Relatório da ‘Repórter Brasil’ sobre trabalho escravo na pecuária tem repercussão internacional

Investigações que mapearam os casos de trabalho análogo ao de escravos ligam fazendas flagradas aos maiores frigoríficos do Brasil

Reportagens de veículos estrangeiros destacaram o abismo entre o lucro bilionário dos frigoríficos brasileiros e as recorrentes condições de trabalho degradantes em fazendas fornecedoras (Foto: Marcio Isensee e Sá/Repórter Brasil)

Por João Cesar Diaz para a Repórter Brasil

A oitava edição do relatório o “Monitor”, da Repórter Brasil, traz uma análise aprofundada da relação entre o trabalho escravo contemporâneo e a pecuária no Brasil – com casos de fazendeiros que usaram escravidão contemporânea e forneciam inclusive para gigantes do setor, como a JBS. O relatório teve repercussão internacional, com matérias publicadas no jornal britânico The Guardian, na agência de notícias estadunidense Bloomberg e na Reuters Foundation.

As histórias levantadas no relatório destacam como, após mais de 10 anos de políticas corporativas sendo anunciadas para enfrentar o trabalho escravo em fazendas de gado, a situação de muitos trabalhadores não mudou.

Historicamente, a maior parte dos casos de trabalho escravo acontece na região rural, e a pecuária é o setor onde o problema é bem evidente e documentado. De acordo com dados do Governo Federal sistematizados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), mais da metade dos casos de trabalho escravo flagrados no Brasil entre 1995 e 2020 aconteceu nas atividades relacionadas à pecuária.

Dez anos de escravidão

O relatório se aprofunda em diversos estudos de caso, incluindo um envolvendo seis trabalhadores – quatro deles migrantes paraguaios, resgatados de condições análogas às de escravo em 2019 da Fazenda Rodoserv IV, no município de Caracol, no Mato Grosso do Sul.

Carne para alimentação dos trabalhadores na fazenda Rodoserv IV era armazenada em baldes (Foto: Equipe de fiscalização/Divulgação)

Na propriedade de Amarildo Martini, sócio do grupo “Rodoserv” – rede de postos de combustíveis e restaurantes de estrada –, os trabalhadores tinham de se abrigar em barracas improvisadas com retalhos de lona e galhos reunidos por eles mesmos. Sem acesso à água potável ou a banheiros, quatro dos funcionários da fazenda passaram dez anos submetidos a essas condições degradantes.

Segundo dados revelados pela apuração da Repórter Brasil, a fazenda forneceu gado diretamente ao frigorífico da JBS na região durante os meses de janeiro e outubro de 2019 (ano do resgate dos trabalhadores) e em fevereiro e abril do ano seguinte. 

Repercussão internacional

Com essa base, a Bloomberg, publicou a reportagem Slave Labor at Brazilian Cattle Farms Focus of New Report (“Trabalho escravo em fazendas de gado no Brasil é o foco de novo relatório”, em tradução livre), destacando as dezenas de violações trabalhistas graves encontradas. A matéria ressalta a ligação entre fazendas flagradas utilizando trabalho escravo e as grandes companhias de frigoríficos brasileiras – especialmente a JBS, a maior do mundo. A agência também levantou o paralelo entre a taxa crescente de desmatamento na região amazônica e a expansão das áreas de pastagem (legais e ilegais). 

“Fazendas de gado brasileiras ‘usaram trabalhadores em condições análogas à escravidão’” ou, no original em inglês, Brazilian beef farms ‘used workers kept in conditions similar to slavery, foi o título da matéria do The Guardian – veículo parceiro da Repórter Brasil em matérias investigativas no campo. 

A reportagem questiona a falta de rastreabilidade da carne processada nos frigoríficos da JBS e Minerva, citando casos de trabalho escravo em fazendas que forneceram carne para as companhias, e cobra respostas sobre a responsabilidade e a transparência das empresas na escolha de seus fornecedores.

Já a reportagem da Reuters, “JBS entre frigoríficos vinculados a fazendas contaminadas pela escravidão no Brasil” (JBS among meat firms linked to slavery-tainted ranches in Brazil, no original em inglês) enfatizou o abismo entre os bilhões de dólares de lucro dos frigoríficos brasileiros e as recorrentes condições degradantes que trabalhadores das fazendas que alimentam essa cadeia produtiva são submetidos.

fecho

Este artigo foi publicado inicialmente pela Repórter Brasil [Aqui!].

Investigação da Global Witness revela ligação da JBS, Marfrig e Minerva com o desmatamento ilegal na Amazônia

Novo relatório da Global Witness mostra como as três maiores empresas de carne do Brasil não conseguem evitar o envolvimento de suas cadeias produtivas com grandes áreas desmatadas na Amazônia, e como isso não foi identificado nas auditorias feitas por DNV-GL e Grant Thornton, conhecidas empresas internacionais de auditoria. Ao mesmo tempo, grandes bancos como Santander, Barclays e Morgan Stanley continuam a apoiar as gigantes da carne, apesar dos muitos avisos sobre suas práticas destrutivas

BOI GREENWASHING

A organização internacional Global Witness revelou a extensão do desmatamento ligado às cadeias produtivas de algumas das maiores empresas de carne bovina do mundo: JBS, Marfrig e Minerva. A investigação constatou que entre 2017 e 2019, apenas no estado do Pará, essas empresas compraram gado de 379 fazendas com mais de campos de futebol de desmatamento ilegal, infringindo os termos de ajuste de conduta firmados com o Ministério Público Federal e as suas obrigações legais. Avaliações erradas feitas pelos auditores internacionais DNV-GL e Grant Thornton para monitorar o cumprimento dessas obrigações não foram capazes de identificar esses casos, mas foram usadas pelas empresas para dar um “greenwash” (verniz ecológico) em suas credenciais ambientais.

A pesquisa também mostra como essas gigantes da carne bovina falharam em monitorar mais de 4.000 fazendas no Pará inseridas em suas cadeias produtivas, e com um total estimado de 140.000 campos de futebol de desmatamento, para evitar que gado dessas fazendas chegasse a seus frigoríficos. Ademais, JBS e Marfrig compraram gado de pecuaristas acusados pelo Ministério Público Federal de grilagem de terras, abusos de direitos humanos de povos indígenas e ativistas dos direitos à terra, além do assassinato de representantes de movimentos de trabalhadores sem terra.

