Faculdade em SP teria usado professores de fachada em curso de pós-graduação

Metade dos professores que aparecem em certificado com suspeita de fraude afirmou à Pública que não ministrou o curso

Faculdade em SP teria usado professores de fachada em curso de pós-graduação  - Agência Pública

  • Campos Salles foi denunciada ao MPF
  • Situação pode levar à responsabilização civil, administrativa e até criminal
  • Em nota, instituição diz que abriu procedimento administrativo

Por Rute Pina e Thiago Domenici para a agência Pública

Amanda* se espantou quando viu seu nome listado ao lado de outros nove professores em um diploma da pós-graduação das Faculdades Integradas Campos Salles (Fics). O nome da professora estava registrado em um certificado do curso de especialização em educação infantil, ministrado de outubro de 2018 a outubro de 2019 na instituição, localizada em São Paulo.

“Eu levei um baita susto porque eu nunca dei aula na pós-graduação. Eu não tinha nem conhecimento daquele curso”, diz a professora, que tem titulação de mestre na área de educação. Ela conta que trabalhou por quatro anos na faculdade, mas, por mais da metade do período do curso em que teria lecionado, já estava fora da instituição.

fcs 1

A reportagem da Pública teve acesso ao certificado que atribuiu aulas que não foram ministradas pelos professores

A Agência Pública entrou em contato com os dez professores que aparecem no diploma sob suspeita de fraude na Fics. Metade confirmou à reportagem que nunca deu aula no curso mencionado – alguns, como Amanda, nem sequer haviam lecionado na pós-graduação. “Fomos usados como laranjas porque eles precisam de mestres e doutores”, avalia a docente.

Também o nome da professora Cimara Apóstolico é um dos que aparecem no corpo docente do curso de educação infantil. Segundo o certificado, ela teria dado a disciplina “Leitura e palavra: a criança como sujeito de educação no ensino infantil”, com duração total de 50 horas. Mas a professora negou à Pública ter ministrado tais aulas. “Eu não lecionei em momento algum na pós-graduação da Campos Salles. Só lecionei na graduação, em vários cursos. Mas, em 2018 e 2019, eu nem tinha horário para lecionar em mais nada. Então, com certeza, não fui eu. Usaram a titulação por alguma razão”, diz.

“Eu levei um baita susto porque eu nunca dei aula na pós-graduação”, afirmou uma professora à reportagem
A professora Silvia*, no entanto, afirmou que deu aula em todos os cursos da pós-graduação, mas não especificou se também no curso suspeito de fraude.

fcs 2

Eu levei um baita susto porque eu nunca dei aula na pós-graduação”, afirmou uma professora à reportagem

A professora Silvia*, no entanto, afirmou que deu aula em todos os cursos da pós-graduação, mas não especificou se também no curso suspeito de fraude.

O curso teria sido oferecido pela universidade na modalidade EAD, ainda que o diploma obtido pela Pública, validado pelo Ministério da Educação (MEC), não especifique a modalidade. De acordo com um ex-aluno que prefere não se identificar, todo o curso de pós-graduação teria ocorrido sem a presença de professores, com uso de apostilas virtuais acessíveis por uma plataforma on-line – situação que não condiz com os critérios estabelecidos pelo MEC para o funcionamento de pós-graduações lato sensu.

A Resolução CNE/CES nº 1, que regula o setor, determina que metade do corpo docente dos cursos de especialização seja constituído de professores portadores de título de mestre ou de doutor, “obtido em programa de pós-graduação stricto sensu reconhecido”. Sem considerar condições extraordinárias, como a pandemia, outra exigência estabelecida pela norma é que “os cursos a distância deverão incluir, necessariamente, provas presenciais e defesa presencial de monografia ou trabalho de conclusão de curso”, o que, segundo o estudante procurado pela reportagem, não ocorreu.

