O relatório “pós-doutoral” de Carlos Alberto Decotelli: mais para lista telefônica do que para avanço científico

Ao tentar defender o ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, do fato inescapável de que ele incluiu um título de Doutor que não obteve, e que sua dissertação de Mestrado possui traços óbvios de plágio, o MEC divulgou uma nota supostamente para defender os méritos acadêmicos do terceiro chefe da pasta em 18 meses de governo Bolsonaro.

Um parágrafo em especial trata do agora inverossímil pós-doutorado na Universidade de Wuppertal e diz o seguinte:

decotelli pós

O curioso é que, ao contrário do que declara nota do MEC, há um relatório de pesquisa depositado na Biblioteca Digital da Fundação Getúlio Vargas no qual o ministro Decotelli apresenta os resultados dos trabalhos que realizou na Universidade de Wuppertal, em alemão Aqui! e inglês Aqui!.

Para mim, o mais notável do relatório preparado pelo ministro Decotelli é que 60 das 92 páginas que compõe o documento são usadas para apresentar uma lista de empresas que comercializam implementos agrícolas no Brasil. O restante, desde a introdução até

No reino do faz de conta: suposto orientador do novo ministro do MEC nega existência da tese de Doutorado

Decotelli

Tal como seu antecessor, Abraham Weintraub, o novo ministro do MEC, Carlos Alberto Decotelli, não possui título de Doutorado, apesar de dizer que tem.

Como já observei um aspecto curioso da atual conjuntura histórica brasileira é a prática de ocupantes de cargo de governo que se outorgam títulos acadêmicos que depois se descobre serem inexistentes. Isso já aconteceu com o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, que alegou ter um grau inexistente de Doutor pela Harvard University, mesma instituição em que o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles,  dizia ter um “fake diploma” de mestrado em Direito Público pela prestigiosa instituição estadunidense.

Mas nem um dos casos anteriores ganhou ares de vexame tão grandes quanto o que está acontecendo com o novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, que foi flagrado ostentando em seu currículo Lattes um título de doutor em Administração pela Universidade Nacional de Rosário que teve sua existência inicialmente negada pelo reitor da instituição.

Agora, em um matéria assinada pelo jornalista José Brito da CNN Brasil, o caso do novo ministro da Educação subiu um degrau na escada do vexame. É que segundo apurou José Brito, “a tese de Doutorado intitulada ‘Gestão de Riscos na Modelagem dos Preços da Soja’ do novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, sequer foi concluída pela Universidade Nacional de Rosário, na Argentina“.  Em suas apurações, José Brito ouviu inclusive o orientador do trabalho e pró-reitor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Antonio de Araujo Freitas Junior, que afirmou de forma direta e simples que “Não houve tese”.

O vexame cresce em magnitude, pois o currículo de Carlos Alberto Decotelli na Base Lattes foi atualizado nesta 6a. feira (26/06) constando a informação do título de doutorado que agora se revela inexistente. 

Muitos poderão dizer que essa situação não terá efeito algum sobre a administração de Carlos Alberto Decotelli à frente do MEC, pois estamos vivendo um período em que as “fake news” já reinam absolutas, transformando em uma espécie de país do faz de conta. Eu já penso que a situação do novo ministro já se tornou delicada, mesmo antes dele adotar qualquer medida de impacto. Resta agora saber o que mais vai aparecer sobre, digamos, as incongruências entre o que está no currículo de Carlos Alberto Decotelli e aquilo que efetivamente existiu.

Mas uma coisa é certa: o suposto pós-doutorado na Universidade de Wuppertal é uma impossibilidade lógica: é que para alguém ser pós-doutor, primeiro há que se ter um título de doutor. Dai que….

Alguém avise o MEC: treino é treino, não é jogo, e o novo ministro da pasta não é doutor

certificado decotelliO MEC acaba de divulgar o certificado  acima para atestar que novo ministro da Educação completou as disciplinas do doutorado em Administração na Universidade Nacional de Rosário. Agora falta mostrar o diploma de doutorado de Carlos Alberto Decotelli. Sem isso ele não é doutor, mas apenas alguém que cursou disciplinas de doutorado. Se fosse futebol seria algo como “participou de todos os treinos, mas acabou não entrando no jogo”.

Para ser doutor tem que ter defendido uma tese de doutorado. Simples assim!

