A esquerda depois de Lula: ou construímos alternativas agora ou chegaremos atrasados ao futuro

ortalecer os partidos da esquerda autônoma não é apenas uma questão eleitoral em 2026, mas uma necessidade estratégica para formar novas lideranças, ampliar a disputa programática e preparar as forças que enfrentarão os embates sociais, políticos e ambientais de um Brasil que não poderá permanecer indefinidamente organizado em torno de Lula

As eleições presidenciais de 2026 estão ocorrendo com uma pluralidade política que aparece muito menos no debate público do que deveria. Além das duas candidaturas que concentram a maior parte da cobertura — Lula e Flávio Bolsonaro —, existem partidos de esquerda que disputam as eleições fora do arco político organizado em torno do PT. PCB, PCO, PSTU e UP apresentam candidaturas presidenciais próprias, além de candidatos aos demais cargos, e colocam em circulação programas e interpretações sobre o Brasil que mereceriam ser conhecidos e debatidos.

O problema não está apenas no tamanho eleitoral dessas candidaturas. Está no fato de que, quando elas praticamente desaparecem da cobertura jornalística e do debate político cotidiano, desaparecem também determinadas questões que dificilmente ocuparão posição central numa disputa reduzida a Lula versus Flávio Bolsonaro. O resultado é uma eleição apresentada como escolha quase binária, embora o primeiro turno exista justamente para permitir uma expressão mais ampla das diferenças existentes na sociedade.

O primeiro turno não deve ser transformado antecipadamente em segundo turno

Nas últimas semanas tenho acompanhado apelos para que eleitores identificados com a esquerda concentrem seus votos em Lula já no primeiro turno, sob o argumento de que seria necessário encerrar imediatamente a disputa e impedir qualquer possibilidade de vitória da extrema-direita.

Compreendo perfeitamente a preocupação que sustenta esse argumento. Entretanto, não considero que ela elimine uma questão política anterior: se todas as eleições forem tratadas desde o primeiro turno como uma escolha defensiva entre o PT e a direita, quando haverá espaço para construir alternativas de esquerda ao próprio PT?

Nesse aspecto, considero pertinente a reflexão feita pelo ex-vereador Renato Cinco em suas redes sociais. A existência de dois turnos permite que o primeiro seja também um momento de apresentação de programas, afirmação de diferenças e construção de forças políticas. Transformá-lo antecipadamente em segundo turno significa reduzir justamente o espaço institucional no qual alternativas minoritárias podem apresentar suas propostas à sociedade.

O problema não é apenas eleitoral

Há uma questão ainda mais profunda. PCB, PCO, PSTU e UP não precisam apenas de votos. Precisam conquistar maior presença social, capacidade organizativa, inserção sindical e popular, produção intelectual, comunicação própria e formação de novas lideranças.

Uma esquerda que somente aparece durante as eleições continuará condenada à marginalidade. Mas uma esquerda que transforma a eleição em instrumento para ampliar sua organização pode acumular forças mesmo quando seus resultados eleitorais imediatos forem modestos.

Esse ponto me parece especialmente importante porque parte significativa da esquerda brasileira passou décadas gravitando em torno do PT e, sobretudo, em torno da liderança de Lula. Essa centralidade possui razões históricas evidentes: Lula é uma das mais importantes lideranças políticas surgidas no Brasil contemporâneo. Mas justamente por isso a dependência prolongada de uma única liderança produz um problema que a esquerda brasileira terá inevitavelmente de enfrentar.

O Brasil precisa pensar a esquerda depois de Lula

Lula tem 80 anos e, independentemente do resultado de 2026, a esquerda brasileira precisa discutir seriamente sua renovação geracional e programática. O problema não é desejar ou antecipar sua saída da política, mas reconhecer algo elementar: nenhuma força política pode organizar seu futuro indefinidamente em torno de uma única liderança.

Dentro do PT e dos partidos que compõem seu campo de alianças, a enorme centralidade política e eleitoral de Lula dificulta o aparecimento de lideranças com autonomia comparável. Isso cria uma contradição: quanto mais indispensável Lula se torna para manter esse campo político unido e eleitoralmente competitivo, mais difícil parece preparar uma estrutura política capaz de funcionar sem ele.

Por isso, fortalecer partidos de esquerda que existem fora dessa órbita não significa necessariamente enfraquecer a resistência à extrema-direita. Pode significar justamente ampliar o número de organizações, lideranças e projetos políticos capazes de enfrentá-la no futuro.

Uma esquerda autônoma também amplia os limites do debate

Há ainda outra razão para defender a presença dessas forças. Uma esquerda politicamente relevante fora do PT pode deslocar o próprio centro do debate nacional.

Questões como redução da jornada de trabalho, direitos previdenciários, tributação das grandes fortunas, reestatização de setores estratégicos, enfrentamento da financeirização, reforma agrária, proteção dos povos tradicionais, crise climática, poder das corporações e limites impostos pelo capital financeiro às políticas públicas ganham outra dimensão quando existem organizações capazes de defendê-las sem depender das necessidades de composição de um governo.

