartel de Abrantes. Para isso, há que se ter a coragem de mexer nos mecanismos de concessão de premiações, seja no plano dos programas de pós-graduação, mas também no plano individual dos pesquisadores.

Eu apontaria que se toda a gritaria que ocorreu em relação à postagem do Prof. Jeffrey Beall se repetisse em relação ao núcleo duro da sua contribuição ao debate em relação aos problemas que cercam a disseminação de revistas predatórias, talvez não estivéssemos tendo que nos defrontar com os impactos do “trash science” em tantas áreas chaves da ciência brasileira. Mas, lamentavelmente, a gritaria parece ter sido apenas contra o mensageiro da má notícia que a maioria prefere ignorar.

Mas uma coisa positiva que está acontecendo é que mais pessoas estão começando a falar abertamente sobre os problemas causados pelo “trash science”, e da necessidade de combater as deformações que estão ocorrendo na produção científica brasileira por causa da permissividade com que essa questão foi tratada até recentemente. Pode não parecer pouco, mas já é muita coisa.

Abaixo segue a postagem do Maurício Tuffani que merece ser lida de forma cuidadosa por todos os que querem produzir ciência de qualidade no Brasil. Boa leitura!

 

Produção de periódicos predatórios aumentou 7 vezes em 4 anos

POR MAURÍCIO TUFFANI

Enquanto as autoridades das universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento no Brasil evitam a todo custo tratar publicamente da praga que são as chamadas editoras acadêmicas predatórias e as revistas científicas por elas publicadas na base do “pagou, publicou”, no exterior o problema se torna cada vez mais escancarado.

Desta vez não foi mais uma novidade do biblioteconomista Jeffrey Beall, dos EUA, com sua lista dos  “publishers predatórios”. Um estudo publicado hoje pela revista “BMC Medicine” revela que cresceu de cerca de 53 mil em 2010 para 420 mil em 2014 o número de artigos dos periódicos despejados na literatura científica por essas editoras que exploram sem rigor acadêmico o modelo de publicação em acesso aberto na internet, baseado na cobrança de taxas de autores.

PREVISÕES

Esse crescimento corresponde a 692% em apenas quatro anos, ou seja, a cerca de 7 vezes. A partir da lista de Beall, os pesquisadores da área de ciência da informação Cenyu Shen e Bo-Christer Björk, da Escola Hanken de Economia, na Finlândia, identificaram cerca de 8 mil periódicos ativos responsáveis por esse aumento. Segundo os autores, cerca de 75% dessas revistas estão na África e Ásia.

Shen e Björk, no entanto, afirmaram que os problemas provocados ​​por essas revistas são muito limitados e regionais. A acrescentaram que acreditam que o número de artigos publicados por elas “vai parar de crescer em um futuro próximo”.

CONTESTAÇÃO

Em entrevista ao blog “Retraction Watch”, dos EUA, Beall discordou dos dois autores, afirmando que os dados por eles apresentados não dão suporte a essa previsão. E acrescentou:

“Além disso, é enganosa sua tentativa de minimizar os problemas causados ​​pelos publishers predatórios como ‘regionais’. A Índia tem 1,2 bilhões de pessoas, e a China tem 1,3 bilhão. Há dezenas de milhões de pesquisadores na região.”

Beall foi alvo no Brasil de moções de repúdio por parte de lideranças na área de publicações acadêmicas por ter publicado em julho em seu blog o post “O SciELO é uma favela de publicações?, afirmando que essa plataforma on-line brasileira de periódicos mantida por meio de recursos públicos não consegue dar visibilidade aos trabalhos científicos.

NO BRASIL

Critiquei esse texto de Beall, não só por equívocos em suas afirmações, mas também por ele ter dado razões de sobra às acusações contra ele de preconceito ideológico contra o modelo do acesso aberto e de ele ter uma visão de mundo capitalista na qual só se justifica o modelo de publicação acadêmica baseado no mercado da cobrança pelo acesso aos conteúdos dos periódicos (“Um alívio para os periódicos predatórios”, 6.ago).

