Não bastassem as acusações de que suas atividades de mineração causaram a contaminação de diversos hídricos na região de Barcarena, a Norsk Hydro agora foi indiciada pelo Ministério Público do Pará por estar supostamente distribuindo água contaminada aos moradores das áreas que foram afetadas pelo derramamento de rejeitos tóxicos ocorrido em fevereiro.
Eu diria que a Norsk Hydro, apesar das juras e compromissos feitos em sua página oficial no Twitter (ver imagem abaixo), continua não cumprindo sequer as obrigações postas por seu modelo de governança corporativa.
Mas não é de hoje que a Norsk Hydro pratica mais governança corporativa no Twitter do que na vida real no mais puro espírito do “para norueguês ver”. Resta esperar que mais esse ataque aos moradores de Barcarena não fique por isso mesmo.
Abaixo matéria assinada pela jornalsita Sayonara Moreno para a Radioagência Nacional sobre esse assunto.
MP do Pará responsabiliza Hydro Alunorte por distribuição de água contaminada
Por Sayonara Moreno
Um inquérito policial pode ser aberto, para apurar a responsabilidade da empresa Hydro Alunorte, sobre as condições da água que está sendo fornecida, em carros-pipa, a moradores de Barcarena, no Pará.
O pedido é do Ministério Público do estado, que considera inadequada a qualidade da água oferecida à população, depois do vazamento de rejeitos, em rios da cidade paraense.
O órgão informou que pediu à Secretaria de Saúde do estado, informações sobre análise de amostras da água dos poços e dos sistemas de abastecimento para as casas das comunidades em torno do Polo Industrial de Barcarena.
O resultado apresentou contaminações em diversas fontes, entre elas metais pesados, como o chumbo, na água fornecida para as comunidades Bom Futuro, Itupanema, Vila Nova, Jardim Cabano e Burajuba.
Também foi constatada a presença de alumínio acima do valor máximo permitido, nas amostras colhidas em Itupanema, Vila Nova e Jardim Cabano. Na localidade de Bom Futuro foi encontrada contaminação por coliformes fecais, bactérias nocivas à saúde.
Após a confirmação das contaminações, o Ministério Público do Pará atribui a responsabilidade à Hydro Alunorte e aguarda até a próxima semana o número e registro do inquérito e do delegado que vai coordenar a investigação.
A Hydro Alunorte vai ser notificada para suspender o fornecimento de água imprópria à população e passar a fornecer acesso à água mineral de boa qualidade.
Em nota, a Hydro Alunorte informa que vai seguir as recomendações do Ministério Público do Pará e que vai manter a distribuição de água mineral a 1800 famílias de Burajuba, Vila Nova e Bom Futuro, que já recebem a assistência. Segundo a empresa, são distribuídos galões de vinte litros de água mineral, toda semana, às famílias.
A companhia ainda esclarece que os dez caminhões-pipa estão de acordo com as normas sanitárias e foram contratados para distribuir água potável para o preparo de alimentos, higiene corporal e uso doméstico.
A nota diz, ainda, que a água distribuída nos veículos vem da concessionária local, monitorada em conjunto com a Vigilância Ambiental de Barcarena; e que passa por inspeções a cada viagem. Por fim, a mineradora se diz comprometida em colaborar com as autoridades e a comunidade de Barcarena.
A empresa para estatal dinamarquesa Norsk Hydro vem fazendo um esforço concentrado para tentar afastar suas próprias responsabilidades acerca do grave incidente ambiental ocorrido no município de Barcarena (PA) quando fortes chuvas causaram um processo de extravazamento de rejeitos tóxicos em corpos hídricos existentes naquela região.
Dentro deste esforço um ponto de disseminação da posição oficial da Norsk Hydro é a conta oficial da empresa no Twitter, onde sem medo de ser feliz, é apresentada a versão de que auditoria interna não revelou a presença de contaminantes oriundos dos tanques de rejeitos existentes em Barcarena nos corpos aquáticos que foram identificados como estando fortamente impactados, inclusive por metais pesados (ver figura abaixo).
O que a Norsk Hydro não diz aos seus leitores no Twitter é que o Instituto Evandro Chagas (IEC), que fez análises independentes da empresa, já apresentou relatórios que mostram justamente o contrário, qual seja, que os corpos aquáticos no entorno de sua planta em Barcarena estão sim fortemente impactados, causando riscos aos ecossistemas naturais e à população humana assentada naquela região.
Tampouco a Norsk Hydro informa aos seus leitores do Twitter que a empresa vem fazendo um esforço concentrado para desmentir os relatórios produzidos pelo IEC, numa tentativa de cobrir o sol com a peneira, contando com cooperação ativa da mídia corporativa nacional [1]. Aliás, como bem já retrucou o pessoal do IEC, o que a Norsk Hydro está tentando fazer é desqualificar a validade científica dos trabalhos realizados pelos pesquisadores brasileiros em Barcarena, os quais lhes são completamente detrimentais.
O que a Norsk Hydro não aborda são os dutos clandestinos que foram encontrados após o incidente ocorrido em fevereiro dentro de suas instalações e que lançavam detritos tóxicos diretamente nos corpos aquáticos existentes na região de Barcarena. E para não ter que se explicar principalmente aos seus acionistas sobre este tipo de procedimento ilegal que os executivos da Norsk Hydro estão tentando desacreditar os resultados científicos produzidos pelo IEC.
Como se pode ver, governança ambiental para a Norsk Hydro é coisa para “dinamarquês ver”, especialmente se ele for acionista. Já no Brasil, o negócio é poluir sem temer o amanhã.
SINTSEP-PA CONTRA A HYDRO E EM DEFESA DOS TRABALHADORES DO IEC
Em mais um ato colonialista, a empresa norueguesa Hydro, visando se defender dos processos movidos contra ela pelo Ministério Público, ataca o resultado dos laudos técnicos emitidos pelos pesquisadores do Instituto Evandro Chagas.
A Hydro é causadora de um dos maiores crimes ambientais recentes no país, equiparável ao crime cometido pela empresa Samarco em Mariana-MG, em 2015. O vazamento da Hydro causou a contaminação de rios, igarapés e poços artesianos das comunidades do município de Barcarena-PA. O Laudo do IEC, assinado por Marcelo de Oliveira Lima e divulgado em 22/02/18, confirmou a contaminação das águas por rejeitos de bauxita e chumbo (entre outros) e demonstrou que os índices detectados pelos peritos revelam extremo risco à saúde das famílias. O laudo revelou ainda a existência de drenos clandestinos, por onde a empresa despejava irregular e intencionalmente o resíduo por pelo menos três canais clandestinos utilizados pela empresa por onde vertiam efluentes para rios de Barcarena. O crime tinha a aquiescência da SEMAS, permitindo drenar os rejeitos quando as chuvas se intensificavam, numa clara conivência do governo do Estado com o crime cometido pela empresa.
