A reinvenção do gado

A maior indústria bovina do mundo pode se tornar sustentável – ou a própria sustentabilidade está sendo redefinida?

Por Monica Piccinini para “YourVoiz”

Florestas não foram perdidas apenas por motosserras e fogo. Por trás de cada hectare desmatado havia um modelo econômico que recompensava a conversão de florestas vivas em riqueza privada. Estradas abriram regiões remotas, a madeira financiou a primeira onda de desmatamento, o fogo consumiu o que restou, e o gado transformou terras desmatadas em um ativo que podia ser comprado, vendido, hipotecado e defendido. Dentro desse sistema, uma floresta em pé tinha pouco valor financeiro.

Hoje, o gado está sendo reestruturado. À medida que governos, investidores e agroempresas buscam formas de reduzir as emissões agrícolas, a pecuária não é mais apresentada apenas como um motor do declínio ambiental. Atualmente, está sendo promovido como parte da solução climática por meio da criação “regenerativa”, carne bovina “de baixo carbono”, rastreabilidade digital e financiamento verde.

Essa mudança vai além das práticas agrícolas. Reflete mudanças na governança ambiental, onde política climática, mercados financeiros e conservação estão se tornando cada vez mais interligados. A questão não é mais apenas como reduzir o custo ambiental da produção bovina, mas se a indústria pode continuar se expandindo enquanto afirma operar dentro dos limites ecológicos.

Como essa mudança está acontecendo, quem a está conduzindo e o que isso significa para o futuro da Amazônia? A reinvenção do gado representa uma verdadeira transição ambiental ou um modelo financeiro que permite que uma das indústrias mais poderosas do Brasil continue crescendo sob a linguagem da sustentabilidade?

Gado, desmatamento e uma narrativa em constante mudança

Cerca de 80% das terras desmatadas na Amazônia foram convertidas em pastagens. No vizinho Cerrado, um dos biomas mais biodiversos do mundo, a pecuária e a agricultura de mercadorias em grande escala substituíram os ecossistemas nativos em uma área imensa.

Décadas de monitoramento por satélite, pesquisas científicas e investigações governamentais chegam à mesma conclusão: o pasto é o uso dominante da terra estabelecido após o desmatamento amazônico, e a pecuária continua sendo seu principal motor direto. Nem todo hectare foi desmatado exclusivamente para a produção de carne bovina. O gado também serviu para ocupar terras disputadas, consolidar reivindicações especulativas e preparar propriedades para revenda ou conversão para outros usos agrícolas.

As consequências vão muito além da perda de florestas. A limpeza e queima liberam carbono acumulado ao longo de décadas ou séculos. O gado emite metano por digestão, enquanto o manejo de esterco e pastagem gera gases de efeito estufa adicionais. Substituir florestas e savanas nativas por pastagens também degrada os solos, altera sistemas fluviais, fragmenta habitats e acelera a perda de biodiversidade.

Em partes da Amazônia, a expansão do gado permaneceu intimamente ligada à apropriação de terras, reivindicações fraudulentas de propriedade e à ocupação ilegal de terras públicas, protegidas e indígenas. Promotores, jornalistas e organizações de direitos humanos documentaram repetidamente fazendas associadas ao trabalho forçado, intimidação violência contra povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos proprietários. Esses abusos não caracterizam todos os produtores, mas permanecem uma característica persistente e bem documentada da história da indústria.

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil, compilados pela Repórter Brasil, revelaram que 65.600 trabalhadores foram resgatados de condições semelhantes à escravidão entre 1995 e 2024. Mais de 17.300 trabalhavam na criação de animais, tornando-se o setor com o maior número de casos registrados. Como observou um trabalhador resgatado: “Aqui, o gado é tratado melhor do que os trabalhadores”.

Por anos, o debate internacional enquadrou a expansão do gado e a conservação florestal como forças opostas. O desafio era limitar os danos ambientais causados por uma indústria cujo crescimento havia se tornado inseparável do avanço da fronteira agrícola.

Na última década, esse debate mudou. Governos, pesquisadores, agências de desenvolvimento, organizações ambientais, bancos, instituições filantrópicas e empresas de carne passaram de questionar se a produção bovina deveria mudar para se perguntar como ela pode ser alinhada com a política climática.

A mudança começou com a linguagem. Relatórios antes focados no desmatamento agora promovem a produção “bovina de baixo carbono”, a criação “regenerativa”, a produção “positiva para a natureza” e “sustentável”. Práticas como restauração de pastagens degradadas, melhoria da nutrição animal, redução da idade do abate e aumento da produtividade são apresentadas junto com financiamento climático, monitoramento via satélite, rastreabilidade digital e investimento ambiental.

Muitas dessas propostas oferecem benefícios ambientais reais. Restaurar pastagens degradadas é preferível a desmatar novas florestas. A rastreabilidade eficaz pode expor abusos que há muito tempo permanecem ocultos nas cadeias de suprimentos. Agências ambientais mais fortes, registros de terras confiáveis e melhor suporte técnico poderiam fortalecer produtores responsáveis, excluindo aqueles que lucram com o desmatamento ilegal.

Maior eficiência, no entanto, não necessariamente reduz o impacto ambiental. Produzir carne bovina com menos emissões por quilograma não reduz automaticamente as emissões totais, o uso da terra ou a pressão ecológica. Os animais podem atingir o peso de abate mais cedo, reduzindo a intensidade do metano, enquanto as emissões gerais continuam aumentando se o tamanho dos rebanhos e a produção continuarem crescendo.

Essa distinção é importante em um país com cerca de 238 milhões de gado, mais do que sua população humana, e a maior indústria de exportação de carne bovina do mundo. O Brasil persegue duas ambições ao mesmo tempo: apresentar a pecuária como parte de sua estratégia climática, ao mesmo tempo em que expande a escala e a competitividade de seu setor bovino.

Por trás dos relatórios, fundos de investimento e parcerias institucionais, outra história começa a surgir. A reinvenção do gado não se trata mais apenas de florestas, pastagens ou metano. Também diz respeito a crédito, dados ambientais, produtos financeiros e o mercado em rápida expansão para investimentos descritos como verdes, alinhados ao clima ou positivos para a natureza.

As organizações envolvidas não compartilham todos os mesmos objetivos, nem isso diminui o trabalho de cientistas, funcionários públicos e profissionais que passaram décadas protegendo florestas e melhorando os meios de subsistência rurais. A questão mais importante é se o gado sustentável representa uma verdadeira transformação da produção pecuária ou um modelo financeiro e tecnológico que permita à indústria continuar se expandindo.

Reescrevendo a linguagem da sustentabilidade

A transformação da indústria pecuária brasileira não começou nos ranchos. Começou com uma mudança de idioma.

Por décadas, o debate sobre a pecuária brasileira centrou no desmatamento, perda de biodiversidade, emissões de gases de efeito estufa, ocupação ilegal de terras e abusos trabalhistas embutidos nas cadeias de suprimentos de carne bovina. O objetivo, mesmo que politicamente difícil, era claro: reduzir os danos ambientais causados por uma das maiores indústrias pecuárias do mundo. Mas essa não é mais a conversa dominante.

Em vez de questionar se a produção pecuária deve continuar se expandindo, a política agora assume em grande parte que o gado continuará sendo central para a economia brasileira. O desafio passou a ser tornar a indústria mais produtiva, mais transparente, mais tecnologicamente sofisticada e mais atraente para investidores conscientes do clima.

A distinção é sutil, mas significativa. Se o problema for a escala da indústria pecuária, as respostas políticas podem incluir limitar a produção em regiões ecologicamente vulneráveis, desencorajar a expansão das fronteiras e reduzir a pressão para o crescimento contínuo. Se o problema for a ineficiência, as soluções passam a ser melhor genética, pastagem restaurada, monitoramento digital, crescimento animal mais rápido e novas formas de crédito rural.

A linguagem importa porque molda políticas. Ela influencia o que os governos medem, onde as instituições financeiras investem e o que conta como progresso ambiental. Termos como carne bovina “de baixo carbono”, pecuária “regenerativa”, produção “positiva para a natureza” e produção “sustentável” fazem mais do que descrever práticas agrícolas; Eles redefinem o próprio problema.

Essa mudança se reflete em pesquisas produzidas por meio da Amazônia 2030, uma colaboração entre o Instituto Amazônico do Homem e do Meio Ambiente (Imazon) e a Iniciativa de Política Climática (CPI). Seu trabalho reconhece o papel que a extensa pecuária, o pasto degradado e o desmatamento desempenharam na transformação da Amazônia, ao mesmo tempo em que argumenta que os investimentos futuros devem se concentrar em áreas de produção existentes, e não em novas fronteiras agrícolas.

As recomendações são práticas: redirecionar o crédito rural para ganhos mensuráveis de produtividade, expandir a assistência técnica, restaurar pastagens degradadas, fortalecer o monitoramento georreferenciado e esclarecer o status legal das florestas públicas vulneráveis à ocupação especulativa. O argumento subjacente é que o Brasil pode produzir mais carne bovina em terras já desmatadas, reduzindo o incentivo para destruir mais florestas.

A lógica é convincente. Se o pasto degradado sustenta apenas um pequeno número de gado, restaurá-lo deve aumentar a produção sem exigir novas terras. Em teoria, maior produtividade poderia poupar terras para conservação ou restauração ecológica. Se isso acontecer depende menos da produtividade do que da governança.