Reitor da Universidade de Rosário desmente doutorado do novo ministro da Educação

O governo Bolsonaro tem oferecido ao Brasil uma sucessão interminável de vexames, vários deles na área da titulação acadêmica, pois vários de seus ministros (incluindo os casos mais notáveis de Ricardo Salles e Damares Alves) foram flagrados acenando diplomas que se descobrem serem inexistentes. Esse é um fato curioso, pois os mesmos que tanto parecer desprezar as titulações acadêmicas dos seus críticos, acabam sendo flagrados não com “fake news“, mas com “fake diplomas“.

Eis que agora temos uma situação inusitada: ao informar da nomeação do novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli da Silva, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que o terceiro ocupante da chefia da pasta possui um título de doutor em Administração pela Universidade de Rosário na Argentina. Com uma curiosidade natural, me dirigi à Base Lattes e acessei o curriculum vitae do ministro da Educação, onde foi confirmada a informação de que ele deteria um diploma de doutor pela Universidade de Rosário . E o interessante é que a versão atualizada no dia de hoje oferece a informação de forma explícita (ver imagem abaixo)

decotelli doutorado 1

Tudo certo então? Si, pero no mucho.  É que no início da tarde desta 6a. feira, o reitor da Universidade de Rosário, professor Franco Bortalacci, usou sua página na rede social Twitter para desmentir a informação fornecida pelo presidente Jair Bolsonaro de que o novo ministro da Educação deteria um título de doutor pela instituição da qual Bortalacci é o dirigente máximo (ver imagem abaixo).

decotelli doutorado 0

Apesar deste não ser o primeiro caso de titulação alegada mas não possuída, o caso ganha tons de vexame, na medida em que Franco Bortalacci é um cientista político interessado na representação dos sistemas eleitorais, participação democrática e partidos políticos. Assim, ao emitir esse desmentido de forma tão categórica, o reitor da Universidade de Rosário acaba colocando um carimbo indesejável na testa de Jair Bolsonaro e do seu  novo ministro da Educação.  Esse carimbo é o do “fake diploma”, algo que pega muito mal, se não no Brasil, mas no resto do mundo. É que, por exemplo, na Europa vários ministros importantes foram arremessados para fora de seus respectivos governos por deslizes em seus currículos acadêmicos.

E pensar que ontem escrevi que com Decotelli iríamos ter outro ministro com perfil acadêmico de baixo impacto. Eu só não imaginava que o impacto baixo começava logo com um título de doutor inexistente.

Resta ainda lembrar que no momento do preenchimento do currículo na Base Lattes, a pessoa que presta informações é lembrada que o fornecimento de informações acadêmicas falsas remonta a crime de falsidade ideológica. Resta agora acompanhar o que dirá oficialmente novo ministro da Educação.  A ver!

Com Carlos Alberto Decotelli, governo Bolsonaro tem mais um ministro da Educação com perfil acadêmico de baixo impacto

decotelli e bolsonaro_3O presidente Jair Bolsonaro anunciou hoje a indicação de Carlos Alberto Decotelli, ex-presidente do FNDE, para ocupar o cargo de ministro da Educação

O anúncio de Carlos Alberto Decotelli para ser o terceiro ministro da Educação do governo Bolsonaro me deixou por poucos minutos que algo de errado tinha acontecido no processo de seleção,  já que ele foi anunciado como o possuir até de um pós-doutorado em uma universidade no norte da Alemanha, a Universidade de Wuppertal.  Em um primeiro olhar nas notas publicadas pela mídia corporativa foi dada a impressão de que Decotelli representaria uma espécie de partida do padrão “Weintraub” de ministro da Educação.

Mas bastou olhar o Currículo Lattes de Carlos Alberto Decotelli para notar que, apesar da  sua condição de possuidor de um título de doutor,  sua produção acadêmica é de alguém com perfil acadêmico de baixo impacto. Entre outras evidências disso está o fato que o ministro Decotelli não publicou sequer um artigo científico em sua carreira acadêmica, iniciada quando ele entrou no curso de graduação em Ciências Sociais em 1975. Além disso, o mais saliente de seu perfil profissional é não apenas a sua relação com uma série de cooperativas de crédito agrícola, mas também sua atuação em outros cargos do governo Bolsonaro, notadamente a sua efêmera passagem pela presidência do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Isto sem falar na sua passagem no Centro de Jogos de Guerra na Escola de Guerra Naval – EGN.