O efeito desse problema em nosso país já teve amostras suficientes, desde o impacto na produção acadêmica (“Sobe para 235 a lista de predatórios da pós-graduação brasileira”, ) ao comprometimento de conferências científicas ( “Eventos científicos ‘caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros”, 3.mar, e “Promotoria questiona Unicamp por evento com editora ‘predatória’”, 15.ago).

Felizmente, já existe uma pequena reação contra esse quadro (“Capes rebaixa revistas científicas de má qualidade”, 23.set). Mas ainda é pouco. Por mais que tenham razão algumas das suas críticas a Beall, torna-se cada vez mais imoral e indecente a atitude de indiferença de muitas autoridades e lideranças acadêmicas brasileiras com o problema dos periódicos predatórios.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/10/01/producao-de-periodicos-predatorios-aumentou-7-vezes-em-4-anos/

Jeffrey Beall disseca o “article spinning”, uma técnica de plágio para o Século XXI

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Artigo Spinning: Um técnica de plágio para o Século 21

Por Jeffrey Beall

Esteja preparado para o “Article spinning!

Article spinning é uma técnica cada vez mais popular para a criação de artigos acadêmicos plagiados que os software de detecção de plágios nem sempre conseguem detectar. O “article spinning” envolve o uso de um software para copiar e reformular um acadêmico publicado para criar um novo artigo. A partir dessa técnica, termos e frases no artigo original são substituídas por sinônimos. Aqui está um exemplo.

O primeiro dos dois artigos abaixo é o original. O segundo duplica grande parte do conteúdo usando a técnica de “article spinning”, substituindo palavras e frases com palavras e frases sinônimos.

Zai, M. A. K. Y., Ansari, M. K., Quamar, J., Husain, M. A., & Iqbal, J. (2010). Stratospheric ozone in the perspectives of exploratory data analysis for Pakistan atmospheric regions. Journal of Basic and Applied Sciences, 6(1), 45-49.

Mian, K., Abbas, S. Z., Kazimi, M. R., Rasheed, F. U., Raza, A., & Iqbal, S. M. Z. (2015). Study heftiness in the astrophysical turbulence at Pakistan air space. European Academic Research, 2(12), 15697-15709.

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Exemplo de texto do artigo original

b) Para os dados normais, a média da amostra e a variância são os avaliadores imparciais sobre localização da distribuição subjacente. A maioria dos conjuntos de dados físicos não são distribuídos normalmente, mesmo depois de transformação, porque o pressuposto subjacente de uma distribuição normal é uma idealização matemática que nunca é cumprida exatamente na prática, porque grandes conjuntos de dados inevitavelmente contém valores atípicos.

Exemplo de texto do artigo que resultou do “spinning”

(c) Para os dados de Gauss, o exemplo desagradável e alteração são os avaliadores imparciais sobre a localização da distribuição de Gauss. Maiores círculos de informação corporais não são distribuídos de forma suave após alteração, uma vez que a suposição de uma distribuição de Gauss é um romantismo exato que não é sempre que encontrado precisamente na repetição desde grandes grupos de dados inevitavelmente cobrem valores atípicos [10].

Notem como os termos “média da amostra” foi convertida em “exemplo desagradável” e a frase “idealização matemática” foi alterado para “um romantismo exato”, e alteram o sentido em ambos os casos. Existem inúmeros outros casos de parágrafos do artigo sofreram spining e ; de fato; afigura-se que a maior parte do artigo que resultou do spinning é banal e  copiado.

Fui informado, mas não posso  confirmar que o segundo autor listado do artigo que passou pelo spinning, S. Zeeshan Abbas, obteve seu título de doutor na Universidade de Karachi, em grande parte por causa da publicação do artigo copiado no European Academic Research

European Academic Research: Euro-lixo.

