A sede da inteligência artificial: a revolução digital pode consumir água suficiente para abastecer 1,3 bilhão de pessoas

Relatório da Universidade das Nações Unidas alerta que a expansão acelerada da IA depende de enormes volumes de água para resfriar centros de dados e produzir eletricidade, expondo um custo ambiental praticamente ausente do debate público sobre o futuro da tecnologia

Antes de mais nada, é preciso desfazer uma das ilusões mais difundidas sobre a  inteligência artificial: a de que ela pertence a um universo puramente digital, etéreo e praticamente sem impactos materiais. A popularização de ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e análises complexas em questão de segundos criou a percepção de que estamos diante de uma tecnologia “limpa”, cuja principal matéria-prima seria apenas informação. Entretanto, um relatório recentemente publicado pelo United Nations University Institute for Water, Environment and Health (UNU-INWEH), intitulado The Environmental Cost of AI’s Energy Use: Carbon, Water and Land Footprints, demonstra que essa percepção está profundamente equivocada. Por trás da aparente simplicidade de uma pergunta feita a um chatbot existe uma infraestrutura gigantesca composta por centros de dados, redes elétricas, sistemas de refrigeração, cadeias globais de mineração e uma crescente demanda por terras e recursos naturais.

O relatório chega em um momento particularmente oportuno, quando governos e grandes empresas anunciam investimentos bilionários em inteligência artificial como se esta fosse a solução para praticamente todos os desafios contemporâneos. A narrativa dominante enfatiza ganhos de produtividade, inovação e crescimento econômico, mas dedica pouca atenção aos custos ambientais associados a essa expansão acelerada. Ao contrário do discurso corporativo, os pesquisadores da Universidade das Nações Unidas lembram que a inteligência artificial possui uma materialidade muito concreta: ela consome eletricidade, utiliza enormes volumes de água para resfriar servidores, depende da extração de minerais estratégicos e ocupa áreas cada vez maiores destinadas à construção de centros de processamento de dados.

Uma das principais contribuições do estudo é justamente ampliar o conceito de impacto ambiental. Em vez de limitar a discussão às emissões de carbono, o relatório demonstra que cada unidade de energia consumida pela inteligência artificial produz simultaneamente três tipos de pegadas ecológicas: a pegada de carbono, associada às emissões de gases de efeito estufa; a pegada hídrica, relacionada ao consumo direto e indireto de água; e a pegada territorial, que corresponde à ocupação de áreas necessárias para geração de energia, construção de infraestrutura e extração de matérias-primas. Essa abordagem integrada revela que uma fonte energética considerada “limpa” do ponto de vista climático pode continuar exercendo enorme pressão sobre recursos hídricos ou sobre a disponibilidade de terras, mostrando que a simples substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis está longe de resolver todos os problemas.

Os números apresentados pelo relatório impressionam. Mantido o ritmo atual de expansão, os centros de dados dedicados à inteligência artificial poderão consumir cerca de 945 terawatts-hora de eletricidade por ano até 2030, valor equivalente ao consumo anual de diversos países industrializados. Trata-se de uma demanda energética colossal, impulsionada não apenas pelo treinamento de grandes modelos de linguagem, mas principalmente pela utilização cotidiana dessas ferramentas por centenas de milhões de pessoas. Cada consulta aparentemente trivial realizada em um sistema de IA representa um pequeno consumo de energia que, multiplicado bilhões de vezes diariamente, transforma-se em um dos mais importantes vetores de crescimento da demanda mundial por eletricidade.

Ainda mais preocupante é a questão da água, frequentemente ignorada nas discussões sobre tecnologia digital. Os supercomputadores responsáveis pelo funcionamento dos modelos de inteligência artificial produzem enormes quantidades de calor e necessitam de sofisticados sistemas de refrigeração, muitos deles baseados em água. Além disso, a própria geração da eletricidade utilizada por esses centros de dados também depende, em grande medida, de recursos hídricos. O relatório estima que, até o final da década, a infraestrutura global de inteligência artificial poderá consumir um volume de água suficiente para atender aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas por um ano inteiro. Em um contexto marcado pela intensificação das mudanças climáticas, pela ocorrência de secas prolongadas e pelo aumento dos conflitos em torno da disponibilidade hídrica, esse dado assume proporções alarmantes.