Denúncia no MPF

Em julho de 2020, foi aberto um processo administrativo na Prefeitura de São Paulo para apurar irregularidades no curso oferecido pela Campos Salles, após uma notificação da Diretoria Regional de Educação. O procedimento, no entanto, foi arquivado por fugir à competência do município.

Mas, em março deste ano, suspeitas de fraude na instituição foram denunciadas ao Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo, pelo gabinete do deputado estadual Carlos Gianazzi (Psol) e pela Rede de Educadores do Ensino Superior em Luta.

De acordo com o ofício entregue à Procuradoria, os indícios “sugerem um manuseio intencional, por parte da mantenedora, da atribuição de disciplinas e/ou cursos aos seus profissionais docentes, com o intuito de maximizar as notas de avaliação dos seus cursos, cujos critérios de pontuação passam também pela análise de títulos de todos os docentes vinculados à instituição e aos cursos oferecidos”.

A advogada Beatriz Branco, assessora jurídica do mandato de Giannazi, explica que, no caso de comprovada a utilização de professores de fachada, a instituição pode ser responsabilizada nas esferas civil, administrativa e até criminal.

“No âmbito civil, os professores que tiveram seus nomes utilizados indevidamente podem pleitear danos morais e exigir a retirada de seus nomes dos diplomas já emitidos. Caso ainda possuam vínculo trabalhista, a demanda pode também ir para a Justiça do Trabalho”, diz a advogada. O uso de informações falsas poderia acarretar também suspensão da oferta de cursos na instituição e, no âmbito penal, em investigação criminal na Polícia Federal ou no Ministério Público.

Procurado, o MPF não respondeu até a publicação sobre o andamento da denúncia.

fcs 3José Cícero da Silva/Agência Pública

Coordenação de cursos

A denúncia entregue ao MPF que cita “Falsificação de documento público” apontou também irregularidades na coordenação dos cursos de pós-graduação da universidade e no regime de contratação dos professores.

As Faculdades Integradas Campos Salles têm 127 cursos de especialização cadastrados no MEC, entre presenciais e EaD. A Pública constatou que 31 cursos são oferecidos com regularidade e, antes da pandemia, presencialmente. Destes, oito são coordenados por Luci Ana Santos da Cunha e 17 por Fabio Cristiano de Moraes – ou seja, dois professores são responsáveis pela coordenação de 80% dos cursos de pós-graduação oferecidos pela instituição. Luci, também funcionária pública, ainda acumula a coordenação dos cursos de pós-graduação com as atividades de jornada integral no ensino superior, como ministrar disciplinas em cursos regulares da instituição. Seus nomes também constam no certificado suspeito e denunciado ao MPF. Procurados, eles não retornaram até a publicação.

Profissionais do setor educacional consultados pela reportagem avaliam que coordenar tantos cursos seria uma tarefa sobre-humana. “O máximo que já vi na vida foram três cursos coordenados pelo mesmo profissional, e já era uma situação atípica”, avalia um professor que atua como coordenador numa universidade privada de São Paulo e prefere não se identificar. Apesar de não ser uma situação irregular, o coordenador vê com estranheza um único profissional coordenar 17 cursos.

Demissões e sucateamento

Em 2015, o grupo Campos Salles foi assumido por uma nova gestão. Para oferecer cursos a distância, a instituição teria comprado, em 2019, a plataforma e o material didático da multinacional britânica Pearson, que oferece em seu catálogo “soluções digitais” para mais de 300 disciplinas no ensino superior. Segundo relato de professores, a faculdade começou a aplicar o conteúdo externo da empresa para alunos em recuperação, mas teria expandido a utilização do material para os cursos regulares.

Amanda lembra que, no mesmo ano, a universidade iniciou um processo de demissões de professores. “A faculdade como um todo tinha um sistema bem precarizado de trabalho. Eu cheguei a dar aula para uma turma com quase 120 alunos presencialmente”, relata. Com a demissão de professores com vínculo CLT, a faculdade teria começado a contratação de professores como pessoas jurídicas.

