Brasil é o primeiro país a reconhecer a “Guaidó de saias” autoproclamada na Bolivia

Expulso o presidente constitucional Evo Morales, a direita boliviana seguiu um script que já foi aplicado em outros países e tentado na Venezuela com o uso do deputado Juan Guaidó.  O enredo é sempre o mesmo: forças de direita começam um lento e gradual processo de questionamento de governantes eleitos por sistemas vigentes para mais à frente desembocar em um processo de crise institucional. Para isso contam com a ingerência de forças externas e com o uso de redes sociais que propagam “fake news”  aos borbotões com os quais a mídia corporativa finaliza o enredo da “crise institucional”.

Na Venezuela só não deu certo (até agora) porque Hugo Chavez promoveu uma profunda reestruturação na cadeia de comando das forças armadas daquele país, o que privou as oligarquias do braço armado com quem impõe a derrubada de governantes que nem sendo os esquerdistas que são feitos parecer. Até aqui na Venezuela, o deputado Juan Guaidó, que se proclamou presidente em praça pública, continua solto por absoluta conveniência para que Nicolás Maduro mantenha o sistema político em suas mãos.

Agora a fórmula “Guaidó” acaba de ser aplicada na Bolívia com a derrubada de Evo Morales e a autoproclamação da senadora de direita Jeanine Añez que aproveitou a falta de quórum de uma sessão do congresso para reclamar a faixa presidencial, a qual lhe foi prontamente entregue por oficiais militares (ver foto abaixo).

guaidó de saiasSenadora de direita Jeanine Añez recebe faixa presidencial após se auto-proclamar presidente de um militar fardado

O quadro que se forma na Bolívia é bastante complexo, na medida em que mesmo com Evo Morales fora do poder, o seu partido, o Movimento Al Socialismo (MAS), é majoritário no congresso, o que deverá criar graves dificuldades para que Añez possa se manter no cargo para o qual se autoproclamou. A questão é que todas as indicações é de que ela deverá ser sustentada no poder por uma vasta aliança que possui como principais garantidoras as forças policiais e militares que derrubaram Morales.

Quem não conseguiu ficar de fora desse imbróglio foi o ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, Ernesto Araújo, que tornou o Brasil o primeiro país a reconhecer a presidência autoproclamada de Jeanine Añez.  Esta ação intempestiva acaba removendo o Brasil de qualquer eventual diálogo para estabilizar a situação política boliviana, além de nos colocar como alvos preferenciais de potenciais refregas que possam ocorrer no país vizinho.

Há quem veja no que está ocorrendo na Bolívia uma espécie de laboratório para um eventual golpe militar no Brasil.  Ainda que nada possa ser negligenciado em uma conjuntura política tão complexa como a que atravessa a América do Sul neste momento, creio que o principal risco de contaminação é reverso, pois as fortes mobilizações que continuam ocorrendo em países como Chile, Equador e a própria Bolívia podem cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) chegar ao Brasil em função da magnitude da crise social que vivemos atualmente.

The New York Times revela que aliados de Juan Guaidó queimaram caminhões de “ajuda humanitária” em possível operação de falsa bandeira

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Incêndio que destruiu caminhões com “ajuda humanitária” inicialmente atribuída ao governo Maduro foi efetivamente iniciada por aliados de Juan Guaidó, diz The New York Times.

Imediatamente após a fracassada tentativa promovida pelo governo de Donald Trump de fazer entrar à força caminhões com suposta “ajuda humanitária” na Venezuela a partir de pontos fronteiriços com o Brasil e a Colômbia no dia 23 de fevereiro, órgãos da mídia alternativa divulgaram a informação de que aliados do autoproclamado presidente da Venezuela, o deputado Juan Guaidó, haviam causado o fogo que destruir parte da frota.