Por fim, há fortes suspeitas de relação da Hydro com o assassinato de Paulo Sérgio de Almeida Nascimento, líder comunitário da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama), que denunciava o vazamento provocado pela empresa. Paulo Sérgio já vinha sendo ameaçado, pediu proteção policial ao Estado, mas Jatene negou. Após o vazamento ocorrido nos dias 19 e 20 de fevereiro, o governador Simão Jatene (PSDB) veio a público em defesa da empresa norueguesa, dizendo que o vazamento era culpa das fortes chuvas, num declarado ato de conivência com o fato. Para se livrar dos crimes de vazamento e despejo clandestino, a Hydro divulgou no dia 09/04 laudo encomendado à Consultoria Ambiental SGW no qual se contrapõe ao laudo do IEC, afirmando não existir indicação de contaminação em rios, igarapés e lençóis freáticos. Contra esses crimes, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) entraram com ação cautelar na Justiça Federal pedindo a suspensão parcial das atividades da Hydro Alunorte.
O Sintsep-PA repudia os crimes da Hydro, que saqueia nossos minérios, contamina nossos rios, atenta contra a vida das populações ribeirinhas e suas lideranças e ainda tenta encobrir seus crimes desqualificando o trabalho de toda uma equipe de profissionais, que compõe uma das instituições de pesquisa mais respeitada do mundo. Somos solidários a equipe de servidores do IEC e ao Dr. Marcelo pelo serviço prestado às comunidades atingidas pela assassina Hydro.
Que o MP investigue as relações de conivência entre o governo do Estado e a Hydro, com prisão imediata para Jatene, para o secretário de Meio Ambiente, Thales Belo, e para o secretário adjunto de Mineração; Prisão imediata para os dirigentes da Hydro envolvidos com o crime ambiental.
Que seja suspensa a permissão para atividade de exploração mineral à Hydro e que o controle da empresa seja entregue aos trabalhadores.
Ação cautelar do MPF e MPPA também requer que seja determinada com urgência a realização de uma série de auditorias judiciais
Área inundada por efluentes dentro da refinaria em 17 de fevereiro deste ano (créditos: relatório técnico do IEC)
O Ministério Público entrou na Justiça Federal, nesta terça-feira (10), com ação cautelar em que pede decisão urgente para garantir a suspensão parcial das atividades da Hydro Alunorte. Também quer que a refinaria de alumina seja obrigada a prestar atendimento emergencial às comunidades impactadas por despejos irregulares de resíduos tóxicos. A empresa está localizada em Barcarena, no nordeste do Pará.
A força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) para o caso também pediu que a Justiça determine com urgência a realização de auditorias judiciais sobre a segurança das barragens e do processo produtivo e sobre a qualidade dos planos de ação da empresa para situações emergenciais. Essas devem ser feitas por empresas de auditoria independente, custeadas pela Hydro e contratadas a partir de seleção pública, mediante termo de referência previamente aprovado pelo Ministério Público.
Em entrevista coletiva realizada na tarde de hoje em Belém, no MPPA, o promotor de justiça Laércio de Abreu, da promotoria de Justiça de Barcarena, explicou que decisão de protocolar nova ação na Justiça foi necessária pelo fato de a empresa não ter cumprido efetivamente as recomendações feitas previamente pela força-tarefa do Ministério Público e nem ter formalizado Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com os órgãos.
“Com esta ação queremos acautelar alguns direitos. Precisamos que as comunidades sejam atendidas, que algumas provas sejam feitas com urgência na empresa e que análises sejam preservadas”, detalhou o procurador da República Ricardo Negrini. “Precisamos que a empresa adote medidas para termos certeza que nenhum dano vai se repetir, que nenhum vazamento ocorrerá novamente”.
A força-tarefa do Ministério Público pede à Justiça Federal que determine o pagamento de multa diária no valor de R$ 1 milhão em caso de descumprimento das medidas estipuladas.
Resposta humanitária
Na ação, o MPPA e MPF pediram à Justiça que obrigue a tomada de providências urgentes em resposta humanitária às comunidades afetadas e aos trabalhadores. Segundo relatos apresentados à força-tarefa, após o vazamento de rejeitos da refinaria em fevereiro, moradores da área banhada pelos rios poluídos passaram a apresentar sintomas de uma série de doenças, e houve redução da produção da agricultura, da pesca e do extrativismo.
A força-tarefa do MP pediu à Justiça que a Hydro seja obrigada a fornecer imediatamente água, alimentação e dois salários-mínimos mensais às famílias atingidas, além do atendimento às questões de saúde. Esses atendimentos devem ser feitos tanto às famílias das áreas impactadas apontadas pelo Instituto Evandro Chagas como às famílias de novas áreas que eventualmente auditoria independente vier a identificar.
Outro pedido é que a Hydro seja obrigada a assegurar que, antes de qualquer dispensa imotivada de funcionários, haja negociação com o sindicato profissional, e que, em caso da efetivação da dispensa imotivada, seja garantido ao empregado dispensado indenização mensal no valor equivalente ao do salário recebido pelo trabalhador, enquanto estiver vigente a suspensão das atividades industriais solicitada na ação.
A ação também pede que a Justiça determine a criação e implementação, pela Hydro, de sistemas de tratamento e distribuição coletiva de água potável, e sistemas de avaliação das águas superficiais, da balneabilidade das praias e da qualidade do ar, além de sistemas telemétricos de boias para avaliação da qualidade das águas nas praias.
Auditorias
Além da auditagem da segurança das barragens, dos processos produtivos e dos planos de ações emergenciais da Hydro, se a Justiça acatar os pedidos do Ministério Público as empresas de auditoria independente farão o levantamento e cadastramento das comunidades e famílias atingidas, a avaliação da qualidade do solo, a avaliação da qualidade da água em áreas de pesca, e a análise de possível contaminação dos moradores.
A força-tarefa do Ministério Público pediu ainda que, como garantia para o pagamento de futuras medidas de recomposição dos danos socioambientais materiais e morais, a Hydro seja obrigada a depositar, dentro de dez dias, 5% do valor total da isenção fiscal estadual da qual a empresa é beneficiária.
Aventura jurídica
A promotora de justiça Eilane Moreira classificou de “aventura jurídica” a decisão da Hydro Alunorte de acionar o Ministério Público na Justiça para questionar a utilização, pela força-tarefa, de dados fornecidos pelo Instituto Evandro Chagas.
