Denúncia importante: Agronegócio age para controlar produção de material didático e acabar com a liberdade de cátedra

material escolar

Não basta ser pop, o agro quer fazer a cabeça de estudantes e interferir nas escola 

Já faz algum tempo que se sabe que o latifúndo agro-exportador vem se organizando para interferir no material escolar dirigido às crianças e jovens brasileiros. A alegação é evitar a propagação de ideias negativas sobre as práticas desse setor que se esconde sob o rótulo de “agronegócio”. 

Não basta ser pop, o agro quer fazer a cabeça de estudantes e interferir nas escolas

Mas o vídeo abaixo, produzido pelo canal “Andanças Educativas” que é mantido pela professora Giuliana Mordente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro traça um cenário mais claro e preocupante das ações que estão sendo realizadas para maquiar a imagem do latifúndio agro-exportador.

Em 2025 um dos principais enfrentamentos políticos que deverão ser travados pela sociedade civil, pais e professores será impedir o avanço dessa corrente de desinformação.

O agro é tóxico, desmatador, e também doutrinador.

No boicote ao Carrefour, latifundiários mostram que carne vermelha vale muito mais do que o direito à vida dos negros brasileiros

carrefour morte

A última semana vem sendo marcada por um enfrentamento dos latifundiários exportadores de carne e a rede francesa Carrefour por conta de uma decisão de uma carta enviada pelo seu CEO, Alexandre Bompard à Federação Nacional dos Sindicatos dos Produtores Rurais (FNSEA), o maior sindicato de produtores rurais da França, onde ele declarou que “o Carrefour quer se unir ao setor agrícola e agora se compromete a não comercializar nenhuma carne do Mercosul””. 

Bastou essa declaração cujo efeito se restringe ao mercado francês para que os grandes frigoríficos brasileiros, liderados pelo latifundiário e dublê de ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, declarassem guerra ao Carrefour no Brasil, suspendendo a entrega de carnes situadas em território nacional. Na prática, esse gesto extremo causa danos limitados à rede francesa, mas pode criar embaraços sérios para os consumidores brasileiros já que com o desabastecimento deverá haver um aumento dos preços.

Agora o que me parece interessante lembrar é que não se viu nada parecido com isso quando seguranças do Carrefour mataram a pancadas João Alberto Silveira Freitas em uma das lojas da rede na cidade de Porto Alegre.  O detalhe é que João Alberto era um trabalhador negro que teve o azar de cair nas garras dos empregados de uma empresa de segurança terceirizada que prestava serviços ao Carrefour. 

Mas há que se lembrar que a rede Carrefour já se envolveu em inúmeros casos de violência contra pessoas negras no Brasil, sendo que o caso de João Alberto foi apenas o que teve um desfecho mais extremo. Entretanto, nem antes, nem depois da morte de João Alberto, não se viu qualquer reação dos fornecedores de carne às lojas da rede francesa no Brasil que, lembremos, também detém o controle do Atacadão e do Sam´s Club.

Moral da história: para o latifúndio agro-exportador brasileiro, liderado pelas empresas de carne, mais vale defender o naco de 0,5% que a França representa nas vendas internacionais de carne brasileira do que o direito à vida dos trabalhadores negros que se dirigem para comprar nas lojas do Carrefour.

Fabricantes transnacionais de agrotóxicos e latifundiários são os mais beneficiados com isenções de impostos

Produtora de embalagens e artífice de desastre ambiental em Maceió, Braskem lidera a lista, que conta com as principais trans dos venenos. Dados foram usados por Haddad para pedir debate sobre cortes no orçamento

isenções tóxicas

Latifundiários e empresas transnacionais do agronegócio são as principais beneficiadas pela isenção de impostos.Faixa em protesto contra os ruralistas no Rio de Janeiro denuncia relação entre agrotóxicos e o câncer. Créditos: Agência Brasil

Por 

As grandes empresas transnacionais dos agrotóxicos e os ruralistas são os principais beneficiados pela chamada Dirbi (sigla de  Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades de Natureza Tributária) política de benefícios fiscais que acumulou R$ 97,7 bilhões em isenções de impostos somente entre os meses de janeiro e agosto deste ano.

link para o acesso inédito ao trem da alegria das isenções foi divulgada na última quarta-feira (13) e serviu de base para o ministro Fernando Haddad (Fazenda) propor um debate sobre o ajuste fiscal. Entre outros, os dados mostram que a mídia liberal – que defende cortes na saúde, educação e limitação de reajustes do BPC e salário-mínimo – é uma das principais beneficiários da desoneração da Folha de Pagamento.