Essas falhas foram recompensadas por grandes bancos da UE e dos EUA, que financiaram as empresas de carne bovina em quase R$ 14 bilhões no período analisado. Nomes tradicionais como Santander, Deutsche Bank, Barclays, Morgan Stanley, BNP Paribas, ING e HSBC aparentemente falharam em fazer a due diligence de seu envolvimento com essa destruição e continuam a apoiar as empresas de carne bovina, apesar de muitos avisos sobre seus problemas. Grandes bancos brasileiros também estão envolvidos, com Bradesco e Banco do Brasil, que facilitaram mais de R$ 6 bilhões para as empresas no período.

A nova investigação da Global Witness, Carne Bovina, Bancos e Amazônia Brasileira, mostra como a ausência de leis em países consumidores e centros financeiros como a Europa e os EUA significa que as empresas de carne bovina, os bancos e investidores que as apoiam e os importadores e supermercados que compram sua carne podem continuar lucrando com o desmatamento desenfreado sem arcar com as consequências.

“Nossa investigação demonstra claramente que um setor privado não regulamentado e com políticas voluntárias de não desmatamento não conseguiu lidar com a destruição da floresta e os abusos dos direitos humanos relacionados. Isso pode contribuir para a perda permanente da floresta amazônica”, diz Chris Moye, Investigador Sênior da Amazônia na Global Witness. “Todos os envolvidos – fazendas que criam gado, gigantes da indústria da carne brasileira, auditores internacionais, financiadores tradicionais, supermercados, importadores e redes de fast-food – estão destruindo florestas tropicais, ou são cúmplices, com auditorias falhas realizadas por auditores americanos e europeus”, acrescenta.

“Existe uma alternativa. Governos em todo o mundo devem tomar medidas e garantir que as empresas, incluindo bancos, sejam responsabilizadas por seu papel na destruição da Amazônia, exigindo due diligence obrigatória sobre riscos de desmatamento. Isso teria um impacto real na viabilidade do modelo de negócios destrutivo das empresas de carne bovina e as obrigaria a enfrentar o desmatamento e os abusos de direitos humanos em suas cadeias produtivas”, conclui Moye.

A equipe da Global Witness usou diversas técnicas investigativas, incluindo imagens de satélite, análise geoespacial, mineração de dados, documentos publicamente disponíveis e entrevistas com fontes. A investigação fornece provas detalhadas de todas as alegações, com imagens de satélite para cada uma das 379 fazendas incluídas no relatório. Seis estudos de caso originais também ilustram como essas empresas de carne compraram de pecuaristas acusados de fraudes, grilagem de terras e violações de direitos humanos, ou que foram multados pelo Ibama por desmatamento ilegal.

Essas descobertas vêm à tona enquanto a Amazônia está sendo destruída a taxas alarmantes, com a revogação de proteções florestais pelo governo Bolsonaro, redução da fiscalização durante a COVID-19 e outra devastadora temporada de incêndios, criando o pior cenário possível. O desmatamento da Amazônia aumentou dramaticamente ao longo de 2019 e 2020, resultando na maior taxa de desmatamento desde 2008. No Brasil, 70% dessa destruição foi causada pelo desmatamento de terras para a pecuária. Sozinha, a produção de carne bovina no Brasil é considerada a principal causa de emissões provenientes de desmatamento na América Latina.

Preservar as florestas tropicais é fundamental para ajudar a interromper a degradação do clima e proteger as comunidades locais e os povos indígenas que dependem delas e as defendem. Além disso, a pandemia de COVID-19 destacou a importância de preservar os hotspots de biodiversidade, como a Amazônia, para prevenir a propagação de zoonoses.

A Global Witness está convocando os países que importam, financiam ou investem em commodities de risco florestal, como a carne bovina brasileira, a aprovar legislação exigindo que todas as empresas, incluindo instituições financeiras, identifiquem, previnam, mitiguem e relatem riscos de desmatamento e direitos humanos relacionados às florestas.

A Global Witness também pede que JBS, Marfrig e Minerva adotem total transparência em suas cadeias produtivas, a fim de permitir o escrutínio público das fazendas das quais essas empresas compram gado. Até que tais medidas sejam implementadas, nenhum financiador ou comprador pode confiar nas garantias das empresas de que seus compromissos relacionados à floresta estão sendo respeitados.

O Governo Federal do Brasil deve assegurar que dados independentes e publicamente disponíveis que rastreiam o ciclo de vida do gado sejam facilmente acessíveis, como as guias de trânsito animal que mostram de quais fazendas as empresas de carne compram.

Todas as empresas de carne bovina, bancos e auditores apresentados no relatório foram procurados para comentários (consulte as notas ao editor abaixo).

Leia a íntegra do relatório da Global Witness clicando aqui.

 

Dados oficiais sobre focos de incêndio e rebanho bovino desmentem a falácia do “boi bombeiro” no Pantanal

boi

Enterrando de vez a falácia do “Boi Bombeiro” reiteradamente usada pelos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente?)  Thereza Cristina (Agricultura) para se eximir da destruição em curso no bioma Pantanal, o  gráfico abaixo mostra que cada ponto azul representa um município e o número de cabeças de gado obtidos pelo IBGE e o número de focos de calor do Monitoramento de Queimadas fornecido pelo Inpe  no respectivo município).

fogo gado

A conclusão da observação deste gráfico é  que existe uma relação direta entre o aumento do número de focos de incêndio e o tamanho do rebanho bovino no Pantal, onde quanto maior o rebanho, maior será o número de focos de calor, e não o contrário.

Assim, qualquer tentativa do governo Bolsonaro de se eximir das responsabilidades da pecuária extensiva em relação à destruição do bioma Pantanal deve ser ignorado, pois não passa de mais uma “fake news” bolsonarista.

