Meta, a dona dos algoritmos e das regras que ninguém consegue questionar

A charge satiriza a postura da Meta diante das publicações políticas do Blog do Pedlowski. Enquanto a multinacional comunica a rejeição de dois anúncios e recomenda que o responsável adapte seus conteúdos às regras da plataforma, permanece a questão fundamental: quais critérios justificam impedir a ampliação da circulação de charges baseadas em reportagens jornalísticas?

A imagem contrapõe a tranquilidade de uma empresa que controla os mecanismos de distribuição de informações à perplexidade de quem vê seu trabalho submetido a decisões pouco transparentes. O problema não é apenas o impedimento do impulsionamento, mas a concentração de poder nas mãos de uma corporação capaz de influenciar a visibilidade do debate político.

Afinal, quem controla os controladores dos algoritmos?

Meta aperta o cerco às charges políticas no final da campanha eleitoral

Entre bloqueios geográficos, restrições ao impulsionamento e denúncias sem explicações, a multinacional amplia seu poder sobre o que os brasileiros podem ver às vésperas da votação  

A poucos dias da eleição presidencial, a Meta parece empenhada em demonstrar que não precisa apagar uma publicação para limitar sua circulação. Depois de impedir o impulsionamento de duas charges políticas produzidas pelo Blog do Pedlowski, a empresa restringiu no Brasil a visualização de uma terceira, baseada em reportagem da revista piauí sobre a participação atribuída a Flávio Bolsonaro em uma festa numa lancha no Lago Paranoá, durante a pandemia da COVID-19, envolvendo garotas de programa e pessoas ligadas à comercialização de vacinas.

A justificativa apresentada pela Meta mencionou reclamações cujos fundamentos específicos não foram esclarecidos. Quem reclamou? Qual regra foi violada? Por que uma charge baseada em informações publicadas por um veículo jornalístico estaria impedida de circular no país onde seu conteúdo possui maior relevância política? Há que se enfatizar que as três charges foram elaboradas a partir de reportagens publicadas na imprensa, sem recorrer à exposição sexual explícita, e respeitaram os limites de conteúdo estabelecidos pela OpenAI durante sua produção. Isso não representa uma certificação jurídica automática, mas demonstra a preocupação em exercer a sátira política dentro de parâmetros éticos e legais.

O problema é que a Meta dispõe de um verdadeiro arsenal de mecanismos para limitar o alcance de publicações: veto ao impulsionamento, bloqueios geográficos, exclusão de recomendações e redução da distribuição algorítmica. Nem todos esses mecanismos foram comprovadamente aplicados ao Blog do Pedlowski, mas sua existência revela como uma empresa privada pode controlar a visibilidade de manifestações políticas sem necessariamente excluí-las.

E o caso está longe de ser isolado. O Tribunal Superior Eleitoral já cobrou explicações da Meta sobre restrições à circulação de conteúdos da campanha de Lula. Reportagem da Folha de S.Paulo revelou mensagens internas reconhecendo problemas que prejudicaram contas ligadas ao presidente, enquanto o próprio Comitê de Supervisão da empresa apontou falhas na aplicação das regras de integridade eleitoral. A Meta nega favorecimento político e atribui parte das restrições a problemas técnicos. É necessário reconhecer que limitações gerais ao impulsionamento de propaganda eleitoral também decorrem de determinações da Justiça Eleitoral. Entretanto, isso não explica automaticamente o bloqueio territorial de uma charge política. Tampouco elimina a necessidade de demonstrar que as regras são aplicadas de maneira uniforme.

O aspecto mais preocupante é que todas as charges atingidas do Blog do Pedlowski apresentam críticas a Flávio Bolsonaro ou a integrantes de seu campo político. Isso não comprova uma operação deliberada da Meta para favorecer sua candidatura, mas levanta uma questão incontornável: por que manifestações críticas a um dos candidatos estão enfrentando obstáculos tão significativos justamente quando sua circulação pode influenciar o debate eleitoral?  A charge política existe para incomodar os poderosos, expor contradições e provocar reflexão. Quando uma multinacional pode restringir sua circulação com justificativas genéricas e mecanismos pouco transparentes, o problema deixa de ser apenas a liberdade de expressão de um blogueiro. Passa a envolver o próprio funcionamento da democracia.

A Meta precisa explicar suas decisões, identificar as regras supostamente violadas e assegurar mecanismos efetivos de contestação. Afinal, uma publicação bloqueada nos últimos dias de campanha pode perder sua relevância política antes mesmo que um recurso seja analisado.  A questão central é simples: a Meta não precisa declarar apoio a Flávio Bolsonaro para produzir efeitos que possam beneficiá-lo eleitoralmente. Basta restringir, ainda que sob o pretexto de uma moderação neutra, a circulação de críticas que poderiam prejudicá-lo.  Não se trata de afirmar uma intenção ainda não demonstrada, mas de exigir transparência sobre consequências políticas concretas. Em uma democracia, nenhuma empresa privada deveria exercer tamanho poder sobre o debate público sem prestar contas à sociedade.

E se a Meta pretende continuar se apresentando como uma plataforma neutra, que comece demonstrando essa neutralidade com fatos, critérios transparentes e tratamento efetivamente igualitário. Porque, na reta final de uma eleição presidencial, controlar quem pode ser visto também pode significar influenciar quem será ouvido — e, consequentemente, quem terá melhores condições de disputar o voto.

A Meta está decidindo quem pode ser ouvido: a censura econômica à charge política

Ao impedir o impulsionamento de duas charges depositadas no meu perfil do Instagram, a gigante das redes sociais expõe o poder das plataformas digitais de limitar a circulação da crítica política sob o argumento de proteger o processo eleitoral

Hoje tentei impulsionar duas charges publicadas no meu perfil oficial do Instagram (@marcospedlowski). A primeira abordava a contradição entre o apoio político do ex-prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho, a Flávio Bolsonaro e a importância do Bolsa Família para aproximadamente 150 mil campistas. A segunda ironizava a produção de uma narrativa sobre a pobreza no Nordeste pelo deputado federal Nikolas Ferreira. Em ambos os casos, a Meta, empresa proprietária do Instagram e do Facebook, recusou o impulsionamento sob a justificativa de que as publicações continham conteúdo eleitoral.

O episódio levanta uma questão que vai muito além dessas duas charges: desde quando uma corporação privada, sediada nos Estados Unidos, passou a deter tamanho poder sobre a circulação da crítica política no Brasil?

É importante esclarecer que as publicações não foram removidas. A restrição atingiu especificamente a possibilidade de ampliar seu alcance mediante pagamento. Entretanto, em plataformas nas quais a visibilidade é profundamente condicionada por algoritmos e mecanismos comerciais de distribuição, impedir o impulsionamento de uma publicação pode significar restringir sua capacidade de alcançar novos públicos.

O problema não está simplesmente na existência de regras para publicidade política. Afinal, a transparência sobre quem financia anúncios eleitorais é necessária. A questão é saber se essas regras estão sendo aplicadas de maneira proporcional, coerente e transparente, sem transformar a moderação comercial em instrumento de limitação do debate público.

Quando denunciar a pobreza vira conteúdo eleitoral

A charge envolvendo Wladimir Garotinho e Flávio Bolsonaro procurava explicitar uma contradição concreta: como justificar o apoio a um projeto político que questiona programas de transferência de renda em um município onde dezenas de milhares de famílias dependem do Bolsa Família?