“Eles não pagaram a gente por nada disso porque compraram essa apostila. Passam essa apostila para o aluno ler e um formulário do Google para responder, e ele está em conteúdo de especialização. Sem ter aula nenhuma, sem ter professor nenhum”, diz a professora. Mas, segundo ela, nem tudo pode ser automatizado: “Fomos usados porque eles precisam dos nomes de mestres e doutores para o MEC, né?”.

Segundo os relatos, outro problema que seria de conhecimento da instituição é um suposto histórico de calotes e atrasos de pagamento de salários dos professores. Cimara Apostólico, que está afastada da instituição há quase dois anos, conta que os professores ficaram sem receber por seis meses em 2014.

“Eles não tinham condições de pagar. As instituições de maneira geral passaram por vários ajustes. Aí, a gente vê lá o preço do curso, R$ 100. Alguma coisa está acontecendo, né? E o que está acontecendo, na verdade, é um sucateamento do salário do professor, uma desvalorização. Eles mandaram embora muitos professores, ficaram poucos na casa, recebendo um salário que não é um salário de professor universitário”, diz a professora. “A gente tem a responsabilidade na formação de um indivíduo que também vai formar outros.”

Desde 2015, o Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, que abrange a cidade de São Paulo e as regiões de Guarulhos, Osasco, ABC paulista e Baixada Santista, já recebeu 73 novos processos trabalhistas contra a Associação Educativa Campos Salles, mantenedora da instituição de ensino. Só neste ano, 11 novos casos chegaram à Justiça do Trabalho.

Em setembro do ano passado, a Pública já havia relatado casos de outras universidades privadas que, em meio à pandemia, davam aulas on-line com 300 alunos e demitiram milhares de docentes, muitos por pop-up.

Outro lado

Em nota enviada à Pública, as Faculdades Integradas Campos Salles informaram a instauração de um procedimento administrativo para averiguar a existência de vícios formais ou materiais, “não apenas em relação à expedição do referido Certificado, mas também em relação à situação acadêmica e administrativa de toda a atuação discente e docente no curso”.

“Em toda a história da Fics, essa é a primeira vez que recebemos uma denúncia nestes termos, onde, havendo irregularidades, serão aplicadas as sanções previstas em nosso regimento e também na legislação pertinente”, diz nota enviada à reportagem. Sobre os “supostos indícios de manuseio intencional para maximização de notas em nossos cursos”, a instituição informou que os programas de pós-graduação lato sensu não possuem indicadores de qualidade vinculados à titulação.

“No desenvolvimento de nossos cursos, empregamos diversos tipos de conteúdos síncronos e assíncronos, com materiais próprios e de terceiros, constando em nossos certificados os professores que lecionaram aulas síncronas e assíncronas, presenciais ou à distância, professores responsáveis por seu desenvolvimento ou professores que atuam na construção conceitual das disciplinas de suas cátedras dos eixos de formação dos cursos participantes dos Núcleos de Desenvolvimento Estruturantes (NDE), Colegiados de Curso (CONCUR) e do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CONSEPE)”, afirma a nota da faculdade.

Procurado, o MEC não respondeu até a publicação

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pela agência Pública [Aqui!].

O MEC sob o império de Provérbios 23:13-14

milton2O pastor Milton Ribeiro, o novo indicado para ocupar o cargo de ministro da Educação (Foto: Divulgação)

Falo pouco sobre o assunto, mas sou descendente de uma linhagem de educadores que teve início com minha avó materna que passou mais de três décadas em uma escola rural oferecendo o que tinha de melhor para ensinar desde o filho dos meeiros até os dos fazendeiros.  Tendo iniciado sua labuta lá pelos meados da década de 1930, a minha avó fez uso de um instrumento que aterrorizou crianças por muito tempo nas escolas brasileiras, a palmatória (ver imagem abaixo no momento em que uma criança era castigada em uma escola da Bahia no século XIX).

palmatória

Dita uma lenda familiar que a palmatória que minha avó usou acabou tendo um destino inglório após a sua morte junto com outros documentos que ela guardou por mais de três décadas. No momento da morte da minha avó, a palmatória não era mais do que uma relíquia histórica, e se me lembro bem o instrumento de punição era guardado apenas como um a lembrança e nada mais.