Novas queimadas na floresta detectadas antes do Dia da Amazônia alcançam número assustador

Números alarmantes de novas queimadas foram detectadas na Amazônia brasileira, aponta a Anistia Internacional. As autoridades públicas seguem omissas na proteção da terra e dos direitos humanos dos povos da floresta amazônica.

amazon-1

Antes do Dia da Amazônia, celebrado neste 5 de setembro, cerca de 63 mil focos de incêndios foram identificados este ano, até 31 de agosto, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O Exército brasileiro está posicionado na Amazônia, desde maio, ostensivamente para combater o desmatamento e os incêndios ilegais.

A Anistia Internacional também destacou que o desmatamento aumentou em 43,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020, comparado com o mesmo período de 2018 a 2019, destruindo um total de 9.205 km² de floresta. A destruição recente pode, na realidade, ser muito maior, depois que os dados forem corrigidos para levar em conta um erro de satélite que afetou a captura de alguns focos de incêndio desde 16 de agosto.

“Com os incêndios novamente se multiplicando rapidamente nesta estação de queimadas, está mais do que claro que as forças armadas brasileiras não possuem a experiência ou habilidade técnica necessária para barrar a ação daqueles que ateiam fogo na floresta e promovem invasões ilegais de terras protegidas”, disse Richard Pearshouse, diretor de Meio Ambiente e Crises da Anistia Internacional.

Richard continua: “O envio de forças do Exército encobre a estratégia do governo brasileiro de intencionalmente enfraquecer a capacidade operacional de seus próprios órgãos ambientais, com a finalidade de abrir a Amazônia para a exploração comercial”.

“O governo deveria devolver o controle da fiscalização ambiental e implementação das leis ambientais às autoridades civis apropriadas. A única maneira de proteger a maior floresta tropical do mundo é o governo demonstrar apoio político inequívoco à proteção ambiental civil na Amazônia, começando por restabelecer as verbas e outros recursos e apoiar as agências governamentais para que implementem a legislação ambiental”, explica ele. 

Ao todo 74% dos focos de incêndios detectados pelo INPE foram registrados depois do governo brasileiro ter proibido queimadas, em meados de julho de 2020. Os incêndios muitas vezes são iniciados intencionalmente por grileiros, indivíduos que desmatam áreas de floresta e invadem as terras para convertê-las, posteriormente, em pastagem. Essa atividade ilegal sustenta a multibilionária indústria pecuarista brasileira.

Imagens de satélite captadas nos últimos dois meses também revelaram a existência de novos incêndios nas três áreas protegidas que a Anistia Internacional visitou recentemente no Estado de Rondônia: o território indígena Uru-Eu-Wau-Wau e as reservas extrativistas do Rio Jacy-Paraná e Rio Ouro Preto.

Fazendas de gado ilegais alimentam a destruição da Amazônia

A pecuária bovina é o principal fator causador das invasões e ocupações ilegais de terras em reservas extrativistas e territórios indígenas da Amazônia brasileira, alimentando o desmatamento e pisoteando os direitos dos povos indígenas e moradores tradicionais dessas áreas.

A região amazônica é palco do maior crescimento da lucrativa indústria pecuarista no Brasil. Desde 1988, o número de gado criado na região quase quadruplicou, chegando a 86 milhões de animais em 2018, ou seja, 40% do rebanho nacional total. Parte dessa expansão vem destruindo grandes áreas de floresta protegida em territórios indígenas e reservas extrativistas.

Ao todo 63% da área desmatada entre 1988 e 2014 tornou-se pastagem de gado – uma área cinco vezes maior que a superfície de Portugal. A Anistia Internacional documentou esse processo em detalhes em um relatório publicado , em novembro de 2019.

De acordo com dados governamentais, os territórios indígenas da Amazônia brasileira perderam 497km² de floresta entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 91% em relação ao período correspondente de um ano antes.

Gado criado ilegalmente em áreas protegidas é encontrado na cadeia de fornecimento da JBS

Em investigação recente , a Anistia Internacional constatou que gado criado ilegalmente em áreas protegidas da Amazônia brasileira foi identificado na cadeia de fornecimento da JBS, a maior empresa de processamento de carnes.

A Anistia Internacional não encontrou evidências que indicassem envolvimento direto da JBS com violações dos direitos humanos, mas a organização está pedindo à JBS que implemente um sistema de fiscalização efetivo, incluindo de seus fornecedores indiretos, até o final de 2020, para assegurar que nenhum bovino criado ilegalmente em áreas protegidas ingresse em sua cadeia de fornecimento.

A Anistia Internacional lançou uma petição online, “Diga não ao gado criado ilegalmente na Amazônia”, que pode ser assinada aqui.

Sobre a Anistia Internacional

A Anistia Internacional é um movimento global de mais de 7 milhões de pessoas que encaram a injustiça como algo pessoal. A organização realiza campanhas para que direitos humanos internacionalmente reconhecidos sejam respeitados e protegidos no Brasil e no mundo. Criada em 1961, pelo advogado britânico Peter Benenson, teve sua sede inaugurada no Brasil em 2012.

Estação recorde de incêndios no Brasil

Maior perda de floresta desde o início do monitoramento por satélites

fogo brasil

Por Norbert Suchanek para a Neues Deutschland

Enquanto o coronavírus faz mais e mais vítimas no Brasil e está se espalhando por todo o país, apesar das medidas de quarentena, outra tragédia já dura semanas. No sul e no oeste do Brasil, as florestas estão queimando desde o início do ano como não acontecia há décadas.

De 1º de janeiro a 25 de maio deste ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento ambiental por satélite no Brasil, contabilizou 2.646 florestas e incêndios florestais nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, 338% a mais que no mesmo período do ano anterior. O INPE nunca registrou tantos incêndios nesta região nos primeiros cinco meses do ano, desde o início do monitoramento por satélite em 1999.  Os incêndios ocorrem principalmente em áreas de Mata Atlântica. Neste ano, 3.859 quilômetros quadrados desse ecossistema florestal, extremamente rico em espécies, foram destruídos por chamas. O estado recordista na destruição da floresta por supostos incêndios antrópicos é Santa Catarina, onde o INPE registrou 711% mais incêndios neste ano do que em 2019.

Incêndios recordes como nunca antes também são registrados nos vizinhos do sul do Brasil. Desde o início do ano, os satélites registraram 14.078 focos de fogo, 314% a mais que no ano anterior. No Paraguai, por outro lado, mais de três vezes mais incêndios florestais e selvagens estão ocorrendo este ano do que em 2019 e no Uruguai quase quatro vezes mais.

