Um pequeno resumo de 65 reportagens (Apenas uma parte do total) sobre a situação política entre os dias 01.03 e 16.03 de 2016.
Obs.: A nossa pesquisa utilizou 65 reportagens aleatórias entre os dias 01.03 e 16.03 e não utilizamos todos os ‘Lulas’ dessas reportagens. Mas para quem quiser fazer uma pesquisa utilizando total real: somente nos canais de notícias da TV Globo e Globo News há mais de 150 reportagens disponíveis deste período. Há ainda o material dos outros meios Band, Band News, Record, Record News, SBT e canais satélites com a mesma frequência de destaque. Há também as diversas rádios de notícias 24 horas AM e FM.
Quem for de matemática, sugerimos calcular a frequência de ‘Lulas’ por minuto em qualquer canal. Na Globo News ao meio-dia por exemplo (Aos 48 segundos deste vídeo) registramos 23 Lulas em 7 minutos (Está no vídeo, no relógio no canto direito), e não contamos as outras formas de citação como ‘Ex-presidente’ e ‘Ele’.
Quanto mais eu leio, mais eu descubro sobre a ampla rede de grampos que foi estabelecida sob ordens diretas do juiz federal Sérgio Moro em colaboração direta com setores da Polícia Federal e, sim, também com as concessionárias privadas de serviços de telefonia.
Além de figuras fáceis como Dilma Rousseff e Lula, agora vão emergindo evidências que foram grampeados ministros, lideranças partidárias, advogados e, pasmemos todos, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
E aí eu pergunto: vai ficar assim mesmo? Ninguém do Conselho Nacional de Justiça e do STF vai tomar providências? O Brasil virou mesmo o reino da arapongagem?
Falando em arapongagem, o que será que anda acontecendo no âmbito da Agência Brasileira de Informação (ABIN), antigo Serviço Nacional de Informações (SNI)? O que será que os nosso espiões oficiais tem a dizer sobre isso tudo? Uma coisa eu já fui informado: a ABIN passou por um incompreensível processo de precarização. E o resultado é esse que ai é está.
Enquanto as manifestações toleradas pelo PSDB e outros partidos da direita fazem vítimas com a violência descontrolada contra quem ousa vestir roupas na cor vermelha, a Rede Globo utilizou nesta quinta-feira (17/03) praticamente todo o espaço do chamado “Jornal Nacional” para apresentar novas e velhas gravações telefônicas envolvendo o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.
Essa operação de destruição de caráter já beira o que se chama em inglês de “overkill” que é quando, por exemplo, alguém exagera no número de tiros dados contra outra pessoa ou um animal.
Uma leitura rápida dessa tentativa de assassinato de caráter em horário nobre é simplesmente a vontade dos donos da Rede Globo de apressar a queda do governo Dilma. Mas como para isso é preciso dobrar Lula e o que ele representa para milhões de brasileiros pobres, a opção então é usar à exaustão as gravações entregues a eles pelo juiz-justiceiro Sérgio Moro.
Eu já que outro motivo, talvez o mais essencial, é que os donos da Rede Globo temem ao extremo o poder de Lula em mobilizar os mais pobres. Ainda que desde que no governo federal Lula tenha adotado o estilo “Lulinha paz e amor”, há sempre o temor de que ele use o seu poder de convencimento para mostrar ao Brasil o que Leonel Brizola mostrou já em 1982 e pelos anos que viveu depois de governar o Rio de Janeiro pela primeira vez.
Estou falando do caráter intrinsecamente antipopular da Rede Globo. Em outras palavras, o que os donos da Rede Globo sentem em relação à Lula é aquele tipo de medo que Regina Duarte dizia ter em 2002. Medo, muito medo!
Algum tempo atrás publiquei aqui nesse blog uma análise de que as elites estavam se arriscando a exagerar na mão em seus ataques a Lula, dando-lhe um poder ainda maior para futuras escolhas de candidatos, ainda que momentaneamente neutralizado. E me arrisco a dizer que o tamanho do “overkill” que foi cometido hoje pela Rede Globo já assegura que Lula será um eterno e doloroso espinho na garganta da família Marinho.