Trata-se de uma questão social, econômica e política absolutamente legítima. A existência de um período eleitoral não elimina o direito de jornalistas, professores e cidadãos de questionar propostas que possam afetar diretamente as condições de sobrevivência da população.

Já a charge sobre Nikolas Ferreira questionava a construção de representações políticas sobre a pobreza nordestina. Seu objetivo era estimular uma reflexão crítica sobre a utilização de imagens e narrativas da realidade social como instrumentos de disputa política.

Nos dois casos, estamos diante de manifestações de opinião por meio da sátira, uma forma tradicional de crítica ao poder. Se a simples presença de figuras públicas ou a discussão de políticas sociais bastar para impedir a ampliação dessas manifestações, corre-se o risco de transformar praticamente todo debate sobre assuntos relevantes em conteúdo sujeito a restrições comerciais.

A contradição de uma empresa que promete defender a liberdade de expressão

A Meta afirma que suas políticas de publicidade política buscam assegurar transparência e integridade eleitoral. A empresa exige procedimentos de identificação e avisos sobre o responsável pelo financiamento de anúncios envolvendo eleições, figuras políticas e temas sociais.

Mas há uma contradição que não pode ser ignorada: a mesma empresa que apresenta a liberdade de expressão como um de seus compromissos fundamentais controla mecanismos capazes de ampliar ou limitar a visibilidade das manifestações políticas de milhões de usuários.

Essa preocupação não é meramente teórica. Em 20 de outubro, a Agência Brasil noticiou que o próprio Comitê de Supervisão da Meta apontou falhas recorrentes na aplicação das regras da plataforma durante as eleições brasileiras, incluindo restrições excessivas que podem prejudicar a circulação do discurso político.

Mais grave ainda, uma investigação da Anistia Internacional divulgada em agosto identificou inconsistências na avaliação de anúncios eleitorais no Brasil, incluindo a aprovação de peças com desinformação e a rejeição de outras por questões relacionadas à classificação política.

Esses episódios não demonstram, por si mesmos, que as duas charges do Blog do Pedlowski tenham sido alvo de discriminação ideológica. Entretanto, reforçam a necessidade de questionar a consistência dos critérios utilizados pela empresa.

O novo poder dos porteiros digitais

Durante décadas, a circulação das ideias políticas foi condicionada pelo controle dos grandes meios de comunicação. Hoje, parte significativa desse poder está concentrada nas mãos de corporações tecnológicas que administram redes sociais utilizadas por bilhões de pessoas.

A diferença é que essas empresas não apenas distribuem conteúdos: elas estabelecem regras de visibilidade, administram sistemas de recomendação e comercializam a possibilidade de ampliar audiências.

Forma-se, assim, uma espécie de pedágio digital sobre a circulação das ideias, no qual a capacidade de alcançar novos públicos depende de decisões tomadas por sistemas automatizados e estruturas empresariais pouco transparentes.

Quando uma charge política tem seu impulsionamento recusado, o conteúdo continua existindo, mas perde uma via importante de circulação. Não se trata necessariamente de censura no sentido jurídico estrito, mas de uma restrição econômica à difusão de opiniões que merece escrutínio público.

O problema se torna ainda mais preocupante quando não há explicações suficientemente específicas sobre os motivos da decisão, nem procedimentos acessíveis para contestá-la.

Quem fiscaliza os novos donos da praça pública?

O Blog do Pedlowski existe desde 2011 como um espaço independente de análise crítica da realidade política, econômica, social e ambiental. Não representa partidos políticos nem funciona como instrumento de propaganda eleitoral. Seu compromisso é com a divulgação de informações, a reflexão crítica e o debate público.

As charges são parte dessa atividade editorial. Sua função é provocar, ironizar e revelar contradições que frequentemente escapam ao discurso político convencional.

Não reivindico qualquer privilégio diante das regras das plataformas. Reivindico, isto sim, que essas regras sejam claras, proporcionais e aplicadas de maneira consistente, distinguindo publicidade eleitoral, manifestação de opinião e produção jornalística independente, sem ignorar as exigências legais aplicáveis a cada modalidade.

A Meta precisa esclarecer se a recusa ao impulsionamento decorreu exclusivamente de exigências de identificação e rotulagem, de alguma restrição eleitoral específica ou de uma avaliação sobre o conteúdo das charges. Estas são situações diferentes, com implicações igualmente distintas.  Afinal, proteger a democracia não pode significar entregar a uma empresa privada o poder de definir, sem transparência suficiente, quais críticas políticas merecem maior circulação.

Se a charge é uma das formas mais antigas de questionar o poder, talvez o verdadeiro problema não esteja no seu conteúdo, mas no desconforto que ela provoca ao expor as contradições daqueles que pretendem governar.

E, enquanto as grandes plataformas tentam administrar os limites da circulação do debate político, continuaremos exercendo o direito de produzir, publicar e compartilhar nossas críticas.  Porque a liberdade de expressão não pode depender exclusivamente da autorização comercial dos novos donos da praça pública.

Meta, algoritmos e eleições: a democracia brasileira não pode ficar refém de Zuckerberg

Testes revelam tratamento desigual da inteligência artificial entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto denúncias de interferência eleitoral chegam ao TSE e a organismos internacionais. Mas a resposta decisiva ao poder das big techs terá de vir das ruas

As denúncias de interferência da Meta nas eleições presidenciais brasileiras ganharam uma dimensão particularmente grave nesta quarta-feira (14). Testes realizados pela Folha de S.Paulo, pela Veja e pelo Brasil de Fato demonstraram que a inteligência artificial da empresa, integrada ao WhatsApp, aceitava produzir peças eleitorais favoráveis a Flávio Bolsonaro, mas recusava solicitações equivalentes envolvendo o presidente Lula. A situação torna ainda mais preocupante o poder concentrado nas mãos da corporação de Mark Zuckerberg, que controla Instagram, Facebook e WhatsApp.

Não estamos mais diante apenas de reclamações sobre redução de alcance, bloqueios de contas ou dificuldades para compartilhar conteúdos políticos. Os testes jornalísticos identificaram uma assimetria concreta no funcionamento da Meta AI, justamente durante o segundo turno de uma eleição presidencial. A empresa reconheceu problemas técnicos e afirmou ter adotado medidas corretivas, mas negou qualquer favorecimento deliberado. A distinção é importante: o tratamento desigual foi documentado, enquanto a existência de uma estratégia intencional de manipulação eleitoral ainda precisa ser demonstrada.

A gravidade da situação já levou o Tribunal Superior Eleitoral a exigir explicações da Meta sobre as restrições denunciadas pela campanha de Lula. Entre os questionamentos estão possíveis limitações à distribuição de publicações, dificuldades no impulsionamento de conteúdos e a existência de centenas de perfis falsos que teriam produzido milhões de visualizações com ataques ao presidente e à primeira-dama. A campanha petista também anunciou que levará suas denúncias à Agência Nacional de Proteção de Dados, à Organização dos Estados Americanos e a observadores internacionais.