No oeste brasileiro, por outro lado, o Pantanal, conhecido por sua abundante fauna, está queimando como nunca desde o início do ano. Até o final de maio, o INPE contabilizou 2.040 incêndios nesta maior área úmida do mundo, 185% a mais do que no mesmo período do ano anterior. No final de abril deste ano, as chamas devoraram uma área de 3.686 quilômetros quadrados nos 138.183 quilômetros quadrados da parte brasileira deste pantanal transfronteiriço. A própria estação seca e a estação dos incêndios florestais na região, de julho a outubro, ainda estão por vir.

Uma das causas desses numerosos incêndios florestais e incêndios florestais neste canto de quatro países do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, que é dominado por plantações de soja e fazendas de gado, é uma seca incomum para esta época do ano, o que torna o trabalho dos incendiários muito mais fácil. Segundo especialistas, a maior parte dos incêndios no Pantanal foi iniciada por mãos humanas, como foi o caso dos incêndios recordes no segundo semestre do ano passado, para a criação de novas pastagens. Só em abril passado, o Tribunal de Justiça Mato Grosso do Sul autorizou a agroindústria Majora Participações a desmatar 42,5 mil hectares no Pantanal Sul.

De fato, esta paisagem inundada, única no mundo, está há anos exposta a uma mudança estrutural almejada pelo estado no sentido de uma intensificação da pecuária, independentemente da vegetação natural. “As mudanças na pecuária do Pantanal são a principal causa do desmatamento na região”, disse Elton Antônio Silveira, da Secretaria Estadual do Meio Ambiente de Mato Grosso no ano passado. As pastagens nativas seriam substituídas por gramíneas exóticas para atender às necessidades da raça Nelore de gado zebu, que substituiu o tradicional gado pantaneiro.

Há mais de 250 anos, a pecuária extensiva e sustentável, utilizando a paisagem natural, é praticada no Pantanal. Do cruzamento de onze velhas raças de gado de Portugal e da Espanha, surgiu o robusto gado pantaneiro, adaptado à planície de inundação tropical. Há vários anos, porém, uma nova geração de engenheiros agrônomos e empresas do agronegócio que estão comprando grandes áreas contam com a produção intensiva de carne com raças otimizadas de gado em pastagens com gramíneas africanas. Medida que o instituto estadual de pesquisas agropecuárias Embrapa recomenda aos pecuaristas para aumentar a produtividade e que também está legalmente aprovada desde 2012.

As perdedoras são as espécies animais e vegetais do Pantanal e do Gado Pantaneiro, que agora está na lista vermelha das espécies extintas da pecuária. Apenas cerca de 500 animais dessa raça milenar, dos quais cerca de três milhões já perambularam pelo Pantanal, sobreviveram à transformação estrutural, segundo dados da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS).

Outra possível causa da conflagração é o avanço das fazendas de soja, que agora ocupam grandes pastagens na orla do Pantanal. Entre 2009 e 2016, a área plantada com soja dobrou de 300 mil para cerca de 600 mil hectares, segundo dados do instituto ambiental SOS Pantanal, que vê a expansão da soja como a maior ameaça ao pantanal hoje. O cultivo da soja, com ou sem variedades geneticamente modificadas, não só leva os pecuaristas a desmatarem novas áreas, como também contamina as águas com agrotóxicos e fertilizantes artificiais.

A epidemia de coronavírus e a atual alta taxa de câmbio do dólar em relação às moedas sul-americanas drasticamente desvalorizadas, como o real e o peso, são mais um incentivo para cortar e queimar. Os agricultores de soja que produzem para exportação estão, portanto, tendo lucros mais altos do que nunca. Lucros elevados, por sua vez, geralmente levam à expansão da área plantada com soja, geralmente comprando ou deslocando pastagens para gado, vizinhos e pequenos proprietários, o que por sua vez estimula o corte e a queima.

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Neues Deutschland [Aqui!].

Crescimento global da pecuária pode ser fator de risco para exposição à doenças infecciosas

Um estudo francês analisa os vínculos entre a intensificação da criação de animais em nível global, a perda de biodiversidade e os riscos à saúde.

frangosUma criação intensiva de frangos

Par Clémentine Thiberge para o Le Monde

Melhoramento intensivo, destruição de habitat, poluição da terra … Por vários anos, ficou comprovado que o aumento do gado em escala global leva a uma perda de biodiversidade. Mas esses dois fenômenos também podem estar ligados ao aumento de doenças infecciosas em humanos e animais, de acordo com um estudo publicado em 22 de julho na revista Biological Conservation .

Para estabelecer esse vínculo, Serge Morand, autor do estudo e pesquisador do Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agrícola para o Desenvolvimento da Tailândia, cruzou várias bases de dados abertas sobre saúde humana e animal, aumento da pecuária e perda de biodiversidade. Uma primeira análise mostra que o número de epidemias registradas em seres humanos no mundo – 16.994 epidemias para 254 doenças infecciosas entre 1960 e 2019 – está aumentando em correlação com a perda local de biodiversidade, mas também com a crescente densidade de animais de Reprodução.

“Este relatório é particularmente importante, porque é um dos poucos estudos que analisa dados factuais para encontrar correlações positivas entre esses três elementos “, diz Muriel Vayssier, chefe do departamento científico de saúde animal do Instituto Nacional de Pesquisa para agricultura, alimentos e meio ambiente, que não participaram do estudo. E isso durante um período bastante grande. “ O relatório analisa, de fato, bancos de dados que datam da década de 1940 para epidemias humanas e 1960 o número de animais. Comentários de Serge Morand:

“Ao estudar os bancos de dados, vemos que o que melhor explica o aumento do número de doenças infecciosas é a criação cada vez mais importante. “

Desmatamento, simplificação de ambientes agrícolas

De acordo com o banco de dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o número de bovinos aumentou, de fato, de 1 bilhão em 1960 para 1,6 bilhão hoje, o de porcos de 500 a 1,5 bilhão e de aves de 5 a 25 bilhões.