Rendimentos mais altos reduzem a pressão sobre as florestas apenas quando as proteções ambientais impedem a expansão e a terra restaurada é realmente conservada. Quando a fiscalização é fraca, maior eficiência pode ter o efeito oposto, tornando a produção de gado mais lucrativa, atraindo novos investimentos e aumentando a pressão para expandir.

A história não oferece uma resposta simples. A intensificação agrícola reduziu a pressão sobre a terra em algumas regiões enquanto acelerou a expansão em outras. Os resultados dependem da demanda, infraestrutura, crédito, aplicação da lei e se lucros maiores são canalizados para restaurar terras existentes ou adquirir novas propriedades.

Uma estatística ilustra esse ponto. Pesquisas citadas pela Amazônia 2030 sugerem que cada hectare de pastagem restaurada entre 2000 e 2023 coincidiu com aproximadamente 2,35 hectares de novo desmatamento. A figura descreve uma associação histórica em vez de provar que a restauração causou perda florestal, mas desafia a suposição de que ganhos de produtividade automaticamente deslocam a expansão da fronteira.

A questão central, então, não é se a pastagem pode ser tornada mais produtiva. Pode. A questão é se esses ganhos vêm acompanhados de salvaguardas que impedem que lucros maiores financiem um desmatamento adicional.

A mesma tensão permeia a linguagem mais ampla do gado “baixo carbono”.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, promove programas que combinam restauração de pastagens, assistência técnica, financiamento e acesso ao mercado para apoiar a produção de gado de menor emissão. Suas parcerias no Brasil reúnem organizações ambientais, agronegócios, instituições financeiras e agências de desenvolvimento em torno de um objetivo comum: transformar a pecuária por meio do investimento, e não da contração.

Parceiros estratégicos da IDH no Brasil. Fonte: https://idh.org/contact/brazil 

Uma abordagem semelhante aparece no livro do Instituto de Recursos Mundiais para a Nova Economia para a Amazônia brasileira, onde a reforma pecuária faz parte de um programa mais amplo que liga universidades, ONGs, empresas e organizações de políticas públicas em torno do desenvolvimento econômico compatível com o clima.

A Nova Economia para a liderança brasileira da Amazonia. Fonte: https://www.wri.org/research/new-economy-brazil-amazon 

Outras iniciativas seguem o mesmo padrão. A Coalizão Financeira de Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFC) reúne bancos comerciais, instituições de desenvolvimento, fundações filantrópicas e organizações ambientais para apoiar investimentos em grande escala em empresas de restauração e baseadas na natureza.

Essas organizações diferem em governança, prioridades e perspectiva política, e não devem ser vistas como um único projeto coordenado. Mas seus programas compartilham um vocabulário surpreendentemente semelhante: produtividade, resiliência, restauração, rastreabilidade, impacto mensurável, serviços ambientais e finanças mistas.

Juntas, essas iniciativas revelam uma mudança mais ampla na governança ambiental. A pecuária não é mais enquadrada apenas como uma responsabilidade ambiental que exige uma regulamentação mais rigorosa. Também é apresentado como uma oportunidade para investimento climático, dados ambientais e participação em mercados emergentes para carbono, biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

As implicações vão além da pecuária. Florestas, biodiversidade e paisagens restauradas são tratadas como ativos econômicos mensuráveis. Instituições financeiras estão desenvolvendo produtos que recompensam o desempenho ambiental, enquanto as tecnologias digitais geram os dados necessários para verificar e negociar esses ativos.

O Brasil está no centro dessa mudança. Ele contém a maior floresta tropical do mundo, o vasto Cerrado, e milhões de hectares de pastagens degradadas que poderiam ser restauradas ou intensificadas. Essa combinação torna o país não apenas uma prioridade ambiental, mas também um dos maiores mercados potenciais do mundo para investimento climático.

Como o gado ocupa grande parte das terras do Brasil, ele está no centro dessa oportunidade. A pastagem pode ser apresentada simultaneamente como um problema climático, uma oportunidade de restauração e um ativo financeiro aguardando uso mais produtivo.

A reinvenção do gado, então, é muito mais do que reduzir as emissões de metano. Trata-se de reposicionar um dos maiores setores econômicos do Brasil dentro de um mercado de financiamento climático em rápida expansão.

Se isso coloca limites ecológicos acima da expansão econômica permanece a questão definidora.

mercado brasileiro de restauração florestal pode oferecer uma oportunidade de US$ 141 bilhões para empresas e investidores, segundo um relatório da Orbitas.

Seguindo o dinheiro

A reinvenção do gado não está sendo impulsionada apenas pela política ambiental. Também é moldada por uma arquitetura financeira crescente que liga metas climáticas, produção agrícola e investimento global.

Programas que promovem pecuária de baixo carbono raramente operam isoladamente. Em vez disso, elas surgem de parcerias entre governos, agências de desenvolvimento, fundações filantrópicas, bancos comerciais, gestores de investimentos, empresas de carne e organizações ambientais.

Juntos, esses atores estão redefinindo não apenas como a sustentabilidade é financiada, mas também como ela é medida.

Tal cooperação não é incomum nem inerentemente problemática. Restaurar pastagens degradadas, melhorar as cadeias de suprimentos e apoiar produtores responsáveis exigem investimentos de longo prazo que apenas o financiamento público provavelmente não proporcionará. A questão mais significativa é como essas parcerias influenciam a própria definição de sustentabilidade.

Quando os programas ambientais são projetados em torno das expectativas dos mercados financeiros, o sucesso tende a ser medido por meio de retornos de investimento, redução de riscos, escalabilidade e resultados quantificáveis. Valores que resistem a uma simples medição, como sobrevivência cultural, direitos territoriais, biodiversidade ou o valor intrínseco das florestas, podem se tornar mais difíceis de acomodar.

A IDH, Iniciativa de Comércio Sustentável, ilustra esse cenário em transformação. Estabelecida em 2008 por meio da colaboração entre o governo holandês, a sociedade civil e o setor privado, a IDH atua em cadeias globais de suprimentos de commodities, incluindo cacau, café, algodão, óleo de palma, soja e carne bovina. No Brasil, apoia a restauração de pastagens, assistência técnica e mecanismos financeiros projetados para acelerar a produção pecuária de menor carbono.

O financiamento do IDH reflete a amplitude da economia sustentável atual. Junto com o apoio do Ministério das Relações Exteriores da Holanda e da Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos da Suíça (SECO), o financiamento estratégico veio do Ministério das Relações Exteriores da Dinamarca (DANIDA), do Ministério do Meio Ambiente da Noruega (NORAD), da União Europeia, da Fundação Bill & Melinda Gates, da Fundação Laudes, da Fundação Mastercard, da Fundação IKEA e do Escritório de Relações Exteriores, Commonwealth e Desenvolvimento do Reino Unido (FCDO).

Isso ilustra uma mudança mais ampla na governança ambiental. A política não é mais moldada apenas por governos e reguladores. Ela surge cada vez mais por meio de parcerias nas quais instituições públicas, filantropia, organizações financeiras e interesses comerciais trabalham juntos para influenciar os resultados ambientais.

Um dos exemplos mais claros é o Fundo Cria da IDHDesenvolvido com a gestora de investimentos Violet, parte do Grupo VERT, o fundo tem como objetivo ampliar o acesso ao financiamento para pequenos e médios produtores de gado em toda a Amazônia brasileira. Combina crédito rural com assistência técnica digital e acesso ao mercado, reunindo terra, dados e capital.

Até 2030, o fundo visa mobilizar US$50 milhões, apoiar 1.000 produtores e cobrir 150.000 hectares sob práticas classificadas como sustentáveis. Um investimento inicial de US$ 10 milhões está previsto para alcançar 250 agricultores que administram aproximadamente 12.000 hectares.

Para muitos produtores, o acesso a financiamento acessível continua sendo uma barreira real. Restaurar pastagens, comprar equipamentos e adotar novos sistemas de produção exigem capital que o crédito rural convencional muitas vezes não consegue fornecer.

Fundo Cria também ilustra uma mudança mais ampla. O desempenho ambiental está se tornando inseparável da participação nos sistemas financeiros. As decisões de empréstimo dependem cada vez mais de dados de produção, monitoramento geoespacial e assistência técnica digital. O acesso ao capital está ligado não apenas às práticas agrícolas, mas também à capacidade de gerar e verificar informações ambientais.

Para os produtores, isso poderia melhorar o acesso aos mercados premium, ao mesmo tempo em que recompensa um melhor desempenho ambiental. Também levanta questões importantes. Quem é o dono dos dados gerados por esses programas? Como essas informações podem influenciar futuras decisões de empréstimo? Quem determina quais sistemas de produção se qualificam como regenerativos? E o que acontece com os produtores que não podem arcar com a tecnologia necessária ou cuja documentação de terra permanece sem solução?

Esses não são argumentos contra dados ambientais ou crédito rural. Em vez disso, mostram como a inclusão financeira pode criar novas formas de dependência junto com novas oportunidades.

A escolha de Violet como parceira de investimento do fundo destaca outra tendência significativa. Empresas especializadas em finanças estruturadas e mercados de capitais estão se tornando atores centrais na política ambiental. Questões antes abordadas principalmente por meio de serviços de extensão agrícola e regulação pública são cada vez mais gerenciadas por meio de finanças mistas, investimento privado e produtos financeiros projetados para atrair capital institucional.

Essa evolução ficou evidente durante a Semana de Ação Climática de Londres 2026, quando IDH, CPI, representantes do Foreign, Commonwealth and Development Office (FCDO) do Reino Unido, investidores e instituições financeiras focaram menos nas florestas em si e mais nos mecanismos financeiros necessários para tornar a pecuária regenerativa comercialmente viável.

