A “nova esquerda” e o complexo de avestruz frente à velha luta de classes

Podem me chamar de ortodoxo ou de qualquer outro adjetivo assemelhado, mas juro que não aguento mais esse papo de “nova esquerda” ou “novas esquerdas” como uma indicação de uma direção a ser adotada pela classe trabalhadora  e pela juventude para enfrentar a opressão e a violência gerada pela crise sistêmica em que o Capitalismo está enfiado.

É que a imensa maioria desses “novos esquerdistas” é formada por sujeitos que perderam a perspectiva de que o Capitalismo poderá superado enquanto forma de organizar a presença humana na Terra.  É esta ausência de perspectiva revolucionária (adotando aqui o sentido descrito por Karl Marx na Ideologia Alemã) que transforma todo essa conversa de novas formas de organização pela esquerda em mero reconhecimento tácito de uma suposta durabilidade “ad eternum” do Capitalismo.

A verdade é que se olharmos o que está ocorrendo na França neste exato momento poderemos notar que é pela mão dos sindicatos e das organizações políticas que recusam o ajuste neoliberal que está se dando uma gigantesca lição de como se enfrentar os planos de miséria e regressão de direitos sociais engendrados pelo Partido Socialista de François Hollande. 

O fato é que toda essa conversa de “nova esquerda” procura embaçar a necessidade da construção de uma organização mundial para alavancar as lutas da classe trabalhadora, esteja ela onde estiver. Ao isolar o problema que os trabalhadores enfrentam para avançar a sua luta ao dilema do novo contra o velho, o que se faz na prática é impedir que a necessária unidade seja forjada no processo de enfrentamento que já está ocorrendo no plano prático.

Por isso, é que essas “novas esquerdas” possuem um caráter intrinsecamente reacionário e conservador, apesar do palavrório supostamente modernizante.  O que essa “nova esquerda” adoraria é que todos os que resistem ao Capitalismo internalizem o mesmo complexo de avestruz em que seus ideólogos estão metidos. Por isso mesmo é que devemos ignorar esses chamados por um suposto novo que já nasceu decrépito. E que venha a luta de classes!

O ataque do MPF à Lula e a condição da luta de classes no Brasil

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Desde que militei no Partido dos Trabalhadores entre os anos de 1981 e 1990 nunca fui próximo da corrente política organizada em torno do ex-presidente Lula. Eu participava de organização que ele e sua corrente impulsionavam nunca me permitiram apreciar a forma messiânica de condução do PT que girava essencialmente em torno de uma proposição de natureza messiânica.

Bom isto tudo é só para dizer que apesar das diferenças ideológicas com Lula, eu não tenho como compactuar com o ataque desferido pelo Ministério Público Federal contra ele no dia de hoje. Não é que eu ache que Lula seja um santo ou coisa do gênero, mas porque o tipo de argumento que foi apresentado pelo procurador Deltan Dallagnol não resiste a um exame mínimo de lógica sobre o que definiria um “general da corrupção”. 

Além disso, os números financeiros atribuídos a Lula e sua esposa são irrisórias quando comparados a outros esquemas de enriquecimento pessoal, a começar pelo que foi levantado em termos de contas secretas do agora ex-deputado federal Eduardo Cunha. Aliás, nunca custa lembrar daquela mansão que o ex-(des) governador Sérgio Cabral continua desfrutando impávido em Mangaratiba. 

Para mim o que está claro é uma tentativa tosca de inabilitar Lula enquanto candidato a presidência da república em 2018.  È que na falta de provas palpáveis volta a se recorrer ao mesmo tipo de estratagema já utilizado para condenar José Genoino e José Dirceu sob o tal “domínio do fato”. A diferença agora é que até um imóvel com escritura em nome de uma empresa vale como item de indiciamento. Convenhamos, é tudo muito tosco!

Agora, indo além do indiciamento de Lula e sua esposa, o que este ataque à principal liderança política do Brasil revela para mim é que todas as luvas foram removidas no ringue da luta de classes no Brasil. Se é possível atacar Lula com base em provas tão rudimentares, o que dizer de lideranças de movimentos sociais e sindicais que se insurjam contra os planos anti-nacionais e anti-populares do presidente de facto?

Mas como já escrevi antes aqui neste blog, toda essa sanha de destruir Lula pode ainda acabar por fortalecê-lo. Daí se ele poderá ou não ser candidato vai se tornar irrelevante, pois ele acabará tendo o poder de eleger até um dos seus postes para presidir o Brasil a partir de 2019.