Mas foi justamente no FDE que a primeira menção negativa surgiu em em relação ao agora ministro Decotelli, visto que foi na sua gestão  que ocorreu a suspensão, pelo Tribunal de Contas da União (TCU), de uma licitação de R$ 3 bilhões por causa dos “riscos de  sobrepreço e de propostas de venda fictícias“; licitação essa que teve sua autorização.

Além disso, a mídia já tratou de informar que Carlos Alberto Decotelli fez parte da equipe de transição do presidente Jair Bolsonaro, por possuir relações profissionais com o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, e com o ainda ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes. Tais relações o habilitam como alguém que não apenas compartilha dos valores reinantes no governo Bolsonaro, mas como um ator importante no estabelecimento de uma visão pró-mercado na Educação brasileira.

Aliás, convenhamos, se o perfil de Carlos Alberto Decotelli não fosse o que é, ele dificilmente seria alçado a qualquer cargo importante, como são os casos da presidência do bilionário FNDE e agora do ministério da Educação.

Diante desse quadro, não tenho qualquer perspectiva de mudança nos rumos do ministério da Educação no governo Bolsonaro, ainda que esteja entrando um ministro que não será tão incompetente quanto Abraham Weintraub. E isto, meus caros leitores, poderá representar ainda mais prejuízos para a sustentabilidade do sistema público de ensino no Brasil. É que boa parte dos ataques pretendidos por Weintraub nunca decolaram por causa da sua inépcia para o cargo.  Dai que ainda pode prevalecer aquela Lei de Murphy que postula “que nada está tão ruim que não possa piorar”. A ver!

Entidades científicas questionam norma do MEC que limita participação em eventos

 

sbpc

Cerimônia de abertura da última reunião anual da SBPC, realizada no campus da UFMS, em Campo Grande – Foto: Jardel Rodrigues/SBPC

Por Herton Escobar para o Jornal da USP

Organizações científicas de todo o Brasil estão solicitando ao Ministério da Educação (MEC) a revisão de uma norma que parece limitar o número de professores autorizados a se ausentar para participar de congressos, seminários e outros eventos que sejam realizados fora de suas próprias instituições.

A regra está descrita no Artigo 55 da Portaria 2.227 do MEC, publicada em 31 de dezembro de 2019, que diz: “A participação de servidores em feiras, fóruns, seminários, congressos, simpósios, grupos de trabalho e outros eventos será de, no máximo, dois representantes para eventos no país e um representante para eventos no exterior, por unidade, órgão singular ou entidade vinculada”.

A exigência se aplica independentemente de quem estiver financiando  a viagem — mesmo que o servidor esteja pagando do próprio bolso, sem custo nenhum ao poder público. “Todas as viagens, no interesse da Administração, no âmbito do MEC, devem ser registradas no Sistema de Concessão de Diárias e Passagens – SCDP, mesmo nos casos de afastamento sem ônus ou com ônus limitado”, diz o Artigo 2º .

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) enviaram carta ao ministro Abraham Weintraub, em 23 de janeiro, pedindo a revisão da portaria e explicando a importância da participação de docentes, pesquisadores e alunos em eventos de natureza científica, tanto nacionais quanto internacionais.

“Essa portaria acarreta um risco iminente para missões bilaterais e grandes colaborações internacionais, nas quais a participação brasileira tem tido grande destaque”, diz a carta, subscrita desde então por mais de 60 outras entidades científicas. “A Portaria do MEC inibe a interação entre os pesquisadores brasileiros, prejudica a internacionalização e o protagonismo da ciência e da tecnologia nacionais. Urge revisá-la”, conclui o documento (reproduzido na íntegra abaixo).

Uma consulta feita pela reportagem indica que essa limitação no número de servidores autorizados a participar de eventos já existe desde 2009, no Artigo 15 da Portaria 403 do MEC daquele ano. Esse artigo, por sua vez, recebeu nova redação na Portaria 1.500, de agosto de 2019; e reapareceu consolidado, agora, na Portaria 2.227 — que revoga e substitui essas duas portarias anteriores.

O MEC informou que está revendo a portaria (leia a íntegra da nota abaixo).

Dúvidas

A nova portaria não é clara em diversos aspectos. Há dúvidas, por exemplo, se todas as suas regras se aplicam, de fato, aos docentes e funcionários das universidades federais (que são entidades vinculadas ao MEC), ou se tratam apenas dos servidores da administração direta da pasta em Brasília.