“Hoje nós demos a público pela 1ª vez na história os incentivos fiscais dados a cada empresa individualmente e aos setores, de uma forma agregada”, afirmou o ministro, ressaltando que é preciso “parar de defender interesses particulares”.

Trans dos venenos

Alvo da política de privatização à toque de caixa de Jair Bolsonaro (PL) – que não conseguiu concretizar a venda em 2022 – e artífice do afundamento do solo em Maceió (AL) por exploração de sal-gema, a Braskem está no topo da lista das maiores beneficiadas pela política de isenções.

Fabricante de resinas termoplásticas usadas na fabricação das embalagens de agrotóxicos, a Braskem deixou de pagar R$ 2,2 bilhões em impostos somente nos primeiros oito meses de 2024.

Em segundo lugar na lista está a Syngenta, que se reuniu 216 vezes com o primeiro escalão do governo Bolsonaro e foi uma das principais beneficiadas com a política que “passou a boiada” e liberou agrotóxicos em série pelo governo do ex-presidente. No total, a transnacional obteve R$ 1,7 bilhão em isenção de impostas.

Entre as seis primeiras colocadas, há ainda duas empresas aéreas, que ganharam benefícios principalmente durante a pandemia. Em terceiro lugar no geral, a Tam também obteve R$ 1,7 milhão em isenções no período. A Azul Linhas Aéreas está na quinta colocação, deixando de pagar R$ 1 milhão em impostos.

Na quarta colocação, está outra empresa do ramo agrícola. A Yara Brasil – da holding Yara International, controlada pelo governo norueguês – obteve benefícios na casa dos R$ 1,2 bi. 

Ainda na casa das isenções bilionárias, completa a lista a sul-coreana Samsung, com R$ 1 bi em isenções.

Veja a lista

Principais beneficiados

Apoiadores contumazes da tentativa de golpe perpetrada por Jair Bolsonaro em 2022, os ruralistas são os principais beneficiários da política de isenção de impostos, segundo dados divulgados pela Receita Federal.

Somente no setor de adubos e fertilizantes, o governo federal deixou de arrecadas R$ 14,9 bilhões entre janeiro e agosto desse ano com a política de isenções.

Em seguida, está a desoneração da folha de pagamento, com R$ 12,2 bilhões em taxas trabalhistas não recolhidas.

Na terceira colocação vêm os agrotóxicos – identificados como “defensivo agrícolas” – com R$ 10,7 bi em desonerações.

Criada por Bolsonaro em uma medida desesperada para angariar apoio eleitoral da classe artística, o Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) gerou R$ 9,6 bi em isenções fiscais.

Na lista de cifras bilionárias que deixaram de ir para os caixas públicos ainda estão o setor de aeronaves, exportação de carnes e importação de produtos farmacêuticos.

Confira


Fonte: Fórum

Tendência de preços baixos, altos custos de produção e incertezas climáticas são o calcanhar de Aquiles da soja

Os preços das commodities são invariavelmente afetados por ciclos de altas e baixas, o que implica em alto grau de incerteza para produtores que investem tudo o que tem nelas, especialmente durante ciclos virtuosos de preços altos.  O Brasil, como talvez nenhum outro país do Sul Global, está fortemente aferrado em sua dependência da produção e exportação de commodities agrícolas, especialmente a soja.

O problema dessa dependência aparece quando se instala um período de preços baixos, como o que está ocorrendo neste momento. Para piorar, a situação da economia global está causando uma forte elevação de custos, especialmente no preço de fertilizantes e agrotóxicos. 