Os ânimos estão bastante exaltados entre os que querem a saída e os que querem a permanência da presidente Dilma Rousseff no cargo de presidente do Brasil. Como já explicitei aqui várias vezes, não apoio o governo de coalizão que ela comanda há quase 6 anos. Acho-o tecnicamente fraco e antipopular.
Esse preâmbulo, desnecessário para quem me conhece melhor e se dá o trabalho de ouvir o que venha dizendo e escrevendo nos últimos 14 anos, é necessário neste momento em que a manipulação da mídia corporativa tende a obscurecer o fato de que a realidade não é tão preto e branca como se pinta.
Agora, vamos ao que interessa. Toda a celeuma que corre o Brasil neste momento decorre da liberação “via expressa” de conversas grampeadas, algumas ilegalmente, entre o ex-presidente Lula (e hoje ministro da Casa Civil) e várias autoridades, inclusive a presidente Dilma. Esse vazamento é inconstitucional, tal como a realização da própria gravação que ocorreu sem amparo de mandado judicial.
Não fosse isso grave o suficiente, o juiz Sérgio Moro e seus aliados na Polícia Federal disponibilizaram, ao contrário do que determinam as leis vigentes, a gravação dessas conversas para a mídia corporativa (a começar pelas Organizações Globo).
Bom, como muitos os que querem tirar Dilma Rousseff do poder vêem os Estados Unidos da América (EUA) como seu Nirvana existencial, é preciso ver o que ocorreria ao juiz Sérgio Moro se o gravado ilegalmente fosse o presidente Barack Obama. Eu que conheço minimamente os EUA, onde vivi quase 7 anos, e quando pude frequentar alguns corredores do poder em Washington, D.C., não hesito em dizer que Sérgio Moro, se fosse um juiz de primeira instância e fizesse lá o que fez aqui, estaria preso e incomunicável em alguma prisão federal.
É que, independente de quem seja o presidente, os estadunidenses tratam o cargo de presidente como algo que precisa ser protegido e não vilipendiado como está sendo no Brasil neste momento. O risco de se enfraquecerem as garantias institucionais que cercam o cargo de presidente é muito alto para se deixar nas mãos de qualquer um a possibilidade de partir para o tudo ou nada, sejam quais forem os motivos.
Agora, vamos ver quais serão as respostas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) que foram igualmente jogados na sarjeta pela ação de Sérgio Moro. E sim, há que se ver como se comportará o novo ministro da Justiça em relação à própria Polícia Federal que está envolvida até o pescoço nesse rolo todo. Deixar de tomar alguma ação contra os agentes envolvidos nessa ação desastrada seria péssimo para a nossa frágil democracia.
As últimas semanas tem sido para lá de movimentadas no Brasil, e tudo indicava que o governo de Dilma Rousseff iria se esvair rapidamente para total alegria de Aécio Neves, o tucano inconformado. Agora, várias delações depois, vemos a volta do ex-presidente Lula ao centro das decisões políticas e o deslocamento de Aécio Neves para a condição de pária da política nacional, após ser implodido sem dó nem pena pela delação do ainda senador Delcídio do Amaral.
Mas antes que alguém pense que esta será uma postagem celebrativa contra o golpe midiático-judiciário que galopava no horizonte, engana-se. Nunca votei em Dilma Rousseff e acho seu governo simplesmente péssimo para os setores mais pobres da nossa população, enquanto é generoso ao extremo com os banqueiros. Além disso, Dilma Rousseff conseguiu ser pior até que Fernando Collor na questão da reforma agrária, e a sua omissão frente ao massacre contra as comunidades indígenas é algo que deveria envergonhar a todos os que ainda apoiam este governo de forma sincera.