Eis que agora, em pleno século XXI, o governo Bolsonaro vai ter no comando do Ministério da Educação e Cultura, um pastor presbiteriano que parece acreditar na “Lei da Vara”, tal como aparece em Provérbios 23:13-14  (ver vídeo abaixo).

A quem estiver surpreso com a escolha, e com a rápida aprovação pela bancada evangélica e pela chamada “ala ideológica” do governo Bolsonaro, eu diria que o pastor (é assim que ele se apresenta no vídeo acima) Milton Ribeiro está à altura do que se pode esperar do presidente Jair Bolsonaro e sua suposta cruzada (que é só suposta mesmo) em nome dos valores da família.

Mas mais do que um acordo doutrinário, basta olhar o currículo Lattes de Milton Ribeiro, que não possui nenhuma indicação de que ele é capaz de pensar fora da caixa (usando um termos em voga no chamado “empreendedorismo”) religiosa à qual ele pertence.  Uma coisa incrível é que Milton Ribeiro, tendo atuado como reitor e vice reitor da Universidade Mackenzie consegue ter uma produção acadêmico aquém daquela apresentada por todos os que ocuparam até aqui o cargo de ministro da Educação no governo Bolsonaro (notem que os anteriores não era nenhum primor acadêmico, a começar por Vélez Rodrigues, passando por Abraham Weintraub, e desembocando em Carlos Alberto Decotelli!). Em outras palavras, Milton Ribeiro não apenas mantém um padrão acadêmico medíocre, mas como deverá manter a postura de guerra cultural que Abraham Weintraub cumpriu até fugir espetacularmente para os EUA.

Aos que defendem a educação pública de qualidade fica a lição de que sob este governo não há o que esperar de melhor, mas que sempre é possível cumprir a Lei de Murphy que estipula que “nada está tão ruim que não possa piorar”.  Desta lição deve decorrer a realização de que não haverá tempo fácil para conter o desmantelamento de nossas escolas e universidades públicas enquanto o governo Bolsonaro perdurar. 

Para fazer essa defesa haverá a clara necessidade de não temer a vara que está sendo posta sobre as costas dos educadores brasileiros.  É que o custo de qualquer vacilação vai ser alto, especialmente para as crianças pobres que são obrigadas a frequentar um sistema público de ensino cada vez mais sucateado.  Aliás, como em tantas outras esferas dentro do governo Bolsonaro onde o discurso pela família se mistura com a busca de lucros privados a partir do público, árvores recém-derrubadas na Amazônia já devem estar sendo serradas para garantir a volta triunfal da palmatória. A ver!

MEC ao léu: Renato Feder pede para sair sem ter entrado

feder paranáApós rejeição implacável ao seu nome por “olavistas” e “militares, Renato Feder usa Twitter para declinar convite para ser o próximo ministro da Educação

A situação seria cômica se não fosse extremamente trágica. É que neste domingo, o secretário estadual de Educação do Paraná, Renato Feder, gerou mais uma situação humilhante para o governo Bolsonaro ao declinar via sua página na rede social Twitter o convite que teria sido feito a ele pelo presidente Jair Bolsonaro (ver imagem abaixo).

renato feder declina

A situação de um convite ser “declinado” via redes sociais é insólita, e mostra o desprestígio do convite e de quem o fez. Em um passado não muito distante, o convite para ocupar um ministério seria celebrado e tratado com mais cuidado, e a situação que está posta é rara, mesmo para um país com um sistema político chegado à excentricidades como é o brasileiro.

