Mudanças à vista na CAPES: sai o ufanismo e entra o realismo

Atitude realista da Capes sobre a qualidade da pesquisa brasileira

Por Maurício Tuffani
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Carlos Nobre, presidente da Capes, abordou a necessidade de aumento do impacto da produção científica e tecnológica brasileira (Foto: Haydeé Vieira – CCS/Capes)

Ligada ao Ministério da Educação, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) tem se mostrado mais realista em relação a muitos dos problemas da pós-graduação e da pesquisa do Brasil desde que teve início a gestão do climatologista Carlos Nobre, que assumiu a presidência da agência federal em maio

Nesta semana, o novo dirigente da Capes contrastou de forma inequívoca com ufanismo do discurso de todo o governo federal nos muitos anos na área da política científica, que vinha destacando o aumento do número de publicações de artigos do Brasil, mas deixava completamente de lado a estagnação dos indicadores de qualidade dessa produção.

O presidente da agência foi categórico ao pôr o dedo nessa ferida na segunda-feira (10/8). Em reunião na sede do órgão em Brasília com coordenadores dos comitês assessores do órgão nas áreas de Ciências Biológicas III, Educação Física, Engenharias III, Geociências, História, Odontologia e Zootecnia, ele afirmou:

A qualidade da produção no país tem crescido acima da média mundial, mas ainda é relativamente baixa. Temos áreas com qualidade na média ou acima da média mundial e outras áreas com um índice de impacto abaixo desta média. Não existem receitas prontas ou explicações fáceis para isso, temos que fazer considerações área por área. É preciso ouvir de vocês onde estão os obstáculos. Temos uma história de sucesso na pós-graduação, mas temos que qualificar a produção. Temos que tornar a produção científica e tecnológica mais relevante, com maior impacto para desenvolvimento social, atingindo os grandes desafios do século 21, como a sustentabilidade.”

O que surpreende também nessa declaração é ela ter sido divulgada por meio de nota oficial da própria Capes. O comunicado, destacou também a seguinte fala de Arlindo Philippi Jr., diretor de Avaliação de agência, sobre os chamados indicadores de impacto do conjunto das publicações científicas, que medem aspectos importantes de qualidade.

“O Brasil está em 13º lugar no ranking da produção científica. Em termos de impacto, está em 18º. Enquanto economia mundial, estamos em 7º ou 8º. Temos que nos esforçar para que o impacto da produção seja compatível com relação ao crescimento numérico e à posição do país na economia.”

Impacto

Os índices de qualidade mencionados por Nobre e Filippi se referem diretamente ao impacto ou repercussão dos artigos científicos na comunidade científica internacional. Existem métricas para avaliar esse impacto, como a média de citações por artigo e também o impacto relativo, que é essa média em proporção à média mundial.

Em 1981, o Brasil havia publicado 2.100 artigos científicos em periódicos de padrão internacional. A repercussão desses trabalhos foi quantificada por meio do indicador de impacto relativo à média mundial de 0,55, como mostrei em reportagem em outubro do ano passado para a “Folha de S. Paulo”.

Fundamentada em dados da base Web of Science compilados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), essa mesma reportagem mostrou também que a produção científica do Brasil conseguiu alcançar no final do século 20 um patamar muito maior na quantidade, mas com um aumento muito discreto na qualidade. Em 2000, o país produziu 11.033 papers — o que corresponde a um aumento de 425%, ou seja, mais de quatro vezes maior —, com o indicador de impacto relativo à média mundial de 0,69 — um crescimento de 25,5%.

Desde o início deste século a quantidade da produção científica continuou crescendo, mas repercussão na comunidade científica internacional estagnou. A publicação de artigos em periódicos indexados chegou a 38.523 papers em 2013, mas seu impacto relativo à média mundial permaneceu na média de 0,69.

Esse índice brasileiro de 2013 está muito abaixo não só dos indicadores de países como o Reino Unido (1,88), Canadá (1,81) e Estados Unidos (1,80), mas também de emergentes asiáticos como China (1,36) e Coreia do Sul (1,31) e latino-americanos como Argentina (1,40) e México (1,39).

Mudança

Nos últimos anos, quase sempre que indicadores como esses apareciam na imprensa, a resposta do governo sempre foi evasiva, preferindo destacar programas e projetos em andamento. Desta vez, por conta própria, a atitude foi outra.