“A empresa traz questionamentos sem bases legais e fundamentos científicos, tentando trazer dúvidas à sociedade. O papel de uma empresa séria é trazer respostas efetivas e concretas, não colocando em dúvida as instituições que representam a sociedade brasileira e a sociedade paraense”, argumentou a promotora, citando ainda o fato de a Hydro Alunorte ter questionado as credenciais do Instituto Evandro Chagas para realizar análises ambientais em Barcarena. “Não temos nenhum receio de responder ao Judiciário os pontos questionados”, antecipou Eliane Moreira.
Vazamentos comprovados
Durante a entrevista coletiva, a promotora ainda destacou que não há dúvidas sobre vazamentos em atividades da Hydro Norte, o que foi comprovado por pelo menos três vias: o tubo clandestino utilizado pela empresa, o canal clandestino que a empresa rotineiramente utilizava e um outro duto por onde vertiam efluentes para rios de Barcarena. “A empresa pode até questionar se houve transbordamento, que é outra questão, mas vazamento é todo efluente que foi irregularmente despejado no meio ambiente”, explicou.
O promotor de justiça Daniel Barros destacou que toda a atuação do Ministério Público está embasada em procedimentos investigatórios. “Já ouvimos depoimentos de comunitários e da própria empresa, inclusive de diretores da empresa, que confessaram ao Ministério Público o lançamento irregular de efluentes em rios, o que é tipificado como uma conduta ilícita”, alertou. “Como se pretende agora desdizer tudo o que foi dito em procedimentos formais?”, questionou.
Daniel Barros frisou que a ação cautelar protocolada nesta terça-feira não encerra as providências adotadas pela força-tarefa do Ministério Público. De acordo com o promotor, estão em curso investigações nas esferas criminal e cível que podem resultar em ação civil pública e denúncia criminal contra responsáveis pelos impactos socioambientais em Barcarena.
Abaixo uma material postada pelo Movimento de Atingidos pela Mineração (MAM) a partir de uma entrevista dada pelo geógrafo Fabiano Bringel, professor doutor da Universidade Estadual do Pará (UEPA), que explica os riscos potenciais dos despejos ilegais feitos pela Norsk Hydro em Barcarena, inclusive sobre a cidade de Belém.
É importante que se continue prestando atenção nos desdobramentos do incidente ambiental causado pela Norsk Hydro, especialmente numa conjuntura tão marcada por conflitos políticos que tendem a colocar este tipo de problema em segundo plano.
Neste contexto é fundamental o papel que está sendo ocupado pelo Movimento de Atingidos pela Mineração (MAM) para pressionar para que os responsáveis pelos incidentes socioambientais causados em Barcarena sejam devidamente responsabilizados.
É possível a contaminação do território de Belém pelo transbordamento da bacia de rejeitos da Hydro em Barcarena?
Para responder essa pergunta é preciso pensar a posição geográfica de Barcarena. O município fica na desembocadura de um grande estuário, praticamente em forma de golfão amazônico. Neste lugar a uma formação de duas baias a partir da foz de pelo 04 grandes rios. O Pará, Tocantins, Acará e o Capim. As baias do Marajó e do Guajará fazem parte de um grande estuário – um ambiente aquático de transição entre um rio e o mar. Um estuário sofre a influência das marés e apresenta fortes gradientes na característica da água, variando de doce próximo da sua cabeceira, águas salobras, e águas marinhas próximo da sua desembocadura.
A aguá nessa região compõe uma grande bacia de drenagem que se apresenta um perfil geomorfológico que vai de uma área mais alta nas cabeceiras e até mais baixas na desembocadura (abaixo do nível do mar). Então, a hipótese é que o movimento das águas durante o período chuvoso pode agravar o processo de contaminação em direção a Belém, já que nesse período a oxigenação da água e por isso o deslocamento de nutrientes, partículas e substâncias se dinamiza ainda mais. Isso tudo em direção a porção insular da capital que é composta de 40 ilhas com uma eminentemente ribeirinha que se apropria da água seja na forma direta do rio ou mesmo das águas subterrâneas através dos poços. Isso sem falar na contaminação do meio biótico como a fauna e flora (especialmente os peixes base nutricional de nosso povo e o açaí uma das principais alimentos da região .
Estes elementos apontam para algumas necessidades para a pesquisa nesta região. A necessidade de espacializar o fenômeno. Por isso a ciência geográfica é importante neste debate. Urge uma pauta de pesquisa interdisciplinar capaz gerar mapas e entender a dinâmica da indústria mineradora nesta região. O pólo industrial de Barcarena faz parte do Projeto Grande Carajás que vem se territorializando desde o final de 1970 no Pará e de 1980 na região de Barcarena. Essas empresas se instalaram num contexto em que a preocupação ambiental era incipiente. Não se precisava, para sua instalação, EIA/RIMA o que deixou fluido o territorial para que essas empresas pudessem fazer o quisessem durante a ditadura civil militar. É preciso uma grande auditoria ambiental neste polo industrial de Barcarena para corrigir possíveis distorções. Outro elemento importante é criar mecanismo de controle popular sobre a industria mineradora.
Neste sentido o MAM propõe instalação imediata de Conselhos envolvendo a sociedade civil para se dabater as causas e consequências da mineração para o território. Outro elemento importante para pensarmos os rios são comitês gestores de bacias hidrográficas. Um mecanismo importante de gestão que envolve vários setores da sociedade. Então temos os maiores rios do mundo e nenhum comitê institucionalizado. Esse crime ambiental da Hydro vem exatamente num contexto de debate sobre o novo Código mineral onde a tendência é afrouxar ainda mais o território para as empresas de mineração com a transformação do Departamento Nacional de Pesquisa Mineral numa agência reguladora, que sabemos acaba não regulando nada
A pesquisadora Simone Pereira, do Laboratório de Química Analítica e Ambiental (Laquanam) da Universidade Federal do Pará (UFPA), não conteve as lágrimas. Depois de quase 3 anos, ela apresentou, na manhã de ontem (2), o resultado de 90 amostras de cabelo coletadas por moradores de 14 comunidades de Barcarena no ano de 2015. Chumbo, níquel e cromo são metais tóxicos que estão presentes nas amostras com níveis altos de contaminação nos organismos dos moradores. Na região, funcionam várias indústrias, incluindo a refinaria da mineradora Hydro Alunorte.
