Leandro Narloch e sua insensibilidade climática

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Por Cláudio Angelo*

Leandro Narloch mandou mal.

O guru do pensamento politicamente incorreto virou best-seller desmontando “mitos” sobre história, política e comportamento. É bonitinho. Às vezes acerta ou, no mínimo, provoca as pessoas a questionar verdades estabelecidas pouco apoiadas em evidências. Só que às vezes ele mesmo se afasta das evidências para forçar um argumento ou dez. E aí dá ruim. Sua última coluna no site da Folha é um exemplo: uma diatribe antiambientalista que escorrega em fatos e produz – para sermos politicamente corretos – um samba do afrodescendente com problemas psiquiátricos.

Narloch tenta argumentar que ambientalistas são obcecados com o Apocalipse, mas que esse Apocalipse nunca chega, mas que mesmo assim eles continuam insistindo no Apocalipse porque isso vende livro e dá dinheiro para ONGs.

Nada de novo aqui. Frequentemente o ambientalismo é criticado por fazer previsões catastrofistas que não se realizam, mas frequentemente elas não se realizam precisamente por mudanças de comportamento induzidas pelos ambientalistas. Doh. É evidente que ambientalistas exageram e cometem equívocos de vez em quando: trata-se, afinal, de um empreendimento humano. Destacá-los por isso, porém, é preconceito. E visões pré-concebidas costumam estar erradas; Narloch deveria saber disso melhor do que ninguém.

Um exemplo: o colunista critica Rachel Carson, a fundadora do ambientalismo moderno, por ter “apostado” em seu livro Silent Spring (1962) que o DDT e os pesticidas provocariam “extinção de pelicanos na costa Oeste americana”. Na real, não há nenhuma menção a pelicanos no livro de Carson, que tampouco faz qualquer “aposta” – apenas colige dados científicos da época. Mas o banimento do DDT, que ocorreu cinco anos depois de sua publicação, possivelmente permitiu o retorno de pelicanos que estavam quase extintos na Louisiana, na costa Leste.

Especificamente, Narloch cita três fins do mundo que não chegaram: o armageddon das abelhas, que teria sido revertido; a seca no Sudeste, que teria acabado mesmo sem ninguém reflorestar a Amazônia; e o aquecimento global, que não seria tão grave assim.

Sobre este último, diz o nosso politicamente incorreto guru:

“E um novo estudo, publicado em janeiro pela “Nature”, revisou para baixo a sensibilidade climática (a variação do clima de acordo com a variação da emissão de carbono e outros fatores). Segundo os pesquisadores da Universidade de Exeter e do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, se a concentração de CO2 na atmosfera dobrar, o planeta vai esquentar no máximo 2,8°C, e não 4,5°C, como o IPCC previa.”

Há um erro conceitual crasso nessa conclusão. Demanda uma explicação longa, mas não vá embora.

O estudo citado tem como primeiro autor Peter Cox, hoje na Universidade de Exeter. Cox ficou famoso no começo do século por formular a hipótese de que a Amazônia sofreria mortandade em massa num cenário de aquecimento global descontrolado. Não é exatamente um cético do clima.

Como Narloch aponta, o artigo de Cox trata de um valor chamado “sensibilidade climática em equilíbrio”. É uma estimativa de quanto o planeta aqueceria caso o nível de COna atmosfera duplicasse instantaneamente. É um componente fundamental dos modelos computacionais de clima.

A sensibilidade climática foi estimada pela primeira vez em 1896 pelo sueco Svante Arrhenius (aquele mesmo, dos ácidos e das bases). Ele previu um aumento de 5oC a 6oC com o CO2 duplicado na atmosfera. Em 1975, o primeiro modelo de clima em computador chegou a um número bem menor: 2,4oC.

Por uma série de problemas que têm a ver com, por exemplo, a representação de nuvens e aerossóis, os modelos têm dificuldade em “resolver” esse parâmetro, e os números têm patinado há 40 anos entre 2oC e 5oC, mais ou menos. Cada um dos cerca de 20 modelos globais usados hoje em dia pelo IPCC, o painel do clima da ONU, tem uma estimativa diferente de sensibilidade climática. Alguns “enxergam” a Terra mais resiliente ao aumento dos gases-estufa; outros, mais sensível. Na soma de todos os resultados, o IPCC considerou, em seu relatório mais recente, o AR5, que a sensibilidade climática em equilíbrio varia entre 1,5oC e 4,5oC, com uma melhor estimativa de 3,2oC.

Cox e seus colegas – e, de resto, todos os modeleiros de clima do mundo – vêm tentando reduzir essa incerteza. Seu trabalho de janeiro aponta um caminho diferente para fazer a estimativa, e dá como resultado uma faixa de 2,2oC a 3,4oC, com uma melhor estimativa de 2,8oC. Descarta as pontas extremas da faixa de possibilidades do AR5. No entanto, sua melhor estimativa é muito parecida com os 2,9oC publicados pelo IPCC em seu quarto relatório, de 2007, para uma concentração de CO2 na atmosfera de 550 partes por milhão (o dobro da máxima pré-industrial).

