O sonso: um novo tipo social no cenário político?

*Por Luciane Soares 

Neste último ano, militando pelo direito dos servidores públicos do Rio de Janeiro, tenho me deparado com um tipo social que passo a descrever neste texto. Como pesquisadora, tenho recolhido rico material para pensar os tipos “exóticos” que aparecem na cena política nacional. Muito tem se falado do recrudescimento do fascismo no posicionamento de parte da sociedade civil que foi ás ruas vestida de verde e amarelo protestar contra corrupção.

Embora não se ouçam mais panelas, há um ativismo intenso nas redes sociais. Ataques de ódio como o sofrido pela filósofa Judith Butler no ano passado, em sua vinda ao Brasil, tornam-se a tônica das manifestações públicas de grupos minoritários. Sim, afirmo que estes grupos (que se orientam por certo espectro de direita, sem dominar um léxico propriamente liberal), não possuem solidez para além do uso das redes sociais e de pontuais intervenções de ódio tendo como foco pautas de gênero, orientação sexual e partidária (neste caso o ódio ao Partido dos Trabalhadores aparece como um elemento que unifica atores sociais muito distintos entre si). A descrição destes grupos e de suas manifestações foi foco de vários textos ao longo do ano passado. Não são o meu principal objeto aqui, embora dedique à eles um parágrafo.

Foi Theodor Adorno um dois mais criativos pensadores a ocupar-se de tipos semelhantes aos que têm desfilado nas ruas e mídias brasileiras dos anos recentes. No Pós-Guerra, Adorno dedicou-se a compreender como pessoas vivendo dentro de um sistema pretensamente democrático, demonstravam predisposição a aceitar autoridade ao mesmo tempo em que exibiam traços individualistas e independentes. Esta personalidade dominada por um “fascismo potencial” era reconhecível pelo ódio expresso em relação ao outro. Fosse ele um exilado ou qualquer tipo que ameaçasse uma certa forma instituída de repetição da vida. O “mais do mesmo” que no cotidiano produz a sensação de integração tão fundamental à perpetuação desta sociedade tal qual a encontramos ao nascer. Encontramos este “fascismo potencial” na defesa de candidatos cujo único capital agregador utilizado é a exibição constante de discursos de ódio. Cuja única forma de comunicação é o clamor pelo emprego da violência (e da tortura) como resolução para o Brasil. O fato é que a produção de ajustamento à forma como nos inserimos no capitalismo não pode se dar sem um grau de adesão mais ou menos explicito ao potencial fascista. A questão é como nos posicionamos neste cenário.

A impotência diante deste sistema torna-se terreno fértil ao tipo de comportamento pesquisado por Adorno. Há uma cena no filme Concorrência Desleal de Ettore Scola que nos ajuda na compreensão do conceito. Acompanhamos o cotidiano de uma família de comerciantes católicos na Itália de 1938. Em determinada cena, vemos apenas um par de botas pretas, ricamente lustradas ocuparem lugar na sala. O filho havia se integrado ao fascismo e exibia orgulhoso seu novo posto e como desdobramento, sua nova identidade. E o fazia de forma arrogante e intimidadora. Agora, não mais “um qualquer”, faria parte do exército capaz de dotar sua fraca personalidade de um brilho novo e aterrador. Este personagem representa um tipo bastante comum de cidadão ativo nas redes sociais e nas ruas.

Há algumas semanas tenho observado mais de perto um fenômeno que se não é novo, ganha cores mais vivas após os desdobramentos do golpe em curso no Brasil que culminaram com impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016. A velocidade da retirada de direitos em curso no país e a resposta coletiva à estes ataques nos apresenta um novo ator político: o sonso. Mas em que ele difere do potencialmente fascista descrito por Adorno? A resposta não é fácil e este é um exercício reflexivo. Mas tentarei apresentar os primeiros contornos deixando ao leitor, espaços abertos. Opto por este termo “sonso” para dialogar com uma percepção popular muito empregada nas interações. Existem expressões que são em si, qualificações insuperáveis e que não podem ser substituídas sem prejuízo para o leitor. São ricas em acúmulo de experiência compartilhada. Quem não sabe do que tratamos quando dizemos que “fulana é sonsa”, “lá vem o sonso “, expressões que remetem à alguém que dissimula suas verdadeiras intenções.

