Bolsas defasadas, ciência precarizada: quanto custa formar quem produz o futuro do Brasil?

Valores das bolsas de mestrado e doutorado perderam dramaticamente poder de compra. Recuperar o patamar real de 1995 exigiria bolsas de R$ 4.712 para o mestrado e R$ 6.984 para o doutorado — muito acima dos valores atualmente pagos

O gráfico mostrado abaixo oferece uma imagem bastante eloquente de um problema que se arrasta há décadas na ciência brasileira: a brutal perda do poder de compra das bolsas de pós-graduação. Quando os valores históricos são corrigidos pelo IPCA, fica evidente que mestrandos e doutorandos brasileiros recebem hoje muito menos, em termos reais, do que recebiam seus colegas três décadas atrás.

Segundo os valores apresentados no gráfico, para que as bolsas recuperassem simplesmente o poder de compra que possuíam em 1995, uma bolsa de mestrado deveria estar hoje em aproximadamente R$ 4.712, enquanto uma bolsa de doutorado deveria alcançar cerca de R$ 6.984. A comparação com os valores atualmente praticados — R$ 2.100 para o mestrado e R$ 3.100 para o doutorado — mostra a dimensão da defasagem, deixando claro que não estamos falando de pequenas diferenças que poderiam ser explicadas por oscilações conjunturais, mas de uma redução histórica muito expressiva da remuneração real destinada justamente aos estudantes responsáveis por uma parcela considerável da produção científica brasileira. 

Há outro dado revelador no gráfico: mesmo para que as bolsas simplesmente retornassem ao poder de compra que possuíam em 2013, seria necessário um reajuste de aproximadamente 42%. Isso mostra que a deterioração não é apenas resultado de uma comparação distante com a situação existente três décadas atrás, pois uma parcela importante dessa perda ocorreu em período relativamente recente e ainda não foi revertida pelos reajustes concedidos nos últimos anos.

Bolsa de pesquisa não é favor

É necessário romper com uma concepção ainda muito presente no debate público brasileiro segundo a qual uma bolsa seria uma espécie de auxílio concedido a alguém que está simplesmente “estudando”. Essa interpretação ignora completamente como funciona a pós-graduação e, principalmente, como funciona a produção científica dentro das universidades e dos institutos de pesquisa, onde mestrandos e doutorandos realizam trabalho científico, participam de projetos, coletam e analisam dados, trabalham em laboratórios, realizam pesquisas de campo, escrevem artigos, apresentam resultados em congressos e frequentemente contribuem para atividades de ensino e extensão.

Em inúmeras áreas, uma parcela substancial da produção científica brasileira depende diretamente desse trabalho, razão pela qual pagar bolsas adequadas não representa uma concessão aos pós-graduandos, mas um investimento na própria infraestrutura humana da ciência brasileira. A situação se torna ainda mais contraditória quando se exige desses estudantes dedicação integral ou praticamente integral às suas pesquisas, pois é difícil imaginar como alguém poderá dedicar-se plenamente à produção científica recebendo um valor insuficiente para assegurar condições materiais minimamente adequadas de existência.

O resultado previsível é que muitos pós-graduandos precisam procurar outras fontes de renda para pagar aluguel, alimentação, transporte e as demais despesas cotidianas. Cria-se assim uma contradição evidente: o sistema exige dedicação à pesquisa, mas oferece condições financeiras que frequentemente obrigam o pesquisador em formação a retirar tempo justamente da atividade para a qual recebeu a bolsa.

O Brasil não é um país pobre

Existe ainda uma questão política que não deveria ser evitada, pois frequentemente ouvimos que o Brasil simplesmente “não possui recursos” para remunerar adequadamente seus pesquisadores em formação. Essa afirmação precisa ser confrontada com a dimensão real da economia brasileira, que se encontra entre as dez maiores do planeta, tornando difícil atribuir a precariedade das bolsas exclusivamente à ausência de recursos econômicos.

Não estamos, portanto, discutindo a incapacidade absoluta de uma economia pobre para financiar sua ciência, mas as prioridades adotadas na distribuição dos recursos produzidos por uma das maiores economias do mundo. Quando uma economia desse porte mantém durante décadas bolsas científicas fortemente depreciadas, a pergunta necessária passa a ser qual lugar a formação científica ocupa efetivamente entre as prioridades nacionais e por que investimentos considerados indispensáveis em outros setores raramente são submetidos ao mesmo discurso permanente de escassez utilizado quando se trata de financiar universidades, pesquisa científica e formação de pesquisadores.

Essa contradição tampouco aparece apenas nas bolsas, pois se manifesta na remuneração do trabalho, no financiamento das universidades públicas, na infraestrutura científica, na manutenção de laboratórios e na capacidade de absorção profissional dos mestres e doutores que o próprio país forma. O resultado é uma política contraditória na qual recursos públicos são investidos durante anos na formação de pesquisadores altamente qualificados sem que, posteriormente, sejam necessariamente oferecidas condições adequadas para que permaneçam produzindo conhecimento no Brasil.