Outro elemento que torna esse cenário ainda mais inquietante envolve o argentino Fernando Cerimedo, conhecido por sua atuação no universo da comunicação política da extrema-direita latino-americana e pela disseminação de questionamentos infundados sobre o sistema eleitoral brasileiro. Reportagens recentes trouxeram denúncias de sua ex-companheira, Nadia Beller, sobre supostas atividades políticas transnacionais e sua disposição de atuar em favor de Flávio Bolsonaro. Também surgiram alegações sobre possíveis conexões privilegiadas com integrantes da Meta. Essas últimas acusações, entretanto, ainda carecem de comprovação independente e não permitem afirmar que Cerimedo tenha organizado uma operação interna da empresa para interferir nas eleições brasileiras.

O que já está suficientemente claro, porém, é que a concentração da infraestrutura de comunicação nas mãos de uma única corporação representa um problema estrutural para a democracia. Quando uma empresa estrangeira pode alterar unilateralmente a visibilidade de conteúdos, bloquear canais de comunicação e definir critérios opacos de funcionamento de sua inteligência artificial, a igualdade de condições na disputa eleitoral fica perigosamente dependente de decisões privadas.  Não se trata de exigir que as plataformas favoreçam Lula ou qualquer outro candidato. Trata-se de exigir que não favoreçam ninguém, que seus critérios sejam transparentes e que eventuais irregularidades sejam investigadas e corrigidas. A alegação genérica de problemas técnicos não pode funcionar como salvo-conduto permanente para uma empresa cujo poder de interferência na circulação de informações alcança dezenas de milhões de brasileiros.

Mas há uma conclusão política que considero ainda mais importante. A esquerda brasileira não pode continuar depositando nos algoritmos das big techs a esperança de derrotar a extrema-direita. Uma campanha que depende excessivamente de visualizações, curtidas e compartilhamentos entrega parte de sua capacidade de comunicação justamente às corporações cujo poder precisa ser enfrentado.  É por isso que venho insistindo na necessidade de aprofundar a conexão entre redes e ruas. As manifestações populares, a organização sindical, os movimentos sociais, as universidades e o trabalho político nos bairros e locais de trabalho possuem uma capacidade que os algoritmos não conseguem controlar integralmente: produzir encontros reais, debates diretos e vínculos coletivos que ultrapassam as bolhas digitais.

A mobilização nas ruas não elimina a influência das plataformas, tampouco dispensa a exigência de fiscalização rigorosa da Meta e das demais big techs. Mas pode reduzir a dependência política em relação a elas, disputar a narrativa pública fora dos ambientes digitais e transformar indignação em força social organizada.  A experiência histórica demonstra que transformações políticas profundas não resultam apenas da circulação de mensagens, mas da capacidade de milhões de pessoas se organizarem e agirem coletivamente. As redes podem potencializar essa organização, mas jamais deveriam substituí-la.

Se Zuckerberg e seus algoritmos possuem o poder de limitar o alcance de uma postagem, não possuem o mesmo poder sobre uma avenida ocupada por milhares de pessoas. É precisamente nessa diferença que reside a possibilidade de conter e até reverter o poder político acumulado pelas big techs.

A democracia brasileira não será defendida apenas com reclamações dirigidas à Meta. Será defendida com investigação, transparência, responsabilização e, sobretudo, mobilização popular.  Afinal, os algoritmos podem até controlar as telas. Mas as ruas, quando efetivamente mobilizadas, continuam sendo território da política e da ação coletiva.

Meta, eleições e os misteriosos problemas técnicos que parecem ter lado

Enquanto a campanha de Lula denuncia restrições ao alcance de suas publicações, até o compartilhamento de informações entre cidadãos passa a enfrentar bloqueios. A questão é saber quem controla a circulação das informações e quem fiscaliza esse poder

Há algo de particularmente preocupante acontecendo nas eleições presidenciais brasileiras de 2026. A Meta, conglomerado proprietário do Facebook, Instagram e WhatsApp, está sendo questionada por uma sucessão de episódios que, segundo denúncias da campanha do presidente Lula, estariam prejudicando a circulação de conteúdos favoráveis à sua candidatura. A empresa reconheceu a ocorrência de problemas técnicos, mas negou qualquer favorecimento eleitoral, alegando que as falhas também atingiram outros usuários e mercados. A controvérsia chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que concedeu prazo de 48 horas para a empresa prestar esclarecimentos sobre as restrições denunciadas.

O curioso é que esses misteriosos problemas técnicos parecem ter adquirido uma capacidade bastante inconveniente de aparecer justamente quando a circulação de informações políticas se torna particularmente relevante. A campanha de Lula relata interrupções no registro de visualizações, dificuldades de impulsionamento e quedas de alcance. Nada disso comprova, isoladamente, uma interferência deliberada, mas tampouco pode ser resolvido com a explicação genérica de que houve uma falha técnica. Afinal, quando uma empresa privada controla parte significativa da infraestrutura de comunicação política de um país, não basta informar que seus computadores tiveram um dia ruim. É preciso demonstrar o que aconteceu, quem foi afetado e quais providências foram tomadas para corrigir os problemas.

Hoje recebi um relato que torna essa situação ainda mais inquietante.

Um amigo, professor universitário de reconhecida probidade, informou que foi impedido de continuar compartilhando pelo WhatsApp um material sobre a proposta de adoção do salário por hora trabalhada, sob a alegação de distribuição em massa. O detalhe quase cômico, não fosse a gravidade do assunto, é que ele não havia encaminhado o material sequer para uma centena de pessoas. Evidentemente, esse episódio individual não permite concluir que houve discriminação política, até porque o WhatsApp possui regras contra disparos automatizados e mensagens consideradas indesejadas. Entretanto, o caso exige uma pergunta bastante simples: quais critérios transformam o compartilhamento de informações sobre direitos trabalhistas em uma atividade passível de bloqueio?

O problema se torna ainda mais sério quando lembramos que as big techs passaram anos vendendo a fantasia de que suas plataformas representariam uma democratização sem precedentes da comunicação. Agora descobrimos que essa suposta praça pública funciona em terreno privado, onde os proprietários podem alterar algoritmos, reduzir a visibilidade de conteúdos e restringir a comunicação entre usuários mediante critérios cuja aplicação concreta permanece pouco transparente. A liberdade de expressão, nesse ambiente, corre o risco de se transformar em uma espécie de concessão corporativa, exercida enquanto os sistemas automatizados e os interesses comerciais das plataformas assim permitirem.

É evidente que combater spam, fraudes e campanhas coordenadas de desinformação constitui uma necessidade. O que não se pode admitir é que mecanismos criados para essa finalidade terminem restringindo manifestações políticas legítimas sem justificativas verificáveis e possibilidades efetivas de contestação. Quando isso acontece em pleno segundo turno de uma eleição presidencial, os efeitos potenciais ultrapassam os direitos individuais dos usuários e alcançam as próprias condições de igualdade da disputa eleitoral. Não é necessário demonstrar que Mark Zuckerberg tenha pessoalmente decidido prejudicar Lula para reconhecer que restrições injustificadas à circulação de conteúdos políticos podem produzir consequências eleitorais concretas.

A questão central, portanto, não é apenas saber se a Meta está deliberadamente interferindo nas eleições brasileiras em benefício de Flávio Bolsonaro, como suspeita a campanha de Lula. É também determinar se a concentração privada do controle sobre a comunicação digital permite que decisões empresariais, inclusive aquelas apresentadas como simples problemas técnicos, afetem desigualmente o debate público. A primeira hipótese exige investigação e provas; a segunda já constitui um problema estrutural que não pode continuar sendo ignorado.