Um dos traços mais visíveis do que chamarei de “o sonso político” é sua recusa a tomar posição sobre ideologias. Busca desqualificar todos aqueles que se apresentam assim, como equivocados ou radicais. O humanismo do sonso político é abstrato o suficiente para aliar-se em campanhas de defesa dos animais desde que elas não esbarrem na crítica a indústria de cosméticos. Também demonstra sérios problemas com a história, operando com uma seletividade que freqüentemente omite a participação de seu grupo político em tomadas de decisões. Podem ser greves (as quais não adere) ou eleições, em seu discurso “tudo é a mesma coisa e nada faz diferença”. Assim ele exibe um certo prazer com a imutabilidade dos grupos que ocupam o poder político e culpa uma entidade etérea, “o povo” por todas as mazelas sociais. Ou ao contrário, atrela a ação coletiva a algum ganho concreto para seu grupo, fazendo passar por decisão da maioria o que foi acordado entre cinco ou seis honoráveis “camaradas”.

O sonso político é um animal profundamente ecológico. Temendo qualquer tipo de confronto, emite suas opiniões de forma vaga e sempre pelo caminho da conciliação. Mas se estiver em maioria, em uma mesa de bar, pode tornar-se exuberante em opiniões que exaltam a meritocracia e é claro, sempre que possível, sua própria biografia ou a de seu partido ou familiares. Acredita que seu maior trunfo quando em um espaço de ação política é conciliar. Não sendo a coragem uma de suas virtudes, o sonso político pode facilmente desmentir o dito, votar contra o defendido, acusar o oponente de autoritário.

O sonso político, assim como todo sonso que nós conhecemos é um mestre. Ao parecer um matuto desinformado nos leva a crer que poderá ouvir nossos argumentos. É enganoso pensar que isto ocorre porque ele não tem uma posição ou que é apenas um indeciso. Nada disto Ao contrário do potencial fascista que berra, explode, ofende, o sonso tem voz calma, as vezes, até débil. Preza por demonstrações de afeto em relação a qualquer um que exiba poder e não trata com desprezo os que considera menores. Sabe que sua capacidade de circular em qualquer espaço, faz dele um tipo agradável.

Quando ocupa o lugar de orador o sonso expressa toda a largueza de sua personalidade escorregadia. Declara seu amor ao bem comum, sua abertura ao diálogo e sua disposição a reavaliar erros cometidos. É aplaudido de pé como estadista brilhante. Como político ideal. O sonso político não encaminha nenhuma luta além daquele que favorece seu cargo ou seu bolso. Uma vez que iguala as duas coisas, esta distinção não tem grande importância.

O problema de nossas organizações no mundo real ou virtual, dos sindicatos aos partidos, não é o tipo conservador, o reacionário, o fascista … tampouco os chamados “radicais de esquerda”. De forma silenciosa, estrategicamente posta em nosso cotidiano departamental, de militância ou mesmo de lazer, está o sonso. Um tipo impermeável à qualquer clamor por republicanismo. Um tipo orgulhoso, não de sua ignorância, mas da percepção de que sua multiplicação (um exército de sonsos) está no horizonte político de forma decisiva.

 
 *Luciane Soares da Silva é Ribeiro e presidente da ADUENF. Tem estudado racismo, favela e cultura urbana. Temas de seu interesse e sobre os quais desenvolve pesquisas.
FONTE: http://revistavirus.com.br/o-sonso-um-novo-tipo-social-no-cenario-politico/

Brasil 247 publica carta da presidente da Aduenf em defesa das universidades públicas

Uma carta em defesa de nossas universidades públicas

Por Luciane Soares*

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A cada dia somos brindados com manchetes sobre os custos de nossas Universidades. Argumentos de que ” o custeio do ensino superior público é insustentável” ocupam cada vez mais espaços em versões locais ou nacionais. Neste caso, a secretária-executiva do MEC, Maria Guimarães de Castro emitiu nota sobre o crescimento da folha de pagamento das Universidades após o REUNI alegando que “o grande problema é a folha que cresce enquanto os recursos para custeio diminuem”.