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A European Academic Research, onde o artigo resultou do “spinning”  foi publicado, é uma revista de qualidade extremamente baixa, e está incluída na minha lista de revistas questionáveis. O seu co-editor-chefe é Ecaterina Patrascu, uma romena que eu relatei no ano passado quando ela e seus companheiros lançaram a ridícula revista “American Research Toughts“.

Acredito que a European Academic Research é apenas mais um dos modos de Patrascu de fazer dinheiro, e deste artigo lixo na revista é prova disso. Notem que European Academic Research, incluindo o artigo que passou por spinning e que foi descrito aqui, está indexada no Google Scholar, o maior índice mundial de indexação de lixo científico.

Além disso, o título do artigo que passou pelo “spinning”, “Estudo da importância da turbulência astrofísica no espaço aéreo do Paquistão” – é um completo disparate.

Outra complicação: o “The Journal of Basic and Applied Sciences”, onde o artigo original apareceu, é publicado por uma empresa chamada Lifescience Global, uma editora também incluída na minha lista de editoras e revistas predatórias. Na página “números anteriores” da revista, a maioria dos links para volumes e questões anteriores não funcionam adequadamente, e conduzem apenas a anúncios de publicidade, o que significa  que o  conteúdo anterior da revista está perdido, e muitos que pagaram para publicar ali foram roubados.  Aliás, acessei o artigo 2.010 discutido aqui através de uma cópia arquivada no portal “Research Gate“.

O spinning de artigos é usado principalmente como um instrumento de desonesto de Search Engine Optimization (SEO). Existem pacotes de software e sites que fazem o spinning gratuito  de artigos.  O seu uso como descrito aqui é uma readaquação da técnica e oferece aos pesquisadores uma forma de obter publicações acadêmicas sem ter que fazer qualquer tipo de trabalho real. 

FONTE: http://scholarlyoa.com/2015/09/22/article-spinning-a-plagiarism-technique-for-the-21st-century/#more-5968

À guisa de clarificação segue uma definição de “article spininning”: Article spinning consiste em escrever o mesmo artigo, com uma combinação de frases e/ou palavras diferentes, mas mantendo o mesmo sentido, de forma que cada um dos artigos seja conteúdo original (ou substancialmente original). 

Métricas e lixo científico: porque o fator de impacto não é necessariamente uma boa medida de qualidade

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Estou cada vez mais convencido de que precisamos mudar a forma de avaliar o que são produções científicas efetivamente qualificadas, sem precisarmos cair nas muletas intelectuais rotuladas de “Fator de Impacto”. Antes que me acusem de ser um crítico invejoso dos que conseguem publicar em revistas com alto fator de impacto, as quais supostamente representam o cume da realização acadêmica, deixem-me compartilhar uma pequena experiência pessoal.

Essa experiência começou com um esforço que eu e dois colegas da Universidade Nacional de Brasília (UNB) estamos realizando para produzir um bom artigo científico sobre a expansão da monocultura  da soja na Amazônia ocidental, especificamente em Rondônia.   Estamos envolvidos nessa labuta há mais de um ano, e a primeira vez que submetemos o trabalho a uma revista de boa reputação, levamos um bonito toco. É que nos dito que o artigo carecia de algo que as revistas mais concorridas prezam muito atualmente, qual seja, um certo charme mercadológico.  Em termos práticos, a nossa primeira versão do artigo estaria muito centrada numa análise regional, e os editores das melhores revistas atualmente preferem análises mais generalizáveis.

Pois bem, após refazermos as análises dos dados, eis que nos defrontamos com o aspecto do interesse pelo nosso “produto”, já que no tocante ao avanço da soja na Amazônia brasileira está em voga dizer que não há impacto sobre as áreas ainda coberta por florestas, visto que essa monocultura só seria implantada em áreas já anteriormente desmatadas para o estabelecimento de outras culturas agrícolas ou para o estabelecimento da pecuária. De quebra, há ainda um aparente consenso de que a política chamada “Moratória da soja” produziu efeitos positivos no avanço do desmatamento de áreas cobertas por florestas nativas.