De toda forma, enquanto 2018 não chega, a minha avaliação é que teremos um recrudescimento da luta de classes no Brasil. É que com esse indiciamento o que os procuradores do MPF lotados em Curitiba foram derramar muita gasolina numa mata derrubada em algum ponto seco da Amazônia brasileira. Bastará agora que algum incauto jogue um primeiro fósforo aceso para a fogaréu começar.  Bem vindos à luta de classes!

 

O Brasil e uma descoberta incômoda: a luta de classes está viva e manda lembranças

Quando Karl Marx formulou o conceito de luta de classes e associou a ele a ideia de que ela seria o motor que faz girar a história, quase certamente não pensou no Brasil. É que toda a experiência histórica que levou Marx a estabelecer os canones de sua dialética materialista estavam fortemente ancorados na Europa e na Revolução Industrial que ali se consolidava.

 Mas nos últimos tempos, especialmente após a onda conservadora que foi formada para tirar Dilma Rousseff da presidência da república, vejo pessoas sinceramente surpresas com o tipo de virulência que as pessoas de direita são capazes de mostrar e escrever.  Os alvos costumeiros da ira da direita são os pobres, nordestinos, gays, negros e pessoas de esquerda.  Em função disso temos não apenas lido, mas assistido ao que pensam e fazem segmentos da população brasileira que deixam as pessoas médias completamente embasbacadas.

Temos como resultado desse embasbacamento pedidos para que as pessoas se respeitem nas redes sociais e evitem romper amizades por causa das diferenças ideológicas.  Muitos dizem que é preciso evitar a conflagração e o espírito de “um time contra o outro”. 

Pessoalmente acho que quaisquer pedidos para que as pessoas se comportem civilizadamente é inócuo. É que a sociedade brasileira contém elementos que são completamente incivilizados, e que são fruto de sua construção ancorada na escravidão negra e na exploração colonial de nossas riquezas naturais.  Assim, enquanto não houver uma superação do legado histórico que carregamos, qualquer chamado à civilização óu é cínico ou é ingênuo (ou talvez uma mistura dos dois).

Além disso, dada a volúpia com que as forças políticas que ocupam o poder em Brasília a partir do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff atacam direitos sociais e as estruturas do Estado brasileiro, qualquer perspectiva que aponte para necessidades de pacificação é inócuo. É que essas forças não hesitarão em usar o aparato repressivo contra quem se insurgir contra o processo de recolonização do Brasil que elas estão colocando em marcha. E está cada vez mais claro para mim (é só ver os graves ataques em curso contra o SUS e as universidades públicas) que a opção dessas forças é pelo confronto com a maioria da população que rejeitos suas políticas nas últimas quatro eleições presidenciais. 

Em outras palavras, estamos num período em que a luta de classes vai se aprofundar no Brasil. E é preciso ter isto claro, pois, do contrário, os planos de desmanche do Brasil serão aplicados sem dó nem piedade. Afinal, se alguém tinha ilusão de que a burguesia nacionalestava minimamente disposta a ver uma melhora mínima nas condições de vida da maioria pobres do Brasil, a realidade tratou de enterrá-la.

Enquanto isso, Karl Marx manda lembranças de lá do cemitério de Highgate no norte de Londres.

Findada a nova república, a volta da luta de classes se tornará ainda mais explícita

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Seja qual for o resultado da votação do impeachment da presidente da Dilma Rousseff, o certo é que estamos assistindo ao desmoronamento da chamada “Nova República” que sucedeu ao regime dos militares em 1985. 

A exposição do apodrecimento do sistema político partidário brasileiro é tão evidente que não é mais possível negar que estamos assistindo a um processo de esfacelamento do processo de colaboração que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva tão bem sintetizou após chegar à presidência da república em 2003.

Mas a vitória da ampla aliança de partidos direitistas liderada por Michel Temer e Eduardo Cunha no impeachment de Dilma Rousseff também implicará em algo que provavelmente as elites não estão calibrando bem, qual seja, o extremo recrudescimento da luta de classes no Brasil.

Parece até que os desejosos da partida de Dilma Rousseff esqueceram os múltiplos casos de saques de supermercados que ocorreram no início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Tampouco as elites parecem estar assistindo a insurreição estudantil que se espalha por vários estados importantes da federação por causa da destruição do ensino público.