Outro aspecto importante destacado pelos autores é a crescente demanda por minerais estratégicos necessários à fabricação de processadores de alto desempenho. A expansão da inteligência artificial significa também uma expansão da mineração de lítio, cobalto, níquel e terras raras, atividades frequentemente associadas a elevados impactos ambientais e sociais. Mais uma vez, observa-se uma divisão internacional dos custos e benefícios: enquanto os ganhos econômicos da revolução digital tendem a se concentrar nos grandes centros tecnológicos e financeiros, a degradação ambiental, a contaminação de ecossistemas e os conflitos sociais decorrentes da mineração recaem, em grande medida, sobre países periféricos da África, América Latina e Ásia.

Essa constatação conduz talvez à reflexão mais importante do relatório: a inteligência artificial também deve ser analisada sob a perspectiva da justiça ambiental. Os benefícios produzidos pela nova economia digital são distribuídos globalmente entre grandes empresas, investidores e consumidores de alta renda, mas seus impactos recaem de maneira desigual sobre comunidades locais que enfrentam aumento da demanda por água, pressão sobre sistemas elétricos, expansão da mineração, geração crescente de resíduos eletrônicos e ocupação intensiva do território. Em outras palavras, a inteligência artificial reproduz um padrão já conhecido de outras cadeias produtivas globais, no qual a riqueza é apropriada por poucos enquanto os passivos ambientais são socializados.

No caso brasileiro, as implicações desse cenário merecem atenção especial. O país reúne algumas das condições consideradas ideais para a instalação de grandes centros de dados, como relativa disponibilidade de energia renovável, abundância hídrica em determinadas regiões e potencial para expansão da infraestrutura elétrica. Ao mesmo tempo, é um dos principais fornecedores mundiais de minerais estratégicos e abriga biomas extremamente sensíveis, como a Amazônia e o Cerrado, que já sofrem forte pressão decorrente da mineração, do desmatamento e da expansão do agronegócio. Sem mecanismos robustos de regulação ambiental e planejamento territorial, a corrida global pela inteligência artificial pode aprofundar processos históricos de exploração de recursos naturais, concentrando benefícios econômicos e distribuindo impactos ambientais sobre populações vulneráveis.

O mérito do relatório do United Nations University Institute for Water, Environment and Health está justamente em retirar a inteligência artificial do campo da abstração tecnológica e recolocá-la no mundo material. Por trás de cada resposta produzida por um algoritmo existem cabos, concreto, aço, cobre, água, eletricidade, mineração, transporte e ocupação do território. Em um momento em que a inovação tecnológica é frequentemente apresentada como sinônimo automático de sustentabilidade, esse documento lembra que nenhuma revolução digital é capaz de escapar das leis da física nem das limitações ecológicas do planeta. A verdadeira discussão sobre inteligência artificial, portanto, não deve restringir-se à velocidade dos algoritmos ou aos ganhos de produtividade, mas precisa incorporar uma pergunta muito mais fundamental: quem suporta os custos ambientais dessa transformação e quem efetivamente se beneficia dela? Essa é uma questão que não pode continuar ausente do debate público, especialmente em países como o Brasil, onde a exploração intensiva dos recursos naturais já produz profundas desigualdades sociais e territoriais.

Preparação para a COP 26 reúne múltiplos atores em busca de agenda comum para a América Latina

sinop

Plantações de soja e milho avançam sobre o território da floresta em Sinop, Mato Grosso. Se o aquecimento na Amazônia passar de 4ºC – já chegou a 1,5ºC –, a floresta pode se transformar em uma savana. GEORGE STEINMETZ/NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE

Por Fabíola Zerbini*

Ainda falta um ano, mas os preparativos e conversações em torno da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), adiada para novembro de 2021 por conta da pandemia, já envolvem múltiplos atores em todo o mundo. No que se refere à América Latina, é grande a nossa responsabilidade ao participarmos deste momento crucial da agenda global para o clima, a sustentabilidade e, portanto, o futuro da humanidade.

Na nossa região, o processo de construção da COP 26 é participativo, amplo e vertical (entre produtores e compradores). Em 29 de setembro foi realizado o primeiro diálogo multissetorial, reunindo mais de 100 atores-chave no continente, o que tornou possível o intercâmbio e a sistematização de prioridades em torno de políticas públicas prioritárias para o avanço da agenda de uso sustentável da terra em nossos países, e, para a consolidação da América Latina como uma região líder na agenda de equilíbrio climático, segurança alimentar e conservação florestal.

