O ataque dos EUA à Venezuela e suas repercussões

Sequestro de Maduro foi na mesma data de captura de Noriega e assassinato  de Soleimani - Opera Mundi

Tenho lido várias declarações de pessoas ainda impactadas pelo ataque estadunidense à Venezuela. Além das análises já publicadas aqui no Blog do Pedlowski por distintos comentadores que destrincharam as razões das ações do governo Trump na Venezuela, quero me deter em um aspecto menos óbvio que é a razão pela qual muitos se surpreenderam com mais uma expressão de uso de força direta dos EUA.

Como já assinalei brevemente em postagem anterior, o ataque à Venezuela é a primeira vez em que os EUA usam força militar direta e sem rodeios contra um país da América do Sul.  Antes o que havia basicamente era o uso de forças para ações combinadas com governos locais contra grupos específicos ou ainda o emprego de táticas para minar e derrubar governos. O exemplo de Cuba é o mais longevo no sentido do emprego de medidas de bloqueio econômico em combinação com tentativas de desestabilização política.

Assim, as pessoas estão se chocando porque viram mais perto o emprego de força militar que países como Vietnã, Iraque, Irã, Líbia e Síria (apenas para começar) já sentiram, com o saldo de milhões de mortos.  Em outras palavras, as pessoas se chocam porque finalmente viram a coisa acontecer mais de perto, e não apenas por meio da cobertura superficial da mídia corporativa brasileira que, aliás, repetiu o papelão no dia de ontem.

Mas as pessoas estão certas quando dizem que o ataque e o sequestro do casal Maduro representam uma espécie de virada de maré. É que se fizeram isso na Venezuela, o que vai deter os estadunidenses de repetirem o ato em outros países sul americanos? Aparentemente nada, a não ser suas próprias divisões internas.

Um detalhe que é precisa que se ressalte é que, ao contrário do que fizeram em outros países, os estadunidenses se acomodaram inicialmente com uma sucessão chavista na presidência da Venezuela, além do fato de Donald Trump ter desacreditado a líder da extrema-direita venezuelana, Maria Corina Machado, como alguém apto a assumir o poder.  Esses movimentos indicam que o governo Trump sabe perfeitamente dos riscos envolvidos nessa ação em uma região em que a desigualdade social profunda entre ricos e pobres é mantida por meio de processos que nada tem de democrático. Assim, ao se acomodar, ao menos momentaneamente com segmentos ideologicamente duros do chavismo, o que Donald Trump parece estar tentando fazer é não produzir um processo de desestabilização regional. O problema é saber se as ações de ontem já não serviram como um estopim de desestabilização.

Por outro lado, a situação criada pelo ataque à Venezuela, me fez lembrar a frase “A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa” foi dita por Karl Marx em sua obra “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”. Marx usou originalmente essa ideia para analisar o golpe de Estado de Napoleão III, comparando-o com a revolução de seu tio, Napoleão Bonaparte, mostrando como os eventos históricos podem se repetir, mas de forma menos grandiosa e mais cômica ou ridícula na segunda vez.  Por que lembrei dessa frase? É que por mais que o presidente Donald Trump e seus ministros queiram, a ideia de que se pode reestabelecer uma hegemonia que se constituiu em um momento histórico que já se esgotou, principalmente em função das opções feitas pelo burguesia dos EUA de ampliar sua extração de mais valia em países como a China via investimentos que alteraram o balanço geopolítico em prol dos chineses de forma extrema e irreversível. Ou seja, esse ataque está mais para farsa do que para tragédia.

Finalmente, me parece importante notar que no caso brasileiro não apenas a corrida eleitoral de 2026 foi colocada em outro patamar pela invasão estadunidense, mas também o debate que ocorrerá dentro da esquerda brasileiro sobre o receituário que teremos de adotar para enfrentar a conjuntura histórica que ele criou.

Julius Trump Caesar: o Império atravessou o Rubicão, enquanto Lula tremeu

Donald Trump, em seu momento Julius Cesar

Por Douglas Barreto da Mata 

O que se pode depreender da nota divulgada pelo governo do Brasil sobre o ataque dos EUA à Venezuela? Cautela ou medo?  Medo. Na minha opinião, medo.  Vamos contornar as imbecilidades da mídia oficial, redes sociais e da direita brasileira.