O ataque sofrido pela Educação, Ciência e Tecnologia no Brasil tem no Rio de Janeiro um de seus laboratórios mais avançados. Mas em todas as oportunidades de ouvir pesquisadores e professores das Universidades Estaduais de Minas, do Paraná, Sergipe, Rio Grande do Norte ou São Paulo, foi possível entender o que está em curso: a destruição destas Universidades e das possibilidades de ampliação do acesso ao ensino superior público no país.

E como este ataque impacta a vida dos estudantes? Vejamos minha biografia como filha de trabalhadores gaúchos: ingressei na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1993. Realizei meu doutorado em sociologia urbana entre 2005 e 2009 na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estudei relações entre tráfico, polícia, economia local e ordem urbana nas favelas cariocas. Toda a minha trajetória acadêmica é marcada pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Como olhar o que este governo tenta fazer com a ciência e a tecnologia? Como pensar o caminho das novas gerações quando o Brasil devia avançar? Como aceitar que temos diante de nós uma crise e não uma escolha? Na caso do Rio, os servidores da secretaria de Ciência e Tecnologia e Desenvolvimento Social seguem sem receber os salários de agosto e o décimo terceiro de 2016.

Diante dos atrasos salariais e da ausência de recursos para pesquisa e financiamento básico para segurança e limpeza, instituições como UERJ, UENF, UEZO sofrem os feitos de precarização das relações de trabalho. Isto porque em diferentes momentos é sugerido que professores e técnicos trabalhem seus salários afim de manter as Universidades funcionando.

Entre as várias falácias vinculadas pelas mídias locais e nacionais, uma é especialmente danosa à educação pública, gratuita e socialmente referenciada: a de que esta greve tem como resultado a evasão de alunos.

Alerto a sociedade e especialmente a todos aqueles que vêem na educação pública uma possibilidade concreta de formação profissional e de transformação social, que o discurso do Ministério da Educação não é técnico nem transparente, não apresenta os custos reais das Universidades diante do que elas significam na produção de ciência, na formação de alunos em cidades do interior do Brasil, nos programas de extensão, na manutenção de seus hospitais Universitários. O que as tentativas de impor medidas de austeridade mascaram são as outras escolhas feitas pelos governos atuais: a privatização de empresas como a CEDAE no Rio de Janeiro, o investimento em formas de segurança que servem para atacar a população, a prática da não isonomia que mantêm em dia altos salários para o Judiciário mas deixa os aposentados sem a mínima dignidade para comprar seus remédios. O que estes Governos não explicam é o não cumprimento das leis orçamentárias que asseguram a manutenção de nossas condições básicas de pesquisa.

O Rio foi o primeiro a aderir ao pacote de recuperação fiscal em janeiro. Em fevereiro, aprovou a venda da Cedae e em maio o aumento da contribuição previdenciária do servidor de 11% para 14%. Os protestos em frente a ALERJ foram resolvidos com o uso de força policial especial, balas de borracha e gás lacrimogêneo contra trabalhadores que exigiam seus direitos. Em junho, Temer assinou o decreto de recuperação. Mesmo assim, os salários e o 13º não foram regularizados. e chegamos a outubro acumulando dívidas diante de uma Secretaria de Fazenda que repetidas vezes afirma ser a decisão do pagamento uma “decisão de governo”.

Ou seja, deixemos claro: o (des) governo Pezão escolhe quais categorias pagar, optando por manter em dia o salário dos policiais, professores ativos ligados a Secretaria de Educação, Judiciário e outras categorias que vão mudando conforme o mês. Além de parcelar o pagamento, o governo opta por pagar servidores em determinadas faixas, deixando os demais sem salário. A cada mês acompanhamos as manchetes ” Pezão não garante salário em dia de agosto para todos os servidores”, “Pezão promete pagar salários de servidores na semana” produzindo verdadeiro pânico em milhares de famílias de servidores.