“Ao mesmo tempo ”, explica o autor do estudo, “ as epidemias humanas passaram de cerca de cem por ano em 1960 para 500 a 600 por ano em 2010. As epidemias de animais estão aumentando ainda mais rapidamente, porque passaram. de menos de cem em 2005 para mais de 300 em 2018 “.

“Muitas doenças infecciosas humanas vêm de animais, porque compartilhamos muitos de nossos micróbios com eles”, diz o pesquisador Muriel Vayssier

A segunda hipótese que Serge Morand queria verificar é que a perda de biodiversidade em cada país está correlacionada com o aumento de doenças infecciosas. De acordo com a lista vermelha, atualizada regularmente pela União Internacional para a Conservação da Natureza, a biodiversidade está, de fato, cada vez mais em perigo. “O desmatamento, a simplificação de ambientes agrícolas para tornar a monocultura, a urbanização significativa, contribui para reduzir os ecossistemas e sua biodiversidade” , explica Serge Morand.

E, segundo o pesquisador, menos biodiversidade significa mais circulação de patógenos. “Em paisagens muito diversas, com alta biodiversidade, pode haver uma diversidade de patógenos, mas circulam mal porque há muita regulamentação. Grandes predadores, por exemplo, regulam a presa, que são grandes reservatórios de patógenos. A competição entre espécies também permite esse regulamento. “

Para Serge Morand, a simplificação das paisagens causa a perda desses regulamentos, “o que aumenta a possibilidade de passagem humana; assim que algo acontece nessas paisagens, torna-se uma epidemia ” .

No total, 60% das doenças infecciosas e 75% das doenças emergentes têm origem animal, de acordo com um estudo publicado na revista Nature em 2008 . “Muitas doenças infecciosas humanas vêm de animais, porque compartilhamos muitos de nossos micróbios com eles” , diz Muriel Vayssier. E se houver pouco contato entre animais selvagens e humanos, os animais domésticos geralmente são um elo na cadeia de contaminação.

Tudo está conectado

“Tudo está ligado , confirma Serge Morand, a destruição da floresta de Bornéu, por exemplo, leva ao deslocamento de morcegos em direção a infra-estruturas humanas, incluindo fazendas. Eles transmitem doenças com mais facilidade aos porcos, que as transmitem aos seres humanos. “

Então, quais são as soluções hoje para impedir o aumento de epidemias? Com base no princípio de que o gado é um fator determinante, “devemos reduzir a parcela de proteína animal no consumo humano”, diz Serge Morand. Muriel Vayssier prefere permanecer mais cautelosa com as conclusões a serem tiradas:

“Correlações positivas não demonstram se há uma relação de causa e efeito ou não. Este estudo é de granulação grossa; agora seria necessário fazer estudos semelhantes refinando os parâmetros – por exemplo, comparando práticas de melhoramento – para descobrir qual é o fator determinante. “

E, de acordo com a cientista, além das práticas agrícolas, muitos outros elementos devem ser levados em consideração para encontrar soluções: a explosão populacional, as mudanças climáticas ou mesmo a urbanização.

fecho

Este texto foi inicialmente publicado em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Rede que administra US$ 20 trilhões é mais uma a sinalizar risco de investimento em empresas de proteína animal

Relatório calcula que taxas de emissão de carbono podem custar US﹩ 11 bilhões. Adicionalmente, surtos de COVID-19 em fábricas de carne no Brasil ameaçam exportações.

A taxação das emissões geradas pela produção de animais de criação está ganhando impulso entre formuladores de políticas públicas no exterior, de acordo com o mais recente relatório  da Fair Animal Investiment- Risk and Returno (FAIRR), uma rede global de investidores que administra mais de US$ 20 trilhões em ativos. A entidade calcula que os impostos sobre o carbono podem custar a um conjunto de 40 empresas líderes no setor de proteína animal até US﹩ 11,6 bilhões em EBITDA até 2050 — um impacto médio de 5% da receita de cada empresa.

fairr report

A avaliação vem na esteira de uma sequência de sinalizações negativas para o setor brasileiro de commodities. Somente no mês de junho, foram duas ameaças diretas de desinvestimento em empresas do país — e até nos Títulos Soberanos do Brasil — caso o governo não conseguisse frear o desmatamento. Um grupo que inclui a holandesa Robeco, e que administra US﹩ 2 trilhões, disse à Reuters em 19/06 que deixarão de investir em empresas de carne e grãos do Brasil por conta da destruição da Floresta Amazônica. Em 23/06, foi a vez de 29 empresas globais de investimentos (com U﹩ 3,7 trilhões em ativos) assinarem carta conjunta pedindo mudanças na política ambiental do governo de Jair Bolsonaro.

Além das emissões oriundas do desmatamento, o relatório da FAIRR avalia que o setor de carne envolve elevado risco para a saúde humana, e que a pandemia de COVID-19 (uma zoonose em sua origem) deu novo impulso a essas discussões. Essas preocupações tornaram-se particularmente prementes para formuladores de políticas, avalia o documento, criando riscos materiais que merecem a consideração dos investidores.

“Uma análise de causa-raiz da pandemia de COVID-19 provavelmente mostrará a necessidade urgente da indústria de carnes e de peixes de melhorar as práticas de biossegurança e triagem”, prevê Coller. “No cenário pós-COVID, existe o risco de os governos pararem de subsidiar a agricultura animal e começarem a taxá-la em vez disso.” Ward concorda com a avaliação de Coller e ressalta que, “na sequência da pandemia, provavelmente haverá uma pressão regulatória crescente sobre a indústria de carnes para evitar futuras pandemias zoonóticas.”

Recentemente, a China suspendeu importações de carne de quatro unidades de processamento no Brasil devido a surtos de COVID-19. Esse cenário ganhou contornos socioambientais dramáticos na fábrica da JBS em Dourados (MS) após contaminação em massa de funcionários indígenas. Líderes das aldeias da região já contabilizam 201 pessoas contaminadas e uma morte — um homem de 56 anos de idade. 33 dessas pessoas infectadas são trabalhadores da empresa, e a maioria das outras vítimas são membros das comunidades às quais esses funcionários pertencem — quase todos Guarani Kayowá, uma das etnias mais ameaçados do país.

