Desmatamento dobra em maio: governo aponta mudança do clima e colapso por fogo como causa

Alertas de desmatamento da Amazônia entre agosto e maio sobem 9%, um indício de inversão da queda dos últimos anos

Desmatamento na Amazônia: fogo pode gerar colapso da floresta

Por Giovana Girardi para a Agência Pública

Os alertas de desmatamento da Amazônia monitorados pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aumentaram 92% no mês de maio, na comparação com o mesmo mês do ano passado — foram de 500 km2 para 960 km2. É o segundo mês consecutivo de alta em 2025.

Na somatória de alertas registrados entre agosto do ano passado a maio deste ano, a alta é de 9,1% em relação ao período anterior, acionando o sinal de alerta de que a curva de desmatamento, que vinha sendo de queda desde 2023, pode estar se invertendo de novo.

O dado divulgado nesta sexta-feira, 6 de junho, pelo Inpe e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima indicou um outro fator de preocupação sobre a Amazônia. Pela primeira vez desde o início da série histórica do Deter, o colapso de áreas da floresta por ação das queimadas teria sido mais relevante para o dado de perda da vegetação do que o chamado corte raso, quando todas as árvores são retiradas – com o uso de motosserra e correntão, por exemplo, em que o solo fica realmente exposto.

E A COP30 COM ISSO?

O aumento do desmatamento na Amazônia é um sinal que as mudanças climáticas e os incêndios de vários anos podem estar levando áreas da floresta ao colapso;

Tudo isso impacta as estratégias de combate ao fogo e ao desmatamento e dificulta ainda mais que o país alcance as metas de zerar o desmatamento da Amazônia até 2030.

O corte raso sempre foi o fator preponderante para a redução da Amazônia, mas, de acordo com os técnicos do Inpe e dos analistas do MMA, os incêndios dos últimos dois anos, em especial os de 2024, foram tão intensos que passaram a desempenhar um papel mais importante do que jamais teve.

Os 960 km2 de perda observada pelo satélite no mês de maio foram compostos, de acordo com os técnicos, em 48% por desmatamento com solo exposto e em 51% por queimadas que alteraram a composição da floresta. Uma proporção atípica. Em geral, a maior parte se deve ao desmatamento com solo exposto.

Não é fogo atual. Isso seria resultado dos incêndios que ocorreram no ano passado ou até mesmo antes, mas cujo impacto na cobertura da mata, de acordo com os técnicos do Inpe, puderam ser vistos somente agora pelo satélite, neste período em que começa a seca na Amazônia e diminui a ocorrência de nuvens.

Como se trata de uma floresta tropical úmida, quando ocorre incêndio na Amazônia – iniciado na maioria das vezes pelo ser humano –, a floresta é danificada, mas tem chance de se regenerar se não voltar a queimar num curto período de tempo. Mas, nos últimos anos, o fogo foi tão intenso que partes da floresta não foram apenas degradadas.

“Agora vemos que as florestas incendiadas no segundo semestre do ano passado colapsaram” disse João Paulo Capobianco, secretário-executivo do MMA, em entrevista coletiva sobre os dados.

De acordo com Claudio Almeida, coordenador do Programa de Monitoramento do Inpe, por colapso eles querem dizer que as áreas de floresta que foram queimadas sofreram um impacto tão “intenso e dramático” que elas deixaram de “ter papel de floresta”. Quando o dossel da área em questão foi reduzido a 30% do que era originalmente, isso acaba entrando como “desmatamento por degradação progressiva” no monitoramento do Deter.

Ministro substituto do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco concede entrevista coletiva ao lado de Rodrigo Agostinho, presidente do IBAMA, sobre números recentes do DETER que mede o desmatamento na Amazônia

Segundo Almeida, não é a primeira vez que essas perdas de vegetação relacionadas ao fogo aparecem no Deter, mas é a primeira vez que alcançam uma proporção tão grande, de 51%, no dado do mês. Em maio do ano passado, por exemplo, que também se seguiu aos grandes incêndios de 2023, a proporção das queimadas no desmatamento daquele mês foi de 21%. A maior, até então, tinha sido de 32%, em maio de 2023. Mas antes disso não tinha passado de 14%, em maio de 2018.

Após a coletiva, em entrevista à Agência Pública, Almeida disse que o dado só apareceu agora, em maio, porque depois das queimadas do ano passado veio a temporada de chuva na Amazônia, permitindo o crescimento de uma vegetação arbustiva nas florestas queimadas, que acabam confundindo um pouco a visualização do satélite.

Mas com o início da temporada seca, essa vegetação tende a morrer, deixando mais fácil a visualização das áreas em que a estrutura florestal realmente colapsou.

“Minha hipótese é que o incêndio florestal de 2024 foi tão intenso, já que as temperaturas estavam muito altas e as florestas estavam muito mais secas, que o impacto acabou sendo muito maior do que a gente jamais tinha visto”, disse. Em 2024, a Amazônia sofreu com uma seca histórica, apontada como resultado das mudanças climáticas, e foi batido o recorde de área queimada, cerca de 40 mil km2.

Na coletiva, Capobianco frisou que o dado relativo ao mês de maio não é, em sua maioria, do desmatamento no sentido mais estrito, de corte raso, que é normalmente o foco dos mecanismos de fiscalização e controle.

Mas reconheceu que isso acende o sinal de alerta de que vai ser preciso ajustar as ações para evitar ainda mais que o fogo ocorra. E de que as mudanças climáticas trazem um desafio extra. “Nós vamos seguir enfrentando o desmatamento super firmemente, mas isso não é mais suficiente [para conter a perda da Amazônia]”, afirmou à Pública.

Para Capobianco, o agravamento dos incêndios vai exigir um tipo de não que não era a realidade na Amazônia. “Historicamente, os incêndios na Amazônia eram principalmente em áreas já abertas [desmatadas]. Isso mudou.” No segundo semestre do ano passado, 24% dos incêndios ocorreram em área de floresta em pé.

Já é de se esperar que esses dados negativos acabem impactando a taxa oficial de desmatamento deste ano, que costuma ser concluída pelo Inpe em novembro. Depois de dois anos de queda, é possível que haja uma alta na taxa de 2025 – dado que deverá sair às vésperas da realização da Conferência do Clima da ONU no Brasil, a COP30.

Questionado sobre se o dado não poderá ser interpretado como uma perda de controle bem no momento em que o Brasil tenta se apresentar como um líder climático, o secretário defendeu que o combate ao problema das queimadas na Amazônia vai depender também do esforço internacional de conter as mudanças climáticas.

“Se nós não trabalharmos o entendimento da corresponsabilidade internacional com o fato de as florestas tropicais estarem se tornando mais suscetíveis a incêndios, menos resilientes, como é que nós vamos enfrentar essa questão? É um desafio monumental, é um desafio que transcende a capacidade institucional de cada país.”

Edição: Bruno Fonseca


Fonte: Agência Pública

Mulheres atingidas fazem ato hoje (3) em frente ao Banco Central, em Brasília, contra os juros altos

“Água e energia com soberania e distribuição da riqueza, com controle popular.” Com essas vozes em alto e bom tom coletivo, cerca de mil mulheres abriram nesta terça-feira (3/6/25), a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Atingidas: Para Enfrentar o Fascismo, a Crise Climática e Avançar nos Direitos.