A mesma lógica vai além do gado. Lançada durante a Cúpula do G20 em 2024, a Coalizão Financeira para a Restauração e Bioeconomia do Brasil (BRBFCreúne bancos públicos, instituições financeiras privadas, organizações de conservação e agências internacionais de desenvolvimento, com o objetivo de mobilizar pelo menos US$ 10 bilhões para projetos de restauração e bioeconomia até 2030.

Seus membros incluem Banco do Brasil, BNDES, BTG Pactual, Conservation International, IDB Invest, Instituto Arapyaú, Instituto Clima e Sociedade, Mombak, The Nature Conservancy (TNC), re.green, WWF Brasil, o Grupo Banco Mundial, o Fórum Econômico Mundial, entre outros.

Lista de membros do BRB. Fonte: https://brbfc.org/about-us/ 

Em julho de 2025, os membros da coalizão relataram compromissos de US$ 2,6 bilhões. Eles também visam restaurar ou proteger cinco milhões de hectares, enquanto direcionam US$ 500 milhões para projetos envolvendo povos indígenas e comunidades locais.

A ambição é substituir a economia de fronteira por uma que gere valor por meio da restauração, e não do desmatamento. As florestas tornam-se ativos investidos, em vez de obstáculos ao crescimento econômico.

Essa visão tem um potencial genuíno. A restauração de longo prazo exige capital de longo prazo, e organizações indígenas e grupos comunitários frequentemente têm dificuldade em acessar o financiamento convencional.

Mas restauração e bioeconomia continuam sendo conceitos amplos. Elas podem apoiar a recuperação de ecossistemas nativos, mas também podem incluir silvicultura comercial, mercados de carbono e sistemas agrícolas com resultados ecológicos e sociais muito diferentes.

Embora o BRBFC não seja um programa pecuário, ele opera em uma paisagem dominada por gado. Decisões sobre restaurar, intensificar ou reaproveitar pastagens inevitavelmente moldam o futuro do maior setor agrícola do Brasil.

Juntas, essas iniciativas apontam para algo maior do que projetos individuais. A governança ambiental está se tornando mais integrada às finanças globais. Florestas, biodiversidade, pastagens e serviços ecossistêmicos estão sendo convertidos em ativos que podem ser medidos, valorizados e incorporados em estratégias de investimento.

Na maioria dos programas analisados, o futuro proposto não envolve produzir menos carne bovina. Em vez disso, trata-se de produzir carne bovina de forma mais eficiente, monitorá-la mais de perto e conectá-la a novos fluxos de capital.

Nessa visão, a sustentabilidade não substitui o crescimento. Torna-se o mecanismo pelo qual se espera que o crescimento continue.

A rastreabilidade pode entregar resultados?

Se uma ideia se tornou central para a promessa de produção sustentável de gado, é a rastreabilidade. Documentos de política, relatórios de sustentabilidade corporativa e estratégias de investimento apresentam isso como a solução para um dos problemas mais antigos da indústria pecuária: saber onde um animal passou sua vida.

Em teoria, cada animal seria identificado desde o nascimento, cada movimento entre fazendas registrado e cada propriedade verificada contra imagens de satélite, embargos ambientais, territórios indígenas e violações trabalhistas. Reguladores, investidores e consumidores poderiam então verificar se a carne vendida em São Paulo, Bruxelas ou Xangai veio de uma cadeia de suprimentos legal e livre de desmatamento.

Sem rastreabilidade confiável, no entanto, as alegações de carne bovina de baixo carbono ou livre de desmatamento continuam difíceis de verificar. O Brasil fez avanços significativos no monitoramento da produção pecuária, mas os sistemas dos quais depende a rastreabilidade permanecem fragmentados, implementados de forma desigual e, em alguns casos, vulneráveis à manipulação.

Três mecanismos formam o quadro atual: o Registro Ambiental Rural (CAR), o Guia de Trânsito Animal (GTA) e acordos entre promotores federais e abatedouros conhecidos como Acordo de Ajuste de Conduta da Indústria Carnívora (TAC da Carne). Juntos, eles representam um avanço importante na transparência, mas também expõem as fraquezas que continuam a limitar a supervisão eficaz.

Criado sob o Código Florestal do Brasil, o CAR é um registro digital no qual os proprietários declaram limites de propriedades, áreas de vegetação nativa, reservas legais e terras agrícolas. Essas declarações podem ser comparadas com imagens de satélite, áreas protegidas e embargos ambientais, tornando a RCA uma ferramenta essencial para a governança ambiental. Sua principal fraqueza é que a informação é inicialmente autodeclarada e só se torna confiável após verificação pelas autoridades ambientais estaduais. Esse processo avançou lentamente, deixando um acúmulo de milhões de registros aguardando validação.

As consequências vão muito além da regulamentação ambiental. Bancos consultam a CAR antes de aprovar crédito rural, empresas de carne a usam para triar fornecedores e investidores dependem dela para avaliar riscos ambientais. Se a informação subjacente for incompleta ou imprecisa, toda decisão baseada nela se torna menos confiável.

Pesquisas do Centro de Análise de Crimes Climáticos, reportadas pelo Repórter Brasil, destacam o problema. Entre 2019 e 2024, 14.223 propriedades na Amazônia Legal alteraram seus registros CAR de formas que removeram áreas ambientalmente restritas. Em meio a essas mudanças, cerca de 4,9 milhões de hectares desapareceram dos limites declarados da propriedade. Tais alterações não provam por si só irregularidades, mas a escala das mudanças, e a remoção, em alguns casos, de embargos ambientais e sobreposições com territórios indígenas, levanta sérias preocupações sobre a integridade do sistema.

Rastrear o território é apenas parte do desafio. Reconstruir a vida de um animal individual é mais complexo porque a indústria bovina do Brasil atua em várias fazendas. Uma propriedade pode criar bezerros; outro os cria e um terceiro os prepara para o massacre. O Animal Transit Guide registra esses movimentos, mas foi criado principalmente para controlar doenças do rebanho, e não para reconstruir a história ambiental de um animal.

Essa distinção tem consequências importantes. Os matadouros tradicionalmente monitoram apenas seus fornecedores diretos, sendo as fazendas que vendem animais imediatamente antes do abate, enquanto as fases iniciais da cadeia de produção frequentemente permanecem fora do sistema. Portanto, um animal pode passar grande parte de sua vida em terras desmatadas ilegalmente antes de ser transferido para uma propriedade conforme pouco antes do abate. A transação final parece legal, mesmo que grande parte da história ambiental do animal permaneça oculta.

A prática, comumente descrita como lavagem de gado, não se baseia necessariamente em documentos falsificados. Em vez disso, explora as lacunas entre sistemas que registram diferentes estágios da cadeia de suprimentos sem se comunicar efetivamente entre si. A fazenda que abastece o matadouro pode cumprir verificações ambientais, enquanto as propriedades onde o animal já viveu permanecem praticamente invisíveis.

Identificação eletrônica, bancos de dados integrados, monitoramento por satélite e análise automatizada de riscos podem ajudar a fechar parte dessa lacuna, tornando muito mais difícil apagar o histórico de um animal. Essas tecnologias representam avanços genuínos em relação aos sistemas fragmentados atualmente em vigor, mas não podem substituir uma governança eficaz. Etiquetas eletrônicas não podem resolver reivindicações fraudulentas de terras, imagens de satélite não podem aplicar a lei ambiental, e plataformas digitais não podem verificar declarações de propriedade imprecisas ou compensar instituições fracas e fiscalização inadequada.

Em última análise, a rastreabilidade é menos um desafio tecnológico do que uma questão de governança. Sua credibilidade depende de registros públicos confiáveis, verificação independente, informações transparentes, reguladores eficazes e consequências significativas para aqueles que violam a lei ambiental.

Os sistemas de monitoramento do Brasil estão se tornando cada vez mais sofisticados, mas sofisticação não deve ser confundida com certeza. Até que o gado possa ser rastreado de forma confiável desde o nascimento até o abate, e cada etapa da cadeia de suprimentos esteja sujeita a uma supervisão eficaz, as alegações de que a carne bovina está livre de desmatamento permanecerão tão fortes quanto o elo mais fraco da cadeia.

Quem define bovino sustentável?

Essa pergunta atravessa todas as etapas do debate.

O termo gado “sustentável” aparece em estratégias governamentais, prospectos de investimento e relatórios corporativos. A carne bovina é descrita como “de baixo carbono”, a pecuária torna-se “regenerativa” e as cadeias de suprimentos são rotuladas como “positivas para a natureza”. A linguagem sugere uma conclusão definitiva, mas o significado de sustentabilidade permanece contestado.

Não existe uma definição científica única que determine se a produção industrial de gado na Amazônia e no Cerrado pode ser considerada sustentável. Uma fazenda pode atender a um padrão porque não desmatou florestas recentemente e falha em outro porque seus animais vieram de fornecedores não monitorados. Pode reduzir as emissões por quilograma de carne bovina enquanto aumenta a produção geral e pode restaurar uma área enquanto sua cadeia de suprimentos se expande para outra.

Grande parte do argumento para o gado “baixo carbono” baseia-se na distinção entre intensidade de emissões e emissões absolutas. Melhor manejo do pasto, nutrição aprimorada, seleção e abate mais precoce podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa por quilograma de carne bovina ao reduzir o tempo que o gado gasta emitindo metano. Esses ganhos são significativos, mas a atmosfera responde às emissões totais, e não à eficiência produtiva.

