Lula, o petróleo na Foz do Amazonas e um “passaporte para o futuro” com destino ao passado

Ao celebrar uma nova fronteira petrolífera em águas quase duas vezes mais profundas que as do desastre de Macondo, o governo Lula ignora as lições sociais da Bacia de Campos e compromete a credibilidade de um Brasil que pretende posar de liderança climática nas próximas COPs

A descoberta de petróleo no poço Morpho, localizado na costa do Amapá, oferece uma oportunidade particularmente reveladora para examinarmos as contradições que cercam a política ambiental do governo Lula. De um lado, o governo reivindica para o Brasil uma posição de liderança internacional no enfrentamento da crise climática, apresenta a redução do desmatamento da Amazônia como demonstração concreta desse compromisso e insiste na necessidade de uma transição energética capaz de diminuir progressivamente nossa dependência dos combustíveis fósseis. De outro, celebra a abertura de uma nova fronteira petrolífera em águas ultraprofundas na Margem Equatorial como uma oportunidade histórica de desenvolvimento econômico. Durante sua visita ao navio-sonda utilizado pela Petrobras, Lula sintetizou essa aparente quadratura do círculo ao afirmar que o petróleo encontrado na região poderá funcionar como um “passaporte para o futuro”, ao mesmo tempo em que insistiu que sua exploração não contradiz a defesa de um mundo que algum dia deixará de depender dos combustíveis fósseis.

A dificuldade começa justamente quando abandonamos o terreno confortável das intenções e examinamos as consequências materiais dessa escolha. Afinal, uma coisa é reconhecer que o Brasil e o restante do mundo continuarão consumindo petróleo durante algum tempo enquanto constroem alternativas energéticas; outra, bastante diferente, é abrir em pleno agravamento da crise climática uma nova fronteira petrolífera cuja infraestrutura precisará operar durante décadas para recuperar os enormes investimentos necessários à exploração em águas ultraprofundas. Por isso, o argumento de que ampliaremos agora a produção de petróleo para financiar uma economia que futuramente dependerá menos dele contém uma contradição que nenhuma engenharia retórica consegue eliminar: pretendemos diminuir nossa dependência dos combustíveis fósseis enquanto criamos novos interesses econômicos, infraestruturas e receitas públicas cuja sobrevivência dependerá justamente da continuidade de sua exploração.

A lembrança da explosão da plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México, em 20 de abril de 2010, torna essa discussão ainda mais necessária. O desastre ocorrido durante a perfuração do poço Macondo matou 11 trabalhadores e lançou aproximadamente quatro milhões de barris de petróleo no Golfo do México durante cerca de 87 dias, produzindo um dos maiores desastres ambientais associados à indústria petrolífera offshore. O Macondo encontrava-se sob aproximadamente 1.522 metros de água, enquanto a Petrobras perfura o Morpho em uma lâmina d’água próxima de 3.000 metros. Essa diferença não permite afirmar que ocorrerá um acidente no Amapá, tampouco que a profundidade, isoladamente, torne um blowout mais provável. Entretanto, ela nos obriga a reconhecer algo muito menos confortável para o discurso triunfalista que acompanha a descoberta: caso ocorra uma falha grave, qualquer intervenção direta sobre equipamentos instalados no fundo oceânico terá de acontecer a uma profundidade quase duas vezes maior do que aquela enfrentada no desastre do Golfo do México.

A experiência do Macondo também deveria impor alguma modéstia quando autoridades políticas apresentam equipamentos de segurança como garantias praticamente absolutas contra grandes acidentes. A Deepwater Horizon possuía um blowout preventer, o famoso BOP, exatamente como as plataformas modernas que operam em águas profundas e ultraprofundas. Ainda assim, uma combinação de decisões equivocadas, falhas técnicas e problemas organizacionais transformou aquilo que deveria representar a última barreira contra uma erupção descontrolada do poço em parte de uma sequência catastrófica de acontecimentos. A grande lição de Macondo, portanto, não consiste em concluir que toda perfuração offshore terminará em desastre, mas em reconhecer que sistemas tecnológicos complexos nunca eliminam completamente a possibilidade de falha. Quanto mais difícil for acessar fisicamente esses sistemas, maiores poderão ser os desafios quando aquilo que deveria funcionar perfeitamente simplesmente não funcionar.

O próprio Morpho já ofereceu um pequeno lembrete dessa realidade quando, em 4 de janeiro de 2026, ocorreu uma descarga de fluido de perfuração de base não aquosa para o oceano a partir de linhas auxiliares associadas ao poço. A Petrobras interrompeu a operação e controlou a descarga, e seria incorreto comparar esse episódio com um blowout ou com o desastre do Macondo. Entretanto, o incidente possui importância justamente porque demonstra que nem tecnologia avançada, nem procedimentos de segurança, nem experiência acumulada conseguem transformar uma operação realizada em condições extremas numa atividade infalível. Quando estamos falando de perfuração a quase três quilômetros abaixo da superfície do oceano, a pergunta politicamente responsável não deveria se limitar a saber se possuímos tecnologia para chegar ao petróleo, mas deveria incluir uma questão muito mais incômoda: o que conseguiremos fazer se alguma coisa der dramaticamente errado lá embaixo?

Essa pergunta adquire uma gravidade adicional porque a costa amazônica não representa simplesmente mais uma área do litoral brasileiro. Estamos diante de um sistema formado por manguezais, estuários, áreas de reprodução e alimentação de organismos marinhos, formações recifais e ambientes costeiros cuja importância ecológica ultrapassa amplamente as fronteiras nacionais. As populações que dependem diretamente desses sistemas tampouco aparecem com a mesma frequência nas cerimônias governamentais que celebram novas descobertas petrolíferas. Pescadores artesanais, comunidades extrativistas e povos indígenas estão entre aqueles que provavelmente sofreriam primeiro e mais intensamente os efeitos de um grande derramamento, pois sua reprodução econômica, social e cultural mantém uma relação direta com a integridade das águas, dos estoques pesqueiros e dos ambientes costeiros.

Aqui aparece uma das dimensões mais perversas da distribuição dos riscos associados aos grandes projetos extrativos. Enquanto governos, empresas, investidores e setores empresariais disputam antecipadamente os benefícios econômicos decorrentes da exploração petrolífera, as populações que dependem diretamente dos ecossistemas locais recebem uma parcela desproporcional dos riscos. Em outras palavras, os benefícios tendem a circular pelas estruturas empresariais e fiscais, enquanto os riscos permanecem territorializados. Se tudo funcionar conforme o planejado, empresas recolherão lucros, governos receberão royalties e diferentes segmentos econômicos participarão da nova cadeia petrolífera. Se algo der errado, serão pescadores, indígenas, comunidades costeiras e ecossistemas que não participaram da decisão sobre a abertura dessa fronteira que estarão imediatamente diante das consequências.

A própria discussão sobre a possível trajetória de um derramamento deveria produzir muito mais cautela do que a que estamos vendo. A Petrobras sustenta, com base em suas modelagens, que mesmo um cenário de pior caso manteria o óleo afastado da costa brasileira. Entretanto, as simulações admitem que correntes oceânicas poderiam transportar esse petróleo em direção à Guiana Francesa, Guiana, Suriname, Venezuela e ilhas do Caribe. Esse argumento produz uma situação quase surreal: parece que deveríamos considerar ambientalmente seguro um grande vazamento desde que as correntes marítimas tenham a gentileza de transportar parte das consequências para outros países. Desde quando exportar geograficamente um possível desastre ambiental passou a representar evidência da segurança de uma operação petrolífera?

Mas existe ainda uma segunda promessa associada à exploração da Margem Equatorial que precisa ser examinada com muito mais cuidado: a ideia de que o petróleo produzirá necessariamente desenvolvimento regional. Nesse ponto, quem vive no estado do Rio de Janeiro dispõe de um laboratório histórico que deveria recomendar muito mais cautela. A exploração da Bacia de Campos movimentou durante décadas uma quantidade extraordinária de riqueza, transformou municípios produtores em receptores de enormes volumes de royalties e participações especiais e ajudou a sustentar uma das principais regiões petrolíferas do planeta. Apesar disso, a circulação dessa riqueza não eliminou os altos níveis de pobreza existentes em vários municípios da região, tampouco resolveu suas graves deficiências educacionais ou os problemas associados à violência e à criminalidade. A presença de uma indústria capaz de movimentar bilhões de reais não se converteu automaticamente em desenvolvimento social duradouro e distribuído.

