Por TJ Jordan, Maria Clara Parente e Naira Hofmeister para “The Ecologist”
“O aparelho de ar condicionado, as caixas de som, os computadores, os celulares, as cadeiras”, disse Nãnashaira Medeiros Siqueira, apontando para o ambiente. “O petróleo está presente em muitas áreas do nosso dia a dia.”
Ela estava ao lado de uma tela de projeção em uma cabana de madeira na Ilha de Marajó, no nordeste do Brasil, e apertou o botão do controle remoto (veja a imagem). O slide dizia: “Produtos feitos com Petrol” (“Coisas feitas com petróleo”).
Siqueira, representante da Petrobras, a empresa petrolífera estatal brasileira, fez uma série de apresentações para comunidades costeiras na bacia da Foz do Amazonas em novembro de 2025.
Em alto-mar
A empresa tinha acabado de iniciar a perfuração de um poço exploratório em águas profundas nessas localidades, aumentando os temores de um vazamento de petróleo que poderia prejudicar os manguezais e recifes de coral dos quais a população local depende.
Desde que assumiu o controle total dos blocos de perfuração na Foz do Amazonas em 2020, a Petrobras intensificou suas atividades de relações públicas: desde a realização de reuniões e a contratação de influenciadores da Geração Z, estrelas de cinema e ícones pop, até a aplicação de sua logomarca verde, branca e amarela em projetos de conservação de manguezais e baleias jubarte, como mostra uma investigação da DeSmog em parceria com a revista brasileira Piauí, publicada na quarta-feira, 17 de junho de 2026.
De acordo com informações públicas, a Petrobras quintuplicou seus investimentos em publicidade e patrocínio entre 2020 e 2025. Vídeos criados por influenciadores em nome da empresa acumularam mais de 1,5 bilhão de visualizações em 2024 e 2025 — o equivalente a oito visualizações por pessoa no Brasil, um país com 213 milhões de habitantes.
O IBAMA, órgão regulador ambiental do Brasil, rejeitou repetidamente pedidos de perfuração, alegando riscos para os ecossistemas marinhos.
Apesar disso, a Petrobras iniciou a perfuração de um poço exploratório em águas profundas em Foz do Amazonas em outubro, após vencer uma batalha judicial de cinco anos pela concessão da licença. Isso pode abrir caminho para que o restante da indústria comece a desenvolver petróleo em alto-mar na região.
Licença social
Ativistas, acadêmicos e promotores estaduais acusaram a Petrobras de enganar o público na forma como apresenta o projeto, minimizando os riscos climáticos e ambientais e ocultando a verdadeira dimensão de seus planos das comunidades locais.
A Petrobras triplicou o número de influenciadores de mídia social contratados entre 2022 e 2024, chegando a 72, trabalhando com estrelas das redes sociais que vão desde ativistas LGBTQ+ a biólogos, de acordo com dados da empresa obtidos por meio de pedidos de acesso à informação e compartilhados com o DeSmog pela unidade de investigação Unearthed do Greenpeace.
A Petrobras também quadruplicou o número de projetos culturais e ambientais que patrocina desde 2020, conforme mostram seus registros públicos. Amanda Mota, influenciadora cultural, por exemplo, dança no festival Choro Jazz, patrocinado pela Petrobras, em Marajó, em um vídeo de 2025 no YouTube que já ultrapassou cinco milhões de visualizações.
Eles entram no setor cultural local para garantir que realmente tenham a licença social para operar.
Gertjan Plets, pesquisador de filantropia no setor de petróleo e gás na Universidade de Utrecht, na Holanda, afirmou: “As empresas de combustíveis fósseis têm muito medo de protestos das comunidades locais, porque isso pode dificultar a atuação das autoridades no terreno.
“Então eles entram no setor cultural local, nos grupos locais de preservação ecológica, para realmente garantir que tenham a licença social para operar.”
Patrocínio
A gigante petrolífera lançou em julho a campanha “Transição Energética Justa”, que conta com a participação da estrela de cinema Camila Pitanga, explicando como a Petrobras está “adotando novas formas de energia”.