Entre as principais reivindicações das mulheres atingidas, destacam-se a regulamentação e aplicação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas (PNAB), a criação de planos de segurança para as populações impactadas por barragens, grandes projetos e mudanças climáticas e o enfrentamento da devastação ambiental promovida pelo setor do agronegócio no país.

A programação inclui ainda um ato político com parlamentares, integrantes de órgãos de Estado e ministros, como a Ministra das Mulheres, Márcia Lopes, e representantes das pastas do Meio Ambiente, Desenvolvimento Agrário, Secretaria-Geral da Presidência da República, Minas e Energia, entre outros.

Também está confirmado um ato de denúncia contra a alta dos juros. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) considera inaceitável e abusiva a taxa de juros praticada pelo Banco Central nos atuais 14.75%. A Selic atinge o maior patamar em quase 20 anos, se tornando a terceira mais alta do mundo. A alta dos juros têm efeitos negativos na vida da população e na economia, considerando que hoje são mais de 76 milhões de trabalhadores e trabalhadoras que encontram-se endividados, e que a população já sofre com a carestia no preço dos alimentos e o aumento no custo de vida. 

Feira Cultural

Além dos atos públicos, a Jornada contará com uma feira cultural e uma série de eventos na Universidade de Brasília (UnB), com a participação de mulheres da Plataforma Operária e Camponesa da Água e da Energia, do movimento sindical e de outros movimentos populares. A proposta é discutir a situação econômica do Brasil, marcada pela inflação decorrente de um modelo dependente do mercado externo e dos efeitos da privatização de setores-chave – como o de energia -, os desafios impostos pelas mudanças climáticas, que afetam a população mais pobre globalmente, e outros temas relacionados aos direitos humanos.

A 1ª Feira de Integração das Mulheres Atingidas será um espaço onde as mulheres trarão seus produtos de artesanato e regionais para expor e compartilhar, fortalecendo a cultura e a economia solidária entre as comunidades.

Em tempo

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Márcio Macêdo, é esperado para almoçar no local com as mulheres atingidas, no início da tarde.

Serviço

Pauta: Jornada Nacional de Luta das Mulheres atingidas: Para enfrentar o Fascismo, a Crise Climática e Avançar nos Direitos

Programação de hoje – 03 de junho

Manhã: 1ª Feira de Integração Cultural das Mulheres Atingidas.

Tarde: Ato de denúncia dos altos juros.

Horário: 15h

O MAB fará transmissão ao vivo: @mab.org.br

O que aconteceria se a floresta amazônica secasse? Um experimento de décadas tem algumas respostas

What would happen if the Amazon rainforest dried out? This decades-long  experiment has some answers

Por Fabiano Maisonnave para a Associated Press

Floresta Nacional de Caxiuanã— A uma curta caminhada sob a densa cobertura vegetal da Amazônia, a floresta se abre abruptamente. Troncos caídos apodrecem, as árvores ficam mais esparsas e a temperatura sobe nos pontos onde a luz solar atinge o solo. É assim que se apresentam 24 anos de seca severa na maior floresta tropical do mundo.

Mas este pedaço de floresta degradada, do tamanho de um campo de futebol, é um experimento científico. Lançado em 2000 por cientistas brasileiros e britânicos, o Esecaflor — abreviação de “Projeto de Estudo da Seca Florestal” em português — propôs-se a simular um futuro em que as mudanças climáticas poderiam esgotar as chuvas na Amazônia. É o projeto do gênero mais antigo do mundo e se tornou fonte de dezenas de artigos acadêmicos em áreas que vão da meteorologia à ecologia e fisiologia.

Entender como a seca pode afetar a Amazônia, uma área duas vezes maior que a Índia e que abrange vários países da América do Sul, tem implicações que vão muito além da região. A floresta tropical armazena uma quantidade enorme de dióxido de carbono, um gás de efeito estufa que é o principal responsável pelas mudanças climáticas. De acordo com um estudo , a Amazônia armazena o equivalente a dois anos de emissões globais de carbono, provenientes principalmente da queima de carvão, petróleo e gasolina. Quando as árvores são cortadas ou murcham e morrem devido à seca, elas liberam na atmosfera o carbono que estavam armazenando, o que acelera o aquecimento global.

Criando condições de seca e observando os resultados

O pesquisador da Universidade de Exeter, Mateus Cardoso Silva, trabalha na floresta do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador da Universidade de Exeter, Mateus Cardoso Silva, trabalha na floresta do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Para simular o estresse causado pela seca, o projeto, localizado na Floresta Nacional de Caxiuanã , instalou cerca de 6.000 painéis retangulares de plástico transparente em um hectare (2,5 acres), desviando cerca de 50% da chuva do solo da floresta. Eles foram instalados a 1 metro acima do solo (3,3 pés) nas laterais e a 4 metros (13,1 pés) acima do solo no centro. A água foi canalizada para calhas e canalizada através de valas cavadas ao redor do perímetro do terreno.

Ao lado, uma parcela idêntica foi deixada intocada para servir de controle. Em ambas as áreas, instrumentos foram fixados em árvores, colocados no solo e enterrados para medir a umidade do solo, a temperatura do ar, o crescimento das árvores, o fluxo de seiva e o desenvolvimento das raízes, entre outros dados. Duas torres metálicas ficam acima de cada parcela.

A cobertura esparsa de árvores é visível na área do projeto Esecaflor, criado para simular uma seca na Floresta Nacional de Caxiuana, no estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

A cobertura esparsa de árvores é visível na área do projeto Esecaflor, criado para simular uma seca na Floresta Nacional de Caxiuana, no estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

A densidade florestal natural é visível na área de controle do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

A densidade florestal natural é visível na área de controle do projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Em cada torre, radares da NASA medem a quantidade de água presente nas plantas, o que ajuda os pesquisadores a entender o estresse geral da floresta. Os dados são enviados ao Laboratório de Propulsão a Jato da agência espacial, na Califórnia, onde são processados.

“A floresta inicialmente parecia resistente à seca”, disse Lucy Rowland, professora de ecologia na Universidade de Exeter.

No entanto, isso começou a mudar cerca de 8 anos depois. “Observamos um declínio realmente grande na biomassa, grandes perdas e mortalidade das árvores maiores”, disse Rowland.

Isso resultou na perda de aproximadamente 40% do peso total da vegetação e do carbono armazenado nela. As principais descobertas foram detalhadas em um estudo publicado em maio na revista Nature Ecology & Evolution. O estudo mostra que, durante os anos de perda de vegetação, a floresta tropical passou de um sumidouro de carbono, ou seja, um armazenador de dióxido de carbono, a um emissor de carbono, antes de finalmente se estabilizar.

Houve uma boa notícia: a seca que durou décadas não transformou a floresta tropical em uma savana, ou grande planície gramada, como estudos anteriores baseados em modelos haviam previsto.

Os próximos passos incluem a medição da recuperação florestal

João de Athaydes, meteorologista, mostra parte dos painéis plásticos instalados para simular o estresse causado pela seca, no projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (AP Photo/Jorge Saenz)

João de Athaydes, meteorologista, mostra parte dos painéis plásticos instalados para simular o estresse causado pela seca, no projeto Esecaflor, na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (AP Photo/Jorge Saenz)

Em novembro, a maioria das 6.000 coberturas plásticas transparentes foi removida, e agora os cientistas estão observando como a floresta muda. Atualmente, não há uma data para o término do projeto.