Agora, convenhamos, que chega a ser engraçado a histeria que está se fazendo em torno da nomeação de Lula para o ministério de Dilma Rousseff. É que além de não livrar Lula de qualquer tipo de processo que se forme por causa da Lava Jato, agora vamos ver o que será feito para virar a situação econômica vigente no Brasil, de modo a que haja espaço para uma reacomodação conservadora das forças políticas que acabam de ser estraçalhadas pela soma das delações que foram feitas em Curitiba e Brasília.
O mais importante é notar que o que estamos vendo ruir sob nossos narizes é a ordem política engendrada ao final do regime militar de 1964, e que teve uma sobrevida mais de uma década por causa da capacidade pessoal de Lula de arregimentar acordos (muitos deles espúrios) e de convencer a maioria da população que estávamos melhorando a ordem social vigente.
Como em outros capítulos de crise no Brasil é provável que a principal tarefa que Lula esteja se dando é costurar uma saída que evite o colapso total das estruturas políticas da qual ele e o PT se tornaram os principais fiadores até que se consiga restabelecer a ordem. Se ele vai conseguir ou não, os próximos capítulos desta crise vão mostrar. Agora duas coisas são certas: a Nova República não tem mais salvação, e Aécio Neves agora será visto como o que sempre foi, qual seja, um falso moralista relegado à condição de pária da política nacional. O mais irônico é que lá no reino de Hades da política nacional ele se encontre com seus amigos Delcídio do Amaral e Aloízio Mercadante.
Enquanto centenas de milhares de brasileiros, brancos em sua maioria esmagadora, se preparam para ir às ruas protestar contra a corrupção no governo federal vestindo a camisa da CBF (sou só eu que vejo uma tremenda ironia nisso?), uma questão básica continua me incomodando: será que alguém na Procuradoria Geral da República vai um dia tecer as relações das empreiteiras com o financiamento de campanhas em níveis estadual e municipal para verificar se não existem por ai vertedouros iguais ou maiores do que se encontrou na Petrobras?
É que até onde eu sei, as empreiteiras que hoje delatam pelos cotovelos suas relações com os governos do PT em Brasília também possuem contratos graúdos com estados e municípios. E por que até hoje não se explorou esse viés?
Peguemos à guisa de exemplo o caso da Odebrecht. Em quantos projetos graúdos a empreiteira está ou esteve envolvido no estado do Rio de Janeiro. Eu me lembro logo da reforma do estádio do Maracanã (da qual a empresa se tornou controladora!), mas se procurarmos bem, acharemos outros inúmeros casos. Será que as práticas não republicanas ficaram contidas todas esses anos em Brasília e restritas aos mandatos de Lula e Dilma? Dificilmente!
Por que então ninguém vai além da Petrobras? Alguém poderia dizer que o caso da petroleira já toma muito tempo dos procuradores em Curitiba. Sim, mais uma razão para decentralizar as apurações em torno das relações da Odebrecht e outras empreiteiras com outros níveis de governo e partidos políticos além do PT, não é?
O fato é que, cada vez mais, fico com a impressão que o cerco e a tentativa de derrubada do fraco governo Dilma, via a exploração do que aconteceu na Petrobras desde sempre, é apenas uma aplicação prática da tática empregada no Pantanal matogrossense para cruzar boiadas em rios infestados por piranhas, onde um animal doente e velho é colocado para cruzar primeiro e ser devorado para que o resto dos animais passem intactos. Em outras palavras, a derrubada de Dilma Rousseff servirá mormente para que tudo fique sempre onde esteve na ordem política, enquanto se trabalha para incorporar o Brasil de forma ainda mais subordinada ao sistema capitalista financeirizado.