O Art. 4º da portaria define “servidor” como “pessoa legalmente investida em cargo público em exercício no MEC”. O Art. 62 diz: “Fica delegada competência aos dirigentes máximos das universidades, institutos federais e demais autarquias, fundações e empresas públicas vinculadas ao MEC para autorizarem, no âmbito de suas respectivas entidades, o afastamento da sede e a concessão de diárias e passagens para deslocamentos, nacionais e internacionais”.

No caso do Art. 55, o texto não esclarece o que quer dizer com “unidade, órgão singular ou entidade vinculada”, deixando a porta aberta para interpretações diversas. Caso a portaria se aplique às universidades, dois docentes de um mesmo departamento não poderiam participar de um congresso internacional da sua área, por exemplo — ou mesmo dois docentes de uma universidade, dependendo da definição que se atribuir a “unidade, órgão singular ou entidade vinculada”.

Servidores das universidade federais já são obrigados a pedir autorização toda vez que precisam se ausentar temporariamente de suas instituições — seja por motivo de férias, participação em congressos, ou mesmo para participar de uma reunião em outra cidade, por exemplo. Tipicamente, os pedidos devem ser protocolados com uma antecedência mínima de 30 dias, aprovados em diversas instâncias (do chefe de departamento até o reitor), e publicados no Diário Oficial.

Atualização

Procurado pela reportagem nesta quinta-feira, o MEC emitiu o seguinte posicionamento: “O Ministério da Educação esclarece que a Portaria 2227, de 31 de dezembro de 2019, não proíbe o deslocamento de servidores do MEC. A publicação prevê a possibilidade de ampliação da quantidade de participantes, em casos excepcionais. No momento, a portaria está sendo revisada e analisada para possíveis modificações, em atendimento à solicitação de pesquisadores, professores e reitores das universidade e institutos federais.”

Abaixo, o texto na íntegra da carta da ABC e SBPC, enviada ao MEC no dia 23:

Senhor Ministro,

As entidades abaixo relacionadas vêm à vossa presença solicitar que seja revista a Portaria nº 2.227, de 31 de dezembro de 2019, que dispõe sobre os procedimentos para afastamento da sede e do país e concessão de diárias e passagens em viagens nacionais e internacionais, a serviço, no âmbito do Ministério da Educação, no que se refere ao artigo 55 descrito a seguir.

Art. 55. A participação de servidores em feiras, fóruns, seminários, congressos, simpósios, grupos de trabalho e outros eventos será de, no máximo, dois representantes para eventos no país e um representante para eventos no exterior, por unidade, órgão singular ou entidade vinculada.

Parágrafo único. Somente em caráter excepcional e quando houver necessidade devidamente justificada, por meio de exposição de motivos dos dirigentes das unidades, o número de participantes poderá ser ampliado mediante autorização prévia e expressa do Secretário-Executivo.

Nesse sentido, fazemos as seguintes considerações:

  1. As agências de pesquisa e os pesquisadores brasileiros têm envidado grandes esforços para melhorar a qualidade da ciência feita no Brasil. Uma das melhores maneiras para atingir esse objetivo, reconhecida internacionalmente, consiste em estimular a mobilidade dos pesquisadores, através de acordos bilaterais, participação em eventos científicos e discussão de parcerias internacionais.
  2. Reuniões científicas são da mais alta relevância na vida de um cientista. Nelas, pesquisadores apresentam e discutem com colegas seus novos trabalhos, em distintos estágios de desenvolvimento, incluindo descobertas preliminares, dados coletados recentemente ou dados que estão aguardando publicação. A participação intensa da comunidade científica nacional nessas reuniões é condição necessária para o desenvolvimento científico e tecnológico do país.
  3. Devido ao crescimento exponencial do conhecimento científico, é comum ter, em uma mesma unidade ou grupo de pesquisa, cientistas que, embora reunidos em torno de um tema, trabalham em projetos e subáreas distintas. Por isso mesmo, é frequente, em reuniões nacionais e internacionais, a participação de membros de uma mesma unidade ou grupo de pesquisa.
  4. A formação do jovem pesquisador requer que, desde cedo, ele participe de congressos científicos no seu país de origem e no exterior. No Brasil, existe uma grande tradição de apoiar e estimular a participação de jovens pesquisadores com trabalhos inscritos em congressos científicos. A restrição a essa mobilidade contribuirá para o empobrecimento da formação do jovem cientista brasileiro, fato que não ocorre em nenhum outro país que preze pela ciência e a tecnologia.
  5. Tal restrição afetará seriamente as diversas sociedades científicas, pois praticamente inviabilizará suas reuniões anuais, que proporcionam a interação entre os grupos de pesquisa no país, beneficiando especialmente os jovens pesquisadores.
  6. O conhecimento e a informação têm impacto significativo na vida das pessoas. O compartilhamento de conhecimento e informação tem o poder de transformar economias e sociedades, conforme preconiza a UNESCO para o século XXI. Assim, a limitação de participação de, no máximo, dois servidores em feiras, fóruns, seminários, congressos, simpósios, grupos de trabalho e outros eventos no país, e de um representante para eventos no exterior, por unidade, órgão singular ou entidade vinculada, não se adequa à realidade do papel da universidade e das instituições de ensino, pesquisa, extensão, tecnológicas e de inovação no mundo globalizado.
  7. Essa Portaria acarreta um risco iminente para missões bilaterais e grandes colaborações internacionais, nas quais a participação brasileira tem tido grande destaque.