“A floresta já se adaptou. Agora queremos entender o que acontece a seguir”, disse o meteorologista João de Athaydes, vice-coordenador do Esecaflor, professor da Universidade Federal do Pará e coautor do estudo da Nature. “A ideia é ver se a floresta consegue se regenerar e retornar ao estado inicial de quando iniciamos o projeto.”

Durante uma visita em abril, Athaydes guiou jornalistas da Associated Press pelo local, que abrigava muitos pesquisadores. A área era tão remota que a maioria dos pesquisadores havia enfrentado uma viagem de barco de um dia inteiro partindo da cidade de Belém, que sediará as próximas negociações climáticas anuais da ONU ainda este ano. Durante os dias em campo, os cientistas se hospedaram na Base Científica Ferreira Penna do Museu Emílio Goeldi, a algumas centenas de metros dos lotes.

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador João Paulo analisa a umidade das folhas de uma árvore como parte do projeto Esecaflor na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Quatro equipes estavam trabalhando. Uma coletou amostras de solo para medir o crescimento das raízes na camada superior. Outra coletou dados meteorológicos e monitorou a temperatura e a umidade do solo. Uma terceira mediu a umidade da vegetação e o fluxo de seiva. A quarta se concentrou na fisiologia vegetal.

“Sabemos muito pouco sobre como a seca influencia os processos do solo”, disse a ecologista Rachel Selman, pesquisadora da Universidade de Edimburgo e uma das coautoras do estudo da Nature, durante um intervalo.

A simulação de seca da Esecaflor traça alguns paralelos com os últimos dois anos, quando grande parte da floresta amazônica, sob a influência do El Niño e o impacto das mudanças climáticas, sofreu seus períodos de seca mais severos já registrados. As consequências devastadoras variaram da morte de dezenas de botos devido ao aquecimento e ao recuo das águas a vastos incêndios florestais em áreas de vegetação nativa.

O pesquisador Ari Miranda Gomes coleta seiva de uma árvore no projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco, na Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

O pesquisador Ari Miranda Gomes coleta seiva de uma árvore no projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco, na Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, quinta-feira, 20 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Rowland explicou que o recente El Niño trouxe impactos intensos e de curto prazo para a Amazônia, não apenas pela redução das chuvas, mas também por picos de temperatura e déficit de pressão de vapor, uma medida do quão seco o ar está. Em contraste, o experimento Esecaflor se concentrou apenas na manipulação da umidade do solo para estudar os efeitos de mudanças de longo prazo na precipitação.

“Mas, em ambos os casos, estamos vendo uma perda da capacidade da floresta de absorver carbono”, disse ela. “Em vez disso, o carbono está sendo liberado de volta para a atmosfera, juntamente com a perda da cobertura florestal.”

Ambientalistas caminham pela Floresta Nacional de Caxiuana, estado do Pará, Brasil, perto do projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco no sábado, 22 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)

Ambientalistas caminham pela Floresta Nacional de Caxiuanã, estado do Pará, Brasil, perto do projeto Esecaflor, onde cientistas simulam a seca para entender como a floresta tropical pode responder a um futuro mais seco no sábado, 22 de março de 2025. (Foto AP/Jorge Saenz)


Fonte: Associated Press

Eventos extremos como inundação no rio Juruá se tornam 2,5 vezes mais prováveis com mudanças climáticas

Inundação do Rio Juruá em 2021 afetou mais de 43 mil pessoas, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares. Foto: Marcos Vicentti/Secom / Agência de Notícias do Acre

Eventos extremos como as inundações de 2021 na bacia do rio Juruá, no Oeste da Amazônia, se tornam 2,5 vezes mais prováveis devido às mudanças climáticas na comparação com um cenário sem interferência humana. A constatação é de artigo da parceria de Ciência para Serviços Climáticos Brasil (CSSP-Brasil), que envolve cientistas de instituições nacionais, como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e estrangeiras, como a Universidade de Viena (Áustria) e a Universidade de Oxford (Reino Unido). O estudo foi publicado na revista científica International Journal of Disaster Risk Reduction nesta quinta (29).

O trabalho constatou, ainda, que as ações humanas aumentaram os riscos associados ao evento. 61% da probabilidade total de ocorrência da inundação de 2021 pode ser atribuída diretamente às mudanças climáticas — levando um evento que naturalmente se repetiria em 107 anos a acontecer em 42 anos. Na ocasião, mais de 43 mil pessoas sofreram impactos diretos, e as perdas econômicas foram estimadas em 16,7 milhões de dólares – sendo que 10 milhões podem ser atribuídos às mudanças climáticas, segundo o artigo.

Para avaliar o impacto ambiental, os pesquisadores utilizaram dados do Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos, do Instituto Nacional de Meteorologia, do Cemaden e do conjunto de dados Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station data (CHIRPS), que mapeia a precipitação ao longo do tempo com base em informações de satélites e de pluviômetros. Para a estimativa do impacto socioeconômico, os cientistas usaram dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, plataforma do Sistema Nacional e Proteção e Defesa Civil que reúne informações sobre riscos e desastres nos municípios brasileiros.

No caso das inundações do rio Juruá – que atravessa os estados do Acre e do Amazonas – , a precipitação entre os meses de dezembro de 2020 a março de 2021 foi 48% maior do que a média para o período. As cheias também afetaram 25 km² de área urbana e 1.150 km² de áreas de pastagem, prejudicando a mobilidade da população afetada e contaminando solos agrícolas utilizados para subsistência.

Porém, os dados subestimam o real impacto, como destaca a coautora Renata Pacheco Quevedo: “Ao considerar a realidade brasileira, principalmente de uma região de extrema relevância estratégica e ambiental como a Amazônia, o estudo evidenciou gargalos relacionados à coleta, padronização e integração dos dados sobre impactos”. As lacunas limitam a compreensão completa dos danos causados, como gastos relacionados a hospitalizações e tratamentos de condições como ansiedade e depressão. “Esses gastos não previstos acabam afetando todo o sistema de saúde; portanto, considerar impactos socioeconômicos a longo prazo ajuda a garantir respostas mais eficazes e medidas preventivas mais precisas”, avalia a autora.

Mesmo com a abordagem mais conservadora, a magnitude das consequências surpreendeu os cientistas — especialmente devido aos impactos severos sobre 22 municípios cobertos parcialmente ou totalmente pela bacia, incluindo comunidades ribeirinhas altamente dependentes das dinâmicas de água para suas atividades econômicas. “Os resultados nos fizeram refletir sobre a urgência de aproximar a ciência da tomada de decisões políticas, independentemente de ideologias, partidos ou religiões. Sem uma ação coordenada e baseada em evidências, esses impactos continuarão a ser socializados, contribuindo para o empobrecimento do país como um todo”, concluem as autoras Renata Quevedo e Liana Anderson.


Fonte: Agência Bori

O enfraquecimento das promessas climáticas corporativas é um sintoma de perda de ímpeto

O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos demonstra a fragilidade dos compromissos quando a atenção e a responsabilização se desviam

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista "BP or not BP", em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Manifestantes participam de uma apresentação convocada pelo grupo de teatro ativista “BP or not BP”, em protesto contra o patrocínio da BP ao Museu Britânico. Fotografia: Justin Tallis/AFP via Getty Images

Por Hannah Daly para o “The Irish Times”

Há alguns anos, o movimento climático global explodiu de otimismo. Milhões de jovens marcharam, empresas fizeram promessas climáticas ousadas e líderes políticos falaram com urgência sobre uma crise iminente que exigia ação imediata. Hoje, o vento deixou as velas desse movimento e a atenção se voltou para a turbulência geopolítica e econômica global.