Como de praxe, buscamos realizar uma procura na literatura para melhor contextualizar os nossos resultados, e eis que nesse esforço encontramos um artigo publicado numa revista científica de acesso aberto que fazia considerações positivas sobre a eficácia da moratória da soja.  E importante notar, a mesma revista possui um bom fator de impacto no ranking conhecido como “Journal Citation Report” que é produzido pela megaeditora Thomson Reuters. Como utilizo sempre a “Lista de Beall” para verificar se determinadas revistas são publicadas por editores predatórios (Aqui!), fui lá e não deu outra, o editor da tal revista é apontada como predatório pelo professor Jeffrey Beall.

Este aparente paradoxo me levou a realizar uma pesquisa direta ao prof. Beall que, gentilmente, me respondeu que o editor em questão, o MDPI ( Aqui!), é efetivamente um predatório cujas decisões de publicação residem na capacidade dos autores pagarem para que isto ocorra. Quanto ao alto fator de impacto da revista, o professor Beall atribui isso à diferentes estratégias utilizadas da MDPI para elevar o nível de citação de seus artigos, a começar pelo uso de edições especiais e outros truques editoriais. Em função disso é que o professor Beall apontou que o “fator de impacto” não é uma medida de qualidade científica.

Resolvido em parte o enigma, verifiquei como anda o ritmo de citação do artigo em que os autores tecem loas à moratória da soja, notei que o mesmo foi igualmente bem citado no Web of Science da Thomson Reuters e no Scopus que é impulsionado por outra megaeditora cientifica, a Elsevier.  Diante disso, é que fiquei me perguntando quantos dos autores que utilizaram o trabalho publicado pela MDPI de forma crítica (ou seja, quantos questionaram os resultados ali apresentados) e quantos simplesmente  o assumiram como fonte válida de evidência científica.  

De forma provisória, já que não chequei os artigos que citaram o trabalho em questão, prognostico que a maioria assumiu os resultados como verdade, já que aceitar a tese da “moratória da soja” é um desses modismos que invadiu de sopetão os estudos sobre o avanço do desmatamento na Amazônia Brasileira.  E se isso, se confirmar, já que efetivamente vou verificar cada um desses estudos, estaremos diante de uma brecha inaceitável  para valorização indevida de revistas e editores predatórios em uma área que julgo estratégica não apenas para o Brasil, mas para todos os que perseguem usos social e ambientalmente sustentáveis dos ecossistemas existentes nas regiões tropicais.

De todo modo, se antes desse episódio eu já desconfiava da eficácia do Fator de Impacto para medir qualidade científica, agora não tenho mais dúvidas de sua pouca ou nenhuma utilidade para conduzir uma aferição válida de “qualidade”, mas quando muito da quantidade de citações. E olhe lá.

E a grita contra Jeffrey Beall continua. Os editores predatórios agradecem!

Bem que o jornalista Maurício Tuffani avisou em seu blog (Aqui! ) que a postagem do professor Jeffrey Beall sobre o Scielo (Aqui!iria dar oportunidade para que se jogasse uma nuvem de fumaça na discussão que realmente importa em relação à compilação da “Lista de Beall” onde estão reunidos a maioria das editoras e revistas predatórias que hoje garantem a publicação de uma quantidade imensurável de lixo científico pelo mundo afora.

É que para minha surpresa acabo de me separar com um blog (Aqui!) criado para circular e angariar apoio entre editores de revistas científicas para uma nota de repúdio (publicada em três línguas) à agora notória postagem do professor Jeffrey Beall sobre a capacidade do Scielo de ultrapassar os limites paroquiais da divulgação do conteúdo dos periódicos que são abrigados naquela plataforma.

pelo scielo

A coisa toda poderia ser apenas uma reação exagerada a uma postagem cujo teor agora parece ser o menos dos problemas para quem subscreve a referida nota de repúdio.  Mas como o veículo de circulação da nota de repúdio que promove a coleta de assinaturas e manifestações de editores de revistas hospedadas no Scielo é um blog hospedada na mesma plataforma em que o meu blog se encontra, eu procurei identificar, em vão é preciso frisar, quais atores o estão impulsionando.