Uma última reflexão vai para os que marcharão hoje. Em todas as outras manifestações dessa natureza, o que eu vi foram expressões puras de ódio de classe travestidas de combate à corrupção. Como se sabe que a corrupção no Brasil é algo sistêmico, a única coisa que eu posso inferir é que a classe média (as elites então nem se fale) se move por objetivos que nada têm para melhorar o nosso país que continua profundamente socialmente injusto. E, pior, se os prognósticos do que virá pela frente em termos de política econômica pós-Dilma se confirmaram, o que teremos é que muitos dos que vão hoje protestar por causa da corrupção vão ver seus sonhos de consumo e ascensão social serem esmagados. Bom, não sei se isso é um consolo, mas é uma forte possibilidade.
Irritado com o uso feito da gafe cometida por ele e outros dois membros do Ministério Público de São Paulo na denúncia feita contra o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva no no caso do tríplex do Guarujá, o promotor José Carlos Blat do Ministério Público de São Paulo mandou os críticos irem “caçar o que fazer” ou ainda “catar coquinho”.
Eu fico imaginando o que esse procurador não faz quando o réu não é uma pessoa tão conhecida e bem defendida como o ex-presidente Lula.
Se assim que reagem no chamado “estado democrático” o que será que fariam numa ditadura? Será que mandaria logo para o pau de arara ou para a cadeira do dragão?
‘Vão caçar o que fazer’, diz promotor sobre confusão entre Hegel e Engels
Ricardo Senra – @ricksenraDa BBC Brasil em São Paulo
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“É claro que nós sabemos a diferença entre Engels e Hegel. Numa peça de 200 laudas, falando de crimes essenciais, vão preferir ficar discutindo a filosofia?”
Quem pergunta é o promotor José Carlos Blat, do Ministério Público de São Paulo, um dos responsáveis pelo pedido de prisão preventiva do ex-presidente Lula, nesta quinta-feira. Ele se refere à confusão, feita no pedido encaminhado ao tribunal, entre Friedrich Engels, coautor do Manifesto Comunista junto a Karl Marx, e Friedrich Hegel, filósofo morto em 1831, 17 anos antes da publicação doManifesto.
“Vão caçar o que fazer. Vão catar coquinho”, continua o promotor estadual, questionado pela BBC Brasil sobre a repercussão em torno do erro presente na peça. “Isso é uma tolice, é um erro material que já foi verificado e será retificado. Tudo continua como está, não há qualquer gravidade nisso.”
A polêmica foi além da citação filosófica e dos comentaristas de redes sociais.
Juristas e advogados como Carlos Sampaio, coordenador jurídico do PSDB, e Gilson Dipp, ex-ministro do STJ, criticaram a fundamentação técnica da peça jurídica, afirmando que “não é usual fazer a denúncia e pedir a prisão do investigado” e que as chances de Lula fugir do país são pequenas.
A BBC Brasil levou os questionamentos ao promotor do MP-SP. “São ilustres juristas especulando sem conhecer os nossos autos”, afirma Blat.
“Nós fizemos todos os pedidos com absoluta convicção de segurança. Entendemos que houve efetiva afronta ao principio da garantia da ordem pública com a incitação (no discurso feito por Lula após depoimento à Polícia Federal), que é totalmente diversa de manifestação política”.
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‘Condutas’
O texto, assinado por Blat ao lado dos promotores Cássio Conserino e Fernando Henrique Araújo, afirma que “as atuais condutas do denunciado Luiz Inácio Lula da Silva, que outrora chegou a emocionar o país ao tomar posse como Presidente da República em janeiro de 2003 (‘o primeiro torneiro mecânico’ a fazê-lo de forma honrosa e democrática), certamente deixariam Marx e Hegel envergonhados.”
A troca entre os filósofos alemães provocou uma tempestade de piadas e críticas nas redes sociais. Adversários do ex-presidente, entretanto, contra-atacaram, alegando que a atenção exagerada sobre o erro seria uma forma de minimizar a discussão sobre corrupção.
“A ‘viralização’ é inevitável”, comentou Blat à BBC Brasil. “Mais um meme”, brinca.
Denúncias
Na denúncia contra o ex-presidente, a Promotoria afirma que o petista escondeu a posse de um tríplex no Guarujá e que este teria passado por reformas feitas pela empreiteira OAS para Lula.