Por fim o MUSPE (Movimento Unificado dos Servidores Públicos Estaduais) teve um aparecimento meteórico na cena pública fluminense. Protagonizou atos com fechamento da avenida Primeiro de Março com mais de 40 categorias de servidores presentes, levando bandeiras e reivindicações. Irradiou uma possibilidade de pressão sobre o governo Pezão. Não só professores, mas policiais, trabalhadores da CEDAE, técnicos da saúde, analistas de distintos setores estiveram juntos ao longo dos meses de 2016 lutando pela dignidade do funcionalismo público. Compareci a todos os atos sob sol forte, inclusive ao ato de Defesa da Cedae. O governo optou por negociar saídas por categoria.

Deixando aposentados, inativos e Universidades (além de outras categorias) largados a própria sorte. O crime contra os aposentados chama atenção. Nos atos realizados na Secretaria de Fazenda, os aposentados têm composto conosco. São fundamentais na mobilização pela defesa de nossos salários e dignidade das condições de trabalho. Após 20, 30 anos de trabalho, alguns tiveram de abandonar a própria casa. E o MUSPE tem se calado diante deste cenário optando pela entrega de cestas básicas e a entrada da disputa eleitoral de 2018.

Que todos compreendam a importância de defender as Universidades e que este ataque tem no Rio um laboratório que se expandirá para outros Estados.

Nossa Universidade tem 24 anos de existência, fica em uma das cidades mais desiguais do Rio de Janeiro. E como diria Darcy Ribeiro, um dos criadores da UENF, a resignação não está entre as opções.

Não vamos nos resignar diante deste governo. Nossas Universidades seguem vivas e combatentes.

*Luciane Soares  é Doutora em sociologia pela UFRJ, professora da Universidade Darcy Ribeiro e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Exclusão e da Violência. Luciane Soares é também presidente da Associação de Docentes da UENF (ADUENF).

FONTE: https://www.brasil247.com/pt/colunistas/geral/324434/Uma-carta-em-defesa-de-nossas-universidades-públicas.htm

NOTÍCIAS DA ADUENF: Presidente da ADUENF convoca professores da UENF para que participem da greve geral

megafone

Com base em decisão de assembleia, a diretoria da ADUENF está atuando para garantir que todas as atividades docentes sejam suspensas por conta da greve geral do dia 28/04 contra as reformas anti-populares do governo de Michel Temer.

Abaixo postamos pronunciamento da presidente da ADUENF, Profa. Luciane Soares, que conclama a todos os associados que se engajem nas atividades que ocorrerão na cidade de Campos dos Goytacazes no dia da greve geral.

FONTE: http://aduenf.blogspot.com.br/2017/04/presidente-da-aduenf-convoca.html

A Uenf resiste! Já o governador….

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Por Luciane Soares*

Ao ler o texto de Elio Gaspari publicado esta semana sobre a ruína do governador Luiz Fernando Pezão, remexi algumas lembranças sobre os anos recentes como professora desta Universidade. Cheguei a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em junho 2010, sem conhecer Campos dos Goytacazes. Tinha apenas o registro principal de que a cidade guardava um passado opulento, economicamente calcado no trabalho escravo em usinas espalhadas por seu território (o maior em extensão de terra do Rio de Janeiro). Minha chegada coincidia com a intensificação das obras no Porto do Açu e toda a região experimentava uma excitação quanto a possibilidade de empregar-se ou participar da roda viva, estampada pela grande mídia e do culto à personalidade em torno do “grande empresário do Brasil”, hoje preso em Bangu 9, Eike Batista. Minha primeira saída de campo ocorreu em uma tarde de sexta, na praça São Salvador. A prefeita Rosinha Garotinho havia liberado a passagem de ônibus durante as horas em que o ato em defesa dos royalties. Mesmo assim, encontramos apenas funcionários comissionados em uma praça vazia. A população não atendera ao chamado e não atenderia mais tarde, às ameaças de que o fim do governo representaria o fim dos programas sociais e demais benefícios vinculados à prefeitura. Sua gestão foi rechaçada em primeiro turno no ano de 2016.