As elites também estão desprezando os crescentes enfrentamentos no campo que nas últimas semanas resultou em mortes de sem terra em diferentes pontos do território do Brasil, e também da disposição mostrada pelos sobreviventes de prosseguir o enfrentamento.

O nome dessa coisa que as elites não parecem estar visualizando numa proporção minimamente correta é o que Karl Marx rotulou de “luta de classes”.  E essa consequência desprezada nos corredores do congresso nacional é poderá resultar num incêndio para o qual as elites não vão poder contar com seu principal bombeiro, o ex-presidente Lula. É que Lula sabe que no frigir dos ovos, a sua saída de cena momentânea tornará o seu retorno inevitável em 2018, pelas mãos das mesmas elites que hoje o espezinham.

Agora resta saber se os “russos” (no caso os pobres) vão topar esperar a próxima eleição presidencial.

 

Karl Marx manda recado a Lula: enquanto houver capitalismo, a luta de classes não será anulada

As últimas semanas têm sido pródigas nas idas e vindas da tentativa de golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff. De um lado, temos personagens do calibre de Eduardo Cunha, Paulinho da Força e Aécio Neves.  Já do outro lado, o principal personagem é o ex-presidente Lula a quem eu credito a origem de todo o problema quando abandonou as alianças clássicas com partidos de esquerda que o  Partido dos Trabalhadores (PT ) fez até 2002 para cair nos braços de José Sarney et caterva.

Aqui começo a falar do objeto desta postagem: o problema das disputas insolúveis no plano do Capitalismo entre capital e trabalho ao qual Karl Marx sintetizou sob o conceito de “luta de classes”.

Exemplos de governos de conciliação de classes abundam desde o Século XIX quando a social democracia efetivamente rompeu com a perspectiva de transformação revolucionária da sociedade capitalista.  O fracasso desse movimento conciliatório dentro da direção do aparelho de Estado, principalmente na Europa, é que deu origem ao Fascismo na Itália e a Nazismo na Alemanha. 

Mas as lições históricas do fracasso dos governos de conciliação de classe não serviram para nenhum tipo de aprendizado para o ex-presidente Lula e seu círculo mais próximo. Tanto isto é verdade que hoje o PT depende de personagens ilustríssimos como Paulo Maluf, Fernando Collor e Renan Calheiros para impedir o golpe parlamentar disfarçado de impeachment que  foi gestado por associações obscuras de interesses que um dia conheceremos melhor nos livros de História.

E o pior é que ao longo da última década nos foi vendida a falácia de que a única possível saída para alavancar o desenvolvimento brasileiro e diminuir a abissal diferença de renda no Brasil era abraçar de forma acrítica as políticas emanadas do governo de conciliação de classes que Lula comandou e, depois, passou para Dilma Rousseff.

Para mim a grande pretensão do ex-presidente Lula, um reconhecido gênio nos processos de articulação, foi acreditar que favorecendo a anulação do potencial transformador do Partido dos Trabalhadores também conseguiria anular a luta de classes no Brasil. É esse o pior dos erros de Lula, e não as relações pantanosas com empreiteiras como a Odebrecht e a OAS que  resultaram nos traques jornalísticos dos pedalinhos de Atibaia e o do tríplex do Guarujá.

O problema é que, enquanto a militância genuína que ainda existe dentro do PT não ver a inevitabilidade de derrotas ainda maiores por causa da volúpia colaboracionista de Lula, teremos milhões de brasileiros desarmados para o combate em defesa de minguados direitos sociais duramente conquistados.

E lá do cemitério de High Gates no norte de Londres, os ossos de Karl Marx, se pudessem enviar alguma mensagem, diriam a Lula: enquanto houver capitalismo, haverá luta de classes, meu irmão!

Elites podem estar errando a mão na perseguição a Lula. O resultado final pode ser sua eleição em 2018

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Faz tempo que não nutro qualquer simpatia pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, pois o considero responsável pela imensa regressão que estamos assistindo em vários aspectos dos mecanismos de proteção ambiental e social no Brasil. Vejo Lula como o principal artífice de um processo de colaboração com as elites que só causou danos aos trabalhadores no flanco estratégico da luta de classes em nosso país.

Dito isso, considero que as elites nacionais parecem estar cometendo um erro estratégico capital ao estabelecer um processo de perseguição jurídica e policial a Lula, basicamente por não querê-lo novamente como presidente do Brasil. 