“Levamos quase 3 anos para fazer essa análise. Isso por que o laboratório não teve recursos. Fizemos com recursos próprios. E nesse tempo, pessoas morreram”, afirmou, emocionada. “Espero que o Ministério Público Federal assuma, de fato, a indenização para essas famílias, mesmo algumas delas não estando mais presentes”. O resultado dos exames foi entregue no salão paroquial da Igreja de Vila do Conde, em Barcarena, na manhã de ontem (2).
Foram encontrados 21 elementos químicos no organismo das pessoas, o que foi uma surpresa para a própria pesquisadora. Entre esses elementos, 3 merecem atenção: níquel, chumbo e cromo, altamente cancerígenos. Nas amostras, os metais tóxicos estavam acima do permitido: níquel 2 vezes maior; chumbo 3 e cromo 5. Assim, podem causar uma série de problemas à saúde daquela população, principalmente no sistema nervoso central e nos ossos. “O alumínio, por exemplo, está quase 27 vezes maior que o permitido. A situação em Barcarena é crítica, difícil de ser entendida”, disse Simone. “E a presença desses metais vem ao longo de anos. De 2015 pra cá alguma coisa deveria ter sido feita. Outras pessoas ainda podem morrer e, com certeza, pode ter uma relação com a contaminação”, reforça.
Ela explica que é preciso fazer exame de sangue para confirmar o nível de contaminação interna dos moradores, já que a análise do cabelo pesquisa apenas substâncias que estão sendo expelidas pelo organismo. “Agora, precisamos acelerar o processo para retirar as pessoas debaixo da área atingida. Para nós, a urgência é o tratamento da saúde dessas pessoas”, diz a agricultora de Vila do Conde, Cleide Monteiro, de 40 anos.
“É difícil receber um resultado acima do esperado. Tenho medo de estar altamente contaminado. Vou tentar interpretar os exames e procurar o serviço de saúde”, desabafou o assistente social Lúcio Negrão, de 41 anos. Ele foi uma das pessoas que teve amostra do cabelo coletado em 2015. Atualmente, ele mora em Vila do Conde, porém, na época residia na comunidade Dom Manuel, mas precisou se mudar devido à poluição no ar.
Um deles mostra o resultado individual de contaminação (Foto: Wagner Santana)
Simone Pereira disse que exames surpreenderam (Foto: Wagner Santana)
Deputados da CPI da Hydro acompanharam audiência (Foto: Wagner Santana)
CPI começa a realizar oitivas sobre as contaminações
Cópia do resultado das análises foi entregue pessoalmente aos deputados estaduais membros da Comissão Parlamentar de inquérito (CPI) que estiveram realizando a primeira atividade externa nas instalações da empresa Hydro, ontem (2) . O objetivo da Comissão é investigar os danos ambientais provocados pelas mineradoras instaladas no polo industrial de Barcarena.
Para o deputado Carlos Bordalo (PT), o resultado dos exames apresentados pela pesquisadora reforça que a situação de Barcarena é de calamidade pública, de emergência social. Segundo ele, após os 90 dias de apuração, a CPI vai apresentar um relatório sobre a atual situação daquele município e propor medidas concretas a serem adotadas para prevenir desastres ambientais. De acordo com o deputado José Scaff (MDB), com o trabalho da Comissão, a sociedade terá a resposta que tanto precisa. E isso também envolve a investigação da isenção fiscal que a empresa Hydro recebeu do Governo do Estado. “O Estado reclama que está com dificuldades e por que deu isenção até 2030 no valor de R$ 7 bilhões?”, questiona. “Iremos junto à Secretaria de Meio Ambiente para saber quais critérios foram adotados para conceder licença para a empresa operar”, garante o parlamentar.
Hoje (3), iniciam as oitivas da CPI. O advogado Ismael Moraes, da associação dos moradores de Barcarena, um subcomandante do Corpo de Bombeiros e um pesquisador em saúde pública do Instituto Evandro Chagas serão ouvidos a partir das 13h, na sede da Alepa.
Rios e igarapés que serpenteiam o município de Barcarena, no Pará, estão contaminados por metais tóxicos provenientes de efluentes da lama vermelha de uma das bacias da empresa Hydro Alunorte. Este foi o resultado do segundo relatório técnico apresentado nesta terça-feira (28) pelo Instituto Evandro Chagas (IEC).
A análise feita nas águas do rio Pará chamou a atenção do químico Marco Marcelo Oliveira Lima, pesquisador em Saúde Pública da Seção de Meio Ambiente do Instituto. Foram encontrados altos níveis de alumínio, apesar do grande volume de água do rio.
“Nós estamos falando de coletas que foram feitas no rio Pará, onde você tem um volume de água muito grande, você tem alto poder de diluição, mas no rio Pará na praia Bejá, na praia de Sirituba e nos rios Arapiranga e Guajará do Beja o nível de alumínio e ferro encontrados foram muito altos logo após o evento.”
Lima afirma que o rio Pará é um dos mais estudados pelo IEC ao longo de anos e destaca que nunca se apresentou resultados com níveis tão elevados como se observou nesta última análise.
As amostras de água também foram coletadas nos rios Murucupi, Arienga, Arapiranga e Guajará do Beja, além dos igarapés Curuperê, Dendê e de um igarapé que é afluente do Tauá. O instituto também coletou amostras de lama dentro da empresa e na estrada PA-481, após o tombamento de um caminhão no dia 22 de fevereiro, que levava rejeitos químicos da Hydro. As coletas foram feitas entre os dias 25 de fevereiro e oito de março.
No rio Murucupi, nas amostras coletadas no trecho entre a comunidade Vila Nova e as nascentes, foram encontrados alumínio, ferro, arsênio, cobre, mercúrio e chumbo acima do que prevê a legislação. Lima recomenda que as águas do rio não sejam usadas para o consumo humano, recreação ou pesca.
Ele ainda ressalta que os relatórios apresentados pela empresa Hydro sobre os rios e igarapés do entorno são “falhos e insuficientes”.
“Porque esses dados não mostram os níveis de metais tóxicos nem mostram outras características físico-químicas, ou seja, não mostram que essas áreas apresentavam níveis de metais acima dos recomendados pela legislação brasileira.”
Diante de novos resultados, o IEC recomenda que a empresa continue fornecendo água potável para as comunidades impactadas até o final do período de chuvas na região.