Ditadores do mundo? Os EUA os colecionam e cevam a todos, desde muito tempo. Será que a Rede Globo pediria a invasão do nosso país pelos EUA de Jimmy Carter, eis que tínhamos um governo ilegítimo (termo usado para adjetivar maduro)? Acho pouco provável.  E uma invasão da Arábia Saudita dos maiores financiadores dos terroristas sunitas wahabistas, a monarquia teocrática e violenta? 

Pois é.  Narcotráfico?  Uai, então Donald Trump teria que fechar a CIA, a maior criadora de redes de narcotráfico do mundo, todas destinadas ao financiamento das máquinas de sabotagem geopolítica dos EUA. 

Então, vamos parar com essa baboseira e vamos ao que interessa. Petróleo.  Donald Trump quer petróleo.  A movimentação da China, e da sua afiliada Rússia, mostra que o insumo vai encarecer para os EUA.  A Venezuela é uma das últimas fronteiras nesse quesito. Talvez sejamos a próxima.

Por isso, Lula tremeu de medo. Não temos Forças Armadas, nem artefatos nucleares para dissuasão ou contenção.  Não adianta tentar “trocar” de dono e pedir pela ajuda chinesa, não vai adiantar, ao menos, por enquanto.  Por isso Lula se enche de medo.

A questão não é só de superioridade militar, óbvio, e a ação em solo venezuelano mostra isso.  Donald Trump não banca uma ocupação, não como primeira opção, porque a parcela de população hostil é muito grande, e isso refresca a memória estadunidense com os fracassos vietnamita, afegão e iraquiano.

Por isso Lula treme de medo. Com um governo bem mais próximo da direita, com um cacoete permanente para a submissão aos EUA (e qualquer outro com poder parecido), Lula imagina que não será sequestrado como Maduro, mas entregue pelo próprio povo brasileiro. 

Não é um delírio.  Assim, Lula mandou digitar sua manifestação oficial com muito cuidado, quase que pedindo desculpas por falar. De nada adiantará. 

O Império saiu às compras, e quem pagará a conta somos nós.

Venezuela sob ataque militar e casal Maduro sequestrado: ecos de uma invasão imperialista

Após bombardeio ordenado por Trump no Caribe, Maduro convoca forças  militares, aviões e tanques e inicia exercícios de defesa em Caracas para  proteger a Venezuela de novo ataque dos EUA - RSM -

Por Monica Piccinini*

Esta manhã, o mundo acordou com uma escalada chocante: os Estados Unidos lançaram uma grande operação militar dentro da Venezuela, com relatos de explosões em Caracas e em vários estados. Ataques aéreos, aeronaves voando baixo, cortes de energia. Medo e confusão no terreno.

O presidente Donald Trump afirmou nas redes sociais que o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa foram “capturados” (sequestrados) e retirados do país após o que ele chamou de “ataque em larga escala”.

Caracas declarou imediatamente estado de emergência nacional, denunciando o ataque como agressão militar estrangeira e convocando os cidadãos a se mobilizarem contra o que descreve como um ataque imperial.

O governo da Venezuela rejeitou veementemente a versão de Washington, exigindo provas de que seu presidente está vivo e condenando a operação como uma clara violação de soberania.

Líderes regionais, incluindo o presidente da Colômbia, pediram uma intervenção internacional urgente. Cuba e Irã foram além, classificando o ataque como terrorismo de Estado. Mesmo nos EUA, legisladores já questionam se Trump tem autoridade legal para lançar uma operação dessa magnitude sem o Congresso.

Sejamos honestos sobre o que isso significa. Não há autorização da ONU. Nenhum convite de Caracas. Nenhum mandato internacional. Segundo qualquer interpretação séria do direito internacional, trata-se de um ataque militar contra uma nação soberana. Bombardear uma capital e prender à força o chefe de Estado de outro país não é “aplicação da lei”, é um ato de guerra.