Não é de se admirar que a fadiga e a sensação de desânimo tenham se instalado. O recente recuo de empresas de alto nível em relação aos compromissos climáticos mostra a fragilidade das promessas quando a atenção e a responsabilidade se desviam.

Em 2020, a BP , a gigante da energia, prometeu cortar a produção de petróleo e gás em 40 por cento até 2030. Sob a liderança do então presidente-executivo Bernard Looney, a empresa também prometeu ser uma produtora de energia líquida zero até 2050. No início de 2023, no entanto, esse compromisso havia encolhido para apenas 25 por cento e, em outubro de 2024, a meta foi abandonada completamente. Em vez de cortar a produção de combustíveis fósseis, a BP agora planeja expandir significativamente a produção de petróleo e gás, visando cerca de 2,4 milhões de barris de óleo equivalente por dia até 2030, e cortar os investimentos em energia renovável. Justificando essa “reinicialização” , o atual presidente-executivo Murray Auchincloss disse que sua fé na transição para a energia verde havia sido “equivocada” e que o petróleo e o gás seriam necessários por décadas.

A reversão da BP mostra como as empresas podem facilmente se afastar das promessas climáticas quando as pressões financeiras aumentam e a atenção pública diminui.

Outro exemplo vem do setor alimentício. A criação de gado para produção de carne exige vastas extensões de terra e é a principal causa do desmatamento global, além de ser uma grande emissora de metano proveniente da arrotação do gado. A conversão de terras para a produção de carne e exploração madeireira está causando tamanha pressão sobre a Amazônia que a grande floresta tropical corre o risco de cruzar um ponto crítico e irreversível, que a levaria a emitir, em vez de sequestrar, carbono e se tornar uma pastagem.

O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

A JBS, maior produtora de carne do mundo, há muito tempo é associada à destruição da Amazônia. Em 2021, a gigante brasileira se comprometeu a eliminar o desmatamento de sua cadeia de fornecimento de carne bovina na Amazônia até o final de 2025. O compromisso ambicioso foi amplamente aplaudido na época. No entanto, uma investigação recente da Unearthed, do Guardian e da Repórter Brasil pinta um quadro diferente. Apesar dos investimentos em tecnologia e das alegações de avanços em sustentabilidade, os fornecedores da JBS rejeitam abertamente a meta como impossível, e a empresa tem discretamente moderado as expectativas. A lavagem ilegal de gado persiste; brechas continuam generalizadas. Em outras palavras, o que parecia um compromisso firme se tornou algo totalmente menos certo. Notavelmente, a JBS se comprometeu anteriormente em 2009 a combater o desmatamento até 2011, mas não cumpriu.

Tais declarações representam um recuo silencioso da responsabilização, uma transferência de responsabilidade que contradiz diretamente as promessas ousadas que inicialmente renderam à JBS elogios globais. Em 2024, a JBS enfrentou um processo por greenwashing, acusada pelo procurador-geral do Estado de Nova York de enganar os consumidores sobre seu compromisso com o clima, ao mesmo tempo em que continuava a impulsionar o desmatamento.

Esses exemplos da JBS e da BP representam uma tendência alarmante de retrocesso corporativo que prejudica a ação climática global. À medida que a atenção global se desvia do clima para outras questões urgentes, as promessas dos últimos anos correm o risco de se transformar em gestos vazios.

Essa erosão da responsabilidade corporativa é profundamente relevante porque cada promessa quebrada envia uma mensagem ao público e aos formuladores de políticas de que os compromissos climáticos são negociáveis, enfraquecendo ainda mais a ação e a ambição coletivas. Por exemplo, aqui na Irlanda, cumprir nosso próprio compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa exige mudanças nas práticas agrícolas e uma redução drástica no consumo de combustíveis fósseis – ambos prejudicados pelo enfraquecimento dos compromissos corporativos.

Brett Christophers, professor especializado em economia política, observou que promessas ambientais vazias são uma característica previsível do capitalismo, que é o princípio organizador predominante da nossa sociedade. O valor para o acionista – o lucro – é a força dominante, não a responsabilidade ambiental. A solução é que os governos regulem e taxem fortemente para forçar as empresas poluidoras a se despoluir, mas a vontade política é escassa.

Todo esse retrocesso corporativo ocorre em um cenário alarmante. A concentração atmosférica de dióxido de carbono é de 430 partes por milhão, 50% maior do que os níveis pré-industriais e o nível mais alto em milhões de anos. No ano passado, houve um aumento historicamente alto na concentração de dióxido de carbono, superando o recorde anterior em 27%. Isso é um presságio sombrio de que as mudanças climáticas podem estar se acelerando, à medida que as emissões das atividades humanas continuam aumentando e a capacidade dos ecossistemas de absorver o excesso de emissões pode estar diminuindo. Mesmo agora, com 1,5 grau de aquecimento, as mudanças climáticas estão causando impactos severos nos padrões de vida e criando choques econômicos em todo o mundo.

O tempo não está do nosso lado – simplesmente não há espaço para retrocessos. O verdadeiro progresso exige a redução das emissões, não promessas.

Por mais mais identidade de classe nas políticas ecológicas

O Partido de Esquerda fez um retorno nas eleições federais. Como ela pode se tornar mais forte?

A esquerda deveria tomar a iniciativa de tornar mais fácil e barato para as pessoas irem às compras, ao médico ou praticar esportes, diz Thomas Goes.

A esquerda deveria tomar a iniciativa de tornar mais fácil e barato para as pessoas irem às compras, ao médico ou praticar esportes, diz Thomas Goes. Foto: IMAGO/Funke Photo Services

Por Thomas Goes para o “Neues Deutschland” 

Para ter sucesso no futuro, a esquerda deve buscar políticas de classe ecológicas. Também faz parte do foco do trabalho da campanha. Dessa forma, o partido poderia mostrar que é importante proteger as pessoas do aquecimento global – na seguridade social. Além de aluguel e cuidados, possíveis tópicos seriam a reestruturação ecológica da indústria ou uma indústria energética sustentável e de propriedade pública que possa nos abastecer com segurança e de forma relativamente barata.

Segurança social e ecológica

A esquerda luta por uma vida boa e segura para os trabalhadores. Mas isso só é possível se também funcionar para proteger contra desastres ambientais e as consequências da crise climática. Se o aquecimento global continuar como está, não teremos mais garantia de alimentos suficientes e acessíveis. Condições toleráveis ​​de trabalho e de vida não estarão disponíveis durante ondas de calor, especialmente para muitas pessoas de baixa renda. O fornecimento de energia e a proteção contra enchentes repentinas também dependerão de conseguirmos deter o aquecimento global — ou pelo menos evitar o pior.

