Fila do osso em açougue de Cuiabá mostra que de pop, o agro só tem a propaganda

fila do ossoAçougue tem fila para doação de ossos em Cuiabá para famílias carentes

O estado do Mato Grosso é um dos líderes nacionais do latifúndio agro-exportador (i.e., também conhecido como agribusiness ou agronegócio) e os feitos dos seus grandes latifundiários capitaneados por Blairo Maggi são cantados em loas pela mídia corporativa nacional.

Mas é desse mesmo Mato Grosso que surgiu uma das cenas mais acachapantes do cenário político nacional nas últimas décadas: a fila do osso. Essa “fila do osso” nada mais é do que a distribuição de restos de carcaças de animais que não puderem ser aproveitadas (ainda) em algum tipo de canal de comercialização pelos pecuaristas mato-grossenses e torna explícita a grande dicotomia econômica e social que jaz solene sob os escombros que o agronegócio deixa para trás ao estabelecer sua hegemonia territorial (ver vídeo abaixo).

A contradição contida neste cenário socialmente devastador é flagrante. Enquanto o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, uma quantidade crescente dos brasileiros está sendo impedida de consumir essa fonte de proteina em função das políticas ultraneoliberais adotadas desde o golpe parlamentar que apeou a presidente Dilma Rousseff do poder em 2016.

Essa é uma prova eloquente que a devastação causada nos biomas florestais brasileiros, principalmente na Amazônia, para viabilizar o avanço da pecuária não possui qualquer conexão com a melhoria de vida da maioria dos brasileiros.  Assim, não bastasse a destruição ambiental, o latifúndio agro-exportador escancara as profundas diferenças de oportunidades que surgem no rastro de sua atuação.

E antes que eu me esqueça: o neoliberal bolsonarista adora mencionar as dificuldades vividas em países sob bloqueio dos EUA, Venezuela e Cuba, para indicar aos descontentes com o governo Bolsonaro que existem possibilidades piores do que a que estamos vivendo.  Depois da publicização da fila do osso em Cuiabá, é bem provável que a capital do latifúndio agro-exportador se torne o destino por eles a quem ousar criticar o “mito”.

Finalmente, a situação aqui abordada mostra que de pop o agro não tem nada. Tem sim muito agrotóxico, trabalho escravo e miséria.

Na antessala dos mega incêndios amazônicos de 2021

fogo amazonia 2021

O latifúndio agro-exportador (que se apresenta sob a fachada aparentemente menos maligna do “agronegócio”) já lançou todas as condições para que 2021 seja um ano em que mega incêndios ocorram em toda a Amazônia brasileira. As imagens de rolos de fumaça subindo aos céus deverão novamente percorrer o mundo, causando choque nos desavisados e atitudes de complacência dos governos que fingem se importar com o aquecimento da Terra e com todas as suas consequências desastrosas, especialmente para os segmentos mais pobres da população humana.

Mas os grandes incêndios que já começam a ocorrer precocemente na Pan Amazônia (sim, toda a bacia Amazônica está sob ataque neste momento) são apenas um sintoma de um processo azeitado de destruição dos ricos biomas amazônicos com o objetivo claro de abrir novas áreas para abastecer os mercados globais, a começar pelo voraz mercado chinês, passando pela União Europeia, e alcançando países que podem até consumir menos, mas consomem, os produtos que a devastação amazônica gera.

O problema é que junto com o desmatamento e os grandes incêndios há o problema da degradação florestal causada por estes dois outros processos. Como já demonstrado no artigo publicado na Science em setembro de 2020 por Eraldo Matricardi e colaboradores, a sinergia entre desmatamento, fogo e degradação está produzindo uma aceleração exponencial da perda de serviços ambientais estratégicos, a começar pelo fornecimento de água e também de chuvas. Com isso, os piores cenários gerados para o agravamento das mudanças climáticas com base na destruição da Amazônia serão provavelmente ultrapassados, e entraremos em um processo de piora significativa das condições ambientais não apenas na Amazônia, mas também em outros partes do Brasil, e de todo o planeta. 

