O difícil trabalho de desvendar os (des) caminhos da produção de “trash science”

Percorrer e desvendar os caminhos do que eu rotulo de “trash science” pode parecer fácil, mas não é.  Um procedimento normal dos editores predatórios é enviar uma mensagem como a que aparece na imagem abaixo para vender a participação numa conferência ou a rápida publicação numa revista que esteja associada aos seus organizadores.

Online conference

Até ai, tudo bem. O primeiro problema é identificar quem é o organizador da conferência e como e a quem estão ligadas as revistas que são indicadas para publicação dos “artigos selecionados” da conferência.  Tive que gastar uns bons minutos para identificar que as três revistas indicadas pelos organizadores da conferência (cujo endereço de correspondência é localizado na cidade de Nova York).  Mas não consegui identificar com a mesma facilidade onde as revistas são “editadas” (ver a figura abaixo para uma delas).

IJNTSE

Uma pista é dada no site da International Journal of New Technologies in Science and Engineering que informa que 80% dos recursos arrecadados na cobrança de taxas de publicação serão doados para uma organização não governamental voltada para o atendimento de idosos na Índia ((Aqui!)   (Aqui!) )

IJNTSE 2

Mais fácil foi identificar que as revistas estão listadas na “black list” organizada pelo Prof. Jeffrey Beall (Aqui). Além disso, a medida de fator de impacto pelo qual as revistas estaria sendo avaliadas, o “Technical Impact Factor“)  também já foi denunciado pelo Prof. Beall como sendo um dos muitos fatores de impacto piratas que circulam no mercado das revistas predatórias (Aqui!).

Decifrados este percurso sinuoso, volto a me deter no qual denuncia tanto a conferência (que é acima anunciada como ocorrendo apenas via online, ou seja, de forma virtual) como as revistas a ele ligadas como predatórias (ou “trash science” no meu linguajar)  são as datas extremamente próximas entre o prazo limite de envio e a ocorrência da conferência. Outro sintoma são os preços que são oferecidos para os diferentes tipos de participantes. É que apesar das atuais taxas de câmbio, os preços são, digamos, bem camaradas, especialmente para pesquisadores com poucos recursos e desesperados para turbinar seus currículos.

O problema é que, como já foi apontado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog, este processo acaba criando uma situação em que se fortalece e valida a existência de revistas predatórias. E isso ficou bem demonstrado quando 235 revistas predatórias (ou seja produtoras de “trash science“) foram detectadas no chamado Qualis Capes (Aqui!). E como o próprio Maurício Tuffani notou a recente tentativa dos comitês assessores da Capes de fazerem uma limpeza no Qualis Capes não representou mais do que um arranhão na armadura dos “trash science” que estão ali ranqueados (Aqui!).

E o problema é que enquanto convites como o que foi dissecado nesta postagem continuam chegando de forma volumosa, a reação da maioria da comunidade científica brasileira, e também internacional, é de minimizar os impactos mais amplos da disseminação de revistas e conferências predatórias sobre a forma pela qual se produz e avalia a produção científica. Isto já gerou e continuará gerando sérias distorções na formação das futuras gerações de pesquisadores. No caso brasileiro, a coisa é ainda pior, visto que nem uma valorização real se dá ao desenvolvimento científico, como ficou recentemente demonstrado pela nomeação do Sr. Celso Pansera para dirigir o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

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