Há também informações ainda não oficiais de uma mudança positiva de atitude da Capes em relação à classificação de revistas científicas na sua plataforma Qualis Periódicos. A agência parece estar disposta a enfrentar o problema da presença nessa base dos chamados periódicos predatórios nessa base de dados que é consultada por professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos brasileiros na escolha de revistas científicas para publicar seus artigos e também tem sido usada para instituições acadêmicas avaliarem o desempenho de seus docentes.

Resta saber como essas mudanças positivas acontecerão em face do cenário de contenção de investimentos do governo federal. Sejam como forem ou vierem a ser, elas são mais que bem-vindas.

FONTE: http://blogdasciam.com.br/2015/08/13/atitude-realista-da-capes-sobre-qualidade-da-pesquisa-brasileira/

E a grita contra Jeffrey Beall continua. Os editores predatórios agradecem!

Bem que o jornalista Maurício Tuffani avisou em seu blog (Aqui! ) que a postagem do professor Jeffrey Beall sobre o Scielo (Aqui!iria dar oportunidade para que se jogasse uma nuvem de fumaça na discussão que realmente importa em relação à compilação da “Lista de Beall” onde estão reunidos a maioria das editoras e revistas predatórias que hoje garantem a publicação de uma quantidade imensurável de lixo científico pelo mundo afora.

É que para minha surpresa acabo de me separar com um blog (Aqui!) criado para circular e angariar apoio entre editores de revistas científicas para uma nota de repúdio (publicada em três línguas) à agora notória postagem do professor Jeffrey Beall sobre a capacidade do Scielo de ultrapassar os limites paroquiais da divulgação do conteúdo dos periódicos que são abrigados naquela plataforma.

pelo scielo

A coisa toda poderia ser apenas uma reação exagerada a uma postagem cujo teor agora parece ser o menos dos problemas para quem subscreve a referida nota de repúdio.  Mas como o veículo de circulação da nota de repúdio que promove a coleta de assinaturas e manifestações de editores de revistas hospedadas no Scielo é um blog hospedada na mesma plataforma em que o meu blog se encontra, eu procurei identificar, em vão é preciso frisar, quais atores o estão impulsionando.

Ai para mim começa um problema, pois na falta de nominação dos autores do blog, há que se pensar qual a razão de uma nota de repúdio/abaixo assinado/tribuna livre que, inclusive, usa o logotipo da Scielo. No mínimo, haveria que existir uma autorização formal para a utilização do logo. Para evitar julgamentos indevidos, procurei no blog mantido pela Scielo para ver o que encontrava sobre o assunto, e o máximo que encontrei foram outras três notas que igualmente ensejam o repúdio à postagem do Prof. Beall (Aqui!Aqui! e Aqui!).

A partir destas constatações, me fica a dúvida sobre qual é a posição oficial dos gestores da Plataforma Scielo sobre este imbróglio todo. É que ao postarem em seu blog institucional apenas posições contrárias ao conteúdo da postagem do Prof. Beall, a Scielo parece estar tomando partido em favor dos detratores,. Nesse caso, seria interessante que a Scielo informasse se tentou ouvir o outro lado da moeda, no caso o professor Jeffrey Beall, até para que ele pudesse se retratar de algum eventual malfeito.

A coisa fica ainda mais peculiar se juntarmos todos os ingredientes acima, começando pelo uso do logotipo da Scielo no blog “Pelo Scielo”.  Se o uso não foi autorizado, estamos diante de uma apropriação indevida. Já se o oposto for verdadeiro, teremos um caso em que um organismo (cuja existência é financiada pelos menos parcialmente por dinheiro público) empresta o seu logotipo para algo que pode ser considerado uma forma moderna de caças às bruxas a quem ousou, ainda que com equívocos pontuais, questionar a sua efetividade.

O interessante é que, ao longo dos anos sempre recomendei, a Scielo como um bom ponto inicial para jovens pesquisadores realizarem suas buscas por literatura científica qualificada. No caso do Brasil, onde a maioria dos nossos estudantes de graduação não possui fluência na língua inglesa, ter uma base como a Scielo não é um elemento negligenciável, muito pelo contrário. Agora, a partir dai considerar que o Scielo é a última fronteira na indexação de revistas altamente qualificadas já é um certo exagero, pois este não é efetivamente o caso.