De acordo com a Carta da ONU, é exatamente o tipo de ação que deve ser evitada devido ao caos e à instabilidade que desencadeia muito além das fronteiras nacionais.

A linguagem do “narcoterrorismo” e das ameaças à segurança tem servido como justificativa pública há muito tempo. Mas por trás disso, esconde-se um padrão familiar. Sanções. Pressão naval. Operações de inteligência. Drones. E agora, o uso da força.

A Venezuela possui vastas reservas de petróleo e minerais essenciais e insiste em sua independência política em uma região há muito moldada pelo poder dos EUA. A história mostra com que frequência as narrativas de segurança são distorcidas ou fabricadas para abrir caminho para o controle geopolítico e de recursos.

Deixando de lado os slogans, o que vemos é o que realmente é: uma incursão militar imperial, justificada por uma mistura de ameaças reais e exageradas, com a dominância estratégica e o acesso a recursos no centro das atenções.

Independentemente das suas convicções políticas, este momento é crucial. O precedente que estabelece terá repercussões muito além da Venezuela!


*Monica Piccinini é jornalista freelancer 

Guerra chega na América do Sul e escancara o enfraquecimento da hegemonia estadunidense

Trump confirma primeiro ataque terrestre dos EUA na Venezuela

Ainda existem muitas incertezas em relação ao ataque promovido pelo governo Trump contra a Venezuela, mas há pelo menos uma: esse ataque militar escancara o colapso da ordem criada em Bretton Woods pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial. É que dentro da ordem que organizou as relações políticas, econômicas e militares desde então, a coisa no que os EUA considerava seu “quintal” se resolvia mais na pressão indireta e uso de forças interna amigas do que no uso de força militar direta.

Esse ataque também revela que há uma fragilidade extrema na capacidade dos EUA de interferir politicamente, o que forçou o uso de suas forças regulares claramente superiores.  Mas o ataque estadunidense é mais um sintoma de enfraquecimento de hegemonia do que o contrário.  Que havia uma perda de hegemonia por parte dos EUA, isso já se sabia. O que se ataque revela é que ela parece estar a caminho de um enfraquecimento ainda maior e mais veloz. Aliás, a reversão do padrão não intervencionista defendido até as eleições por Donald Trump é uma clara demonstração de que ele mesmo percebeu sua posição de fragilidade, seja no plano internacional como no interno.

A invasão da Venezuela também coloca a América Latina em um momento singular, pois forçará posicionamentos claros não da direita e da extrema-direita que são claramente orientados pelo alinhamento com os EUA e deverão apoiar incondicionalmente as ações de Donald Trump.  A verdade é que esse ataque deverá aprofundar ainda mais diferenças dentro dos agrupamentos e forças partidárias que se dizem de esquerda, principalmente naqueles setores que procuram viver em um processo de negação que vivemos em um sistema econômico em que a predação dos recursos naturais e a exploração da classe trabalhadora. Com isso, toda a elaboração que circunavegar essa obviedade das relações capitalistas poderá ficar exposta como mero charlatanismo intelectual.  Por isso, esse é uma espécie de momento da verdade para quem se diz de esquerda, pois qualquer posição que não seja a denúncia explícita deverá ser lida como adesão às posições imperialistas do governo Trump, e, convenhamos, será. 

Como ainda vivemos as primeiras horas do ataque e não se sabe como ele foi eficiente em desagregar as cadeias de comando das forças militares e das forças políticas que sustentam o governo de Nicolás Maduro, teremos que esperar pelos desdobramentos da primeira onda de ataques.  Se as forças que sustentam o governo chavista não foram drasticamente abaladas,  a chance é que haverá um aumento da instabilidade política não apenas na Venezuela, mas em toda a América do Sul.

É que não podemos esquecer que as reais razões do ataque: a tentativa de controlar as grandes reservas petrolíferas venezuelanas.  E como as demandas por recursos por parte dos EUA se estendem a outras áreas, não pode haver dúvida que outros países poderão ser atacados pelas mesmas razões que estão sendo usadas para justificar o ataque à Venezuela.