E é importante que se diga que esse avanço da franja de destruição na Amazônia, apesar da fingida preocupação por parte de governos e grandes fundos de investimento de atuação global, são parte intrínseca de um modelo econômico que despreza o conhecimento científico existente sobre a centralidade de se preservar as florestas tropicais.  Na prática o que conta para os “players” que decidem os rumos da economia global é garantir seus lucros fabulosos, ainda que isso signifique que se está rifando a estabilidade ambiental da Terra.

Por essas e outras é que a proteção das florestas amazônicas não se dará sem que haja uma importante mobilização global, que mesmo sendo iniciada desde dentro, vai ter que ocorrer principalmente nos países que consomem as commodities agrícolas que substituem a biodiversidade ali existente.

Nesse sentido, que os grandes incêndios de 2021 possam servir pelo menos para gerar o processo politico que impedirá, por exemplo, que o acordo comercial da União Europeia com o Mercosul seja viabilizado.  É que os players da economia mundial só preocupam mesmo quando começam a perder dinheiro ou, pelo menos, a ganhar menos.

 Para os habitantes do centro sul do Brasil, uma quase certeza é que terão menos chuvas e mais fumaça em sua linha do horizonte nos próximos meses. Esse será o preço da devastação amazônica e da inação política em relação ao que está sendo feito por lá pelo latifúndio agro-exportador em troca de um punhado de dólares.

Agronegócio esquizofrênico: supersafras bilionárias e um povo faminto

O Ministério da Agricultura comemora a supersafra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos. E a fome cada vez mais ronda famílias brasileiras

fome-no-brasilA China compra 80% da soja produzida no Brasil. A maior parte vai para a produção de ração para bovinos, suinos e aves

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – O Ministério da Agricultura está exultante com a safra de mais de 272 milhões de toneladas de grãos anunciada esta semana. Isso porque o resultado recorde representa 15,4 milhões de toneladas a mais que na safra 2019/2020. Um feito e tanto em tempos de pandemia de covid-19, que esfriou a economia ao afetar negócios e empregos e levar o país a um tombo de 4,1% em seu PIB, que já estava encolhido. E mais grave ainda: empurrou milhões de brasileiros para situação de pobreza extrema e de fome.

O milho teve uma produção recorde, de 108 milhões de toneladas, e com isso deve superar em 5,4% a safra anterior, diz o Ministério. No caso da soja, segue a tendência de crescimento na área cultivada, e ainda pode crescer 4,1%, com 135,1 milhões de toneladas. Já o arroz e o feijão de cada dia, que são base da dieta dos brasileiros, não alcançam tais patamares. Foram apenas 3,3 milhões de toneladas de feijão e 11 milhões de toneladas de arroz.

“Salvação da lavoura”

Há anos a agropecuária é considerada a “salvação da lavoura” quando o assunto é produção, exportações e balança comercial. Beneficiado por subsídios, como descontos e isenção de ICMS e de imposto de importação, fora o perdão de PIS e Cofins, o setor se acha. Tanto puxa brasa para a sua sardinha que se autointitulou “pop, tech e tudo”. E com tudo isso, a fome aumenta no país das supersafras e volta a assombrar milhões de brasileiros. Como isso é possível?

Dois anos antes da pandemia, entre junho de 2017 e julho de 2018, mais de 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer conforme a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE. Desse total, perto de 8 milhões moravam na zona urbana e pouco mais de 2 milhões na zona rural, onde a rigor se produzem alimentos. 

fome
Entre 2017 e 2018, 10 milhões de pessoas já não tinham o que comer. Inação do governo na pandemia agravou a situação da fome no país. (Arquivo/Agência Brasil)

De acordo com a pesquisa, a insegurança alimentar grave – quando a pessoa relata passar fome – atingiu em cheio 4,6% das famílias brasileiras, o equivalente a 3,1 milhões de lares. E ainda segundo o IBGE, o quadro vem piorando. Aumentou 43,7% em cinco anos.  