Foto: Igor Brandão/ Ag Pará / Igor Brandão/ Ag Pará, Edição: Camila Salmazio
Pedidos de desculpas não resolvem impactos, dizem atingidos pelo vazamento da Hydro
Reivindicações por atendimento a necessidades urgentes foram feitas durante audiência pública
Cerca de mil pessoas lotaram o auditório do evento (foto: ascom MPF/PA)
O pedido de desculpas da refinaria de alumina Hydro Alunorte pelo descarte de água não tratada em rio de Barcarena, no Pará, não é o bastante para resolver os impactos socioambientais provocados. É preciso a adoção de medidas concretas para reduzir os efeitos desses impactos na saúde da população e nos meios de subsistência e geração de renda, como a agricultura e a pesca. Essa é a conclusão de vários dos moradores de Barcarena ouvidos nessa quinta-feira (22) pelo Ministério Público Federal (MPF) e pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) em audiência pública no município.
“Pedidos de desculpas matam sede? Pedidos de desculpas matam fome? Queremos dignidade, queremos um sistema de abastecimento de água, e não alguns potes d’água entregues uma vez e pronto”, reivindicou o agricultor familiar Eduardo do Espírito Santo, da comunidade quilombola de Burajuba.
Moradores relatam que, depois do vazamento de lama com resíduos tóxicos ocorrido em fevereiro deste ano em uma das bacias de rejeitos da refinaria, a água dos poços das comunidades está com gosto amargo, coloração esbranquiçada e viscosidade.
São comuns os relatos de ocorrência de diarreia, náuseas, vômitos, dores de cabeça e estômago, dores nas articulações, cólicas, coceiras por todo o corpo, irritação e lacrimejamento excessivo nos olhos, aparecimento de feridas e manchas na pele.
Também há denúncias de redução drástica da produtividade de roças e no extrativismo, e prejuízos a quem vive da pesca.
Transparência
Outra demanda da população é por mais participação e transparência nos processos de licenciamento das empresas do distrito industrial de Barcarena e na fiscalização do cumprimento das obrigações estabelecidas nesses processos.
“No polo petroquímico de Camaçari, na Bahia, há muito mais indústrias que em Barcarena e, no entanto, lá não há acidentes nem poluição como há em Barcarena porque em Barcarena não há um sistema de fiscalização constante por conselhos comunitários”, disse o representante da organização Fórum de Diálogo Intersetorial de Barcarena, Petronilo Alves.
Também foi sugerida a revisão de todos os licenciamentos ambientais do distrito industrial, com a participação de pesquisadores, universidades e das comunidades de Barcarena.
Moradores de Barcarena sugeriram, ainda, que a empresa seja obrigada a pagar indenização de dois salários mínimos mensais às famílias atingidas, e que o governo norueguês, acionista da Hydro Alunorte, seja cobrado a se pronunciar publicamente sobre o vazamento e sobre o tratamento que será dado às comunidades atingidas.
Representantes de entidades sindicais dos empregados da Hydro Alunorte reivindicaram a adoção de medidas para evitar demissões na empresa, e pediram para participar de reuniões. O procurador da República Felipe de Moura Palha destacou que o Ministério Público está aberto para reunir-se com todos os interessados.
Respostas
A promotora de Justiça Eliane Moreira destacou que uma solução rápida para todas as questões emergenciais apresentadas pela população só depende da Hydro Alunorte, tendo em vista que as demandas apresentadas pelos moradores são as mesmas já apontadas pelos membros do Ministério Público, e que podem compor um Termo de Ajuste de Conduta (TAC).
No início de março a Hydro Alunorte indicou que pode aceitar a realização de acordo emergencial que trate da avaliação e efetividade do plano de emergências da empresa, da avaliação da segurança das barragens e de todo o processo produtivo da refinaria – incluindo o tratamento de efluentes -, e de medidas de garantia de fornecimento de água potável, informações e tratamento de saúde às famílias atingidas.
A manifestação dos dirigentes internacionais da empresa foi feita em reuniões com membros do MPF, MPPA e Ministério Público do Trabalho iniciadas após o Ministério Público e a Defensoria Pública do Estado terem adotado, em fevereiro, medidas judiciais e extrajudiciais logo após o acidente.
Com base em investigações que confirmaram o vazamento, inclusive por meio de perícia do Instituto Evandro Chagas (IEC), a Hydro Alunorte foi recomendada pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública do Estado a tomar medidas urgentes e apresentar uma série de informações relativas à minimização dos impactos e à prevenção contra novos vazamentos.
Na Justiça Estadual o MPPA conseguiu que a Hydro Alunorte fosse obrigada a reduzir pela metade sua produção, decisão confirmada em segunda instância. A Justiça do Estado também proibiu o uso da bacia de rejeitos nº 2 da Hydro até que empresa obtenha licença de operação e demonstre a capacidade operacional e de segurança de sua estrutura, reavaliados todos os requisitos técnicos construtivos adequados a um padrão de chuva e também de operação.
No MPF e MPPA atuam no caso os procuradores da República Ricardo Negrini, Felipe de Moura Palha e Ubiratan Cazetta e os promotores de Justiça Eliane Moreira, Laércio Abreu e Daniel Barros. A audiência pública contou com a participação da promotora de Justiça Myrna Gouveia.
Diálogo público
Além de ouvir a população, a audiência pública realizada pelo MPPA e MPF nesta quinta-feira teve como objetivo prestar contas aos moradores sobre a atuação do Ministério Público em relação ao vazamento e ouvir quais seriam suas principais demandas emergenciais.
Iniciando a apresentação dos trabalhos realizados pelo Ministério Público, o promotor de Justiça Laércio Abreu destacou que não há nenhum acordo feito entre o Ministério Público e a Hydro, porque antes de fechar qualquer negociação o Ministério Público quer ouvir a sociedade por meio de eventos como a audiência pública realizada nesta quinta-feira.
“Graças ao apoio da sociedade de Barcarena é que o Ministério Público foi alertado sobre o vazamento logo após o fato ter ocorrido”, lembrou o procurador da República Ricardo Negrini, que também agradeceu o apoio do Ministério Público do Trabalho e da Defensoria Pública do Estado nas investigações e conversações com a Hydro.
O procurador da República Felipe de Moura Palha ressaltou que é preciso que a sociedade seja consultada, para que o Ministério Público considere tais fatos nos próximos passos a serem tomados na conversação com a empresa. “Vamos visitar cada uma das comunidades para saber quais foram os impactos a cada uma das famílias, para podermos chegar a uma solução que leve em consideração as necessidades reais de cada um de vocês”, anunciou.
Atuação detalhada
O promotor de Justiça Laércio Abreu detalhou o passo a passo das investigações – dois inquéritos no MPPA e um inquérito no MPF apuram os fatos – e providências tomadas no caso, destacando a descoberta, durante as investigações, de mais um canal irregular de descarte de rejeitos.
A descoberta foi narrada pela promotora de Justiça Eliane Moreira, que registrou que esse canal é consideravelmente maior que a tubulação ilegal identificada nas primeiras vistorias.