Se as emissões por quilograma caírem enquanto o tamanho dos rebanhos permanece estável ou diminui, as emissões gerais podem diminuir. Se a produtividade melhorar enquanto o número de gado e a produção de gado continuarem crescendo, as emissões totais podem permanecer inalteradas ou até mesmo aumentar. Para um país com o maior rebanho comercial de gado do mundo, essa distinção é fundamental.

O metano torna a questão particularmente significativa. A fermentação entérica continua sendo a maior fonte de metano agrícola no mundo. Embora o metano persista na atmosfera por um período menor do que o dióxido de carbono, seu efeito de aquecimento é especialmente forte nas décadas imediatamente após sua liberação. Reduzir as emissões de metano pode, portanto, desacelerar o aquecimento a curto prazo, mas isso continua sendo politicamente desafiador, pois o gado é central para uma das indústrias exportadoras mais importantes do Brasil.

O debate sobre a contabilidade do metano ilustra o quão controversas essas questões se tornaram. Alguns pesquisadores e grupos industriais apoiam métricas alternativas, incluindo a Global Warming Potential Star (GWP*), argumentando que a contabilidade convencional superestima o efeito de aquecimento a longo prazo de rebanhos estáveis ao tratar o metano como gases de efeito estufa de longa duração. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), no entanto, continua a aconselhar contra o uso do GWP* para a contabilidade nacional de emissões, pois ele não captura totalmente a contribuição para o aquecimento de cada emissão de metano. O debate é técnico, mas suas implicações são políticas porque influenciam como as emissões do gado são interpretadas e, em última análise, como a própria sustentabilidade é medida.

A tecnologia ocupa um lugar igualmente proeminente na reinvenção do gado. Sistemas de satélite detectam desmatamento, etiquetas eletrônicas acompanham os movimentos dos animais, inteligência artificial analisa riscos da cadeia de suprimentos e plataformas digitais integram dados ambientais, financeiros e de produção. Juntas, essas ferramentas transformaram a capacidade de monitorar a produção pecuária em um país do tamanho do Brasil, fornecendo informações que seriam inimagináveis há apenas uma geração.

A tecnologia, no entanto, não pode resolver as questões políticas no cerne do debate. Imagens de satélite podem revelar onde as florestas foram desmatadas, mas não podem processar os responsáveis. Registros digitais podem identificar sobreposições com territórios indígenas, mas não podem garantir que as autoridades irão intervir. As plataformas financeiras podem medir a conformidade com indicadores selecionados, mas não podem determinar se a expansão contínua da produção bovina é compatível com os limites ecológicos.

Um padrão mais amplo emerge. Desafios políticos e sociais são repetidamente reformulados como técnicos, a ocupação ilegal se torna um problema de qualidade dos dados, a fraca aplicação da lei passa a ser uma questão de monitoramento, e os limites ecológicos se tornam questões de eficiência e otimização. Uma tecnologia melhor, sem dúvida, melhora a supervisão, mas não pode substituir uma governança eficaz.

O mesmo padrão ajuda a explicar por que as finanças se tornaram tão entrelaçadas com a política ambiental. Antes que a sustentabilidade possa ser recompensada pelos investidores, ela deve primeiro ser traduzida em dados mensuráveis. Uma vez quantificado, o desempenho ambiental pode ser verificado, precificado e incorporado às decisões financeiras. Nesse processo, a sustentabilidade torna-se não apenas um objetivo ecológico, mas também uma categoria financeira.

Nada disso diminui o valor de restaurar pastagens degradadas, melhorar a rastreabilidade ou apoiar produtores que desejam adotar melhores práticas. Também não sugere que as organizações aqui discutidas compartilhem motivações idênticas. Bancos públicos de desenvolvimento, organizações ambientais, produtores e fundos de investimento frequentemente participam das mesmas iniciativas por razões muito diferentes.

As evidências sugerem, no entanto, que a autoridade para definir sustentabilidade está mudando gradualmente. Ecologistas podem julgar a produção bovina pelo impacto que tem nas florestas, biodiversidade e clima. Os povos indígenas podem julgá-la pela permanência de seus territórios, culturas e direitos intactos. Os agricultores podem julgá-la pela capacidade de manter meios de subsistência viáveis sem perder o controle de suas terras ou se tornar dependentes de novos sistemas financeiros e tecnológicos. Os investidores, por outro lado, tendem a priorizar indicadores mensuráveis, relatórios padronizados e riscos quantificáveis.

A questão não é se uma perspectiva é inerentemente mais legítima que outra. É quem, em última instância, tem autoridade para decidir qual definição molda a política.

Isso importa porque a linguagem orienta a regulação, a regulação direciona investimentos e o investimento remodela o cenário. O sucesso não pode ser medido apenas pelo número de gado equipado com etiquetas eletrônicas, hectares restaurados ou bilhões de dólares comprometidos com financiamento verde.

O teste mais significativo é se as florestas permanecem de pé, as emissões de metano caem em termos absolutos, os povos indígenas mantêm o controle de seus territórios e a prosperidade rural não depende mais de empurrar a fronteira agrícola para ecossistemas naturais.

Se a reinvenção do gado se mostrará uma transição ambiental genuína ou uma justificativa mais sofisticada para o funcionamento do negócio como de costume, não será julgado pela linguagem da sustentabilidade, mas por esses resultados.


Fonte: YourVoiz

Greenwashing no prato: como a indústria global da carne e do leite usa promessas climáticas para maquiar sua pegada ambiental

Estudo internacional revela que gigantes globais da carne e dos laticínios multiplicam promessas climáticas vagas, metas sem comprovação científica e estratégias de marketing ambiental enquanto seguem ampliando suas emissões e operações

Um novo estudo publicado na revista científica PLOS Climate lança luz sobre uma prática cada vez mais sofisticada da indústria global da carne e dos laticínios: o uso massivo de discursos “verdes” para suavizar sua responsabilidade pela crise climática. A pesquisa assinada por Maya Bach e colaboradores analisou relatórios de sustentabilidade e sites das 33 maiores empresas do setor entre 2021 e 2024 e concluiu que a esmagadora maioria das alegações ambientais feitas por essas corporações pode ser classificada como greenwashing, ou seja, propaganda ambiental enganosa.

O estudo parte de um dado alarmante: a agropecuária animal responde por pelo menos 16,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, sendo uma das atividades humanas mais intensivas em carbono e metano. Ainda assim, as gigantes da carne e do leite vêm se apresentando como protagonistas da “transição sustentável”, apostando em metas climáticas ambiciosas, linguagem ecológica e compromissos de neutralidade de carbono.

Os pesquisadores identificaram 1.233 alegações ambientais feitas pelas empresas analisadas. Destas, 68% estavam relacionadas ao clima. Porém, o aspecto mais impressionante da pesquisa é outro: 98% dessas alegações continham indicadores de greenwashing.

Entre os exemplos encontrados estão promessas como “atingir neutralidade de carbono até 2030”, “restaurar bilhões de litros de água” ou “produzir leite climaticamente neutro até 2050”. O problema, segundo os autores, é que essas metas geralmente não vêm acompanhadas de planos concretos, cronogramas verificáveis ou evidências científicas robustas que comprovem sua viabilidade.

Das 1.233 alegações ambientais catalogadas, apenas 29% apresentavam algum tipo de evidência de suporte. E somente três alegações em todo o universo analisado estavam respaldadas por literatura científica revisada por pares. Isso significa que grande parte da narrativa ambiental do setor repousa sobre promessas vagas, estudos internos, projetos-piloto de pequena escala ou simples declarações institucionais.

O estudo mostra ainda que as empresas vêm adotando uma estratégia semelhante à utilizada historicamente pela indústria dos combustíveis fósseis: prometer metas futuras grandiosas enquanto continuam expandindo suas operações no presente.

Um dos casos mais emblemáticos é o da empresa brasileira JBS, maior empresa de carnes do mundo. A companhia anunciou que alcançaria “net zero” até 2040, mas foi alvo de um processo movido pela procuradora-geral de Nova York, que acusou a empresa de enganar consumidores ao divulgar uma meta sem apresentar um plano realista para cumpri-la.

Segundo os pesquisadores, muitas dessas metas dependem fortemente de compensações de carbono  (os chamados offsets) em vez de redução efetiva das emissões. Na prática, as empresas continuam operando modelos produtivos altamente poluentes enquanto apostam em mecanismos externos de compensação para justificar seus compromissos climáticos.

Outro ponto destacado pela pesquisa é o uso recorrente de iniciativas pontuais para construir uma imagem sustentável. Empresas divulgam instalação de painéis solares em uma única unidade, substituição de equipamentos mais eficientes ou pequenos projetos de agricultura regenerativa como se essas ações fossem capazes de transformar estruturalmente a cadeia produtiva.

O estudo cita, por exemplo, a Arla Foods, que promoveu um projeto-piloto de agricultura regenerativa em apenas 24 fazendas — uma fração ínfima de suas operações globais. Também são mencionadas iniciativas experimentais envolvendo vacas de “baixo metano” e aditivos alimentares para reduzir emissões, tecnologias ainda longe de aplicação em larga escala.

Na avaliação dos autores, esse tipo de comunicação cria a ilusão de progresso climático sem alterar o núcleo do problema: a própria expansão da produção industrial de carne e leite. Enquanto anunciam compromissos ambientais, empresas seguem ampliando frigoríficos, plantas industriais e mercados consumidores.