O surto na JBS transformou Dourados, uma cidade de 210 mil habitantes, no epicentro do novo coronavírus no estado de Mato Grosso do Sul, com 2.670 casos. Comparativamente, a capital do estado, Campo Grande, com uma população de 700 mil habitantes, conta com pouco mais 1.400 casos. Na cidade de Trindade do Sul, no sul do Rio Grande do Sul, uma planta da JBS também causou a propagação da doença entre funcionários indígenas.

Os dois casos de funcionários da Seara que moram em Rio Brilhante foram descobertos em barreira sanitária (Foto: Divulgação)Com 36 casos, indústria da JBS espalha coronavírus em cinco municípios do Mato Grosso do Sul- CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

Os Povos Indígenas são mais vulneráveis ​​à atual crise sanitária devido à dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Ao mesmo tempo, empresas de carnes favorecem a disseminação do novo coronavírus por serem ambientes úmidos, com pouca circulação de ar e baixas temperaturas. O barulho das máquinas de refrigeração faz as pessoas gritarem para serem ouvidas, espalhando gotas de saliva no ar. O modelo de trabalho nessas fábricas não permite uma distância segura de 1,5 metro, além da existência de pontos de aglomeração de trabalhadores. Frigoríficos são considerados serviços essenciais.

Tendência de taxação sobre emissões

O relatório afirma que a legislação progressiva deve vincular as receitas provenientes dos impostos sobre a carne a benefícios sociais específicos, como preços mais baixos de frutas e legumes ou apoio aos agricultores para uma transição ecológica. Para tanto, foram avaliadas discussões políticas recentes sobre novos impostos sobre a carne, incluindo um estudo encomendado pelo governo holandês sobre “preços justos da carne” e um projeto de lei na Nova Zelândia. Se aprovada, a nova legislação tributará emissões da pecuária dentro do chamado Esquema de Comércio de Emissões, que entra em vigor no país a partir de 2025.

Jeremy Coller, fundador da FAIRR e diretor de investimentos da Coller Capital, avalia que “existe um consenso crescente de que não podemos alcançar o Acordo Climático de Paris a menos que lidemos com a agricultura industrial – um setor que emite mais gases de efeito estufa do que todos os aviões, trens e carros do mundo juntos.”

“O governo da Nova Zelândia criou uma lei para medir e precificar as emissões das fazendas a partir de 2025, e há um risco claro para o setor de que outros reguladores sigam o exemplo”, avalia o diretor, que alerta que investidores estão começando a considerar esse aspecto em suas avaliações de longo prazo sobre empresas de carne.

“Desde o relatório de 2017 da FAIRR sobre tributação da carne, a conversa sobre o preço da carne na Europa mudou completamente”, avalia Jeroom Remmers, diretor da True Animal Protein Price Coalition (TAPP). “Fundamentalmente, a Coalizão TAPP descobriu que a maioria dos consumidores agora apoia mais impostos sobre carne, se outros produtos alimentícios, como vegetais, diminuírem de preço, e legisladores como a Comissão da União Europeia estão mais receptivos do que nunca.”

Para Rommers “é vital que investidores como a rede FAIRR usem sua influência para garantir que os preços dos alimentos reflitam os custos reais de poluição, emissões e desmatamento em suas cadeias de fornecimento.”

Para Faith Ward, diretora de investimentos responsáveis ​​da Brunel Pension Partnership, o impacto climático da carne provavelmente apresenta os maiores riscos materiais para os investidores a longo prazo. “A pesquisa da FAIRR mostra que a carne está em um caminho claro que provavelmente terminará com tributação de alguma forma, a fim de reduzir seu impacto no clima. Investidores perspicazes devem se aproximar das discussões sobre esse assunto para ficar à frente da curva.”

Liberação total para exploração econômica de terras indígenas é um genocídio anunciado

Genocídio dos povos indígenas no Brasil

O anúncio feito pelo presidente Jair Bolsonaro de que seu governo acaba de concluir um projeto (de lei eu suponho) para autorizar a abertura “ampla” das terras indígenas para exploração econômica é um dos atos mais graves contra a integridade física dos povos originários no Brasil.  Sob alegações toscas, o que vai se fazer (sem direito de veto dos principais interessados) é abrir as portas para mais um ciclo de genocídio contra os povos originários, o qual deverá implicar em um aumento exponencial dos assassinatos e violações de direitos básicos que estão garantidos pela Constituição Federal de 1988.

É interessante notar que esse “projeto” está apresentado primeiro para embaixadores e representantes grandes corporações, sem que o Congresso Nacional saiba oficialmente do que efetivamente está sendo preparado para permitir, entre outras coisas,  a implantação de projetos que acarretarão na mineração, extração de madeira, agropecuária, construção de estradas e de hidrelétricas. 

Quem desejar ter conhecimento de um exemplo localizado do que acontecerá em toda a Amazônia se esse projeto for executado em toda a sua extensão, sugiro a leitura de um artigo assinado pelo jornalista Dom Phillips para o jornal britânico “The Guardian”  sob o título de “Like a bomb going off’: why Brazil’s largest reserve is facing destruction(ou em bom português “Como uma bomba explodindo ‘: por que a maior reserva do Brasil está sob o risco de destruição”.  A matéria mostra de forma explícita o passo acelerado do processo de destruição da terra indígena Yanomami em Roraima por causa do avanço devastador da mineração ilegal de ouro (ver vídeo abaixo que está no artigo de Dom Phillips).

Assim, só quem quiser apoiar um genocídio anunciado vai cair na conversa de que esta abertura visa beneficiar os povos indígenas e dar-lhes condições dignas de existência. Se fosse realmente esse o objetivo, não haveria a cláusula de veto a que os povos indígenas possam escolher a forma de como querem viver, e sob quais mecanismos de geração de renda. 