Muitos países latino-americanos enfrentam hoje desafios semelhantes, como receitas fiscais em declínio, sociedades cada vez mais polarizadas e incertezas em relação à natureza da recuperação pós-COVID. Neste contexto, governantes e governados têm a responsabilidade e a oportunidade de colocar as agendas de uso sustentável da terra, equilíbrio climático, segurança alimentar e redução da desigualdade social, no centro de todas as decisões políticas destinadas a reconstruir nossas economias e sociedades.

Para este projeto catalisado em torno da COP 26, o diálogo entre os países produtores e compradores, entre os agricultores e o lado da demanda, entre o público e o privado, é fundamental. Uma reconstrução econômica baseada em princípios de uso sustentável da terra deve ser feita em conjunto com as ações do solo e políticas públicas.

E para isso, precisamos lançar mão de uma de nossas principais forças como região: um capital político incomparável, que se confirma pela quantidade, legitimidade e alcance das coalizões nacionais. Brasil, Colômbia e Peru já hospedam coalizões fortes que trabalharam arduamente para desenvolver agendas comuns de Uso Sustentável da Terra entre o setor privado e a sociedade civil local. Outros países também contam com alianças em torno de cadeias sustentáveis de produção e estão alinhados na busca da melhoria de sua governança suprasetorial em direção à consolidação de coalizões nacionais multiatores.

No diálogo de 29 de setembro, as coalizões e fóruns da sociedade civil e do setor privado de seis países latino-americanos foram as vozes atuantes que convergiram para uma pauta básica que inclui:


1. O esforço pela implementação do Pagamento pelos Serviços Ambientais, em particular mobilizando os mercados locais de carbono, biodiversidade e água;
2. A implantação de mecanismos de financiamento sustentáveis, que potencializam e atraem recursos públicos e privados para a agenda de transição;
3. A importância dos sistemas de rastreabilidade nacionais ou setoriais, públicos e privados, que contribuam para a transparência e credibilidade de nossos países perante os mercados e consumidores nacionais e internacionais; e
4. A ação em nível jurisdicional, que tem o potencial de estabelecer agendas no terreno, combinando produção e proteção em paisagens-chave.

Em escalas nacionais, as pautas identificadas como prioritárias pelas coalizões são as seguintes:

A TFA Colombia Alliance enfatiza a importância do avanço do avanço do mercado interno e externo de carbono, o desenvolvimento e a efetiva implementação de produtos financeiros internos e externos, adaptados ao desenvolvimento inteligente do clima e à conversão sustentável das cadeias de produção de cacau, óleo de palma, carne e leite, a efetiva implementação de acordos público-privados referentes ao desmatamento zero nestas cadeias, e a rastreabilidade público-privada da Política Nacional de Pecuária Sustentável.

No Peru, a Coalizão pelo Uso Sustentável da Terra destaca a relevância estratégica da consolidação dos compromissos setoriais para a produção sustentável de cacau, óleo de palma, café e frutas amazônicas, atualmente sob negociação pelos setores público e privado, para avançar em direção à Sustentabilidade Jurisdicional, que inclui a apresentação de cases de sucesso, o fortalecimento da governança e a mobilização de investimentos para a conversão de territórios nos quais há alto risco de conversão para propósitos produtivos, especialmente na Amazônia Peruana; e a implementação do Protocolo Verde no Ecossistema Financeiro, que garantirá investimentos públicos e privados para o financiamento e o pagamento combinado por serviços ambientais.

No nosso país, a Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura reforça a importância de ações públicas relacionadas a seis áreas prioritárias para enfrentar o desmatamento, que incluem o fortalecimento das ações de comando e controle para a erradicação do desmatamento ilegal, a implementação integral do Código Florestal, a alocação de 10 milhões de hectares de floresta para proteção e uso sustentável, a melhoria dos sistemas de rastreabilidade e monitoramento do desmatamento legal, e a suspensão dos processos de ocupação de terras para propriedades desmatadas após julho de 2008. A agenda relacionada à saturação do mercado de carbono associado à política nacional de pagamento por serviços ambientais é também identificada como essencial para o país.

O momento requer ação planejada, informada e acordada no nível político. A sequência e o aprofundamento deste diálogo multissetorial ao longo de 2021 deverá resultar no fortalecimento das ações e conquistas em nível nacional, bem como na definição de uma agenda regional. A América Latina, seus governos e povos, tem uma oportunidade única de encontrar uma voz coletiva que conecte as discussões globais com os desafios e oportunidades das iniciativas existentes, de forma a que cheguemos unidos e fortalecidos à COP 26.

