O agro é offshore: a face agrária dos citados nos Pandora Papers

Do casal que patrocina o Palmeiras aos irmãos Grendene, donos da Azaleia, base de dados evadida por consórcio de jornalistas contém empresários que atuam no agronegócio e mandam divisas para fora por meio de paraísos fiscais

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Por Leonardo Fuhrmann para a “De olho nos Ruralistas”

Os Pandora Papers mostram que ter empresas offshore para não pagar impostos no Brasil é uma prática comum entre grandes empresários do sistema financeiro, autoridades econômicas do governo Jair Bolsonaro, financiadores de fake news e grandes devedores de impostos e tributos. Mas a atitude, que tem algo de tech e nada de pop, é também uma marca do agronegócio.

A partir dos nomes citados em reportagens do consórcio de jornalistas – que no Brasil tem a participação da Piauí, El País Brasil, Metrópole, Poder 360 e Agência Pública —, De Olho nos Ruralistas identificou nomes importantes do agronegócio brasileiro que mandam divisas para fora do país, sem custos e impostos.

A manutenção de contas no exterior, caso sejam declaradas à Receita Federal, não configura crime em si. Revela, no entanto, como alguns ricos fogem de tributação e ganham com o enfraquecimento da moeda brasileira em relação às estrangeiras. No caso do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, donos de offshores, o conflito de interesses fica claro: eles comandam uma política econômica que lhes favorece.

No caso do agronegócio, um setor que tem demonstrado apoio ao atual governo como poucos, o benefício é triplo: os custos com máquinas e insumos importados ficam menores, os lucros aumentam em moeda nacional e eles também ganham com a especulação contra o real no exterior. Em vários casos, os empresários citados tem diversos negócios em áreas distintas da educação à comunicação, mas sempre com um braço no agronegócio.

Família Lamacchia, da Crefisa, atua no campo desde 1940

O empresário José Roberto Lamacchia é conhecido por ser dono do Centro Universitário FAM, a Faculdade das Américas, e do banco Crefisa, ambos patrocinadores do Palmeiras, atual campeão da Copa Libertadores da América. Sua esposa, a advogada Leila Pereira, deve se tornar a próxima presidente do clube.

O agronegócio está na família de José Roberto Lamacchia desde 1940. (Foto: Palmeiras)

Os negócios do casal incluem redes de clínicas médicas e veterinárias, empresas de publicidade, serviços cadastrais e cobrança e a holding Crefipar. Eles aparecem no Pandora Papers como proprietários da offshore Koba Investors Limited, criada em 2008 nas Ilhas Virgens Britânicas.

A face ruralista de Lamacchia vem de família. Morador de Birigui, no interior paulista, o pai do palmeirense atuava no setor bancário e na produção de café, entre outros produtos agrícolas, pelo menos desde os anos 40. José Roberto e seu irmão mais velho, Antonio Luiz, iniciaram a Crefisa na década de 60. José Roberto criou a Agropecuária Arauc em meados dos anos 70. A empresa foi incorporada em 2015.

Antonio Luiz ficou com a JL Agropecuária, atualmente JL Participações, que administra junto com os filhos. O grupo é dono de fazendas em Nova Andradina, Iguatemi, Sonora, Campo Grande e Bataguassu, no Mato Grosso do Sul, e Rondonópolis, no Mato Grosso.

Irmãos Grendene colecionam fazendas no Matopiba

Do gado à soja, irmãos Grendene tem fazendas em vários estados. (Foto: Reprodução)

Já citados no Bahamas Leaks, de 2016, e no Paradise Papers, de 2017, os irmãos gêmeos gaúchos Pedro e Alexandre Grendene Bartelle também aparecem no atual vazamento. Alexandre preside a ABG, nas Ilhas Virgens Britânicas. Pedro dirige duas empresas no Delaware, estado dos Estados Unidos com legislação liberal para a criação de offshores. São a PGB San Marino USA, criada em 2016, e a PBCW San Peter USA, de 2017.