O artigo também chama atenção para o papel estratégico dos relatórios de sustentabilidade na manutenção da legitimidade social e financeira dessas corporações. Ao se apresentarem como agentes responsáveis e comprometidos com o clima, as empresas preservam apoio de investidores, consumidores e governos. Em alguns casos, essas promessas verdes ajudam inclusive na captação de recursos financeiros vinculados a metas ESG.

Para os pesquisadores, o greenwashing da indústria da carne representa um risco particularmente grave porque se trata de um dos setores mais poluentes do sistema alimentar global. Ao transmitir a ideia de que mudanças significativas já estão em curso, essas empresas podem atrasar políticas públicas mais rigorosas, desmobilizar pressão social e dificultar transformações profundas no sistema alimentar.

A principal conclusão do estudo é direta: a mudança climática tornou-se o principal eixo narrativo das estratégias de sustentabilidade da indústria da carne e dos laticínios, mas grande parte dessas promessas carece de transparência, comprovação científica e capacidade real de implementação. Em vez de enfrentar estruturalmente suas emissões, muitas corporações parecem investir prioritariamente em gestão de imagem ambiental.

Dietas ultraprocessadas impulsionam a obesidade e as mudanças climáticas — mas as soluções estão ao nosso alcance

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Por Brian Bienkowski para “The New Lede” 

Dietas em todo o mundo, dependentes de alimentos ultraprocessados ​​e da pecuária de base animal, estão impulsionando as taxas de obesidade e as mudanças climáticas, mas, de acordo com uma nova análise, existem soluções que podem fortalecer a saúde, economizar dinheiro e preservar o planeta. 

Os autores do novo artigo, publicado na revista Frontiers in Science , apontam que as taxas de obesidade quase triplicaram em todo o mundo nos últimos 50 anos e que aproximadamente metade da população mundial deverá estar com sobrepeso ou obesa na próxima década. Eles argumentam que o aumento no uso de medicamentos e cirurgias para perda de peso não aborda as causas principais do ganho de peso global. 

No entanto, os países podem enfrentar as “crises gêmeas” da obesidade e das mudanças climáticas concentrando-se no sistema alimentar como um todo, incentivando uma alimentação mais saudável e desencorajando o consumo de alimentos altamente processados, como bebidas açucaradas, bacon, salsichas, frios, muitos alimentos congelados, batatas fritas, doces e outros salgadinhos. 

“Tanto as mudanças climáticas quanto a obesidade são impulsionadas por um consumo insustentável, porém lucrativo”, escrevem os autores. “Existem soluções, mas elas não foram implementadas adequadamente devido à falta de vontade política.” 

Pesquisadores examinaram as evidências disponíveis que relacionam tanto a obesidade quanto as mudanças climáticas a um sistema alimentar que depende fortemente da pecuária e do processamento de animais, o que incentiva o consumo excessivo e a má saúde. Atualmente, cerca de 38% da população mundial sofre de excesso de peso ou obesidade. 

“O aumento global da obesidade desde a década de 1980 tem sido a mudança mais rápida e drástica no fenótipo humano em toda a nossa evolução”, escrevem os autores.

“O aumento global da obesidade desde a década de 1980 tem sido a mudança mais rápida e drástica no fenótipo humano em toda a nossa evolução.” 

Embora diversos fatores contribuam para as taxas de obesidade, incluindo a diminuição da atividade física, a revisão conclui que o excesso de calorias, frequentemente provenientes de alimentos processados, é o principal responsável pelo aumento da obesidade, especialmente nos EUA, onde as pessoas consomem, em média, mais da metade de suas calorias diárias em alimentos ultraprocessados. Esses alimentos estão associados a problemas cardíacos, diabetes e alguns tipos de câncer, além da obesidade.

O aumento no consumo de alimentos ultraprocessados ​​e na pecuária também impulsiona as mudanças climáticas, segundo o estudo. O cultivo, o processamento, o acondicionamento e o transporte de alimentos são responsáveis ​​por cerca de um terço das emissões de gases de efeito estufa do planetanualmente , sendo a pecuária o maior contribuinte. 



“A monocultura em larga escala de culturas necessárias para a produção de alimentos ultraprocessados” agrava as mudanças climáticas por meio do desmatamento, da degradação do solo e da perda de biodiversidade, escrevem os autores. (Crédito: Getty Images/Unsplash+ )

Alimentos ultraprocessados, como carnes processadas, aumentam a demanda por gado — e muitos outros alimentos processados ​​dependem de grandes quantidades de certas culturas, como milho, soja ou óleo de palma, que geralmente são cultivadas em campos uniformes com grandes quantidades de pesticidas e fertilizantes.

Essa “monocultura em larga escala de culturas necessárias para a produção de alimentos ultraprocessados” agrava as mudanças climáticas por meio do desmatamento, da degradação do solo e da perda de biodiversidade, escrevem os autores.

“A maneira mais eficiente em termos econômicos de garantir que abordemos essas questões enormes é acabar com os subsídios para carne, alimentos ultraprocessados ​​com alta densidade energética e açúcar em bebidas”, disse o autor sênior Jeff Holly, professor emérito de ciências clínicas da Universidade de Bristol, no Reino Unido. “No entanto, estamos em uma situação em que essas mudanças são politicamente muito difíceis.” 

A nova revisão surge um mês depois de uma série de artigos publicados no The Lancet, juntamente com um editorial relacionado , que apelaram a uma “resposta global bem financiada e coordenada” para “romper o domínio da indústria [de alimentos ultraprocessados] sobre os sistemas alimentares em todo o mundo”.

Combater a obesidade e as mudanças climáticas simultaneamente

Holly e seus colegas afirmam que as soluções para ambos os problemas estão interligadas e precisam se concentrar mais em todo o sistema alimentar e menos no comportamento dos indivíduos, que “não é páreo para campanhas de marketing agressivas”, disse a coautora Katherine Samaras, do Hospital St. Vincent’s de Sydney, do Instituto Garvan de Pesquisa Médica e da UNSW Sydney, em um comunicado.

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Medicamentos e cirurgias para perda de peso podem ajudar a combater a obesidade, mas não são tão eficazes em termos de custo ou eficiência quanto mudar a forma como produzimos e consumimos alimentos, de acordo com a nova revisão. (Crédito: Getty Images/Unsplash+ )

“Embora tratamentos como medicamentos e cirurgias ofereçam opções terapêuticas importantes para os indivíduos, eles não substituem a necessidade de combater nossos hábitos alimentares e ambientes de vida insalubres e insustentáveis”, acrescentou ela.

Os pesquisadores apresentaram diversas recomendações para combater a obesidade e as mudanças climáticas, incluindo a taxação de certos alimentos ultraprocessados ​​e bebidas açucaradas; o subsídio de alimentos saudáveis ​​com os impostos arrecadados sobre alimentos não saudáveis; a rotulagem e as restrições à comercialização de alimentos não saudáveis ​​para crianças; e a mudança para dietas com maior consumo de alimentos de origem vegetal e menor consumo de produtos de origem animal.

“Todos os dados que estão surgindo de países que introduziram impostos sobre bebidas açucaradas e rótulos de advertência na parte frontal dos alimentos indicam que essas políticas sistêmicas estão resultando em reduções no consumo populacional desses alimentos prejudiciais e em reduções no índice de massa corporal (IMC), particularmente entre as crianças”, disse Holly. Continuar lendo

Depois dos agrotóxicos, agora emergem os hormônios banidos na Europa e usados na pecuária brasileira

O Brasil já vem há alguns sendo pressionado por alguns dos seus principais parceiros comerciais a reduzir o uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo em função dos seus graves impactos sobre o ambiente e a saúde humana.  Pois bem, agora surge outra faceta do “jeito de produzir” do latifúndio agro-exportador brasileiro que é o uso de hormônios proibidos para acelerar o processo de crescimento e engorda de animais, aumento da produção leiteira e no controle e sincronização do processo de produção.

Em função de crescentes evidências de que os produtores brasileiros estão utilizados hormônios banidos na Europa, a Associação Irlandesa de Agricultores (IFA) está buscando que a Comissão Europeia publique os detalhes completos de uma auditoria concluída em novembro, a qual teria revelado quea importação para pela União Europeia (UE) de carne bovina brasileira produzida com hormônios proibido pelo bloco. A auditoria já teria resultado no recolhimento dos carregamentos congelados de carne bovina brasileira em 10 países europeus para os quais havia sido enviada após chegar ao porto de Rotterdam. Um fato enfatizado pela IFA é que parte da carne contendo hormônios proibidos na Europa já havia sido consumida antes da emissão do aviso de recolhimento. 

O pedido da IFA para que os detalhes da auditoria sejam tornados públicos veio acompanhado de duras críticas à posição da Comissão Eiropeia de que não imporá sanções aos exportadores brasileiros de carne bovina infratores, pois “cabe ao Brasil remediar a situação”.

Curiosamente, o relatório completo da auditoria da Comissão Europeia só deverá ser publicado em 2026, depois de os Estados-Membros da UE decidirem a sua posição sobre a proposta de acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul.

E a pergunta que me ocorra é a seguinte: quem é que está controlando o uso de hormônios e antibióticos proibidos na carne que chega para ser consumida diretamente pelos brasileiros?