Se observarmos o tratamento que está sendo dispensado a Lula e sua família pela mídia corporativa e pelo aparato jurídico-policial comandado pelo juiz Sérgio Moro não há como deixar de observar que se os mesmos tipos de cobranças e apurações fossem impostas ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seus filhos é bem provável que alguém já teria enfartado.

Para quem não se lembra, FHC privatizou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e colocou seu filho Paulo Henrique Cardoso para dirigir o processo, sempre em associação com o amigo do peito Benjamin Steinbruch. Como pai afetuoso que diz ser, FHC também colocou o marido da sua filha Ana Beatriz,  David Zylbersztajn, para dirigir a Agência Nacional do Petróleo. Aliás,  Zylbersztajn só foi apeado do cargo porque sua separação da filha de FHC causou uma tremenda saia justa no governo federal.

E os exemplos de tucanos enrolados em “causos” complicados são mais numerosos, mas não vou me ocupar de descrevê-los. É que meu ponto nesta postagem se refere ao fato de que o tratamento desequilibrado contra Lula, havendo tantos podres dos políticos tucanos em evidência, poderá ter um peso decisivo na decisão de muitas pessoas de votarem em Lula se ele decidir se candidatar novamente.

Como vivemos num país em que existem casos numerosos de políticos enrolados com a justiça que se reelegem ad eternum e sem o carisma e a atração sobre os pobres que Lula tem. Paulo Maluf que o diga! Assim, para vermos Lula eleito ou elegendo mais um de seus “postes” não custa nada. 

A verdade é que não são apenas os membros da elite brasileira que são capazes de destilar ódio de classe e transformar isto em opção eleitoral. Deste modo, eu não me surpreenderei nenhum pouco se Lula for preso por Sérgio Mouro e sair da prisão para ser eleito presidente do Brasil novamente. 

Os gastos perdulários da Copa FIFA exacerbam a luta de classes e mostram o lado mais sombrio da sociedade brasileira

Para atender a sanha por lucros da FIFA, governos aprofundam a segregação social e acirram propositalmente os ânimos 

Não é de hoje que a Copa do Mundo da FIFA vem implicando na submissão de Estados nacionais a uma empresa privada, com requintes de remoções forçadas, greves de trabalhadores e forte repressão policial. Isto já acontecia antes, mas sem a cobertura da mídia virtual como acontece este ano no Brasil. Se tivéssemos tido um mínimo de acesso ao que aconteceu na África do Sul, é possível que já tivéssemos nos tocado que o que estamos vendo nas ruas das cidades-sede não é nada de novo, e apenas reflete o inconformismo das populações pobres com o tipo de gasto perdulário e socialmente segregador que este e outros megaeventos esportivos representam.

No Brasil, contudo, estamos tendo pitadas de puro cinismo que estão dando vazão a várias manifestações violentas não apenas contra os que protestam contra a Copa. A verdade é que essa violência também está sendo dirigida contra os que supostamente não se ajustam a essa visão de mundo endinheirado que os governos querem empurrar goela abaixo dos que não irão desfrutar do festival de gastos bilionários que a FIFA está impondo para tirar o máximo de lucro possível.

O que está emergindo disso tudo é o lado mais sombrio da sociedade brasileira, onde negros e pobres são estigmatizados como representante o mau mais perverso. Para isso prosperar a FIFA conta o beneplácito do (des)governo Dilma Rousseff, de (des) governos estaduais como o de Sérgio Cabral e com a imensa maioria da imprensa corporativa. Essa imprensa que absolve justiceiros e policiais violentas se ocupa à exaustão de rotular todos os que resistem como membros de uma organização que não existe (o tal dos Black Bloc) como se agir violentamente fosse apenas monopólio de justiceiros e policiais.

O objetivo das diversas partes é clara: a FIFA quer o máximo de lucro possível, os (des) governantes querem continuar no leme das políticas neoliberais que privatizam o Estado brasileiro, e a imprensa corporativa quer continuar podendo cobrar muito dinheiro para fazer propaganda do mesmo modelo de sociedade que gera uma das maiores desigualdades sociais do planeta (só na América Latina somos o quarto país socialmente mais desigual!).

E ai me desculpem os que se horrorizam com os que ousam reagir: isto pode só ser o primeiro capítulo de uma longa revolta. Afinal, só nos sonhos do neopetismo foi abolida a luta de classes no Brasil. É que graças ao neoliberalismo social-liberal do neoPT, esta está bem viva e cada vez mais acirrada.