Mas voltando ao que escreveu o jornalista Maurício Tuffani sobre o alívio que esse tsunami representa no necessário combate aos editores e periódicos predatórios, o que eu realmente gostaria de ler dos editores que já assinaram a tal nota de repúdio é sobre quais têm sido os cuidados tomados para que a invasão da “ciência trash” não inunde os periódicos por quem dizem ter tanto zelo. É que em um caso recente numa das revistas cujos editores assinaram o abaixo-assinado “anti-Beall”, e que eu mostrei aqui neste blog, o que se viu foi a necessidade de retratar um artigo publicado por múltiplas violações éticas que teriam sido cometidas pelo autor (Aqui!).

É diante deste quadro que eu considero toda essa gritaria “anti-Beall” um completo desserviço ao avanço da qualidade das revistas científicas brasileiras, estejam elas inclusas ou não no Scielo. É que não vai ser com o uso do “espantalho anti-gringo” que os problemas causados pela disseminação de “trash science” vão ser resolvidas. Aliás, muito pelo contrário.  E digo novamente, Jeffrey Beall não é o nosso problema. Quando muito ele é o mensageiro, ainda que com uma mensagem que possa criticada pontualmente.

A reação à postagem de Jeffrey Beall sobre a Scielo: provincianismo e auto-piedade não são boas respostas

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O professor, bibliotecário e blogueiro Jeffrey Beall talvez não imaginasse o tamanho do furor que iria causar ao publicar uma postagem intitulada “Is Scielo a publication favela” (Aqui!), onde ele basicamente se ateve a analisar como plataformas como a Scielo (Aqui!) e Redalyc (Aqui!) acabam não tendo a devida capacidade de publicizar os seus conteúdos, o que acaba sendo feito de melhor forma pelas grandes casas de publicação científica. 

A reação que se deu furiosa e se concentrou na denúncia de Beall como um agente do imperialismo científico representado, por exemplo, pela Thomson Reuters.  Uma das respostas mais duras partiu da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) que publicou uma moção de repúdio ao que seria um ataque classista de Jeffrey Beall (Aqui!).  Como na Abrasco devem existir pesquisadores que entendem bem a língua inglesa, não posso atribuir essa reação a algum problema de entendimento do conteúdo da postagem de Beall sobre as limitações vivenciadas pela Scielo e pela Redalyc para disseminar o conhecimento acerca das revistas que hospedam.

A primeira coisa que me chama a atenção é que a reação está mais entranhada na noção do “Politicamente Correto” que se abateu sobre o Brasil desde meados da década de 1990 com a gloriosa colaboração da Fundação Ford. Em outros tempos, o uso da analogia não seria vista como imperialista e eivada de preconceitos, pois favelas eram favelas, e ponto final. Agora nos tempos do politicamente correto, o uso da palavra em português acabou contribuindo para que o conteúdo da mensagem fosse perdido, e para que os contrariados se utilizassem disso para uma tentativa de assassinato moral do mensageiro.

Em segundo lugar, o que já foi assinalado pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog na Folha de São Paulo (Aqui!), é que toda essa reação acaba obscurecendo algo mais essencial no debate sobre as revistas de acesso aberto e as comerciais, qual seja, a da qualidade do que está sendo publicado.  O fato inegável é que o advento das publicações de acesso aberto também propiciou a rápida disseminação de editoras e revistas predatórias, onde muito lixo científico é publicado, criando um ambiente tão poluído por ciência de baixa qualidade que ficamos inundados de “ruído” científico, o que dificulta de fato  o avanço da qualidade do que é produzido pela comunidade científica brasileira.

Em função disso, é que me parece essencial apontar que antes de criticar eventuais erros cometidos por analistas estrangeiros, o que a comunidade científica brasileira que se pretende rigorosa e comprometida com o avanço do conhecimento deveria fazer é começar um processo de limpeza de todas as bases e plataformas que hospedem revistas predatórias, sejam elas comerciais ou de acesso aberto. Do contrário, o que teremos é o aprofundamento de um isolamento que será mortal para nossas pretensões de desenvolvimento cientifico.  E tome mais lixo científico!

Para que possamos usar este episódio da melhor forma, há que se deixar o provincianismo e a auto-piedade de lado. Do contrário, continuaremos pretendendo que já chegamos ao olimpo da ciência, enquanto, de fato, estamos afogados em produções de baixíssima qualidade. E como revisor de várias revistas brasileiras, eu ainda acrescento, com um português tão pobre quanto os resultados que são apresentados como sendo ciência.  E assim, acreditem em mim, Jeffrey Beall não é o nosso problema. Quando muito ele é, um mensageiro que precisa ser ouvido com mais cuidado. Simples assim!