Com a recusa de Renato Feder, o governo Bolsonaro está com pelo menos dois ministérios importantes sem um ocupante definitivo,  Saúde e Educação, justamente quando eles são chamados a ocupar um papel relevante no combate à uma pandemia letal como é a da COVID-19.

Por outro lado, o tratamento displicente que o presidente Bolsonaro dispensa à indicação dos ministros dessas duas pastas deixa claro que estas duas áreas não são vistas como estratégicas, o que é deixado explícito por essa sucessão de vexames que tem sido a tentativa de encontrar um substituto para um ministro que teve um desempenho para lá de pífio, como foi o caso de Abraham Weintraub no MEC.

Um detalhe mórbido sobre essa recusa pública de Renato Feder foi a oposição que seu nome sofreu de duas alas, ideológica e militar, que se debatem para saber quem determina as linhas de ação do governo Bolsonaro. É que aparentemente, Feder foi rejeitado simplesmente por não ser truculento ou direitista o suficiente. Como eu disse no início desta postagem, a situação do governo Bolsonaro seria cômica se não fosse trágica.

Finalmente, desconfio que neste momento há algum militar engalanado engraxando o sapato e engomando o terno para assumir o MEC. Temporariamente, é claro.

Carlos Alberto Decotelli mostra no Lattes como fazer do limão, uma limonada

limonadaCarlos Alberto Decotelli fez dos limões, uma limonada

Fala-se o que se falar de Carlos Alberto Decotelli, o brevíssimo terceiro ministro da Educação do governo Bolsonaro, mas ele é um homem que sabe fazer dos limões que o destino atira em sua vida belas limonadas.

Demitido após apenas cinco dias no cargo de ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, atualizou no dia de ontem o resumo biográfico do seu currículo vitae na Base Lattes para incluir a importante informação de que “entre 25 e 30 de junho de 2020, atuou como Ministro da Educação do Brasil” (ver imagem abaixo).

decotelli limonada

Uma coisa é certa: da próxima que eu me sentir deprimido por causa de algum sobressalto em minha vida, vou lembrar do professor Decotelli e seu exemplo de fabricante de limonadas.

Com Renato Feder, Bolsonaro mantém ministro com zero impacto acadêmico e perfil privatista no MEC

O presidente Jair Bolsonaro informou hoje que o atual secretário estadual de Educação do Paraná, Renato Feder, será o próximo ocupante da chefia do MEC, mantendo um perfil que se repete desde a indicação do professor Ricardo Vélez Rodriguez que é o de ter a pasta ocupada por personagens com baixíssimo ou nenhum impacto acadêmico. No caso de Renato Feder, ao contrário da versão mitômana de Carlos Alberto Decotelli, a visita à Base Lattes mostra que Feder não possui qualquer preocupação com seu perfil acadêmico, pois a currículo que lá está depositado não é atualizado desde Dezembro de 2002 quando ele sequer tinha terminado o seu mestrado em Economia pela Universidade de São Paulo (ver imagem abaixo).

renato feder

Mas o perfil acadêmico de impacto inexistente não é o problema real de Renato Feder.  O pior mesmo são suas ideias privatistas e contra a educação pública (ver abaixo sequência de imagens com o que pode ser considerado o pensamento Feder em estado puro).

Ainda que agora Feder esteja dizendo que abandonou parte das suas ideias, que foram apresentadas no livro “Carregando o Elefante – como transformar o Brasil no país mais rico do mundo” publicado em parceria com Alexandre Ostrowiecki em 2007 (ver foto dos dois em uma performance na empresa Multilaser na qual os dois são sócios) (ver imagens abaixo).

 Mas como já dizia o profeta Jeremias “o leopardo não pode mudar a variedade das suas manchas”. E isto ficou verificado na atuação de Feder como secretário estadual de Educação do Paraná. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores da Educação Pública do Paraná (o APP Sindicato), Renato Feder marcou sua gestão por um enfoque no “controle das ações das equipes escolares, por meio do desenvolvimento da tecnologia, criação das funções dos tutores (professores lotados nos núcleos regionais de educação que desenvolvem a função de verdadeiros capatazes dos seus iguais), das avaliações externas e da retirada de autonomia das unidades escolares“.