Neste cenário, as representações sobre a Uenf eram bastante ambivalentes. Para boa parte dos entrevistados campistas acima de 40 anos, ela representava uma espécie de “elefante branco”. Passei meus dois primeiros anos de Uenf pesquisando as representações sobre qualificação nas cidades da região. Estas pessoas guardavam vivas as memórias da chegada de Darcy Ribeiro ao local onde hoje está construído o campus Leonel Brizola, tinham a memória dos professores estrangeiros que chegaram para construir a Universidade do Terceiro Milênio. Para a geração entre 13 e 30 anos, a Uenf representava uma das principais possibilidades de mobilidade social ascendente e qualificação na região norte fluminense.Representava uma alteração estrutural de seu status na região. Muitos conheciam ou tinham parentes que haviam passado pela Universidade. Outros estavam inseridos em programas de extensão na modalidade Universidade Aberta, que amplia a interação com a comunidade por meio de bolsas para realização dos inúmeros projetos ligados a Pró Reitoria de Extensão.

Desde então tenho formado dezenas de pesquisadores na graduação e pós graduação e participado ativamente dos atos de resistência desta jovem Universidade, classificada entre as melhores do país. Ao realizar o tripé ensino, pesquisa e extensão a Uenf contribui decisivamente para o desenvolvimento da região- mas não apenas por promover a qualificação para o mercado de trabalho. Realizamos em 11 de março uma feira de Ciências com o envolvimento de todos os cursos. Ao unir cursos como administração pública, ciências sociais, pedagogia, biologia, física,agronomia, medicina veterinária entre outros, demonstramos a importância de construir um conhecimento que guarde também um potencial crítico. No meio da maior crise de nossa história abrimos o campus à comunidade e mostramos como são feitas nossas pesquisas, além dos inúmeros e interessantes projetos de extensão. O resultado? Encantamento. Brindamos escolas e sociedade local com um dia inteiro de experimentos, música, oficinas. Sem um centavo do governo Pezão.

Pois bem, é este potencial que os últimos governos têm atacado decisivamente ao deixar as Universidades Estaduais sem verbas de custeio e no último mês, sem salários. No quadro atual, técnicos administrativos precisam de ajuda financeira para fechar o mês, professores usam seus próprios vencimentos para tocar pesquisas que dependem de continuidade e recursos. Passamos a negociar semanalmente as condições de funcionamento da Universidade. Para manutenção de água, luz e serviços básicos. Este governo, que não possui mais a menor legitimidade para manter-se no poder, ataca particularmente instituições como a Uenf, Uerj, Faetec, Cecierj. Não há crise, e é preciso que toda população fluminense saiba disto. O desmonte da Uenf é um projeto. Considero que somos um exemplo concreto de ocupação. Estamos ocupando uma Universidade para que ela permaneça viva. Até que este governo caia.

Ao acompanhar os jornais nos deparamos com a farra feita por Sérgio Cabral e sua corte. Jóias, casas nababescas, tudo realizado enquanto íamos incansáveis tardes à Alerj em busca de condições dignas para realizar o que fazemos com excelência: manter vivo o papel desempenhado pelas Universidades Públicas em um país desigual como o Brasil. E seguiremos lutando até a ruína definitiva deste governo, inimigo da educação pública, gratuita e de qualidade.

* Luciane Soares da Silva, gaúcha de Porto Alegre, alvinegra de coração, colorada por tradição. Negra, bisneta de alemães, neta de sambista estivador. Professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e presidente da ADUENF. Tem estudado racismo, favela e cultura urbana. Temas de seu interesse e sobre os quais desenvolve pesquisas.

FONTE: http://revistavirus.com.br/a-uenf-resiste-ja-o-governador/

Antropóloga e advogado rebatem fala de Pezão

pezao luciane rodrigo

Ao comentar a detenção de três adolescentes por um crime cometido por apenas dois – o assassinato do médico Jaime Gold –, o governador Pezão afirmou: “Ali não tem nenhum inocente”. O Favela 247 recebeu artigos da antropóloga Luciane Soares e do advogado Rodrigo Mondego questionando sua fala. “Seguindo essa lógica, é o mesmo que acharmos certo ele ser preso pela Operação Lava a Jato, pois mesmo não sendo comprovada sua participação nos crimes em questão, ele é político, foi citado por delatores e já foi passível de outros processos. Ninguém deve responder por algo que não fez”, argumentou Mondego