O ex-presidente alega que não é dono do apartamento e que ele e a ex-primeira dama, Marisa Letícia, visitaram o imóvel apenas uma vez para avaliar a possibilidade de adquiri-lo.
A aquisição, de acordo com os promotores, teria ocorrido por meio de cotas negociadas pela cooperativa Bancoop, mas a defesa do ex-presidente alega que ele desistiu da compra após a quebra da cooperativa e porque a obra teria encarecido demais.
Em nota, o Instituto Lula afirma que a Promotoria “possui documentos que provam que o ex-presidente não é proprietário nem de triplex no Guarujá nem de sítio em Atibaia, e tampouco cometeu qualquer ilegalidade”.
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A denúncia não significa que o ex-presidente tenha virado réu na ação criminal – isso só acontecerá se a juíza Maria Priscilla Ernandes Veiga Oliveira, da 4ª Vara Criminal de São Paulo, acatar o pedido.
A confusão entre os pensadores no pedido de prisão preventiva ocorre junto à menção a uma frase, captada em um vídeo gravado pela deputada federal Jandira Feghali (PCdoB), em que é possível ouvir Lula dizendo “eles que enfiem no c* todo este processo”.
“São justamente essas condutas, ora deliberada e intencionalmente ofensivas às instituições do Sistema de Justiça e que sustentam o Estado Democrático de Direito que se ajustam à violação da garantia da ordem pública”, concluem os promotores a partir do episódio.
O MP-SP, que afirma que Lula teria uma “rede violenta de apoio”, justifica o pedido de prisão preventiva pela condição supostamente privilegiada do ex-presidente. “Sabidamente possui poder de ex-presidente da República, o que torna sua possibilidade de evasão extremamente simples”, diz o texto.
Ainda segundo a Promotoria, “ninguém está acima ou à margem da lei” e Lula “atentou contra a ordem pública ao desrespeitar as instituições que compõem o Sistema de Justiça”.
Em nota, o advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, afirmou na quinta-feira que a fundamentação apresentada pelos promotores para justificar o pedido é “uma tentativa de banalização do instituto da prisão preventiva”.
“Lula jamais se colocou contra as investigações ou contra a autoridade das instituições. Mas tem o direito, como qualquer cidadão, de se insurgir contra ilegalidades e arbitrariedades. Não há nisso qualquer ilegalidade ou muito menos justificativa jurídica para um pedido de prisão cautelar”, diz o texto.
O advogado argumenta que o pedido não traz um fato concreto para justificar as acusações contra o ex-presidente e seus familiares, e que não há nada além de “hipóteses”.
Colaborou Mayra Sartorato, da BBC Brasil em São Paulo
São Paulo – Ex-presidente Lula em entrevista no Diretório Nacional do PT em São Paulo, após prestar depoimento à Polícia Federal no âmbito da 24ª fase da Operação Lava Jato. (Rovena Rosa/Agência Brasil)
No dia 26/2 escrevi que as elites brasileiras poderiam estar exagerando na perseguição a Lula poderia resultar em resultados opostos aos esperados (Aqui!). Pois bem, menos de 24 horas depois do depoimento do ex-presidente levado pela Polícia Federal “debaixo de vara” como apontou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello (Aqui!), estou lendo uma série de reações exasperadas na mídia corporativa à reação contundente que Lula teve ao ser levado de forma coercitiva para depor.
Ora, quem conhece Lula minimamente saberia que ele poderia partir para o ataque para mobilizar a sua base política. Ora, dito e feito! Essa era a jogada mais óbvia, só que Lula o fez de maneira engenhosa.
Agora, mesmo que venham mais delações e Lula seja preso, o risco também óbvio é que o açodamento do juiz Sérgio Moro tenha feito que o “momentum” tenha passado de forma irreparável para as mãos do ex-presidente. É que na vida como na política, determinar o momento do “climax” é sempre mais importante do que os preparativos (ou o “foreplay” como dizem os gringos).