Uma política ecológica e de seguridade social de esquerda só terá sucesso se a esquerda enfrentar os bilionários e milionários, os aproveitadores do capitalismo fóssil. Somente se houver uma verdadeira reviravolta social, se a insegurança e a desigualdade social forem combatidas e a coesão for fortalecida, nossa sociedade se tornará verdadeiramente à prova de crises — porque somente dessa forma poderá ser construída a base política para uma política climática ambiciosa. Quando as pessoas têm medo, elas se apegam ao velho. E somente recuperando a riqueza que os super-ricos roubaram de nós poderemos tomar as medidas urgentemente necessárias. Sem luta de classes vinda de baixo não pode haver segurança social e ecológica. E sem combater o aquecimento global, não haverá futuro que valha a pena viver para as classes trabalhadoras.

Aliança de eleitores do Partido de Esquerda

O sucesso eleitoral nas eleições federais também mostra que a Esquerda deve defender mais fortemente seu clima social e suas políticas ambientais. Conseguiu construir uma nova coligação de eleitores composta por pessoas mais jovens, pessoas com qualificações mais elevadas e, especialmente, empregados sindicalizados e desempregados. Questões sociais são muito importantes para esses eleitores, mas preocupações com o clima/meio ambiente também preocupam grande parte dessa coalizão. Quando perguntados sobre qual foi o fator decisivo para sua eleição, 51% dos eleitores de esquerda citaram a seguridade social, com o clima e o meio ambiente em segundo lugar, com 18%.

Quando questionados sobre suas maiores preocupações, o panorama foi diferente: 82% estavam preocupados que as mudanças climáticas destruíssem nossos meios de subsistência. E: 41% dos novos eleitores conquistados vieram dos Verdes, 33% do SPD. Se a Esquerda quiser se tornar ainda mais forte, terá que continuar conquistando apoio de não eleitores, mas também do SPD e dos Verdes. Para 91% dos eleitores do Partido Verde, a política climática era – sem surpresa – muito importante, mas 76% dos eleitores do SPD também disseram isso. E 64% dos eleitores do Partido de Esquerda disseram que muito pouco estava sendo feito para proteger o clima. Isso também foi acreditado por 55% dos eleitores do SPD, 80% dos eleitores do Verde e até 24% do BSW.

A esquerda deve, portanto, continuar a trabalhar em sua aliança socialista-ecológica de base. Isso inclui os meios da classe trabalhadora “baixa” e média, onde o partido teve um bom desempenho nas últimas eleições. Aqui também há uma minoria muito grande para quem a política climática é importante. A coalizão eleitoral da esquerda também deve incluir pessoas de mentalidade progressista do centro social, cujos corações batem por justiça social e políticas climáticas eficazes. É provável que estes “socialistas climáticos” – aqueles das camadas média e baixa da classe trabalhadora e aqueles das camadas mais jovens da classe média – tenham constituído uma grande proporção dos eleitores do Partido de Esquerda em fevereiro. No futuro, você também poderá votar nos Verdes (de novo) se eles se moverem socialmente para a esquerda. Os Verdes da Baixa Saxônia já demonstraram isso na conferência do partido em março. Tão rápido quanto surgiu, desapareceu – esse é pelo menos o perigo para a Esquerda.

Consciência climática dos ambientes de classe

De acordo com a Fundação Bertelsmann, Die Linke teve um desempenho particularmente bom em cinco ambientes nas eleições federais: bom no ambiente tradicional da classe trabalhadora (8% para Die Linke), no ambiente precário (também 8%), no chamado ambiente expedito – ou seja, uma vanguarda predominantemente urbana e digitalmente conectada – (10%), mas muito bom no chamado ambiente neoecológico (17%) e no ambiente pós-material (15%). O meio precário é composto por membros de camadas mais baixas da classe trabalhadora, o meio tradicional da classe trabalhadora e o meio neoecológico são compostos por pessoas de classes baixa e média, enquanto o meio adaptativo (vida pragmática) e o meio pós-material pertencem à classe média alta. Um estudo representativo da Fundação Friedrich Ebert mostra como essas pessoas pensam sobre a crise ambiental, os problemas sociais e a política climática.

Para ser franco, há uma conscientização crítica sobre as mudanças climáticas em todos os lugares, mas em graus variados. Entre os trabalhadores precários e tradicionais, as preocupações sociais são particularmente altas, e a necessidade de políticas sociais é muito forte — enquanto um grande bloco também pensa em termos climáticos e sociais. Neoecologistas e pós-materialistas estão particularmente preocupados com o clima, mas também com a justiça social. Para 60% do meio precário, a inflação e as pensões eram questões particularmente importantes, mas quase 30% também mencionaram o clima. No meio tradicional da classe trabalhadora (como os precariamente empregados, predominantemente pessoas de meia-idade e mais velhas), a inflação foi particularmente importante para mais de 45% e as pensões para 55% — mas para quase 40%, o clima também foi importante. Entre os pós-materialistas, quase 50% citaram energia acessível, mas quase 70% citaram o clima. Entre os neoecologistas (predominantemente pessoas mais jovens), 50% viam a inflação como uma questão particularmente importante, mas 50% também viam o mesmo problema com o clima.

Para onde está indo a nova esquerda?

O Partido de Esquerda não é mais o que era no ano passado. Dos mais de 100.000 membros, metade se filiou nos últimos seis meses. Como essa nova esquerda se opõe à mudança política para a direita? Como ele lida com novos conflitos sociais? Perguntas que exploramos na série “Para onde vai a nova esquerda?”

Todos os entrevistados foram solicitados a indicar, em uma escala de 0 a 10, a importância que a questão do clima tinha para eles. Era importante a muito importante (8 a 10) para quase 40% dos trabalhadores precários, para cerca de 55% dos trabalhadores tradicionais, mas para quase 70% dos neoecologistas e para quase 90% dos pós-materialistas. Cerca de 60% dos trabalhadores precários e mais de 70% dos trabalhadores tradicionais acreditavam que “os políticos deveriam exercer uma pressão muito maior sobre a economia para alcançar métodos de produção favoráveis ​​ao clima”. E cerca de 55% em ambos os grupos concordaram “fortemente” e “um pouco” que as empresas estão fazendo muito pouco “para combater as mudanças climáticas”.

É claro que a conscientização climática é contraditória. Por exemplo, cerca de 70% em ambos os ambientes pensavam simultaneamente (mas cerca de 30% não) que havia questões mais importantes na Alemanha. Outros estudos também mostram que o medo da perda é particularmente alto entre as camadas média e baixa da classe trabalhadora e que há um sentimento generalizado de que não se pode confiar nos partidos estabelecidos para representar as preocupações das pessoas comuns.

Blocos de construção da política de classe ecológica

Se a esquerda quiser conquistar esses socialistas climáticos para sua aliança socialista-ecológica de base média, ela deve se basear nessas atitudes. Seis blocos de construção são particularmente importantes para isso. Primeiro, é preciso mostrar que são os bilionários e milionários os principais responsáveis ​​pela catástrofe ecológica. Eles não apenas vivem de forma extremamente imprudente com seus jatos particulares e iates de luxo, como também são os principais aproveitadores do capitalismo fóssil, que, com suas cadeias de suprimentos que abrangem o globo, explora impiedosamente tanto os recursos quanto as pessoas. Por que não fazer campanha por um imposto climático para milionários e bilionários, que poderia, por exemplo, ser usado para pagar o bilhete de nove euros?