Relatório põe Brasil no centro da crise climática e diz que é hora de puxar o freio de emergência nas emissões de metano

Gado no Pará

O Brasil tem mais de 70% de suas emissões de metano ligadas à agropecuária 

BORI - Soluções para um conhecimento científico acessível

Um relatório divulgado nesta terça-feira (23) pelo Climate Crisis Advisory Group, organização formada por 19 especialistas de 12 países, aponta que o corte das emissões de metano é a ação mais rápida e barata para conter o aquecimento global ainda nesta década. O grupo internacional de cientistas descreve as ações do tipo como um “freio de emergência” capaz de evitar até 0,3°C de aquecimento se as emissões forem reduzidas em 45% até 2030. 

O documento alerta que, embora as atenções globais estejam voltadas para o dióxido de carbono (CO₂), o metano é responsável por cerca de 30% do aquecimento já registrado e tem efeito mais de 80 vezes mais potente do que o CO₂. Por permanecer pouco mais de uma década na atmosfera, cada corte nas emissões gera efeito imediato de resfriamento, perceptível em poucos anos.

O Brasil ocupa posição central nesse desafio. O país concentra mais de 70% de suas emissões de metano na agropecuária, principalmente na criação de gado. Resíduos e energia completam o quadro. Para os autores, essa configuração coloca o Brasil simultaneamente como um dos maiores riscos e uma das maiores oportunidades globais de liderança. O programa federal “Zero Metano”, lançado em 2022, é citado como carente de metas claras e mecanismos robustos de monitoramento, com risco de se tornar apenas simbólico se não for integrado a políticas agrícolas e de uso da terra mais amplas.

O estudo apresenta medidas de baixo custo já disponíveis. Na energia, recomenda banir a queima e o descarte de metano em poços de petróleo e gás, adotar monitoramento rigoroso de vazamentos e garantir transparência nos relatórios de emissões. Na agricultura, propõe limites estritos para grandes propriedades de gado e laticínios, incentivo a ações que diminuam a produção de metano e sistemas de manejo de esterco que permitam gerar biogás em pequenas propriedades. No setor de resíduos, pede coleta universal, desvio de orgânicos de aterros e incentivo à compostagem e ao uso de bioenergia.

Para a ecóloga Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília e integrante do grupo, o momento é de transformar o desafio em oportunidade. “A oportunidade de combater a mudança do clima por meio da redução das emissões de metano é também uma oportunidade de reformular nossos sistemas agroalimentares. Isso significa dar mais transparência sobre os impactos da cadeia de produção de alimentos, melhorar a sustentabilidade, garantir água e segurança alimentar, proteger a saúde e promover justiça social”, afirma.

“O metano é o único freio de emergência que temos à disposição. As soluções estão prontas, são acessíveis e trazem ganhos imediatos para a saúde, a segurança alimentar e os meios de vida. Em países como o Brasil, onde a agricultura é parte central da economia, não agir equivale a investir na própria queda”, diz David King, presidente do Climate Crisis Advisory Group.

O Climate Crisis Advisory Group inclui autoridades de destaque em ciência do clima, emissões de carbono, energia, meio ambiente e recursos naturais. Alguns de seus membros também participam de conselhos consultivos governamentais. Sua função é complementar, e não substituir, esses outros papéis. A atuação envolve análises aprofundadas de questões políticas e financeiras, inclusive daquelas que ainda não estão presentes nas agendas governamentais. Todos os cientistas concordaram em dedicar seu tempo de forma voluntária, sem qualquer remuneração.

A lista completa de recomendações inclui:

Energia

  • Proibir o venting, ou seja, impedir que empresas liberem metano diretamente na atmosfera
  • Proibir o flaring rotineiro, encerrando a queima de gás nos poços, prática poluidora e desperdiçadora
  • Detectar e reparar vazamentos com monitoramento regular e reparo imediato em toda a infraestrutura de óleo e gás
  • Garantir transparência por meio de relatórios independentes e robustos sobre emissões, usando as melhores técnicas e tecnologias disponíveis

Agricultura

  • Estabelecer limites rígidos de intensidade de metano em fazendas de gado de corte e leite, com monitoramento e fiscalização
  • Exigir manejo responsável do esterco, com tratamento e armazenamento adequados para evitar liberação de metano, conforme o porte da fazenda
  • Reduzir emissões de ruminantes por meio de práticas alimentares que diminuam significativamente o metano
  • Apoiar pequenos produtores com recursos, capacitação e infraestrutura para cortar emissões e acessar energia limpa
    Reduzir emissões da produção de arroz e da aquicultura com práticas de manejo comprovadas

Resíduos

  • Fortalecer regras de gestão de resíduos, com coleta universal, separação, reciclagem e desvio de materiais do aterro
  • Impedir o envio de alimentos e outros resíduos orgânicos para aterros, direcionando-os para compostagem, biogás ou biochar
  • Apoiar sistemas circulares de alimentos, reformando cadeias alimentares, educando populações para reduzir desperdício na origem, incentivando mudanças na dieta e garantindo acesso a alimentos de baixa emissão
    Trabalhar com comunidades por meio de centros locais, inclusão de trabalhadores informais e infraestrutura acessível para mudanças de baixo para cima
  • Monitorar e capturar o metano de aterros, exigindo acompanhamento rigoroso e sistemas de coleta baseados nas melhores práticas compatíveis com a capacidade local

O relatório completo pode ser acessado no link: http://www.ccag.earth/reports/methane-the-emergency-brake-for-climate-heating


Fonte: Agência Bori

Retirada de gado ilegal na Amazônia gera protestos e divide moradores na Reserva Chico Mendes

A remoção de centenas de cabeças de gado criadas ilegalmente em terras públicas destinadas ao uso sustentável da floresta na Amazônia brasileira gerou protestos e dividiu moradores, com alguns buscando preservar a extração da borracha e a colheita da castanha-do-pará e outros querendo consolidar a pecuária. (Vídeo AP: Mario Lobão, Produção: Tatiana Pollastri) 

Por Fabiano Maisonnave para a Associated Press

BRASÍLIA, Brasil (AP) — A remoção de centenas de cabeças de gado criadas ilegalmente em terras públicas destinadas ao uso florestal sustentável na Amazônia brasileira gerou protestos e dividiu moradores, com alguns buscando preservar a extração de borracha e a colheita de castanha-do-pará e outros querendo consolidar a pecuária.

A operação de remoção começou na semana passada em uma das unidades de conservação mais renomadas da Amazônia, a Reserva Extrativista Chico Mendes , nomeada em homenagem ao famoso seringueiro e ambientalista morto em 1988. Agentes federais, em colaboração com policiais e militares, apreenderam cerca de 400 cabeças de gado de dois fazendeiros que descumpriram ordens judiciais de despejo. As operações devem continuar nas próximas semanas.

Mas dezenas de moradores da reserva protestaram contra a ação, buscando criar um bloqueio na cidade de Xapuri para impedir a retirada do gado. O primeiro caminhão, com 20 cabeças de gado, teve que tomar uma rota alternativa para evitar o confronto.

O protesto, que contou com o apoio de políticos locais, teve um simbolismo poderoso, já que Xapuri é a cidade onde Mendes foi morto a tiros. Também representou um contraste com a década de 1980, quando seringueiros lutaram contra pecuaristas.

Uma seringueira é preparada para a retirada da borracha na Reserva Extrativista Chico Mendes, estado do Acre, Brasil, em 6 de dezembro de 2022. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

Uma seringueira é preparada para a retirada da borracha na Reserva Extrativista Chico Mendes, estado do Acre, Brasil, em 6 de dezembro de 2022. (Foto AP/Eraldo Peres, Arquivo)

A remoção do gado ocorreu em resposta a um aumento de 56% no desmatamento durante os primeiros cinco meses de 2025, em comparação com o mesmo período do ano passado. A área desmatada é quase cinco vezes maior que o Central Park, em Nova York. A reserva abriga cerca de 140.000 cabeças de gado.

“O monitoramento identificou que o crime ambiental decorre principalmente da pecuária de grande porte, o que é ilegal por violar as regras da unidade de conservação”, afirmou em nota o órgão federal Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio.

A Reserva Chico Mendes é uma das diversas reservas extrativistas da Amazônia onde comunidades florestais podem praticar atividades extrativas de baixo impacto, com proteção contra incorporadores. As regras limitam o desmatamento à pecuária e agricultura de pequena escala, e a venda de terras é proibida. Ainda assim, a Reserva Chico Mendes é a unidade de conservação federal mais desmatada do Brasil.

‘Trabalhando para encontrar uma solução’

Os problemas atuais se agravaram durante o mandato de quatro anos do presidente de extrema direita Jair Bolsonaro, que durou até 2022, quando o desmatamento na reserva explodiu. Bolsonaro desvalorizou a proteção ambiental e disse que a Amazônia tinha áreas protegidas demais. Alguns moradores de Chico Mendes começaram a vender suas terras ilegalmente para fazendeiros, que esperavam que elas fossem eventualmente legalizadas.

A forte reação à operação levou à criação de um grupo de WhatsApp com cerca de 1.000 membros, no qual alguns fizeram ameaças a Raimundo Mendes de Barros, primo e herdeiro político de Chico Mendes, que se opõe à expansão da pecuária. Mas organizações históricas aplaudiram as remoções de gado, incluindo o Conselho Nacional das Populações Extrativistas, que emitiu uma nota de apoio à operação.

Cleisson Monteiro, presidente da Associação de Moradores e Produtores da Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, apoiou os protestos contra a retirada do gado. Ele afirmou que, embora o desmatamento deva ser combatido, os agentes federais provocaram revolta e medo entre as famílias que não cumprem todas as normas da reserva.