Eu que estou entre aqueles que sempre criticaram o governo do neoPT e suas alianças com as elites, me reservo apenas ao direito de cobrar das autoridades judiciais que não apenas respeitem o que determina a lei, mas como também a apliquem de forma impessoal e apartidária. É que, do contrário, não vão poder reclamar de Venezualização ou qualquer outro adjetivo semelhante. É que evidências de que Lula é uma das pessoas mais carismáticas e inteligentes da história do Brasil não faltam. Assim, quem mandou cutucaram a jararaca com a vara curta?
Após a chicana do vazamento da “delação premiada” do mais tucano dos senadores do PT, Delcídio Amaral, hoje está ocorrendo a prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.
Afora a obviedade de que essa prisão trará fortes consequências políticas e ameaça a sobrevivência imediata do frágil governo de Dilma Rousseff, creio que a pergunta que nenhum veiculo da mídia corporativa fará hoje é a seguinte: e se Lula decidisse fazer delação premiada, o que ficaria em pé no Brasil?
É que além de ter presidido o Brasil por oito anos numa harmoniosa relação até com que faz festa com sua prisão, aqui me refiro à Rede Globo, Lula é o maior arquivo de memórias existentes em nosso país. Aliás, o nervosismo deve estar reinando até no PSDB de onde Delcídio Amaral é originário!
Daí é que ao prender Lula, o juiz Sérgio Moro bem que poderia oferecer-lhe o mesmo expediente que já ofereceu a gente bem menos informada. Será que vai?
Faz tempo que não nutro qualquer simpatia pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, pois o considero responsável pela imensa regressão que estamos assistindo em vários aspectos dos mecanismos de proteção ambiental e social no Brasil. Vejo Lula como o principal artífice de um processo de colaboração com as elites que só causou danos aos trabalhadores no flanco estratégico da luta de classes em nosso país.
Dito isso, considero que as elites nacionais parecem estar cometendo um erro estratégico capital ao estabelecer um processo de perseguição jurídica e policial a Lula, basicamente por não querê-lo novamente como presidente do Brasil.
Se observarmos o tratamento que está sendo dispensado a Lula e sua família pela mídia corporativa e pelo aparato jurídico-policial comandado pelo juiz Sérgio Moro não há como deixar de observar que se os mesmos tipos de cobranças e apurações fossem impostas ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seus filhos é bem provável que alguém já teria enfartado.
Para quem não se lembra, FHC privatizou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e colocou seu filho Paulo Henrique Cardoso para dirigir o processo, sempre em associação com o amigo do peito Benjamin Steinbruch. Como pai afetuoso que diz ser, FHC também colocou o marido da sua filha Ana Beatriz, David Zylbersztajn, para dirigir a Agência Nacional do Petróleo. Aliás, Zylbersztajn só foi apeado do cargo porque sua separação da filha de FHC causou uma tremenda saia justa no governo federal.
E os exemplos de tucanos enrolados em “causos” complicados são mais numerosos, mas não vou me ocupar de descrevê-los. É que meu ponto nesta postagem se refere ao fato de que o tratamento desequilibrado contra Lula, havendo tantos podres dos políticos tucanos em evidência, poderá ter um peso decisivo na decisão de muitas pessoas de votarem em Lula se ele decidir se candidatar novamente.
Como vivemos num país em que existem casos numerosos de políticos enrolados com a justiça que se reelegem ad eternum e sem o carisma e a atração sobre os pobres que Lula tem. Paulo Maluf que o diga! Assim, para vermos Lula eleito ou elegendo mais um de seus “postes” não custa nada.
A verdade é que não são apenas os membros da elite brasileira que são capazes de destilar ódio de classe e transformar isto em opção eleitoral. Deste modo, eu não me surpreenderei nenhum pouco se Lula for preso por Sérgio Mouro e sair da prisão para ser eleito presidente do Brasil novamente.