“Isso não quer dizer nunca que o planeta vai esquentar menos ou que está esquentando menos agora. As medidas mostram que os modelos estão acertando razoavelmente as previsões dos últimos cem anos”, diz Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, membro do IPCC. Se você quiser saber quão bem os modelos vêm prevendo as temperaturas, assista a este vídeo sensacional do Skeptical Science.

O problema é que Narloch confunde sensibilidade climática com projeção de aquecimento. E, como diz Zeca Pagodinho, é igual, mas é diferente.

A projeção de aumento de temperatura depende de quanto CO2 lançarmos na atmosfera nas próximas décadas – pode ser menos ou mais do que o dobro do que havia antes da era industrial. O IPCC traça quatro cenários de aumento de temperatura em seu último relatório: no melhor, o chamado RCP 2.6, o aumento médio no fim do século em relação à média observada entre 1986 e 2005 será de 1oC; no pior, o chamado RCP 8.5, o aumento médio é de 3,7oC em relação à mesma média. Elevações maiores que 6oC são consideradas muito improváveis, mas não foram descartadas.

Portanto, não, o IPCC não “previu” um aquecimento global de 4,5oC que foi repentinamente desmentido por um único paper.

Eu também acho uma merda o IPCC ser tão confuso em relatórios que são chamados de “Sumários para Formuladores de Políticas Públicas” (e que portanto deveriam ser compreensíveis para qualquer cidadão com segundo grau completo). E eu também já confundi sensibilidade climática com projeção de aquecimento dezenas de vezes, e de maneiras vergonhosas. Mas a vida é dura mesmo: se Leandro Narloch quiser fazer disso um cavalo de batalha contra o ambientalismo, vai precisar estudar mais.

*Claudio Angelo é autor de A Espiral da Morte – como a humanidade alterou a máquina do clima (Companhia das Letras, 2016), vencedor do Prêmio Jabuti 2017 na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

FONTE: http://scienceblogs.com.br/curupira/2018/04/insensibilidade-climatica/

E agora, Narloch? Reportagem do Le Monde diz que o tempero preferido dos brasileiros são os agrotóxicos

“O tempero preferido dos brasileiros são os pesticidas”, diz Le Monde

Reportagem do jornal Le Monde edição de 30/10/2015.

Reportagem do jornal Le Monde edição de 30/10/2015. Reprodução
Por RFI

O posto de maior consumidor mundial de produtos químicos na agricultura conquistado pelo Brasil é destaque na edição do jornal francês Le Monde que chegou às bancas na tarde desta quinta-feira (29). A reportagem do jornal visitou uma das poucas fazendas de produtos orgânicos do país, em São Paulo, para denunciar que apenas 1% das propriedades rurais se dedicam a este tipo de plantação “mais limpa”.

 A Fazenda Santa Adelaide, a cerca de 100 km da capital paulista, segundo o Le Monde, é uma gota orgânica em um oceano de plantações regadas a pesticidas e transgênicos. O jornal destaca estatísticas recentes que apontam que 31% das frutas e legumes comercializadas no Estado de São Paulo estão contaminados por pesticidas, chegando a 90% do caso dos pimentões. Já nas lavouras industriais de soja – um dos motores do crescimento do PIB na última década – 94,2% das sementes são do tipo transgênico.

“Mas o Brasil, que optou pela agricultura intensiva e autorizou os transgênicos em 2003, parece estar se dando conta aos poucos dos malefícios dessa escolha”, diz a repórter Claire Gatinois. “Na época, a cultura dos transgênicos e dos pesticidas era vista como o futuro”, explica ao jornal Cassio Trovato, funcionário do Ministério do Desenvolvimento Agrário, em Brasília.

Apesar dos números alarmantes de produtos químicos, “as autoridades não fazem nada ou fazem muito pouco”, segundo o jornal, que destaca o fato de que nenhuma multa foi aplicada desde 2002. O Monde também cita entrevista do engenheiro agrônomo Marco Antonio Moraes à Folha de S. Paulo em que ele diz que “a repressão não dá resultados e é aleatória, é quase uma ficção”. Segundo o jornal francês, dizer que “o tempero preferido dos brasileiros são os pesticidas” vidou uma piada comum no país.

Rainha do Agrobusiness

Outra fonte ouvida pelo jornal francês é Josiana Aripol, da ONG Ética da Terra, que avalia que “os brasileiros estão se envenenando” e para quem a progressão dos casos de câncer está ligada ao uso desmoderado de pesticidas. A aposta na agricultura industrial ao longo dos últimos 15 anos elevou o Brasil ao posto de maior importador e maior consumidor de pesticidas do mundo.

Segundo o Le Monde, a postura do governo brasileiro diante desse problema de saúde pública é “esquizofrênica”. “Em Brasília cohabitam uma ministra da Agricultura, Katia Abreu, chamada de ‘Rainha do Agrobusiness’, e um ministro do desenvolvimento agrário ligado aos pequenos produtores”.