Do blog do jornalista Maurício Tuffani: morto era editor-chefe de revista científica trash

Médico assassinado se torna editor-chefe de revista científica

Por MAURÍCIO TUFFANI

Imagem: Reprodução

O neuropatologista Roger Brumback e sua esposa Mary foram assassinados em maio de 2013 em sua casa em Omaha, em Nebraska, nos Estados Unidos. Apesar de ter sido amplamente noticiada, inclusive neste ano pela notícia do julgamento do acusado a ser realizado em setembro, a morte do médico não foi impedimento para ele ser apontado como editor-chefe do periódico “American Journal of Medical Sciences and Medicine”.

Morto por vários tiros no abdômen, Brumback era professor da Universidade Creighton, onde havia chefiado o departamento de patologia. O uso indevido de seu nome pela revista foi noticiado na terça-feira (7.jul) pelo blog “Scholarly Open Access”, do biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver.

AJMSM_detalheAlgumas horas depois, o periódico removeu o nome de seu site e em seu lugar inseriu um link para inscrições de candidatos ao cargo de editor-chefe, como mostra o detalhe da página na imagem à direita.

Periódicos predatórios

Longe de parecer apenas um mero episódio anedótico, a apropriação indevida do nome de Brumback pela revista se insere no crescente cenário de desconfiança na comunidade científica em relação aos chamados “periódicos predatórios”. A expressão tem sido usada há alguns anos para designar revistas acadêmicas editadas por empresários que exploram sem rigor científico uma importante iniciativa de comunicação científica que surgiu com a internet, que é o modelo editorial de publicação de artigos em acesso livre, financiado pelas próprias instituições acadêmicas mantenedoras dos periódicos ou pela cobrança de taxas de autores dos estudos.

Tanto nas publicações científicas em acesso aberto como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas e até a poucos dias o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo.

Em novembro de 2012, Beall já havia publicado um post informando o lançamento simultâneo de 85 periódicos científicos pela mesma editora dessa revista, a Science and Education Publishing (SciEP), que desde então está na lista de publishers predatórios mantida pelo blogueiro.

A revista “American Journal of Medical Sciences and Medicine” não consta na na base de dados online Qualis Periódicos, mantida pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação). Pelo menos 235 periódicos da lista de Jeffrey Beall foram identificados no Qualis Periódicos por este blog em abril deste ano.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/07/09/medico-assassinado-se-torna-editor-chefe-de-revista-cientifica/#_=_

Trash science: ofertas mirabolantes de editores obscuros enchem caixas de correio eletrônico dos pesquisadores brasileiros. Quantos estão resistindo à tentação?

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A existência de editoras científicas predatórias que oferecem serviços fáceis a preços módicos a incautos (aliás, nem sempre tão módicos assim) se tornaram conhecidas no Brasil a partir de uma série de matérias publicadas pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog que está hospedado no site UOL (Aqui!). 

Mas o que muitos não sabem é que ofertas mirabolantes chegam cotidianamente nas caixas de correio eletrônico dos pesquisadores brasileiros, como mostra a imagem que me foi enviada por um colega, que se mostrou indignado com a óbvia desfaçatez da oferta, bem como do desmazelo com que os editores de uma revista desconhecida tentaram chamar sua atenção para as “facilidades sendo oferecidas”

trash science

Em sua justa irritação, esse colega ainda me perguntou “será que há alguém disposto a entrar nessa?” A minha resposta, baseando-me no pouco que já foi desvelado pelo trabalho do Maurício Tuffani é que, sim, há muita gente disposta a entrar nessa!

E o pior é que se os comitês assessores do Conselho de Desenvolvimento Científico Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) começassem a olhar de forma mais rigorosa os currículos dos pesquisadores brasileiros vão acabar descobrindo que não são apenas jovens pesquisadores imaturos que estão enveredando pelo caminho fácil de engordar seus CVs com publicações em editoras predatórias, onde que vale é pagar seja quanto for, para colocar no ar qualquer coisa que seja, apenas para atingir índices de produtividade que omitem a necessidade da qualidade e do impacto científico.  

A essas alturas, desconfio que até pesquisadores do topo da cadeia meritocrática montada pelo CNPq em cima de quantidade, e não da qualidade, estão aceitando o tipo de convite que meu colega julgou óbvio demais para ser levado à sério. Afinal, a pressão pelo número é muito forte, e as ofertas tentadoras aparecem todos os dias!