“Estamos quase todos os dias vistoriando a empresa em busca de verificar a ocorrência de novos problemas como esses, e para conferir se estão sendo tomadas todas as medidas emergenciais que apontamos”, informou.
A promotora de Justiça informou que denúncias sobre eventuais novos vazamentos e outras informações que possam auxiliar a atuação do Ministério Público devem ser encaminhadas por e-mail para ftbarcarena@gmail.com .
Barcarena (PA) – Três mulheres estão ameaçadas de morte em Barcarena, no nordeste do Pará. Duas Marias e uma Ludmilla. Mulheres pobres, negras, ribeirinhas. Estão intimidadas, perseguidas e atemorizadas porque denunciaram a contaminação dos mananciais por resíduos sólidos da produção de bauxita da maior mineradora do mundo, a Hydro Alunorte. Em meio a tanta riqueza de alumina, a cidade não tem saneamento básico, água potável e sobram impactos ambientais e desigualdade social para todos os cantos desta porção da Amazônia Oriental. As três mulheres ameaçadas participaram das mesmas manifestações que se intensificaram em fevereiro passado, quando lagos e poços artesianos de comunidades de Barcarena, a 40 quilômetros de Belém, foram atingidos pela lama vermelha despejada nos igarapés Bom Futuro, Burajuba e nos rios Murucupi, Tauá e Pará. O Instituto Evandro Chagas confirmou a contaminação hídrica. A denúncia teve repercussão internacional.
A empresa multinacional norueguesa Hydro nega o vazamento de resíduos nos dias 16 e 17 do mês passado, mas pediu desculpas às comunidades de Barcarena por descartar água de chuva não tratada no rio Pará.
Maria do Socorro Costa Silva é presidente da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama) e moradora da comunidade de remanescentes quilombolas do Burajuba. Sua casa foi invadida por policiais militares em abril de 2016. Daí as ameaças não deram trégua.
“Sofro ameaças constantemente. Não sei o nome de ninguém, mas eles sabem quem eu sou. Sou ameaçada sempre porque nós denunciamos uma multinacional. Nós dissemos onde estavam as coisas erradas e provamos. A gente está botando a imagem dela [da Hydro] no chão”, afirma.
Ludmilla Machado de Oliveira, também da Cainquiama, acordou com o barulho de pedras contra as janelas de sua casa na comunidade quilombola Burajuba por volta das 3h da manhã do último domingo (18). Ela e a família não foram alvejadas porque dormiam, mas todos fugiram para Vila dos Cabanos, no centro de Barcarena. “Fico preocupada com a minha segurança, mas também com a da minha família. Se acontecer algo comigo, como é que eles ficam?”, questiona.
A terceira mulher ameaçada é Maria Salestiana Cardoso, 69, moradora da comunidade do Bom Futuro, que fica a 100 metros da bacia de rejeitos sólidos da mineradora Hydro, a DRS-2, que é alvo de investigação por poluição ambiental.
“Onde eu estou vejo um carro prateado, uma 4X4 prateada. Mas eu não tenho medo, eu não vou me calar, vou continuar denunciando o que acontece em Barcarena”, diz Maria Salestiana.
Em janeiro deste ano, o promotor Armando Brasil Teixeira pediu à Secretaria de Segurança “garantia de vida aos representantes da associação, considerando os fatos envolvendo suposta prática de crimes militares por policiais” às lideranças da Cainqueama, mas o pedido foi rejeitado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Pará (Segup). Para mulheres pobres, negras e ribeirinhas não há segurança.
Duas mortes de autoria desconhecida
Casa de Paulo Sérgio, segundo tesoureiro da Cainquiama (Foto: Reprodução TV)
Maria do Socorro (ao centro) no protesto após o vazamento de rejeitos em Barcarena (Foto: Cainquiama/Facebook)
Na linha de frente das denúncias de impactos socioambientais em Barcarena, a Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama) ingressou com duas ações contra a mineradora Hydro Alunorte por despejo ilegal de rejeitos da refinaria de alumínio nos lagos, igarapés e rios este ano. A associação representa 112 comunidades tradicionais. Além da Cainquima, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado do Pará (MP-PA) também têm ações nas quais acusam a mineradora de suspeita de fraudes nas licenças ambientais e na contaminação por rejeitos da produção de alumina no município.
Em 2009, quando a empresa Alunorte estava sob o controle da Vale, houve denúncias da Cainquiama, do MPF e MPPA, além de multas do Ibama. Mas nada foi alterado no cenário de Barcarena.
“Em 2009 todo mundo viu, ouviu, bateu foto do que ela fez e não fizeram nada. A empresa comprou todo mundo, inclusive algumas lideranças de comunidade. Saiu dando dentadura, máquina de costura, ‘merreca’ para os centros comunitários. Mas eu não preciso da miséria de ninguém. Meu povo precisa de respeito. Dessa vez vai ser diferente”, diz Maria do Socorro Costa Silva, presidente da Cainquiama.
“Eu só sei que vai ter mais gente morta. Pode ser que eu seja a próxima, porque dessa vez a gente levou o caso para o mundo inteiro”, concluiu ela.
A liderança afirma que, por causa das denúncias, é perseguida por motoristas em carros prateados. “Eles ficam à espreita. Sou quilombola, sou reconhecida, não tenho medo, a luta da escravidão corre no meu sangue. Não vou me calar. Nós queremos as nossas bacias hídricas despoluídas”, exige Socorro, 53 anos, que além de líder da associação é mãe.
Maria do Socorro afirma que teme acontecer um acidente pior na bacia da DRS-2 da Hydro. “Se aquilo ali romper, imagine só, a bacia tem 35 metros de altura, a nossas casas têm no máximo três, vai ser um desastre. Em Mariana [cidade soterrada com a lama da mineração da empresa Samarco, em Minas Gerais] só tinha lama, na lama vermelha tem alumina, tem soda cáustica.”
Segundo ela, as ameaças sofridas pelos membros da Cainquiama vão além das denúncias contra a Hydro Alunorte. “Todo mundo sabia e sabe do que acontece em Barcarena, mas eles fazem vista grossa. O Simão Jatene (governador do Pará pelo PSDB) sabia, os diretores da Hydro sabiam, o Luiz Fernando Rocha (ex-secretário de Meio Ambiente) sabia. Eles têm que ser preso. O Luiz Fernando foi quem deu uma licença fraudulenta para que construíssem a DRS-2. Então, eles não gostam do que a gente faz. Por isso estamos sendo ameaçados”, afirma.