Mas o projeto de abrir as terras à formas altamente degradadoras do meio de vida dos povos originários também implicará em uma aceleração exponencial da devastação ambiental que já está em curso neste momento na Amazônia.  É que dentre as formas de exploração anunciadas pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo ministro das Minas e Energia, o almirante de esquadra Bento Albuquerque, não há uma sequer que enseje o aproveitamento sustentável da vasta biodiversidade que está estocada dentro das terras indígenas. E, pior, todas as formas de aproveitamento visualizadas pelo governo Bolsonaro resultará no avanço do desmatamento e de diferentes mecanismos de degradação dos biomas amazônicos.  Sem dúvida nenhuma, se concretizado, esse projeto será pior do que várias bombas atômicas explodindo simultaneamente, visto os efeitos previsíveis que terá sobre a aceleração das mudanças climáticas.

A questão que se coloca é a seguinte: quem vai apoiar a mobilização indígena que se inicia sob a liderança do cacique Raoni Metuktire para resistir aos planos de destruição do governo Bolsonaro. E nessa questão não haverá espaço para tergiversação, pois ficar inerte significará apoiar objetivamente o genocídio dos povos indígenas e a aceleração da destruição do equilíbrio do sistema climático da Terra. Simples assim!

Amazônia em chamas: estudo mostra que queimadas são três vezes mais comuns em áreas de pecuária

Investigação revela que 70% dos alertas de incêndio da Nasa estavam localizadas nas zonas estimadas de compra de empresas de carne bovina, algumas das quais exportam para o Reino Unido

guardian 1As zonas de compra estimadas de 128 matadouros foram combinadas com a localização de alertas de incêndio florestal. Foto: Bruno Kelly / Reuters

Por Alexandra Heal, Andrew Wasley, Sam Cutler and André Campos para o “The Guardian”

Os incêndios foram três vezes mais comuns nas zonas produtoras de carne do que no restante da Amazônia neste verão, segundo uma nova análise.

As descobertas mais uma vez chamam a atenção para os vínculos entre a poderosa indústria de carne bovina do Brasil e o desmatamento da floresta amazônica, assim como o mundo debate as mudanças climáticas na COP25.

Em resposta ao trabalho do Guardian e do Bureau of Investigative Journalism (BIJ), os eurodeputados pediram à UE que bloqueie a carne bovina que pode estar ligada ao desmatamento. “É absolutamente urgente que a UE imponha um dever legal às empresas européias para garantir que suas cadeias de suprimentos estejam livres de desmatamento”, disse Heidi Hautala, uma eurodeputada finlandesa.

gado fogoNa imagem acima no lado esquerdo aparecem as áreas estimadas como sendo de pontos de compra de animais para abate pelos grandes frigoríficos. Já no lado direito aparecem os focos de incêndio na Amazônia brasileira. Em dois 2/3 dos casos há coincidência entre os dois fatores.

Há dois anos, a ONG brasileira Imazon coletou dados para estimar as zonas de compra de carne bovina em toda a Amazônia. Eles identificaram 128 matadouros e começaram a estabelecer as áreas a partir das quais essas plantas poderiam comprar seu gado para processamento. Por meio de entrevistas por telefone com a equipe dos matadouros, ou fazendo médias com base em métodos em outras frigoríficas, a equipe de pesquisa coletou informações sobre as distâncias máximas das quais cada um provavelmente obteria gado.

Eles modelaram esses dados com base em fatores locais, como estradas, rios navegáveis e padrões climáticos, e estimaram a zona de compra potencial máxima para cada matadouro. As zonas de compras cobrem grandes áreas de centenas de km e há sobreposição significativa entre as zonas de compras para diferentes empresas. Somados, os dados criam uma imagem convincente das áreas da Amazônia onde o gado está sendo criado para a carne bovina.

Usando métodos projetados pelo projeto de sustentabilidade sem fins lucrativos Chain Reaction Research, o Guardian e o BIJ mapearam os alertas de incêndio da Nasa arquivam dados na área legalmente definida da Amazônia e descobriram que dos 554.000 alertas de julho a setembro, quase 376.000 – cerca de 70% – estavam nas zonas de compra estimadas, apesar de essa área cobrir muito menos da metade da Amazônia legal.

Algumas das maiores empresas de carne do mundo operam na região. Mais de um quarto de milhão de alertas de incêndio foram emitidos nas zonas estimadas de compra da JBS, a maior fornecedora de carne do mundo, por exemplo. Sabe-se que suas fábricas exportam para a Europa, inclusive para empresas do Reino Unido.

Havia quase 80.000 alertas de incêndio nas prováveis ​​áreas de compra da Marfrig, o terceiro maior exportador brasileiro de carne bovina, e mais de 66.000 em torno de matadouros pertencentes à Minerva. Esses três frigoríficos dominam a Amazônia brasileira e respondem por quase metade do gado abatido na região, segundo o Imazon.

guardian 2Algumas das maiores empresas de carne do mundo operam na Amazônia. Fotografia: Marco Antonio Rezende / Getty

JBS, Marfrig e Minerva disseram ao Bureau que estavam comprometidos com as cadeias de suprimento de “desmatamento zero” e que todos monitoram seus fornecedores para garantir isso.

“A correlação teórica baseada em estimativas não é causal e é enganosa”, disse um porta-voz da JBS. “A JBS está trabalhando ativamente para reunir outras partes interessadas e empresas importantes para unir forças para preservar a Amazônia.”

A empresa acrescentou: “Se as fazendas são consideradas não compatíveis com nossas políticas de abastecimento sustentável por qualquer motivo, incluindo o desmatamento, elas estão bloqueadas em nossa cadeia de suprimentos … Não estamos envolvidos nem toleramos a destruição da Amazônia”.

A Marfrig também disse que bloqueou todas as fazendas encontradas envolvidas no desmatamento e que começou a monitorar os focos de incêndio em agosto deste ano. “Sempre que qualquer sobreposição de áreas entre as propriedades e os focos de incêndio é identificada, há um alerta para que a compra seja reavaliada”, afirmou a empresa em seu comunicado.

Minerva disse que não havia evidências de que havia comprado animais de fazendas onde ocorreram incêndios e culpou a crise deste ano pelo clima. Ele disse que “não há conexão comprovada com as atividades do agronegócio”.

Em uma investigação separada, também foram encontrados incêndios em pelo menos três fazendas conhecidas por vender gado diretamente aos matadouros da JBS. Trabalhando com a Repórter Brasil, o BIJ descobriu que pelo menos uma dessas plantas exporta carne e couro globalmente.