Em segundo lugar, o poder do grande capital, do lobby e das elites políticas que abandonaram e esqueceram politicamente os trabalhadores deve ser duramente criticado. Quem quiser ganhar confiança na capacidade de sobreviver às crises do nosso tempo precisa primeiro romper com aqueles que constantemente decepcionam.

Em terceiro lugar, a política de classe ecológica da esquerda teria que tornar produtiva a tensão entre, de um lado, a urgência da luta contra o aquecimento global e, de outro, a necessidade de proteção social, especialmente em meios de classe baixa. Trata-se da promessa de segurança social e ecológica. O partido e o grupo parlamentar já têm muitas propostas na gaveta para isso. Mas infelizmente elas não fazem parte de uma narrativa política coerente que também seja apresentada em voz alta.

Uma política ecológica e de seguridade social de esquerda só terá sucesso se a esquerda enfrentar os aproveitadores do capitalismo fóssil.

Em quarto lugar, nesta narrativa, a questão da propriedade teria que ser estrategicamente levantada repetidas vezes. Trata-se de encontrar o elo mais fraco na cadeia de defesa capitalista. O fornecimento de energia é uma área adequada para isso, como os oponentes políticos reconheceram, tirando vantagem das preocupações financeiras das pessoas. Por que não dizer mais alto que energia barata e segura só estará disponível se as energias renováveis ​​forem amplamente expandidas por empresas públicas e os grandes monopolistas de energia forem nacionalizados?

A política de classe ecológica deve, portanto, estar diretamente ligada aos interesses e necessidades sociais e, em quinto lugar, também levar à organização de campanhas. Especialmente nas camadas mais baixas da classe trabalhadora, as pessoas dependem de ônibus e trens, por exemplo – geralmente caros nas cidades e frequentemente pouco desenvolvidos nas áreas rurais. Então por que não tomar a iniciativa de tornar mais fácil e barato para as pessoas irem às compras, ao médico, à academia ou visitar seus entes queridos? Amplie os serviços de ônibus e trens, reduza os preços das passagens e torne-os gratuitos o mais rápido possível. Ideias e experiências sobre este tema existem há muito tempo na Fundação Rosa Luxemburgo e no partido.

Sexto, a maneira como falamos sobre as coisas é crucial. Proteção climática – não se trata mais de proteger as pessoas do aquecimento global? E não desperta um sentimento diferente falar sobre essa proteção das pessoas em vez da necessária proteção do clima? Ou: É claro que é correto deixar claro que grandes partes da Terra estão se tornando inabitáveis ​​e que estamos ameaçados por guerras por água e recursos. Mas uma narrativa política deve se concentrar no que dá esperança, ou seja, no que podemos fazer de diferente – e como.

Os direitistas estão explorando deliberadamente a divisão entre as elites climáticas urbanas e o resto, cuja prosperidade é ameaçada por eles. A esquerda, por outro lado, deve abordar o conflito de classes diretamente e combinar interesses ecológicos e sociais. Resumindo: precisamos de uma nova narrativa climática bem pensada.

Thomas Goes é membro do comitê executivo estadual do Partido de Esquerda na Baixa Saxônia. Ele é sociólogo e mora em Göttingen.


Fonte: Neues Deutschland

Estudo sobre plantas do Ártico revela um ‘sinal de alerta precoce’ de perturbação das mudanças climáticas

O aquecimento da tundra sofreu mudanças inesperadas, aumentando o alarme sobre os ecossistemas frágeis e aqueles que dependem deles

uma planta roxa cresce em um ambiente frio

Saxifrage roxa, uma planta da tundra, na Ilha Ellesmere, Nunavut. Fotografia: Anne Bjorkman

Por Leyland Secco para o “The Guardian”

Cientistas que estudam as plantas do Ártico dizem que os ecossistemas que abrigam a vida em alguns dos cantos mais inóspitos do planeta estão mudando de maneiras inesperadas, em um “sinal de alerta precoce” para uma região afetada pelas mudanças climáticas .

Em quatro décadas, 54 pesquisadores monitoraram mais de 2.000 comunidades de plantas em 45 locais, do Alto Ártico canadense ao Alasca e à Escandinávia. Eles descobriram que mudanças drásticas nas temperaturas e nas estações de cultivo não produziram vencedores ou perdedores claros. Algumas regiões testemunharam grandes aumentos na população de arbustos e gramíneas e declínios na de plantas com flores – que têm dificuldade para crescer sob a sombra criada por plantas mais altas.

Essas descobertas, publicadas na Nature , preenchem lacunas importantes de conhecimento para equipes na linha de frente de um clima em mudança.

“A mudança climática está tão disseminada por todo o Ártico, e estamos vendo essa magnitude de aquecimento quatro vezes mais rápido do que no resto do planeta. Esperávamos ver tendências e trajetórias muito concretas. Porque em outros biomas, isso acontece”, disse a autora principal Mariana García Criado, pesquisadora de pós-doutorado em biodiversidade da tundra na Universidade de Edimburgo. “Mas o Ártico é um lugar especial e muitas vezes inesperado.”

Os pesquisadores descobriram maior riqueza de espécies em latitudes mais baixas e locais mais quentes, enquanto as espécies e áreas com maior crescimento — e perda — estavam em áreas com maior aumento de temperatura.

No Ártico ocidental do Canadá , por exemplo, Isla Myers-Smith e seu grupo de pesquisadores “Team Shrub” documentaram ecossistemas mudando rapidamente, onde a tundra está “ficando verde” a uma velocidade incrível, à medida que arbustos como o salgueiro avançam para o norte e crescem mais.

Os arbustos são altamente competitivos: crescem mais altos e ofuscam outras plantas, extraindo mais recursos no processo. À medida que se estabelecem, expulsam o algodoeiro, os musgos e os líquenes, que levam centenas – às vezes milhares – de anos para crescer. Temperaturas mais altas e estações de crescimento mais longas significam que essa tendência dificilmente diminuirá e, de forma mais ampla, em todo o Ártico, o número e a diversidade de plantas continuarão crescendo.

“Muitas vezes, quando pensamos nos impactos das mudanças climáticas no planeta, pensamos na perda de biodiversidade, mas na tundra com temperatura limitada, as mudanças climáticas são multifacetadas”, disse ela em um comunicado à imprensa.

Embora o aumento da biodiversidade possa parecer uma mudança benéfica para a região, especialistas alertam que essas mudanças têm um custo alto.

“Esses ecossistemas são tão frágeis que qualquer mudança na composição de espécies pode ter efeitos realmente fortes em todo o resto. As mudanças começam com as plantas, e se as plantas se movem, tudo acompanha”, disse García Criado, acrescentando que manadas de caribus estão entre as vítimas mais prováveis, já que áreas descampadas da tundra, favorecidas pelo líquen que eles gostam de comer, são substituídas por arbustos.

“Isso tem efeitos em cascata para os animais do Ártico que dependem dessas plantas, também para a segurança alimentar de todas as pessoas que vivem no Ártico, para as comunidades locais e indígenas, mas também para o funcionamento geral do ecossistema.”

Greg Henry, professor de geografia na Universidade da Colúmbia Britânica que ajudou a estabelecer o sistema de coleta de dados do estudo, disse que a pesquisa envolveu milhares de horas de trabalho de campo em locais remotos, com equipes “enfrentando condições climáticas extremas, nuvens de insetos picadores e até mesmo encontros ocasionais com ursos polares”.