A Portaria do MEC inibe a interação entre os pesquisadores brasileiros, prejudica a internacionalização e o protagonismo da ciência e da tecnologia nacionais. Urge revisá-la.

Atenciosamente,

Luiz Davidovich

Presidente da Academia Brasileira de Ciências

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ESte artigo foi originalmente pelo Jornal da USP [Aqui!].

Para esconder incompetência de Weintraub, Bolsonaro sugere que ENEM foi sabotado

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O caos estabelecido pela gestão incompetente de Abraham Weintraub no Ministério da Educação (MEC) está sendo didaticamente demonstrado pelas agruras impostas a milhares de estudantes brasileiros que prestaram o chamado Exame Nacional do Ensino Médio, o popular ENEM.  A coisa está tão bagunçada que o próprio MEC teve que suspender inscrições para o “Programa Universidade para Todos (Prouni)” até que o imbroglio causado no ENEM seja desatado.

Em outras palavras, oimprecionante”  Abraham Weintraub conseguiu bagunçar algo que já herdou pronto e testado em diversas ocasiões.  E com isso perdem os que fizeram o exame e também as instituições de ensino superior que adotaram o ENEM como elemento balizador para a entrada de novos estudantes.

A estas alturas, em um governo minimamente sério, Abraham Weintraub já teria sido demitido e voltado para a obscuridade de onde saiu antes de assumir o MEC. Mas o governo Bolsonaro não é minimamente sério, o que está sendo mais uma vez demonstrado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro. É que pressionado pela realidade da incompetência de seu ministro,  o presidente da república partiu, mais uma vez, para uma fajuta teoria da conspiração. 

É que segundo noticia o site UOL a partir de matéria escrita pelo jornalista Hanrrikson de Andrade, Jair Bolsonaro teria afirmado que ” o governo vai apurar se houve um erro de gestão, falha humana ou sabotagem na correção do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)“.  Ora, todos menos Jair Bolsonaro, já sabem que a grande sabotagem ao ENEM está hoje sentada na cadeira de ministro da Educação.  E o pior é que a sabotagem está sendo tremendamente eficiente, e o caos foi instalado.

Resta saber agora como vão reagir os que prestaram o exame e as instituições que não poderão receber estudantes novos por causa da incompetência galopante de Abraham Weintraub.

Nota da ANPUH-Brasil a respeito da Portaria n. 2.227, de 31 de dezembro de 2019

RODA

A direção nacional da ANPUH-BRASIL manifesta sua indignação com a portaria de número 2.227, de 31 de dezembro de 2019. Por este documento, o Ministério da Educação limita drasticamente a liberação de docentes para apresentação dos resultados de seus projetos de pesquisa em eventos nacionais e internacionais. A nosso ver, tal proibição é, além da perversa, fruto da mente de um ministro rechaçado pela comunidade acadêmica. É fato que há ainda alguns bolsonaristas nas universidades, mas é difícil encontrar um docente que tenha coragem de vir a público para defender o indesculpável.