Eles são mais conhecidos pela atuação no ramo de calçados: são donos das marcas Azaleia, Olympikus Rider e Vulcabrás. Mas os irmãos atuam em diferentes ramos, inclusive o agronegócio. São donos de empresas de siderurgia, empreendimentos imobiliários e fazendas em Farroupilha (RS), Valparaíso e Andradina (SP) e em Baianópolis, Barreiras e São Desidério (BA). Seus negócios rurais incluem gado de corte, cana-de-açúcar e grãos.

Os irmãos Grendene chegaram a ser condenados em primeira instância por sonegação fiscal em 2000, na Justiça Federal no Rio Grande do Sul. Em 2010, Pedro voltou a ser investigado pela Polícia Federal, desta vez por evasão de divisas. Alexandre é sócio de um cassino em Punta Del Este, no Uruguai. Foi lá, no bairro de Beverly Hills, que os gêmeos comemoram, no ano passado, 70 anos de vida.

Sócia de Soros tem dívida de R$ 27 milhões com a União

Sócia de Soros também está no Pandora Papers. (Foto: Divulgação)

Sócia da Adecoagro, ligada ao megainvestidor George Soros, e dona da Companhia Monte Alegre, Corina Almeida Leite é outro nome do agronegócio na lista do Pandora Papers. Segundo as investigações do consórcio de jornalistas, ela mantém a offshore Etiel Societé Anonyme, que, segundo um documento do Pandora Papers, detinha US$ 500 mil em ações da Adecoagro em 2016. A empresa tem sede nas Ilhas Virgens Britânicas.

Corina tem uma dívida com a União de R$ 27,4 milhões. A empresária é de uma família tradicional do setor.  Segundo pesquisa genealógica do professor Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela é prima de Marcelo Weyland Barbosa Vieira, presidente da Sociedade Rural Brasileira entre 2018 e 2020 e atualmente um dos conselheiros da entidade.

Casada com Francisco Almeida Leite, ela é filha de Mário Barbosa Vieira. Marcelo é filho de Milton Barbosa Vieira. O avô de Corina e Marcelo, Jorge Vieira, é fundador da Usina Monte Alegre, em uma fazenda mais do que centenária em Minas Gerais, que hoje está incorporada ao grupo Adecoagro. A família também atua no confinamento de gado.

Donos de jornais, rádios e TV são fazendeiros 

Yolanda Queiroz,  da retransmissora da Globo no  Ceará. (Foto: Divulgação)

Citada nas reportagens dos Pandora Papers como empresária de comunicação, Yolanda Vidal Queiroz, morta em 2016, tinha muitos outros negócios. O Grupo Edson Queiroz, pertencente à sua família, é dono de rádios, da TV Verdes Mares, retransmissora da Rede Globo no Ceará, e do jornal Diário do Nordeste.

O grupo também tem a engarrafadoras de água Minalba, além de outras distribuidoras, fabricantes de bebidas, a distribuidora de gás Nacional e da Copa Energia e a fábrica de fogões Esmaltec. São donos ainda da Esperança Agro, com produção de leite, mel e gado de corte. A Esperança tem três fazendas no Ceará, uma no Maranhão e outra no Piauí.

Os Pandora Papers mostram uma offshore registrada em seu nome, a Water Overseas S.A.. A empresa consta no documento de transferência de suas ações para os filhos e netos.

Di Genio foi multado por desmatamento no MS

Os Panama Papers, que reuniam documentos vazados em 2016, já tinham uma grande participação de empresas e pessoas ligadas ao agronegócio, como a JBS, gigante do setor de carnes pertencente aos irmãos Joesley e Wesley Batista, a família Benedictis, então proprietária do Laticínios Shefa, e sócios de duas gigantes do ramo de papel e celulose: a Suzano, da família Feffer, e a Klabin.

A família Ferreira Telles, antiga dona da marca de cachaça Ypioca, é outra citada como dona de offshores. Eles são donos da Agropaulo, que produz etanol de cana e milho e tem fazendas no Ceará e Rio Grande do Norte, além de pecuária no Tocantins. Outros empresários do ramo de bebidas e alimentos, Jorge Paulo Lemann, Marcel Hermann Telles e Carlos Alberto Sicupira, da Ambev, Laerte Cadonho, da Dolly, Walter Faria, da Cervejaria Petrópolis, e Francisco Ivens Júnior, da M. Dias Branco (dona de marcas como a Piraquê e a Adria), apareciam como donos de offshores.