Outra variável de complicação se relaciona ao clima, afetando pelo aquecimento da atmosfera da Terra e a ocorrência de ciclos imediatamente alternados de El Niño e La Ninã. Como isso, pioram acentuadamente as perspectivas de produção, na medida em que determinadas regiões serão afetadas por períodos de chuvas e secas extremas.

Pois bem, essa é exatamente a situação atual do Brasil. Com isso tudo, as perspectivas da economia brasileira não são exatamente animadoras e com tendência a piorar. É interessante notar que as pressões para que o governo federal abra as comportas dos subsídios baratos certamente vão aumentar, visto que tem muita gente que já está devendo a entrega de safras futuras e da compra antecipada de insumos agrícolas.

Observatório dos Agrotóxicos: Folha de São Paulo publica matéria confirmando que governo Lula segue ritmo de aprovações de Bolsonaro

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Com algum atraso e uma leve discrepância com o que foi apurado pelo Observatório dos Agrotóxicos do Blog do Pedlowski, o jornal Folha de São Paulo publicou hoje uma matéria assinada pela jornalista  Alexa Salomão que aponta para o ritmo relativamente alto de aprovações de agrotóxicos do governo Lula que se equivale ao que ocorreu durante o período de Jair Bolsonaro.

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Mas segundo a matéria da Folha de São Paulo, mais do que o número de agrotóxicos liberados (ver figura abaixo), o que marca até aqui o processo de aprovação de agrotóxicos pelo ministério da Agricultura comandado pelo ruralista Carlos Fávaro é a manutenção dos ditames do Decreto 10.833/2021 pelo meio do qual o governo Bolsonaro rebaixou gravamente os critérios de liberação destes venenos agrícolas.

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Alexão Salomão notou ainda em sua matéria algo que já vem sendo observado por mim que é a predominância de produtos genéricos ou formulações adaptadas com genéricos, muitos deles já banidos em outras partes do mundo por causa da sua alta toxicidade ambiental e para a saúde humana.

Nesse sentido, Salomão explicitou ainda a flagrante contradição resultante das novas definições de risco adotadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) durante o governo Bolsonaro. É que dos 232 agrotóxicos liberados em 2023 pelo governo Lula,  apenas cinco produtos  foram destacados com gradações diferentes dentro de “altamente tóxico” para saúde humana, enquanto que em relação ao meio ambiente apenas dois foram catalogados como”altamente perigoso”, e 47, “muito perigoso”. É preciso lembrar que se os mesmos princípios ativos fossem classificados de acordo com a legislação anterior,  tais números seriam muito mais altos.

O fato explicitado de forma objetiva por esta matéria é que o governo Lula, ao contrário do que havia sido prometido, está mantendo o nível de aprovações de agrotóxicos semelhante ao que foi praticado por Jair Bolsonaro e, pior, muito acima do que foi praticado nas gestões anteriores de Lula e e Dilma Rousseff. O pior é que estando o Pacote do Veneno em análise no Senado Federal, mantida a posição atual do governo Lula de tacitamente apoiar a entrada de mais agrotóxicos no já inflacionado mercado brasileiro, a chance é de que padrões ainda mais flexíveis sejam transformados em lei.

E tudo isso para quê? À primeira vista para favorecer o despejo de produtos indesejados na Europa e favorecer as demandas cada vez mais intensas pelo uso de agrotóxicos nas monoculturas de exportação como desejam os grandes latifundiários que controlam a produção de grãos no Brasil. Para o resto de nós, o que fica é o aumento exponencial dos riscos decorrentes da exposição direta ou indireta a estes potentes venenos agrícolas.

Greenpeace Brasil emite nota sobre a aprovação do “Marco Temporal” na Câmara dos Deputados

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Sobre a aprovação do PL 490 pela Câmara dos Deputados nesta terça-feira (30), que aprova a tese do Marco Temporal, o porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, Danicley de Aguiar afirma:

“A aprovação do PL 490 coroa os esforços da bancada ruralista para relativizar os direitos indígenas e forçar a abertura dos territórios tradicionais ao agronegócio e a outras atividades econômicas incapazes de conviver com a floresta; ignorando o desejo de reparação histórica aos povos originários expresso pela sociedade brasileira nos Artigos 231 e 232 da Constituição de 1988. Em pleno século 21, não podemos tolerar que um punhado de deputados comprometidos com o atraso siga trabalhando para reverter a vontade da maioria dos brasileiros. A bancada ruralista precisa entender que todo ataque aos direitos indígenas é um ataque contra a democracia.”