A experiência da Bacia de Campos deveria, portanto, ocupar posição central em qualquer discussão séria sobre o suposto “passaporte para o futuro” que agora oferecem ao Amapá. O Norte Fluminense conhece muito bem essa promessa. Durante décadas, royalties extraordinários coexistiram com desigualdade social, precariedades urbanas, déficits educacionais e violência. Municípios viram suas receitas crescerem sem que isso necessariamente produzisse transformação estrutural equivalente nas condições de vida de suas populações. O petróleo criou ilhas de riqueza, empregos altamente especializados e enormes fluxos financeiros, mas também aprofundou dependências fiscais e deixou economias municipais extremamente vulneráveis às oscilações do preço internacional do barril e às mudanças na distribuição dos royalties.

Por isso, antes de vender à população amazônica a ideia de que uma nova fronteira petrolífera representa um bilhete garantido para a prosperidade, seria conveniente explicar por que a experiência histórica de uma das maiores regiões produtoras de petróleo do Brasil produziu resultados sociais tão contraditórios. Na Bacia de Campos, o famoso passaporte para o futuro frequentemente acabou carimbado na direção contrária: enormes volumes de riqueza saíram do fundo do mar enquanto pobreza, baixa escolaridade, desigualdade e violência continuaram fazendo parte da paisagem social de muitos municípios da região. Ignorar essa experiência e repetir a promessa de que desta vez o petróleo produzirá automaticamente desenvolvimento não constitui apenas uma interpretação excessivamente otimista.  Esta postura constitui um exercício retórico que desqualifica quem o pratica, porque substitui a análise de uma experiência histórica concreta por uma profissão de fé nos supostos poderes modernizadores da renda petrolífera.

Mas o problema não termina no risco de acidentes ou na questionável promessa de progresso econômico. Mesmo que nenhuma plataforma exploda, nenhum poço perca o controle e nenhuma mancha de petróleo alcance qualquer manguezal, existe uma consequência que inevitavelmente acompanhará uma exploração comercial bem-sucedida: o petróleo retirado do subsolo entrará no circuito econômico mundial e, em sua maior parte, acabará queimado. É justamente nesse ponto que a tentativa de conciliar a expansão da fronteira petrolífera brasileira com a reivindicação de liderança climática começa a revelar suas maiores inconsistências.

A Agência Internacional de Energia já mostrou que uma trajetória capaz de manter a meta de limitar o aquecimento global a 1,5 °C exige uma redução profunda do consumo mundial de petróleo nas próximas décadas. Isso não significa imaginar que o planeta interromperá amanhã a produção petrolífera, mas significa reconhecer que existe uma diferença fundamental entre administrar o declínio progressivo dos campos existentes e continuar procurando novas províncias destinadas a produzir durante décadas. Cada nova fronteira petrolífera exige plataformas, terminais, embarcações, gasodutos, oleodutos, contratos, fornecedores e enormes investimentos cuja rentabilidade pressupõe anos ou décadas de operação. Criamos, assim, aquilo que a literatura climática chama de lock-in: uma infraestrutura econômica que passa a produzir interesses materiais comprometidos com sua própria continuidade.

É exatamente por isso que considero frágil o argumento de que o Brasil poderá utilizar os recursos obtidos com o petróleo para financiar a transição energética. Uma indústria petrolífera ampliada não produz apenas royalties que um governo benevolente poderá posteriormente investir em painéis solares, parques eólicos ou programas sociais. Ela produz municípios dependentes das receitas petrolíferas, empresas fornecedoras, empregos especializados, infraestrutura portuária, interesses acionários, grupos empresariais e pressões políticas que passam a depender da continuidade da exploração. Imaginar que esse poderoso complexo econômico trabalhará serenamente para organizar sua própria obsolescência exigiria uma confiança na capacidade de autossacrifício do capital que toda a história econômica moderna recomenda evitar.

Essa contradição começa também a cobrar um preço que não podemos medir em barris ou royalties: a credibilidade internacional do Brasil na agenda climática. O país pretende chegar às próximas COPs reivindicando liderança na defesa da Amazônia e cobrando dos países ricos maior compromisso com a redução das emissões, ao mesmo tempo em que celebra a abertura de uma nova fronteira de petróleo em águas ultraprofundas diante da própria Amazônia. Há um limite para a quantidade de contorcionismo discursivo que uma política externa climática consegue suportar antes de perder credibilidade. Até para ser levado a sério nas próximas COPs, o Brasil precisará reduzir a distância crescente entre aquilo que anuncia nos palanques internacionais e aquilo que efetivamente promove dentro de suas fronteiras.

Nesse aspecto, a postura brasileira começa a lembrar uma freira que prega castidade enquanto visita regularmente um bordel. Não adianta comparecer às conferências climáticas vestido com o hábito da virtude ambiental enquanto, do lado de fora, comemoramos cada nova descoberta de petróleo como uma vitória nacional. O problema da metáfora não está na hipocrisia moral que ela poderia sugerir, mas na incompatibilidade objetiva entre discurso e prática. Quanto maior essa distância, menor será a autoridade política brasileira para exigir dos demais países aquilo que nós próprios demonstramos não estar dispostos a fazer.

Essa perda de credibilidade talvez seja ainda mais grave porque o Brasil possui condições extraordinárias para exercer liderança climática real. Temos uma das matrizes elétricas mais renováveis entre as grandes economias, enorme potencial solar e eólico, vastos recursos naturais e uma posição diplomática que historicamente permite dialogar tanto com países industrializados quanto com o Sul Global. Justamente por isso, desperdiçar esse capital político tentando convencer o mundo de que abrir novas fronteiras petrolíferas constitui parte de uma estratégia para abandonar o petróleo representa uma escolha particularmente contraproducente. Liderança climática não se proclama em discursos; demonstra-se por meio das decisões difíceis que um país aceita tomar quando seus interesses econômicos imediatos entram em conflito com seus compromissos ambientais.

Por isso, quando Lula chama o petróleo da Margem Equatorial de “passaporte para o futuro” enquanto reafirma seu compromisso com uma futura superação dos combustíveis fósseis, talvez estejamos diante de uma versão contemporânea da velha prática de acender uma vela para Deus e outra para o diabo. A vela destinada a Deus ilumina os discursos sobre proteção da Amazônia, redução do desmatamento, transição energética, biocombustíveis, energias renováveis e liderança brasileira nas negociações climáticas. A outra vela ilumina navios-sonda, plataformas, novas reservas e uma infraestrutura petrolífera planejada para permanecer economicamente ativa por décadas.

O problema dessa duplicidade não pertence ao terreno da moral religiosa, mas ao da física atmosférica. Uma tonelada de dióxido de carbono liberada pela combustão do petróleo brasileiro produz exatamente o mesmo efeito climático que uma tonelada proveniente do petróleo saudita, norte-americano ou russo. A atmosfera não consulta a nacionalidade do barril, não verifica se o governo produtor reduziu o desmatamento e tampouco concede descontos porque parte dos royalties financiou fontes renováveis. A atmosfera contabiliza carbono, não boas intenções, e essa talvez seja a inconveniência científica mais difícil de acomodar no discurso segundo o qual podemos ampliar a produção de combustíveis fósseis enquanto lideramos simultaneamente a luta mundial para reduzir seu consumo.

O governo brasileiro poderia assumir abertamente outra posição e afirmar que considera injusto exigir que países periféricos renunciem à exploração de suas reservas enquanto países ricos construíram sua prosperidade queimando combustíveis fósseis durante dois séculos. Esse argumento possui consistência política e encontra respaldo no debate sobre responsabilidades históricas diferenciadas pela crise climática. O governo poderia igualmente afirmar que pretende explorar o petróleo enquanto existir mercado mundial para ele e utilizar essa riqueza para financiar políticas sociais e investimentos públicos. Também poderíamos discutir criticamente essa escolha, mas pelo menos estaríamos diante de uma posição claramente formulada.

O que parece intelectualmente muito mais difícil é afirmar que a abertura de uma nova fronteira petrolífera constitui parte do próprio caminho para superar a dependência dos combustíveis fósseis. Nesse caso, o paradoxo deixa de ser apenas ambiental e passa a ser também lógico: para reduzir nossa dependência do petróleo, ampliaremos nossa capacidade de produzi-lo; para enfrentar a crise climática, criaremos infraestrutura destinada a colocar novos bilhões de barris no mercado; para preparar uma economia pós-petróleo, construiremos novas regiões cuja dinâmica econômica dependerá precisamente dele.