Mais conhecido pelo colégio e cursinho Objetivo e pela Universidade Paulista (Unip), o empresário João Carlos Di Genio foi mais um citado nos Panama Papers. Di Genio é dono da Fazenda Di Genio, em Pereira Barreto (SP), a Águas Claras, em Iguatemi (MS), a Aimoré, em Juti (MS), e a Maruins e Santa Maria em Machadinho D’Oeste. Nos dois últimos municípios, Di Genio foi multado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por desmatamento, em 2006. Em Machadinho D’Oeste, duas autuações somaram R$ 1,21 milhão. Em Juti, a multa foi de R$ 3 mil. A criação de gado nelore é a atividade principal das propriedades.

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O fazendeiro e dono de offshore Di Genio já foi multado pelo Ibama. (Foto: Unip)

Blairo Maggi e dirigentes do BTG foram citados em outros vazamentos

O ex-ministro de Temer Blairo Maggi tem dinheiro em paraíso fiscal. (Foto: Beto Barata/PR)

Dono da BRPec, empresa que recebeu a maior multa por desmatamento no Pantanal nos últimos vinte anos, o banco BTG teve seus principais dirigentes citados como proprietários de offshore. Seus nomes aparecem na base de dados que ficou conhecida como Bahamas Leaks, de 2016. A BRPec recebeu uma multa de R$ 57.999.500, em 12 de maio de 2018, em Corumbá, maior município do Mato Grosso do Sul, na fronteira com Bolívia e Paraguai, e uma das capitais da pecuária no Brasil.

Dirigentes do banco, Sérgio Cutolo dos Santos, Guilherme da Costa Paes e André Esteves apareceram como beneficiários dessas empresas no exterior.  Esteves é um dos dez maiores bilionários brasileiros, segundo a revista Forbes. Santos ocupou cargos importantes no governo federal: foi ministro da Previdência no governo Itamar Franco e presidente da Caixa Econômica Federal na primeira gestão Fernando Henrique Cardoso.

Outro nome ligado à política e ao agronegócio a aparecer como dono de offshore é o de Blairo Maggi. Dono da Amaggi, uma das principais produtoras de soja do mundo, Blairo foi ministro da Agricultura no governo Michel Temer, senador pelo Mato Grosso e governador do estado. Seu nome apareceu nos Paradise Papers, documentos evadidos em 2017.

| Leonardo Fuhrmann é repórter do De Olho nos Ruralistas. |

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Este texto foi originalmente publicado pela “De olho nos Ruralistas” [Aqui!].

Atolado no pântano de Pandora, Paulo Guedes manda cortar 90% dos recursos destinados a bolsas e projetos de pesquisa científica

O ministro da Economia, Paulo Guedes, em mais um golpe contra a ciência, cortou 90% dos recursos destinados a bolsas e apoio à pesquisa e projetos já agendados pelo CNPq. Em ofício encaminhado à Comissão Mista do Orçamento, Guedes mandou cortar R$ 690 milhões já previstos para projetos científicos, deixando apenas R$ 55 milhões

Sumaia-Villela-Agencia-BrasilCom o corte, restam apenas R$ 55,2 milhões de reais. Foto: Sumaia Villela Agência Brasil

“É um golpe duro na ciência e na inovação, que prejudica o desenvolvimento nacional. E que caminha na direção contrária da Lei 177/2021, aprovada por ampla maioria pelo Congresso Nacional”, afirmam a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Associação Brasileira de Ciências, entre oito entidades que enviaram uma carta, na quinta-feira (7), ao presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco, para que reverta a decisão.

“O PLN 16 destinava 690 milhões de reais para o MCTI, alimentando em particular as bolsas e o Edital Universal do CNPq, mas, em cima da hora, por força de um ofício enviado pelo Ministério de Economia na véspera da reunião da CMO, mais de 90% desses recursos foram transferidos para outros ministérios, restando apenas R$ 55,2 milhões de reais, destinados ao atendimento de despesas relacionadas aos radiofármacos”, denunciam.