No fim das contas, talvez estejamos descobrindo que a tão celebrada liberdade oferecida pelas big techs possui uma cláusula que raramente aparece na propaganda: todos podem falar, desde que os donos das plataformas continuem decidindo quem será ouvido. E, quando surgem questionamentos sobre essa distribuição desigual da visibilidade, a resposta parece convenientemente pronta: foi apenas um problema técnico.

A democracia brasileira merece explicações melhores do que essa. E o TSE precisa exigir que elas sejam acompanhadas de dados verificáveis, não apenas de declarações corporativas de boas intenções.

Voltei ao Instagram, mas até quando a Meta quiser: a falsa democratização da informação pelas big techs

Entre denúncias bolsonaristas, labirintos de verificação e exigências de reconhecimento facial, o bloqueio da minha conta expõe o poder arbitrário das plataformas digitais sobre a liberdade de expressão

Na manhã deste sábado (10/10), relatei aqui no Blog do Pedlowski o bloqueio da minha conta oficial no Instagram, que já acumulava 5.128 publicações e 1.997 seguidores. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques e denúncias de apoiadores de Flávio Bolsonaro contra uma publicação em que apresentava propostas e declarações associadas à sua candidatura presidencial. A Meta justificou a restrição alegando estar protegendo minha conta contra uma possível invasão. Não tenho como comprovar que as denúncias tenham provocado diretamente o bloqueio, mas a sequência dos acontecimentos é suficientemente preocupante para merecer atenção.

O primeiro registro público que fiz do problema ocorreu às 8h55. Às 10h55, voltei ao assunto para denunciar o que considerava uma grave ameaça à minha liberdade de expressão. Finalmente, às 12h30, já estava solicitando uma imagem para anunciar o restabelecimento do acesso. Foram, portanto, pelo menos 3 horas e 35 minutos entre meu primeiro relato e a comunicação da recuperação, embora as dificuldades tenham começado antes disso. Nesse intervalo, enfrentei um verdadeiro labirinto digital, sendo empurrado de uma etapa de verificação para outra, entre mensagens de e-mail, códigos de acesso e sucessivas tentativas de reconhecimento facial. Em vez de resolver o problema, os procedimentos frequentemente me devolviam ao ponto de partida, sem qualquer possibilidade efetiva de diálogo com um responsável humano.

A exigência de reconhecimento facial merece atenção especial. Para recuperar uma conta que já era minha, fui levado a fornecer repetidamente informações biométricas extremamente sensíveis. Quem garante que esses dados serão utilizados exclusivamente para verificar minha identidade? A Meta possui políticas declaradas de proteção e exclusão dessas informações, mas isso não equivale a oferecer ao usuário garantias independentes e verificáveis sobre sua destinação final. A própria Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece proteção especial aos dados biométricos. Não estou afirmando que minhas informações tenham sido utilizadas indevidamente, mas questionando a falta de transparência e a assimetria de poder que permite a uma empresa exigir dados tão sensíveis como condição prática para devolver o acesso a uma conta.

O episódio ganha uma dimensão política ainda mais inquietante diante das denúncias feitas pela campanha de Lula sobre restrições à circulação e ao impulsionamento de seus conteúdos nas plataformas da Meta, em contraste com o alegado favorecimento de Flávio Bolsonaro. A empresa nega qualquer favorecimento eleitoral, e as denúncias ainda precisam ser devidamente apuradas. Entretanto, a combinação entre dificuldades enfrentadas por uma campanha presidencial e episódios como o meu levanta questões legítimas sobre o funcionamento dos mecanismos de moderação e distribuição de conteúdos políticos. Não se trata de afirmar que existe uma conspiração comprovada, mas de exigir transparência sobre processos que podem interferir diretamente na disputa eleitoral.

Há uma ironia particular no meu caso. Não sou um apoiador incondicional de Lula. Ao longo de seu terceiro mandato, publiquei críticas contundentes às suas políticas econômica e ambiental, especialmente à continuidade da expansão petrolífera em plena crise climática. Minha decisão de votar nele no segundo turno resulta de uma avaliação programática e da rejeição às propostas regressivas e ao negacionismo científico associados ao bolsonarismo. Entretanto, aparentemente, para determinados setores da extrema-direita, basta não aderir ao seu projeto político para se tornar alvo de ataques e tentativas de silenciamento. E não deixa de ser curioso que a acusação de fake news seja utilizada por setores políticos cuja ascensão esteve profundamente associada à disseminação de desinformação.

Tudo isso nos remete à grande promessa que acompanhou a expansão das redes sociais: a democratização da informação. Durante anos, as big techs venderam a ideia de que qualquer cidadão poderia produzir conteúdos, alcançar grandes audiências e disputar narrativas antes monopolizadas pelos meios tradicionais de comunicação. O que essa promessa escondia era que os novos espaços públicos digitais seriam controlados por corporações privadas, capazes de decidir unilateralmente quem pode falar, quais conteúdos terão visibilidade e quem será condenado à invisibilidade algorítmica. A concentração do poder comunicacional não desapareceu; apenas mudou de mãos, tornando-se ainda mais opaca e difícil de fiscalizar.

Talvez o problema não seja simplesmente uma promessa comercial não cumprida, mas algo mais profundo: um produto intrinsecamente comprometido por seu próprio modelo de negócios. Afinal, plataformas que transformam nossos dados, nossa atenção e nossas interações em mercadorias dificilmente podem ser consideradas espaços plenamente democráticos. Isso não significa defender redes sociais sem regras, mas exigir mecanismos transparentes de moderação, proteção efetiva dos dados pessoais, direito de contestação e fiscalização pública independente. Sem essas condições, a liberdade de expressão continuará subordinada aos interesses de empresas que não prestam contas democraticamente à sociedade.

Voltei ao Instagram, agora para ficar — até quando a Meta quiser, evidentemente. Afinal, minha permanência na plataforma não depende apenas da minha vontade ou do meu direito constitucional à liberdade de expressão, mas também das decisões de uma corporação privada que pode, a qualquer momento, fechar novamente as portas. Volto ainda mais convencido de que enfrentar o poder desmedido das big techs é uma exigência democrática. Porque, se até o direito de permanecer em uma rede social é uma concessão precária de seus proprietários, talvez a tão prometida democratização da informação não passe de uma liberdade com prazo de validade definido pelos donos da plataforma.

Quando a Meta diz que protege, mas acaba silenciando: minha conta no Instagram está bloqueada após ataques bolsonaristas

Com 5.128 publicações e 1.997 seguidores, meu perfil está inacessível depois de uma onda de ataques contra uma postagem crítica a Flávio Bolsonaro. A alegada proteção contra invasões se transformou em um bloqueio sem solução

Não é novidade para os leitores do Blog do Pedlowski que minhas posições políticas e minhas análises sobre a realidade brasileira não são formuladas para agradar a todos, muito menos aos que consideram a crítica política uma espécie de ofensa pessoal. Afinal, um dos princípios que orientam minha atuação como professor universitário e editor deste blog é justamente o de que a liberdade de expressão precisa ser exercida, inclusive quando aquilo que se diz contraria interesses políticos e econômicos poderosos. Entretanto, o que estou enfrentando neste momento no Instagram levanta uma questão que ultrapassa minha situação pessoal e alcança um problema central da democracia contemporânea: quem controla o direito de expressão dos cidadãos quando boa parte do debate público está submetida aos algoritmos e aos procedimentos administrativos das chamadas big techs?