A Previdência é um exemplo particularmente importante. Existem atualmente propostas sendo discutidas por economistas que envolvem mudanças profundas no sistema, incluindo aumento da idade mínima e alterações nas formas de financiamento. A equipe econômica da campanha de Lula afirma que uma nova reforma não está atualmente em discussão, embora não descarte um debate futuro; do lado de Flávio Bolsonaro, integrantes da campanha já defenderam revisitar a Previdência, ainda que o candidato posteriormente tenha declarado que não pretende promover nova reforma. O episódio mostra precisamente por que é importante que existam forças políticas capazes de colocar os interesses dos trabalhadores no centro dessa discussão antes — e não depois — de eventuais mudanças.

Votar também significa construir

É por isso que não considero contraditório alguém rejeitar uma eventual volta do bolsonarismo e, ao mesmo tempo, decidir votar no primeiro turno em uma candidatura situada à esquerda do PT.

O voto no primeiro turno pode cumprir também uma função de construção política. Pode fortalecer partidos, ampliar sua visibilidade, ajudar a eleger parlamentares, formar novas lideranças e demonstrar que existe uma parcela da sociedade que deseja políticas que ultrapassem os limites atualmente estabelecidos pelo campo político dominante.

No segundo turno, caso ele ocorra, haverá outra conjuntura e outra decisão a ser tomada. Mas antecipar essa decisão para o primeiro turno significa abrir mão de uma das poucas oportunidades institucionais existentes para medir, apresentar e fortalecer alternativas políticas.

A questão fundamental, portanto, ultrapassa 2026. A emergência climática, a precarização do trabalho, a concentração de riqueza, a financeirização da economia e o avanço internacional da extrema-direita não oferecem à esquerda brasileira o luxo de esperar indefinidamente pelo aparecimento espontâneo de uma liderança pós-Lula.

Novas lideranças não surgem por decreto nem aparecem quando a antiga liderança deixa o palco. Elas são produzidas por organizações políticas, lutas sociais, formação de quadros, presença territorial e disputa de ideias.

Se a esquerda brasileira quiser continuar existindo como força transformadora depois de Lula, precisa começar a construir esse futuro enquanto Lula ainda está presente. E isso passa necessariamente pelo fortalecimento de organizações de esquerda capazes de caminhar com as próprias pernas, formular seus próprios programas e disputar a sociedade sem permanecer permanentemente subordinadas à órbita política do PT.

Não, nem todos os partidos são corruptos. As doações das empreiteiras mostram isso

Uma reportagem publicada pelo jornal paranaense Gazeta do Povo no já distante dia 27 de Novembro (Aqui! ) trouxe uma informação impressionante mesmo para mim: nas eleições de 2014, as empreiteiras envolvidas na Lava Jato (ou seja no escândalo de corrupção na Petrobras) “doaram” nada menos do que R$ 277 milhões para 28 dos 32 partidos que concorrem no pleito  (ver gráfico abaixo).

empreiteiras

E o leitor deste blog poderia se perguntar sobre quem seriam os 4 partidos que ficaram de fora desta lista de recebedores das generosidades agora sob fogo cerrado das empreiteiras. Pois bem, aí é que a porca torce o rabo para os manifestantes “coxinhas”: Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido da Causa Operário (PCO), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).  

Em suma, ficaram de fora os partidos da esquerda nos quais eu venho votando de forma consistente desde 1998 quando retornei ao Brasil  e vi que o Partido dos Trabalhadores (PT) havia feito uma opção programática que eu considerava equivocada e antipopular em nome de uma questionável viabilidade eleitoral.

Agora que os principais partidos políticos estão literalmente chafurdando na lama, fico imaginando o que me dirão os profetas do pragmatismo neopetista que me diziam que os partidos de esquerda eram inviáveis eleitoralmente porque não aceitavam fazer o jogo como estava dado. Pois bem, eu não tenho outra saída a não ser concluir que é melhor se inviabilizar eleitoralmente do que entregar bandeiras históricas.

Se algo de bom existe nessa crise vergonhosa que assola a política partidária brasileira é oferecer aos partidos de esquerda a possibilidade, com todas as suas fragilidades e limitações, de buscarem pontes de contato com a maioria da população brasileira que nas últimas décadas votou no PT como forma de buscar a construção de uma sociedade mais justa no Brasil.   

Entretanto, para que isso ocorra os partidos de esquerda vão ter que superar a comodidade de manter isolados na periferia da luta de classes como fizeram ao longo dos anos de hegemonia eleitoral do PT dentro da classe trabalhadora.  Esse é um desafio formidável, e resta saber se a esquerda vai aceitar fazer as correções internas para, enfim, dialogar com a maioria da classe trabalhadora brasileira.