A área onde as invasões começaram, conhecida como Seringal Nova Esperança, “não tem mais um perfil seringueiro”, disse Monteiro. “Os moradores têm um modo de vida diferente. São agricultores que se dedicam à agricultura familiar em pequena escala, com alguma criação de gado para corte e leite.”

Monteiro afirmou que cerca de 140 famílias vivem em Nova Esperança, incluindo a sua, todas com diferentes graus de descumprimento das regras da reserva. Ele afirmou que, embora apenas dois indivíduos tenham sido alvos, há a preocupação de que a operação possa afetar outras famílias.

“O ICMBio não deveria ter agido neste momento, porque estamos trabalhando para encontrar uma solução”, disse ele.

‘A floresta não pode competir’

A reserva abriga cerca de 4.000 famílias. Cerca de 900 produzem borracha para a Veja, empresa francesa de calçados. O projeto tem se mostrado bem-sucedido, mas a demanda não é alta o suficiente para absorver todo o potencial de produção da reserva.

Jeffrey Hoelle, professor de antropologia na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, que estuda a área há duas décadas, disse que a criação de gado tem sido mais lucrativa para os moradores do que os meios tradicionais de extração de borracha e nozes da floresta.

“Vinte anos atrás, os seringueiros estavam apenas começando a adotar o gado. E, nas últimas duas décadas, ele se tornou cada vez mais popular”, disse Hoelle. “Com o tempo, tornou-se mais aceitável. Mas, essencialmente, a floresta não consegue competir em termos de valor econômico com o gado. O alcance que a borracha e a castanha-do-pará podem prover para as pessoas é realmente limitado em comparação com o gado, para o qual, infelizmente, é preciso derrubar a floresta e plantar pasto.”


Fonte: Associated Press

JBS, maior empresa de carnes do mundo, não irá cumprir promessa de conter o desmatamento

A pecuária é a principal causa do desmatamento. Múltiplos problemas para atingir as metas de desmatamento zero

“Enquanto a JBS lucra, as florestas queimam”, protesto do Greenpeace contra a empresa de carnes JBS
Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Brasília.A empresa de carnes JBS S.A. provavelmente não conseguirá cumprir sua meta de adquirir carne bovina na Amazônia apenas de origem livre de desmatamento até o final de 2025.

Isso é de acordo com um novo estudo do The Guardian, Unearthed e Repórter Brasil. Aqui, mais de 35 insiders revelam dúvidas de que a JBS seja capaz de atingir suas metas de desmatamento zero. Os fazendeiros e líderes sindicais entrevistados representam milhares de fazendas nos estados do Pará e Rondônia, que foram responsáveis por 66% do desmatamento na Amazônia desde 1988.

O desmatamento para a pecuária para produção de carne bovina é a principal causa do desmatamento na Amazônia. Os cientistas há muito alertam que a destruição da floresta está levando a região a um ponto de inflexão, transformando o pulmão verde da Terra de um sumidouro de carbono em um emissor de CO2.

A corporação global JBS tem capacidade para abater 76.000 bovinos, 14 milhões de frangos e 142.000 suínos todos os dias. O grupo fornece empresas como McDonald’s, Tesco e Walmart, alcançou vendas anuais de 77 bilhões de dólares em 2024 e atualmente planeja estar na lista de ações na Bolsa de Valores de Nova York.

De acordo com os sindicatos de agricultores entrevistados, agricultores e seus clientes, a JBS, assim como os pecuaristas, tem a vontade de que o gado seja proveniente apenas de uma produção livre de desmatamento. Mas a meta é inatingível devido a inúmeros conflitos de terra não resolvidos.

O problema da “lavagem ilegal de gado” (ou seja, rotulagem fraudulenta de gado de neuroesterco como “livre de desmatamento”) também não pôde ser resolvido a tempo. Os fornecedores indiretos, por exemplo, admitiram “limpar” a origem ecológica problemática de seus rebanhos por meio de intermediários. Vários produtores previram que um novo sistema de rastreabilidade também abriria brechas, como o abate em outros locais e a venda da carne – em vez de gado vivo – para a JBS a preços mais baixos.

A JBS negou os resultados da pesquisa ao The Guardian. Nenhuma conclusão pode ser tirada de uma amostra limitada, pois a JBS possui mais de 40.000 fornecedores registrados. Embora os desafios sejam imensos e não possam ser resolvidos apenas por empresas individuais, a JBS possui um sólido pacote de políticas integradas que podem reduzir de forma significativa e positiva os riscos de desmatamento. A JBS ainda não finalizou sua cadeia de suprimentos, mas já registrou mais de 80% de suas compras anuais de gado em uma plataforma web de pecuária transparente e habilitada para blockchain.

De acordo com Adelosmar “Ticão” Orio, do Sindicato dos Produtores Rurais de Tucumã-Ourilãndia, desafios logísticos, como a necessidade de equipamentos especiais, como rastreadores auriculares e sistemas via satélite, impossibilitaram o cumprimento da promessa da JBS até o final do ano. Nem mesmo a JBS sabe como a rastreabilidade deve ser implementada.

Os pequenos e médios criadores de gado estão arcando com a maior parte do fardo, enquanto a JBS e o governo não estão fazendo o suficiente para explicar o novo sistema de rastreamento e fornecer suporte tecnológico. O governador do Pará, Helder Barbalho, admitiu que houve resistência e que os pequenos produtores em particular precisavam de mais apoio.

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, entrou com uma ação em 2024 acusando a JBS de enganar os consumidores com “metas climáticas” para aumentar as vendas.

Em 2022, a organização indígena Apib processou uma rede de supermercados francesa que vendia carne da JBS.

Um grupo bipartidário de 15 senadores dos EUA pediu à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) que rejeite o pedido de listagem da JBS. De acordo com uma carta aberta de 2024, dezenas de reportagens jornalísticas e de ONGs mostraram que a JBS está associada a mais destruição de florestas e outros ecossistemas do que qualquer outra empresa no Brasil.


Fonte: Amerika21

Cientistas dizem que relatório da FAO sobre emissões da pecuária distorceu e minimizou emissões de gases estufa

Estudo divulgado na Cop28 fez uso indevido de pesquisas para subestimar o impacto do corte do consumo de carne, dizem acadêmicos

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A agricultura é responsável por 23% das emissões globais de gases com efeito de estufa, a maioria das quais atribuíveis à pecuária. Fotografia: ClarkandCompany/Getty Images

Por Arthur Neslen para o “The Guardian” 

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) utilizou indevidamente a sua investigação para subestimar o potencial da redução do consumo de carne para reduzir as emissões agrícolas, de acordo com uma carta enviada à FAO pelos dois académicos , que o The Guardian teve acesso.

Paul Behrens, professor associado da Universidade de Leiden e Matthew Hayek, professor assistente da Universidade de Nova Iorque, acusam o estudo da FAO de erros sistemáticos, enquadramento deficiente e utilização altamente inadequada dos dados de origem.

Hayek disse ao Guardian: “Os erros da FAO foram múltiplos, flagrantes, conceptuais e todos tiveram como consequência a redução das possibilidades de mitigação de emissões resultantes de mudanças na dieta, muito abaixo do que deveriam ser. Nenhum dos erros teve o efeito oposto.”

A agricultura é responsável por 23% das emissões globais de gases com efeito de estufa, a maioria das quais atribuíveis à pecuária sob a forma de metano proveniente de arrotos e estrume, e à desflorestação para pastagens e culturas forrageiras. À medida que a produção mundial de carne aumentou 39% nas primeiras duas décadas deste século, as emissões agrícolas também aumentaram 14% .

Na cimeira climática Cop28, em Dezembro, a FAO publicou o terceiro de uma série de estudos sobre o problema das emissões do gado. Além de reduzir a estimativa da FAO sobre a contribuição da pecuária para o aquecimento global global pela terceira vez consecutiva , utilizou um artigo escrito por Behrens e outros em 2017 para argumentar que o abandono do consumo de carne só poderia reduzir as emissões agroalimentares globais em entre 2 e 5%.

O artigo de Behrens de 2017 avaliou os impactos ambientais das dietas nacionalmente recomendadas (NRDs) apoiadas pelo governo da época, que desde então se tornaram desatualizadas. Muitos países, como a China e a Dinamarca, reduziram drasticamente a ingestão recomendada de carne desde então, enquanto a Alemanha propõe agora uma dieta 75% baseada em vegetais na sua DNR.

“O consenso científico neste momento é que as mudanças na dieta são a maior alavanca que temos para reduzir as emissões e outros danos causados ​​pelo nosso sistema alimentar”, disse Behrens ao Guardian. “Mas a FAO escolheu a abordagem mais grosseira e inadequada para as suas estimativas e estruturou-as de uma forma que foi muito útil para grupos de interesse que procuravam mostrar que as dietas à base de plantas têm um pequeno potencial de mitigação em comparação com alternativas”.

Dos mais de 200 climatologistas entrevistados por Behrens e Hayek para um artigo recente , 78% disseram que era importante que o tamanho dos rebanhos pecuários atingisse o pico até 2025, se o mundo quisesse ter uma chance de evitar o perigoso aquecimento global.

Além de utilizarem NRD obsoletas, os cientistas dizem que o relatório da FAO “subestima sistematicamente” o potencial de redução de emissões das mudanças alimentares através do que a carta chama de “série de erros metodológicos”.

Os autores dizem que estas incluem: contabilizar duas vezes as emissões de carne até 2050, misturar diferentes anos de base nas análises e canalizar dados que favorecem inadequadamente dietas que permitem um aumento do consumo global de carne. O documento da FAO também ignora o custo de oportunidade do sequestro de carbono em terras não agrícolas.