Minha conta oficial no Instagram, que já reúne 5.128 publicações e 1.997 seguidores, encontra-se efetivamente bloqueada pela Meta, empresa proprietária da plataforma. O bloqueio ocorreu após uma onda de ataques de eleitores bolsonaristas contra uma publicação que apresentava uma crítica contundente às possíveis consequências sociais e econômicas de um eventual governo de Flávio Bolsonaro. A imagem abordava questões como o financiamento do Sistema Único de Saúde, a continuidade do Bolsa Família, a educação pública, a política de valorização do salário mínimo e os direitos trabalhistas. Tratava-se, portanto, de uma manifestação política sobre temas de interesse público, ainda que expressa em linguagem dura e com conclusões das quais os apoiadores do candidato evidentemente podem discordar.

O mais curioso, para não dizer kafkiano, é que a Meta não informa que minha conta tenha sido bloqueada por violar suas regras de conteúdo. A mensagem apresentada pela plataforma afirma que o bloqueio foi realizado para me proteger de uma possível invasão. Em seguida, oferece alternativas de recuperação por e-mail ou WhatsApp, acompanhadas da advertência de que o contato escolhido substituirá as informações de acesso anteriormente cadastradas. O problema é que já percorri repetidas vezes esses procedimentos, sem conseguir recuperar minha conta. O resultado é um verdadeiro labirinto digital no qual o proprietário legítimo da conta continua do lado de fora, enquanto a empresa responsável pela plataforma insiste em oferecer caminhos que não conduzem a lugar algum.

Não disponho, neste momento, de elementos que permitam afirmar categoricamente que o bloqueio tenha sido provocado por denúncias coordenadas dos eleitores bolsonaristas que atacaram minha publicação. Essa é uma possibilidade que precisa ser esclarecida pela Meta, especialmente diante da proximidade temporal entre os acontecimentos. Também não há, na mensagem recebida, comprovação de que uma tentativa efetiva de invasão tenha ocorrido. O que posso afirmar, porque estou experimentando diretamente suas consequências, é que a conta permanece inacessível e que os mecanismos oferecidos pela empresa não estão resolvendo o problema.

Há uma ironia particularmente amarga nessa situação. Uma empresa que concentra enorme poder sobre a circulação de informações e opiniões políticas afirma estar protegendo minha conta, mas o efeito concreto dessa proteção é impedir que eu continue utilizando um espaço de comunicação construído ao longo de milhares de publicações. Se o objetivo de quem me atacou era reduzir a circulação das minhas críticas, o resultado atual certamente não lhes será desagradável. É o tipo de proteção que, levada às últimas consequências, termina produzindo um resultado muito semelhante ao pretendido por aqueles que desejam calar a voz protegida.

O problema não se restringe ao meu caso. Em junho de 2026, o Ministério Público Federal divulgou a abertura de uma apuração sobre o bloqueio de mais de uma centena de perfis ligados à comunidade LGBTQIA+ no Instagram. Entre os esclarecimentos solicitados à Meta estava justamente a possibilidade de que suspensões tivessem resultado de mecanismos automatizados ou de campanhas coordenadas de denúncias em massa. Evidentemente, não se trata de afirmar que os dois episódios possuem a mesma origem, mas de reconhecer que a opacidade dos procedimentos adotados pelas plataformas digitais constitui um problema suficientemente sério para despertar a atenção dos órgãos responsáveis pela defesa dos direitos fundamentais.

No meu caso, considero especialmente preocupante a possibilidade de que manifestações de hostilidade política sejam acompanhadas de mecanismos de restrição de acesso que o usuário não consegue compreender nem contestar de maneira efetiva. Não reivindico qualquer privilégio, tampouco pretendo que minhas opiniões sejam colocadas acima das regras legitimamente estabelecidas para o funcionamento das redes sociais. O que reivindico é algo muito mais elementar: o direito de saber por que minha conta foi bloqueada, de ter acesso a um procedimento efetivo de recuperação e de não ser privado arbitrariamente de um canal de comunicação em razão de minhas manifestações políticas.

Também é importante registrar que a liberdade de expressão não significa ausência de contraditório. Os eleitores de Flávio Bolsonaro possuem todo o direito de discordar das minhas análises, questionar meus argumentos e apresentar suas próprias interpretações sobre as propostas de seu candidato. O que não se pode aceitar como prática democrática são ataques destinados a intimidar adversários ou eventuais tentativas de utilizar mecanismos de denúncia para retirar suas manifestações de circulação. Discordar é parte da democracia. Procurar silenciar quem discorda é outra coisa.

A situação se torna ainda mais contraditória quando lembramos que as grandes empresas de tecnologia frequentemente apresentam suas plataformas como espaços privilegiados para a livre circulação de ideias. Entretanto, quando um usuário enfrenta um bloqueio e não consegue encontrar um procedimento funcional para contestá-lo, fica evidente a assimetria entre o poder dessas corporações e os direitos daqueles que produzem os conteúdos responsáveis por alimentar suas redes. São milhares de publicações, anos de trabalho e relações estabelecidas com leitores que podem ficar submetidos a decisões automatizadas cujos fundamentos permanecem desconhecidos.

Por isso, faço aqui uma denúncia pública do bloqueio da minha conta e dos ataques políticos que antecederam essa situação, exigindo que a Meta esclareça as razões concretas da restrição e ofereça um mecanismo efetivo para restabelecer meu acesso. Também considero indispensável que a empresa informe se houve denúncias em massa contra meu perfil, tentativas identificadas de acesso não autorizado ou qualquer outro evento que justifique a medida adotada. Essas informações são fundamentais para distinguir um procedimento legítimo de segurança de uma eventual utilização abusiva dos mecanismos de controle da plataforma.

Enquanto isso, o Blog do Pedlowski continuará publicando análises sobre a realidade política, econômica, social e ambiental brasileira. Minha trajetória de atuação acadêmica e de intervenção no debate público não começou com o Instagram e certamente não terminará por causa de um bloqueio imposto pela Meta. O que está em discussão, entretanto, não é apenas a continuidade das minhas publicações, mas a necessidade de impedir que o debate democrático fique subordinado a sistemas privados de controle que não oferecem transparência e mecanismos adequados de responsabilização.

Aos que confundem discordância política com o direito de silenciar seus adversários, deixo uma observação: a democracia não existe apenas para proteger as opiniões com as quais concordamos. E à Meta cabe explicar por que sua alegada proteção está impedindo justamente o exercício do direito que deveria preservar.

Afinal, se para proteger minha liberdade de expressão a solução é me impedir de exercê-la, talvez seja necessário perguntar quem, exatamente, está sendo protegido.

E salve-nos, Fábio Porchat

Quando um comediante precisa fazer o trabalho que a mídia e a esquerda institucional deixaram de fazer

Uma coisa me ocorreu sobre o resultado fenomenal do vídeo de Fábio Porchat que desvelou as relações íntimas entre Daniel Vorcaro e uma plêiade de figuras que transitam pela política nacional e por setores das igrejas evangélicas, às vezes juntos, outras vezes separados. Em pouco mais de meia hora, Porchat conseguiu transformar uma trama complexa, envolvendo relações financeiras, políticas, empresariais e religiosas, em uma narrativa compreensível para milhões de pessoas. O alcance do episódio não foi apenas resultado da dimensão das revelações, mas também da capacidade de comunicação de Porchat, que soube apresentar a teia de relações e, principalmente, mostrar como ela foi sendo construída ao longo do tempo. Crédito, portanto, a Porchat e à equipe que preparou o material investigativo que ele magistralmente soube traduzir para um público muito mais amplo.