Um dos “feitos” de Renato Feder enquanto secretário estadual de Educação do Paraná foi contratar, com dispensa de licitação, de uma rede afiliada da TV Record  para transmitir vídeo-aulas para alunos da rede estadual durante a pandemia de Covid-19.  Um detalhe curioso marcou essa contratação com dispensa de licitação: a empresa contratada não possuía sinal de transmissão em quase a metade do estado, o que deixou, segundo o site “The Intercept“, “mais de 2 milhões de pessoas vivem nas cidades que ficaram no escuro educacional – o que é quase um quinto da população do Paraná”.

Por essas nuances todas, eu me atrevo a fazer um trocadilho medonho que é dizer que com Renato Feder no MEC, as coisas têm tudo para feder.  Assim, para quem esperava algum tipo de refresco nos enfrentamentos em defesa da educação pública, sugiro esquecer e arregaçar as mangas para impedir retrocessos ainda mais graves. A ver!

Abatido por inconsistências em seu currículo, caiu Carlos Alberto Decotelli, o brevíssimo ministro da Educação de Bolsonaro

decotelli demissão

Após míseros 5 dias como ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli apresentou seu pedido de demissão (pedido este que foi rapidamente aceito pelo presidente Jair Bolsonaro), após ter seu currículo acadêmico reduzido a pó por causa de uma série de adições indevidas, a começar por um inexistente título de Doutor pela Universidade Nacional de Rosário.

O caso Decotelli não é apenas um embaraço pessoal, mas para todo o governo Bolsonaro, especialmente para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), comandado pelo general da reserva Augusto Heleno, que falhou miseravelmente na tarefa básica de checar a veracidade do currículo de um candidato a ocupar um ministério em que os dois ministros anteriores (Velez Rodriguez e Weintraub) já causaram graves danos ao seu funcionamento.

Mas os problemas causados pela colocação de uma pessoa contumaz em, digamos, embelezar seu currículo acadêmico vão além dele e do governo ao qual ele breve pertenceu em duas coisas ocasiões (lembremos que Decotelli também ocupou rapidamente a presidência do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE)). 

É que ao cair por ser associado à, no mínimo, ao enriquecimento indevido de currículo, Decotelli também prejudica diretamente os esforços para garantir o acesso de afro-brasileiros a cargos chaves no Brasil.  É que efetivamente existem pouquíssimos afro-descendentes em postos de comando, e quando um consegue chegar logo é abatido por motivos que efetivamente não contribuem para que outros possam ser alçados a cargos de poder, em função do racismo sistêmico (ou estrutural) que existe em nosso país.

Um detalhe correlato, e que não passará despercebido por quem luta pela igualdade racial no Brasil, é que Carlos Alberto Decotelli não foi o único ministro do governo Bolsonaro a ser pego com incongruências entre o declarado e o real no tocante ao currículo acadêmico. Dois casos exemplares são os do ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que foi pego com um título de mestrado “ghost” de Direito Público na Harvard University e a ministra da Mulher, Familia e Direitos Humanos, Damares Alves, que teve desmentidos seus supostos títulos de “Mestre em Educação e de Direito Constitucional e Direito da Família”.  Entretanto, ao contrário de Carlos Decotelli, tanto Ricardo Salles e Damares Alves continuam firmes e fortes em seus cargos de ministro.

De toda forma, a demissão de Carlos Alberto Decotelli é um exemplo claro de que com em tempos de informações amplamente disponíveis na rede mundial de computadores se torna um risco assumir graus acadêmicos que efetivamente não são possuídos.  O interessante é, que mesmo diante disto, há quem se faça de desentendido e insista em declarar produções científicas inexistentes; existindo casos em que mesmo um erro desse gênero tendo sido avisado em debate público, o docente avisado nunca se deu ao trabalho de corrigir o erro.  Isto para mim sinaliza que o meio acadêmico brasileiro ainda é, no mínimo, muito tolerante com esse tipo de prática. E, por isso, de tempos em tempos, somos pegos com casos similares ao que agora ocorreu com o agora ex-ministro Decotelli.