Os críticos questionam se essa campanha reflete a realidade dos negócios da empresa. Os gastos planejados pela Petrobras com exploração e produção de petróleo entre agora e 2030 aumentaram no ano passado e representam 72% de seus investimentos totais, de acordo com o último plano quinquenal da companhia. Isso se compara a 8% destinados a “energia de baixo carbono”, uma queda de 1,7% em relação ao plano anterior.
Agências de publicidade, incluindo a Ogilvy, sediada em Nova York, que possui contratos de cinco anos com a Petrobras no valor de mais de R$ 450 milhões (US$ 87 milhões), segundo informações da Petrobras, desempenham papéis fundamentais em sua estratégia publicitária. A Ogilvy pertence ao conglomerado britânico de publicidade WPP, que tem um longo histórico de trabalho com a indústria de combustíveis fósseis.
Em resposta a perguntas da DeSmog, a Petrobras afirmou que não há “relação causal” entre suas ambições de perfurar na bacia da Foz do Amazonas e o aumento de seus gastos com publicidade, patrocínio e influenciadores.
Perfuração
A empresa afirmou que os gastos com publicidade foram excepcionalmente baixos em 2019 e 2020 devido à reestruturação, antes de retornarem a “níveis compatíveis com a escala, o alcance e a responsabilidade institucional da maior empresa do Brasil” a partir de 2023, sob nova gestão.
O IBAMA exige que a Petrobras organize “reuniões informativas” como as realizadas em Marajó, como parte de sua licença de exploração. Representantes da Petrobras, incluindo Siqueira, disseram ao público que não havia chance de o petróleo atingir a costa em caso de vazamento — uma avaliação que está sendo contestada judicialmente por um grupo de ONGs.
O local inicial de testes fica a 175 km da costa da cidade brasileira de Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, e a 500 km de Marajó. Mas o sucesso ali poderá abrir caminho para a perfuração em centenas de outros blocos — muitos dos quais situados diretamente sobre recifes de coral — que se estendem para o sul em direção à ilha.
Os representantes da empresa também afirmaram que a perfuração impulsionaria a economia local, listaram 12 projetos ambientais que a empresa está patrocinando na região e disseram que a Petrobras nunca causou danos ambientais por meio de perfurações em alto-mar. A questão das mudanças climáticas não foi mencionada.
Garantias
Fernanda Pereira, uma estudante de biologia de 23 anos, disse após participar de uma reunião em Soure, no litoral leste de Marajó: “Em Marajó, algumas comunidades não têm essa informação. Ou, quando ela chega, chega de forma completamente distorcida”. Outro participante descreveu a apresentação da Petrobras como “uma ótima performance de relações públicas”.
Em fevereiro, procuradores estaduais do Ministério Público Federal recomendaram a revogação da licença da Petrobras por diversos motivos, incluindo o de que a empresa estava enganando o público nessas apresentações ao não explicar claramente que planejava perfurar mais três poços exploratórios como parte de seus testes.
Pouco mais de um mês após a reunião de Cachoeira do Arari, em novembro, em 4 de janeiro de 2026, 18.000 litros de produtos químicos utilizados na perfuração vazaram do poço de teste para o oceano.
O devastador vazamento de petróleo que muitos temem pode ainda não ter acontecido. Mas aqueles que se opõem ao projeto dizem que o vazamento comprova o que vêm dizendo há anos: que as garantias da Petrobras não são confiáveis.
Autores
TJ Jordan é um repórter investigativo do DeSmog. Seu trabalho visa revelar como as indústrias poluentes — e seus consultores contratados — atrasam as ações climáticas por meio de publicidade, relações públicas e lobby.
Maria Clara Parente é uma jornalista ambiental e cineasta documentarista brasileira. Desde 2016, ela se dedica à justiça climática, contribuindo para importantes veículos de comunicação e dirigindo projetos documentais premiados.
Naira Hofmeister é uma jornalista investigativa premiada com 18 anos de experiência na cobertura de conflitos socioambientais no Brasil.
Fonte: The Ecologist