Mas o sucesso de Porchat também revela algo muito mais incômodo: o fracasso não apenas da mídia corporativa brasileira, mas também do PT e de seus aliados, que vêm sendo progressivamente engolidos pela máquina de comunicação do bolsonarismo, a ponto de essa máquina conseguir dar sobrevida eleitoral a um candidato cercado por relações e episódios que, no mínimo, exigem explicações. O fenômeno Porchat expõe, assim, um vazio que não deveria existir. Quando um comediante consegue organizar e comunicar em poucas horas aquilo que uma parcela importante da imprensa não conseguiu — ou não quis — transformar em informação acessível para a maioria da população, há alguma coisa profundamente errada no funcionamento da comunicação política brasileira.

A posição da mídia corporativa pode ser explicada, em boa medida, pelos interesses que se entrelaçam com aqueles que agora foram deixados nus em praça pública pelo trabalho de Porchat, incluindo figuras centrais do bolsonarismo como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira. O problema do PT, entretanto, é de outra natureza e talvez seja ainda mais profundo. O partido tem nas mãos a máquina federal e dispõe de ferramentas poderosas de comunicação, mas parece incapaz de utilizá-las para disputar de maneira consequente a narrativa política do país. E aqui não quero colocar a culpa apenas na incompetência das equipes de campanha de Lula ou nos dirigentes partidários que controlam cuidadosamente aquilo que pode ou não ser dito pelo presidente e pelos demais candidatos do partido. O problema, a meu ver, é mais estrutural: o PT se tornou também parte da irmandade que Porchat revelou, ainda que quase sempre na condição desconfortável de penetra.

É justamente por isso que é tão duro admitir que um comediante possa estar fazendo aquilo que a esquerda institucional e boa parte do jornalismo brasileiro deveriam ter feito há muito tempo. E digo isso sendo fã de Porchat desde muito antes do vídeo arrasador que agora está remexendo as placas tectônicas da campanha eleitoral de 2026. O problema, portanto, não é Porchat ocupar esse espaço. Pelo contrário. O problema é que tenha sido necessário um comediante ocupá-lo. Isso diz muito sobre a falência do projeto de esquerda capitaneado pelo PT e sobre a incapacidade de seus dirigentes de compreender que, na política contemporânea, não basta administrar o Estado: é preciso disputar a produção de sentidos, desmontar narrativas adversárias e falar com a sociedade em uma linguagem que ela efetivamente consiga ouvir.

O mais irônico é que o vídeo de Porchat demonstra que ainda existe uma enorme demanda por informação política capaz de conectar os pontos, revelar as relações e explicar aquilo que a avalanche cotidiana de notícias costuma fragmentar. A resposta do público foi gigantesca. O episódio chegou ao primeiro lugar do ranking Hype do YouTube em menos de 24 horas e seus cortes passaram a circular massivamente pelas redes sociais. Não se trata, portanto, de uma sociedade desinteressada pela política. Trata-se de uma sociedade que está sendo mal informada, mal atendida e, sobretudo, abandonada por aqueles que deveriam disputar esse espaço.

Por isso, mesmo reconhecendo a contribuição extraordinária de Porchat, é difícil não enxergar a ironia — e até a tragédia — de que um comediante tenha se transformado em um dos mais eficientes tradutores de uma trama política que envolve banqueiros, igrejas, empresários e candidatos à Presidência da República. Se um vídeo de humor precisa fazer o trabalho que partidos, governos e veículos de comunicação deveriam estar fazendo, talvez o problema não esteja apenas no bolsonarismo. Talvez esteja também em quem permitiu que o bolsonarismo ocupasse praticamente sozinho o terreno da comunicação política.

E é justamente aí que a questão deixa de ser apenas eleitoral. Mesmo que Lula vença as eleições, teremos de reconhecer que as perspectivas para a classe trabalhadora brasileira continuarão sendo obscuras se o projeto político que se apresenta como alternativa à direita continuar incapaz de enfrentar os mecanismos econômicos, midiáticos e políticos que produzem e reproduzem esse poder. Ganhar uma eleição não é o mesmo que recuperar a capacidade de disputar a sociedade. E administrar o governo tampouco significa reconstruir um projeto de transformação social.

Assim, resta reconhecer o que talvez seja a parte mais desconcertante de toda essa história: em uma campanha eleitoral na qual bilhões de reais, enormes estruturas partidárias, máquinas governamentais e exércitos de profissionais da comunicação estão mobilizados, foi um comediante quem conseguiu abrir uma fresta na cortina e mostrar ao público algumas das conexões que estavam sendo cuidadosamente embaralhadas.

E salve-nos, Fábio Porchat!

Quando a Meta decide o que o Brasil pode ver: o estranho caso do vídeo de Fábio Porchat

Há momentos em que um episódio aparentemente pontual revela algo muito maior do que ele próprio. O que aconteceu nesta quarta-feira (23/9) com o perfil da série “Revelando”, apresentado por Fábio Porchat, é um desses casos.

O Instagram, plataforma controlada pela Meta, retirou temporariamente do ar o perfil da série justamente quando um de seus episódios mais controversos e de maior repercussão começava a alcançar milhões de pessoas. O vídeo aborda as relações entre a Igreja Batista da Lagoinha, a família Vorcaro e o Banco Master, além de trazer informações sobre relações financeiras e políticas que aparecem nas investigações em curso.

A justificativa inicial da Meta foi praticamente um exercício de opacidade: o conteúdo teria violado os “padrões” da plataforma. Qual padrão teria sido violado, qual trecho teria provocado a remoção e quais critérios foram utilizados para tomar a decisão não foram esclarecidos de forma suficientemente clara. Depois, veio a reviravolta: a Meta realizou uma “revisão interna”, devolveu o perfil ao ar e pediu desculpas pelo ocorrido.

É exatamente nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma ocorrência envolvendo uma rede social e passa a ser uma questão de democracia. Não há, até aqui, elementos públicos suficientes para afirmar que a Meta tenha retirado o conteúdo deliberadamente para proteger a Igreja Batista da Lagoinha, Daniel Vorcaro, o Banco Master, algum político ou qualquer outro personagem mencionado na reportagem. Seria irresponsável transformar essa possibilidade em certeza. Mas também seria ingênuo ignorar que uma empresa privada possui hoje a capacidade de retirar temporariamente uma reportagem do espaço público sem precisar explicar imediatamente, de forma satisfatória, por que tomou essa decisão.

Quem decide o que pode circular?

É preciso começar por uma distinção importante. É legítimo que uma plataforma privada estabeleça regras de utilização e disponha de mecanismos de moderação. Diante da quantidade gigantesca de conteúdos publicados diariamente nas redes sociais, algum tipo de moderação é inevitável. O problema surge quando uma plataforma retira do ar um conteúdo jornalístico de evidente interesse público, não informa claramente qual regra foi violada e, algumas horas depois, simplesmente volta atrás.