Mais desigualdade

A tendência é que tenha se agravado com a pandemia, pois esta ao chegar já encontrou um Brasil marcado pelo aprofundamento da desigualdade social a partir do golpe de 2016. “Parte significativa dos trabalhadores está sem a proteção social do trabalho formal devido à crise estrutural do capitalismo”, destaca a socióloga Sirlândia Schappo. Professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sirlândia observa que essa crise de dimensões globais assola o país mais intensamente a partir de 2014. Em seu artigo “Fome e insegurança alimentar em tempos de pandemia da COVID-19“, ela assinala: “O reflexo imediato foi a ampliação do trabalho informal, que passou de 39,1% da população ocupada em 2014 para para 41,5% em 2018, segundo o IBGE”.

Ainda segundo Sirlânia, a pandemia pode ter ampliado em 56% a pobreza em países como o Brasil, como prevê a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Trabalhadores domésticos perderam o emprego. E, sem o apoio de políticas sociais, se viram diante da subnutrição e da falta de serviços básicos, como saneamento básico e saúde.

Plano safra

Logo que assumiu, o governo Bolsonaro apresentou um Plano Safra para 2019/2020 que já sinalizava as dificuldades que viriam pela frente. Dos R$ 225,59 bilhões destinados à agropecuária, o crédito rural ficou com R$ 222,74 bilhões. O problema é que desse montante, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) recebeu apenas R$ 31,22 bilhões. Como custear a produção e a comercialização?

“A partir de 2016, com o golpe e a Emenda 95, do teto de gastos, as políticas sociais e programas de transferência de renda foram sendo esvaziadas. Equipamentos de segurança alimentar, como banco de alimentos, foram fechados. Assim que tomou posse, Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) não foi extinto, mas tem orçamento ridículo, de R$ 500 milhões. Esse montante, aliás, resulta de muita pressão das organizações da agricultura familiar durante a pandemia. Mas mesmo assim, esse orçamento ainda insuficiente não foi totalmente executado”, disse à RBA a assessora de Direitos Humanos da Fian BrasilNayara Côrtes.

combate à fomePequenos agricultores têm sido atacados. Alternativa econômica de geração de trabalho e renda e combate à fome não está na agenda do governo de Bolsonaro (Itesp)

Mais golpes

Para piorar, Jair Bolsonaro escolheu a agricultura familiar como inimiga. Além de ter excluido esses trabalhadores do auxilio emergencial de R$ 600, vetou quase que integralmente o Projeto de Lei (PL) 735/20. Apresentado em abril e só aprovado em agosto, foi quase que integralmente vetado, pois, de 20 itens, 17 foram derrubados.

Entre os pontos vetados estão o auxílio emergencial no valor de R$ 600 pagos em cinco parcelas, como aos trabalhadores urbanos, recursos para compras públicas pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), renegociação e adiamento de dívidas e linhas de crédito emergenciais. Tudo o que era considerado essencial pelos agricultores. Até hoje é aguardada apreciação dos vetos, que depende de muita pressão para ser pautada.

Para Bolsonaro, não há previsão financeira para essas ações. No entanto, o governo concedeu benefícios ao agronegócio, facilitando o acesso a crédito e a financiamento de dívidas de grandes produtores e desoneração do segmento em contribuições à Seguridade Social.

Segundo levantamento da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e pelo Fórum Brasileiro pela Soberania e Segurança Alimentar (FBSSAN), em 2019 o rendimento total da agricultura familiar foi de aproximadamente R$ 27 milhões. O número de produtores de alimentos era 4,5 mil. Até setembro de 2020, os mesmos produtores venderam o equivalente a R$ 3,6 milhões.

Sem recursos para plantar

“Muitos não têm recursos para plantar e muitas vezes falta o que comer”, disse Nayara Côrtes. “Levamos anos para construir uma política de segurança alimentar para ser totalmente desconstruída em pouco tempo. E pensar que em 2014, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil saiu do Mapa Mundial da Fome para voltar 6 anos depois.”