Talvez seja justamente por isso que a expressão “passaporte para o futuro” utilizada por Lula mereça ser levada mais a sério do que provavelmente pretendiam seus assessores de comunicação. Um passaporte não determina apenas a possibilidade de viajar; ele também nos obriga a perguntar para onde estamos indo. A experiência da Bacia de Campos deveria servir como advertência para quem acredita que basta encontrar petróleo para encontrar desenvolvimento. Depois de décadas extraindo uma riqueza extraordinária do fundo do oceano, muitos municípios continuam convivendo com pobreza, deficiências educacionais, desigualdade e violência. Se isso representa o modelo de futuro que agora pretendemos reproduzir na Amazônia, talvez seja prudente olhar com mais atenção para o destino antes de comemorar a emissão do passaporte.

Porque, no caso da Bacia de Campos, para parcelas importantes da população, o prometido passaporte para o futuro acabou funcionando como um enorme salto para trás. Desconhecer essa experiência quando se anuncia a mesma promessa para uma nova fronteira petrolífera não representa apenas um lapso histórico. Constitui outro exercício retórico desqualificador, especialmente quando praticado por quem pretende convencer o país de que conhece antecipadamente os benefícios de uma atividade cujos custos sociais e ambientais a história brasileira já nos permitiu conhecer muito bem.

E há uma diferença decisiva entre o início da exploração da Bacia de Campos e a abertura da Margem Equatorial: desta vez conhecemos também o tamanho da crise climática. Sabemos o que significa continuar aumentando a concentração de gases de efeito estufa, sabemos que novas infraestruturas fósseis criam dependências que atravessam décadas e sabemos quem costuma receber os benefícios e quem normalmente fica com os custos quando grandes projetos extrativos chegam aos territórios.  Por isso, se ainda assim decidirmos embarcar, pelo menos não deveríamos fingir desconhecer o destino.

O petróleo promete desenvolvimento, mas entrega conflitos

Reportagem de Vinicius Sassine, publicada pela Folha de S.Paulo, mostra que a expectativa da exploração de petróleo e gás na Foz do Amazonas já desencadeia especulação fundiária, pressão sobre a floresta e conflitos sociais, evidenciando que os impactos socioambientais começam muito antes da primeira gota de óleo

A  reportagem do jornalista Vinicius Sassine, com fotografias de Lalo de Almeida, publicada nesta segunda-feira (13/7) pela Folha de S.Paulo, revela um aspecto frequentemente negligenciado no debate sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas: os impactos sociais e territoriais começam muito antes da produção comercial de petróleo.

Ao documentar a rápida expansão de ocupações irregulares em Oiapoque (AP), impulsionadas pela expectativa de crescimento econômico associada ao Bloco 59 da Petrobras, a reportagem demonstra que os chamados “efeitos de antecipação” de grandes empreendimentos já estão remodelando o território amazônico. A valorização da terra, o aumento das disputas fundiárias, a especulação imobiliária, a pressão sobre áreas florestais e o crescimento urbano desordenado surgem antes mesmo da confirmação da existência de reservas economicamente exploráveis.

Esse processo não constitui uma exceção. Trata-se de um padrão recorrente observado em diferentes fronteiras de expansão mineral e petrolífera. Grandes projetos não transformam apenas a economia; eles reorganizam profundamente o uso do território, produzem novas formas de desigualdade e ampliam conflitos sociais. Em muitos casos, a simples expectativa de investimentos já desencadeia movimentos especulativos capazes de produzir danos socioambientais difíceis de reverter.

No Blog do Pedlowski, esse tema vem sendo acompanhado desde que a exploração da Margem Equatorial passou a ocupar posição central na agenda energética brasileira. Diversas publicações chamaram atenção para um aspecto frequentemente ausente do discurso oficial: a abertura de uma nova fronteira petrolífera na Foz do Amazonas dificilmente produzirá um desenvolvimento regional equilibrado. Ao contrário, tende a reproduzir o modelo conhecido de economia de enclave, no qual os lucros se concentram nas grandes empresas e nos investidores, enquanto os custos ambientais e sociais permanecem nos territórios onde a atividade ocorre.

Também discutimos reiteradamente que a exploração da Foz do Amazonas representa uma profunda contradição com os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil. Em um momento em que o país busca projetar liderança internacional na agenda da transição energética e da proteção da Amazônia — especialmente às vésperas da COP30 — a aposta em uma nova fronteira de combustíveis fósseis sinaliza exatamente a direção oposta.

Outro ponto destacado em nossas análises refere-se à insuficiência do debate sobre os impactos indiretos do empreendimento. O licenciamento ambiental concentra-se, legitimamente, nos riscos operacionais da perfuração e de eventuais acidentes, mas tende a tratar como questões periféricas fenômenos como expansão urbana desordenada, pressão sobre terras públicas, aumento do custo da moradia, migrações, sobrecarga dos serviços públicos e intensificação de conflitos fundiários. A reportagem da Folha mostra justamente que esses efeitos já estão em curso em Oiapoque.

Essa realidade reforça uma conclusão importante: os impactos de grandes empreendimentos não começam quando as máquinas entram em operação. Eles começam quando se constrói a expectativa de riqueza rápida. O petróleo passa a funcionar como um poderoso agente reorganizador do território, estimulando processos especulativos que frequentemente escapam ao alcance dos estudos ambientais tradicionais.

Por isso, a discussão sobre a Foz do Amazonas não pode restringir-se ao risco de vazamentos de petróleo ou aos efeitos sobre ecossistemas marinhos. Ela precisa incorporar os impactos sociais, urbanos e territoriais que já se manifestam antes mesmo da primeira gota de óleo ser extraída. A reportagem de Vinicius Sassine e Lalo de Almeida presta um importante serviço público ao evidenciar que essa transformação já começou — e que seus primeiros custos estão sendo pagos pelas populações locais, muito antes da prometida prosperidade chegar.

Petrobras azeita sua máquina de propaganda para vender o óleo da Foz do Amazonas

Por TJ Jordan,  Maria Clara Parente e Naira Hofmeister para “The Ecologist”

“O aparelho de ar condicionado, as caixas de som, os computadores, os celulares, as cadeiras”, disse Nãnashaira Medeiros Siqueira, apontando para o ambiente. “O petróleo está presente em muitas áreas do nosso dia a dia.” 

Ela estava ao lado de uma tela de projeção em uma cabana de madeira na Ilha de Marajó, no nordeste do Brasil, e apertou o botão do controle remoto (veja a imagem). O slide dizia: “Produtos feitos com Petrol” (“Coisas feitas com petróleo”).

Siqueira, representante da Petrobras, a empresa petrolífera estatal brasileira, fez uma série de apresentações para comunidades costeiras na bacia da Foz do Amazonas em novembro de 2025.

Em alto-mar

A empresa tinha acabado de iniciar a perfuração de um poço exploratório em águas profundas nessas localidades, aumentando os temores de um vazamento de petróleo que poderia prejudicar os manguezais e recifes de coral dos quais a população local depende.

Desde que assumiu o controle total dos blocos de perfuração na Foz do Amazonas em 2020, a Petrobras intensificou suas atividades de relações públicas: desde a realização de reuniões e a contratação de influenciadores da Geração Z, estrelas de cinema e ícones pop, até a aplicação de sua logomarca verde, branca e amarela em projetos de conservação de manguezais e baleias jubarte, como mostra  uma investigação da DeSmog em parceria com a revista brasileira Piauí,  publicada na quarta-feira, 17 de junho de 2026.

De acordo com informações públicas, a Petrobras quintuplicou seus investimentos em publicidade e patrocínio entre 2020 e 2025. Vídeos criados por influenciadores em nome da empresa acumularam mais de 1,5 bilhão de visualizações em 2024 e 2025 — o equivalente a oito visualizações por pessoa no Brasil, um país com 213 milhões de habitantes.

O IBAMA, órgão regulador ambiental do Brasil, rejeitou repetidamente pedidos de perfuração, alegando riscos para os ecossistemas marinhos.

Apesar disso, a Petrobras iniciou a perfuração de um poço exploratório em águas profundas em Foz do Amazonas em outubro, após vencer uma batalha judicial de cinco anos pela concessão da licença. Isso pode abrir caminho para que o restante da indústria comece a desenvolver petróleo em alto-mar na região.

Licença social

Ativistas, acadêmicos e promotores estaduais acusaram a Petrobras de enganar o público na forma como apresenta o projeto, minimizando os riscos climáticos e ambientais e ocultando a verdadeira dimensão de seus planos das comunidades locais.