A pergunta que se coloca é a seguinte: qual é o tamanho da parcela dentro da comunidade científica brasileira que está resistindo à essas promessas mirabolantes? Interessante seria ver se a Capes e o CNPq estão dispostos a começar a apurar. A ver!

Os caminhos tortuosos da “trash science”: o apelo ao ego como estratégia para fisgar pesquisadores incautos

Não é novidade que a adesão de muitos pesquisadores à revistas “trash” está ligada à necessidade de mostrar números que os possibilite a galgar posições, obter financiamentos e adquirir algum tipo de notoriedade.  Mas isso não quer dizer que não existem estratégias adicionais que as editoras responsáveis pela disseminação do lixo científico usam para atrair incautos para suas conferências caça-niqueis e, posteriormente, para suas revistas. Uma das estratégias favoritas que eu venho sendo agraciado é o de apelar para o ego dos pesquisadores, e a tática favorita para fisgar os interessados é o súbito aparecimento para cumprir o papel normalmente nobre de ser um “keynote speaker“, o que equivale a ser um orador principal em uma dada conferência. Nem é preciso dizer que essa é uma função normalmente ambicionada, pois dá destaque e notoriedade a quem a cumpre.

Para deixar mais claro, posto um convite que me chegou no dia de hoje para ser um “keynote speaker” na “4th International Conference on Biodiversity” que ocorrerá entre os dias 15 e 17 de Junho na aprazível cidade de Las Vegas, que o site da conferência identifica como sendo a capital internacional do entretenimento.

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Como nunca ouvi falar dessa conferência, fiz o que qualquer pesquisador responsável faria: identifiquei o grupo OMICS International como organizador da conferência, e depois disso fui consultar a lista preparada pelo Professor Jeffrey Beall da University of Colorado Denver para identificar publicadores predatórios (Aqui!). E não deu outra:  o OMICS International aparece listado como responsável por publicações predatórias. E ao verificar o site da própria OMICS International pude ver a clara conexão entre as múltiplas conferências que o grupo organiza e quase 500 periódicos “trash”!

Em face de um exemplo recente que foi identificado pelo jornalista Maurício Tuffani que descobriu a conexão entre uma conferência caça-niqueis na UNICAMP como o turbinamento de CV Lattes dos participantes a partir da publicação de artigos apresentados no evento em uma determinada revista ligada ao organizador do evento (Aqui!), acho pertinente perguntar quantos outros pesquisadores na área dos estudos da conservação receberam este mesmo convite e tiveram o cuidado que eu tive. É que baseado nas evidências sendo levantadas pelo jornalista Maurício Tuffani, não é improvável que pedidos de auxílio de viagem internacional para participar dessa conferência já não estejam sendo preparados neste momento para enviar à CAPES e ao CNPq.

Maurício Tuffani põe o dedo na ferida: lixo científico e o silêncio da academia

THREE

O Qualis e o silêncio dos pesquisadores brasileiros

POR MAURÍCIO TUFFANI

Enquanto aqui no Brasil a comunidade científica praticamente ignora a presença de mais de 200 revistas acadêmicas de reputação suspeita que foram aceitas no Qualis Periódicos, fora do país já começaram discussões sobre essa base de dados serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos brasileiros a escolher publicações científicas para seus trabalhos.

Tudo começou na semana passada, quando o biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos Estados Unidos, enviou para uma lista de discussão os links de alguns de meus recents posts sobre sobre a aceitação dessas publicações pela Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de  Pessoal de Nível Superior).

O Qualis abrange cerca de 30 mil títulos, segundo a Capes. Sua classificação nos níveis A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C é usada também em processos seletivos para contratações e promoções e em avaliações individuais e institucionais para concessões de bolsas e auxílios.

Para decepção do colega, eu expliquei a ele que o assunto certamente despertaria muita atenção, mas não geraria muitas discussões, pelo menos publicamente. A apuração que eu realizara até aquele momento já me permitia prever o que acabou acontecendo: o silêncio da quase totalidade dos pesquisadores brasileiros sobre o assunto, apesar de os posts terem .

Acesso livre

Os periódicos predatórios são revistas acadêmicas editadas por empresas que exploram sem rigor científico uma importante iniciativa de comunicação científica que surgiu com a internet. Trata-se do Open Access (acesso aberto), o modelo editorial de publicação de artigos em acesso livre, baseado na cobrança de taxas de autores.