O retrocesso é tão grande que há no Congresso a proposta de votação em regime de urgência de um projeto de interesse das indústrias. Trata-se do PL 3.292/2020, de autoria do deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO), que propõe mudar o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Entre as mudanças, abolir a compra de alimentos, da prioridade dada a comunidades tradicionais indígenas e de remanescentes de quilombos.

E a supersafra?

Conforme os autores do Atlas do Agronegócio – Fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos –, não é de hoje que o discurso do combate à fome é utilizado para alavancar o desenvolvimento tecnológico com fins prioritariamente comerciais. Assim, a aplicação de mais tecnologia na produção agrícola é difundida como a única solução capaz de eliminar a escassez de alimentos e a carência de nutrientes.

Na realidade, porém, as supersafras servem apenas para dar lucro, e não para matar a fome da população. Nessa perspectiva, toneladas e toneladas de soja, milho, cana e outras commodities têm como destino o mercado mais lucrativo no momento, seja a produção de alimentos, agrocombustíveis ou ração para bovinos, suínos e aves. Esta aliás, tem sido a principal aplicação da soja comprada pela China, que corresponde a 80% da produção brasileira. É preciso alimentar a fome dos novos padrões alimentares adotados pelos chineses; ninguém come tanta soja assim.

Ironicamente, esse sistema alimenta a fome e a subnutrição. E por outro lado, o crescimento da obesidade, transtornos alimentares diversos e doenças crônicas. “Da mesma forma, as desigualdades e as injustiças socioambientais também fazem parte das contradições desse modelo em que a comida aparece como mercadoria, e a fome como um negócio com segmentos diversificados, que vão da ausência ao excesso”, dizem os autores do Atlas.

Engordar lucros

O cultivo de soja ou outros grãos nos latifúndios que avançam sobre assentamentos e terras indígenas e de povos tradicionais, ou nas lavouras que invadem a Amazônia, assim como o gado, não vão matar a fome daqueles que ainda possa comprar comida no Brasil. E sim engordar o lucro de empresas de exportação e importação desses produtos. É o caso da Archer Daniels Midland, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus Company. E também das empresas de sementes transgênicas e agrotóxicos, como a Bayer, dona da Monsanto, a Basf, Dow e outras.

A saída, segundo especialistas, está em novas práticas que contribuam não apenas para a produção de alimentos e a soberania alimentar. Mas também com a produção sustentável de alimentos de verdade, livres de venenos, com a reconexão com a natureza, com respeito a quem produz e com a democratização do acesso ao direito à terra.

Terminal da Cargill Amsterdam, Holanda. Contraste com um mundo de fome (Alf van Beem/Wikimedia Commons)

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Este texto foi publicado originalmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Professora da USP destroça mito do uso seguro de agrotóxicos no Brasil

agrotoxicos

A professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo  Larissa Mies Bombardi é hoje uma das maiores conhecedoras dos problemas envolvendo o uso de venenos agrícolas nas grandes monculturas plantadas para exportação no Brasil.  Em função disso, ela vem sendo atacada por entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador (o chamado agrobusiness).

No vídeo abaixo ela fala de forma bastante esclarecedora sobre as graves consequências do uso descontrolado de venenos agrícolas em altas quantidades e sem qualquer fiscalização efetiva no cotidiano das áreas onde os mesmos são estudados.

Abaixo uma entrevista conduzida pelo jornalista Bob Fernandes onde a professora Larissa Bombardi discorre de forma esclarecedora sobre um dos maiores mitos criados para justificar o uso dos agrotóxicos na agricultura, qual seja, de que é possível fazer uso seguro dessas substâncias de forma segura.

A verdade inescapável que emerge dessa brilhante entrevista é de que estamos sendo envenenados em nome dos interesses econômicos dos grandes latifundiários brasileiros. E aqui, mais uma vez, é preciso defender a reputação científica da professora Larissa Bombardi que está sendo vilipendiada por causa de estudos rigorosos que ela vem conduzindo e que são de completo interesse público.