No último dia 12, Maria do Socorro Costa Silva e Ludmilla Machado de Oliveira velaram o corpo do amigo e segundo-tesoureiro da Cainquiama, Paulo Sérgio Almeida Nascimento, 47 anos. Ele foi assassinado no Ramal Fazendinha, zona rural do município. Antes, em 22 de dezembro passado, outro líder da associação tombou: Fernando Pereira, também a tiros, em Barcarena.
“Morreu o Fernando, morreu o Paulo Sergio, mas a verdade é que ela está nos matando lentamente. Cada dia a gente bebe a água (contaminada), cada dia a gente morre um pouquinho. Isso não é de agora, é de anos. Mas ninguém teve pulso de denunciar”, diz Socorro.
Ameaças depois de entrevistas
Ludmilla Oliveira, também da Cainquiama, em protesto em Barcarena (Foto: Maycon Nunes/Diário do Pará)
Moradora da comunidade quilombola do Burajuba, Ludmilla Oliveira conta à agência Amazônia Real que começou a receber ameaças depois que concedeu entrevistas a jornalistas que foram para Barcarena acompanhar os danos ambientais, em fevereiro. Ela não sabe dizer os nomes dos profissionais e nem suas respectivas empresas. “Não sou membro da diretoria (da Cainquiama), mas sempre estou na luta. Não tenho medo da Hydro e nem de ninguém de dentro dela”, afirma.
Sobre o apedrejamento de sua casa, ela conta que estava em casa com o marido e os três filhos. “Acordamos com um barulho. Eram as janelas, que são de vidro, sendo apedrejadas. Era um barulho muito grande. Meu esposo quis sair pra ver o que era, mas não deixei. Gritamos perguntando se estava tudo bem e meus filhos responderam que estavam seguros. Mas não conseguimos sair do lugar e passamos a noite em claro. Pela manhã fomos constatar que a haviam jogado um tijolo com um pedaço de concreto para dentro de casa.”
Pedras que atingiram a casa de Ludmila (imagens via Whatsapp).
A família fotografou o que chamou de atentado, mas não registrou um Boletim de Ocorrência na Delegacia de Barcarena. Ludmilla afirma que não confia na polícia, pois as mortes de Fernando e Paulo Sérgio estão impunes.
“A testemunha da morte do Paulo Sergio disse que viu a viatura da polícia perto do local onde ele foi morto. Então eu não tenho coragem de ir na delegacia registrar ocorrência. Não confio na polícia. Não confio no Governo do Estado. É uma desconfiança plena. Quem deveria nos defender não nos defende. O poder público deveria interceder pela gente, mandar uma medida protetiva, mas nada. Quantos ainda vão morrer por ter denunciado um crime desses? Quantas mães? Quantos pais de família?”, afirma a membro da Cainquiama.
Ludmilla disse que se dedicou muito aos protestos contra a mineradora Hydro e quer continuar, mas a família pede que recue. “A minha vontade é de continuar até o meu último fôlego, mas meus filhos e esposo querem que eu fique prisioneira em casa. Eu acho que parar de lutar não vai resolver. Eles já sabem quem eu sou. Onde eu tinha que aparecer, eu já apareci”, diz. “Mesmo com tudo isso, mesmo eu morrendo, pode ter certeza que a luta não vai parar.”
Fotos da família
Maria Salistano mostra água contaminada, em Barcarena (Foto: Jon Watts)
A comunidade do Bom Futuro é uma das mais atingidas pela lama vermelha com resíduos de rejeito de bauxita da mineradora Hydro, segundo laudo do Instituto Evandro Chagas, na madrugada do dia 17 para o dia 18 de fevereiro. Lá vive Maria Salestiana Cardoso e sua família.
“Vi minha casa sendo inundada e pedi que o meu filho filmasse a situação. Sei como funcionam as coisas. No dia seguinte, a água ia ter baixado e eles iam falar que a gente estava mentindo. Então, se a gente não registra nada, ia ser como em 2009″, disse.
Aposentada, Maria Salestiana também relata, assim como Ludmilla, que começou a receber ameaças após conceder entrevistas a jornalistas que foram a Barcarena em fevereiro. Ela suspeita que entre os jornalistas haviam pessoas ligadas a mineradora Hydro.
“Falei com vários repórteres e sempre os recebi muito bem, mas dois me chamaram atenção. Eles queriam fotografar cada uma das pessoas da família. Passou um tempo, eu tenho um conhecido que trabalha dentro da Hydro. Ele me disse pra eu não dar mais entrevista porque tinham as fotos de todo mundo aqui de casa lá com eles. Confesso que fiquei assustada”, afirma.
Maria disse que a poluição da lama vermelha de bauxita contaminou seus maiores bens na comunidade, sua plantação de árvores frutíferas, hortaliças, animais e o poço artesiano. “Tudo o que tem aqui está contaminado, e tudo foi plantado pela gente. A gente sabe que nada mais presta mais, nenhuma planta, árvore, água, nada. Até os animais morrem rapidamente, porque o solo não presta. O certo era a gente sair, mas não de qualquer jeito”, alerta.
O que dizem as autoridades do Pará
A mineradora Hydro Alunorte enviou à reportagem a mesma nota que divulgou sobre a morte do tesoureiro da Cainquima, Paulo Sérgio Nascimento, na qual repudia as acusações de ameaçar e intimidar às lideranças de Barcarena.
“A Hydro condena firmemente qualquer ação dessa natureza e repudia qualquer tipo de associação entre suas atividades e ações contra moradores e comunidades de Barcarena. A empresa reforça que sua relação com a comunidade é pautada pelos valores da companhia e pelo respeito à legislação de proteção aos direitos do cidadão e do meio ambiente”, disse a empresa.
Em resposta à reportagem ao pedido de segurança do promotor Armando Brasil Teixeira às lideranças da Cainquiama, a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Pará (Segup) disse que detectou que o pedido não havia sido seguido pela Promotoria Militar, órgão que pediu proteção para os membros da associação. Dessa forma, ela encaminhou o assunto para a Coordenação de Proteção a Vítima e Testemunha, vinculada à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SEJUDH), que analisou e identificou que o caso necessita ser acompanhado pelo programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos. Para a Segup, o Programa de Proteção a Vítima e Testemunha representa o compromisso de proteger aquelas e aqueles que lutam pela efetivação dos direitos humanos no Brasil.
“A solicitação encontra-se em análise para a inclusão das pessoas nos programas pertinentes à situação de cada uma, haja vista que existem processos a serem realizados, como a elaboração do parecer técnico interdisciplinar. Ao final desta análise a decisão da inclusão será emitida pelo Conselho Deliberativo”, disse a secretaria.