Tanto no Open Access como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los.

Lixo acadêmico

Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo.

É importante ressaltar que bons estudos também têm sido publicados em periódicos predatórios. Mas isso só agrava o problema, pois significa que salários de pesquisadores, seu tempo de trabalho e recursos para pesquisas acabaram se transformando em artigos largados em publicações desprestigiadas e até mesmo consideradas “lixo acadêmico” pela comunidade científica internacional. No caso do Brasil, quase todo o dinheiro envolvido nessa atividade vem de cofres públicos.

Avisos

Nas entrevistas que realizei, cientistas de alto prestígio nacional e internacional afirmaram que a inclusão dos chamados periódicos predatórios no Qualis era uma falha grave por parte da Capes. Mas quase todos eles pediram para não serem identificados.

No início dessa apuração, o que me deixou intrigado foi o fato de que eu havia selecionado pesquisadores não só com bons currículos, mas também que já haviam assumido posicionamentos autênticos, críticos e firmes sobre questões em torno da ciência no Brasil.

O total de periódicos que listei em meu post Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas “predatórias’ (9.mar) corresponde a 0,67% do total de 30 mil títulos. Isso não seria motivo para tanta preocupação.

Maquiagem

O tamanho da encrenca, porém, começou a ficar claro logo depois. Apesar de esse percentual de predatórios no Qualis ser pequeno, ele mostra uma vulnerabilidade indesejável dessa base de dados. Além disso, esse problema começou a mostrar a conexão com outras aberrações, como a realização deeventos caça-níqueis, em condições até anedóticas e constrangedoras.

Outra distorção que constatei foi a maquiagem serial de trabalhos apresentados em conferências, como se eles fossem artigos aprovados por peer review de periódico. E isso aconteceu em um evento na Unicamp, uma das melhores universidades brasileiras, a única com a USP no ranking das melhores do mundo do Times Higher Education.

Disparidades

Para complicar, minha apuração dos periódicos predatórios do Qualis revelou uma outra esquisitice que atinge dessa base de dados que pode prejudicar publicações de boa reputação: uma mesma revista pode ser classificada em diversos níveis de qualidade. Essa variação não seria problemática se ela se restringisse a níveis de qualidade próximos e envolvesse áreas de especialidades muito distintas.

Acontece que há oscilações que vão desde o pior e mais baixo nível de classificação —aplicável somente a publicações com deficiências extremas— aos mais elevados, relativos a padrões de excelência. E, o que é pior, entre áreas muito próximas  (A avaliação ‘quântica’ de revistas científicas no Brasil, 16.mar)

Estagnação

Como vimos acima, a vulnerabilidade e a inconsistência dessa base de dados indicam que o problema é maior que a presença dos predatórios. Após a criação do Qualis em 1998, houve o crescimento da publicação de trabalhos acadêmicos brasileiros, que na prestigiada base de dados Web of Science quase quadruplicou de 2000 a 2013.

No entanto, os indicadores de qualidade dessas publicações mostraram estagnação nesse mesmo período. Pior: esses índices cresceram em poucas instituições de pesquisa de grande produção quantitativa. Isso matematicamente significa que o conjunto do restante da  produção nacional não estagnou, mas caiu em qualidade.

Iceberg

Nesse mesmo período, currículos têm sido recheados com base nesse crescimento quantitativo sem correspondência na qualidade. Isso influenciou não só contratações e promoções, inclusive salariais —tudo por meio de concursos públicos—, mas também avaliações de produtividade individuais e institucionais, concessões de bolsas e auxílios.

O silêncio quase absoluto dos pesquisadores brasileiros não é, portanto, devido aos predatórios, mas aos os buracos que eles revelam no Qualis. Esses buracos expõem uma parte importante de todo um sistema de avaliação de desempenho no qual carreiras e reputações acadêmicas foram sendo construídas nestes últimos anos.

Limpeza

Remover do Qualis os periódicos predatórios poderia certamente resultar em muitas reclamações e protestos. Isso levaria a Capes e outras instituições a deixarem de contabilizar os artigos publicados nessas revistas.

Mas acredito que de uma forma ou de outra é o que acabará acontecendo. E será muito mais rápido se a defesa da manutenção desses títulos depender dos próprios publishers. (Muitas vezes tenho dificuldades para usar os argumentos deles como defesa.)