Ogronegócio: Marina Silva usa audiência para tirar a máscara de modernidade do latifúndio agro-exportador

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A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, prestou um grande serviço para o Brasil ao usar ao utilizar a expressão “ogronegócio” para explicar as recentes decisões anti-ambientais tomadas pelo congresso nacional sob impulso da chamada bancada ruralista, também conhecida como Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).  Ainda que não tenha não tenha cunhado o termo, ela nos brindou com o uso dessa definição perfeita do latifúndio agro-exportador em uma audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados no último dia 24/5.

Ainda que Marina Silva tenha tentado contemporarizar ao afirmar que só uma parte do latifúndio agro-exportador age como “ogronegócio”, a verdade é que raros são raros os exemplos de grandes produtores rurais que adotam práticas sustentáveis. A imensa maioria gosta mesmo é desmatamento e agrotóxicos em suas propriedades, onde frequentemente ainda se encontra a prática hedionda do trabalho escravo. Por isso, não há nada disso de “agro”, pois o negócio desse pessoal é mesmo o “ogronegócio”.

E ainda há que se enfatizar que o “ogronegócio”  não sobreviveria sem os polpudos subsídios governamentais que chegam todos os anos para alimentar uma pauta de exportação que acaba servindo como ração animal em outras partes do mundo. Produzir alimentos mesmo é com a agricultura familiar que nem uso os mesmos métdos, nem, tampouco, recebe os bilhões de reais em subsídios que são dados anualmente para o “ogronegócio” continuar sua forma desastrosa de agricultura.

A marcha dos agrotóxicos continua no governo Lula: com novo ato, o total de liberações em 2023 é de 126

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No seu discurso da vitória o presidente Lula fez uma série de declarações de impacto, mas uma na qual prestei particular atenção foi a de iniciar uma transformação na agricultura brasileira no sentido da adoção de um modelo agroecológico que não mais previligiasse a dependência em venenos agrícolas como o que ocorreu no governo de Jair Bolsonaro.Passados quase cinco meses de governo, não vejo nenhum movimento consequente para iniciar um debate em torno de um novo modelo agrícola e, pior, a manutenção da política de aprovações de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo. 

No dia de hoje, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) publicou um novo ato contendo a liberações de mais 23 agrotóxicos do tipo “produto técnico”, 22 deles produzidos por empresas chinesas. Com isso, o grande total já é de 126, o que somado aos venenos liberados no governo Bolsonaro chega a impressionantes 2.156 em apenas 53 meses segundo os dados acumulados no “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski.

Em meio à manutenção da política de liberar venenos agrícolas, ainda tivemos em mais de uma ocasião, declarações do ministro da Agricultura Carlos Fávaro dando declarações caluniosas contra o MST que hoje responde pela oferta de alimentos livres de agrotóxicos, a começar pelo arroz do qual o movimento é hoje o maior produtor brasileiro em áreas livres de agrotóxicos.

Como já disse em mais de uma ocasião, a questão dos agrotóxicos é uma espécie de biruta que mostra para que campo o governo Lula está se inclinando. E neste momento a inclinação não é para a agricultura familiar livre de agrotóxicos, mas sim para o latifúndio agro-exportador que depende de venenos agrícolas que estão envenenando nossos campos e cidades.

Os custos sociais e ambientais por trás do sucesso do agronegócio em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso

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A onipresença do agronegócio em Lucas do Rio Verde. Foto: Mídia NINJA

Por Maria Vitória de Moura I Mídia Ninja

Lucas do Rio Verde, cidade com quase 68 mil habitantes, em Mato Grosso, possui mais de dois terços da sua área total, aproximadamente 270 mil hectares, destinada para o cultivo de soja e milho em monocultura. Segundo levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção do agronegócio representa mais de um terço de tudo que é produzido pelo município, tendo um dos maiores Produto Interno Bruto (PIB) do setor do agronegócio do Brasil e de Mato Grosso.