Mas os pesquisadores não tinham dados suficientes para incluir musgos e líquens no estudo. Esses criptógamos são essenciais para o funcionamento do ecossistema, particularmente no Ártico, onde há uma rica diversidade de espécies.

García Criado disse que os resultados ressaltam a profunda incerteza na compreensão dos efeitos que as mudanças climáticas têm na vida — e a maneira como o Ártico frequentemente serve como um prenúncio de mudanças que estão por vir.

“Todas essas mudanças que estamos observando não se limitam ao Ártico. Podemos vê-las no Ártico, mas as consequências se espalham muito além dos limites da região”, disse ela. “Queremos entender essas mudanças. E então precisamos nos preparar para elas. Porque não é uma questão de se elas podem acontecer – é uma questão de quando.”


Fonte: The Guardian

Agronegócio e escassez hídrica no Brasil: uma tragédia anunciada

Seca no Rio Madeira em 2024. Foto: Michael Dantas / AFP

Um levantamento feito pela Agência Pública no banco de dados da Agência Nacional de Águas (ANA) identificou que 50 grupos empresariais possuem outorgas de uso de água que alcançam 3,5 trilhões de litros de água, um valor que serviria para abastecer cerca de 98 milhões de pessoas (46% da população brasileira) por um ano. Há que se notar que 86% das outorgas eram para atividades do dito agronegócio.

O Brasil vive hoje um processo de diminuição da água existente em seus principais rios. Isso é o que mostram diferentes estudos científicos realizados nos últimos anos e publicados em importantes revistas científicas internacionais. As causas dessa perda da capacidade hídrica estão ligadas a problemas que vão desde as mudanças climáticas, passam pelo desmatamento na Amazônia e no Cerrado, e desembocam na outorga de trilhões de litros de água anualmente para uso pelo agronegócio e pela mineração.

Um levantamento feito pela Agência Pública no banco de dados da Agência Nacional de Águas (ANA) identificou que 50 grupos empresariais possuem outorgas de uso de água que alcançam 3,5 trilhões de litros de água, um valor que serviria para abastecer cerca de 98 milhões de pessoas (46% da população brasileira) por um ano. Nesse caso, há que se notar que 86% das outorgas eram para atividades do dito agronegócio.

Mas os problemas associados ao uso intenso de água pelo agronegócio estão entrelaçados ao processo de desmatamento, especialmente no bioma do Cerrado. Uma pesquisa da qual participei e que foi publicada em 2023 na revista Sustainability mostrou a perda da capacidade hídrica (ou seja, o ressecamento) em 82 bacias hidrográficas localizadas dentro do Cerrado. Essa perda de capacidade hídrica é especialmente preocupante, na medida em que são os rios do Cerrado que abastecem a maioria das bacias hidrográficas que abastecem o resto do Brasil. É uma espécie de efeito cascata no qual o ressecamento dos rios do Cerrado irá espalhar a seca por outras partes do Brasil.

Uma estratégia dos latifundiários para responder aos impactos oriundos do desmatamento, o uso de água subterrânea para irrigação, também colabora para que o volume dos rios esteja diminuindo. Um estudo publicado pela prestigiosa revista Nature em 2019 apontava para um lento processo que estava atingindo entre 15 e 21% das bacias hidrográficas que têm suas águas subterrâneas removidas, já atingiram um limiar ecológico crítico, dizem os autores — e que esse número pode subir rapidamente para algo entre 40 e 79% até 2050. Essa tendência foi confirmada de forma específica para o Brasil por um estudo publicado pela revista científica “Nature Communications”, que apontou que mais da metade dos rios brasileiros está perdendo água para o subsolo, o que deverá comprometer a vazão, o que afetará fortemente a quantidade de água disponível para consumo humano”.

Apesar das evidências de que caminhamos para um grave problema de abastecimento de água em um futuro não muito distante, e que os principais responsáveis são conhecidos, a privatização das empresas concessionárias na maioria dos estados e municípios torna a crise uma oportunidade para os donos do capital. É que, com demanda em crescimento e oferta em diminuição, a tendência será de aumentos explosivos do preço da água para os trabalhadores do campo e da cidade.

Em face desse cenário ameaçador, é preciso que o debate em torno da democratização do acesso à água, bem como da imposição das restrições sobre o consumo abusivo pelo agronegócio e pela mineração. Mas a receita para isso precisa nascer do reconhecimento de que não há como esperar soluções das estruturas criadas para gerir a privatização da água, a começar pela própria ANA e os chamados comitês de bacia. É que desse aparato não sairá uma gota de água para os pobres, pois foi criado para gerenciar a água não como um direito humano, mas mais uma commodity a ser comercializada para alcançar o lucro máximo. 

O caminho para evitar uma aguda crise social causada pela escassez da água terá de ser o da organização popular e do questionamento frontal do modelo privatista de gerenciamento dos recursos hídricos que foi estipulado em 1997 com a promulgação da Política Nacional de Recursos Hídricos. Um exemplo prático de como o controle privado da água deve ser enfrentado pelos trabalhadores foi a chamada Revolta de Correntina, que ocorreu em 2017 na região oeste do estado da Bahia, quando milhares de pessoas se mobilizaram para denunciar o uso abusivo da água pelas atividades do agronegócio.  A replicação da mobilização de Correntina terá de estar na ordem do dia, pois, do contrário, a falta de água vai se tornar regra e não exceção.

Finalmente, há que se dizer que todo esse contexto de diminuição da quantidade de água facilmente disponível para consumo deverá ser piorado pelas mudanças climáticas com o aumento dos períodos de seca e de ondas de calor. Por isso, não há tempo para contemplar, pois a hora é agir. O quanto antes, melhor. 


Fonte: A Nova Democracia

Ameaça alimentar: aquecimento global poderá comprometer o consumo de arroz

Aumento da temperatura e dos níveis de carbono aumenta o arsênio no arroz, segundo estudo

[NAIROBI] As mudanças climáticas, combinadas com o aumento dos níveis de dióxido de carbono, podem impactar significativamente os níveis de arsênio no arroz em casca, aumentando potencialmente os riscos à saúde dos consumidores ao longo da vida, de acordo com um novo estudo.

A exposição prolongada ao arsênio inorgânico pode levar a câncer de pulmão, bexiga e pele, bem como doenças cardíacas e diabetes, de acordo com o estudo publicado no periódico The Lancet Planetary Health.

O arsênio inorgânico é formado quando se combina com elementos que não contêm carbono, como oxigênio ou enxofre. É muito mais tóxico do que compostos orgânicos de arsênio, como os encontrados em frutos do mar.

O estudo da Escola Mailman de Saúde Pública da Universidade de Columbia, em Nova York, e da Academia Chinesa de Ciências mostra que temperaturas mais altas que dois graus, somadas ao aumento dos níveis de dióxido de carbono, levam a maiores concentrações de arsênio inorgânico no arroz.

Como o arroz é um alimento básico em muitas partes do mundo, essas mudanças podem levar a um aumento substancial na carga global de câncer, doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde relacionados ao arsênio, especialmente para populações na Ásia, até 2050, de acordo com os pesquisadores.

“A ingestão de arroz em regiões como o sul da China e o sudeste e sul da Ásia já é uma fonte significativa de arsênio alimentar e risco de câncer”, disse Lewis Ziska, professor associado de ciências da saúde ambiental na Escola de Saúde Pública Mailman e pesquisador principal do estudo.