Segundo as entidades, o argumento de Guedes de que os recursos já transferidos para Ciência e Tecnologia não estão sendo utilizados é uma afronta. “Já nos manifestamos anteriormente sobre a estratégia perversa de alocar 50% do total dos recursos do FNDCT para crédito reembolsável, o qual, uma vez não utilizado, será recolhido ao Tesouro no final do ano. Dá-se com uma mão, para retirar com a outra. Nesse processo, agoniza a ciência nacional”.

Leia a seguir a carta assinada pela oito entidades que compõem a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br) – Associação Brasileira de Ciências (ABC), Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), Conselho Nacional de Secretários para Assuntos de Ciência Tecnologia e Inovação (Consecti), Instituto Brasileiro de Cidades Inteligentes, Humanas e Sustentáveis (IBCHIS) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

MANOBRA DO MINISTÉRIO DA ECONOMIA AFRONTA A CIÊNCIA NACIONAL

A modificação do PLN 16, feita na última hora, no dia de hoje, pela Comissão Mista do Orçamento do Congresso Nacional, atendendo a ofício enviado ontem pelo Ministro da Economia, subtrai os recursos destinados a bolsas e apoio à pesquisa do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações e impossibilita projetos já agendados pelo CNPq. É um golpe duro na ciência e na inovação, que prejudica o desenvolvimento nacional. E que caminha na direção contrária da Lei 177/2021, aprovada por ampla maioria pelo Congresso Nacional.

O PLN 16 destinava 690 milhões de reais para o MCTI, alimentando em particular as bolsas e o Edital Universal do CNPq, mas, em cima da hora, por força de um ofício enviado pelo Ministério de Economia na véspera da reunião da CMO, mais de 90% desses recursos foram transferidos para outros ministérios, restando apenas R$ 55,2 milhões de reais, destinados ao atendimento de despesas relacionadas aos radiofármacos.

O argumento utilizado pelo Ministério da Economia afronta a comunidade científica e tecnológica: afirma que os recursos já transferidos para o MCTI não estão sendo utilizados. Cabe lembrar que esses recursos são para crédito, são reembolsáveis, e não interessam à indústria. Já nos manifestamos anteriormente sobre a estratégia perversa de alocar 50% do total dos recursos do FNDCT para crédito reembolsável, o qual, uma vez não utilizado, será recolhido ao Tesouro no final do ano. Dá-se com uma mão, para retirar com a outra. Nesse processo, agoniza a ciência nacional.

Fazemos um apelo aos parlamentares para que revertam essa decisão, com todos os meios disponíveis para repor os recursos destinados ao MCTI e ao CNPq. Está em questão a sobrevivência da ciência e da inovação no país.

compass

Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Hora do Povo” [Aqui!].

Paulo Guedes, ministro da Economia de Bolsonaro, está preso no pântano de Pandora

guedesFoto: AFP

Por Peter Steiniger para o Neues Deutschland

Se seu nome não tivesse sido mencionado na divulgação dos Documentos de Pandora , teria sido muito suspeito. Isto se dá porque o Ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, fundamentalmente não separa política de negócios. Assim, mesmo depois de ingressar no gabinete do terror de Jair Bolsonaro, ele não teria tirado suas mãos de empresas offshore em paraísos fiscais. Desta forma, Guedes encarna a reorganização neoliberal da economia do país, que é flanqueada pelo autoritarismo do chefe de Estado de ultradireita, o presidente Jair Bolsonaro. Claro, que o escândalo atingiu também o auxiliar de, Roberto Campos Neto, o presidente do banco central indicado por Bolsonaro, que também prefere acumular seus tesouros no exterior. Nenhum deles precisa tremer muito antes de uma investigação.

Nas eleições presidenciais de 2018, o nome de Paulo Guedes, em particular, fez com que houvesse grande otimismo nas associações patronais – que contribuíram para a vitória do Bolsonaro – e nas bolsas. O guru financeiro continuaria de onde o governo do presidente de fato Michel Temer parou. Com a privatização de empresas estatais e de infraestrutura em grande escala, com a remoção de obstáculos à exploração desenfreada de todos os recursos do país. Além dos esforços por suas políticas ultraliberais, houve a pandemia; e hoje, muitos brasileiros estão em situação pior e alguns estão ainda melhor do que antes. 