Eu havia antecipado que 2026 seria um ano desafiador, mas os fatos já estão demonstrando que subestimei o tamanho do desafio.

Chegada de armas e tropas russas mostra que invadir a Venezuela não será um piquenique

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Ainda que mal disfarçada, a retórica que emana do Palácio do Planalto indica um embarque na invasão da Venezuela supostamente para dar fim ao que seria uma ditadura impiedosa.  A realidade dos fatos tem, entretanto, dificultado a passagem da retórica para as ações concretas, já que as forças armadas venezuelanas são talvez as melhores preparadas e armadas da América do Sul.

Pois bem, essa realidade acaba de ganhar tons ainda mais agudos com a chegada de dois aviões da força aérea da Federação Russa transportando tropas e equipamentos em Caracas no último sábado (23/03).

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Com isso, a Rússia está dando um recado claro aos EUA e seus aliados regionais no sentido de que parem de pensar que uma potencial invasão à Venezuela será um piquenique de fácil resolução.  

Enquanto há que se ver o que dirão agora deputados federais, a começar por Alexandre Frota (PSL/SP), que disseram que eram voluntários de primeira hora para participar da invasão de um país soberano que possui as maiores reservas conhecidas de petróleo do planeta. Será que com tropas e armamento russo em solo venezuelano, a disposição de ser voluntário continua a mesma? A ver!

The New York Times revela que aliados de Juan Guaidó queimaram caminhões de “ajuda humanitária” em possível operação de falsa bandeira

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Incêndio que destruiu caminhões com “ajuda humanitária” inicialmente atribuída ao governo Maduro foi efetivamente iniciada por aliados de Juan Guaidó, diz The New York Times.

Imediatamente após a fracassada tentativa promovida pelo governo de Donald Trump de fazer entrar à força caminhões com suposta “ajuda humanitária” na Venezuela a partir de pontos fronteiriços com o Brasil e a Colômbia no dia 23 de fevereiro, órgãos da mídia alternativa divulgaram a informação de que aliados do autoproclamado presidente da Venezuela, o deputado Juan Guaidó, haviam causado o fogo que destruir parte da frota.

Essa narrativa, entretanto, foi desprezada pela maioria da mídia corporativa no Brasil e fora daqui em prol de uma versão que jogava a culpa nas forças armadas da Venezuela que até agora se mantém fieis ao presidente Nicolás Maduro. Com isso se reforçou a ideia de que Maduro era um tirano insensível ao drama em que está imersa a maioria da população venezuelana.

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Infográfico mostrando onde se deram os conflitos que resultaram na queima de caminhões com material enviado pelo governo dos EUA.  Fonte: The New York Times

Pois bem, a versão alternativa dos fatos que culpava o governo Maduro foi abatida hoje por uma reportagem publicada pelo jornal estadunidense “The New York Times” e assinada pelos jornalistas Nicholas Casey, Christoph Koetl e Deborah Acosta onde fica indicado, a partir de vídeos produzidos no momento do incêndio, que foram os próprios aliados de Juan Guaidó que atearam fogo nos caminhões, no que se configura numa operação de “falsa bandeira”, muito usada por serviços de inteligência dos EUA para justificar ações militares contra governos controlados por desafetos (ver vídeo abaixo).

As revelações do “The New York Times”, ainda que tardias em relação à mídia alternativa, criam uma complicação a mais para os que defendiam o uso da força militar para remover Nicolás Maduro do poder para instalar Juan Guaidó como uma espécie de “garantidor” da democracia na Venezuela.

A questão que fica agora é sobre o destino do próprio Juan Guaidó que está se mostrando incapaz (pelo menos até agora) de entregar o que prometeu a seus aliados dentro e fora da Venezuela.  Essa demora de assumir o poder de fato na Venezuela certamente poderá custar caro ao jovem deputado.

Finalmente, fica a lição: em conflitos como o que está acontecendo na Venezuela, onde os interesses das potências mundiais estão em choque, as coisas nem sempre são o que parecem ser (ou que querem que nós acreditemos). 