Mas é bom lembrar que essa tolerância não é universal, como bem demonstrou o reitor da Universidade Nacional de Rosário que foi o primeiro a vir a público para começar a desfazer o castelo de areia acadêmico que Carlos Alberto Decotelli construiu e conseguiu deixar de tempo por muito tempo. Que este caso, e o inglório fim do brevíssimo ministro da Educação sirva de exemplo aos incautos.

O relatório “pós-doutoral” de Carlos Alberto Decotelli: mais para lista telefônica do que para avanço científico

Ao tentar defender o ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, do fato inescapável de que ele incluiu um título de Doutor que não obteve, e que sua dissertação de Mestrado possui traços óbvios de plágio, o MEC divulgou uma nota supostamente para defender os méritos acadêmicos do terceiro chefe da pasta em 18 meses de governo Bolsonaro.

Um parágrafo em especial trata do agora inverossímil pós-doutorado na Universidade de Wuppertal e diz o seguinte:

decotelli pós

O curioso é que, ao contrário do que declara nota do MEC, há um relatório de pesquisa depositado na Biblioteca Digital da Fundação Getúlio Vargas no qual o ministro Decotelli apresenta os resultados dos trabalhos que realizou na Universidade de Wuppertal, em alemão Aqui! e inglês Aqui!.

Para mim, o mais notável do relatório preparado pelo ministro Decotelli é que 60 das 92 páginas que compõe o documento são usadas para apresentar uma lista de empresas que comercializam implementos agrícolas no Brasil. O restante, desde a introdução até

No reino do faz de conta: suposto orientador do novo ministro do MEC nega existência da tese de Doutorado

Decotelli

Tal como seu antecessor, Abraham Weintraub, o novo ministro do MEC, Carlos Alberto Decotelli, não possui título de Doutorado, apesar de dizer que tem.

Como já observei um aspecto curioso da atual conjuntura histórica brasileira é a prática de ocupantes de cargo de governo que se outorgam títulos acadêmicos que depois se descobre serem inexistentes. Isso já aconteceu com o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que alegou ter um grau inexistente de Doutor pela Harvard University, mesma instituição em que o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles,  dizia ter um “fake diploma” de mestrado em Direito Público pela prestigiosa instituição estadunidense.

Mas nem um dos casos anteriores ganhou ares de vexame tão grandes quanto o que está acontecendo com o novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, que foi flagrado ostentando em seu currículo Lattes um título de doutor em Administração pela Universidade Nacional de Rosário que teve sua existência inicialmente negada pelo reitor da instituição.

Agora, em um matéria assinada pelo jornalista José Brito da CNN Brasil, o caso do novo ministro da Educação subiu um degrau na escada do vexame. É que segundo apurou José Brito, “a tese de Doutorado intitulada ‘Gestão de Riscos na Modelagem dos Preços da Soja’ do novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, sequer foi concluída pela Universidade Nacional de Rosário, na Argentina“.  Em suas apurações, José Brito ouviu inclusive o orientador do trabalho e pró-reitor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Antonio de Araujo Freitas Junior, que afirmou de forma direta e simples que “Não houve tese”.

O vexame cresce em magnitude, pois o currículo de Carlos Alberto Decotelli na Base Lattes foi atualizado nesta 6a. feira (26/06) constando a informação do título de doutorado que agora se revela inexistente. 