A precarização também seleciona quem pode ser cientista

Há ainda uma consequência menos evidente, mas particularmente perversa: bolsas insuficientes funcionam como mecanismo de seleção socioeconômica dentro da própria ciência. Um estudante proveniente de uma família capaz de complementar sua renda pode conseguir permanecer durante quatro anos realizando um doutorado com uma bolsa defasada, enquanto alguém proveniente de uma família de baixa renda, que precisa pagar aluguel, alimentação, transporte e outras despesas sem qualquer rede familiar de proteção financeira, pode simplesmente considerar inviável seguir a mesma trajetória.

Nesse sentido, a precarização das bolsas não reduz apenas a qualidade das condições de trabalho científico, mas também pode determinar quem possui condições materiais de permanecer na carreira científica. O problema deixa então de ser exclusivamente orçamentário e passa a envolver a própria democratização da universidade e do sistema brasileiro de ciência e tecnologia, já que ampliar o acesso à pós-graduação sem garantir condições materiais de permanência pode produzir uma democratização apenas parcial.

Esse aspecto ganha importância adicional quando se considera a ampliação, nas últimas décadas, do acesso de estudantes provenientes das camadas populares às universidades públicas brasileiras. Se a graduação se torna progressivamente mais acessível, mas a pós-graduação continua dependendo implicitamente da existência de algum suporte financeiro familiar, cria-se uma nova barreira justamente no momento em que esses estudantes poderiam avançar para a formação científica de mais alto nível.

Não basta formar pesquisadores; é preciso permitir que eles pesquisem

CAPES e CNPq desempenharam historicamente um papel decisivo na construção do sistema brasileiro de pós-graduação e pesquisa, e poucos países conseguiram construir, em algumas décadas, uma estrutura de formação de mestres e doutores com a dimensão alcançada pelo Brasil. Essa conquista institucional, entretanto, não pode ser sustentada indefinidamente pela precarização daqueles que efetivamente realizam grande parte da pesquisa produzida nas universidades e nos institutos brasileiros.

Por isso, é necessário estabelecer uma política permanente de valorização das bolsas, preferencialmente acompanhada de mecanismos regulares de atualização que impeçam que longos períodos sem reajuste voltem a corroer seu poder de compra. Recuperar os valores históricos das bolsas não constituiria luxo nem privilégio corporativo, mas o reconhecimento de que um país que pretende produzir ciência, desenvolver tecnologia e reduzir sua dependência científica e tecnológica precisa oferecer condições dignas às pessoas responsáveis por realizar esse trabalho.

Finalmente, uma questão que deveria incomodar gestores públicos, dirigentes universitários, sociedades científicas e todos aqueles que afirmam defender o desenvolvimento científico brasileiro: se em 1995 o Brasil conseguia sustentar bolsas cujo poder de compra corresponderia hoje a aproximadamente R$ 4.712 no mestrado e R$ 6.984 no doutorado, por que uma economia muito maior aceita pagar, três décadas depois, valores reais tão inferiores? A explicação dificilmente poderá ser encontrada simplesmente na suposta pobreza do Brasil; ela terá de ser procurada nas prioridades políticas e orçamentárias que o país estabeleceu — e que continua escolhendo manter.

Políticas Sociais da Uenf lança edital de seleção para ingresso em 2026 (Mestrado e Doutorado)

O Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais (PPGPS) da Universidade Estadual do Norte Fluminense lançou hoje o seu edital de seleção para Mestrado e Doutorado para 2026.

O PPGPS está disponibilizando 20 vagas para Mestrado e 8 para Doutorado que estão distribuídos pelas duas linhas de pesquisa nos quais está estruturado.

Os interessados em se tornarem pós-graduandos no PPGPS poderão fazer inscrições no período que vai de 01/09/2025 a 01/10/2025.

Informações completas sobre esta seleção podem ser obtidas no Edital de Seleção que está disponível [Aqui!].

1ªs Jornadas Internacionais da Escola de Mestrado e Doutoramento da REDE “GLOPORTOS”

The International Network of Atlantic Seaports and Global Interactions (GLOPORTS), rede de investigação internacional, organiza a 1ª Jornada Internacional da sua Escola de Mestrado e Doutoramento, destinada a estudantes de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento, cujo trabalho académico se desenvolva no âmbito dos estudos portuários atlânticos na longa diacronia e das suas interações globais. Aceitamos propostas de comunicação sobre investigação em curso focada nos seguintes eixos temáticos com especial interesse sobre a dimensão histórica:

  1. Efeitos na longa duração da circulação marítima e das trocas através dos espaços portuários: pessoas, bens, tecnologia, conhecimentos, culturas, escravatura, sistemas ambientais, religiões e ideias.
  2. Impacto da geopolítica nas dinâmicas portuárias: efeitos das dinâmicas de longa duração e impacto nas estruturas sociais e económicas. Globalização, mundialização, colonização, descolonização, revoluções, política de blocos, multilateralismo ou recomposição da hierarquia das grandes potências políticas e económicas.
  3. Dinâmicas portuárias e o ambiente. Influência ou impacto das infraestruturas e das atividades portuária no ambiente, bem como na relação porto-cidade.
  4. O papel da agência e as relações sociais nos portos. Este eixo centra-se nas relações sociais de produção nos ambientes portuários, analisando a relação entre a propriedade e o capital e a força de trabalho. Os estudos de género são de particular interesse neste domínio.
  5. Estudo sobre o património marítimo-portuário, gestão do património em espaços aquáticos e da interface, bem como em ambientes portuários urbanos, tendo em conta a dimensão material, monumental e universal, imaterial, viva e comunitária.

A Escola de Mestrado e Doutoramento da REDE GLOPORTOSvisa incentivar e apoiar o processo de elaboração e defesa de teses de mestrado, teses de doutoramento e investigações de pós-doutoramento, a fim de se dar a conhecer e discutir trabalhos em curso sobre estudos portuárias, bem como promover o intercâmbio com especialistas e entre estudantes. Ao mesmo tempo, estes colóquios visam reforçar os percursos académicos individuais em torno de temas afins e consolidar o intercâmbio e o trabalho coletivo neste domínio.

Estas Jornadas destinam-se a estudantes de mestrado, doutoramento e investigadores em pós-doutoramento de diferentes universidades e instituições científicas que trabalhem a história dos portos atlânticos na longa diacronia e as suas interações globais. A sessão terá início com uma conferência de abertura sobre o estado atual dos estudos portuários e novas perspetivas sobre esta área de investigação. Devido ao volume e à natureza das apresentações, a conferência desenvolver-se-á em torno de vários eixos temáticos e em sessões virtuais consecutivas.

Os interessados em participar devem enviar as suas propostas para: atlanticglobalseaports@gmail.com

A participação pode ser creditada em 8 horas letivas de acordo com os critérios de cada universidade.

Serão emitidos certificados a todos os participantes

Calendário

O prazo para a apresentação de propostas de comunicação: terça-feira, 13 de maio de 2025.

A aceitação final será comunicada até terça-feira, 20 de maio de 2025.

A conferência realizar-se-á virtualmente na sexta-feira, 13 de junho de 2025.

Regras de apresentação de propostas de comunicação 

As propostas podem ser apresentadas em qualquer uma das línguas oficiais da REDE GLOPORTS: inglês, espanhol, português e francês. Além disso, devem conter as seguintes informações:

– Título

– Nome completo

– Afiliação institucional

– E-mail

– Breve CV (máx. 50 palavras)

– Resumo (máx. 200 palavras) 

– Seleção do eixo temático da proposta de comunicação de 1 a 5.

Cada apresentação terá uma duração máxima de 15 minutos para permitir o intercâmbio e a discussão.

As apresentações podem ser efetuadas em qualquer uma das línguas oficiais da rede.

O power point deve estar em inglês.

Comitê Organizador e Científico

Daniel Castillo Hidalgo (Universidade de Las Palmas de Gran Canaria)

Gustavo Chalier (Universidade Nacional del Sur)

Miguel Ángel De Marco (CONICET)

Catarina García (FCSH-Universidade NOVA de Lisboa)

Cezar Honorato (Universidade Federal Fluminense)

Michael Limberger (Universidade de Gante)

Jesús Ángel Solórzano Telechea (Universidade de Cantabria)

Programa de Políticas Sociais da UENF lança edital de seleção de Mestrado e Doutorado (2024-1)

pgps

O Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais (PGPS) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) acaba de tornar público o seu edital de selação para as modalidade de Mestrado e Doutorado para o primeiro semestre de 2024.

O PGPS é um programa que existe desde 1999 e vem contribuindo de forma exitosa para a formação de recursos humanos principalmente para as regiões Norte e Noroeste Fluminense, mas também no sul do Espírito Santo.

Este programa é conhecido por ser caráter multidisciplinar, acolhendo profissionais de diferentes áreas de conhecimento, e que realizem estudos sobre um amplo conjunto de temas que exploram os impactos das reformas neoliberais sobre a capacidade do Estado de oferecer soluções para uma série de problemas que atingem os segmentos mais desfavorecidos da sociedade brasileira.

Como docente do PGPS desde o seu primeiro ano de funcionamento, sou testemunha das grandes transformações operadas nas vidas e trajetórias profissionais de um grande número de profissionais que hoje estão trabalhando em diferentes segmentos, mas levando a marca de excelência do que aprenderam em seus estudos na UENF.

Quem desejar acessar este edital de seleção, basta clicar [Aqui!].