A Petrobras triplicou o número de influenciadores de mídia social contratados entre 2022 e 2024, chegando a 72, trabalhando com estrelas das redes sociais que vão desde ativistas LGBTQ+ a biólogos, de acordo com dados da empresa obtidos por meio de pedidos de acesso à informação e compartilhados com o DeSmog pela unidade de investigação Unearthed do Greenpeace. 

A Petrobras também quadruplicou o número de projetos culturais e ambientais que patrocina desde 2020, conforme mostram seus registros públicos. Amanda Mota, influenciadora cultural, por exemplo, dança no festival Choro Jazz, patrocinado pela Petrobras, em Marajó, em um vídeo de 2025 no YouTube que já ultrapassou cinco milhões de visualizações.

Eles entram no setor cultural local para garantir que realmente tenham a licença social para operar.

Gertjan Plets, pesquisador de filantropia no setor de petróleo e gás na Universidade de Utrecht, na Holanda, afirmou: “As empresas de combustíveis fósseis têm muito medo de protestos das comunidades locais, porque isso pode dificultar a atuação das autoridades no terreno. 

“Então eles entram no setor cultural local, nos grupos locais de preservação ecológica, para realmente garantir que tenham a licença social para operar.”

Patrocínio

A gigante petrolífera lançou em julho a campanha “Transição Energética Justa”, que conta com a participação da estrela de cinema Camila Pitanga, explicando como a Petrobras está “adotando novas formas de energia”.

Os críticos questionam se essa campanha reflete a realidade dos negócios da empresa. Os gastos planejados pela Petrobras com exploração e produção de petróleo entre agora e 2030 aumentaram no ano passado e representam 72% de seus investimentos totais, de acordo com o último plano quinquenal da companhia. Isso se compara a 8% destinados a “energia de baixo carbono”, uma queda de 1,7% em relação ao plano anterior.

Agências de publicidade, incluindo a Ogilvy, sediada em Nova York, que possui contratos de cinco anos com a Petrobras no valor de mais de R$ 450 milhões (US$ 87 milhões), segundo informações da Petrobras, desempenham papéis fundamentais em sua estratégia publicitária. A Ogilvy pertence ao conglomerado britânico de publicidade WPP, que tem um longo histórico de trabalho com a indústria de combustíveis fósseis.

Em resposta a perguntas da DeSmog, a Petrobras afirmou que não há “relação causal” entre suas ambições de perfurar na bacia da Foz do Amazonas e o aumento de seus gastos com publicidade, patrocínio e influenciadores. 

Perfuração

A empresa afirmou que os gastos com publicidade foram excepcionalmente baixos em 2019 e 2020 devido à reestruturação, antes de retornarem a “níveis compatíveis com a escala, o alcance e a responsabilidade institucional da maior empresa do Brasil” a partir de 2023, sob nova gestão.

O IBAMA exige que a Petrobras organize “reuniões informativas” como as realizadas em Marajó, como parte de sua licença de exploração. Representantes da Petrobras, incluindo Siqueira, disseram ao público que não havia chance de o petróleo atingir a costa em caso de vazamento — uma avaliação que está sendo contestada judicialmente por um grupo de ONGs.

O local inicial de testes fica a 175 km da costa da cidade brasileira de Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, e a 500 km de Marajó. Mas o sucesso ali poderá abrir caminho para a perfuração em centenas de outros blocos — muitos dos quais situados diretamente sobre recifes de coral — que se estendem para o sul em direção à ilha.

Os representantes da empresa também afirmaram que a perfuração impulsionaria a economia local, listaram 12 projetos ambientais que a empresa está patrocinando na região e disseram que a Petrobras nunca causou danos ambientais por meio de perfurações em alto-mar. A questão das mudanças climáticas não foi mencionada.

Garantias

Fernanda Pereira, uma estudante de biologia de 23 anos, disse após participar de uma reunião em Soure, no litoral leste de Marajó: “Em Marajó, algumas comunidades não têm essa informação. Ou, quando ela chega, chega de forma completamente distorcida”. Outro participante descreveu a apresentação da Petrobras como “uma ótima performance de relações públicas”.

Em fevereiro, procuradores estaduais do Ministério Público Federal recomendaram a revogação da licença da Petrobras por diversos motivos, incluindo o de que a empresa estava enganando o público nessas apresentações ao não explicar claramente que planejava perfurar mais três poços exploratórios como parte de seus testes.

Pouco mais de um mês após a reunião de Cachoeira do Arari, em novembro, em 4 de janeiro de 2026, 18.000 litros de produtos químicos utilizados na perfuração vazaram do poço de teste para o oceano.

O devastador vazamento de petróleo que muitos temem pode ainda não ter acontecido. Mas aqueles que se opõem ao projeto dizem que o vazamento comprova o que vêm dizendo há anos: que as garantias da Petrobras não são confiáveis.

Autores

TJ Jordan é um repórter investigativo do DeSmog. Seu trabalho visa revelar como as indústrias poluentes — e seus consultores contratados — atrasam as ações climáticas por meio de publicidade, relações públicas e lobby. 

Maria Clara Parente é uma jornalista ambiental e cineasta documentarista brasileira. Desde 2016, ela se dedica à justiça climática, contribuindo para importantes veículos de comunicação e dirigindo projetos documentais premiados.

Naira Hofmeister é uma jornalista investigativa premiada com 18 anos de experiência na cobertura de conflitos socioambientais no Brasil.


Fonte: The Ecologist

Royalties do petróleo e desenvolvimento bloqueado no Norte Fluminense

A disputa em torno da Lei 12.734/2012 revela os limites de um modelo de distribuição de renda petrolífera que concentrou riqueza sem produzir transformação estrutural.

Os governantes dos estados produtores de petróleo — incluindo os da região Norte Fluminense — acompanham com enorme apreensão o julgamento que o Supremo Tribunal Federal (STF) realiza acerca da Lei 12.734, de 2012, aprovada pelo Congresso Nacional para alterar a distribuição das receitas petrolíferas entre União, estados e municípios. Caso seja plenamente aplicada, a legislação promoverá uma mudança radical na forma como royalties e participações especiais são distribuídos no país.

O principal argumento mobilizado pelos defensores da atual estrutura de distribuição é o de que esses recursos funcionariam como uma compensação financeira para estados e municípios que concentram as atividades petrolíferas e, portanto, arcariam com os impactos ambientais, urbanos e sociais decorrentes da exploração do petróleo. Segundo essa lógica, não seria justo que outras regiões do Brasil fossem beneficiadas sem experimentar os ônus produzidos por essa atividade econômica.

Na prática, porém, a eventual aplicação da Lei 12.734/2012 é apresentada por muitos agentes políticos como uma espécie de “último prego no caixão” do Rio de Janeiro, estado responsável por cerca de 90% da produção nacional de petróleo e gás. O problema é que, apesar da extraordinária quantidade de recursos transferidos para os cofres estaduais e municipais ao longo das últimas décadas, o fluxo de dinheiro oriundo do petróleo não produziu transformações estruturais capazes de reduzir as históricas desigualdades sociais existentes antes mesmo da chamada Lei do Petróleo. Em muitos aspectos, especialmente no caso fluminense, o que se observou foi justamente o aprofundamento de velhos problemas históricos.

O exemplo de Campos dos Goytacazes é emblemático. Após décadas recebendo volumosas receitas petrolíferas, o município segue socialmente frágil, dependente e profundamente desigual. Seus sucessivos governantes demonstraram pouco interesse em promover mudanças efetivas na estrutura social herdada do período colonial, marcada pela extrema concentração de riqueza e pela exclusão social. O resultado é que quase metade da população depende hoje de políticas sociais federais para garantir condições mínimas de sobrevivência.

Depois de quase 30 anos de abundância de recursos petrolíferos, Campos dos Goytacazes continua marcada por profundas desigualdades socioespaciais e por níveis alarmantes de precariedade nos serviços públicos, especialmente nas áreas de educação, saúde, habitação e transporte. A ausência de um sistema público de transporte minimamente eficiente talvez seja o exemplo mais eloquente de como uma riqueza extraordinária foi incapaz de melhorar aspectos básicos da vida cotidiana da população. Em certos casos, a situação atual parece até pior do que antes do ciclo de expansão petrolífera.