Nascido no Rio de Janeiro em 1949, Guedes aperfeiçoou-se no banco de investimentos Banco Pactual, do qual foi cofundador em 1983. Guedes estudou economia em Minas Gerais e na década de 1970 em Chicago, onde internalizou o liberalismo econômico sob a proteção de Milton Friedman. Passou seus conhecimentos no think tank de direita Instituto Millenium e na Universidade do Chile durante a ditadura de Pinochet . Uma ditadura de mercado à la Chile também é seu modelo.

compass

Este artigo foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Paulo Guedes: trabalhadores no inferno, negócios no paraíso (fiscal)

paulo guedes e roberto campos neto

O ministro da Fazenda, Paulo Guedes, e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, foram flagrados nas malhas da Pandora Papers, um dos maiores vazamentos da história sobre contas em paraísos fiscais

A bombástica revelação trazida pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos sobre a existência de milhares de contas de propriedade de artistas, empresários e políticos em contas secretas em paraísos fiscais como as Ilhas Virgens Britânicas, Seychelles, Hong Kong, Belize, Panamá, Dakota do Sul e outras jurisdições sigilosas é uma daquela velhas novidades. Afinal, já faz tempo que é sabido que os mais ricos e influentes detestam pagar impostos, preferindo mandar seus dinheiros (boa parte obtida de forma nebulosa) para locais onde poderão fugir do fisco, deixando de fazer o que fazem os trabalhadores que ainda possuem algum tipo de renda, qual seja, pagar impostos. Estamos assim diante de uma verdadeira “coalizão dos corruptos” que sapateiam sobre a miséria que existe dentro de seus país, com a diferença de que agora temos nomes e faces claramente revelados.

Mas o caso do “Pandora Papers” traz informações preciosas sobre os brasileiros que foram pegos nessa rede de burla fiscal. É que dentre os nomes corporativos mais salientes estão muitos daqueles que têm se notabilizado por defender o governo Bolsonaro e suas políticas anti-trabalhadores, a começar por Flávio Rocha, o proprietário da lojas Riachuelo que tem sido um defensor notável de Jair Bolsonaro e sua trupe.

Entretanto, as duas jóias mais preciosas reveladas pelo vazamento dos documentos aglomerados na forma do Pandora Papers são o ministro da Fazenda, Paulo Guedes e o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que também são membros do Conselho Monetário Nacional (CMN) que é o órgão cuja responsabilidade inclui órgão responsável por emitir resoluções sobre temas relacionados a ativos mantidos no exterior.  Além disso, os dois (Guedes e Campos Neto) têm acesso a informações sensíveis relacionadas a flutuações nas taxas de câmbio e variação nas taxas de juros (ou seja tem tudo a ver com políticas que tendem a favorecer aqueles que possuem contas em paraísos fiscais).

No caso de Paulo Guedes, a situação é mais complicada porque sua empresa, a Dreadnoughts Internacional, não possui apenas o ministro da Fazenda como proprietário, mas também a mulher e filha dele (ver certificado abaixo).

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Certificado de 2015 da Dreadnoughts International, com os nomes de Paulo Guedes, sua mulher e sua filha

Essa situação é claramente um conflito de interesses, seja pela função que Paulo Guedes ocupa como ministro da Fazenda, seja pela posição que ele ocupa no CMN.  Assim, em qualquer país com instituições com funcionamento minimamente republicano, Paulo Guedes estaria hoje sendo despachado para algum paraíso fiscal para usufruir da sua fortuna sem nos obrigar a ouvir seu “conversê” tosco sobre os méritos da economia de mercado desregulada. No entanto, não tenho muitas expectativas de que isto ocorra, pois Guedes certamente terá o amparo dos companheiros de jornada em paraísos fiscais para continuar no posto em que possibilita vida mansa para eles.

Entretanto, o que este caso evidencia é que Paulo Guedes e seus amigos operam pela lógica de jogar os trabalhadores e os mais pobres no inferno, enquanto reservam para si os prazeres do paraíso (fiscal).  E o que isso demonstra é que não haverá solução real para os problemas que afligem os brasileiros enquanto houver tolerância para as práticas de evasão fiscal que só aumentam a grotesca concentração de renda que existe no Brasil.