Essa narrativa, entretanto, foi desprezada pela maioria da mídia corporativa no Brasil e fora daqui em prol de uma versão que jogava a culpa nas forças armadas da Venezuela que até agora se mantém fieis ao presidente Nicolás Maduro. Com isso se reforçou a ideia de que Maduro era um tirano insensível ao drama em que está imersa a maioria da população venezuelana.

info venezuela

Infográfico mostrando onde se deram os conflitos que resultaram na queima de caminhões com material enviado pelo governo dos EUA.  Fonte: The New York Times

Pois bem, a versão alternativa dos fatos que culpava o governo Maduro foi abatida hoje por uma reportagem publicada pelo jornal estadunidense “The New York Times” e assinada pelos jornalistas Nicholas Casey, Christoph Koetl e Deborah Acosta onde fica indicado, a partir de vídeos produzidos no momento do incêndio, que foram os próprios aliados de Juan Guaidó que atearam fogo nos caminhões, no que se configura numa operação de “falsa bandeira”, muito usada por serviços de inteligência dos EUA para justificar ações militares contra governos controlados por desafetos (ver vídeo abaixo).

As revelações do “The New York Times”, ainda que tardias em relação à mídia alternativa, criam uma complicação a mais para os que defendiam o uso da força militar para remover Nicolás Maduro do poder para instalar Juan Guaidó como uma espécie de “garantidor” da democracia na Venezuela.

A questão que fica agora é sobre o destino do próprio Juan Guaidó que está se mostrando incapaz (pelo menos até agora) de entregar o que prometeu a seus aliados dentro e fora da Venezuela.  Essa demora de assumir o poder de fato na Venezuela certamente poderá custar caro ao jovem deputado.

Finalmente, fica a lição: em conflitos como o que está acontecendo na Venezuela, onde os interesses das potências mundiais estão em choque, as coisas nem sempre são o que parecem ser (ou que querem que nós acreditemos). 

O curioso caso venezuelano e um inquieante paralelo Brasil

VENEZUELA-CRISIS-DEFENSE-PADRINO

Ao contrário do esperado pelos adversários e por parte significativa da mídia corporativa, comandantes militares venezuelanos ratificam seu apoio ao regime chavista e a Nicolas Maduro.

Se uma liderança parlamentar de esquerda resolvesse repentinamente se proclamar presidente em exercício do Brasil por causa da aparente incompetência de um governo de extrema-direita, sabemos que muito provavelmente essa proclamação seria respondida com a prisão do proclamador.

Já na Venezuela, a autoproclamação de Juan Guaidó foi não só reconhecida rapidamente pelo governo de Donald Trump, mas também por um par de governos de direita na América Latina, numa velocidade que não deixa ocultar o grau de articulação que houve para que o lider da inoperante assembleia nacional resolvesse correr o risco que correu e continuará correndo, quaj seja, de ir parar na prisão.

Tenho acompanhado a cobertura internacional desde o ponto privilegiado em que estou no momento que é a cidade de Lisboa. Sem adentrar em muitos dos detalhes da cobertura que está sendo dada que difere de veículo para veículo, um aspecto é reforçado quase no tom de esperança. Esse aspecto seria a possibilidade dos níveis inferiores das forças armadas venezuelanos romperam a disciplina militar para apoiar Juan Guaidó. Em outras palavras, a mídia corporativa brasileira e mundial aposta na ruptura da estrutura da disciplina militar para viabilizar a derrubada de Maduro. Em outras palavras, a mídia corporativa reconhece a incapacidade política de Guaidó de acabar com o ciclo chavista na Venezuela, e aposta na anarquia militar.

Até agora essa esperança não está sendo acompanhada dos fatos como mostra o vídeo abaixo, pois os líderes militares venezuelanos parecem firmes na defesa de Nicolas Maduro e, consequentemente, contrários às pretensões de Juan Guaidó e seus apoiadores externos, a começar pelos governos de Donald Trump e Jair Bolsonaro.

 

Sem o apoio militar não há como alcançar a substituição de Maduro por Guaidó. Isso, contudo, amplifica ainda mais a dependência do presidente venezuelano de seus comandantes militares.  Esta dificuldade fica maior ainda quando se verifica que também todas as estruturas de estado da Venezuela (com exceção da assembleia nacional) apoiam a permanência de Nicolas Maduro no poder.

O curioso é que no Brasil está se vendo após meros 25 dias de governo o mesmo tipo de dependência em relação ao apoio das forças armadas por parte de Jair Bolsonaro.  Nesse sentido, para quem diz que não quer o Brasil sendo transformado em uma Venezuela, pelo menos neste aspecto estamos ficando bastante parecidos.  No que isso vai dar, ainda é difícil prognosticar. Mas certamente teremos um agravamento das tensões políticas que já não são desprezíveis.