O negacionismo climático de Ricardo Salle serve a interesses explícitos

Ricardo-Salles-e-Tereza-Cristina

Ricardo Salles, mostrado ao lado da ministra Tereza Cristina em visita à área indígena onde ocorre cultivo ilegal de soja, associou Alemanha ao nazismo em reação a crítica de jornalista da Voz da Alemanha.

O ainda ministro (ou como diz o jornalista Bernardo Mello Franco, o antiministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vem repetindo uma afirmação que só pode decorrer de uma opção pelo desconhecimento ou, pior ainda, de cinismo frente ao conhecimento existente em relações às mudanças climáticas globais.  É que em uma de suas declarações sobre as mudanças climáticas, Ricardo Salles afirmou a seguinte pérola: ” o clima “deve ser tratado no âmbito da academia, pela … e o poder público, para ser eficienteprecisa “cuidar de problemas tangíveis“. 

O problema é que ao se posicionar de forma que claramente nega a importância das mudanças climáticas, o que Ricardo Salles está fazendo é propositalmente ignorar não apenas o que já estabelecido pela imensa maioria da comunidade científica que estuda o assunto, mas que os tais problemas tangíveis serão fortemente agravados com o estabelecimento de novos padrões climáticos que deverão ser marcados pela frequência de eventos atmosféricos de alta intensidade.  Um exemplo recente de como os mais pobres sofrerão efeitos desproporcionais das mudanças climáticas foi a passagem do ciclone Idai que devastou regiões inteiras de Moçambique, tendo causado centenas de mortes e a destruição de 500 mil hectares de plantações.

ciclone idai

Passagem do ciclone Idai causou forte destruição e grande número de perdas humanas na região central de Moçambique.

Mas a verdade é que para constatar problemas “tangíveis” associados aos novos padrões atmosféricos associados às mudanças climáticas Ricardo Salles não precisaria nem sair de Brasília. É que no dia de ontem (21/04), no dia do aniversário de Brasília, a região do Distrito Federal foi palco de uma tempestade que inundou rapidamente bairros após uma hora de duração. Entre as áreas mais afetadas está o campus da Universidade de Brasília (UNB) que fica bastante próximo da sede do Ministério do Meio Ambiente (ver vídeo abaixo mostrando a inundação de um auditório da UNB).

Assim, que ninguém se engane, o ainda ministro (ou antiministro) do Meio Ambiente não está dando de ombros para as evidências de que as mudanças climáticas são um fato real e que afetarão com mais dureza os mais pobres por falta de conhecimento ou de provas empíricas próximas de seus olhos. 

A questão é muito clara: Ricardo Salles nega a necessidade urgente do Brasil ter políticas que nos preparem para as inevitáveis catástrofes que se abaterão sobre o território nacional em função de novos padrões climáticos, os quais serão marcados por sua forte intensidade. Ricardo Salles opta por um discurso que, como eu já disse, oscila entre o desconhecimento e o cinismo, para garantir os interesses de quem o colocou em um cargo para o qual ele claramente não possui a devida capacitação.  E eu falo aqui das mineradoras e do latifúndio agro-exportador cujos líderes defendem abertamente a liquidação do sistema nacional de proteção ambiental, ainda que isto venha a ser obtido a um custo incalculável seja econômica ou socialmente. 

Como já escrevi várias vezes e já declarei em entrevista ao jornal português Diário de Notícias, estamos sob a égide de governantes  que são caracterizados por suas posturas acientíficas ou anticientíficas.  Mas é importante lembrar que o são assim por terem propósitos que vão de encontro à modelos de exploração econômica que não desprezam o conhecimento científico já estabelecido em torno das mudanças climáticas e seus efeitos. E sse é exatamente o caso de Ricardo Salles, o que torna a sua permanência no MMA um risco continuado ao meio ambiente e as instituições criadas para fazer o oposto do que deseja o ainda ministro do Meio Ambiente.