O curioso caso venezuelano e um inquieante paralelo Brasil

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Ao contrário do esperado pelos adversários e por parte significativa da mídia corporativa, comandantes militares venezuelanos ratificam seu apoio ao regime chavista e a Nicolas Maduro.

Se uma liderança parlamentar de esquerda resolvesse repentinamente se proclamar presidente em exercício do Brasil por causa da aparente incompetência de um governo de extrema-direita, sabemos que muito provavelmente essa proclamação seria respondida com a prisão do proclamador.

Já na Venezuela, a autoproclamação de Juan Guaidó foi não só reconhecida rapidamente pelo governo de Donald Trump, mas também por um par de governos de direita na América Latina, numa velocidade que não deixa ocultar o grau de articulação que houve para que o lider da inoperante assembleia nacional resolvesse correr o risco que correu e continuará correndo, quaj seja, de ir parar na prisão.

Tenho acompanhado a cobertura internacional desde o ponto privilegiado em que estou no momento que é a cidade de Lisboa. Sem adentrar em muitos dos detalhes da cobertura que está sendo dada que difere de veículo para veículo, um aspecto é reforçado quase no tom de esperança. Esse aspecto seria a possibilidade dos níveis inferiores das forças armadas venezuelanos romperam a disciplina militar para apoiar Juan Guaidó. Em outras palavras, a mídia corporativa brasileira e mundial aposta na ruptura da estrutura da disciplina militar para viabilizar a derrubada de Maduro. Em outras palavras, a mídia corporativa reconhece a incapacidade política de Guaidó de acabar com o ciclo chavista na Venezuela, e aposta na anarquia militar.

Até agora essa esperança não está sendo acompanhada dos fatos como mostra o vídeo abaixo, pois os líderes militares venezuelanos parecem firmes na defesa de Nicolas Maduro e, consequentemente, contrários às pretensões de Juan Guaidó e seus apoiadores externos, a começar pelos governos de Donald Trump e Jair Bolsonaro.

 

Sem o apoio militar não há como alcançar a substituição de Maduro por Guaidó. Isso, contudo, amplifica ainda mais a dependência do presidente venezuelano de seus comandantes militares.  Esta dificuldade fica maior ainda quando se verifica que também todas as estruturas de estado da Venezuela (com exceção da assembleia nacional) apoiam a permanência de Nicolas Maduro no poder.

O curioso é que no Brasil está se vendo após meros 25 dias de governo o mesmo tipo de dependência em relação ao apoio das forças armadas por parte de Jair Bolsonaro.  Nesse sentido, para quem diz que não quer o Brasil sendo transformado em uma Venezuela, pelo menos neste aspecto estamos ficando bastante parecidos.  No que isso vai dar, ainda é difícil prognosticar. Mas certamente teremos um agravamento das tensões políticas que já não são desprezíveis.

A bravatas do futuro ministro de relações exteriores fragilizam o Brasil na dura realidade da geopolítica global

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Nos últimos dias tem-se ouvido manifestações curiosas do futuro ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, o embaixador que nega as mudanças climáticas, Ernesto Araújo, em relação ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.  A grande esperteza dos últimos dias foi o anúncio de Nicolás Maduro não seria convidado para a posse de Jair Bolsonaro em Brasília. É que já era mais do que sabido que Maduro iria, por várias razões, declinar do convite de vir ao Brasil, especialmente depois de ter feito uma viagem vitoriosa a países como Rússia e China. Assim, dizer que alguém que não viria não será convidado é perfeito para quem deseja provocar uma boa tempestade em um copo de água.

Como já bem abordou em seu blog, o jornalista Luís Nassif, não convidar países com os quais se têm divergências com governantes de plantão vai de encontro às boas regras da diplomacia internacional, além de causar embaraços desnecessários à relações políticas e comerciais que forçosamente ocorrem até entre inimigos ferrenhos como os EUA e Cuba [1]. Há que se lembrar, por exemplo, que a Venezuela não apenas compra produtos agrícolas brasileiros, mas vende a eletricidade que mantém Roraima funcionando.