Acredito que a eliminação dos predatórios acontecerá apesar do silêncio da quase totalidade dos pesquisadores brasileiros.  Muitos dos coordenadores e coordenadores adjuntos dos 48 comitês assessores da Capes são pesquisadores respeitados em termos de excelência acadêmica e reputação por seriedade. Conheço pessoalmente alguns que certamente não compactuarão com essa avacalhação.

Mas não acredito em uma reformulação que leve nosso sistema nacional de pós-graduação a combater a tolerância com revistas de baixa qualidade. É grande demais o contingente que nos últimos anos se formou, cresceu e adquiriu direitos, inclusive trabalhistas, fazendo uso de publicações fracas e desprestigiadas. E tudo isso aconteceu dentro de nossa tradição brasileira de apostar no crescimento da quantidade com a promessa de um posterior aumento da qualidade que nunca acontece.

Vespeiro

Com essas e outras, dá para entender muito bem o motivo pelo qual alguns célebres pesquisadores não estavam dispostos a dar entrevistas e arrumar mais um confronto na vida. O problema deles era “mexer com um vespeiro”. O célebre “Epitáfio para M.”, de Berthold Brecht (1898-1956), que em tradução livre transcrevo a seguir, ilustra bem o que poderia ser esse embate.

Dos tubarões eu escapei./Os tigres eu matei./Fui devorado pelos percevejos.
(Den Haien entrann ich./Die Tiger erlegte ich./Aufgefressen wurde ich von den Wanzen.)

Entendo eles. Eu mesmo muitas vezes tenho dito que o mais desgastante não é enfrentar leões, mas os bandos de hienas. Felizmente alguns pesquisadores brasileiros já estão passando da preocupação para a indignação.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/04/01/o-qualis-e-o-silencio-dos-pesquisadores-brasileiros/

Lixo científico “made in Brazil”

made in brazil

Venho faz algum tempo tratando aqui neste blog da difusão e banalização do que muitos chamam de “publicações predatórias”, e eu (seguindo o que disse o físico Rogério Cézar Cerqueira Leite num polêmico artigo no jornal Folha de São Paulo) denomino de “lixo científico”.  Os sucessivos casos de pesquisadores sendo pegos com artigos e outros tipos de publicações que mimetizam descobertas científicas em revistas onde o único requisito é pagar para publicar é um fenômeno global. As “editoras” estão espalhadas por diferentes partes do globo, ainda que países como China e Índia seja rotineiramente apontados como locais preferenciais para o estabelecimento de empresas especializadas em distribuir lixo científico a preços nem sempre módicos. 

O fenômeno não é novo, mas se espalhou como o vírus da peste negra após a emergência da internet que serviu para validar publicações que não necessariamente vão ser impressas.  Além disso, o surgimento da internet serviu para conectar prestadores de serviços (editoras predatórias) e fregueses (profissionais interessados em turbinar seus currículos sem as exigências da revisão por pares), o que contribuiu para criar um imenso mercado para personagens obscuros.  Esse fenômeno gerou até imensas listas de identificação de publicações predatórias como a criada pelo professor Jeffrey Beall, da University of Colorado-Denver, que se tornou uma referência mundial no esforço para conter o avanço do lixo científico (Aqui!).

Pois bem, se alguém pensou que o Brasil não possui o seu próprio estoque de publicações “trash”, pensou errado. Após me interessar pelo assunto, comecei a pesquisar (usando o Qualis Capes como ponto de partida) determinadas publicações que possuíam o que o jornalista Maurício Tuffani caracterizou em seu blog como  a “classificação quântica” do Qualis Capes (Aqui!). E o que eu acabei descobrindo é que, apesar de ainda faltar a mesma estrutura logística das editoras predatórias localizadas em outras partes do mundo, há sim no Brasil um mercado emergente de publicações onde determinados personagens são, ao mesmo tempo, dos corpos editorial e científico, exercem o papel de revisores e, sim, ainda publicam seus “artigos científicos”.  Em suma, são o policial, promotor de justiça, juiz, e carrasco! Além disso, essa rede de publicações junta personagens em instituições localizadas em diferentes partes do Brasil, de modo que fica difícil verificar num primeiro momento que são sempre os mesmos personagens envolvidos.