Agronegócio vive mar de agruras após ter apostado todas as suas fichas em Jair Bolsonaro

bolso agro

O agronegócio (leia-se latifúndio agroexportador) que apostou todas as suas fichas na candidatura de Jair Bolsonaro, agora se vê engolfado por um mar de agruras.

Os lideres do chamado agronegócio (na verdade o clássico latifúndio agro-exportador) optaram massivamente pela candidatua vencedora de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018, provavelmente na expectativa de ampliaram os seus ganhos fabulosos com a exportação de commodities agrícolas.

A realidade, entretanto, vem sendo muito diferente das expectativas. O fato é que desde o início do governo do presidente Bolsonaro o setor está sendo inundado por uma coleção interminável de más notícias.  Primeiro veio a má notícia de que a Arábia Saudita decidira suspender a compra de carne de frango vinda de cinco frigoríficos brasileiros, o que foi um golpe duro já que o país árabe é o maior importador brasileiro.

Poucos dias depois ocorreu a notificação feitas pela Rússia de que se não houver uma diminuição dos resíduos do herbicida Glifosato, um dos principais destinos da soja brasileira será fechado até que os níveis de contaminação baixem.

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Agora foi a vez da China recusar a habilitação de frigorificos brasileiros, frustrando as expectativas de grandes empresas do setor (por exemplo JBS, Marfrig e Minerva que esperavam uma notícia diferente após a visita de técnicos chineses a dez abatedouros de aves e bovinos.

china certificação

Para completar esse cenário desastroso, em sua visita recente aos EUA o presidente Jair Bolsonaro isentou produtores estadunidenses de tarifas na venda de trigo no Brasil, e  abriu  possibilidade de que isto seja também garantido à produção de suínos o que poderá representar uma concorrência dura para produtores brasileiros e argentinos.

Como o dito agronegócio é tudo menos pop, há que se ver como reagirão seus líderes dentro e fora do congresso nacional. Mas uma coisa, se essas notícias ruins não foram revertidas logo, o mais provável é que haja uma reação clara para mostrar descontentamento com os ruídos causados nas relações comerciais pela chamada agenda ideológica do governo Bolsonaro, a qual aliena alguns dos principais compradores das commodities brasileiras.

E pensar que este setor foi tratado a pão de ló durante os governos dos presidentes Lula e Dilma Rousseff. Talvez aí resida uma certa justila poética nas agruras que não param de ocorrer para os latifundiários brasileiros.

Reflexões do meu reencontro com o cacique Álvaro Tukano

Em um algum momento do meio da década de 1980 participei da organização de um encontro organizado pelo Centro Acadêmico de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre a questão indígena. Lá conheci o cacique Álvaro Tukano, um dos primeiros líderes do movimento indígena brasileiro, que aceitou o convite para falar da situação que os povos originários brasileiros enfrentavam naquele período final do regime militar de 1964.

Hoje,  mais de 30 anos depois daquele encontro, pude encontrar e conversar com o cacique Álvaro Tukano que veio participar de uma mesa redonda sobre a obra de Darcy Ribeiro que compôs a programação oficial dos 24 anos da Universidade Estadual do Norte Fluminense.

alvaro tukano apitao

Além das trocas de amabilidades que cercam encontros de pessoas que não se vêem por longos períodos de tempo, pudemos conversar rapidamente sobre a situação dos povos indígenas frente ao avassalador ataque que está sendo preparado contra suas terras pelo latifúndio agro-exportador e pelas empresas de mineração sob a batura do presidente “de facto” Michel Temer.  Ele me confidenciou que até nas terras onde seu povo vive ao longo do Rio Negro as ameaças proliferam contra a integridade das terras indígenas.