Desta forma, o fato de membros da dinastia Bolsonaro (começando pelo próprio presidente eleito) estarem falando abertamente em mudança de regime em Caracas,  pode incentivar que outros venham ter a mesma tentação com o Brasil [2]. No caso da Venezuela, há que se lembrar que desde Hugo Chávez tem ocorrido um grande fortalecimento da capacidade bélica das forças armadas daquele país. Assim,  puxar briga com quem, por si próprio, não tem exatamente medo de uma briga militar com o Brasil é, no mínimo,  arriscado.  Especialmente depois da visita que bombardeiros russos com capacidade de carregar armas atômicas fizeram à Venezuela.

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Mas fazer o que se os novos governantes brasileiros preferem viver de criar crises nas redes sociais do que utilizar com responsabilidade as ferramentas diplomáticas existentes? Provavelmente sentar e esperar para ver quando a primeira grande crise diplomática vai estourar, e com grandes chances de causar enormes prejuízos à já combalida economia brasileira. A ver!


[1] https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-do-eduardo-bolsonaro-o-perfeito-idiota-diplomatico-latino-americano-por-luis-nassif

[2] https://www.theguardian.com/world/2018/dec/16/liberate-venezuela-from-maduro-urges-bolsonaro-ally

Sorriam campistas, a Venezuela é aqui!

VENEZUELA-MAYDAY-MADURO

Desde que iniciei este blog adotei a posição de não me concentrar nas questões municipais, visto o grande número de blogueiros que se dedicam a esmiuçar cotidianamente, sob os mais variados matizes, o funcionamento da Prefeitura de Campos dos Goytacazes sob a batuta da ex-governadora Rosinha Garotinho e seu marido, o também ex-governador Anthony Garotinho.

Mas a capa do jornal O DIÁRIO deste domingo (24/01) que anuncia a promulgação de um decreto de estado de emergência econômica é primeiro de tudo, impagável! É que a mesma nos remete, querendo ou não quem a criou, ao processo de crise mais amplo que ocorre nas economias dependentes do petróleo, como é o caso da Venezuela onde seu presidente Nicolás Maduro promulgou lei semelhante no dia 15.01.2016, em face da profunda crise econômica que assola aquele país (Aqui!).

Entretanto, ao contrário do governo da Venezuela que, além de enfrentar os agudos efeitos da retração do preço do petróleo, também convive com uma forte oposição de direita que, frise-se acaba de lhe impor uma pesada derrota eleitoral, o governo municipal de Campos dos Goytacazes chegou a este ponto sem maiores oposições, seja por parte do parlamento local ou da sociedade civil organizada. 

Tampouco a economia de Campos dos Goytacazes precisaria estar dependendo dos royalties para garantir mais de 50% do nosso orçamento municipal. Tivessem as diferentes administrações, aqui inclusas as de Arnaldo Vianna e Alexandre Mocaiber, investido em uma genuína diversificação da base econômica municipal, é bem provável que agora não estivéssemos presenciando a decretação de um estado de emergência.

Acho até desnecessário, mas faço assim mesmo, mencionar que não tivessem as diferentes gestões que ocorreram a partir da chegada dos recursos dos royalties (particularmente as Arnaldo Vianna, Alexandre Mocaiber e Rosinha Garotinho) optado por obras milionárias, mas de necessidade duvidosa, é quase certo que hoje não estaríamos presenciando a situação aflitiva em que estamos imersos neste momento.

Finalmente, agora que a dura realidade está sendo reconhecida sob a forma de decreto, há que se esperar que os postulantes a suceder Rosinha Garotinho a partir de 2017 parem de encenar a peça maniqueísta do “nós bonzinhos contra eles malvados” para oferecer um projeto estruturante para o município de Campos dos Goytacazes. Do contrário, o decreto da Prefeita Rosinha Garotinho é apenas o prenúncio de tempos bastante duros. É que lendo o receituário básico que está sendo apontado em vários de seus dispositivos (a começar pelo que prevê um programa de aposentaria incentivada!), a aposta parece ser de um médico que oferece açúcar a um diabético em estado terminal. Em outras palavras, não tem como dar certo!