*Fabíola Zerbini é Doutora em Ciência Ambiental pelo PROCAM/USP e Diretora Regional da TFA (Tropical Forest Alliance) para a América Latina

Brasil ignorou as cartas da ONU que alertavam sobre as ameaças aos defensores da terra e sobre números recorde de assassinatos

inidigenas

Traduzido por Isabel Maria Duarte Rosa

  • Relatores das Nações Unidas enviaram duas cartas ao governo de Temer em 2017. A primeira advertiu sobre ameaças a ativistas dos direitos humanos em Minas Gerais. A segunda condenava o número recorde de assassinatos de defensores do meio ambiente e da terra no estado do Pará no ano passado. O Brasil ignorou as duas cartas.
  • O Ministério Público Estadual (MPE), Ministério Público Independente de Minas Gerais, havia solicitado a inclusão de seis trabalhadores e suas famílias no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, da Secretaria de Direitos da Presidência, em Maio de 2017.
  • Os trabalhadores dizem que foram ameaçados por representantes da Anglo American Iron Ore Brazil S.A., uma subsidiária da Anglo American, empresa global de mineração com sede em Londres. Em Março, a Anglo American Brasil relatou uma ruptura no mineroduto que contaminou os rios Santo Antônio e Casca e as comunidades ribeirinhas.
  • Entre 2002 e 2013, 908 assassinatos de ambientalistas e defensores da terra ocorreram em 35 países. Destes, 448, quase metade, ocorreram no Brasil. Em 2018, até agora, pelo menos 12 ativistas sociais e políticos brasileiros foram mortos – o dobro do que em igual período de 2017.

 

Membros do grupo indígena Akroá-Gamellas chocados logo após um ataque brutal de agricultores brasileiros em Abril de 2017. Foto: Ruy Sposati / Cimi

Veio à luz apenas este mês que a administração do presidente brasileiro Michel Temer não respondeu a duas cartas enviadas por relatores das Nações Unidas em 2017 alertando sobre ameaças eminentes e condenando os assassinatos de ativistas de direitos humanos em Minas Gerais e Pará. Isto de acordo com o escritório de direitos humanos da ONU em Genebra.

Em Novembro passado, a ONU alertou sobre as ameaças que seis camponeses e as suas famílias receberam em Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais, depois de abrirem um processo contra as operações da Anglo American Iron Ore Brazil S.A. naquele estado. A empresa é uma subsidiária da Anglo American, uma empresa global de mineração com sede em Londres.

O Ministério Público Estadual (MPE), Ministério Público Independente de Minas Gerais, havia solicitado previamente a inclusão dos trabalhadores no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, da Secretaria de Direitos da Presidência, em Maio de 2017. Um deles , Lúcio da Silva Pimenta, teria sido ameaçado e expulso das suas terras várias vezes sem receber compensação de representantes da Anglo American. A empresa não respondeu ao pedido de comentários da Mongabay.

A Anglo American do Brasil está atualmente a aguardar a aprovação do licenciamento para iniciar a expansão da mina de ferro, em Sapo, que faz parte do Projeto / Sistema Minas-Rio que liga a mina (localizada perto da cidade de Conceição Mato Dentro) ao terminal de exportação do Porto do Açu, em São João da Barra, no Rio de Janeiro, através de um mineroduto de 529 quilômetros (328 milhas).

 

A ruptura de um mineroduto da Anglo American Brasil em Março de 2018 contaminou dois rios brasileiros e afetou duas comunidades ao longo desses cursos d’água. Fotografia do blog Fala Chico

A 12 de Março, a empresa suspendeu a produção de minério de ferro em Minas Gerais após a ruptura de um mineroduto na área rural de Santo Antônio do Grama, que vazou 300 toneladas de material de mineração em um córrego local, disse a Anglo American. A Secretaria de Estado e Meio Ambiente (SEMAD) de Minas Gerais afirmou que a maior contaminação de minério ocorreu no rio Santo Antônio, apesar do rio Casca também ter sido afetado.

De acordo com a London Mining Work, uma aliança de organizações que apoia comunidades impactadas por empresas de mineração sediadas em Londres, a amônia é adicionada ao mineroduto Minas-Rio, permitindo que o pó de minério permaneça suspenso na água para transporte na tubulação. Quando vazamentos ocorrem, como aconteceu em Março de 2018, amônia tóxica e outros poluentes podem acabar em cursos de água.

No início de Março de 2018, o Ministério Público Estadual de Minas Gerais (MPMG) moveu uma ação civil pública contra a Anglo American, solicitando R $ 400 milhões (US $ 121 milhões) em indemnização por danos às comunidades de Conceição do Mato Dentro, Dom Joaquim e Alvorada de Minas (MG), onde a Anglo American atua. O MPMG argumenta que a empresa trouxe impactos sociais e ambientais para as cidades, incluindo aumento da violência, criminalidade, escassez de água, poluição e desigualdade.