Mas nem tudo são trevas: o jornal francês destaca a política que obriga escolas públicas e universidades a utilizar 30% de alimentos da agricultura familiar em suas cantinas. “O Brasil é a fazenda do mundo, com clima e terra extremamente propícios para a cultura. Nós devemos nos tornar o maior produtor de alimentos saudáveis do planeta”, afirma ao jornal o especialista em pesticidas Cleber Folgado.

Leandro Narloch e a (re) produção do mito do uso seguro de agrotóxicos

agrotóxicos

O jornalista (neo) con e blogueiro da Veja, Leandro Narloch, possui um blog onde se titula um “caçador de mitos” e disseminador de “uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia”. Pois bem, na postagem, Narloch, o autodenominado “caçador de mitos” faz uma tentativa (bisonha diria eu) de refutar o perigo que os agrotóxicos representam para a população brasileira (Aqui!) .

Um leitor mais leigo que ler o subtítulo da postagem de Narloch já vai ser levado a uma falsa compreensão da realidade. É que as amplas evidências dos problemas causados por agrotóxicos sobre os sistemas naturais e a saúde humana não são mero jogo estatístico divulgado por “ONGs e ativistas”. Na verdade, em que pese alguns números divulgados de forma mais solta, os problemas associados ao uso intensivo de agrotóxicos já possuem uma ampla literatura científica, que torna iinevitável até para a indústria produtora de venenos agrícolas ter de reconhecer os efeitos colaterais dos agrotóxicos.

Narloch também nos oferece uma visão simplista do processo de contaminação de alimentos por agrotóxicos ao omitir informações cruciais para que se entenda como se dá a assimilação sistêmica de determinadas substâncias, os herbicidas, até o processo de contaminação “cruzada” que é causada pelo fenômeno da deriva de agrotóxicos, processo esse que implica que mesmo culturas que não foram alvo do uso de agrotóxicos também podem ser contaminadas.

O “caçador de mitos” também nos priva de uma análise mais acabada do que acontece aos agrotóxicos após serem lançados no ambiente. É que ao repercutir de forma acrítica a informação dada pelo  agrônomo Alfredo José Barreto Luiz, da Embrapa Meio Ambiente de que um “prazo  é calculado para que as substâncias químicas ativas dos agrotóxicos já tenham se transformado em outras (pela ação da temperatura, luz, umidade etc.), restando em quantidade tão reduzida e diluída que não oferece mais perigo”, Narloch omitiu a informação crucial de que a maioria das substâncias químicas ativas que compõe os agrotóxicos normalmente geram subprodutos, os quais podem ser ainda mais tóxicos para o ambiente e seres vivos.  Aliás, para não errar dessa forma,  o jornalista (neo) con deveria apenas se lembrar da máxima cunhada em 1777 por Lavoisier de que “na natureza nada se cria, tudo se transforma”.  

Outro fato importante que foi omitido na postagem de Leandro Narloch é que o Brasil hoje é um paraíso de substâncias que foram banidas em outras partes do mundo, principalmente na Europa, por causarem graves danos ambientais e a saúde humana. Assim, ainda que o uso por hectares possa ser aqui maior ou menor do que em outras partes do mundo (uma informação que precisa ser constantemente checada porque há um paulatino abandono dos agrotóxicos por determinados países enquanto aumenta no Brasil), o fato é que aqui estamos consumindo legal e ilegalmente produtos que foram banidos em outras partes do mundo, incluindo a China. Aliás, eu e outras colegas da Universidade Estadual do Norte Fluminense mostramos isso num artigo publicado na revista científica Crop Protection em 2012 (Aqui!).

Para coroar sua suposta tentativa de desconstruir o mito de que estamos sendo envenenados por agrotóxicos por meio do consumo de alimentos contaminados, nos fornece a sugestão de que podemos almoçar tranquilos já que não ingerimos “5 litros de agrotóxicos por ano”. Além dessa sugestão ser uma simplificação do uso do quantidade como elemento demonstrativo do problema que é o uso excessivo de agrotóxicos no Brasil, a mesma esconde o fato de que análises feitas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) vem consistentemente documentando a presença de resíduos de agrotóxicos em vários alimentos fartamente consumidos pelos brasileiros.  Em outras palavras, não há nenhuma razão objetiva para “almoçarmos tranquilos”. Aliás, a situação é, ou deveria ser, de extrema preocupação já que os efeitos documentados do contato prolongadaos com agrotóxicos incluem câncer, autismo, doenças no sistema nervoso, e por ai vai.

Finalmente, há que se frisar que ao nos oferecer uma visão rósea do problema ao sugerir que há algo parecido com o consumo seguro de agrotóxicos, visto que não há. Ao fazer isto, o (des) construtor de mitos nada mais faz do que propagar o mito de que há um uso seguro para esse grupo de substâncias. A verdade é que não há, e qualquer coisa que sinalize o contrário, não passa de mito. Mito esse, frise-se, cuja manutenção interessa apenas à indústria química e ao latifúndio agroexportador. Simples assim!