Os que não produzem conhecimento costumam apoiar um indivíduo tosco, como o famoso ministro guarda-chuva, cuja obrigação legal e moral é a de defender a educação, e não a de destruí-la. O digníssimo Ministro não se importa com os efeitos daquela proposta, pela simples razão de que ele e seu colegas não representam reflexão alguma e sequer são capazes de dialogar com a comunidade que dizem fazer parte.

Quem em sã consciência convidaria um ministro da educação que sequer domina a língua portuguesa e se diverte com as besteiras que ele mesmo vincula na internet? Qual seria o teor de uma eventual conferência do ministro da educação em importantes eventos como o prestigiado Simpósio Nacional de História da ANPUH? A associação se reúne em eventos estaduais bianuais (anos pares), sob a coordenação das regionais e, a cada dois anos (anos ímpares), também há nosso evento nacional, com a participação média de mais de 4500 pessoas. O próximo será em julho em 2021, em Fortaleza.

De fato, o controle anunciado pelo governo, que dificulta a liberação de professores e professoras para participação de congressos, colóquios e de tantas outras atividades, tem como único objetivo colocar em risco a presença dos cientistas em importantes eventos distribuídos no país e no exterior. Neste último caso, pretende-se limitar ainda mais a visibilidade de nosso trabalho, inviabilizando a internacionalização do conhecimento produzido pelas universidades públicas do brasileiras.

Mas a desfaçatez é ainda maior. O que o governo não tem coragem de dizer é que muitos docentes retiram dinheiro do próprio bolso para expor seus estudos nos eventos que julgam importantes. O sistema de auxílio aos professores e professoras é cada vez mais exíguo, em face dos poucos recursos drenados para a produção da ciência nacional e sua divulgação em congressos, no país e no exterior. Como se não bastasse, o governo tenta agora limitar a circulação e disseminação do saber. Se a intenção é a de economizar recursos, apresentem os dados. É preciso que a população tenha acesso aos valores que este governo gasta para a circulação acadêmica dos cientistas; servidores públicos das centenas de universidades da Nação. Não há argumentos plausíveis para este novo descalabro. A batalha continua, pois ao contrário do senhor Ministro nós sabemos que o conhecimento nos liberta, o sofrimento nos mobiliza e a empatia nos protege. E é em nome dessa máxima que explicitamos mais uma vez a face mais sombria do anti-intelectualismo do governo.

História em combate
Associação Nacional de História – ANPUH-Brasil

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Esta nota foi originalmente publicada pela Associação Nacional de História- ANPUH-Brasil [Aqui!] .

Ataques de Bolsonaro e Weintraub aos livros didáticos é uma declaração de guerra contra o futuro dos pobres

Bolsonaro-e-Weintraub-vs-Livro-Portugues-e-LinguagensO ataque de Jair Bolsonaro e Abraham Weintraub ao conteúdo os livros didáticos é uma declaração de guerra contra o desenvolvimento intelectual dos pobres

Quem tem filho em idade escolar sabe que uma das principais dificuldades atuais é encontrar livros que ultrapassem o limiar curto imposto pelo “apostilamento” de conteúdos didáticos que deveriam alicerçar o desenvolvimento intelectual de nossas crianças, de forma a torná-las mais aptas a enfrentar os grandes desafios impostos da vida contemporânea. 

A adoção de apostilas que pasteurizam conteúdos complexos e os higienizam de todo pensamento crítico é sem dúvida uma marca da posição subalterna que o Brasil ocupa na atual divisão internacional do trabalho. Afinal, para que aqueles países que estão presos em uma condição de economia dependente, a formação intelectual de crianças e jovens não é vista como algo desejável pelas elites nacionais e globais. Afinal, quem pensa criticamente não irá se contentar com a precarização aguda dos direitos trabalhistas e sociais e, tampouco, se contentaria em viver com uma existência desprovida de acesso ao que de melhor foi gerado pela Revolução Industrial.

Desta forma, as declarações do presidente Jair Bolsonaro de que os livros didáticos oficiais irão ter menos palavras para simplificar os seus conteúdos equivale a uma declaração de guerra ao futuro da maioria do nosso povo que hoje já está alijado de uma formação intelectual que permita um engajamento crítico no processo pedagógico e, em última instância, na capacidade de inclusão intelectual.

