Campos dos Goytacazes e a sua (não preparação) para as mudanças climáticas: um Raio-X das prevalentes formas de governar

alagamento

As mudanças climáticas acarretarão eventos climáticos extremos com maior frequência e intensidade, mas ainda permanecem ignoradas nas formas tradicionais de governar

Em meio à crise econômica, política e sanitária que o Brasil vive, um dos alvos constantes dos governantes de plantão tem sido a ciência brasileira. Além dos cortes profundos nos recursos financeiros destinados à fomentar o desenvolvimento de pesquisas estratégicas, há também uma crescente perseguição aos cientistas brasileiros no que eu tenho associado à ação de um obscuro “Comando de Caça aos Cientistas”.

Em face dessa situação toda é que hoje tive a obrigação (prazerosa diga-se de passagem) de presidir a 19. banca examinadora de dissertação de mestrado de um dos meus orientados no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense. Esta dissertação foi realizada pelo mestrando André Moraes Barcellos Martins Vasconcellos é intitulada “O desafio da gestão urbana em Campos dos Goytacazes no contexto das mudanças climáticas:  entre a construção da resiliência e a persistência de fórmulas tradicionais de governar“.

cartaz

A novidade desta banca foi a participação do professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Helsinki, um pesquisador que se interesse fortemente pelo Brasil, e que participou desde a capital finlandesa se expressando em um excelente português que ele desenvolveu aqui mesmo no Rio de Janeiro, mais especificamente nos estágios de vivência em assentamentos de reforma agrária.

banca andré

Com a participação do professor Kröger, o Programa de Políticas Soiciais dar mais um passado no tão demandado processo de internacionalização da ciência brasileira. E o melhor é que se deu com base em perguntas teoricamente densas de alguém que conhece de perto a realidade brasileira.

Uma das muitas sugestões dadas pela banca examinadora foi não apenas de publicizar o conteúdo integral da dissertação após as correções requeridas pelos seus membros, mas também que a mesma seja enviada para o legislativo e o executivo municipal, dada as importâncias contribuições que a dissertação tem para o processo de preparação (ainda inexistente em Campos dos Goytacazes) para as grandes mudanças ambientais e sociais que serão causadas pelas mudanças climáticas globais.

 

Em editorial, jornal finlandês diz que a UE deve se abster de comprar carne produzida na Amazônia

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Editorial do Maaseudun Tulevaisuus

A Comissão Europeia se encontra em uma posição precária ao tentar implementar um acordo de livre comércio com o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Embora esse acordo do Mercosul seja negociado há vinte anos, a sua implementação agora é mais questionável do que nunca.

Em particular, a indiferença do atual governo brasileiro às mudanças climáticas é impressionante. O país permitiu que a floresta amazônica fosse eliminada para atender as necessidades da pecuária, apesar dos fortes protestos no resto do mundo.

Se a União Europeia (UE) abrir mais oportunidades para aumentar as importações de carne da América do Sul, a geração de energia insustentável para o clima do Mercosul apenas aumentaria. As consequências para a floresta amazônica, crítica para o clima, seriam catastróficas.

Embora os proponentes do acordo tenham pensado que o livre comércio fortalecerá o compromisso do Mercosul com a certificação e o Acordo do Clima de Paris, é difícil ver tal desenvolvimento como realista.

Muitos países da UE viram a produção agrícola irresponsável apenas acelerar na América do Sul. Ao mesmo tempo, os benefícios econômicos do livre comércio para os países da UE estão se tornando cada vez mais questionáveis.

O acordo foi interpretado no sentido de perseguir os interesses da indústria automotiva global, bem como a produção agrícola em larga escala da América do Sul e grandes gigantes alimentícios. À medida que a mudança climática avança e as ações dos países do Mercosul sobem ao escrutínio internacional, os benefícios de longo prazo do acordo serão inúteis para todos os envolvidos.

Markus Kröger, professor assistente de Pesquisa de Desenvolvimento Global da Universidade de Helsinque, também considera o crescimento das importações de etanol de milho e ração de soja para o mercado da UE como muito prejudicial.

Desmatamento, redução do sequestro de carbono, danos ao solo e conflitos com povos indígenas e pequenos proprietários são, segundo Kröger, resultado da produção de etanol e soja.

Kröger também chama a atenção para o quão permissivo o Brasil é quanto ao uso de diversos agrotóxicos. No ano passado, quase 500 novos agrotóxicos foram aprovados no país, muitos deles proibidos na União Europeia.

As interpretações do pesquisador da Universidade de Helsinki são cada vez mais conhecidas dos consumidores europeus e também dos produtores agrícolas. Dado que a própria União Europeia impõe condições estritas às emissões ambientais da sua própria agricultura será completamente incompreensível permitir a entrada de produtos do Mercosul no mercado europeu.

Pelo contrário, a UE deve usar a sua política comercial para promover uma agricultura ética e sustentável no mercado mundial.

Principalmente do ponto de vista da cadeia alimentar responsável finlandesa, o acordo do Mercosul significaria permitir uma grave ruptura do mercado.

Se a UE não apoiar inequivocamente sua própria produção resiliente ao clima contra importações antiéticas, falar do Acordo Verde como base para uma nova política fundiária e florestal cairá no descrédito.

A pandemia internacional causada pela COVID-19 mais uma vez nos lembra os riscos da resistência aos antibióticos. O mundo é forçado a acordar para a quantidade de antibióticos usados ​​na produção de carne.

Se os medicamentos perderem sua eficácia, a crise global de saúde que se avizinha será ainda pior. É difícil ver com o Acordo do Mercosul reduziria o uso de antibióticos na produção em larga escala na América do Sul. O efeito oposto é mais provável.

O Mercosul também deve receber muito mais atenção no debate político finlandês. Embora o assunto pareça distante, seus efeitos também seriam sentidos no dia a dia dos finlandeses.

O governo finlandês e os deputados europeus têm uma responsabilidade significativa nesta matéria.

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Este editorial foi escrito originalmente em finlandês e publicado pelo jornal Maaseudun Tulevaisuus [Aqui!].