Nesse caso, permanecem perguntas relevantes: qual regra foi efetivamente violada? Quem tomou a decisão de retirar o perfil? A decisão foi automatizada ou tomada por uma pessoa? Houve denúncias contra o conteúdo? Por que a revisão posterior chegou a uma conclusão diferente? E, se a primeira decisão estava errada, quantas outras decisões semelhantes podem permanecer sem revisão?

Essa questão vai muito além de Fábio Porchat, do Banco Master ou da Igreja Batista da Lagoinha. Ela diz respeito ao funcionamento da democracia digital e ao poder crescente das grandes plataformas sobre a circulação da informação.

Durante décadas, aprendemos a discutir censura pensando no Estado, nos governos e nos órgãos de repressão. A experiência contemporânea acrescentou um novo personagem a essa equação: as grandes plataformas digitais. Elas não são governos e não devem ser confundidas com governos, mas possuem uma capacidade extraordinária de interferir na circulação da informação e, consequentemente, nas condições em que o debate público acontece.

O algoritmo também produz efeitos políticos

Existe uma tendência de imaginar que uma decisão algorítmica é necessariamente neutra porque não foi tomada diretamente por uma pessoa. Não é. Algoritmos são construídos segundo critérios definidos por empresas, treinados com determinados conjuntos de dados e submetidos a regras estabelecidas por seres humanos. Quando esses sistemas classificam um conteúdo como inadequado, perigoso ou passível de remoção, produzem consequências concretas.

Um erro algorítmico pode silenciar uma reportagem; uma denúncia em massa pode provocar a retirada de um conteúdo; uma classificação equivocada pode reduzir drasticamente seu alcance; e uma decisão tomada em poucos segundos pode atingir uma audiência que levou meses ou anos para ser construída. Portanto, mesmo que ninguém dentro da Meta tenha decidido conscientemente retirar a reportagem de Fábio Porchat, o efeito político da decisão continua existindo. A ausência de intenção política não elimina necessariamente o efeito político de uma decisão tomada por uma plataforma.

Essa talvez seja uma das questões mais importantes colocadas pelo episódio. Um erro de moderação pode retirar uma reportagem do alcance de milhões de pessoas, uma classificação equivocada pode interromper a circulação de uma investigação e uma denúncia coordenada pode produzir efeitos semelhantes aos de uma decisão editorial. Uma empresa pode posteriormente corrigir tudo, mas o dano à circulação da informação já terá ocorrido.

E o que exatamente estava sendo investigado?

O episódio do Revelando não trata de uma fofoca sobre celebridades. O roteiro procura estabelecer conexões entre a Igreja Batista da Lagoinha e a família Vorcaro, passando por relações familiares, doações, negócios e política. A narrativa parte, entre outros elementos, do casamento de Natália Vorcaro com Fabiano Zettel, celebrado por André Valadão, e reconstrói relações que remontam a décadas.

O programa também aborda as investigações envolvendo o Banco Master e a atuação atribuída pela Polícia Federal a Fabiano Zettel, além de apresentar informações sobre doações políticas e sobre as relações de Daniel Vorcaro com integrantes da política brasileira.

É justamente aqui que uma ressalva precisa ser feita. Investigação não é condenação, prisão preventiva não é sentença e suspeita não é prova definitiva. O próprio texto de apresentação do episódio registra que Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel estavam presos preventivamente e não haviam sido condenados até a publicação do vídeo.

Essa cautela é necessária porque jornalismo investigativo não pode ser confundido com julgamento antecipado. Mas a existência dessa cautela não diminui a relevância pública das perguntas apresentadas pela reportagem. Ao contrário, é justamente porque essas questões envolvem dinheiro, instituições religiosas, sistema financeiro e política que elas precisam ser discutidas publicamente.

A remoção acabou produzindo o efeito contrário

Há ainda um elemento quase irônico nessa história. O episódio já havia alcançado enorme repercussão no YouTube, e a retirada do perfil do Revelando no Instagram acrescentou um novo componente à história: a própria intervenção da Meta.

De repente, milhares de pessoas passaram a discutir não apenas o conteúdo da reportagem, mas também a pergunta sobre por que ela havia sido retirada. O episódio deixou de ser apenas uma reportagem sobre Banco Master, Lagoinha, Vorcaro e política e passou a ser também uma reportagem sobre o poder das plataformas de decidir o que circula.

Esse é um dos paradoxos da comunicação digital contemporânea: uma intervenção destinada a reduzir a circulação de determinado conteúdo pode produzir exatamente o efeito contrário quando desperta uma discussão sobre liberdade de expressão e controle das plataformas.

O pedido de desculpas não encerra o problema

A Meta merece ser cobrada não apenas pela decisão inicial, mas também pela falta de transparência sobre ela. Se houve um erro, é importante saber qual foi o erro. Se houve uma denúncia, é importante saber como ela foi processada. Se houve uma decisão automatizada, é importante saber por que o sistema classificou o conteúdo daquela maneira. Se houve uma decisão humana, é importante saber quais critérios foram utilizados.

Não se trata de exigir que a Meta revele mecanismos internos que possam comprometer seus sistemas de segurança. Trata-se de algo mais simples: transparência sobre decisões que interferem diretamente na circulação de informação de interesse público.

A empresa devolveu o perfil e pediu desculpas. Isso é positivo. Mas uma pergunta continua sem resposta: por que o perfil foi retirado em primeiro lugar?

O poder das Big Techs é um problema democrático

O caso também deveria servir para ampliar uma discussão que frequentemente fica escondida atrás das guerras políticas do cotidiano. As grandes empresas de tecnologia acumularam um poder gigantesco sobre a comunicação contemporânea. Elas determinam quais conteúdos serão recomendados, quais serão reduzidos em alcance, quais receberão advertências, quais poderão ser monetizados e quais serão removidos.

Em determinadas circunstâncias, essas empresas também podem determinar quais contas inteiras poderão desaparecer temporariamente do espaço público. Isso significa que parte significativa daquilo que chamamos de “opinião pública” é hoje mediada por empresas privadas que não foram eleitas por ninguém.

Esse fato não significa que essas empresas sejam necessariamente inimigas da democracia. Significa que seu poder precisa ser submetido a mecanismos de transparência e responsabilização compatíveis com a dimensão que alcançaram. Uma coisa é administrar uma rede social. Outra, muito diferente, é possuir a capacidade de interferir na circulação de informações que interessam a milhões de cidadãos.

Hoje foi Porchat. Amanhã pode ser qualquer outro

É justamente por isso que seria um erro transformar esse episódio em uma disputa entre quem gosta ou não de Fábio Porchat, entre apoiadores ou críticos da Lagoinha, ou entre simpatizantes e adversários de qualquer corrente política. O problema é maior.

Hoje é uma reportagem sobre o Banco Master. Amanhã poderá ser uma investigação sobre corrupção ambiental. Depois poderá ser uma denúncia envolvendo uma empresa multinacional. Em outro momento poderá ser uma reportagem sobre abusos cometidos por uma autoridade pública. Em todos esses casos, haverá alguém utilizando uma plataforma privada para decidir se aquela informação merece ou não continuar circulando.

É por isso que a democracia digital não pode depender exclusivamente da boa vontade dos donos das plataformas. Precisamos de regras claras, transparência, mecanismos de recurso e capacidade efetiva de escrutinar decisões que tenham impacto relevante sobre a circulação da informação.