O que é visto pelo governo do estado e do município como uma vitória, acarreta em consequências desastrosas para a população, principalmente em relação ao grande uso de agrotóxicos nas monoculturas que pouco se distanciam dos moradores. Ao passar pela BR-163, que corta o município, não demora muito para avistar imensidões quilométricas de soja e maquinários pulverizando agrotóxicos no solo e no ar. As estruturas mais amplas do agro também são visíveis ao se deparar com o grande comércio de maquinário e outras ferramentas utilizadas pelo setor já nas entradas da cidade.

Porém, o “coração da maior região produtora de grãos do país”, como os setores do agro intitulam Lucas do Rio Verde, também pode e deve ser visto pelo outro lado das estatísticas. Entre fevereiro e junho de 2010, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) coletou amostras de leite materno de 62 mulheres, 3 delas da zona rural. A presença de agrotóxicos foi detectada em todas as amostras. Entre os agrotóxicos encontrados havia substâncias proibidas há mais de 20 anos no Brasil. O DDE, proibido em 1998 por causar infertilidade masculina e abortos espontâneos, foi o mais encontrado. Em algumas amostras havia a presença de até seis agrotóxicos.

De um lado o agronegócio e do outro uma cidade refém dos agrotóxicos

A bióloga Danielly Palma, autora do estudo, afirma que a contaminação ocorre principalmente pela ingestão de alimentos contaminados, mas também por inalação e contato com a pele. No ano anterior à pesquisa, em 2009, mais de 5 milhões de litros de agrotóxicos foram utilizados no município. Dados de 2014, apurados pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, apontam que naquela ano foram consumidos 120 litros de agrotóxicos por habitante em Lucas do Rio Verde, demostrando o alto índice nacional de consumo e destacando a gravidade ampliada em cidades de Mato Grosso.

Além da contaminação dos alimentos, incluindo aqueles cultivados para além dos setores do agronegócio, a pulverização aérea de agrotóxicos acaba por contaminar o entorno e a cidade de Lucas do Rio Verde. As chamadas “chuvas” de agrotóxico, frequentes nas monoculturas da região, levam partículas de veneno para a água, o solo e o ar.

Em março de 2006, a população do município observou que névoas de agrotóxicos oriundas de pulverizações aéreas danificaram hortaliças e plantas nas ruas e quintais da cidade. Com isso, o Sindicato de Trabalhadores Rurais e o Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFMT), em conjunto com a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE-MT), se juntaram na avaliação do risco ocupacional e ambiental das pulverizações, a fim de buscar medidas de mitigação, prevenção e controle.

O caso ficou conhecido como “acidente rural ampliado”, quando as consequências da chamada agricultura moderna ultrapassa seu local e foco, passando a atingir agressivamente a população, o meio ambiente local e a saúde coletiva. Com o estudo, destacou-se que as medidas de mitigação a curto prazo eram em grande medida ineficazes, era preciso um movimento social em massa para garantir mudanças extremas no método de cultivo em Lucas do Rio Verde.

Um dos maiores desafios encontrados foi justamente o orgulho do estado e do município em ocupar dentro do agronegócio não apenas um setor de referência, mas também de aparente prosperidade. Uma das maiores provas dessa barreira é o financiamento de pesquisas, pela própria prefeitura, batendo de frente com os dados de alerta de pesquisadores que estudam os malefícios do agro no município.

Durante sete anos, entre 2007 e 2014, pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) monitoraram Lucas do Rio Verde como estudo de caso para as consequências da utilização de agrotóxicos.

Os pesquisadores registraram pulverizações de agrotóxicos por avião e trator realizadas a menos de 10 metros de fontes de água potável, córregos, criação de animais e de residências, desrespeitando legislação estadual sobre pulverização aérea e terrestre. Foi verificada ainda a contaminação de resíduos de vários tipos de agrotóxicos em 83% dos 12 poços de água potável da cidade, incluindo em escolas. Amostras da água da chuva também alertaram para contaminação de 56%.