Lúcio da Silva Pimenta, um agricultor de pequena escala, cuja terra em Minas Gerais terá sido tomada pela Anglo American Iron Ore Brazil S.A. Fotografia de Joana Tavares / Brasil de Fato

O Brasil detém o recorde de mortes de defensores da terra

Numa segunda carta também sem resposta, a ONU denunciou os assassinatos pela polícia de dez trabalhadores rurais no município de Pau d’Arco, no Pará, e o assassinato de um defensor dos direitos humanos, todos ocorridos entre maio e julho de 2017.

“Nos últimos 15 anos, o Brasil registou o maior número de assassinatos de defensores do meio ambiente e da terra de qualquer país, com uma média que atinge o de um assassinato por semana. Os povos indígenas estão especialmente em risco ”, declararam os relatores da ONU, Victoria Tauli Corpuz (Direitos dos Povos Indígenas), Michel Forst (defensores dos direitos humanos), John Knox (Meio Ambiente) e Francisco Eguiguren Praeli (relator da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, IACHR), no documento de 2017.

“Estamos particularmente preocupados com os futuros procedimentos de demarcação [indígena], bem como com as terras indígenas já demarcadas”, disse a ONU.

Uma investigação da Global Witness identificou 908 assassinatos de ambientalistas e defensores de terras em 35 países entre 2002 e 2013. Destes, 448, quase metade, ocorreram no Brasil.

Em 2018, até agora, pelo menos 12 ativistas sociais e políticos foram mortos no Brasil, incluindo a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, morta em Março de 2018. Isto representa o dobro dos assassinatos que ocorreram no mesmo período do ano passado. Nos últimos cinco anos, 194 ativistas foram mortos no Brasil, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

O Ministério dos Direitos Humanos do Brasil foi contatado pela Mongabay para comentar o caso, mas não respondeu.

“A omissão das cartas da ONU por parte do governo brasileiro é uma indicação clara de que este não se preocupa com a vida dos defensores dos direitos humanos e ambientais do país, nem com o agravamento da violência contra povos indígenas, quilombolas e camponeses ”, disse à Mongabay Cleber Buzatto, secretário executivo do Conselho Indígena Missionário da Igreja Católica (CIMI).

Kum’tum, um dos líderes dos Akroá-Gamellas, que foi ferido num ataque em Abril de 2017. Líderes indígenas e ambientais são frequentemente alvo de ataques por parte de ruralistas brasileiros que tentam resolver disputas de terra com violência. Fotografia de Tiago Miotto / Cimi

Ameaça constante

Membro do povo Gamela, Kum’tum foi atacado em Abril do ano passado, juntamente com outros membros do seu grupo indígena, em Viana, no estado do Maranhão. Eles estavam a tentar ocupar uma parte das suas terras ancestrais, reivindicadas por fazendeiros, quando foram atacados por homens armados com facas e armas de fogo. Dois indígenas ficaram com as mãos cortadas, alguns foram baleados, incluindo Kum’tum. Ele disse a Mongabay: “A violência tem aumentado à medida que as plantações de soja, eucalipto, mineração e pecuária se expandem. Lugares onde pessoas e comunidades viviam estão sendo dilacerados pelo avanço destes setores. ”

O povo de Gamelas recebeu várias ameaças de morte contra eles se continuassem a tentar recuperar e demarcar as suas terras tribais.

“Os assassinatos são o ponto final da violência, mas enquanto vivos somos atacados, chamados vagabundos e ladrões, e o governo não faz nada a esse respeito”, disse Kum’tum, que agora vive numa área de Gamela que foi recuperada. “Quando a noite chega, pergunto-me o que poderá acontecer, quem será o próximo e espero que o amanhecer chegue logo.”

Uma mulher Akroá-Gamellas de luto logo após o ataque de Abril. Membros do grupo indígena foram agredidos por fazendeiros brasileiros enquanto tentavam ocupar o seu território ancestral indígena, no estado do Maranhão. As mãos e os pés de algumas vítimas foram cortadas com facas. Fotografia de Ruy Sposati / Cimi

FONTE: https://pt.mongabay.com/2018/06/brasil-ignorou-as-cartas-da-onu-alertavam-as-ameacas-aos-defensores-da-terra-numeros-recorde-assassinatos/