Hayek disse que a FAO citou indevidamente um relatório de sua autoria que mediu todas as emissões agroalimentares e aplicou-o apenas às emissões da pecuária. “Não foi apenas como comparar maçãs com laranjas”, disse ele. “Foi como comparar maçãs muito pequenas com laranjas muito grandes.”

Da mesma forma, o potencial de mitigação da criação de menos gado foi subestimado por um factor entre 6 e 40, disse ele.

A FAO é a principal fonte mundial de dados agrícolas e os seus relatórios são regularmente utilizados por organismos competentes, como o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) da ONU. Mas a FAO também está mandatada para aumentar a produtividade pecuária , de modo a reforçar a nutrição e a segurança alimentar , criando possivelmente um conflito de interesses.

Antigos funcionários acusaram a FAO de censurar e sabotar o seu trabalho quando desafiou as posições da indústria pecuária. Um recente roteiro da FAO para tornar o sector sustentável também omitiu a opção de reduzir o consumo de carne de uma lista de 120 intervenções políticas.

Esse artigo recebeu elogios de lobistas da indústria da carne, um dos quais o chamou de “música para os nossos ouvidos” quando foi lançado na Cop28.

Um porta-voz da FAO afirmou: “Como organização baseada no conhecimento, a FAO está totalmente empenhada em garantir a precisão e a integridade nas publicações científicas, especialmente dadas as implicações significativas para a formulação de políticas e a compreensão pública.

“Gostaríamos de assegurar que o relatório em questão passou por um rigoroso processo de revisão com uma revisão dupla-cega interna e externa para garantir que a pesquisa atenda aos mais altos padrões de qualidade e precisão, e que possíveis preconceitos sejam minimizados. A FAO analisará as questões levantadas pelos cientistas e realizará uma troca técnica de pontos de vista com eles.”


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Fonte: The Guardian

Incêndios florestais no Brasil e na Bolívia: desmatamento ilegal para a instalação de pastagens e cultivo de soja agravam crise climática

pantanal em chamas

Extensão devastadora: mais de 5 mil focos de incêndio já foram contabilizados no Pantanal matogrossense em 2023. Joédson Alves/Agência Brasil/dpa

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Não é apenas o Pantanal brasileiro que voltou a arder nas últimas semanas. Na vizinha Bolívia, os incêndios florestais também se espalharam de forma tão catastrófica nos últimos dias que o governo boliviano pediu ajuda de todo o mundo para combatê-los.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal por satélite dos biomas florestais brasileiros, já foram contabilizados 5.019 incêndios no Pantanal de janeiro a 21 de novembro deste ano, 355% a mais que no mesmo período do ano passado. Cerca de um milhão de hectares desta zona húmida única do mundo já estavam em chamas.

Já na Bolívia, o INPE contabilizou 40.442 incêndios florestais este ano,  6% a mais que em 2022. Segundo o último relatório do Ministério do Meio Ambiente boliviano, as chamas já destruíram mais de 900 mil hectares de floresta e cerca de dois milhões de hectares de outras áreas. Os departamentos de Santa Cruz, La Paz, Cochabamba e a região amazônica de Beni foram particularmente afetados.

Os incêndios também estão se espalhando inexoravelmente em diversas comunidades indígenas e reservas naturais entre os quais se destacam: o Parque Nacional “Noel Kempff Mercado” de 1,5 milhão de hectares, nas planícies orientais da Bolívia, e o Parque Nacional “Otuquis”, de aproximadamente um milhão de hectares, no Pantanal boliviano, no sudeste do Departamento Santa Cruz; o Parque Nacional “Madidi” com cerca de 1,9 milhão de hectares no noroeste da Bolívia; o Parque Nacional e área indígena protegida “Isiboro Sécure” com 1,2 milhão de hectares entre os departamentos de Beni e Cochabamba; a reserva da biosfera “Pilón Laja” com cerca de 400.000 hectares no sudoeste do país e a reserva natural “San Matías” de 2,9 milhões de hectares a leste de Santa Cruz.

Uma das causas é considerada a agricultura praticada em áreas que foram objeto  de desmatamento ilegal seguido de queimadas, processo esse que  foi realizado aproveitando a seca excepcional deste ano para obter terras para criação de gado ou para o cultivo de soja. O Departamento de Santa Cruz, mais afetado pelos incêndios, é também a principal área produtora de soja na Bolívia.

A Venezuela foi um dos primeiros países a responder ao pedido de ajuda do governo boliviano e enviou 30 bombeiros à reserva natural de Madidi para ajudar a combater um incêndio que ali coorria. Segundo relatos da imprensa, o presidente francês, Emmanuel Macron, também quer enviar um contingente de 100 bombeiros à Bolívia para acabar com os incêndios florestais, especialmente no leste e norte de La Paz e na região de Beni.

No entanto, as comunidades indígenas afetadas, em particular, sentem-se abandonadas pelo governo boliviano  devido às semanas de incêndios. Em nota pública, a Coordenação Nacional de Defesa dos Territórios Indígenas e Áreas Protegidas escreve: “O que nós, o povo do norte de La Paz e da Amazônia, fizemos para que o governo departamental e o governo central da Bolívia nos jogassem no meio deste fogo infernal?

O relator especial das Nações Unidas (ONU) para os direitos humanos e o ambiente, David Boyd, também expressou “profunda preocupação com a situação na Bolívia”  em um comunicado. Os incêndios destruíram florestas e territórios tradicionais dos povos indígenas bolivianos. O governo boliviano deve tomar medidas para apagar os incêndios, prevenir novos incêndios no futuro e respeitar os direitos humanos.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

Pecuária na Amazônia pode ser responsável por 3 milhões de hectares de desmatamento até 2025

Estudo publicado nesta quarta calculou risco de destruição da floresta em áreas de compra de frigoríficos instalados no bioma. JBS é a empresa com maior risco

Gado na região de Marapá, sudeste da Amazônia paraense 

Se não adotar práticas mais eficientes de controle da cadeia, como a rastreabilidade individual, a pecuária na Amazônia pode ser responsável pela destruição de 3 milhões de hectares de floresta nos próximos dois anos, uma área equivalente ao território da Bélgica. Os dados são de um estudo realizado pelo Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), publicado nesta quarta-feira (22).

Para chegar a esse número, o Imazon calculou o grau de exposição ao desmatamento dentro das áreas de compra dos frigoríficos, considerando diferentes critérios.

O que encontraram foi que a exposição dos frigoríficos à destruição da floresta passou de 6,8 milhões de hectares em 2016, para 14,2 milhões de hectares em 2022. Isto é, a quantidade de áreas expostas ao desmatamento cresceu 108% em seis anos, mesmo sob forte pressão para o setor desvincular-se do problema.

Destes 14,2 milhões de hectares, 8,7 milhões de hectares já foram de fato desmatados em alguma medida, de forma legal ou ilegalmente. Outros 2,3 milhões são áreas embargadas pelo Ibama. 

Os 3,2 milhões de hectares restantes são justamente as porções de floresta em pé existentes nas áreas de compra dos frigoríficos que correm o risco de virem ao chão.

Segundo a pesquisa, a ameaça de destruição futura foi estimada levando em conta variáveis importantes para o desmatamento, como a inclinação do terreno, distância para rios, estradas e frigoríficos, classe territorial (terras indígenas, unidades de conservação, etc) e proximidade de derrubadas recentes e antigas.

“Já temos literatura científica e projetos de campo suficientes para mostrar que não precisamos mais desmatar nenhum hectare na Amazônia para aumentar a produção de carne. O que precisamos é melhorar a produtividade, que pode passar de um a pelo menos três bois por hectare com as tecnologias e as ofertas de crédito existentes”, defende a pesquisadora do Imazon Ritaumaria Pereira, uma das responsáveis pelo relatório.

Gigantes expostasO estudo também ranqueou os frigoríficos em relação à exposição deles às ameaças de destruição da floresta. A empresa mais crítica é a JBS, com quase 10 milhões de hectares desmatados, embargados ou sob risco de derrubada em suas zonas de compras. Em seguida está a Vale Grande, com pouco mais de 4 milhões de hectares. Masterboi, Minerva e Mercúrio completam o top 5, todas com mais de 2 milhões de hectares. 

O trabalho chama atenção para o fato de que nem as empresas que firmaram compromissos com Ministério Público Federal para controle da cadeia conseguem garantir que seus produtos estejam isentos da devastação ilegal.

Isso acontece porque os fornecedores indiretos ainda estão fora da equação. Ou seja: os frigoríficos prestam contas ao MPF apenas dos fornecedores diretos, que, apesar de estarem legalizados, podem ter adquirido animais de fazendas irregulares. 

A prática, conhecida como “lavagem de gado”, poderia ser resolvida com a exigência da rastreabilidade de todos os bovinos desde o nascimento, defende o Imazon. Algumas empresas têm anunciado medidas nesse sentido, mas apenas para depois de 2025.

“É inviável aceitar esse prazo para um problema que se arrasta há décadas, ainda mais quando ele pode representar o desmatamento de uma área do tamanho de Alagoas. Isso aumentará significativamente as emissões brasileiras de gases de efeito estufa em um momento de emergência climática que traz consequências como as secas no Norte e as chuvaradas no Sul. Se forem tomadas medidas urgentes focadas nas principais zonas de compra, já será possível evitar grande parte da derrubada prevista”, explica o pesquisador do Imazon Paulo Barreto, que também assina o trabalho.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo OECO [Aqui!].