O episódio deixa uma pergunta incômoda

O caso Fábio Porchat não permite, neste momento, afirmar que houve censura deliberada por parte da Meta. Mas permite afirmar algo talvez ainda mais importante: uma empresa privada foi capaz de retirar temporariamente do espaço público um conteúdo jornalístico de enorme repercussão e depois restaurá-lo sem oferecer uma explicação suficientemente detalhada sobre a origem da primeira decisão.

Isso deveria preocupar qualquer pessoa interessada no funcionamento da democracia, independentemente de concordar ou não com Fábio Porchat, com o Revelando, com a Igreja Batista da Lagoinha, com os personagens citados na reportagem ou com qualquer uma das interpretações apresentadas no episódio.

Liberdade de expressão não significa apenas ter a possibilidade formal de produzir uma informação. Na sociedade contemporânea, significa também ter condições para que essa informação circule. E aquilo que não circula dificilmente consegue participar efetivamente do debate público.

Esse é o ponto que não deveria ser perdido em meio à disputa política em torno do vídeo. A Meta voltou atrás, mas o episódio deixou exposta uma questão que continuará conosco por muito tempo: quem vigia os vigilantes da esfera pública digital?

Mais importante ainda, o caso nos obriga a perguntar quem garante que um erro de uma plataforma privada não se transforme, mesmo que por algumas horas, em uma forma de silêncio público.

Assista ao episódio completo

O episódio “Revelando: Grandes Igrejas, Master Negócios”, apresentado por Fábio Porchat, está disponível no YouTube.

Assista ao vídeo completo no YouTube

O que Marck Zuckerberg e a Meta podem perder se a FTC vencer

Mark Zuckerberg e sua empresa estão enfrentando um dos maiores casos de anti-monopólio em décadas

FTC v. Meta: Mark Zuckerberg takes the stand | The Verge

Por Harri Weber para o “Quartz” 

Em um julgamento antitruste de grande sucesso que está apenas começando, a Comissão Federal de Comércio está argumentando que a Meta ( META ) abusou de seu domínio nas redes sociais como parte de uma estratégia de “comprar ou enterrar ” para reprimir ameaças emergentes.

Há várias questões-chave no caso da FTC contra a empresa controladora do Facebook, incluindo se o Meta é tão dominante quanto os reguladores afirmam na era do TikTok e se as mídias sociais estão, na verdade, em pior situação hoje devido à suposta estratégia do Facebook para neutralizar seus concorrentes. O Facebook adquiriu o Instagram em 2012 e o WhatsApp em 2014, e a gigante das redes sociais também tentou, sem sucesso, comprar o Snapchat ( SNAP ) em 2013, antes de copiar seu principal recurso — os stories . Anteriormente, o Facebook tentou comprar o Twitter, e o ex-CEO Jack Dorsey teria considerado o acordo por temer que o Facebook pudesse retaliar copiando-o.

Enquanto os tribunais reviravam essas e outras questões, o que estaria em jogo para o império de mídia social de Mark Zuckerberg se a FTC conseguisse vencer? Muita coisa, considerando que o valor de mercado da Meta agora é de aproximadamente US$ 1,3 trilhão.

Se a FTC conseguir vencer o caso, “acredito que a solução mais provável será algum tipo de desinvestimento ou uma dissolução”, disse Rebecca Allensworth, especialista em direito antitruste e reitora associada de pesquisa da Universidade Vanderbilt, à Quartz. “E, portanto, a Meta pode perder o Instagram, o WhatsApp ou ambos.” Mas Allensworth alertou que isso é um grande “se”.

“Não acho que seja óbvio que eles vão ter sucesso, mas é bem possível que tenham”, disse ela.

Então, a Meta pode ser forçada a desfazer suas aquisições do Instagram e do WhatsApp — mas o que isso realmente significaria para seus negócios de publicidade hoje?

“Há muito em jogo para a Meta; ela pode perder até metade de seus negócios com anúncios”, disse Jasmine Enberg, vice-presidente e analista principal da eMarketer. A empresa de pesquisa prevê que o Instagram sozinho represente 50,5% da receita publicitária da Meta nos EUA este ano, e uma venda forçada ou cisão pode prejudicar a capacidade da Meta de crescer no futuro.

“O Instagram vem há muito tempo compensando a falta de usuários do Facebook, especialmente entre os jovens”, disse Enberg. “E embora o Meta seja enorme e o Facebook ainda seja a maior plataforma social do mundo”, o Meta precisa do Instagram para continuar crescendo, acrescentou Enberg, já que a Geração Z e os usuários mais jovens “recorrem às mídias sociais pela primeira vez”.

Enberg explicou que o panorama geral das mídias sociais mudou drasticamente desde que o Facebook adquiriu o Instagram em 2012, quando o Snapchat tinha acabado de ser lançado e o TikTok ainda nem existia. Hoje, disse ela, o comportamento do usuário é mais fragmentado, com as pessoas recorrendo a muitos aplicativos diferentes ao longo do dia. “E”, acrescentou, “as plataformas sociais também competem com players não sociais, como provedores de entretenimento”.

Embora muitos aplicativos com recursos sociais estejam disputando a atenção dos usuários, Enberg disse: “No lado comercial, ainda está incrivelmente consolidado em direção ao Meta, principalmente se você considerar apenas os gastos com anúncios sociais”. A EMarketer projeta que 72,5% de todos os gastos com anúncios sociais nos EUA irão para o Meta em 2025.

Grande parte disso tem a ver com o Instagram, mas o WhatsApp também é um grande trunfo para a Meta. Embora o aplicativo de bate-papo não hospede anúncios, a Meta tem recorrido a mensagens corporativas para diversificar sua receita, disse Enberg. Além disso, a base de vários bilhões de usuários do WhatsApp dá à Meta “um alcance enorme, bem como alguns dados para ajudar a sustentar seu negócio de anúncios”, acrescentou.

Os altos riscos neste caso vão muito além da Meta, disse Prasad Krishnamurthy, professor da Universidade da Califórnia, Berkeley, que estuda regulamentação financeira e direito antitruste. “A solução que o governo busca, que é desmembrar a empresa, é uma solução bastante substancial que mudaria não apenas a experiência dos consumidores, mas também todo o ecossistema de comunicação da nossa cultura”, disse ele. “Acho que é justo dizer que este é um caso enorme.”

Mas será que a dissolução da Meta realmente se concretizará? Em uma declaração por e-mail, Stephanie Link, estrategista-chefe de investimentos da Hightower Advisors, afirmou que seu “argumento base é um acordo”. Link acrescentou que a Meta já cedeu ao presidente Trump de várias maneiras, incluindo o encerramento de seus esforços profissionais de verificação de fatos e diversidade, e o pagamento de US$ 25 milhões ao presidente após expulsá-lo do Instagram e do Facebook.

Citando a concorrência que a Meta enfrenta com o TikTok e os desdobramentos anteriores do caso , Link afirmou, por fim, que não vê “nenhuma mudança no crescimento de 20% da receita e de 40% da margem operacional [da Meta]. Ela é negociada agora a um preço/lucro futuro de 19x e caiu 30% em relação às máximas recentes – que foi quando comecei a comprar. E continuará.”


Fonte: Quartz