Além disso, como demonstram diversos estudos realizados por meu grupo de pesquisa na Uenf, Campos dos Goytacazes encontra-se completamente despreparada para enfrentar as mudanças climáticas já em curso. Não existe sequer um conjunto mínimo de políticas públicas que sinalize o início de um processo consistente de adaptação, sobretudo para as áreas mais pobres da cidade, que serão as primeiras e mais intensamente atingidas pelos eventos extremos. Até hoje, por exemplo, o município não possui um plano diretor de arborização urbana — tema que foi objeto da primeira dissertação que orientei no Programa de Políticas Sociais da Uenf, ainda em 2001. Enquanto isso, segue a destruição sistemática da pouca vegetação urbana remanescente, ao mesmo tempo em que árvores abandonadas adoecem sem qualquer manejo adequado, como se “erva-de-passarinho” fosse mero detalhe paisagístico e não uma sentença de morte.

O fato é que grande parte do clamor em defesa da atual estrutura de distribuição dos royalties busca preservar privilégios de grupos políticos e econômicos que efetivamente se beneficiaram da renda petrolífera, enquanto a maior parte da população permaneceu à margem desse processo. O mais grave é perceber que, após décadas de receitas bilionárias e de uma oportunidade histórica talvez irrepetível, cidades como Campos dos Goytacazes continuam sem infraestrutura adequada, sem diversificação econômica, sem políticas robustas de redução das desigualdades e sem preparação para os desafios ambientais do século XXI.

Trata-se de um desperdício monumental de recursos públicos e da dilapidação histórica de uma riqueza finita, consumida sem produzir bases sólidas para o futuro. Quando o petróleo perder centralidade econômica ou se esgotar, permanecerão os mesmos problemas estruturais, agravados por décadas de omissão, clientelismo e ausência de planejamento. A tragédia maior é justamente esta: ter recebido uma riqueza extraordinária e, ainda assim, não conseguir transformá-la em bem-estar coletivo, justiça social e desenvolvimento duradouro.

Estudo mapeia risco de derramamento de petróleo na Margem Equatorial brasileira

Maior risco acumulado está em áreas no CE e RN, que devem ser priorizadas no monitoramento e nos planos de contigência. Foto: Jan-Rune Smenes Reite / Pexels

Um novo estudo publicado na revista Conservation Letters na quinta (30) mapeia os riscos de impactos por derramamento de petróleo em áreas da Margem Equatorial brasileira, porção do território marítimo que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. As costas cearense e potiguar, que já contam com produção iniciada, concentram maior probabilidade de danos a bancos de pradarias marinhas, manguezais, recifes de corais e bancos de rodolitos – que reúnem algas calcárias. Já na área entre Pará e Amapá, com expansão projetada de atividade petroleira, os ambientes mais expostos a risco são os recifes mesofóticos – localizados entre 30 e 150 metros de profundidade.

O estudo avaliou os riscos de impactos cumulativos de derramamento de óleo na região a partir de simulações da trajetória do contaminante, informações científicas e governamentais sobre a distribuição dos habitats marinhos e costeiros, além dos diferentes níveis de sensibilidade à contaminação dessas áreas por óleo. Assim, a equipe estimou a probabilidade de exposição ao contaminante em todas as bacias que compõem a região: Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar.

Para uma avaliação abrangente, o estudo considerou os 15 blocos já em produção na bacia Potiguar, além de 34 blocos com possibilidade de exploração e 75 blocos de possível oferta, sujeitos a mudanças que dependem de fatores como o interesse das empresas e os processos de licitação e de licenciamento ambiental.

Com autoria de pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade do Porto em Portugal, e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o trabalho também indica ações prioritárias de acordo com o nível de risco ecológico de cada área. As áreas mais expostas estão concentradas na Bacia Potiguar, entre o litoral do Ceará e do Rio Grande do Norte. Conforme o trabalho, elas devem ser priorizadas para o monitoramento ecológico, a elaboração de planos de contingência e o fortalecimento da capacitação estatal de resposta rápida a acidentes.

De forma complementar, o estudo identifica regiões com maior integridade ecológica e menor exposição ao petróleo, que se mostram adequadas para o estabelecimento de novas áreas marinhas protegidas, com o objetivo de mitigar possíveis impactos da atividade. Além disso, essa estratégia de conservação desempenha um papel importante no fortalecimento da governança ao ampliar o processo de participação social nos processos de tomada de decisão. Áreas com essas características se situam principalmente na Bacia da Foz do Amazonas, entre o Pará e o Amapá. Trata-se de uma região única, do ponto de vista oceanográfico, e ainda pouco estudada, conforme explica Rafael Magris, autor principal do artigo. “As áreas em frente à foz, onde estão os recifes mais profundos, funcionam como corredores de habitats para espécies que possam coexistir no Caribe e na Província Brasileira”, detalha. 

O artigo destaca que o derramamento de óleo na costa do Nordeste, entre os anos de 2019 e 2020, mostrou a vulnerabilidade dos ecossistemas costeiros, trazendo também graves consequências às comunidades locais. Embora tenham origens distintas – já que o evento que atingiu o Nordeste esteve provavelmente associado ao transporte de óleo e não ao processo de exploração e produção – a comparação traz lições importantes. A principal delas é que todo cuidado é pouco, de acordo com Rafael Magris.

“As consequências de episódios de derramamento são frequentemente difíceis de serem mensuradas, tanto pelo conhecimento ainda limitado sobre muitos ecossistemas quanto pela vulnerabilidade socioambiental das regiões costeiras, onde diversas comunidades dependem da pesca artesanal e do turismo”, aponta o autor. “Mesmo quando os derrames ocorrem em áreas de alto mar, seus impactos podem atingir ecossistemas costeiros e comunidades tradicionais que dependem diretamente desses recursos”, finaliza Magris.


Fonte: Agência Bori

Ormuz: o gargalo energético do capitalismo global

O gráfico que segue logo abaixo que mostra o ritmo do tráfego de navios petroleiros no Estreito de Ormuz revela um cenário de forte deterioração logística após a intensificação das tensões militares envolvendo Irã, Israel e os Estados Unidos. Observa-se uma queda abrupta no fluxo de navios petroleiros logo após o episódio destacado no gráfico, indicando um movimento de retração do transporte marítimo em uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta. Cerca de 20% do petróleo consumido globalmente passa diariamente pelo estreito, o que transforma qualquer instabilidade regional em um problema de escala mundial.

A redução do tráfego sugere que armadores, seguradoras e grandes operadores logísticos já estão reagindo ao aumento do risco geopolítico. Mesmo sem um bloqueio formal do estreito, o simples aumento da percepção de insegurança vem sendo suficiente para elevar os custos de seguro marítimo, reduzir a circulação de embarcações e provocar atrasos no abastecimento internacional. Isso tende a gerar forte volatilidade no preço do barril de petróleo, pressionando inflação, cadeias produtivas e custos de transporte em praticamente todas as economias dependentes de combustíveis fósseis.

Os impactos sobre a economia mundial serão profundos nos próximos meses. O primeiro efeito esperado é o aumento do preço da energia, afetando diretamente transporte marítimo, aviação, geração elétrica e indústria petroquímica. Em seguida, ocorre uma propagação inflacionária global: combustíveis mais caros elevam custos logísticos, pressionam alimentos, manufaturas e bens industriais. Países importadores líquidos de petróleo, especialmente na Europa e na Ásia, podem enfrentar desaceleração econômica combinada com inflação persistente, fenômeno semelhante a processos de estagflação observados em crises energéticas anteriores.

Outro ponto crítico é que o gráfico mostra não apenas uma oscilação pontual, mas uma quebra estrutural do fluxo regular de petroleiros após fevereiro. Isso indica que o mercado passou a incorporar o risco de conflito prolongado no Golfo Pérsico. Em um contexto de estoques globais apertados e recuperação desigual da produção em diferentes regiões produtoras, qualquer interrupção adicional pode desencadear choques ainda mais severos sobre o mercado energético.

No caso brasileiro, os efeitos podem ser particularmente graves para a agricultura de exportação. Embora o Brasil seja produtor relevante de petróleo, o país mantém forte dependência externa de fertilizantes nitrogenados, potássicos e fosfatados, muitos deles associados direta ou indiretamente à dinâmica energética global. A produção de fertilizantes nitrogenados depende intensamente do gás natural — cujo preço tende a subir junto com o petróleo — enquanto fertilizantes potássicos importados possuem cadeias logísticas altamente sensíveis ao custo do transporte marítimo.

Esse cenário pode provocar desabastecimento parcial e aumento expressivo no custo dos insumos agrícolas, afetando especialmente commodities exportadoras como soja, milho, algodão, café e cana-de-açúcar. O agronegócio brasileiro opera em larga escala e com elevada dependência de fertilização intensiva. Caso ocorram atrasos logísticos ou encarecimento prolongado dos fertilizantes, produtores poderão reduzir aplicação de nutrientes, comprometendo produtividade, margens de lucro e competitividade internacional.