Ai para mim começa um problema, pois na falta de nominação dos autores do blog, há que se pensar qual a razão de uma nota de repúdio/abaixo assinado/tribuna livre que, inclusive, usa o logotipo da Scielo. No mínimo, haveria que existir uma autorização formal para a utilização do logo. Para evitar julgamentos indevidos, procurei no blog mantido pela Scielo para ver o que encontrava sobre o assunto, e o máximo que encontrei foram outras três notas que igualmente ensejam o repúdio à postagem do Prof. Beall (Aqui!Aqui! e Aqui!).

A partir destas constatações, me fica a dúvida sobre qual é a posição oficial dos gestores da Plataforma Scielo sobre este imbróglio todo. É que ao postarem em seu blog institucional apenas posições contrárias ao conteúdo da postagem do Prof. Beall, a Scielo parece estar tomando partido em favor dos detratores,. Nesse caso, seria interessante que a Scielo informasse se tentou ouvir o outro lado da moeda, no caso o professor Jeffrey Beall, até para que ele pudesse se retratar de algum eventual malfeito.

A coisa fica ainda mais peculiar se juntarmos todos os ingredientes acima, começando pelo uso do logotipo da Scielo no blog “Pelo Scielo”.  Se o uso não foi autorizado, estamos diante de uma apropriação indevida. Já se o oposto for verdadeiro, teremos um caso em que um organismo (cuja existência é financiada pelos menos parcialmente por dinheiro público) empresta o seu logotipo para algo que pode ser considerado uma forma moderna de caças às bruxas a quem ousou, ainda que com equívocos pontuais, questionar a sua efetividade.

O interessante é que, ao longo dos anos sempre recomendei, a Scielo como um bom ponto inicial para jovens pesquisadores realizarem suas buscas por literatura científica qualificada. No caso do Brasil, onde a maioria dos nossos estudantes de graduação não possui fluência na língua inglesa, ter uma base como a Scielo não é um elemento negligenciável, muito pelo contrário. Agora, a partir dai considerar que o Scielo é a última fronteira na indexação de revistas altamente qualificadas já é um certo exagero, pois este não é efetivamente o caso.

Mas voltando ao que escreveu o jornalista Maurício Tuffani sobre o alívio que esse tsunami representa no necessário combate aos editores e periódicos predatórios, o que eu realmente gostaria de ler dos editores que já assinaram a tal nota de repúdio é sobre quais têm sido os cuidados tomados para que a invasão da “ciência trash” não inunde os periódicos por quem dizem ter tanto zelo. É que em um caso recente numa das revistas cujos editores assinaram o abaixo-assinado “anti-Beall”, e que eu mostrei aqui neste blog, o que se viu foi a necessidade de retratar um artigo publicado por múltiplas violações éticas que teriam sido cometidas pelo autor (Aqui!).

É diante deste quadro que eu considero toda essa gritaria “anti-Beall” um completo desserviço ao avanço da qualidade das revistas científicas brasileiras, estejam elas inclusas ou não no Scielo. É que não vai ser com o uso do “espantalho anti-gringo” que os problemas causados pela disseminação de “trash science” vão ser resolvidas. Aliás, muito pelo contrário.  E digo novamente, Jeffrey Beall não é o nosso problema. Quando muito ele é o mensageiro, ainda que com uma mensagem que possa criticada pontualmente.