Favela 247 – A resposta do Estado ao trágico assassinato do médico cardilogista e ciclista Jaime Gold, no dia 20 do mês passado, foi a detenção de três adolescentes por um crime cometido por apenas dois. Kiko Nogueira, em artigo intituladoO suspeito de matar o médico no Rio era ‘bucha’? Providenciemos outro“, escreveu: “Pouco mais de uma semana depois, a Delegacia de Homicídios, DH, apanhou mais um menor e avisou que encerrava o caso. Já? Não demorou para surgirem os buracos na “investigação”: o depoimento da única testemunha, um frentista, não batia, o apelido de um dos suspeitos era outro, a “confissão” não existiu. O homem que testemunhou a ocorrência diz ter avistado um branco e um negro. Os dois detidos são negros”.

Na tarde de hoje, o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, deu a seguinte declaração em resposta à repercussão negativa das prisões: “Ali não tem nenhum inocente. Todos três viviam em função de assaltos, não só no entorno da Lagoa”. O governador disse que falhas desse tipo, por parte da polícia, são inadmissíveis, mas afirmou que é preciso reconhecer que a polícia está agindo. “O importante é que a polícia está prendendo. Quem teme está se entregando, e a gente está agindo. Foi um crime à noite, e pode ter havido um engano. Mas tem três pessoas presas que assaltavam na Lagoa, e assaltavam em outros lugares”, enfatizou.

As declarações do governador causaram “espécie” em defensores dos Direitos Humanos, e o Favela 247 recebeu artigos da antropóloga Luciane Soares e do advogado Rodrigo Mondego rebatendo as falas de Pezão. Segundo Luciane: “A resposta do governador em relação à morte na Lagoa é desastrosa por várias razões. Em primeiro lugar, os três casos relatados indicam no mínimo, abuso de autoridade por parte de polícia. Em segundo, criminaliza a juventude pobre e negra (esta que mora no Complexo do Alemão, como o menino Eduardo de Jesus, esta que mora no Lins, como o menino Patrick). Em terceiro lugar, reproduz uma lógica inquisitorial, que abre mão de qualquer tipo de investigação e conclui que “apenas olhando já sabemos que é culpado”. Ou seja, o governador retrocede a 1893 e saúda Césare Lombroso e sua ideia de ‘homem delinquente’. Envergonha com este ato, os próprios órgãos de segurança que têm participado de especializações e formação universitária, com o intento de alterar paradigmas ultrapassados sobre violência e crime”.

Já Mondego argumenta: “O governador do Rio ao afirmar que nenhum dos três adolescentes presos é inocente, mesmo sabendo que apenas dois participaram da trágica morte do médico Jaime Gold, reproduz o que é pior do punitivismo. Ao dizer que um menor é passível de punição, mesmo não tendo participado do assassinato, o governador divide o mundo entre os puníveis e os impuníveis”.

Leia abaixo aos artigos na íntegra:

A gente tem que discutir o quê governador?

Por *Luciane Soares

Um laudo emitido por peritos da Polícia Civil do Rio de Janeiro, indicou que os tiros que vitimaram Eduardo de Jesus, morto aos 10 anos no Complexo do Alemão, partiram de um fuzil. O governador Luiz Antonio Pezão admitiu que a polícia “errou” e lamentou a morte. Concretamente, os policiais envolvidos no caso estão em licença médica e seus depoimentos ainda não foram colhidos. Serão responsabilizados pela ação?

Casos de não punição pela morte de civis são comuns nas policias brasileiras.  Alguns dias atrás, Lucas Custódio de 16 anos, morador da favela Sucupira, no Grajaú, foi executado por policais militares. Teria implorado para um dos policiais “não precisa me matar, senhor”. Estava desarmado, foi algemado, levado para um matagal e executado. Outros moradores, incluindo mulheres e crianças, foram ameaçados. Nos últimos dias, ocorreram duas ações truculentas da Polícia Militar, no despejo de moradores da favela do Metrô e da Vila Autódromo. Imagens de pessoas feridas, crianças e jornalistas indicam uma intensificação do confronto entre sociedade civil e policiais na cidade do Rio de Janeiro.