Muitos poderão dizer que essa situação não terá efeito algum sobre a administração de Carlos Alberto Decotelli à frente do MEC, pois estamos vivendo um período em que as “fake news” já reinam absolutas, transformando em uma espécie de país do faz de conta. Eu já penso que a situação do novo ministro já se tornou delicada, mesmo antes dele adotar qualquer medida de impacto. Resta agora saber o que mais vai aparecer sobre, digamos, as incongruências entre o que está no currículo de Carlos Alberto Decotelli e aquilo que efetivamente existiu.

Mas uma coisa é certa: o suposto pós-doutorado na Universidade de Wuppertal é uma impossibilidade lógica: é que para alguém ser pós-doutor, primeiro há que se ter um título de doutor. Dai que….

Alguém avise o MEC: treino é treino, não é jogo, e o novo ministro da pasta não é doutor

certificado decotelliO MEC acaba de divulgar o certificado  acima para atestar que novo ministro da Educação completou as disciplinas do doutorado em Administração na Universidade Nacional de Rosário. Agora falta mostrar o diploma de doutorado de Carlos Alberto Decotelli. Sem isso ele não é doutor, mas apenas alguém que cursou disciplinas de doutorado. Se fosse futebol seria algo como “participou de todos os treinos, mas acabou não entrando no jogo”.

Para ser doutor tem que ter defendido uma tese de doutorado. Simples assim!

Reitor da Universidade de Rosário desmente doutorado do novo ministro da Educação

O governo Bolsonaro tem oferecido ao Brasil uma sucessão interminável de vexames, vários deles na área da titulação acadêmica, pois vários de seus ministros (incluindo os casos mais notáveis de Ricardo Salles e Damares Alves) foram flagrados acenando diplomas que se descobrem serem inexistentes. Esse é um fato curioso, pois os mesmos que tanto parecer desprezar as titulações acadêmicas dos seus críticos, acabam sendo flagrados não com “fake news“, mas com “fake diplomas“.

Eis que agora temos uma situação inusitada: ao informar da nomeação do novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli da Silva, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que o terceiro ocupante da chefia da pasta possui um título de doutor em Administração pela Universidade de Rosário na Argentina. Com uma curiosidade natural, me dirigi à Base Lattes e acessei o curriculum vitae do ministro da Educação, onde foi confirmada a informação de que ele deteria um diploma de doutor pela Universidade de Rosário . E o interessante é que a versão atualizada no dia de hoje oferece a informação de forma explícita (ver imagem abaixo)

decotelli doutorado 1

Tudo certo então? Si, pero no mucho.  É que no início da tarde desta 6a. feira, o reitor da Universidade de Rosário, professor Franco Bortalacci, usou sua página na rede social Twitter para desmentir a informação fornecida pelo presidente Jair Bolsonaro de que o novo ministro da Educação deteria um título de doutor pela instituição da qual Bortalacci é o dirigente máximo (ver imagem abaixo).

decotelli doutorado 0

Apesar deste não ser o primeiro caso de titulação alegada mas não possuída, o caso ganha tons de vexame, na medida em que Franco Bortalacci é um cientista político interessado na representação dos sistemas eleitorais, participação democrática e partidos políticos. Assim, ao emitir esse desmentido de forma tão categórica, o reitor da Universidade de Rosário acaba colocando um carimbo indesejável na testa de Jair Bolsonaro e do seu  novo ministro da Educação.  Esse carimbo é o do “fake diploma”, algo que pega muito mal, se não no Brasil, mas no resto do mundo. É que, por exemplo, na Europa vários ministros importantes foram arremessados para fora de seus respectivos governos por deslizes em seus currículos acadêmicos.

E pensar que ontem escrevi que com Decotelli iríamos ter outro ministro com perfil acadêmico de baixo impacto. Eu só não imaginava que o impacto baixo começava logo com um título de doutor inexistente.

Resta ainda lembrar que no momento do preenchimento do currículo na Base Lattes, a pessoa que presta informações é lembrada que o fornecimento de informações acadêmicas falsas remonta a crime de falsidade ideológica. Resta agora acompanhar o que dirá oficialmente novo ministro da Educação.  A ver!