Além disso, os impactos tendem a ser desiguais regionalmente. Grandes grupos exportadores podem conseguir absorver parte dos custos ou antecipar compras, enquanto médios e pequenos produtores ficam mais vulneráveis à volatilidade internacional. Isso pode ampliar processos de concentração econômica no campo e pressionar cadeias alimentares internas, elevando preços domésticos de alimentos.

A crise também evidencia uma fragilidade estrutural da economia brasileira: a dependência externa de insumos estratégicos mesmo em um país com enorme peso agrícola e energético. O risco geopolítico no Oriente Médio acaba revelando como a segurança alimentar global permanece profundamente conectada à estabilidade das rotas internacionais de petróleo e gás. Em outras palavras, uma crise militar no Golfo Pérsico pode rapidamente se transformar em inflação agrícola, insegurança alimentar e desaceleração econômica em países distantes como o Brasil.

Tudo isso posto junto revela o quanto foi precipitada e mal calculada a aventura militar comandada pelos EUA e por Israel contra o Irã. Como eu já havia escrito logo no início do conflito, a situação tinha tudo para dar errado. E deu.

‘Nossos medos estão se tornando realidade’: Povos indígenas enfrentam a realidade da perfuração de petróleo na foz do Amazonas

Amazon Indigenous communities face harsh reality of oil… | TBIJ

Por Flávia Milhorance e  Grace Murray para “TBIJ” 

Em janeiro deste ano, 18 mil litros de fluido de perfuração de um poço de petróleo em alto-mar vazaram para o Oceano Atlântico, na costa norte do Brasil. O incidente paralisou as operações e prejudicou a vida marinha.

Era exatamente o que os povos indígenas que viviam ali temiam. “Todos os nossos medos como comunidade indígena, tudo o que nos preocupava, está se tornando realidade”, disse Luene Karipuna, uma jovem líder do povo Karipuna.

As comunidades indígenas de Oiapoque, no norte da Amazônia brasileira, já haviam manifestado há tempos suas preocupações com o projeto. Em reuniões públicas e em comunicações com políticos locais, alertaram que as fortes marés poderiam causar o transbordamento de efluentes em suas terras e que os helicópteros sobrevoariam a área, perturbando a natureza e seu modo de vida.

No entanto, ao longo do processo que durou anos para obter uma licença para perfuração exploratória, a Petrobras, empresa petrolífera estatal, argumentou que a atividade não teria impacto direto sobre os povos indígenas.

Essas comunidades têm solicitado repetidamente uma consulta adequada sobre a exploração de petróleo na Amazônia, em consonância com os acordos internacionais que o Brasil apoia. De maneira mais ampla, o país, sob o governo do presidente Lula, comprometeu-se com a participação significativa dos povos indígenas nas negociações climáticas e nas políticas públicas.

No entanto, a realidade, nas palavras de Luene, apresenta “uma flagrante contradição”. Analisamos centenas de documentos, atas de reuniões e trocas de mensagens entre o órgão ambiental brasileiro e empresas petrolíferas, incluindo a Petrobras. Descobrimos que repetidos alertas sobre os efeitos da prospecção sobre os povos indígenas foram ignorados e que essas comunidades não foram devidamente consultadas.

Anos de avisos

Durante décadas, as grandes empresas petrolíferas têm cobiçado esta parte da Bacia Amazônica. Ela abriga milhares de espécies da vida selvagem, muitas das quais seriam vulneráveis ​​a um derramamento de petróleo – incluindo a tartaruga-de-couro, a baleia-azul e o peixe-boi-das-antilhas.

A BP solicitou pela primeira vez autorização para licenciar uma parte do leito marinho offshore (conhecida como Bloco 59) em 2014, após vencer leilões em consórcio com a Petrobras no ano anterior. Apesar da presença de territórios indígenas próximos à costa e de outros conectados ao mar por vias navegáveis, o pedido inicial da BP não mencionava os povos indígenas.

A empresa então submeteu estudos ambientais ao Ibama, o órgão regulador ambiental brasileiro. O Ibama identificou diversos problemas, incluindo a falta de dados ambientais de referência, programas de monitoramento e planos de manejo para as aves e mamíferos da área.

Desde então, ocorreram algumas reuniões públicas, mas os representantes indígenas constituíram apenas uma pequena porcentagem dos participantes. Em 2016, a BP se reuniu com líderes indígenas em Oiapoque. A empresa observou as preocupações das comunidades sobre derramamentos de petróleo e combustível, a necessidade de consultas que respeitassem os protocolos indígenas e o potencial aumento de voos que perturbariam a vida selvagem. A BP não comentou para esta reportagem, informando que não possui participação no Bloco 59 desde 2020.

Costa Oiapoque no estado do Amapá, BrasilNelson Almeida / AFP

A tartaruga-de-couro é uma das muitas espécies ameaçadas por derramamentos de petróleo nas proximidades.Philippe Giraud / Corbis via Getty

Quando a Petrobras assumiu o controle total do Bloco 59, a empresa ainda precisava de uma licença ambiental do Ibama para perfuração exploratória – e, para isso, agendou novas audiências públicas. Mas o trabalho na plataforma continuou.

Em uma reunião com a Petrobras no início de 2023, líderes indígenas expressaram novamente preocupação com os helicópteros que sobrevoavam seus territórios. Na ocasião, a Petrobras alegou que havia uma média de apenas dois voos diários sobre suas terras.

Mas o número real foi quase quatro vezes maior. Novos dados de voo que obtivemos mostram que o número de helicópteros da Petrobras sobrevoando os territórios até as plataformas marítimas aumentou de 130 em 2022 para quase 3.000 em 2023. No ano passado, esse número subiu novamente, para mais de 4.000. A Petrobras não respondeu às nossas perguntas para esta reportagem.

Segundo o chefe Edmilson, coordenador do Conselho de Chefes Indígenas da região de Oiapoque, o barulho dos helicópteros espantou os animais. Ele afirmou que os moradores relataram o desaparecimento repentino de um grande número de pássaros. Os peixes nos rios também se tornaram mais escassos, afetando o abastecimento de alimentos. “Este projeto nos tirou a paz”, disse ele.

Perfuração exploratória em um poço que faz parte do projeto Bloco 59.Petrobras

Consulta inadequada

Enquanto a Petrobras prosseguia com o processo de obtenção da licença de perfuração, a atenção dos moradores se voltou para a Convenção 169 da OIT, um tratado internacional vinculativo assinado pelo Brasil. Em audiências públicas realizadas em 2022 e 2023, eles exigiram saber se os povos indígenas seriam consultados, em conformidade com as obrigações da convenção. A convenção exige consultas livres, prévias e informadas aos povos indígenas, com o objetivo de obter seu consentimento para projetos que os afetem.

Luene é uma das muitas líderes indígenas em Oiapoque. Ela trabalhou com outros povos dos povos Karipuna, Palikur, Galibi-Marworno e Galibi Kali’na para criar um protocolo de consulta. Este protocolo dá menos ênfase a reuniões com um ou dois líderes e, em vez disso, incentiva processos coletivos e culturalmente apropriados, nos quais informações claras e oportunas são compartilhadas. O processo também deve proporcionar tempo e espaço suficientes para deliberação dentro dos territórios.

Luene afirmou que isso não aconteceu. Ela disse que existe confusão entre audiências públicas, às quais qualquer pessoa pode comparecer, e reuniões específicas para, digamos, universidades ou povos indígenas. O formato público, disse Luene, “não funciona para os povos indígenas”.

No ano passado, Luene foi uma das 100 pessoas indígenas que entrevistamos antes das negociações climáticas globais no Brasil. Ela nos contou como a exploração de petróleo está transformando sua comunidade de maneira drástica e que os custos de contestá-la são altos. “Quando começamos a nos posicionar e exigir consulta”, disse ela, “começamos a receber inúmeras ameaças”.

Nos três anos desde que começou a se manifestar, Luene disse que houve várias tentativas de silenciá-la, incluindo um arrombamento em sua casa e ameaças online. Agora, ela muda de endereço regularmente na tentativa de proteger a si mesma e à sua família.

Licença para perfuração

Em 2023, o Ibama negou à Petrobras uma licença de perfuração. Um documento oficial citou a alta sensibilidade ambiental do litoral amazônico, o risco de derramamentos de petróleo e as limitações no plano de resposta a emergências da empresa. O documento também observou que o estudo ambiental da Petrobras não havia avaliado adequadamente os impactos dos voos. (A empresa contestou a decisão, alegando ter resolvido a questão com um líder indígena. No entanto, descobriu-se que o representante era do governo local e não representava a comunidade.)