Depois de conversarmos, pude ouví-lo falar com a mesma oratória firme que me impressionou há mais de 30 anos sobre a importância de Darcy Ribeiro e de seus descendentes intelectuais na afirmação de uma sociedade mais justa para todos os brasileiros.  Além disso, Álvaro Tukano lembrou de outras lideranças indígenas que foram assassinadas ao longo do tempo e se transformaram em mártires da luta dos povos originários pelo direito de  permanecer em suas terras e defender a rica biodiversidade nelas existentes. Em especial ele refutou a noção disseminada pelos latifundiários de que os indígenas são invasores de terras, pois os povos indígenas já estavam aqui muitos antes da chegada dos conquistadores portugueses.

Essa visita de Álvaro Tukano, além de possibilitar o prazer do reencontro, também me lembra que preciso falar mais da situação dificílima em que se encontram os povos indígenas e os quilombolas sobre quem recai uma ofensiva durissíma neste momento. 

Floresta Amazônica é ameaçada por bancada ruralista no Brasil, alerta Libération

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Por RFI 

A edição desta sexta-feira (12) do jornal Libération traz uma matéria sobre o desmatamento da Floresta Amazônica, em prol das plantações de soja e da criação de gado. “No Brasil, a floresta paga o preço das mudanças políticas” diz a manchete.

Libération explica que, desde a destituição de Dilma Rousseff, os conservadores favoráveis ao lobby agroalimentar defendem uma legislação perigosa para a Amazônia. “Tratados com indiferença, os povos indígenas tentam barrar a catástrofe”, escreve o jornal.

Sobre o assunto, Libération entrevistou o pesquisador Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Segundo ele, “as forças políticas conservadoras se alinham para acabar com as proteções ambientais e sociais básicas”, o que expõe boa parte da floresta amazônica a danos gravíssimos.

De acordo com Fearnside, o desmatamento da Amazônia deu um grave salto em 2016: 29% em relação à 2015 – um número que compreende apenas o desflorestamento legal. O cientista alerta que, se as ações ilegais forem consideradas, o desmatamento no local destruiu uma superfície do tamanho da França em apenas um ano. Além das plantações de soja e da criação de gado, a construção de barragens hidrelétricas, de estradas e portos contribuem para a devastação.

Segundo o pesquisador do Inpa, o cenário só tende a piorar. “Há cada vez mais investimentos. Os projetos de infraestrutura em andamento encorajam a especulação sobre as terras. O valor delas sobe enormemente a cada vez que uma nova estrada é construída na região”, salienta Fearnside, em entrevista ao jornal Libération.

O diário destaca que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) confirma a tendência citada pelo cientista. De acordo com a instituição, o Brasil é o país que mais destruiu suas florestas no período entre 2010 e 2015. Cerca de 0,2% da área verde brasileira é destruída por ano, lembrando que o Brasil é o segundo país com o maior número de florestas, 12% da área verde do mundo, ficando atrás apenas da Rússia.

Conservadores no poder

Libération explica que não há mistério sobre esse aumento desenfreado do desmatamento: o aumento do preço da soja e da carne tornou mais rentável a exploração das terras. “Mas é sobretudo a chegada dos conservadores ao poder, há um ano, que custa caro para a a Amazônia”, salienta a matéria. Com a queda de Dilma Rousseff e a chegada ao poder de Michel Temer, o bloco ruralista, que representa os interesses do agrobusiness, ganhou espaço e controla atualmente 40% do Congresso.

“Sob pretexto de tornar a economia brasileira mais competitiva, os ruralistas estão fazendo passar um arsenal de leis e emendas na Constituição para minar as proteções ambientais e invadir as terras indígenas”, ressalta Libération. O texto mais recente aprovado pelo Congresso permite a abertura de mais de um milhão de hectares de florestas, até hoje protegidos, para a exploração.

Diante da situação calamitosa, dezenas de Ongs de proteção ao meio ambiente lançaram nesta semana o movimento “Resistir” para pressionar os governantes brasileiros. Mas, para ambientalistas, é preciso ir além e criar uma forte mobilização da população, já abatida por anos de crise política e econômica no Brasil.

FONTE: http://br.rfi.fr/brasil/20170512-floresta-amazonica-e-ameacada-por-bancada-ruralista-no-brasil-alerta-liberation