A Polícia Civil, por meio da sua assessoria de imprensa, informou à reportagem que as equipes da Delegacia de Vila dos Cabanos e da Divisão de Homicídios trabalham na busca de suspeitas que tenham relação com a morte de Paulo Sérgio, mas que os detalhes ainda estão sendo resguardados para não prejudicar as investigações. Contudo, ainda não há uma linha de investigação fechada. A assessoria disse ainda que todas as possibilidades estão sendo apuradas dentro do inquérito, inclusive, a hipótese de envolvimento de policiais militares na morte de Paulo Sergio.
Esta reportagem faz parte do projeto “Olhando por dentro da floresta”, da Amazônia Real em parceria com Aliança pelo Clima e pelo Uso da Terra (CLUA).
O Teatro do Real e a nossa missão: A Farsa da NORK HYDRO ASA que envenena Barcarena e a Amazônia.
A construção da ideologia que hoje denominamos desenvolvimento, herdeiro do progresso do século XIX, vem se materializando nos projetos políticos traçados para a Amazônia, desde as rodovias das décadas de 1960/70, passando pelas imensas plantas de geração de energia hidroelétricas, chegando aos parques industriais da mineração, dos imperadores do latifúndio e ultimamente as monoculturas de soja e de dendê.
Este enredo escrito para Amazônia teve seu mais recente ato: A farsa da NORKS HYDRO ASA. A empresa norueguesa atua no setor mineralógico desde inicio do século XX, perdeu sua mascara de personagem que no discurso do desenvolvimento “leva benefícios” aos habitantes onde se instala, mas não aqui no estado do Pará.
A HYDRO, fundada em 1905, tem como maior acionista o estado norueguês, bem como instituições dos Estados Unidos, Inglaterra e China, possuem relação comerciais com o Brasil desde a década de 70, adquirindo em 2010 os ativos de alumínio da VALE, dessa forma construiu uma companhia de alumínio global. Esse furto dos nossos minérios inclui: Bauxita (Paragominas-PA), participação majoritária da maior refinaria de alumina do mundo, a ALUNORTE, e também participação de 51% na empresa de alumínio do Brasil, a ALBRAS. Só no Pará, se somarmos o lucro de todas as empresas comandadas pela NORKS HYDRO ASA seu faturamento líquido está na ordem de R$ 11 bilhões em 2016, com lucro líquido de R$ 1,5 bilhão.
“a missão da HYDRO é criar uma sociedade mais viável, desenvolvendo recursos naturais e produtos de maneira inovadora e eficiente”.
Na madrugada do dia 17-02-2018 ocorreu um fato, esse já antecipado pelos próprios moradores das comunidades ao entorno do empreendimento, o rompimento de barragens de rejeitos, referindo-se a SDR1 e SDR2, da empresa norueguesa em Barcarena no estado do Pará. As denúncias das práticas irregulares da empresa em relação às questões tanto sociais como ambientais não é fato novo. Treze comunidades ribeirinhas sofrem por esse crime, destas quadro foram diretamente afetadas Água Verde, Burajuba, Jesus de Nazaré, Jardim Canaã, sem falar da escala que essa poluição pode alcança, acentuando as dificuldades que esses empreendimento trazem para as populações próximas as barragens.
Imagem do Google Maps
Essa contaminação que, segundo relatório do Instituto Evandro Chagas (IEC) RELATÓRIO Nº: 002/2018 PROCESSO Nº: 010/2018, ‘neste momento as águas apresentaram níveis elevados de Alumínio e outras variáveis associadas aos efluentes gerados pela Hydro Alunorte’. Porém em 2012, pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) que analisaram 26 comunidades, verificaram que 24 delas a água estava com altas concentrações de Chumbo. Elemento químico muito nocivo a saúde física e mental, não será surpresa quando for diagnosticado altos números de câncer na população dessas comunidades.
blurbstory.com
Assim, podemos perceber que a missão da HYDRO é construir uma sociedade viável: viável para saquear nosso subsolo e precarizar a vida das comunidades onde se instala. De inovador nada tem a mais! E ainda, no dia 19/03 anunciou ferias coletivas aos trabalhadores e trabalhadoras afirmando que não se trata de demissões. Ai sua grande missão como empresa rouba nossas riquezas, destrói com meio ambiente, envenena e mata as populações ribeirinhas e demite/ferias seus/aos trabalhadores.
O Teatro do Real e a Promiscuidade do Estado e Governos: O Cano dos Rejeitos Não Era da Hydro, Era de São Pedro. Até Santo Entra na Peça.
De acordo com governador Simão Jatene (PSDB-PA) a culpa do ‘acidente ambiental’ em Barcarena foi de responsabilidade da quantidade de chuvas que caiu no dia. Como bom fanfarrão de comedia que é Simão Jatene culpa as fortes chuvas pelo transbordamento das bacias de rejeitos SDR1 e SDR2 e a Secretária de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS) que de sustentável não tem nada, a não ser os conchavos, corrupção e mutretas ali existentes, fechou os olhos para as irregularidades cometidas pela HYDRO. Sem licença ambiental para funcionamento das bacias de rejeito, tubulações clandestinas que despeja água não tratada – efluentes – diretamente nos igarapés Bom Futuro, Gurajuba e nos rios Murucupi e Tauá, na bacia do rio Pará são apenas alguns elementos do cenário dessa escabrosa peça.
CONTRA A QUARENTENA DA VIDA: só a luta com nossas próprias mãos para construir uma sociedade melhor, o caminho é por uma via popular, onde o povo pode fazer a gestão do seu lugar que a qualidade de vida estará.
A empresa norueguesa NORKS HYDRO ASA coloca nossas populações em quarentena, infectando e precarizando a forma de vida dos moradores, matando o povo pobre aos poucos. A destruição dos hábitos e costumes das comunidades, afetadas direta e indiretamente por esses crimes, a privação da vida por causa da contaminação nos mostra como esse modelo, desenvolvimentista, em nada trás de benefícios para nosso povo. O relato das populações ribeirinhas de Barcarena é mais salutar que qualquer laudo de pericia. As mazelas deixadas localmente por essa e outras empresas mineralógicas refletem em uma escala regional, quiça global, o falido modelo.
Cabe a nós, os de baixo, a construção de outro modelo, pautando as demais do nosso povo subalternizado, fazendo frente a essas empresas, colocando em cheque o lucro oriundo da destruição da floresta amazônica e do sangue de nosso povo.
CONTRA O ENVENENAMENTO DAS COMUNIDADES RIBEIRINHAS!