Em oposição aos dados científicos de duas grandes organizações brasileiras, a UFMT e a Fiocruz, a prefeitura de Lucas do Rio Verde encomendou aos laboratórios Ecolabor e Tasqa do Estado de São Paulo e Analítica de Cuiabá (MT) a análise da água no município. A pesquisa encomendada atestou a segurança da água e a prefeitura se vangloriou em seus meios de comunicação: “[as pesquisas] comprovam mais uma vez a qualidade da água consumida pela população de Lucas do Rio Verde”.

O coração do agronegócio está claramente doente. Mato Grosso, estado referência na produção de grãos não apenas em Lucas do Rio Verde, mas também em outras regiões igualmente afetadas pelas consequências do agro, sustenta um modelo que enriquece, mas concentra. Que produz, mas não alimenta. Lucas do Rio Verde é a imagem perfeita desse adoecimento.


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 Este texto foi inicialmente publicado pela “Mídia Ninja” [Aqui!].

Com agricultura viciada em venenos agrícolas, o brasileiro é envenenado todos os dias via a ingestão de água e alimentos

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Venho acompanhando a problemática dos agrotóxicos há pelo menos duas décadas e o quadro está cada vez mais preocupante. Além de já termos evidências científicas acumuladas mostrando que os resíduos de agrotóxicos já estavam presentes nos solos e recursos hídricos, agora estão aparecendo cada vez mais estudos apontando a presença dessas substâncias no sangue e urina não apenas de quem trabalha diretamente com elas, mas também em quem os ingere via água e alimentos.

Uma dificuldade que agora passa a ser superada é a relação do aumento dos resíduos de agrotóxicos (sozinhos ou combinados) no corpo humano. E o que está surgindo é algo que deveria já ter ser tornado um problema crítico de saúde humana, visto que vários estudos já estão relacionando a incidência de doenças graves com o consumo de água e alimentos contaminados com resíduos de agrotóxicos. E quando se fala de doenças graves, estou falando não apenas de múltiplos tipos de câncer, mas também de doenças neurológicas e do sistema glandular.

No caso do Brasil a lentidão de tomada de posição por parte das autoridades sanitárias é agravada pelo modelo econômico que se tornou cada vez mais dependente da renda gerada pela agricultura de exportação, como é o caso da soja.  Essa dependência é agravada pelo poder político dos setores que se beneficiam do modelo agrícola, sejam eles latifundiários ou grandes corporações multinacionais que estão ligadas à  exportação ao longo da cadeia de produção e de comercialização.

Como já disse de forma repetida, a questão dos agrotóxicos se tornou uma espécie de pedra angular no debate sobre o modelo de desenvolvimento econômico que se propõe para o Brasil.  É que sem haver uma virada no modelo agrícola, o que teremos é cada vez mais a aplicação de venenos agrícolas banidos em outras partes do mundo por serem extremamente danosos à saúde humana e ao meio ambiente.

O problema é que mais uma vez temos um governo central que é prisioneiro da lógica que não se pode mexer com o poder dos latifundiários por causa da dependência que está criada com o modelo agrícola que eles representam.  Com isso, o debate sobre as características desse modelo, que vive às custas não apenas do dinheiro doado pelo Estado via generosos subsídios entregues na forma de créditos agrícolas que nunca são pagos, mas também do adoecimento geral da população, terá que vir de dentro da própria população e dos setores mais organizados de dentro dela.

Uma boa oportunidade para se fazer o devido enfrentamento contra esse modelo agrícola viciado em agrotóxicos é a luta contra a aprovação do Pacote do Veneno que se encontra neste momento em debate no Senado Federal. E como ele deve ser aprovado, essa batalha terá que continuar como parte de um poderoso movimento social, que pode ser iniciado com uma campanha imediata contra o uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo. Do contrário, o envenenamento diário cobrará um preço muito caro de todos nós.