Esse fenômeno “editorial” tem graves implicações para a comunidade científica brasileira, na medida em que os órgãos de fomento como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) utilizem critérios que favorecem a quantidade e não a qualidade das publicações no momento em que concedem financiamentos (no caso do CNPq) ou certificam programas de pós-graduação (no caso da CAPES).  A existência e persistência desse sistema de medição é que está na origem do fenômeno das publicações predatórias em nível mundial, e não é diferente no Brasil. Mudar essa situação vai passar por uma urgente reestruturação dos sistemas de medição de mérito, visto que o que estamos vivendo no Brasil é apenas a primeira fase da invasão e colonização da ciência brasileira por revistas predatórias “made in Brazil”. 

Avaliação de revistas científicas no Brasil é ‘quântica’

Por MAURÍCIO TUFFANI

 Publication

O grupo editorial alemão Springer, um dos maiores do mundo na área acadêmica, abriu na recente sexta-feira 13 uma investigação sobre uma de suas revistas, a Cell Biochemistry and Biophysics”. Em um comunicado em seu site, o publisher sediado em Berlim afirmou que “a integridade científica do periódico não pode ser garantida”, na medida em que uma apuração interna revelou “um padrão inadequado e comprometido” de seu processo de revisão de artigos científicos.

Um porta-voz do Springer afirmou que o grupo editorial não dará mais informações a respeito do assunto enquanto não for concluída a investigação sobre a revista, informou o blog norte-americano “Retraction Watch”, que monitora correções e retratações de artigos de revistas científicas.

O grupo Springer não pode ser comparado as editoras de reputação duvidosa que têm sido assunto deste blog. O post mais recente sobre isso foi “Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas “predatórias’” (9.mar). Mas constatei que com a “Cell Biochemistry and Biophysics” acontece também um fenômeno interessante que observei em algumas das publicações desses “publishers predatórios” em sua classificação no Qualis Periódicos, da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Ao mesmo tempo que recebeu A2, a segunda maior classificação no Qualis, a “Cell Biochemistry and Biophysics” obteve também o grau C, o mais baixo de todos, que se aplica a publicações que nem sequer atenderem a requisitos meramente formais de edição.

Qualis-CBM_ISSN_1085-9195

É importante observar também a pontuação 2,380 dessa revista no chamado fator de impacto, que é um indicador de qualidade referente à média de citações de artigos de um periódico. Comparado ao das publicações científicas brasileiras, esse número é superado apenas pelo da primeira colocada no ranking nacional, a “Diabetology & Metabolic Syndrome” (2,500), e com boa vantagem sobre a segunda colocada, que é a “Revista Brasileira de Psiquiatria” (1,638).

UPara ter uma ideia do que significa da tabela acima, vale a pena ler o artigoO Qualis e a rotina editorial dos periódicos científicos, publicado na terça-feira (10.mar) pela revista “ComCiência”, da Unicamp, por Mônica Frigeri, professora na Puccamp, e por Marko Monteiro, do Instituto de Geociências da Unicamp. Copio aqui um trecho que explica isso.

“As classificações do Qualis são publicadas trienalmente, a partir de critérios definidos pelos comitês de áreas da Capes3, constituídos por membros da comunidade científica. Cada área possui os seus critérios na definição dos estratos dos periódicos que podem ser A1 (nível mais alto), A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C (com peso zero).”

Isso significa que para alguns comitês assessores da Capes —entre eles dois de biologia— a “Cell Biochemistry and Biophysics” é muito boa, enquanto para outros —um deles também de biologia— a revista é muito ruim.

Incerteza

Em conversas minhas com alguns pesquisadores sobre casos de classificações esdrúxulas como essa, referentes a “periódicos predatórios”, e não à revista do Springer, houve uma piada recorrente, inspirada grosso modo na mecânica quântica. Grosso modo, essa teoria explica que a observação de um fenômeno é influenciada pelo próprio observador. (Uma boa abordagem sobre essa teoria está em Partículas telepáticas”).

A piada é que, assim como na interferência na observação pelo próprio observador a que se refere a mecânica quântica, a avaliação de um periódico no Qualis parece também ser influenciada do olhar dos integrantes dos comitês assessores da Capes. Foram em média 20 consultores para cada um dos 48 comitês dessa agência do MEC na avaliação trienal do período 2010-2012, concluída em 2013.

Pode ser que a Capes, seus comitês assessores e muitos pesquisadores não vejam nada de engraçado nessa piada. O problema é que parece crescer cada vez a indignação dos que não vêm nada de sério nessa e em outras esquisitices do Qualis.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/03/16/avaliacao-de-revistas-cientificas-no-brasil-e-quantica/