A importância de se poder identificar e coibir a publicação em revistas de “ciência trash”

Não faz muito tempo, a inundação da minha caixa de e-mails por convites vindas de revistas obscuras não passava de um  incômodo que eu resolvia com o simples uso da tecla “Delete”.  Lamentavelmente com o passar do tempo, fui  tomando consciência que aquele atitude não era nem perto suficiente. É que uma simples verificação de uma amostra de aleatória do currículos da base Lattes me mostrou que a possibilidade do crescimento rápido da lista de publicações havia fisgado muitos pesquisadores brasileiros, indo desde os mais jovens até alguns figurões da ciência nacional.

Nesse sentido, as recentes reverberações contra a lista compilada pelo professor e bibliotecário da Colorado University-Denver, Jeffrey Beall, (Aqui!) continuam sendo para mim uma distração oportuna dos graves problemas com que a ciência brasileira está se deparando neste momento. É que tomados pelos padrões produtivistas impulsionados pelos principais órgãos de fomento (i.e., CNPq e Capes), aqueles que caíram no canto da sereia do “trash science” fogem da “Lista de Beall” como o diabo foge da cruz.

Uma das acusações mais cínicas que eu já li é de que a “Lista de Beall” é produto de uma e só opinião, o que desqualifica todo o trabalho que Jeffrey Beall fez em prol de uma produção científica minimamente rigorosa. Além disso, a outra preferida, e ai também oferecida sem nenhuma prova empírica, é de que Jeffrey Beall está a serviço das grandes corporações de edição de material científico.  

Entretanto, quem é que já se deu ao trabalho de, após receber um dos encantadores e-mails oferecendo publicação rápida e barata em alguma revista científica obscura, de ir até a página da “Lista de Beall” para verificar se a mesma está inclusa? Pois bem, eu me dei a esse trabalho que, sem a referida lista, seria impossível, diga-se de passagem. 

Vejamos, então a sequência que começa com um e-mail que chegou na minha caixa de correio eletrônico institucional na Universidade Estadual do Norte Fluminense.

trashMensagem oferecendo publicação no “Academia Journal of Environmental Research”

A partir dai, me dirigi à página onde está a “Lista de Beall” e procurei o nome do editor da dita revista e, voilá, vejam o que eu encontrei!

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Editor da “Academia Journal of Environmental Research” é identificado como predatório (trash) por Jeffrey Beall

Os mais céticos poderiam me perguntar como posso ter certeza que Jeffrey Beall “acertou” na colocação” desse editor como predatório ou não. Eu diria que a maioria dos pesquisadores já sabe a resposta, mas vou usar os critérios que o próprio Jeffrey Beall já ofereceu numa entrevista a este blog (Aqui!  ):

“Mas eu analiso as editoras e as revistas em termos de sua ética e suas normas de publicação. Eu olho para o uso de mentiras, falta de transparência, e desvio dos padrões acadêmicos que prevalecem no ramo das publicações científicas. Eu uso critérios documentados que me guiam na análise dos periódicos.”

Pois bem, quem é que utilizando os mesmos critérios iria negar que o e-mail que eu recebi é com alta chance oriunda de uma editora produtora de trash science? E esse me parece ser o elemento crucial neste debate. É que todos sabem com algum grau de confiança quando estão de uma revista “trash”, seja ela de acesso aberto ou não.  E se isto for mesmo verdade, por que ainda temos pesquisadores e, mais importante ainda, a Capes e o CNPq oferecendo tanta demora em reagir ao problema que as publicações “trash” representam para a produção científica de qualidade por parte da comunidade científica brasileira?

A resposta ao enigma acima não parece ter uma só resposta. De toda forma, creio que se demorarmos ainda mais a reconhecer a existência do problema causado pelo invasão de revistas predatórias e que se manifesta de forma aberta (e eu acrescentaria descarada) em um número nada desprezível de currículos da Base Lattes, estaremos fadados a uma condição catastrófica de periferização ainda maior da nossa produção acadêmica.  