Enquanto JBS, Marfrig e Minerva dizem estar confiantes de que o gado que compram não provém de áreas ilegalmente desmatadas, eles também aceitam que não sabem a origem de muitos porque o gado é frequentemente movimentado entre os milhares de fazendas de criação, criação e engorda.

A indústria de carne bovina é vista como uma das principais causas do desmatamento na região amazônica. Os criadores de gado são responsáveis ​​por 80% da derrubada de terra em todos os países com cobertura florestal na Amazônia, de acordo com a Escola de Estudos Florestais e Ambientais da Universidade de Yale.

JBS, Minerva e Marfrig admitem que não podem monitorar as fazendas que estão mais abaixo em suas cadeias de suprimentos. “Atualmente, nenhum dos participantes do setor consegue rastrear fornecedores indiretos”, disse Minerva.

guardian 3Havia mais de meio milhão de alertas de incêndio da Nasa na Amazônia de julho a setembro. Foto: Ricardo Moraes / Reuters

Marfrig disse ao Bureau que mais da metade do gado que abate é originário desses fornecedores indiretos.

Todas as três empresas disseram que estavam trabalhando com o governo ou ONGs para abordar esse ponto cego nos seus processos de monitoramento.

A JBS afirmou: “Estamos trabalhando com autoridades locais, governo e setor em geral para obter acesso aos dados e ferramentas necessárias para resolver esse problema.” A Marfrig disse que solicita informações de compra de gado de seus fornecedores diretos, enquanto Minerva afirma que mais policiais era necessário em todas as etapas da cadeia.

Os incêndios na Amazônia neste verão causaram alarme global. Não há evidências de que esses incêndios tenham sido iniciados em ou por fazendas que fornecem JBS, Marfrig ou Minerva, mas a própria existência de uma colcha de retalhos de fazendas na floresta tropical pode estar ajudando a agravar o efeito geral dos incêndios iniciados em outros lugares. “Todo o clima local é mais seco porque você está obtendo menos evaporação das árvores”, disse Yavinder Malhi, professor de ciência de ecossistemas da Universidade de Oxford.

Especialistas dizem que o aumento dos incêndios foi causado diretamente pelo aumento do desmatamento: a queima intencional de árvores que haviam sido derrubadas meses antes, em vez de incêndios florestais aleatórios. “Depois de limpar a floresta para fazer uma fazenda, você tem muitos materiais mortos espalhados e os agricultores esperam até a estação seca para queimar esse material”, disse Malhi.

O desmatamento tem sido uma questão-chave nas negociações sobre mudanças climáticas em Madri, e importantes empresas do Reino Unido escreveram ao governo brasileiro na semana passada para pedir ações urgentes.

Em resposta às novas descobertas, os deputados Manon Aubry e Heidi Hautala pediram uma ação. “Não pode ser responsabilidade do consumidor garantir que os produtos nas prateleiras dos mercados europeus sejam produzidos de maneira sustentável”, disse Hautala ao Guardian. “O consumidor precisa confiar que apenas os itens produzidos com responsabilidade são vendidos na Europa.” Aubry pediu uma reavaliação do Acordo Comercial UE-Mercosul, que aumentaria as importações para a Europa do Brasil e de outros países da América do Sul.

guardian 4Um número recorde de incêndios florestais no Brasil em 2019 provocou protestos globais. Fotografia: Kenzo Tribouillard / Getty

A UE também tem que questionar o impacto dos acordos de livre comércio que são prejudiciais para o planeta e as pessoas. Um acordo com o Mercosul pioraria a situação e aceleraria o desmatamento na Amazônia. ”

“Nossas descobertas ilustram que incêndios e desmatamento continuam ocorrendo na cadeia de suprimentos da JBS, apesar das políticas e compromissos da empresa”, disse Marco Tulia Garcia, que liderou a pesquisa na Chain Reaction. “É da maior urgência que a JBS resolva esses problemas.”

A JBS recentemente criou um site que permite que os clientes pesquisem códigos de produtos para o nome e as coordenadas da última fazenda para criar o animal antes do abate, em um movimento descrito na imprensa especializada como uma redução da transparência. Os clientes agora são redirecionados para outro site, onde apenas o nome e o município das fazendas são fornecidos.

A empresa afirmou: “Devido a questões legais baseadas no Regulamento Geral de Proteção de Dados do Brasil, a empresa limitou algumas das informações de terceiros publicadas em seu site … A JBS possui uma política de transparência robusta.”

_____________________________________________________________

Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Duas coisas certas para 2020: mais fogo e desmatamento na Amazônia e menos carne na mesa do brasileiro

boi fogo

Apesar de não ser astrólogo nem pai de santo, já me arrisco a fazer duas previsões para o ano de 2020: teremos mais fogo e desmatamento na Amazônia e menos carne na mesa dos trabalhadores brasileiros.  Esse é um paradoxo que decorre da crescente dependência da economia brasileira da exportação de commodities agrícolas, a começar pelas carnes bovina e de frango.

O fato é que dentre os diversos fatores que impulsionam o avanço do desmatamento é ampliar a gigantesca área de pastagens na Amazônia, coisa que equivale atualmente a cinco vezes o território continental de Portugal. Como o latifúndio agro-exportador tem pouca ou nenhuma disposição de investir na manutenção de pastos, a derrubada de florestas é quase que uma decorrência inercial da dependência aumentada da participação da exportação de carnes.

Resultado de imagem para amazonia desmatamento pecuária

Entretanto, apesar de se esperar mais animais dentro de áreas maiores de pasto, isto não vai se traduzir em nenhum alívio para os brasileiros que desejarem comer carne, seja bovina ou de frango. É que, por um lado, o governo Bolsonaro vem desinvestindo na agricultura familiar cuja produção está mais voltada para o mercado nacional e, por outra, não está nada disposto a colocar salvaguardas para garantir o abastecimento do mercado interno.

É por isso que em 2020 mais florestas serão consumidas por queimadas monumentais, enquanto o brasileiro vai ter que se contentar com uma dieta mais vegetariana. E viva o neoliberalismo do trio Jair Bolsonaro/Paulo Guedes/ Tereza Cristina que dificilmente terão de viver as mesmas agruras que a maioria da população brasileira viverá.