Ziska explicou que os níveis mais altos de arsênio provavelmente se devem a mudanças climáticas na química do solo, que fazem com que ele seja mais facilmente absorvido pelos grãos de arroz.

Especialistas em clima preveem um aumento de 2,7 graus na temperatura global acima dos níveis pré-industriais até 2100, se as políticas atuais permanecerem inalteradas. Esse valor é significativamente superior ao limite de 1,5 grau estabelecido no Acordo de Paris, o que ajudaria a mitigar os piores impactos das mudanças climáticas.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, o dióxido de carbono na atmosfera atingiu níveis recordes de 420 partes por milhão em 2023 – 1,5 vezes os níveis pré-industriais e o mais alto em 800.000 anos.

Em seu estudo, os pesquisadores mediram os efeitos do aumento da temperatura e do dióxido de carbono em 28 variedades de arroz ao longo de dez anos em campo. Eles utilizaram um método chamado Enriquecimento de CO2 em Ar Livre, que envolve a elevação dos níveis de CO2 em uma área específica, e técnicas avançadas de modelagem.

Isso os ajudou a estimar as doses de arsênio inorgânico e os riscos à saúde, incluindo câncer, em sete países asiáticos: Bangladesh, China, Índia, Indonésia, Mianmar, Filipinas e Vietnã.

Um fazendeiro caminhando por um campo de arroz.

Um agricultor caminhando por um campo de arroz. Pesquisadores alertam que o aumento de arsênio no arroz pode levar a um aumento na incidência global de câncer. Foto: chiến nguyễn bá , do Pixabay.

As estimativas nacionais de disponibilidade de arroz em 2021, conforme relatadas pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), foram utilizadas como ponto de partida para estimar a ingestão de arroz. O desvio padrão da ingestão de arroz por quilo de peso corporal, a partir dos dados da Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), foi utilizado para criar uma distribuição normal para cada país.

“Descobrimos que aumentos simultâneos de temperatura e CO2 podem agir sinergicamente para aumentar o arsênio inorgânico em diversas linhagens de arroz cultivadas no Sudeste Asiático e que esse aumento alterará as consequências para a saúde… das populações consumidoras de arroz”, disse Ziska ao SciDev.Net.

Ele observou que, até agora, os efeitos combinados do aumento do dióxido de carbono e das temperaturas sobre o acúmulo de arsênio no arroz não foram estudados em detalhes.

“Sabíamos que o arroz em casca também pode absorver arsênio inorgânico. As instalações na China foram uma oportunidade única de analisar tanto o CO2 quanto a temperatura em condições de campo”, disse ele ao SciDev.Net.

Limitando os danos

Os pesquisadores sugerem diversas ações que podem ajudar a reduzir a exposição ao arsênio no futuro.

“Isso inclui esforços no melhoramento de plantas para minimizar a absorção de arsênio, melhor manejo do solo em arrozais e melhores práticas de processamento”, disse Ziska.

“Juntamente com iniciativas de saúde pública focadas na educação do consumidor e no monitoramento da exposição, [estas] poderiam desempenhar um papel fundamental na mitigação dos impactos da mudança climática na saúde no consumo de arroz.”

Geoffrey Onaga, cientista associado de pesquisa do Centro de Pesquisa da África na Costa do Marfim, que não esteve envolvido no estudo, diz que a ligação entre o arsênio no arroz e as mudanças climáticas é crível.

Ele observou que diversas abordagens podem ser empregadas para reduzir os níveis de arsênio nos grãos de arroz, incluindo estratégias durante o cozimento do arroz.

“Pesquisas mostram que a proporção de grãos de arroz usados ​​para cozinhar, o volume de água empregado para lavar, os tipos de recipientes de cozimento e a duração do processo de cozimento podem reduzir os níveis de arsênio no arroz cozido”, disse ele.

Onaga diz que adicionar elementos nutricionais minerais como silício, fósforo e ferro ao cultivar arroz pode reduzir significativamente o acúmulo de arsênio no grão, minimizando sua absorção nas plantações.

“O fósforo e o silício exibem características complementares ao arsênio em sua competição pela absorção”, disse ele ao SciDev.Net .

“Consequentemente, a aplicação externa desses nutrientes minerais reduz a probabilidade de absorção de arsênio do solo.”

Jauhar Ali, cientista principal do Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz, diz que os pesquisadores estão desenvolvendo variedades de arroz com melhor tolerância ao arsênio.

“Aprimoramos linhagens de melhoramento que reduziram o arsênio nos grãos de arroz. [No entanto,] o melhoramento de novas linhagens de arroz seguras para o arsênio e sua integração exigem financiamento”, disse Ali.


Fonte: SciDev

Em 13 anos, desastres naturais tiram mais de 49 mil anos de vida no RJ

Desastre em Petrópolis no ano de 2022 visto em sobrevoo de helicóptero

Entre 2010 e 2022, o estado do Rio de Janeiro registrou 752 desastres naturais — como chuvas intensas, deslizamentos, enchentes e alagamentos — que resultaram em 1.523 mortes e mais de 49 mil anos de vida perdidos. Os dados são de um estudo da Universidade Federal Fluminense, publicado nesta sexta (18) na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde, vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os autores destacam que os impactos foram especialmente severos para mulheres e moradores de cinco municípios: Nova Friburgo, Petrópolis, Teresópolis, Niterói e Rio de Janeiro.

O cálculo de “anos de vida perdidos” — uma métrica de saúde pública que estima o tempo de vida interrompido por mortes precoces — chegou a 49.031,76 anos. Mais da metade desse total (54,2%) corresponde a vítimas do sexo feminino, que também foram maioria entre os óbitos (50,1%). As mulheres, segundo os autores, estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos dos desastres, por fatores como menor renda, alto número de dependentes e menor acesso a infraestrutura básica.

A pesquisa combinou dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres da Defesa Civil com os registros do Sistema de Informações Hospitalares do SUS. Foram considerados eventos naturais extremos classificados como movimentos de massa, inundações, alagamentos e chuvas intensas. Os autores identificaram que apenas cinco dos 92 municípios fluminenses concentraram 79,3% das mortes, revelando áreas prioritárias para ações de prevenção e resposta.

Além das perdas humanas, os desastres causaram prejuízos materiais estimados em R$ 12 bilhões. A maior parte ocorreu em unidades habitacionais (R$ 7,7 bilhões) e em obras de infraestrutura urbana (R$ 4 bilhões), afetando diretamente o cotidiano da população e a prestação de serviços essenciais como saúde e educação.

A faixa etária mais atingida foi a de 15 a 59 anos — economicamente ativa —, o que amplia o impacto socioeconômico das perdas. Os autores alertam que a perda de anos de vida representa também perda de produtividade e renda para o país. “Mesmo utilizando dados do SUS, que podem não conter a totalidade dos óbitos atribuíveis aos eventos, os resultados foram elevados”, afirma a pesquisadora Roberta Fernanda da Paz de Souza Paiva, uma das autoras do estudo.

Segundo Paiva, a identificação de áreas e grupos mais vulneráveis é fundamental para a formulação de políticas públicas mais eficazes. “A população vem sentindo impactos de diversas dimensões, reduzindo seu bem-estar, e principalmente desses grupos”, conclui. 


Fonte: Agência Bori