A reação à postagem de Jeffrey Beall sobre a Scielo: provincianismo e auto-piedade não são boas respostas

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O professor, bibliotecário e blogueiro Jeffrey Beall talvez não imaginasse o tamanho do furor que iria causar ao publicar uma postagem intitulada “Is Scielo a publication favela” (Aqui!), onde ele basicamente se ateve a analisar como plataformas como a Scielo (Aqui!) e Redalyc (Aqui!) acabam não tendo a devida capacidade de publicizar os seus conteúdos, o que acaba sendo feito de melhor forma pelas grandes casas de publicação científica. 

A reação que se deu furiosa e se concentrou na denúncia de Beall como um agente do imperialismo científico representado, por exemplo, pela Thomson Reuters.  Uma das respostas mais duras partiu da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) que publicou uma moção de repúdio ao que seria um ataque classista de Jeffrey Beall (Aqui!).  Como na Abrasco devem existir pesquisadores que entendem bem a língua inglesa, não posso atribuir essa reação a algum problema de entendimento do conteúdo da postagem de Beall sobre as limitações vivenciadas pela Scielo e pela Redalyc para disseminar o conhecimento acerca das revistas que hospedam.

A primeira coisa que me chama a atenção é que a reação está mais entranhada na noção do “Politicamente Correto” que se abateu sobre o Brasil desde meados da década de 1990 com a gloriosa colaboração da Fundação Ford. Em outros tempos, o uso da analogia não seria vista como imperialista e eivada de preconceitos, pois favelas eram favelas, e ponto final. Agora nos tempos do politicamente correto, o uso da palavra em português acabou contribuindo para que o conteúdo da mensagem fosse perdido, e para que os contrariados se utilizassem disso para uma tentativa de assassinato moral do mensageiro.

Em segundo lugar, o que já foi assinalado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog na Folha de São Paulo (Aqui!), é que toda essa reação acaba obscurecendo algo mais essencial no debate sobre as revistas de acesso aberto e as comerciais, qual seja, a da qualidade do que está sendo publicado.  O fato inegável é que o advento das publicações de acesso aberto também propiciou a rápida disseminação de editoras e revistas predatórias, onde muito lixo científico é publicado, criando um ambiente tão poluído por ciência de baixa qualidade que ficamos inundados de “ruído” científico, o que dificulta de fato  o avanço da qualidade do que é produzido pela comunidade científica brasileira.

Em função disso, é que me parece essencial apontar que antes de criticar eventuais erros cometidos por analistas estrangeiros, o que a comunidade científica brasileira que se pretende rigorosa e comprometida com o avanço do conhecimento deveria fazer é começar um processo de limpeza de todas as bases e plataformas que hospedem revistas predatórias, sejam elas comerciais ou de acesso aberto. Do contrário, o que teremos é o aprofundamento de um isolamento que será mortal para nossas pretensões de desenvolvimento cientifico.  E tome mais lixo científico!

Para que possamos usar este episódio da melhor forma, há que se deixar o provincianismo e a auto-piedade de lado. Do contrário, continuaremos pretendendo que já chegamos ao olimpo da ciência, enquanto, de fato, estamos afogados em produções de baixíssima qualidade. E como revisor de várias revistas brasileiras, eu ainda acrescento, com um português tão pobre quanto os resultados que são apresentados como sendo ciência.  E assim, acreditem em mim, Jeffrey Beall não é o nosso problema. Quando muito ele é, um mensageiro que precisa ser ouvido com mais cuidado. Simples assim!

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