A resposta do governador em relação à morte na Lagoa é desastrosa por várias razões. Em primeiro lugar, os três casos relatados indicam no mínimo, abuso de autoridade por parte de polícia. Em segundo, criminaliza a juventude pobre e negra (esta que mora no Complexo do Alemão, como o menino Eduardo de Jesus, esta que mora no Lins, como o menino Patrick). Em terceiro lugar, reproduz uma lógica inquisitorial, que abre mão de qualquer tipo de investigação e conclui que “apenas olhando já sabemos que é culpado”. Ou seja, o governador retrocede a 1893 e saúda Césare Lombroso e sua ideia de “homem delinquente”. Envergonha com este ato, os próprios órgãos de segurança que têm participado de especializações e formação universitária, com o intento de alterar paradigmas ultrapassados sobre violência e crime.

Ou seja, o governador assume com este discurso o que está evidente: uma crise gravíssima nas condições de provimento da segurança, uma crise não resolvida com a instalação de mais Unidades de Polícia Pacificadora. Envergonha a todo cidadão que mesmo temendo viver em uma cidade violenta, tem certeza de que a diminuição da maioridade penal não resolverá o problema da criminalidade urbana.

Pezão fala como chefe de carceragem da época do bandido Lúcio Flávio, “A polícia está prendendo. Quem teme está se entregando, e a gente está agindo”. Uma sequência assustadora de frases infelizes, até mesmo para seus eleitores, que já devem estar cientes do engodo em que foram pegos.

Pezão envergonha o estado do Rio de Janeiro ao demonstrar tanta ignorância diante do quadro complexo da segurança pública. Quadro este que seus subordinados dentro das policias civil e militar conhecem muito bem.

Governador, é o  Estado que está cada vez mais violento, não os adolescentes. Estes estão neste momento correndo as avenidas movimentadas para entregar água, pizza, flores; nos caixas de farmácias, supermercados, padarias. Subindo a Rocinha em motos, rindo nas praças com roupas de escola, andando nos shoppings atrás de seus presentes para o dia 12. Não faça destes, mais uma vez, bodes expiatórios de problemas sociais. Impossíveis de resolver com a prisão.

Não governador, não existem gangues no Brasil e suas afirmações não passam de vergonhosa especulação. Pedimos o fim da morte de jovens negros pela polícia. E acima de tudo, que nosso representante máximo, no uso de suas atribuições, não se comporte de forma tão descuidada, tão irresponsável. Afinal, usar frases de efeito não tem como resultado a resolução mágica dos conflitos urbanos.

Pezão e a sanha punitivista

Por **Rodrigo Mondego

O governador do Rio ao afirmar que nenhum dos três adolescentes presos é inocente, mesmo sabendo que apenas dois participaram da trágica morte do médico Jaime Gold, reproduz o que é pior do punitivismo. Ao dizer que um menor é passível de punição, mesmo não tendo participado do assassinato, o governador divide o mundo entre os puníveis e os impuníveis.

Seguindo essa lógica, é o mesmo que acharmos certo ele ser preso pela Operação Lava a Jato, pois mesmo não sendo comprovada sua participação nos crimes em questão, ele é político, foi citado por delatores e já foi passível de outros processos. Ninguém deve responder por algo que não fez. Além de injusto, não contribui em nada na resolução dos problemas da segurança pública.

Pezão incentiva uma sanha punitivista que cega qualquer racionalidade. Que um dia voltemos a enxergar, para que enfim possamos caminhar para uma sociedade mais justa, segura e fraterna.


*Luciane Soares
é professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul,  doutora em sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, e atualmente é pesquisadora associada ao Núcleo de Estudos da Exclusão e da Violência (NEEV).

**Rodrigo Mondego é advogado militante dos Direitos Humanos e membro do Coletivo de Advogados – RJ.

FONTE: http://www.brasil247.com/pt/247/favela247/183630/Antrop%C3%B3loga-e-advogado-rebatem-fala-de-Pez%C3%A3o.htm