O advogado ambientalista Rodrigo Leitão disse que, quando começou a trabalhar com organizações indígenas em Oiapoque, em 2024, elas tinham recebido pouca ou nenhuma informação concreta sobre os planos de exploração de petróleo da Petrobras. “Ninguém tinha falado com eles ainda”, lembra.

Segundo Leitão, as reuniões realizadas nos anos anteriores não abordaram a questão central da consulta nem os potenciais impactos da exploração. Em vez disso, afirmou, as discussões se concentraram em projetos que a Petrobras alegava beneficiar a comunidade. Tanto o Estado quanto a Petrobras deixaram de cumprir uma obrigação fundamental para com os povos indígenas, disse ele: “Eles não reconhecem o direito à consulta livre, prévia e informada, de boa-fé”.

Uma decisão recente do Tribunal Federal do Amapá determinou que não havia obrigação legal de realizar consulta na fase de prospecção do licenciamento, uma vez que não havia impacto direto e imediato sobre comunidades indígenas ou tradicionais. A decisão, em resposta a uma ação civil movida contra o Ibama e a Petrobras pelo Ministério Público Federal, também afirmou que, embora não tenha havido consulta formal aos povos indígenas, o processo de licenciamento ambiental ofereceu diversas oportunidades de participação.

A Petrobras, empresa petrolífera estatal brasileira, afirmou que seu projeto em alto-mar não afetaria comunidades indígenas.Vanderlei Almeida/AFP via Getty Images

No início do ano passado, o Ibama continuava negando a licença à Petrobras. A questão do aumento dos voos sobre os territórios permanecia sem solução. Os planos de proteção da fauna, embora aprimorados pela Petrobras, continuavam em discussão. Contudo, em maio passado, algo mudou: o órgão regulador ordenou que o processo prosseguisse.

Seis meses depois, em 20 de outubro, o Ibama emitiu uma licença de operação para perfuração exploratória. A Petrobras iniciou a perfuração no mesmo dia.

Ibama informou que a avaliação de impacto ambiental da atividade de perfuração offshore no Bloco 59 foi aprovada dentro dos parâmetros técnicos e legais estabelecidos.

Ibama acrescentou que a licença só foi concedida após a apresentação de um plano de emergência atualizado com um “aumento nos cuidados com a vida selvagem”, e uma avaliação realizada em agosto de 2025 mostrou que isso era viável.

Suely Araújo, ex-presidente do Ibama, nos disse que esse processo expôs mais uma vez deficiências críticas nos procedimentos de consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

Embora a Petrobras tenha cumprido uma série de exigências do Ibama – incluindo a apresentação de estudos e a participação em audiências públicas –, essas formalidades não contemplaram as implicações mais amplas do projeto, afirmou Araújo. Ela agora trabalha para o Observatório do Clima, uma rede de ONGs que está movendo uma ação judicial buscando a paralisação imediata de todas as perfurações. Essa é uma das três ações que contestam o licenciamento da exploração de petróleo na região e alegam consultas inadequadas. O Ibama informou que está ciente das ações e que respondeu prontamente a cada uma delas.

O tratado internacional que o Brasil assinou “tem força de lei”, disse Araújo. “Não é uma questão de escolha.”

E agora?

Duas das três ações judiciais que visam impedir a perfuração estão em andamento e iremos monitorá-las. A ação movida pelo Ministério Público Federal, que foi rejeitada, poderá ser objeto de recurso.

O relator especial da ONU para os Povos Indígenas está elaborando um relatório sobre a consulta e o consentimento livre, prévio e informado dos povos indígenas em projetos como a exploração de petróleo, que afetam suas terras. Ele apresentará o relatório na Assembleia Geral da ONU em setembro. Já contribuímos com evidências como parte desse processo.

Imagem de cabeçalho: Luene Karipuna, líder do povo Karipuna

Repórteres: Flávia Milhorance e Grace Murray.
Editor de Meio Ambiente: Rob Soutar.
Editora Adjunta: Chrissie Giles.
Editor: Franz Wild.
Editor de Produção: Alex Hess.
Verificador de Fatos: Ero Partsakoulaki.

O Bureau conta com diversos financiadores, cuja lista completa pode ser encontrada aqui. Nenhum dos nossos financiadores exerce qualquer influência sobre as decisões editoriais ou o conteúdo produzido.


Fonte:  TBIJ

Greenpeace pede paralisação de perfurações após vazamento na Foz do Amazonas

A Petrobras descobriu um vazamento na bacia amazônica e interrompeu as perfurações. O Greenpeace e as comunidades locais alertaram para a poluição e exigem a paralisação imediata das atividades

Os recifes de coral mesofóticos estão localizados em zonas mais profundas do oceano e requerem menos luz. Um desses recifes está ameaçado pela extração de petróleo da Petrobras. Fonte:Greenpeace / Alexis Rosenfeld / Olivier Bianchimani

Por Ulrike Bickel para Amerika21

No início de 2026, aproximadamente 15 mil litros de fluido de perfuração vazaram de um poço pertencente à Petrobras, empresa petrolífera brasileira, próximo à bacia Amazônica . Segundo a empresa, o vazamento foi descoberto em 4 de janeiro de 2026, a cerca de 175 Km da costa do Amapá, a uma profundidade de aproximadamente 2.700 metros.

A área costeira afetada é conhecida por seu ecossistema quase intocado, ainda considerado em grande parte inexplorado e que abriga o Grande Recife da Amazônia. Este vasto sistema recifal, descoberto apenas em 2016 na costa atlântica do norte do Brasil, abriga recifes de coral mesofóticos, caracterizados pela presença de corais e algas dependentes da luz, bem como organismos encontrados em águas com baixa transmissão luminosa.

A Petrobras anunciou a suspensão das operações de perfuração para reparos após a detecção de um vazamento de fluido em duas linhas auxiliares que conectam uma plataforma de perfuração ao poço Morpho. Segundo a estatal, o vazamento foi imediatamente estancado e contido. A Petrobras informou que o fluido era uma mistura de sólidos, líquidos e produtos químicos “não perigosos”.

O IBAMA afirmou ter sido informado do incidente e que não houve vazamento de petróleo. Mesmo assim, o IBAMA, que concedeu a licença somente em outubro de 2025 após anos de disputas, intensificou o monitoramento. As consequências para a Petrobras incluem o atraso na campanha de perfuração de cinco meses, revisões regulatórias adicionais e o adiamento do desenvolvimento da área da Margem Equatorial, de importância estratégica, visto que o projeto na Amazônia é considerado pelo governo brasileiro um componente fundamental para a era pós-esgotamento de outras reservas de petróleo que em breve se esgotarão.

Segundo o Greenpeace, o último vazamento está diretamente ligado aos riscos ambientais que já haviam sido apontados durante o processo de licenciamento. O acidente não é um incidente isolado, mas um sinal de alerta, já advertido em 2025 por uma delegação do Greenpeace Brasil, ONGs locais, quilombolas, movimentos indígenas e comunidades pesqueiras em uma ação judicial movida na Justiça Federal contra o IBAMA, a Petrobras e o Estado brasileiro . A organização ambiental exige agora a paralisação imediata das atividades e a cassação da licença de operação da Petrobras para a exploração desse campo de petróleo.

Em meados de junho de 2025, o governo brasileiro leiloou um total de 34 dos 172 blocos de produção de petróleo e gás em um processo de licitação controverso , incluindo blocos no estuário da Foz do Amazonas. Essa área é classificada como ecologicamente muito vulnerável por autoridades ambientais, promotores públicos e organizações indígenas (a Amerika21 noticiou o fato antes e depois do leilão ).

No ano passado, o Greenpeace Brasil, juntamente com as organizações parceiras Arayara, WWF, ClimaInfo e Instituto Iepé, realizou oficinas sobre os possíveis impactos da produção de petróleo em Foz do Amazonas nas comunidades ribeirinhas e quilombolas de Amapá, Oiapoque, Cunani e Calçoene, cujo modo de vida e existência estão ameaçados.

Um vazamento de petróleo perto da bacia amazônica poderia ter efeitos devastadores no ecossistema da região e nas comunidades locais cuja subsistência depende de um oceano saudável. Informações sobre o vazamento foram incluídas em um processo judicial no qual os demandantes enfatizaram “a urgência de uma ação judicial federal imediata para suspender a licença de operação”.