Essa declaração de guerra, que foi ratificada pelo ministro da Educação Abraham Weintraub que compartilha da mesma visão precarizante de educação, não pode ser subestimada de forma alguma. É que mesmo que não isso passe de mais um blefe do presidente da república, em seu esforço contínuo de afastar assuntos espinhosos da atenção da maioria da população, o ataque ao livro didático faz parte da cruza do atual governo contra os pobres. É que essa “simplificação” de conteúdos certamente não se dará nas escolas que educam os filhos dos segmentos mais ricos da nossa população.  Para esses, como já foi apontado em artigo pelo sociólogo José Ruy Lozano, será reservado os ensinamentos de Paulo Freire que pautava sua forma de ensinar pela criatividade e pela autonomia intelectual.

Assim, que ninguém se engane sobre a chance das declarações de Jair Bolsonaro contra o conteúdo dos livros didáticos entregues para os mais pobres serem apenas mais um blefe ou distração ideológica para agradar seus apoiadores.  A verdade é que a censura a livros didáticos que utilizam conteúdos já começou e deverá ser ampliada se não houver uma reação rápida e forte. De qualquer modo, trata-se de mais uma estratégia de expandir o processo de subordinação das classes mais pobres e do caráter dependente e periférico da sociedade brasileira, na medida em que esvazia a possibilidade de construção do conhecimento crítico por meio do acesso à escola pública.

Portanto,  o governo Bolsonaro sinaliza que irá aprofundar o processo previamente em curso que visa consolidar a abissal desigualdade educacional existente no Brasil: para os pobres, um material didático que impossibilita qualquer discussão crítica e contribui para a formação de alunos incapazes de interpretar ou de questionar a realidade. Para os demais, que podem pagar pela educação privada, a possibilidade de ter acesso a materiais didáticos que possam contribuir para a desejada e necessária ascensão aos níveis superiores do ensino, ou de ocuparem postos dirigentes no mercado de trabalho.

Desta forma, a obrigação de todos os que se preocupam com o futuro do Brasil é defender que todas as nossas crianças e jovens possam ser educados de forma a alcançar o ponto mais alto de sua capacidade intelectual.  Em outras palavras, defender a publicação de livros didáticos que ofereçam conteúdos que possam estimular a capacidade intelectual será uma das muitas tarefas dos que querem um futuro melhor para o Brasil.

A força da juventude brasileira foi mostrada nas ruas neste 30 de Maio. Dia 14 de Junho será a vez dos trabalhadores

Fui perguntado por diversas vezes como eu achava que seria esse 30 de Maio no tocante à força dos atos que estavam marcados para diferentes partes do Brasil para protestar contra os cortes draconianos feitos pelo governo Bolsonaro no orçamento da educação pública, e que aplicou doses extras de perversidade contra universidades e institutos federais. 

A minha sincera resposta a quem me perguntou era de que não tinha certeza, mas suspeitava que as manifestações de hoje superariam os que foram realizados no último dia 26 pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, mas que não tinha certeza se seriam tão grandes quanto aqueles que ocorreram no dia 15 de Maio.  M

Após um longo dia, a avaliação que estou vendo é que os atos de hoje não só superaram aqueles feitos pelos apoiadores de Bolsonaro, mas que podem ter superado os protestos do dia 15. as mesmo que as manifestações deste 30 de maio tenham sido menores, algo que deveria preocupar o governo Bolsonaro é a alta capilarização dos protestos que atingiram desde cidades grandes até as bem pequenas. Com um tipo de capilarização política como essa, os problemas do governo Bolsonaro que já não são desprezíveis, tenderão a aumentar.

A repercussão e a força dos atos mostra que as redes sociais que já ajudaram bastante o presidente Jair Bolsonaro, agora estão servindo para organizar a volta da juventude brasileira às ruas, dando força política às suas organizações de classe. E desta vez nada indica que estamos tendo uma repetição da ojeriza às bandeiras dos partidos de esquerda como aconteceu em 2013.

Abaixo imagens de diversas partes do Brasil mostrando a pujança e a diversidade de cores que explicitam bem a diferença com o viés cromático das manifestações pró-Bolsonaro.

Para piorar a situação do governo Bolsonaro houve hoje a alusão direta da juventude brasileira participar de forma ativa da greve geral que deverá ocorrer no dia 14 de Junho. É que se a greve geral gerar o mesmo tipo de energia que as manifestações de hoje geraram, a fragilidade política do governo Bolsonaro que já é alta deverá subir alguns degraus a mais.