Agora, o que eu espero é que aqueles que criticam a Lista de Beall por ser o produto de uma só mente, apareçam com mecanismos institucionalizados de banir o lixo científico e impedir que os seus praticantes continuem a ser beneficiados com as cobiçadas bolsas de produtividade do CNPq e a dominância em editais das nossas agências de fomento. Em outras palavras, se a “Lista de Beall” não é suficiente ou confiável, que se faça um esforço institucionalizado para produzir listas mais confiáveis.  É que como diz o velho ditado “ajoelhou, tem que rezar”.  

 

A reação à postagem de Jeffrey Beall sobre a Scielo: provincianismo e auto-piedade não são boas respostas

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O professor, bibliotecário e blogueiro Jeffrey Beall talvez não imaginasse o tamanho do furor que iria causar ao publicar uma postagem intitulada “Is Scielo a publication favela” (Aqui!), onde ele basicamente se ateve a analisar como plataformas como a Scielo (Aqui!) e Redalyc (Aqui!) acabam não tendo a devida capacidade de publicizar os seus conteúdos, o que acaba sendo feito de melhor forma pelas grandes casas de publicação científica. 

A reação que se deu furiosa e se concentrou na denúncia de Beall como um agente do imperialismo científico representado, por exemplo, pela Thomson Reuters.  Uma das respostas mais duras partiu da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) que publicou uma moção de repúdio ao que seria um ataque classista de Jeffrey Beall (Aqui!).  Como na Abrasco devem existir pesquisadores que entendem bem a língua inglesa, não posso atribuir essa reação a algum problema de entendimento do conteúdo da postagem de Beall sobre as limitações vivenciadas pela Scielo e pela Redalyc para disseminar o conhecimento acerca das revistas que hospedam.

A primeira coisa que me chama a atenção é que a reação está mais entranhada na noção do “Politicamente Correto” que se abateu sobre o Brasil desde meados da década de 1990 com a gloriosa colaboração da Fundação Ford. Em outros tempos, o uso da analogia não seria vista como imperialista e eivada de preconceitos, pois favelas eram favelas, e ponto final. Agora nos tempos do politicamente correto, o uso da palavra em português acabou contribuindo para que o conteúdo da mensagem fosse perdido, e para que os contrariados se utilizassem disso para uma tentativa de assassinato moral do mensageiro.

Em segundo lugar, o que já foi assinalado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog na Folha de São Paulo (Aqui!), é que toda essa reação acaba obscurecendo algo mais essencial no debate sobre as revistas de acesso aberto e as comerciais, qual seja, a da qualidade do que está sendo publicado.  O fato inegável é que o advento das publicações de acesso aberto também propiciou a rápida disseminação de editoras e revistas predatórias, onde muito lixo científico é publicado, criando um ambiente tão poluído por ciência de baixa qualidade que ficamos inundados de “ruído” científico, o que dificulta de fato  o avanço da qualidade do que é produzido pela comunidade científica brasileira.

Em função disso, é que me parece essencial apontar que antes de criticar eventuais erros cometidos por analistas estrangeiros, o que a comunidade científica brasileira que se pretende rigorosa e comprometida com o avanço do conhecimento deveria fazer é começar um processo de limpeza de todas as bases e plataformas que hospedem revistas predatórias, sejam elas comerciais ou de acesso aberto. Do contrário, o que teremos é o aprofundamento de um isolamento que será mortal para nossas pretensões de desenvolvimento cientifico.  E tome mais lixo científico!

Para que possamos usar este episódio da melhor forma, há que se deixar o provincianismo e a auto-piedade de lado. Do contrário, continuaremos pretendendo que já chegamos ao olimpo da ciência, enquanto, de fato, estamos afogados em produções de baixíssima qualidade. E como revisor de várias revistas brasileiras, eu ainda acrescento, com um português tão pobre quanto os resultados que são apresentados como sendo ciência.  E assim, acreditem em mim, Jeffrey Beall não é o nosso problema. Quando muito ele é, um mensageiro que precisa ser ouvido com mais cuidado. Simples assim!