Vazamentos durante a extração em águas profundas ocorrem repetidamente no Brasil. Segundo um advogado do Greenpeace Brasil, entre 1975 e 2014, um total de 95,2% dos acidentes registrados foram atribuídos a essas atividades. As consequências e os riscos são óbvios e, portanto, segundo os autores da ação, uma ordem judicial para suspender essas atividades é necessária com base nos princípios da prevenção e da precaução.

Segundo os demandantes, a extração de petróleo na Amazônia representa um risco “real, previsível e evitável”. No entanto, a perfuração continua apesar da falta de avaliações de impacto ambiental adequadas, da ausência de consulta às comunidades afetadas e da inexistência de qualquer avaliação de impacto climático. Já passou da hora de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e promover uma transição justa que priorize as pessoas, sua dignidade e um futuro livre de combustíveis fósseis.


Fonte: Amerika21

A cobiça pelo petróleo venezuelano como fachada para os objetivos de retomada de hegemonia

Donald Trump está em busca da hegemonia perdida

Agora que ficou abertamente explícito que a retirada de Nicolás Maduro tem tudo a ver com o acesso às riqueza petrolífera venezuelana e nada com o que estabelecimento de uma dessas democracias de fachada que abundam no mundo, há quem corretamente esteja se preocupando com o que aconteceria com a crise climática se todo potencial de emissões de CO2 associado à exploração das vastas reservas ali existentes. 

Em sua página do Facebook, o professor do Departamento de Geografia da UFRJ Cláudio Egler apontou que “a queima integral das reservas provadas de petróleo da Venezuela — da ordem de 130 a 150 GtCO₂e — teria um impacto extremamente significativo no clima global, pois corresponderia sozinha a quase quatro anos das atuais emissões globais de CO₂ ou a uma fração substancial do orçamento de carbono restante compatível com as metas de 1,5°C ou mesmo 2°C estabelecidas pela IPCC“.  Egler acrescentou que “em termos físicos, a liberação dessa magnitude adicional de gases de efeito estufa intensificaria o forçamento radiativo global, acelerando o aquecimento médio do planeta, ampliando a frequência e a intensidade de eventos extremos (ondas de calor, secas e chuvas intensas) e agravando processos de longo prazo como a elevação do nível do mar e a acidificação dos oceanos“.

Embora legítimas e cientificamente ancoradas, eu diria que um dos problemas que Donald Trump, um negacionista climático convicto, teria se refere ao algo muito básico no capitalismo: a relação entre oferta e demanda.  A questão é que embora o consumo de combustíveis fósseis seja ainda o principal componente da matriz energética global, há uma tendência crescente de substituição por outras fontes, o que no tempo serviria para diminuir a pressão por demanda, inclusive naquelas áreas em que a exploração está se dando dentro de seus maiores potenciais.

Além disso, há que se levar em conta os interesses de outros países produtores de petróleo, visto que uma ampliação rápida da exploração do petróleo venezuelano colaboraria para uma queda no preço do barril, o que geraria uma espécie de efeito dominó nas economias que dependem dessa fonte de renda. Associado a isso ainda há a questão de que as próprias petroleiras estadunidenses tem seus interesses econômicos espalhados por todos os países produtores, e uma ênfase na exploração na Venezuela geraria desequilíbrios econômicos e principalmente políticos que iriam se chocar contra os interesses das petroleiras.  Talvez por isso a reação inicial ao anúncio de Donald Trump no sentido de que as petroleiras estadunidenses vão se ocupar diretamente do processo de saque das reservas venezuelanas tenha sido tão silenciosa.

Outro aspecto relacionado à oferta se refere ao lado da demanda. O principal comprador de petróleo atualmente é a China que mantém laços econômicos diretos com a Venezuela. Se de fato o cenário desenhado por Donald Trump viesse a se confirmar seria muito mais fácil e prático para a China investir na melhoria da capacidade de produção da Rússia e de países asiáticos.

Mas ainda há que se levar em conta a especificidade das reservas petrolíferas venezuelanas. O fato é que o petróleo venezuelano é majoritariamente pesado a extrapesado e frequentemente ácido, com alto teor de enxofre, características que o diferenciam do petróleo leve e doce produzido em países como os Estados Unidos. Concentrado sobretudo na Faixa Petrolífera do Orinoco, esse tipo de óleo apresenta alta densidade e viscosidade, o que dificulta sua extração, transporte e refino, exigindo processos mais caros e refinarias com tecnologia especializada. Além disso, seu refino gera maior proporção de derivados de menor valor agregado, como asfalto, e menor volume de combustíveis mais lucrativos, como gasolina e diesel. A necessidade de infraestrutura específica também limita o número de compradores, fazendo com que, historicamente, o petróleo venezuelano seja negociado a preços mais baixos no mercado internacional em comparação aos petróleos leves.

Em síntese, embora a disputa em torno da Venezuela seja apresentada sob o discurso da democracia, ela está profundamente ligada ao controle de suas vastas reservas de petróleo, cujo aproveitamento integral teria impactos climáticos severos e incompatíveis com as metas globais de redução de emissões. Ainda assim, fatores econômicos e geopolíticos relativizam a viabilidade de uma exploração acelerada: a tendência de redução da demanda por combustíveis fósseis, os interesses de outros países produtores preocupados com a queda do preço do barril, a atuação global das grandes petroleiras e o papel central da China como principal compradora limitam esse movimento. Soma-se a isso a própria especificidade do petróleo venezuelano — pesado, ácido e de difícil refino — que encarece sua exploração e reduz sua atratividade comercial, ajudando a explicar tanto o silêncio inicial do mercado quanto os obstáculos práticos a uma corrida imediata por essas reservas.

Moral da história: o lobo mau que já sabe que seus pulmões enfraqueceram e as garras já não são mais lá essas coisas (isto é, os EUA) pode estar soprando a casa dos três porquinhos (no caso a Venezuela) apenas para causar susto, pois sabe que não vai derrubar nada, e o negócio está mais para conseguir submissão sem muito esforço do que qualquer outra coisa.

Julius Trump Caesar: o Império atravessou o Rubicão, enquanto Lula tremeu

Donald Trump, em seu momento Julius Cesar

Por Douglas Barreto da Mata 

O que se pode depreender da nota divulgada pelo governo do Brasil sobre o ataque dos EUA à Venezuela? Cautela ou medo?  Medo. Na minha opinião, medo.  Vamos contornar as imbecilidades da mídia oficial, redes sociais e da direita brasileira.

Ditadores do mundo? Os EUA os colecionam e cevam a todos, desde muito tempo. Será que a Rede Globo pediria a invasão do nosso país pelos EUA de Jimmy Carter, eis que tínhamos um governo ilegítimo (termo usado para adjetivar maduro)? Acho pouco provável.  E uma invasão da Arábia Saudita dos maiores financiadores dos terroristas sunitas wahabistas, a monarquia teocrática e violenta? 

Pois é.  Narcotráfico?  Uai, então Donald Trump teria que fechar a CIA, a maior criadora de redes de narcotráfico do mundo, todas destinadas ao financiamento das máquinas de sabotagem geopolítica dos EUA. 

Então, vamos parar com essa baboseira e vamos ao que interessa. Petróleo.  Donald Trump quer petróleo.  A movimentação da China, e da sua afiliada Rússia, mostra que o insumo vai encarecer para os EUA.  A Venezuela é uma das últimas fronteiras nesse quesito. Talvez sejamos a próxima.

Por isso, Lula tremeu de medo. Não temos Forças Armadas, nem artefatos nucleares para dissuasão ou contenção.  Não adianta tentar “trocar” de dono e pedir pela ajuda chinesa, não vai adiantar, ao menos, por enquanto.  Por isso Lula se enche de medo.

A questão não é só de superioridade militar, óbvio, e a ação em solo venezuelano mostra isso.  Donald Trump não banca uma ocupação, não como primeira opção, porque a parcela de população hostil é muito grande, e isso refresca a memória estadunidense com os fracassos vietnamita, afegão e iraquiano.

Por isso Lula treme de medo. Com um governo bem mais próximo da direita, com um cacoete permanente para a submissão aos EUA (e qualquer outro com poder parecido), Lula imagina que não será sequestrado como Maduro, mas entregue pelo próprio povo brasileiro. 

Não é um delírio.  Assim, Lula mandou digitar sua manifestação oficial com muito cuidado, quase que pedindo desculpas por falar. De nada adiantará. 

O Império saiu às compras, e quem pagará a conta somos nós.